"Tremembé", por Ullisses Campbell

quarta-feira, janeiro 14, 2026 Sidney Puterman


O autor hoje é figurinha carimbada na mídia. Presença recorrente em dezenas de podcasts que pululam no YouTube. Não à toa. É articulado, bem-apessoado, falante. Não se engane. Ullisses Campbell, com seus quatro "l", mescla fala macia com palavras duras.

Seus livros vendem aos borbotões. Tem até embalagem box, luxuosa, com o título "Mulheres assassinas" (Matsunaga, Flordelis e Richthofen, um trio matador), com 1.088 páginas. Na Amazon, a caixa está por R$ 142,00 (já com 45% de desconto) e a distribuidora entrega amanhã. 

No Prime Vídeo, Campbell faz sucesso com a série "Tremembé". Em uma produção caprichada, o elenco - selecionado buscando alta similaridade física com os condenados - oferece xaroposos dramas românticos ao telespectador. Homossexualismo a dar com o pau e carradas de ciúme.

O livro homônimo traz a essência do escritor. À Talese, coloca o leitor dentro da cena, oferecendo uma cornucópia de detalhes. Mesmo com objetivos comerciais, não lhe faltam esmero e arte. Obviamente o livro é um apanhadão. Se nos anteriores ele dedicava centenas de páginas a uma única criminosa, este "Tremembé" é uma van que vai e volta, cada hora com uma cambada diferente.

As estórias são mais curtas e os crimes ainda mais horripilantes. De vomitar.

Mas não menospreze o conteúdo. Como já disse outras vezes, Ullisses Campbell é mestre no ofício. Repórter, biógrafo, roteirista, é craque no texto e no timing; seus livros são obras técnicas de engenharia, com cada ripa e cada parafuso encaixados no lugar correto.

Em respeito aos seus leitores fiéis, Ullisses revisita de forma resumida a história das criminosas que já biografou. Richthofen, por exemplo, mal tem seu crime esmiuçado (todo mundo já sabe, né). Acompanhamos a fútil rotina da matricida, incluindo seus envolvimentos amorosos na faculdade.

Sagaz, o autor abre e fecha o livro sobre os encarcerados em Tremembé com duas estórias inusitadas e que, imagino, sejam desconhecidas da quase totalidade dos leitores. 

A primeira delas é a da Madre Maurina. É a única das narrativas a voltar décadas no tempo. E, juntamente com a estória que fecha a obra, ela e Matheus são os únicos já mortos. 

O capítulo de abertura é um tributo à coragem e à retidão da religiosa. Presa no interior de São Paulo no início da ditadura militar, foi torturada por meses. Negou até o fim da vida que houvesse sido estuprada. Mas, mesmo depois de solta, a Igreja a manteve no limbo, por considerá-la impura.

Madre Maurina comeu o pão que o diabo amassou, mas não dedurou ninguém. E, segundo o autor, ela sequer era uma subversiva. Apenas permitiu que estudantes (ligados a células terroristas) utilizassem uma das salas da instituição religiosa que dirigia, para estudos teológicos.

Bem, isso é o que eles alegavam. Na prática, imprimiam jornalecos e panfletos contra o governo militar e tramavam sequestros. Foram presos, a madre também, e os meganhas do porão fizeram toda a sorte de maldades contra a mulher inabalável, da estirpe de uma Agnès Humbert.

Nada adiantou. Foi trancada em Tremembé. Anos depois, acabou inocentada.

A partir daí, vem uma sucessão maldita de criminosos repulsivos e sem caráter, que mataram de forma covarde pessoas da própria família, que, paradoxalmente, os amavam: filhos, pais, etc.

Mãe que contrata selvagens para matar o filho gay a pauladas dentro da própria casa ou filha que contrata selvagens para matar os pais e o irmão, para roubar o carro e algum dinheiro. Mãe que prostitui a filha. Filho que simula assalto para matar o pai, como fez Gil Rugai.

O estuprador serial Roger Abdelmassih, que resenhei aqui há alguns anos (como o fiz também com outros facínoras condenados), permanece fazendo das suas na cadeia, simulando debilidades e alegando consentimento das mulheres que dopava, estuprava e engravidava.

Campbell publica um verdadeiro almanaque de gente da pior laia. Já virou best-seller.

O subtítulo, "o presídio dos famosos", ajuda a vender. Além das celebridades Richthofen, que mandou esmigalhar a cabeça dos pais, Pimenta Neves, que matou pelas costas a ex-namorada, e Matsunaga, que picou o marido em pedaços, estão lá o craque Robinho (condenado por relação sexual não consentida com uma albanesa em uma boate italiana), rei das pedaladas, e o herdeiro pernambucano Thiago Vieira, que tatuava as suas iniciais no corpo das mulheres que estuprava.

Todos viviam bem em Tremembé. Os dois últimos, certamente entre os mais ricos da prisão, compravam a vassalagem dos presos pobres. Rivais em prestígio, nenhum dos dois está mais lá.

Matéria publicada no portal da CNN de ontem, 13 de janeiro de 2026, atualizada às 8h05, afirma que ambos foram transferidos "porque a ideia é 'pulverizar' os presos em outras penitenciárias para que não haja mais um espaço batizado de 'presídio dos famosos' como Tremembé".

Será que o filão vai secar? Não creio. Ullisses Campbell está fadado ao sucesso. Seus editores sabem disso. Um splash na capa da primeira edição avisa: "O livro que deu origem à série. Vol. 1".

Vem mais por aí. O que não falta é criminoso. Campbell não deixará a história deles escapar.

Editora Matrix, 376 páginas  |   1a edição   |   2025

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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