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"90 minutos em Entebbe", por William Stevenson


Há meio século, a União Soviética e o mundo árabe comemoravam a ousada ação terrorista que sequestrou o vôo 139 da Air France. Mais um - em uma época recheada de sequestros aéreos. Havia, fácil, mais de um por mês. A autoria desta ação foi reclamada pela Frente Popular para a Libertação da Palestina e pelas Células Revolucionárias (Revolutionäre Zellen) da Alemanha.

Apenas para citar alguns números: entre 1961 e 1972, 159 aviões tinham sido sequestrados nos Estados Unidos. No Brasil, no período de três anos, de 1969 a 1972, quinze aviões foram sequestrados. Um único Boeing 707, da brasileira Varig, foi sequestrado três vezes em seis meses.

As vítimas se contavam aos milhares. O Boeing 737 sequestrado pelo Exército Vermelho Japonês caiu em Singapura, com mais de cem vítimas fatais. A Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) explodiu uma bomba no vôo da Swiss Air em 1970, matando 47 pessoas.

Ou seja, não havia dúvida sobre o grau de periculosidade dos sequestradores.

Entre os 248 passageiros do vôo sequestrado, o AF139, havia 106 cidadãos israelenses. O vôo partira de Tel Aviv rumo a Paris no dia 27 de junho de 1976. Os sequestradores aproveitaram para embarcar durante a escala em Atenas, com um estoque graúdo de pistolas e granadas a tiracolo.

Mesmo sendo os sequestradores bandidos internacionalmente fichados, o embarque foi tranquilo.

Sei como é lá. Eu estive no aeroporto de Atenas vinte anos depois, em 1995, e o lugar parecia uma rodoviária do interior. Segurança zero. A esteira para retirada das malas era já na beira da rua, com absolutamente ninguém do aeroporto para fiscalizar. Uma verdadeira zona.

Já no ar, os terroristas se apresentaram à tripulação (com os gritos e as ameaças de praxe, todo mundo quieto, vou explodir isso aqui etc) e o avião foi desviado para Benghazi, na Líbia, onde reabasteceu. Dali seguiram viagem para o aeroporto de Entebbe, na Uganda. Seu destino final. 

O sequestro ganhou as manchetes do planeta. A exigência anunciada foi a libertação de 53 terroristas presos em Israel (40) e na Alemanha, França, Suíça e Quênia (os demais treze). O prazo dado foi o do dia 1o de julho. Caso contrário, explodiriam o avião, com os passageiros dentro.

Festa no deserto.

A moçada favorável à ação terrorista estava certa em comemorar. A situação era muito complicada para ser revertida. Uganda, no coração da África, era praticamente inacessível. Era governada por um ditador, com estreitos vínculos políticos com os árabes e, particularmente, os palestinos. Seu exército havia dizimado a oposição e matado dezenas de milhares de civis. 

O prazo dado era exíguo e, face à logística, o cativeiro parecia inexpugnável.

Em êxtase com a visibilidade global alcançada, o auto-intitulado Marechal de Campo Doutor Presidente Idi Amin Dada, Presidente perpétuo da República de Uganda, desfilava entre os presos. Ainda que coiteiro dos terroristas, pretendia ser exaltado como o "mediador".

Vaidoso, no dia 2 de julho viajou para Maurício, para "abrir a 13a sessão da Assembleia dos Chefes de Estado da Organização da Unidade Africana" e desfrutar do boost na sua popularidade. Como disse o ministro do Exterior de Uganda, Juma Abdullah, o "Presidente Amin aproveitou a oportunidade para explicar aos seus colegas todos os esforços que fizera para a liberação dos reféns".

Amin, que nas aparições se dizia candidato a salvar os judeus dos terroristas, era um declarado admirador de Adolf Hitler, o ex-cabo austríaco que promoveu a morte de 60 milhões de pessoas (e que, quando viu a si mesmo em perigo, entrou em pânico e se suicidou dentro de um bunker).

Stevenson cita um discurso na ONU em que Amin "aplaudiu publicamente o assassinato dos atletas israelenses e exigiu a extinção do estado de Israel". O presidente de Uganda "não apenas louvou Hitler pelo massacre de seis milhões de judeus como ainda propôs que lhe fosse erguido um monumento".

O ódio de Amin a Israel talvez possa ser explicado de forma mais prática. Uganda havia se beneficiado da política externa israelense nos anos 70, marcada pelo suporte humanitário e tecnológico às nações africanas. Israel desenvolveu a aviação aérea do país e fez o treinamento dos seus pilotos. 

Amin, que tinha pretensões maiores na África, queria mais, e pleiteou aviões de caça supersônicos (negados por Israel). Em seguida, disse que mandaria um ugandense à Lua e se indispôs com a Tanganica. Resolveu bombardeá-la, contando com o apoio israelense - que, obviamente, tirou o corpo fora dessa roubada, e pôs fim à lua-de-mel diplomática com o ditador maluco. 

Enfurecido, Amin se voltou para a União Soviética, que ficou bem satisfeita em fornecer seus Migs. A partir daí, o Marechal de Campo Doutor Presidente Idi Amin transformou-se em um entusiasta da causa palestina. "Mais de trezentos palestinos foram nomeados para cargos públicos antes ocupados por asiáticos", diz o jornalista.

Uganda, então, virou um enorme campo de treinamento para o terrorismo profissional. O desvio do AF136 para Entebbe era o corolário de um grande esforço para estar no centro dos acontecimentos. Idi Amin estava radiante.

(Apenas para ilustrar: nos anos 70, o exótico ditador da Uganda se tornara tão mundialmente midiático que, quando uma avalanche de milhões de pequenos besouros tomou conta do Rio de Janeiro, eles foram batizados aqui de "Idi amin". Duvida? Pergunte à IA.)

Com tudo isso dito, fica claro o êxito potencial da ação. O avião e os reféns estavam guardados pelo exército de Uganda, que ocupava o aeroporto por dentro e por fora. Após o pouso, os quatro terroristas que sequestraram o avião foram rebaixados a meros vigias. Uma equipe de alto escalão do terror, formada por árabes e palestinos, chegara para negociar e exercer o comando.

Foi feita uma seleção de passageiros, como nos tempos do nazismo. Judeus para um lado, não-judeus para o outro. Os não-judeus foram mandados de volta para casa, como um pretenso gesto de boa vontade de Amin, que dizia ter sido uma conquista dele perante os sequestradores.

Entretanto, os sequestrados não-judeus libertados foram essenciais na descrição 1) do local, 2) do posicionamento dos guardas e estado emocional dos terroristas e 3) da mise-en-scéne do "marechal".

Os sequestradores postergaram a deadline para o dia 3 de julho, domingo, às 11h da manhã. Ou os 53 terroristas que estavam na cadeia seriam libertados ou então os judeus sequestrados seriam executados. A ameaça era começar pelas crianças, uma a uma, até que as exigências fossem atendidas. Não era da boca para fora. Matar era com os caras mesmo.

Assim, estavam a um passo de uma vitória grandiosa. Para os terroristas, era por de joelhos o Estado sionista e dar liberdade aos seus chefes e companheiros. Para Idi Amin Dada, era o estrelato global.

Àquela altura, já havia uma semana que os judeus estavam confinados em um galpão no aeroporto, dormindo no chão, alimentados com carne estragada, sem água e sofrendo com latrinas entupidas. Diariamente, Amin cumpria o ritual de ir lá e responsabilizá-los pela própria situação, dizendo que era o país deles, Israel, que os prendia ali, ao não aceitar as exigências dos sequestradores.

Hipocritamente, se dizia protetor dos reféns, quando era, na verdade, carcereiro.

A diplomacia de Israel, por sua vez, estava em contato diário com o presidente de Uganda, em telefonemas sucessivos, pedindo para que ele não acoitasse os terroristas. Amin se fazia de sonso e se dizia solidário, mas impotente para persuadi-los. Israel teria que pagar o resgate.

Uma situação dramática. Libertar os 53 terroristas pedidos seria uma derrota e uma rendição. Tentar libertar os reféns seria uma ação de alto risco e poderia acabar em tragédia. Enquanto os políticos tentavam chegar a um acordo - sem um fiapo de luz no fim do túnel -, as equipes especiais do exército israelense, após três dias de treinamento exaustivo, já estavam na ponta dos cascos. 

Correndo contra o relógio, quatro quadrimotores israelenses, carregando algumas dezenas de soldados e um Mercedes Benz recém-pintado, alçaram vôo rumo à Entebbe na noite do dia 3 de julho de 1976. Poderiam ser chamados de volta a qualquer tempo; ou receberem no ar o OK para a missão.

As chances de terem êxito eram pequenas; mas a possibilidade de sucesso valia o risco.

Parafraseando a Wikipedia, esta que passou para a história como Operação Entebbe "é considerada por muitos especialistas como a missão de resgate mais complexa e perfeita de todos os tempos".

Confesso que eu já tinha escutado dezenas de vezes referências a esse sequestro. Volta e meia o tal "resgate em Entebbe" aparecia no meu radar. Mas jamais parara para ler a estória. Na verdade, o Oriente Médio nunca foi minha zona de interesse. Até um certo dia, dois anos e meio atrás.

O inominável 7 de outubro de 2023 fisgou minha atenção para o conflito entre israelenses e palestinos. Nunca me ative muito a um problema que eu, erradamente, julgava periférico. O ataque subumano do Hamas, porém, pareceu coisa de neandertais e eu quis entender melhor a questão.

Desde então, li, talvez, uma dúzia de livros sobre a região. Alguns deles já comentei aqui; pretendo comentar outros, mais à frente. Para diminuir minha ignorância, fucei quais autores eram mais respeitados. Tentei evitar os engajados e os panfletários. Acho que deu certo. Gostei do que li.

O rolo no Oriente Médio é um saco de gatos. É melhor delimitar uma linha do tempo e pular fora das abordagens maniqueístas. Mesmo com todo esse cuidado, é difícil entender esse pega-pra-capar.

Sob um prisma mais restrito, tudo começa a partir da resolução da ONU que estabelece a divisão do antigo Mandato Britânico da Palestina entre árabes e judeus, em 1948. A recusa árabe em aceitar a divisão desemboca na guerra aberta contra os 700 mil judeus nascidos e residentes na região.

A resistência dos judeus, apesar da sua precariedade militar, leva a um desfecho imprevisto - a vitória dos locais e à declaração do Estado de Israel. O evento é conhecido pelos vitoriosos como "Guerra da Independência" - e pelos derrotados como a "Grande Nakba". A grande catástrofe. 

A partir daí houve a guerra dos israelenses contra os egípcios, em 1956, a Guerra dos Seis Dias, em 1967 (dos israelenses contra os egípcios, sírios, libaneses, jordanianos e iraquianos), e a Guerra do Yom Kippur (assim chamada por terem os egípcios deflagrado a guerra no feriado sagrado anual dos judeus, o "Dia do Perdão"), em 1973.

A guerra no sul do Líbano, em 1978, também denominada Operação Litani, teve início após o atentado terrorista palestino conhecido como "Massacre da Estrada Costeira", que sequestrou e matou 38 civis israelenses, incluindo 13 crianças.

É a partir daí que a desproporção de forças entre Israel e seus vizinhos se torna evidente. Israel deixa de ser um pobre-coitado, sempre sob ameaça de linchamento pelos árabes ao redor, e passa a bully.

A ofensiva israelense visava estabelecer uma linha de proteção entre Israel e as forças terroristas da OLP (Organização pela Libertação da Palestina), que se valiam do Líbano para lançar ataques terrestres e de mísseis contra o território israelense. Após empurrarem os terroristas para trás do rio Litani, um acordo de paz foi celebrado entre Israel e a OLP. 

O conflito, entretanto, não ficou suficientemente bem resolvido (como não ficara nos trinta anos anteriores e também jamais ficaria, como temos acompanhado no meio século seguinte). Em 1982, Israel novamente invadiu o Líbano, para combater os terroristas palestinos. O país enfrentava o caos e a guerra civil.

Após diversas guerras, a década de 70 e o início dos anos 80 remodelaram o conflito árabe-israelense. Se o bully, Israel, conquistou supremacia militar, o acossado, o palestino, contava com o efeito surpresa em ataques surgidos do nada, no meio das cidades israelenses.

O novo front era protagonizado por terroristas armados, à paisana, contra civis desarmados (incluindo mulheres, velhos e crianças) e alheios à proximidade do perigo. O embate soldado a soldado ficara no passado. Na nova contabilidade do terrorismo, o que valia era a quantidade de defuntos.

Foi espremido entre esse monte de eventos, entre a Guerra do Yom Kippur, em 1973, e a Operação Litani, em 1978, que ocorreu o sequestro do vôo 139 da Air France.

Quando o assunto foi mais uma vez mencionado em um dos livros que lia, encasquetei - como é que Israel conseguiu resgatar os sequestrados no meio da noite, trancafiados em um galpão no coração da África, cercados por fanáticos sanguinários, perdendo apenas um soldado e quatro reféns?

Foi aí que fui buscar na internet livros que me contassem essa estória. Optei por "90 minutos em Entebbe" pelo ano da publicação. Só achei no sebo. Foi publicado em 1976, no próprio ano do sequestro. O autor era um reputado jornalista britânico-canadense, que lançou o livro semanas após o evento, certamente visando faturar enquanto o assunto ainda estava quente nos jornais.

Isso trouxe algumas desvantagens na concepção do livro, que parece uma colagem feita às pressas de uma série de depoimentos e versões. Parece, não; é. O autor vai e vem na estória, mistura diários, matérias de jornal, relatos diplomáticos e o próprio conhecimento. O livro é uma colcha de retalhos. 

Essa "colagem" poderia dar certo, se fosse mais bem organizada. Não foi. O jornalista tinha nome, background, e os relatos eram verdadeiros. Bastava. Tinha ainda as transcrições dos debates da semana seguinte na ONU e a transcrição integral de três telefonemas entre o coronel Baruch Bar-Lev e o presidente Idi Amin. O editor juntou tudo e mandou para o prelo. 

O fato é que, ainda que Stevenson tenha tido livre acesso a interlocutores de peso, o resultado ficou longe do ideal. Jogaram para o leitor a responsabilidade de fazer seu próprio rearranjo mental dos fatos narrados.

Funciona, mas não é o que se espera de um (bom) livro-reportagem.

É verdade, admitamos, que qualquer coisa produzida no calor dos acontecimentos terá sempre suas lacunas. E que o texto mais bem pesquisado (e melhor burilado) da atual indústria editorial está léguas à frente do que se fazia, nesse mercado, nos anos 70.

Ou seja, deficiências à parte, a obra tem seu valor. Sendo contemporânea dos fatos que descreve, não está contaminada pela obtusa politização ideológica das décadas posteriores.

O frenesi mundial por aquela que foi batizada "Operation Thunderbolt" gerou uma vasta quantidade de filmes, entre produção de ficção e documentários. O "Victory at Entebbe", produzido em 1976 para a ABC TV, reunia no elenco Burt Lancaster, Elizabeth Taylor, Anthony Hopkins, Linda Blair, Richard Dreyfuss e Kirk Douglas - uma constelação dos mais populares e bem pagos astros da época.

"Raid on Entebbe", produzido em 1977 para o cinema, trazia Charles Bronson (a grande estrela dos anos 70), além de Peter Finch, James Woods e Martin Balsam, entre outros. 

Por conta do heroísmo, das dificuldades e do sucesso quase absoluto da operação, as telas continuaram recebendo uma série de produções, entre elas a mais recente "7 days in Entebbe", de 2018. O elenco é internacional e o diretor é brasileiro - José Padilha, famoso pelo seu "Tropa de elite".

Antes de ver os filmes, porém, quis ler a estória detalhada do que aconteceu. "90 minutos em Entebbe", do jornalista William Stevenson, me permitiu entender, ainda que precariamente, filigranas do que se passou. Não me satisfez (ainda), mas trouxe um conteúdo robusto.

Como não é ficção, não tem spoiler, né? então tô liberado pra contar o fim dessa estória.

Na noite de 3 de julho de 1976, os quadrimotores dos judeus pousaram no velho aeroporto. Da barriga dos cargueiros saíram uma Mercedes e vários Land Rovers, entulhados com os melhores atiradores do exército de Israel. Quando se aproximaram dos soldados que protegiam o galpão, passaram os caras no fogo antes de darem boa-noite.

Os sequestradores nem de longe sonhavam que aquilo pudesse acontecer. Ninguém, aliás. Foram surpreendidos com o tiroteio que acontecia em meio à escuridão. As tropas de Israel invadiram a velha sala de embarque sem dó, mandando bala em todo mundo que estava em pé.

Tiveram a presença de espírito de gritarem em hebraico para os reféns se jogarem no chão.

Os sequestradores não foram páreo os invasores. Depois de eliminar os terroristas, o comando deu ordem para que os reféns fossem para o avião. A contar entre o pouso e a decolagem do aeroporto de Entebbe, toda a ação tomou 55 minutos - um minuto a mais do que o previsto nos ensaios.

Enquanto isso, o marechal doutor presidente dormia o sono dos anjos. Foi acordado, porém, às duas da manhã, por mais um telefonema de Israel. Acordou irritado. Do outro lado da linha, o israelense Bar-Lev tranquilizou Idi Amin: "Liguei somente para agradecer sua cooperação, presidente". 

O corpulento ditador de Uganda (1,93m, 140 quilos), balbuciou, sem entender do que se tratava. "Com o que ele tinha cooperado?" perguntou. Pediu explicações, mas o judeu desligou. Essa iria ser uma desconsolada madrugada para Amin e seus besouros homônimos.

Os reféns foram recebidos com festa em Israel. O sucesso da operação Thunderbolt foi estampado em todas as manchetes do mundo ocidental. Já os árabes acusavam, indignados, a inaceitável violação da soberania ugandense, que teve seu território invadido, seus aviões destruídos e seus soldados mortos.

"A África não pode permitir que uma parte do seu solo seja usada pelos sionistas de Israel para atacar um país irmão", disse, uma semana após, o ministro do Exterior de Uganda, no plenário da ONU. "Israel mais uma vez demonstrou sua qualidade de banditismo e de barbarismo".

O ministro ugandense foi enfático ao condenar Israel por ter resgatado os israelenses sequestrados. Condenou "a agressão de Israel" como sendo "bárbara, não provocada e injustificada".

A Somália fez coro com a Uganda. Hussein, seu representante, insistiu para que "o Conselho condene em termos os mais fortes possíveis o regime sionista de Tel Aviv pelo incrível ato de agressão cometido contra o povo e a o governo da República de Uganda".

Os principais jornais do planeta acompanharam a evolução dos acontecimentos. Em 1o de julho, assim que parte dos reféns foi libertada, a Associated Press informou que "os reféns recentemente liberados pelos sequestradores de um avião da Air France disseram que, quando pousaram em Entebbe, já havia quatro árabes bem armados aguardando no aeroporto".

Le Monde ratificou o fato na edição de 5 de julho. Na pista do aeroporto "vieram ao seu encontro, logo depois do avião haver descido, quatro ou cinco palestinos com metralhadoras".

A edição do New York Times do mesmo dia publicou que "fontes oficiais e os passageiros liberados declararam hoje que tinham provas de que o Presidente Amin estava em conluio com os sequestradores do avião depois que ele desceu em Uganda". 

Complementa ainda o NYT que nas "primeiras 24 horas depois da chegada em Entebbe, os sequestradores foram embora para descansar e os soldados ficaram tomando conta dos reféns".

Também no mesmo dia o Washington Post publicou que "os 148 passageiros não judeus liberados disseram que viram Amin abraçar o chefe da quadrilha e que os quatro terroristas haviam saído deixando os reféns entregues à guarda de soldados durante 24 horas".

A transcrição dos debates na ONU toma quase quarenta páginas do livro de Stevenson. Nela, o nome da passageira Dora Bloch é mencionado dezenas de vezes. Dora foi a única refém não resgatada. Ela, uma senhora idosa, viajava com seu filho adulto, para ir ao casamento do seu outro filho. Passou mal no cativeiro e foi levada a um hospital. Não estava no aeroporto no momento da ação.

Chaim Herzog, representante de Israel, questionou o governo de Uganda sobre o seu paradeiro e sobre sua cumplicidade com os sequestradores:

"Por que não soltou Dora Bloch, uma senhora de 75 anos, logo depois dos terroristas terem sido eliminados? Por que ela foi retida em custódia no hospital sob a guarda de soldados em Kampala? Por que não a entregaram ao Cônsul da Inglaterra, quando ele a procurou no domingo, 4 de julho, depois da operação de resgate?"

"Por que, de repente, somos notificados que as autoridades de Uganda não sabem do seu paradeiro quando ela foi retirada resistindo e gritando por quatro funcionários do hospital?", questionou veementemente Herzog, escalando o tom.

"Aqui nós temos esse espetáculo incrível e macabro de um estado declarando guerra a uma senhora de 75 anos", acusou o representante israelense. "Um estado que encontra apoio presumível naqueles que se associam com esse comportamento desprezível e covarde".

O representante de Uganda rechaçou as acusações. "Ela foi devolvida para o prédio do aeroporto de Entebbe na noite de sábado, 3 de julho. Só Israel sabe responder onde está Dora Bloch".

O New York Times, porém, publicara em 9 de julho que "na Câmara dos Comuns da Inglaterra, ontem, um ministro do governo disse que Dora Bloch fora visitada no hospital por um membro da Alta Comissão no dia seguinte do ataque de Israel", o que desmentia a versão do ministro de Uganda.

"O diplomata informou que Dora Bloch estava sob as vistas de dois homens em trajes civis e quando voltou uma hora depois não lhe permitiram mais que a visse", prosseguiu o artigo do NYT. "Pessoas do Hospital Mulago informam que seus registros mostram a entrada de Dora Bloch na última sexta feira, mas nada dizem quanto ao seu tratamento ou alta do hospital".

À época, dias após a operação, havia a expectativa que Dora Bloch fosse libertada com vida - o que jamais aconteceu. Consultando hoje o Google, a informação oferecida é que "uma refém idosa, Dora Bloch, que tinha sido levada a um hospital em Uganda antes do resgate, foi assassinada por ordem de Idi Amin como retaliação após a operação israelense".

Durante os quatro dias de debates na ONU, o paradeiro de Dora Bloch permaneceu desconhecido.

O presidente da Somália, Jaalle Mohamed Siad Berre, telegrafou então a Idi Amin, chamando os israelenses de "terroristas". Disse ele ter acompanhado "com grande choque e assombro o sujo ato de agressão perpetrado por tropas dos sionistas de Israel, terroristas e imperialistas, em Entebbe". 

Chamou ainda a operação de resgate dos reféns de "bárbara" e um "arrogante insulto à dignidade da África e da humanidade". Fez questão de destacar que o resgate dos sequestrados "contraria todas as normas de comportamento e conduta internacionais".

O presidente somali intitulou Uganda como "amante da paz" e que o país não teria sido o primeiro "cuja integridade e soberania territorial foram violadas pelo arrogante regime racista de Israel".

Siad Berre invoca que "todos nós lembramos das ocasiões em que o mundo esteve à beira de uma guerra total devido ao descarado comportamento do regime sionista no Oriente Médio e ao seu completo desprezo pelo direito internacional". Atribui à Israel uma "sinistra mentalidade".

Posteriormente, a ação "sinistra" seria rebatizada de "Operação Yonni", em homenagem ao único soldado israelense morto na ação. Militar experiente e intelectual admirado, seu nome completo era Yehonatan Netanyahu. Seu irmão, Benjamin, vulgo "Bibi", se tornaria o Primeiro-Ministro de Israel.

Mas aí já é outra história.

Editora Difel, 223 páginas  |  4a edição, 1977  |  Copyright 1976  | Tradução  Luiz Corção




"Tremembé", por Ullisses Campbell


O autor hoje é figurinha carimbada na mídia. Presença recorrente em dezenas de podcasts que pululam no YouTube. Não à toa. É articulado, bem-apessoado, falante. Não se engane. Ullisses Campbell, com seus quatro "l", mescla fala macia com palavras duras.

Seus livros vendem aos borbotões. Tem até embalagem box, luxuosa, com o título "Mulheres assassinas" (Matsunaga, Flordelis e Richthofen, um trio matador), com 1.088 páginas. Na Amazon, a caixa está por R$ 142,00 (já com 45% de desconto) e a distribuidora entrega amanhã. 

No Prime Vídeo, Campbell faz sucesso com a série "Tremembé". Em uma produção caprichada, o elenco - selecionado buscando alta similaridade física com os condenados - oferece xaroposos dramas românticos ao telespectador. Homossexualismo a dar com o pau e carradas de ciúme.

O livro homônimo traz a essência do escritor. À Talese, coloca o leitor dentro da cena, oferecendo uma cornucópia de detalhes. Mesmo com objetivos comerciais, não lhe faltam esmero e arte. Obviamente o livro é um apanhadão. Se nos anteriores ele dedicava centenas de páginas a uma única criminosa, este "Tremembé" é uma van que vai e volta, cada hora com uma cambada diferente.

As estórias são mais curtas e os crimes ainda mais horripilantes. De vomitar.

Mas não menospreze o conteúdo. Como já disse outras vezes, Ullisses Campbell é mestre no ofício. Repórter, biógrafo, roteirista, é craque no texto e no timing; seus livros são obras técnicas de engenharia, com cada ripa e cada parafuso encaixados no lugar correto.

Em respeito aos seus leitores fiéis, Ullisses revisita de forma resumida a história das criminosas que já biografou. Richthofen, por exemplo, mal tem seu crime esmiuçado (todo mundo já sabe, né). Acompanhamos a fútil rotina da matricida, incluindo seus envolvimentos amorosos na faculdade.

Sagaz, o autor abre e fecha o livro sobre os encarcerados em Tremembé com duas estórias inusitadas e que, imagino, sejam desconhecidas da quase totalidade dos leitores. 

A primeira delas é a da Madre Maurina. É a única das narrativas a voltar décadas no tempo. E, juntamente com a estória que fecha a obra, ela e Matheus são os únicos já mortos. 

O capítulo de abertura é um tributo à coragem e à retidão da religiosa. Presa no interior de São Paulo no início da ditadura militar, foi torturada por meses. Negou até o fim da vida que houvesse sido estuprada. Mas, mesmo depois de solta, a Igreja a manteve no limbo, por considerá-la impura.

Madre Maurina comeu o pão que o diabo amassou, mas não dedurou ninguém. E, segundo o autor, ela sequer era uma subversiva. Apenas permitiu que estudantes (ligados a células terroristas) utilizassem uma das salas da instituição religiosa que dirigia, para estudos teológicos.

Bem, isso é o que eles alegavam. Na prática, imprimiam jornalecos e panfletos contra o governo militar e tramavam sequestros. Foram presos, a madre também, e os meganhas do porão fizeram toda a sorte de maldades contra a mulher inabalável, da estirpe de uma Agnès Humbert.

Nada adiantou. Foi trancada em Tremembé. Anos depois, acabou inocentada.

A partir daí, vem uma sucessão maldita de criminosos repulsivos e sem caráter, que mataram de forma covarde pessoas da própria família, que, paradoxalmente, os amavam: filhos, pais, etc.

Mãe que contrata selvagens para matar o filho gay a pauladas dentro da própria casa ou filha que contrata selvagens para matar os pais e o irmão, para roubar o carro e algum dinheiro. Mãe que prostitui a filha. Filho que simula assalto para matar o pai, como fez Gil Rugai.

O estuprador serial Roger Abdelmassih, que resenhei aqui há alguns anos (como o fiz também com outros facínoras condenados), permanece fazendo das suas na cadeia, simulando debilidades e alegando consentimento das mulheres que dopava, estuprava e engravidava.

Campbell publica um verdadeiro almanaque de gente da pior laia. Já virou best-seller.

O subtítulo, "o presídio dos famosos", ajuda a vender. Além das celebridades Richthofen, que mandou esmigalhar a cabeça dos pais, Pimenta Neves, que matou pelas costas a ex-namorada, e Matsunaga, que picou o marido em pedaços, estão lá o craque Robinho (condenado por relação sexual não consentida com uma albanesa em uma boate italiana), rei das pedaladas, e o herdeiro pernambucano Thiago Vieira, que tatuava as suas iniciais no corpo das mulheres que estuprava.

Todos viviam bem em Tremembé. Os dois últimos, certamente entre os mais ricos da prisão, compravam a vassalagem dos presos pobres. Rivais em prestígio, nenhum dos dois está mais lá.

Matéria publicada no portal da CNN de ontem, 13 de janeiro de 2026, atualizada às 8h05, afirma que ambos foram transferidos "porque a ideia é 'pulverizar' os presos em outras penitenciárias para que não haja mais um espaço batizado de 'presídio dos famosos' como Tremembé".

Será que o filão vai secar? Não creio. Ullisses Campbell está fadado ao sucesso. Seus editores sabem disso. Um splash na capa da primeira edição avisa: "O livro que deu origem à série. Vol. 1".

Vem mais por aí. O que não falta é criminoso. Campbell não deixará a história deles escapar.

Editora Matrix, 376 páginas  |   1a edição   |   2025

"Topa tudo por dinheiro", por Mauricio Stycer


Em meio a tantas biografias de meia-tigela que existem por aí (por mais que eu tente evitar, vez por outra levo gato por lebre), sobre os mais variados sujeitos, essa aqui escrita pelo Mauricio Stycer é uma que vale o que pesa. Fala pouco e bem. Biografa o homem de negócios. Radiografa o negócio em si. O mercado da comunicação. O universo televisivo no Brasil, dos anos 60 aos anos 2000.

Já a vida pessoal do biografado, Mauricio pula. "Evitei escarafunchar aspectos da vida pessoal de Silvio nesse livro", explica o autor. "Deixo essa tarefa para a infinidade de biógrafos que já fizeram e ainda farão isso", esclarece.

A biografia, você sabe, é sobre Silvio Santos, morto mês passado. Foi escrita em 2018, quando o então octagenário apresentador ainda se mantinha no ar, todo serelepe. Ou quase.

Sempre tive curiosidade pelo personagem; mas comprei o livro também porque Silvio faz parte da minha memória afetiva. Cresci escutando sua risada, em uma época em que o aparelho de TV era onipresente. Era posto em um altar no melhor ponto da sala (tinha que ver se o lugar era bom para a antena). Só exibia três ou quatro canais, que "funcionavam" até pouco depois da meia-noite.

Depois dessa hora as emissoras saíam todas do ar e a sensação de solidão se tornava absoluta.

Pelo menos esse era o meu sentimento notívago de guri. Por volta das onze havia a "Sessão Coruja", encerrando a programação. O bagulho era tão pomposo que tinha até apresentadora. Uma espevitada senhorinha de voz fanhosa, a Célia Biar, opinava que o filme era bom por isso ou por aquilo, nos convidando a vê-lo - por ser palpitante, ou romântico, ou assustador.

E falava isso sob a luz de um abajur, sentada numa poltrona rococó, ao lado de uma coruja zoiuda.

Às sextas e sábados rolava a "Sessão Dupla", em que um longa-metragem era seguido por outro, fazendo com que a TV Globo ficasse no ar até quase quatro da matina. Para mim, moleque, era uma aventura. Eu gostava dos filmes velhos, e também das novelas, "Casos Especiais", séries, enlatados... mas achava enjoados os programas de auditório, como os do Silvio Santos.

Mesmo assim, ele era a cara do domingo. A gente escutava a voz dele e sabia que era domingo. E domingo é uma coisa boa. Então, não dá para desconectar o telespectador mirim da entidade Silvio Santos - o que aguçou meu interesse, quando vi uma biografia sobre o apresentador. 

Atirei no que vi e acertei no que não vi. O que o botafoguense (tamo junto) Stycer escreveu é muito maior e melhor do que uma biografia convencional sobre um animador de auditório. Ele fala, sim, do camelô que vendia carnês e bugigangas na tevê, mas, principalmente, da rota bajulatória do concessionário de canais de televisão e dono de banco.

A propósito, essa coisa de "camelô" dá pra por na rubrica da mitologia sobre o Silvio Santos - cujo nome de batismo é Senor Abravanel, descendente de uma milenar família judia. Stycer enfatiza o quanto o apresentador inventou, mistificou e mentiu sobre sua vida pessoal. Acho que dá pra incluir essa estória de ter sido camelô nessa construção da lenda.

Após se tornar famoso na TV, Silvio se categorizava como "artista". E achava que a vida dos artistas deveria ser "misteriosa". Tanto, que alternava em se dizer solteiro, na maior parte das vezes, com outras em que dizia ter "oito esposas". A esposa verdadeira, Cidinha, morreu de câncer em 1977 e posteriormente o artista se declarou arrependido por escondê-la.

Mas, antes de ser famoso, Silvio alugava espaço na programação televisiva da época, cheia de espaço vazio e carente de dinheiro. Comprou um negócio falido de um colega de TV - o "Baú da Felicidade", do Manoel da Nóbrega - e, com seus talentos de businessman e apresentador, fez da arapuca um baú de dinheiro. Para ele mesmo.

Tenho lugar de fala. Minha avó, ou minha mãe, sei lá (ambas telespectadoras assíduas do animador), caíram na conversa do Silvio e fizeram o tal carnê. A promessa era que você pagaria x por mês durante um ano e poderia ser sorteado e ganhar prêmios (improváveis). Se não ganhasse, trocaria o dinheiro gasto com o carnê por tralhas variadas nas lojas do Baú.

Como a inflação já comia solta, ao cabo de um ano um valor de, digamos, R$ 50,00 por mês (R$ 600,00 no ano) dava para trocar por uns quatro copos e uma bandeja. Negoção da china pro Silvio.

Stycer nos conta como - com os horários na TV e o carnê - o homem foi de vento em popa. Era líder de audiência e empresário bem-sucedido. E aí se segue toda a sua determinação em obter uma concessão de canal de televisão, sua bajulação da ditadura, seus negócios escusos e sua astuta relação com outros magnatas da mídia.

Sem contar a sua aventura como banqueiro, que deixou um rombo de 4,3 bilhões de reais. Quem investiu se f..., porque o banco quebrou e o Silvio - rárárá - não pagou ninguém. Nem perdeu um mísero saca-rolha do próprio patrimônio. Foi a Brasília, se reuniu com o presidente e saiu dali com tudo resolvido. O governo (ou seja, nós) pagaria o pato.

Ninguém reclamou, muito menos as colegas de auditório. O próprio Silvio já tinha dito, em uma entrevista de 1987 ao Estadão: "O povo brasileiro é manso, não é lutador como o povo dos Estados Unidos". Ainda arrematou: "O brasileiro fica satisfeito com um bife".

Em outra entrevista, muitos anos depois, em 2010, foi perguntado sobre a quebra do seu Banco Panamericano. "Em público, questionado por jornalistas, fingiu demência", escreveu Stycer. Para Monica Bergamo, da Folha, negou saber quem era Rafael Palladino (o principal executivo do banco e primo da Iris, esposa do Silvio Santos):

"Palladino? Que Palladino? Nunca fui ao banco. Nem sei onde é o prédio."

Para outros, Silvio admitiu ter ido ao banco "uma única vez". A quebra da instituição não aconteceu por acaso, nem por má gestão. O autor relata uma fraude.

"A fraude no banco, revelado no fim de 2010, teve origem em uma prática, comum no mercado financeiro, de venda de carteiras de empréstimos entre bancos", explica Mauricio. "O golpe se dava no momento em que um programa de computador devolvia os empréstimos vendidos à conta original, o que inflava ativos e receitas e reduzia despesas".

Destaco eu que, pelas datas apresentadas, a quebra do banco do Silvio ocorreu no mesmo período da "marolinha" (como então o presidente Lula adjetivou a crise financeira que desestabilizou a economia mundial, inclusive a brasileira). Provável que o Silvio (ou o tal Palladino) tenha apostado no crescimento do subprime e, como tantos outros bancos, tenha ruído quando a bolha furou.

Mas o autor não aprofunda o tema.

O livro mesmo é esculpido em seis grandes capítulos, sendo um deles dedicado às suas relações com os outros empresários do setor ("Entre Roberto Marinho e Edir Macedo") e outro à sua escancarada puxação de saco dos ocupantes do poder ("Sou um office boy de luxo do governo").

O último fala da rede de televisão que criou, o SBT. Certamente a mais peculiar programação de todos os tempos, sempre subordinada aos interesses comerciais do seu proprietário. Não à toa, os próprios funcionários diziam que SBT significava "Silvio Brincando de Televisão".

Parece que há duas semanas foi lançado nos cinemas o filme "Silvio". O pouco que li a respeito diz que o filme é ruim demais. Percebi certo consenso. Tô fora. Já o livreco, modesto, é bom.

A capa é acanhada, o formato é semi-bolso e a "área de cobertura" é limitada. Mas, pela inteligência e agudeza com que contou a história de Silvio Santos, Stycer fez o suficiente para colocar o seu livro na prateleira de cima.

Editora Todavia, 256 páginas  |  1a edição  |  Copyright 2018



"Decaído", por Sérgio Ramalho


O jornalista tem o propalado "lugar de fala" para escrever a biografia de Adriano da Nóbrega. Por anos ele cobriu o bicho e a milícia para os principais jornais do Rio. Foi descoberto um plano dos criminosos para matá-lo. Ramalho passou a receber proteção da polícia.

O conhecimento acumulado e a qualidade das suas fontes lhe conferiu uma visão privilegiada da trajetória dos principais personagens do crime no Rio de Janeiro. Faz um relato preciso das circunstâncias que levaram à execução de Maninho, o eleito do clã Paes Garcia. Esclarece todo o contencioso existente entre os Nóbrega e os Garcia, com a intermediação de Rogério Mesquita.

Apresenta a formação do Escritório do Crime e todas as suas ramificações. Disseca como a relação entre as polícias do Rio e os ex-policiais que se bandearam para o crime contaminou toda a estrutura.

Pena que a forma como Ramalho costura as informações nem sempre é a melhor. Há um certo embaralhamento na composição da narrativa. O ziguezague cronológico não contribui para o entendimento do leitor. A inegável capacidade do autor em investigar e escrever reportagens contundentes não foi transposta, com os pré-requisitos necessários, para o produto livro.

Talvez seja preciosismo meu. É inegável que o conteúdo é legítimo e substancioso. Ainda assim, me pareceu não ter havido o necessário zelo. Personagens que morreram estão vivos nas páginas seguintes, problemas que na página anterior geraram execuções ainda estão por surgir no próximo parágrafo, ex-amigos que se juraram de morte estão ainda fortalecendo a amizade à medida em que avançamos no texto, os traidores da página anterior ainda são aliados fiéis no novo capítulo.

Ramalho entrega ao leitor a responsabilidade da organização mental do conteúdo. Você, que lê, deve entender à medida em que avança no texto que os diálogos reproduzidos, agora, foram ditos antes dos diálogos que você já leu. Os que já foram condenados e presos estão soltos no novo trecho porque está se falando de um momento anterior.

O leitor tem que ficar ligado o tempo todo, dando cambalhotas para não perder o fio da meada.

Com a legitimidade que possui e o material valioso que reuniu, fica a impressão que o melhor para o autor teria sido reescrever o texto. Isso dito, é essencial enfatizar que mais vale um bom conteúdo - ainda que mal distribuído - do que uma encheção de linguiça sumamente bem organizada.

As informações estão no livro. A trajetória de Adriano da Nóbrega está esmiuçada, do início ao fim. Seus comparsas e concorrentes - muitas vezes ambos são o mesmo sujeito, que apenas mudou de status no seu relacionamento com o matador - são apresentados em detalhes.

Acima de tudo, o convívio espúrio entre Estado e crime é escancarado pelo jornalista. Os matadores que compuseram o Escritório do Crime foram quase todos formados dentro da estrutura do Estado, financiados pelo dinheiro público - como vimos semana passada, em "Milicianos". A movimentação criminosa dos matadores inclui o acesso às dependências do Estado.

"Adriano tinha trânsito livre em vários batalhões e delegacias policiais", deixa claro Ramalho. "Sua influência chegava a setores estratégicos dentro da Delegacia de Homicídios. Não era raro encontrar o ex-capitão circulando pelos corredores da unidade especializada em investigar assassinatos". 

Ou seja, o CEO (como o jornalista se refere a ele) da maior estrutura de mortes por encomenda do país batia perna, colhia informações e assediava funcionários dentro do setor de inteligência governamental responsável por investigar as mortes. O acordo funcionava bem.

"Em troca, os policiais envolvidos no esquema retardavam o andamento de inquéritos, vazavam informações contraditórias à imprensa, criando narrativas falsas para desviar o rumo das investigações", esclarece o autor. O investimento não era baixo. Ramalho menciona "um pagamento de R$ 2 milhões a policiais da delegacia especializada".

O assunto permanece momentoso. Ronnie Lessa, um dos personagens do livro, sócio e parceiro do biografado em alguns empreendimentos (mortes por encomenda, proteção de bicheiros e exploração de comunidades), vem ocupando a primeira página de grandes jornais. Sua delação reitera o que Ramalho expôs em detalhes: magistrados vendem habeas corpus para criminosos e policiais compartilham informações com bandidos.

E você nem precisa gastar seu tempo se escandalizando, adianto eu, porque  em breve tudo vai cair no esquecimento.

A mecânica do Brasil é essa, goste você ou não. Pense bem: nossa amnésia, ou indiferença, é tal, que as dezenas de evidências ligando o presidente da República ao chefe de um grupo de extermínio desceram pelo ralo na memória coletiva. São solenemente ignoradas pelos torcedores do ídolo e, se muito, vez por outra resgatadas pelos torcedores do ídolo adversário. Você sabe quem.

Foram parças por um longo tempo. Há um vasto rol de situações em que Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro estiveram muito próximos de Adriano da Nóbrega, como descreve Sérgio Ramalho. O autor resgata o primeiro contato, quando Flávio foi assaltado e, ainda por cima, esculachado.

O futuro senador milionário, então ainda vereador, foi reconhecido durante o roubo de seu carro e posto de joelhos no meio da rua, para morrer, com um revólver apontado para a cabeça. Mudaram de ideia. Após alguns tapas e pontapés, os assaltantes mandaram Flávio correr, sem olhar para trás. 

Ser assaltado no meio da rua não era novidade na família. O pai, Jair, também já tinha sido assaltado sete anos antes. Na ocasião, os meliantes levaram sua moto de 350 cilindradas e sua arma, uma pistola Glock 380. Trancou, pianinho. Não reagiu. Mas, já deputado, com o ex-DOI-CODI Nilton Cerqueira à frente da Secretaria de Segurança Pública, Bolsonaro não ficou na mão.

Diferentemente de 99,9% dos cariocas que são roubados, em 48 horas a moto e a arma já estavam reintegradas ao seu patrimônio, recuperadas na favela de Acari. O chefe do tráfico de drogas na favela foi capturado oito meses depois. Jogado na cela às onze da noite, deprimido, enforcou-se.

A mãe e a sogra não acreditaram na versão do suicídio motivado por forte depressão dada pelos policiais. Ainda que descrentes, não tiveram tempo para sustentar a discordância, pois foram assassinadas a tiros no dia seguinte, em São João do Meriti. O bagulho ficou por isso mesmo.

É assim que a banda toca por aqui.

Desculpe a digressão. Volto ao assalto do Flávio. Acompanhado do sargento Fabrício Queiroz (que em 2018 viria a se tornar famoso como operador das rachadinhas dos Bolsonaro), Flávio foi dar queixa na delegacia, aonde foi apresentado ao então tenente Adriano da Nóbrega. 

Começou aí o relacionamento entre estes dois grandes brasileiros, o futuro CEO do Escritório da Morte, o Patrãozão, Adriano da Nóbrega, e o futuro senador da República pelo Estado do Rio de Janeiro, e também dono de uma franquia de bombons de chocolate, Flávio Bolsonaro.

Foi juntar a fome com a vontade de comer.

À medida em que ia subindo na hierarquia do crime, Nóbrega também encurtava seus laços com o inseguro primogênito (que, anos depois, disputando um debate televisivo pela prefeitura do Rio, teve um ataque de pânico e desmaiou, sendo atendido no ar pela candidata Jandira Feghali - o que enfureceu o pai, pelo ridículo da cena). Adriano se tornou o chefe da segurança de Flávio Bolsonaro e o escoltava em todos os seus deslocamentos.

Tendo doravante um amigo influente, o ex-capitão do Bope ia dando polimento na sua ascensão.

Ramalho pontua a trajetória rumo ao topo de Adriano. Mostra o quão habilidoso ele foi na ocupação de espaços. Como se tornou um matador respeitado e um miliciano empreendedor, dono de centenas de imóveis em Rio das Pedras, que mensalmente lhe rendiam milhões.

Relata como sua maior ambição era se tornar bicheiro e ocupar uma posição de prestígio na máfia do jogo. Conta seu avanço progressivo no universo do crime. Como deixou de matar no varejo e ter uma equipe, sob seu comando, para executar os assassinatos (serviço prime que vendia a peso de ouro). Sua ramificação imobiliária e na prestação de serviços, passando pelo fornecimento de gás, energia e tv a cabo. Um tycoon do crime.

O assassinato de Mariele Franco, porém, no qual ele - ironicamente - não estava envolvido, foi o turning point que provocou o desmoronamento da estrutura na qual ele investira tanto tempo e energia. Levou ao escancaramento do Escritório do Crime e à sua identificação. Depois de tantos anos fora do radar da polícia, a Polícia Federal foi acionada e ele se tornou oficialmente procurado.

Resolveu fugir e assumir uma identidade falsa. Vivia Brasil afora como se fosse um fazendeiro milionário em férias. Mas sempre sob risco de ser desmascarado e denunciado (anonimamente, lógico, que ninguém teria peito para dedurar o homem e viver para contar).

Mas era um roteiro pré-escrito. Adriano sabia demais, envolveu-se demais, matou gente demais. Com sua existência sob os holofotes, já não convinha a ninguém. Sua propalada amizade com os Bolsonaro, a essa altura, mais o atrapalhava do que ajudava. Jair era agora o presidente do Brasil.

Enquanto xingava os repórteres no cercadinho, como se estivesse em um botequim cercado por seguranças, Jair se recusava a responder sobre o antigo aliado, a quem homenageara e defendera diversas vezes enquanto deputado. 

Após um ano de fuga e esconderijos, Adriano da Nóbrega, o Gordo, como seu pai o chamava (e ninguém mais), foi cercado em um sítio no interior baiano e executado. Como isso aconteceu, é descrito em pormenores pelo jornalista. Ramalho traz os detalhes eletrizantes da perseguição final.

Um livro virulento, uma cidade perigosa e um Estado omisso. É o que temos por ora.

Editora Matrix, 232 páginas  |  1a edição, 2024

"Milicianos", por Rafael Soares


Hoje é Sete de setembro. Dia da Pátria. Dia do desfile das Forças Armadas. Canhões, tanques, mísseis. Ícones anacrônicos, né? Porque no mundo real não existe a ameaça de inimigos externos. O inimigo armado vive dentro do país. Financiado pela receita do tráfico, comanda batalhões de marginais, imiscuídos na periferia das grandes cidades. As forças que os combatem são as policiais.

A PM, a Civil. O problema é que este "combate" é de mentirinha. É para inglês (ou carioca) ver.

Este é o livro: "Milicianos" disseca o envolvimento das forças policiais do Rio de Janeiro com o crime organizado - o tal que deveriam combater. Desnuda sua infraestrutura, dá nome aos bois e, de brinde, redige pequenas biografias de notórios ex-policiais que se bandearam para o lado do crime.

A sociedade - em sua maioria formada por comunidades pobres - é vítima desta perversa contradição.

O jornalista Rafael Soares demonstra como o Estado provê e financia a formação de criminosos, dentro das suas próprias fileiras. Explica como profissionais destemidos, bem preparados e que não hesitam em arriscar a própria vida, trocam um cargo mal-remunerado (de paladinos) pela bem mais polpuda ocupação de capangas de bandidos - ou bandidos eles mesmos, sem intermediários.

O texto, direto, nos apresenta a milícia, o tráfico e os bicheiros como artérias que irrigam a vasta rede criminosa da cidade (que vem sendo tema de uma ampla série de matérias de página dupla no jornal O Globo, assinadas pelo próprio autor deste livro). O conteúdo é relevante e o jornalista é corajoso.

Volta e meia espoca nas redes sociais um boato inverossímil sobre guerras hipotéticas. Contra a Argentina ou a Venezuela. Estórias da carochinha. Nossa guerra real acontece nos subúrbios, nos morros e nas vias expressas. Brasileiros contra brasileiros. O Estado (a força policial) contra o exército paralelo (as quadrilhas). Só que tudo junto e misturado.

"Brasil/ mostra tua cara/ quero ver quem paga/ pra gente ficar assim", já cantava Cazuza nos anos 80.

Soares nos conta das entranhas da polícia e do crime. A mineira, os adidos, os espólios. Seus protagonistas são Falcon, Pereira, Curicica, Lessa, Adriano, Batoré, Mad, Tonhão, gente continuamente na linha de tiro (tanto que quase todos os mencionados já não estão mais entre nós).

Porém, antes de me estender aos bandidos de carteirinha, quero abrir um parênteses. Porque há os espertalhões que se aproveitam do filão, lucram com essa guerra interna, mas estão sempre fora do alcance das balas. E, entre eles, um pequeno personagem ("pequeno" sob a ótica do crime, porque nunca esteve sob fogo e nem trocou chumbo com ninguém) me chamou a atenção.

Um político local, veemente, à época do boom das milícias pouco expressivo, colado a um nicho do eleitorado - o ex-militar Jair Bolsonaro. Como um parasita dos agentes policiais envolvidos com o crime, o político, do baixo clero, lhes oferecia pequenas vantagens e homenagens duvidosas.

Em troca, aumentava seu cacife eleitoral e se inflava com a proximidade dos meganhas de quem puxava o saco. Curioso como, usando apenas a garganta e sem nunca colocar o dele na reta, poucos anos depois o político chegou a presidente, enquanto seus aliados de primeira hora mofavam na cadeia ou pediram a conta e e se mudaram, encaixotados, para o cemitério.

Jamais esteve sob perigo, exceto quando um demente - não um bandido - aproveitou um ajuntamento e lhe esfaqueou a barriga. A partir daí, gato escaldado, o costurado Jair poderia esquecer a cueca, mas jamais o colete à prova de balas. Dizem os mais cascudos que a maioria não se deixa intimidar tão facilmente. Não foi seu caso.

Verdade é que, no livro, Bolsonaro é coadjuvante de segunda linha. Dei mais exposição a ele aqui por razões "patrióticas". Os outros morreram. E pegavam muito pouco dinheiro do Estado (ao menos, não diretamente). Não se pode dizer o mesmo dos Bolsonaro e dos demais políticos.

Como já dizia a nossa avó, tudo farinha do mesmo saco.

Mas reitero que o livro não dá a nenhum político o protagonismo que dei aqui. A obra é sobre gente que passou a vida debaixo de bala, emboscando e sendo emboscada.

No desdobramento do texto, diversos casos de assassinato por encomenda são enumerados. É quando o autor conta do Escritório do Crime, uma prestação de serviços ilegal, especializada em matar gente em troca de dinheiro. Segundo Soares, algumas mortes chegavam a custar um milhão e meio de reais.

A "descoberta" pública do tal escritório pela polícia demorou dez anos. Durante esse tempo, um grupo profissional de pistoleiros, comandado pelo ex-PM Adriano da Nóbrega (semana que vem falo dele), matou por encomenda no Rio de Janeiro sem que a polícia tivesse investigado um único crime que apontasse para a sua existência. Todo mundo sabia do Escritório. Menos os agentes do Estado.

E ressaltando que o bando só foi descoberto na esteira das investigações do caso Marielle - que, por sinal, não foi morta pelo grupo, e sim por um free-lancer audaz e talentoso, o Ronnie Lessa.

Todos milicianos.

Outra grande estrutura criminosa na cidade do Rio é também escalavrada por Soares. A Liga da Justiça. Uma ironia tipicamente carioca. Bandidos assumindo a identidade de super-heróis. Neste caso, o batismo do grupo se deu, segundo o autor, pela presença na milícia do Batman e do Robin. Stan Lee deve ter virado no túmulo. 

Enquanto isso, o morador gira no espeto, como frango de padaria, com a cachorrada de olho.

É o que resta. Vivemos no Estado do Rio de Janeiro, aprazível região que já tem por tradição hospedar seus governadores na cadeia. Pena que por períodos curtos, tipo Airbnb. A exceção foi o Sérgio Cabral, que fez um contrato mais longo, de 30 meses, renovável. A temporada só acabou quando o Gilmar Mendes autorizou. Nada como o STF para soltar alguém.

É um estado onde delegados, chefes de polícia e comandantes de batalhão se acostumaram a ir em cana. Efeitos colaterais das práticas de comércio ilegal. A grana corre e o crime impera. A droga enriquece e financia os traficantes. A exploração das comunidades financia as milícias. Uma parcela da Justiça é azeitada pelo crime organizado. O lucro, gordo, suborna as autoridades. 

O atual governador do Estado do Rio, Claudio Castro, foi alvo de filmagens recebendo propina (enquanto ainda era vereador). É réu em diversos processos de corrupção. Sintomático que não tenha currículo ou representatividade política para ser governador. Sequer carisma ou poder de oratória. É um fruto do acaso. Era vice, o antigo governador foi afastado, ele assumiu. Depois foi (re)eleito em primeiro turno pela população do estado. O povo e sua sabedoria contumaz.

Castro costuma se manter na sombra. Só aparece quando inevitável, para balbuciar algum lugar-comum. A pronúncia é embolada pela língua engrolada, difícil de entender. Em 23 de outubro do ano passado, frente à queima de 35 ônibus a mando dos bandidos, o governador Castro soltou esta pérola: "Que o crime organizado não ouse desafiar o poder do Estado".

Quem?? A fala em si já é um desacato. Ele não falou isso na Finlândia. Falou no Rio.

Há quem diga que o governador é um fantoche do crime organizado. Esta semana ele trocou mais uma vez o secretário de Polícia Civil. Exonerou o quarto e nomeou o quinto. Dizem que ele atendeu a um determinado grupo. Eu não sei. Só sei que um povo que elege seus próprios algozes para tomar conta do governo é um povo fragilizado. Exposto.

Em suma, "Milicianos" é o raio-X da falência do Estado. E a radiação alcança todo mundo.

Não importa o teatrinho governamental. A população está em maus lençóis. Sejam os soldados do tráfico, saídos das famílias numerosas de mães solteiras, sejam os maus policiais, funcionários públicos que se aprimoraram na arte de matar, o povo está sitiado pelos bandidos e enquadrado pelos políticos. Crédulo, se auto-engana, dizendo a si mesmo que as nossas instituições são sólidas. 

São não. Elas são como uma cidade cenográfica. É tudo fachada.

O livro de Rafael Soares revela o que se esconde por trás dos panos. E, além disso, é um testemunho capital sobre um período negro da história do país. Justo este em que vivemos. 

Editora Objetiva, 317 páginas  |  1a edição, 2023

"Queda livre", por Isabela Palmeira e Chico Otávio


Apesar do apelido pomposo do protagonista - Faraó dos Bitcoins -, o livro não traz nada do antigo Egito, nem do atual mercado financeiro. Fala de uma mega fraude e de uma pirâmide de pessoas enganadas. Se cada uma das pirâmides de Gizé era formada por 27.000 blocos de calcário, os clientes lesados pela empresa que já se apresentaram à Justiça passam de 122.000.

E contando.

Essa quantidade de gente caiu - ou quis cair - no golpe da pirâmide, um velho esquema onde o dinheiro de cada cidadão que ingressa é direcionado para as pessoas que entraram antes dela. O esquema, batido, foi requentado como se fosse um sistema de investimento. No caso, um pretenso investimento em criptomoedas, popularmente conhecidas como bitcoins.

Ressaltam os autores que "um piramideiro experiente não apenas elabora golpes com obstinação, como também tem sempre a postos um plano de fuga pra deixar a cena. Sabe usá-lo na hora certa, quando clientes lesados e autoridades estão prestes a descobrir a jogada. Não foi o caso do Faraó dos Bitcoins".

Talvez o timing tenha sido perdido pelo Faraó, o ex-pastor Glaidson Acácio dos Santos. Seu esquema não parava de progredir, e ele talvez não visse razão para ter um plano de fuga engatilhado. Vacilou. Derrapou na curva ao cutucar com vara curta um inimigo mais poderoso do que imaginara. E que estava em guerra aberta com ele, pelo controle de um mesmo público-alvo.

Um lado, o de Glaidson e seus parceiros, chamava este público de "investidores"; o outro lado, o do oponente, batizava este público como "fiéis". Seja lá qual for o mais adequado, estão se referindo a um mesmo público: o crente, o "dizimista", aquele que deposita semanalmente o seu suado dinheirinho nas contas da IURD - a Igreja Universal do Reino de Deus.

Não é segredo para ninguém que a IURD persuade seus fiéis a entregarem à igreja todo o seu ganho, como na tal Fogueira Santa, sob as mais variadas promessas de recompensa divina. Deu ruim porque a GAS estava chegando antes e secando a fonte. E ainda estava seduzindo os seus vendedores.

"O grupo estava em guerra com a Igreja Universal, em razão da debandada de pastores da instituição para trabalhar como consultores da GAS", revelam os autores, de acordo com o apurado em um grampo telefônico da Operação Kryptos (o grampeado era Michael de Oliveira Magno, ex-corretor de imóveis, um dos apóstolos de Glaidson Acácio dos Santos, ex-pastor da Universal, o cara das iniciais da GAS).

Chamar de "apóstolos" os executivos de uma empresa de bitcoins não deixa dúvida de quão estreitos eram os vínculos entre o modus operandi da IURD e os da GAS.

A Região dos Lagos mostrou a Glaidson que seu negócio era uma verdadeira máquina de imprimir dinheiro - e não fazia sentido a GAS se limitar unicamente à região. A empresa passou a prospectar seus clientes Brasil afora. Não havia restrição de fé ou geográfica. A única fezinha necessária era ter dez contos para investir. O sujeito aplicava em "cripto" (com um depósito na conta do apóstolo, que respondia aí pela alcunha de "trader") e passava a ganhar 10% como rendimento mensal.

Cada dez mil aplicados geravam R$ 1.000,00 mensais de "rendimento". A GAS pagava em dia. Mas a maioria deixava os 10% na própria conta, para render mais. O investidor não é bobo. Ou é?

Fiz um mero exercício matemático aqui. Um cidadão que depositasse R$ 10.000,00 em janeiro de 2018 em um dos dezenas de CNPJs da GAS - e não sacasse nunca nem o valor principal nem o rendimento de dez por cento - teria acumulado, em julho de 2024, R$ 18.621.820,13.

Bom, né? Você aplica dez milzinho. Seis anos depois, tem dezoito milhões. Vamos supor que você (o investidor) ganhe dez mil por mês e aplique o salário do mês - de julho, vá lá - inteiro e nunca mais mexa nessa grana. Em seis anos, você tem na sua conta o equivalente a 150 anos de salários. Um século e meio. Seria como se você trabalhasse apenas um mês na vida, aplicasse e depois de seis anos recebesse de uma vez só os salários que você teria direito até o ano 2168. Ô vidão.

Era o pote de ouro no fim do arco-íris. Mil e oitocentos salários filhos de um único salário.

Para não restar dúvida, vou recapitular o bagulho aqui. Sempre de acordo com o livro, que é quem traz toda essa estória. O cara da GAS - o Glaidson Acácio dos Santos - era um sujeito humilde, de família simples, incluindo alguns condenados. Entrou para a Universal e virou pastor. Foi mandado para a Venezuela. Lá conheceu uma fiel venezuelana, a Mirelis Diaz, procurada por golpes financeiros envolvendo bitcoins. Ele foi demitido da empresa do bispo, ela precisava fugir do país do Maduro.

Já casados, vieram pra Cabo Frio, no Brasil, e abriram uma empresa de bitcoins. Ele, bom de lábia, começou a vender a aplicação para os fiéis da IURD. Deu tão certo que os pastores se bandearam da igreja e foram trabalhar para o rolo do casal.

Era irresistível. O ex-pastor, ex-garçon, ex-guardador de carros Glaidson tinha tanto jeito para a coisa que o negócio não parava de crescer. O sistema era tosco, mas mesmo assim funcionava: bastava a vítima, ops, o investidor, fazer um depósito na conta do vendedor (que abria um CNPJ e depois uma conta em banco, com esse CNPJ como titular, para ir recebendo a grana dos investidores).

O investidor, por sua vez, recebia religiosamente os prometidos dez por cento mensais.

Como não investir? O núcleo da GAS, como vimos, era oriundo de Cabo Frio, mas o sucesso local resultou em expansão nacional. Iniciando pelas capitais do Nordeste, logo estenderam tentáculos gulosos na capital do país. Foram extremamente bem-sucedidos no Distrito Federal.

"A fórmula para crescer na capital foi igual à que consolidou a GAS do Faraó no Rio de Janeiro", revelam os autores. "Uma forte pregação nos templos, reforçada pela conversão de pastores locais em consultores". Como explicam Chico e Isabela, "o impacto destas investidas e das adesões ao mercado de bitcoins gerou uma crise na Igreja Universal em Brasília".

Epa, problema. Até então estava tudo certo. Um grupo de pilantras vinha convencendo dezenas de milhares de pessoas a colocarem suas economias em um esquema fictício de criptomoedas. E o bom (para os traders) é que nenhuma agência do governo estava em cima. Normal. Braasil. Mas aí você mexe num vespeiro. O cerne do negócio não tinha Estado para fiscalizar, mas tinha dono para cobrar.

E o dono daquele povo que vinha dando a grana para a GAS era a Universal.

A cúpula da IURD, se sentindo traída, não ficou na desconfiança. Partiu para dentro. Influente, com um pelotão de deputados, a igreja foi acusada pelos pastores de ter quebrado ilegalmente os sigilos bancários deles, para tentar comprovar movimentações e aplicações em bitcoins.

Opa, quebra de sigilo? Isso não é ferramenta exclusiva do Estado? Pois é...

Temos aí um antigo grupo trilionário, a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), e um recente grupo bilionário, o GAS, competindo pelos mesmos agentes e pelo mesmo insumo (o dinheiro "disponível" na conta-corrente dos trabalhadores).

A corda roeu do lado mais fraco. Vai ver foi coincidência. Assim, do nada, a GAS foi denunciada. Antes, sob o comando forte de Glaidson, a GAS tinha dado seu jeito para neutralizar a concorrência miúda da vizinhança. Com os traders locais mais atrevidos, Glaidson resolveu de forma mais direta. O Faraó mandou matar alguns concorrentes mais saidinhos. Aleijou outros. Mas, na grande disputa pelo mercado, foi implodido por um rival bem superior.

Não dá para sair matando os graudões. Provavelmente nem tentaram. Melhor assim. 

Os autores contam em minúcias o processo de investigação. Puxam o fio da meada desde o início. Trazem os valores, os comparsas, os novos players, as prisões. 

É coisa grande. Segundo a investigação, o negócio da GAS movimentou, de maneira ilícita, "pelo menos 38 bilhões de reais, por meio de pessoas físicas e jurídicas no Brasil e no exterior".

Como um ex-pastor pouco instruído, de origem humilde e aparência idem (apesar do seu volume roliço de ricaço), pôde aliciar tantos parceiros e convencer milhares de pessoas a transferirem para ele todas as suas economias, conta muito sobre o Brasil e os brasileiros.

Quando a casa caiu, eu, por coincidência, estava em Cabo Frio, com a família, tostando na praia. Fiquei pasmo com a carreata em frente ao tradicional hotel Malibu. Um buzinaço de mais de um quilômetro de extensão, em protesto contra a prisão do Faraó.

O populacho (formado todo ele por investidores em pânico) clamava pela liberdade de Glaidson. A procissão de carros importados trazia gente na capota, cartazes e coros ensaiados ("Soltem o papai"). Eu tinha visto a matéria sobre o Faraó na tevê, na semana anterior, e me parecia que prender o cara era a coisa razoável a ser feita. 

Pelo visto, a população local discordava com veemência da minha opinião.

Os autores trazem o relato de quem via a prisão do dono do esquema como um ataque "a um homem negro, de origem pobre, que desafiou o sistema bancário e incomodou muita gente".

"A empresa cumpriu com o tratado com os clientes. Havia contrato, tudo direitinho. Eles pagavam no prazo. Muita gente se levantou com o negócio. Só que incomodou alguns órgãos e bancos por ele estar tendo muito lucro. Foi um complô contra a GAS", argumentou Felipe Henriques Velloso, de 35 anos, vendedor do comércio no centro de Rio das Ostras, que investiu 10 mil reais e recebeu apenas duas parcelas mensais.

Mas nem todos os clientes viram as coisas do mesmo modo. Se a maioria, a princípio, defendeu a a soltura de Glaidson como a fórmula para reaver o dinheiro aplicado, com o tempo as pessoas concluíram que a GAS não parecia imbuída em honrar os contratos.

O advogado Jeferson Brandão, investidor (aplicou 392 mil reais na empresa, assim como a esposa e o escritório, cada um com contratos de 115 mil), chegou a ser uma das "lideranças do movimento pró-Glaidson, e esteve presente em quase todas as manifestações, ajudando a organizá-las".

Apesar do seu esforço, com a passagem do tempo entendeu "que a empresa não estava de fato interessada em devolver o dinheiro aos clientes e reconsiderou a posição pró-GAS". Sua atividade constante para reaver o dinheiro perdido fez até com que mudasse de ramo: de especialista em ações contra bancos, mudou seu foco para os golpes financeiros.

Enquanto o processo segue em curso, a quase totalidade dos envolvidos na execução do golpe responde em liberdade. O faraó não teve este benefício por conta dos assassinatos atribuídos a ele. A esposa, Mirelis, fugiu para os Estados Unidos e lá se tornou instagramer e influenciadora, divulgando a alimentação natural e voltando a operar com investimentos, empréstimos e bitcoins. 

Venezuelana, morando fora do Brasil, se sentia bastante segura. Em alguns posts, chegou a zombar dos clientes lesados. Mas, depois que foi denunciada pela Polícia Federal brasileira, parece que o governo americano identificou algum problema com o seu visto de entrada no país. Desde então, Mirelis está presa, privando o público das suas indicações diárias sobre finanças.

Lá não é possível postar da cadeia.

Editora Intrínseca (selo História Real), 207 páginas  |  1a edição, 2024


"Rato de redação - o Sig e a história do Pasquim", por Márcio Pinheiro


"Que linguagem mais desabrida é essa, Sidney?"

O Sig - um ratinho grotescamente desenhado e que era uma espécie de "Louro José" do jornal - me interpelou na lateral de uma das páginas. Eu era um mero leitor desbocado, que escreveu pro Pasquim xingando sei lá o quê. Ser respondido, e com destaque, pelo próprio Sig, "em pessoa", era muito mais do que um adolescente aspirante a jornalista poderia sonhar.

O "diálogo", lógico, reforçou meus laços com o Pasquim. Mas eles já eram firmes. Desde guri achava aquela bagunça gráfica e textual o ó do borogodó. Os caras eram anárquicos, engraçados, meio pornográficos, meio subversivos. Destoavam do mainstream. Eu adorava. 

Verdade que eu estava ainda muito aquém de entender na plenitude todos os subtextos. Mas era safo o suficiente pra sacar que os caras eram bons. Depois, já mais taludo, lia o jornal no ônibus para a Praça XV e na barca para Niterói, rumo à faculdade. Me tornei um leitor mais dentro do padrão. Mas o pior é que o pasca se tornou mais dentro do padrão também. 

Assim, quando soube do lançamento de uma "biografia" do velho jornaleco, não relutei. Mesmo sem esperar muito, comprei o livro - e tive uma baita surpresa. O trabalho de recuperação da história do tabloide feito por Márcio Pinheiro é sensacional.

Vai aos primórdios e conta como a turma formada por Tarso de Castro, Jaguar, Ziraldo, Millôr Fernandes, Paulo Francis, os Sérgios Cabral e Augusto, Ivan Lessa, Henfil e tantos outros inventou, nos bares de Ipanema, um dos maiores mísseis jornalísticos que o Brasil já viu. 

Um reles pasquim que chegou a imprimir duzentos mil exemplares por edição, em plena ditadura militar. Não é pouca coisa.

Como este fenômeno aconteceu? Como um jornal altamente politizado, e de esquerda, foi um sucesso editorial no país do AI-5, da repressão e da tortura?

É a trajetória do jornaleco, com todas as suas vidas e falências, seus acertos e fracassos, suas incontáveis escalações, suas brigas e prisões, que o autor Márcio Pinheiro nos serve de bandeja. E de prata, meus amigos. O jornalista não economizou em pesquisa e sequer repassou o preju. O livro, além de tudo, custa uma merreca: R$ 36,00 no papel e R$ 29,90 no pixel.

Mas voltemos à vaca fria. Eu, leitor imberbe, não sabia, mas o Pasquim que eu lia já era um produto requentado. Remendado. Esvaziado. Com um ou outro brilhareco, só que bem menos independente e despirocado do que um dia fôra. Eu, confesso, ainda achava o máximo. Mas seu tempo tinha passado.

Soube pelo texto do Márcio que a primeira grande avalanche de circulação foi bem antes, no final da década de 60. Mal foram lançados, numa pegada mais experimental do que planejada, e os três mil exemplares impressos não deram nem para a saída. Logo estavam imprimindo cinquenta mil, cem mil, duzentos mil (acredite, isso já no número 27 do jornal).

Emílio Garrastazu Médici era o presidente. O sujeito morava (antes, e também depois) na minha rua em Copacabana, a Júlio de Castilhos. Foi o período mais tenebroso da ditadura. Já eu, moleque, só reparava que ele, mesmo figurão, ia pro Maraca e escutava o jogo no radinho.

Pois era justamente quando o Brasil tinha o presidente mais meganha do período militar, tempos de DOI-CODI e de Araguaia, que a rapaziada lançou um jornal para zombar do governo. E, embora tenham publicado dezenas de páginas com muito mais nitroglicerina, o que fez transbordar o copo na relação com a ditadura foi uma reles piadinha.

Reles, né, mas acabou todo mundo preso.

E, quando eu digo "todo mundo", era todo mundo mesmo. Foi a redação toda para o xilindró, onde ficaram alguns meses. O motivo? Uma charge em que o célebre quadro "Independência ou morte", de Pedro Américo, foi debochadamente reproduzido, com D. Pedro I gritando: "Eu quero mocotó!!"

Contextualizando: "Eu quero mocotó" era uma música de Jorge Ben, que dias antes havia sido interpretada na TV pelo maestro Erlon Chaves - e por uma dúzia de morenas rebolando em colants cor de pele. A performance foi, digamos, sensual. E a música já pedia isso, pois "mocotó" se referia ao mocotó das meninas mesmo e o maestro era um sacana. O regente foi pra delegacia.

Assim, a charge se tornou duplamente ofensiva para o governo militar, que colocou a cambada toda em cana, à exceção de Millôr, Henfil e Miguel Paiva. Jaguar foi de táxi para a prisão, mas parou no caminho para tomar um porre. Mais tarde, reclamou que "paguei para ser preso".

Todos saíram mais gordos da temporada na Vila Militar de Realengo. "A equipe, presa nos primeiros meses de novembro, passaria o Natal de 1970 na cadeia, recebendo perus, doces e uísques, contando com a vista grossa dos carcereiros".

Jaguar, bebedor inveterado, "subornava os guardinhas, para que lhe trouxessem garrafas de cachaça - e quando o coronel vinha falar com eles, precisavam tapar a boca para disfarçar o bafo".

Em janeiro de 1971 estavam todos liberados. Algumas inocências tinham sido perdidas (não, não é o que você está pensando). Os que foram presos desconfiavam dos que permaneceram soltos. Principalmente do Millôr, que foi quem, na verdade, tocou o jornal, enquanto a redação bebia na cadeia. 

Outra coisa é que os quase dois anos de sucesso tinham gerado muito dinheiro. Mas ninguém sabia onde estava o dinheiro. Em fevereiro, Tarso de Castro, o grande idealizador da porra toda, deu no pé. 

A nova fase do tabloide, ou sua segunda vida, começaria a partir daí, capitaneada pelo próprio Millôr e os remanescentes Jaguar, Ziraldo, Henfil e Sérgio Cabral (que ficaria pouco tempo, reclamando que "não conseguiu comprar nem uma bicicleta com o que ganhou lá"). As capas de duplo sentido e as entrevistas regadas a álcool e camaradagem mantiveram o jornal na crista da onda, para usar uma expressão da época.

Henfil ganhou protagonismo, com seus personagens virulentos, como o Cabôco Mamadô. O personagem era "responsável pelo cemitério dos mortos-vivos, sepulcrário onde o cartunista enterrava todos aqueles que não se adequavam ao seu padrão de resistência e crítica aos militares", conta o jornalista, ressaltando que "com a sua régua moral e intelectual, Henfil media os que considerava como sendo colaboradores e/ou simpatizantes da ditadura e, sem piedade, destinava-os ao enterro".

Patrulha ideológica, que chama? Uma tia-avó do cancelamento.

Henfil era brilhante, o que não o impediu de "enterrar" Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Nara Leão e Elis Regina. Teria se arrependido no futuro.

Em uma das suas derradeiras reencarnações, o Pasquim se tornou cabo-eleitoral de Leonel Brizola. Tentando contornar sua inviabilidade comercial com a tiragem magra dos seus últimos anos, chegou até a abandonar o formato tabloide e virar standard - o que, lógico, não deu certo.

Aliás, muita coisa não deu certo na história do Pasquim, como a gente descobre no livro.

Márcio Pinheiro nos revela as muitas vidas do Pasquim que eu jamais desconfiara. Eu, que não testemunhei nenhuma das primeiras, e fui cooptado pela aura irreverente do jornal, mal sabia que me apaixonara pelo esqueleto do que um dia fôra a alma do jornaleco.

A briga pelo poder, a dança das cadeiras na redação, a partidarização explícita da publicação, tudo isso é minuciosamente dissecado pelo biógrafo do Sig. A história da cultura brasileira fica devendo essa ao escritor. O que hoje parece desimportante teve um dia importância capital.

O Pasquim revolucionou o jornalismo brasileiro. Trouxe uma nova abordagem e se tornou um ícone da década. As gírias e neologismos foram tantos ("paca", "duca", "sifu", "mifu" etc), lembra Pinheiro, que Ziraldo lançou uma página intitulada "Doyouspaquinglish?"

Nem tudo eram flores, vale frisar. Reflexo da época, o Pasquim era hedonista, machista e racista.

Em singela homenagem, comecei a ler o livro na praia de Ipanema, o mítico bairro da galera ("O Pasquim era Ipanema engarrafada", dizia Sérgio Augusto, um dos fundadores). Mas praia, mesmo, era o último lugar onde, nos anos 70, se poderia encontrar um jornalista do Pasquim. A praia deles era outra.

Velhos tempos.

Matrix Editora, 190 páginas  |  1a edição  |  Copiráite 2022

Obs.: Para aqueles que notaram que eu grafei O Pasquim e o Pasquim, com e sem o artigo, não pensarem que é só bagunça, explico que em suas primeiras vidas o título do jornal tinha o artigo, e depois suprimiu-o. Aí pus (ou não) o artigo dependendo da época à qual me referia.

"A vida por escrito", por Ruy Castro


Tido por muitos como o maior biógrafo brasileiro, o jornalista Ruy Castro tira um tempo para escrever uma coisinha ou outra sobre a arte da biografia. Puro néctar. O subtítulo "Ciência e arte da biografia" dá um ar técnico à edição. Mas antecipo que é menos um curso e mais um bate-papo.

Bate-papo, aliás, é a suprema ciência do Ruy, que escreve como quem conversa.

Generoso, ele dá o passo-a-passo de como escrever uma biografia. Da escolha do biografado à pesquisa, da redação final à impressão do livro, do tamanho da equipe à forma como é remunerado.

Se você sonha, porém, em se tornar um biógrafo, não se iluda com as doces promessas do autor. Porque à vera, mesmo, nada do que ele revela faz mágica. Não há transferência de talento por osmose. Ninguém vai virar um baita biógrafo apenas por ter a leitura do livro do Ruy no currículo.

Bem, não que ele não creia na hipótese. Sugere mesmo uma universidade dedicada à biografia. Situa a atividade - como diz na capa - entre a arte e a ciência. Mas, cá para nós, a pequena apostila de capa colorida é, sobretudo, um mimo para o leitor assíduo das suas bios.

Porque ele revisita cada uma delas. Destrincha os detalhes, dá informações internas, faz uma espécie de making of de cada uma das suas publicações. Quem leu-as todas tem aí um banquete copioso. Já eu, para minha sorte, ainda tenho uma ou duas para ler. O livreto só aumenta a vontade.

Curiosamente, a leitura de biografias é considerada um estilo à parte. Ué. Percepção curiosa. Para mim, tudo é vida e tudo é fato. Seja como for, eu gosto; ainda que discorde do viés. Há quem desdenhe: "Esse aí gosta é de ler biografia". Não vou refutar. Deixo isso por conta do Ruy.

"Sempre gostei de ler biografias", revela o biógrafo, abrindo o livro. "Tem a ver, talvez, com o meu (nosso) lado voyeur - a possibilidade de espiar o lado B das pessoas que admiramos ou por quem temos curiosidade".

Discordo até do Ruy, neste aspecto. Vejo o panorama aprofundado sobre a vida de um certo alguém como uma expedição às entranhas de uma época. A bio permite que eu me transporte para uma década que não é a minha, para um século que não é o meu.

Mas Ruy endossa esse meu ponto-de-vista, com uma definição, lógico, muito mais bem escrita. Diz ele que levantar o passado "não implica nostalgia ou saudosismo, mas uma obsessão em descobrir como eram o dia a dia e a cultura quando ele ainda não existia".

"O passado é um país estrangeiro", compara. "Às vezes, parece distante. Porém, quando se mergulha nele, descobre-se que pode estar logo ali. E dispensa passaporte, visto e vacina", arremata.

O condutor precisa ser profissional, contudo. Ruy desautoriza as biografias autorizadas e não faz gosto das autobiografias: "Nenhuma autobiografia é confiável".

Mas alerto que o simples fato de ser escrita por um biógrafo profissional não é selo de qualidade da biografia. Sei disso por experiência própria. Nem sempre nossas altas expectativas são atendidas.

Porque algumas vezes o biógrafo é esforçado, reúne uma lauta pesquisa pessoal e põe nas livrarias uma edição sobre um nome instigante. Mas o trabalho publicado é frágil no texto, pouco original na seleção das informações e carece de entrevistas com quem cruzou a vida do ente biografado.

Já topei com diversas deste quilate, para minha tristeza. Elas frustram o interesse do leitor. Por exemplo, dois calhamaços que li, dedicados aos compositores Adoniram Barbosa e Dolores Duran. Resenhei-as aqui no blog. Aquém dos biografados e além dos fã-clubes. Entulhadas de devoção e redundância, pobres de substância. Tudo nelas já era do conhecimento público, só foram reempacotadas. E mal.

Já o velho jornalista Ruy Castro, pesquisador e entrevistador de mão cheia, meticuloso e obstinado, traz sempre um excesso de conteúdo inédito. E não só - desenvolveu ainda a arte singular de fazer de uma biografia entretenimento puro.

E até hoje nenhuma biografia ficou pior por ter sido magistralmente escrita.

Sobre o próprio livro, diz ele que "mais do que um manual de como escrever uma biografia, é um relato da experiência de alguém que, depois de vinte anos nas principais Redações de jornais e revistas do Rio e de São Paulo, descobriu um novo mundo a ser explorado pela única ferramenta que o acompanha pela vida: a palavra".

Para mim, particularmente, ainda mais bacana foi saber que a centelha da paixão pela biografia foi acesa em Ruy quando da leitura de "Noel Rosa", bio escrita a quatro mãos por João Máximo e Carlos Didier. Foi uma das primeiras biografias que li. Tenho até hoje o tijolaço. Um tesouro. Me fascinei com o talento e sofri as dores do Poeta da Vila até o seu fim.

E ainda desfrutei da graça do Rio de Janeiro suburbano e boêmio dos anos 20 e 30. A Vila.

Este é o verdadeiro prazer da biografia: ser tomado pelo brilho e intensidade de vidas vividas em momentos-chave da história e da arte, como se estivéssemos lá. Como não nos render?

Ruy fala de autores e obras clássicas, como "O mundo que eu vi", de Stefan Zweig (postado aqui no blog) e "Memórias do cárcere", de Graciliano Ramos, e ainda dá uma desdenhada no célebre texto de Gay Talese, "Frank Sinatra está resfriado" (também postado aqui no blog).

Discorre também sobre biografados e candidatos a, como Phillip Roth, Woody Allen, Dorival Caymmi, Dercy Gonçalves e Tom Jobim. E ainda sobre biografar épocas e movimentos, como os anos 20 e a bossa nova.

Como bom jornalista, Castro traz também depoimentos contrários ao ofício dos biógrafos. Tipo o da biógrafa (e também jornalista) americana Janet Malcolm, falecida há dois anos, em 2021. "O biógrafo é um arrombador profissional que invade uma casa, revira as gavetas que possam conter joias ou dinheiro e foge exibindo em triunfo o produto de sua pilhagem".

Exatamente como Roberto Carlos se sentiu ao ver uma biografia sobre ele chegar às livrarias. Não se conformou, foi à Justiça, interditou a obra, retirou o livro do mercado. Outros artistas aderiram à censura prévia sobre as próprias vidas. Mas, em uma decisão célebre e acertada do Supremo, a ministra Carmen Lúcia vaticinou, para a história: "Calaboca já morreu".

Mas isso é tema para outro post. Vamos voltar à madame Janet Malcolm.

Ela não alivia também a sua outra classe, a dos jornalistas. "Todo jornalista que não seja estúpido demais ou muito cheio de si para não perceber o que acontece à sua volta sabe que o que ele faz é moralmente indefensável". Segundo Ruy, ela quis dizer que "todo jornalista molda seu texto seguindo suas próprias inclinações e que tal texto reflete mais o autor do que a suposta realidade que ele descreve".

O Ruy biógrafo se defende, entretanto. "Se Janet pensa tão mal dos biógrafos, o que dirá dos historiadores, que são biógrafos seriais?". E ressalta que a biografia "é uma prática tão sujeita a distorções quanto o ensaio literário, a escavação arqueológica ou a extração dentária, e nem por isso todos os ensaístas, arqueólogos e dentistas devem ser condenados à morte".

Eu, como já disse, gosto de biografias. Certamente porque gosto de História. E parte do segredo para me divertir com ambas é mérito de quem as escreve. E isso demanda vocação, método e tempo.

"Sem apuração bem feita, não há biografia", diz o mestre das biografias. "A fórmula da apuração é simples: começa pelo levantamento de tudo o que já se sabe sobre o biografado e só então se parte para a busca de tudo o que não se sabe".

É isso. Eu, a História e toda a apaixonada torcida alvinegra queremos saber isso: o que não se sabe. Os itálicos, dele, revelam onde está a ênfase. Que conclui: "A primeira etapa pode levar três meses; a segunda, três anos". E emenda: "Eu disse que era simples; não disse que era fácil".

Por essa e por outras, reitero - quem gosta de ler, precisa ler Ruy Castro. É craque.

Companhia das Letras, (meras) 191 páginas  | 1a edição  |  Copyright 2022

P.S.: Se eu fosse cunhar um slogan para vender seus livros, diria: "Bio é com o Ruy. O resto é obituário." Hummmm... seria injusto com inúmeros biógrafos talentosos? Sim. Mas o Ruy merece o chiste.

"O negócio do Jair", por Juliana dal Piva


Um livro didático. Recomendado para todas as facções. Bacana, sem dúvida, para os torcedores do ex-presidente, porque podem admirar em minúcias a trajetória pessoal do mito, e degustar detalhes exclusivos da sua intimidade. Quem não quer conhecer melhor seu ídolo?

É também de leitura proveitosa para seus haters, porque a narrativa discrimina os valores oficiais, declarações tributárias e os processos que tramitaram na Justiça contendo depoimentos do próprio Bolsonaro, respaldando números e destrinchando incontáveis dados contábeis.

Ou seja, tem tudo para agradar leitores gregos e leitores troianos. Pena que os leitores são poucos.

O texto encadeia, ops, alinha uma longa série de fatos e oferece uma linha narrativa consistente.

A autora, a diligente jornalista Juliana dal Piva, acompanha em minúcias a respeitosamente suspeita evolução patrimonial do cidadão Jair Messias Bolsonaro. Vai desde a sua saída do Exército (precocemente reformado) aos seus anos iniciais na política municipal.

A narrativa é cronológica (emoji de alívio). A relação de Jair com as suas esposas é esmiuçada - pois, mais que companheiras afetivas, se tornaram sócias de um negócio promissor e familiar.

Vemos que a família, tão evocada nos slogans bolsonaristas, ia além do parentesco que via de regra desemboca na administração compartilhada ou na sucessão geracional de um empreendimento comercial. No negócio do Jair, a família era a própria engrenagem do empreendimento.

Vale aqui um alerta: o livro analisa dois universos distintos. Um é o do Jair ex-militar, vereador e deputado; o outro é o do Jair presidente. São mundos que se fundem, mas são ecossistemas diferentes. E o primeiro é bem mais interessante, para quem curte negócios e literatura policial.

Isso dito, pulemos etapas. Porque fato é que, hipocrisias a parte, e dentro da mentalidade de 90% dos cidadãos brasileiros, o Jair, com sua inteligência prodigiosa, descobriu uma fábrica de dinheiro.

Na verdade, é fácil, requerendo mais engenho que tutano. Uma vez eleito, você pode instalar uma torneira de dinheiro diretamente no seu gabinete. E bem poucos entre os edis deixam de instalá-la.

Não tem nada de errado; exceto que se trata de dinheiro público, extorquido do contribuinte. Tá ok?

Vamos aos números. O mandato legislativo concede ao político uma verba mensal em salários destinada aos seus "assessores parlamentares". Hoje essa verba varia entre 150 mil e 300 mil reais por mês, o que, com os benefícios, pode gerar mais de 5 milhões de reais em um ano, totalizando vinte milhões em quatro anos, que é o tempo de mandato obtido com o sucesso eleitoral.

De posse de um mandato, você contrata os tais assessores, e combina com eles a devolução do salário recebido. Como os assessores não precisam sequer ir ao trabalho (a maioria nem sabe onde fica), não têm gastos decorrentes do emprego. No esquema, devolvem 90% do salário para o político contratante e ficam com 10%, sem precisarem fazer nada, apenas informarem o CPF.

Uma beleza. Muita gente entraria na fila para se candidatar aos 10% e ganhar esse dinheirinho fácil. Alô, Brasil, quem não quer entrar nessa lista do cabide? Sejamos honestos. Com trocadilho...

O problema é que, para o parlamentar, o risco é muito alto de fazer isso de forma indiscriminada. Não dá pra confiar. Brasileiro é f... O político pode ser roubado, pois o seu "assessor" pode simplesmente não lhe devolver o dinheiro combinado. Como retaliação, o parlamentar pode demitir o servidor ingrato e desonesto, mas aí esse dinheiro público já estaria perdido.

E então você tem que contratar outros, correr novamente o risco, sem contar que nessa brincadeira se perdem invariavelmente semanas importantes, onde o político não conseguiu fazer sua torneirinha jorrar dinheiro (não esqueça que falamos de 90% de vinte milhões em quatro anos, ou seja, são dezoito milhões por fora que o mandato pode proporcionar só nessa rachadinha).

Portanto, nada mais seguro do que desenvolver um esquema familiar, onde parentes, primos, cunhados, sogros, todos participem do esquema, entregando seus CPFs, ganhando suas migalhinhas e devolvendo o grosso na mão do político laborioso e astuto. Isso sim é fazer "política".

Porém, como nada na vida é perfeito, e como cunhado não é parente, mesmo no âmbito familiar há aqueles recalcitrantes encrenqueiros, que não cumprem o combinado. 

É aí que a mecânica bem azeitada exige um capataz. É necessário um Fabricio Queiroz. Um gerente incisivo, e de confiança, que mantenha a família de assessores sob rédea curta, cobrando todo mês a devolução de cada um. E faz isso no próprio dia do pagamento, para não dar moleza a ninguém.

Está aí composta uma célula eficaz de produção de dinheiro. E, se você consegue eleger para cargos parlamentares a sua esposa e os seus próprios filhos, multiplicando o número de células familiares com mandato próprio, o dinheiro produzido vai se tornando cada vez mais vultoso. É um negócio e tanto.

Pena que é ilegal; mas este é um obstáculo contornável, sem grande esforço. Afinal de contas, não tem ninguém verificando isso. A não ser, é claro, que você se torne candidato a presidente.

Por enquanto, deixemos este pormenor de lado. Voltemos à logística da operação. 

Outro ponto delicado dessa fábrica de grana viva é que o dinheiro acumulado não pode ser declarado, nem investido em operações financeiras, pois em caso de perseguição política poderia ser rastreado pela Receita Federal. Então uma alternativa interessante é manter em poder o dinheiro vivo, entregue pelos assessores na mão do gerente do negócio, e convertido em imóveis.

A aquisição imobiliária é uma opção excelente, porque você pode comprar, por exemplo, um apartamento de dois milhões e declarar que ele custou apenas setecentos mil, pagos em moeda corrente. Com isso, um milhão e trezentos mil coletados dos assessores desaparecem do nada.

Já os setecentos mil oficiais são declarados na escritura, e o imóvel se torna em patrimônio efetivo, com seu valor real na vida real. O patrimônio aumentou, de fato, em dois milhões, mas, para o fisco, no papel, foi apenas um terço disso, o que é mais fácil deschavar com as autoridades, se necessário.

Mas, se você é político, tem foro, costas quentes, contatos e toda uma rede de apoio. Sossega.

É mais ou menos assim que bilhões de reais são todos os anos transferidos dos cofres públicos para mãos particulares. O povo brasileiro lida bem com isso, inclusive topa receber os 10%, se der essa sorte. 

A operação é, para narizes mais sensíveis, nauseabunda, mas aqui no Brasilzão estamos acostumados ao lixão moral. Toca o barco. E agradeçamos aos detalhes que Juliana dal Piva nos traz deste tipo de operação banal, feita por baixo dos panos (lembrando que ela só escolheu este político específico, em meio a milhares que cometeram a mesma operação, porque ele se tornou presidente da República - é fato notório que milhares de outros políticos estão com suas torneirinhas em funcionamento neste exato instante, sem ninguém aporrinhando ou passando sermão).

Para felicidade geral, não tem ninguém nem aí.

Mas o texto de Dal Piva não se resume às rachadinhas. Ela segue meticulosamente as ações, os inquéritos, os processos decorrentes do sistema de funcionários-fantasma do clã Bolsonaro. E que ganham uma outra proporção quando Bolsonaro vence a eleição em 2018.

Nomes que se tornaram famosos no noticiário policial vão surgindo na sucessão de capítulos. Além de Queiroz e do finado Adriano da Nóbrega e sua família, a jornalista acompanha também alguns personagens periféricos da ascensão de Jair Bolsonaro ao poder, ligados aos seus rolos anteriores e aos processos decorrentes deles, como o exótico, e, por que não, caricatural Frederick Wassef.

Sem contar expoentes do nosso judiciário, como Kássio Nunes Marques, advogado piauiense guindado por Bolsonaro ao Olimpo do STF. O distinto magistrado protagoniza parágrafos decisivos na blindagem do clã. Lembrando que o leal Kássio irá ficar as próximas décadas no Supremo - inclusive o presidirá, dentro de alguns anos. Presente do Jair à nação.

Retornando ao livro, ainda que estruturado de forma coerente e configure uma memória política importante, tenho que admitir que traz poucos elementos novos. É leitura funcional, mas pouco prazerosa, por se dedicar demasiado à costura cronológica do avanço (ou não...) processual.

Particularmente, prefiro me manter preso ao modus-operandi do negócio do Jair. A propósito, mais útil nos atermos ao negócio do que ao Jair. È àquele que precisamos combater, pois é endêmico. 

Enquanto bolsonaristas combatem o Lula (e o STF) e lulopetistas combatem o Bolsonaro (e o STF), há a suspeita, não comprovada cientificamente, da existência de alguns ateus ideológicos, que combatem apenas a ideia da Corrupção. Onde vivem? como se alimentam? de onde vieram? etc.

Importa é que a prática abrange todo o território nacional. Rachadinhas são o mecanismo mais prático para desviar o dinheiro público auto-concedido pelos políticos aos seus próprios gabinetes, de onde a mufunfa é oportunamente transferida para os seus próprios bolsos.

Delito muito raramente investigado, é ainda mais esparsamente punido, para alívio da classe. Mês passado, a Justiça Federal absolveu o ex-governador e ex-senador José Agripino Maia por manter um funcionário fantasma em seu gabinete (crimes de peculato e associação criminosa). Segundo o juiz Francisco Eduardo Guimarães, da 14a Vara Federal do Rio Grande do Norte, o político foi absolvido porque o MPF não conseguiu "desconstituir" as provas apresentadas pela defesa.

Rapá, desconstituir as provas da defesa? Ê Justiça criativa...

Por fim, preferiria que a mídia direcionasse suas baterias aos 99,9% dos casos de rachadinha que seguem acontecendo todos os meses, sem que ninguém levante um dedo contra a transferência ilegal de recursos, do que eleger apenas os Bolsonaro para serem combatidos (que naturalmente merecem punição por prevaricar, juntamente com todos os outros). Sejamos democráticos.

Pior é que a solução para matar a rachadinha é tão simples quanto a própria: primeiro, fazer o rastreio dos pagamentos; segundo investigar os indícios de enriquecimento ilícito; terceiro, após a investigação, determinar a devolução do dinheiro aos cofres públicos. Em dobro.

(Só falta combinar com a juizada.)

Mas o melhor dos cenários seria o fim da cota de assessores. Político que quiser secretário, que pague do próprio salário. Rima e dificulta armações.

Sei que viajo na maionese e é só uma utopia. Aproveitei o tema do livro para deitar falação sobre uma situação que me incomoda. Dinheiro público deveria ser melhor fiscalizado. Ainda temos uma pancada de gerações pela frente, porém, antes de vermos moralizada a gestão pública no Brasil.

Gestão pública moralizada no Brasil? Acho que, enquanto lia o tal do negócio, andei bebendo...

Zahar Editora, 310 páginas  |  1a edição (2022)