"História da imigração no Brasil", por Luís Reznik

sábado, fevereiro 28, 2026 Sidney Puterman


O estudo organizado por Luís Reznik se debruça sobre as políticas migratórias - estimuladas ou coibidas - do Estado brasileiro ao longo de um século e meio.

Dividido em sete capítulos, cada um deles sob a responsabilidade de um historiador, o texto fatia o arcabouço étnico do país. A abordagem revela que o perfil e o volume dos fluxos migratórios foram sempre pautados pelo governo - com influência de latifundiários e empresários.

O primeiro capítulo, de Lená Menezes, introduz o tema do livro. O viés é protocolar.

O segundo capítulo, de Marieta de Moraes, foge à abordagem mais generalista dos demais e ilumina um episódio. Fala de Nova Friburgo e conta como, em 1818, D. João VI, Rei do Brasil, investiu na importação de famílias de agricultores suíços, para, a título de experimento colonizatório, introduzi-los na região serrana do Rio de Janeiro.

Vale explicar melhor. O rei andava à cata de soluções para resolver um problema estratégico. É que, com as dificuldades impostas ao tráfico negreiro pelos ingleses, urgia encontrar alternativas para substituir a mão-de-obra escrava - até então o único motor da produção brasileira.

Esta primeira operação, denominada de "Tratado de Colonização", foi contratada ao suiço Sébastien-Nicolas Gachet, representante diplomático do cantão de Fribourg. O diplomata se comprometeu com o rei a importar 100 famílias suíças, que seriam estabelecidas na antiga fazenda do Morro Queimado - a partir daí rebatizada como Nova Friburgo.

Tinha início um procedimento comercial que se estenderia por décadas e que se tornaria o principal vetor de imigração no país. Agenciadores estrangeiros, sob comissão, "vendiam" colonos ao governo brasileiro. A opção estava em voga. Era um produto fartamente disponível no mercado.

Em uma época em que o povo europeu enfrentava ciclos de fome, era fácil cooptar desesperados dispostos a enfrentar o desafio de se lançarem rumo aos trópicos desconhecidos.

Uma epopeia arriscada e insalubre, que se dava em padrões inaceitáveis aos olhos de hoje.

Em outubro de 1818, atendendo aos panfletos que diziam tratar-se de uma terra de "espantosa fertilidade", as inscrições foram abertas em Fribourg. Ao longo de nove meses, dois mil suíços se inscreveram. A maioria (57%) tinha menos de 19 anos. Entre os 20 e os 59 anos se situavam 42%.

Imagine duas mil pessoas deixarem todos os seus vínculos para trás e se meterem nessa aventura.

Os dois mil suíços que partiram em julho de 1819 foram minguando. A primeira etapa, até a Holanda, onde foram instalados em um acampamento precário, em terreno pantanoso, acabou na morte de 43 dos emigrantes. Durante a travessia, que durou quase cinco meses, morreram mais 311 candidatos a colonos, ou seja - quase 20% dos suiços jamais viu o Morro Queimado.

Chegando ao Rio, as famílias foram acomodadas em um mosteiro no fundo da Baía de Guanabara. Dali partiram para uma viagem de dez dias serra acima (hoje o percurso se faz em duas horas). Em 18 de fevereiro de 1820, Nova Friburgo foi fundada. Os imigrantes foram distribuídos em cem casas de pedra. Tudo sem: sem assoalho, sem banheiro e sem cozinha. As janelas eram sem vidros.

Nos primeiros cinco meses na nova cidade, morreram mais 131 suíços. Quase um por dia.

Este não foi necessariamente o procedimento padrão das operações de colonização praticadas no Brasil, mas é um exemplo real e pioneiro. Marieta destrincha o desenvolvimento inicial da Friburgo brasileira, com destaque para uma família específica, dando cores vivas ao relato.

No terceiro capítulo, Rui Aniceto e Julianna Costa falam do período compreendido entre 1830 e 1880, quando estima-se que mais de 400 mil imigrantes chegaram ao Império. Durante meio século, a questão da imigração foi ora contestada, ora celebrada. Subordinada a interesses políticos e comerciais, a situação era conduzida sob o prisma oportunista de cada ocasião.

É no quarto capítulo, por Paulo Cesar Gonçalves, que se estuda o grande boom da imigração no Brasil (e no mundo), com o Brasil recebendo 17% da Grande Emigração italiana no período que vai de 1876 ao início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Coube à Argentina 25% desse fluxo e aos Estados Unidos quase 60%, ficando os EUA com 871 mil dos 1,6 milhão de italianos emigrados.

A diáspora portuguesa inverte estes números em favor da América do Sul. Um milhão de portugueses emigraram de 1876 a 1914 - e 80% deles vieram para o Brasil, ao passo que somente 16% escolheram os Estados Unidos. Não só o idioma fazia do Brasil a opção natural, como o Estado brasileiro sempre foi extremamente receptivo a receber os emigrantes lusitanos.

Gonçalves abastece o leitor de números absolutos e percentuais. E mostra o valor pago pelo governo brasileiro aos importadores de imigrantes. Curioso é que o Brasil se esforçou para reduzir a imigração italiana - na escala da subvenção estatal no fim do século XIX, o mais valorizado era o imigrante canadense, seguido pelos "europeu", aí pelo "ibérico" e, por último, o italiano.

Mantega, Bolsonaro, Toffoli e Vorcaro, entre outros, podem dar substância a essa subapreciação.

O quinto capítulo, escrito por Paula Ribeiro, se dedica à imigração urbana no entreguerras - uma imigração espontânea, diferente da arquitetada e financiada pelo Estado e pelo poder econômico. São fugitivos dos conflitos e da miséria, em um momento em que o Brasil recebia a predileção dos estrangeiros, pois EUA, Canadá e Argentina estavam no auge das políticas restritivas.

Sem dispor de subvenção (oferecida aos portugueses, alemães, espanhóis, italianos e japoneses), desembarcaram aqui - sem convite - sírios, libaneses, armênios e judeus. Atente que estes últimos logo seriam impedidos de emigrar para o Brasil, por força da política hostil do governo Vargas (que é justo o tema do sexto capítulo, assinado pelo renomado historiador Fábio Koifman).

Aqui posso dar alguns pitacos e oferecer meu próprio exemplo familiar.

Fruto ostensivo da feijoada étnica que é o brasileiro, nunca procurei rastrear minhas raízes maternas portuguesas. Os nomes dos meus avós baianos, inequivocamente lusos (Braga, Cardoso e Carvalho) não dão margem à dúvida. Há ainda um "Quintanilha", ostentado com orgulho por minha mãe, que me faz supor ancestrais galegos ou espanhóis.

Por serem mais recentes no país e plenas de perda e sofrimento, são minhas origens judaicas que mais me atraíram a atenção. É gente chegada quase agora, no século passado.

A partida rumo ao desconhecido, cumprida por milhares de judeus do Leste europeu, me instigava a curiosidade. Fui ao Arquivo Nacional (recomendo), onde localizei farta documentação sobre a vinda dos meus avós poloneses para o Brasil (reproduzo parte destes documentos na ilustração do post).

Meu avô, Izrael Puterman, chegou antes das leis de controle racial da imigração terem sido implantadas no país. Se já estivessem em vigor, ele certamente não teria sido admitido. Vindo de Varsóvia, de onde partiu em dezembro de 1929, desembarcou do navio Formosa no pier da Praça Mauá em janeiro de 1930.

Minha avó, Cyrla, née Rawicz, só veio para o Brasil dois anos depois, em julho de 1932. Casaram, no civil, no mês seguinte. As leis restritivas estavam em debate. Se já fossem vigentes, Cyrla poderia se valer do mecanismo das "cartas de chamada" para imigrar (as leis aprovadas permitiam o ingresso de parentes de estrangeiros já residentes no país, desde que assinassem as tais cartas).

A racionália da legislação proibitória acreditava - ou pelo menos dizia acreditar - que os judeus jamais se deixariam assimilar pelo povo brasileiro. Me soa mais a repetição de um estereótipo arcaico.

Posso provar o que digo com a história da minha família. Ela não vale nem mais nem menos do que as outras, mas é um exemplo real - e se deu de forma oposta ao que o fazedor das leis dizia temer.

Meus avós polacos tiveram um casal de filhos. Um deles, meu pai polonês (ruivo, judeu), que casou com uma brasileira morena católica, paranaense, filha de meus avós baianos (ele, Durval, de uma tez árabe, e ela, Leopoldina, cor de jambo). Meus pais, por sua vez, tiveram dois filhos, ambos cristãos, ambos formados, que, por sua vez, tiveram cinco filhos. Todos brasileiros, cristãos e formados.

Nenhum deles judeu. Porque, ao contrário do que supunha a lei, no Brasil a gente se mistura.

Mas é importante frisar que o disparate de que os descendentes de emigrantes judeus não se tornariam tão brasileiros como qualquer outro brasileiro se constituiu indiretamente na condenação à morte de centenas de milhares de fugitivos - impedidos de emigrar, e que acabaram capturados pelos nazistas. Foram perversa e covardemente assassinados.

Koifman vai além e detalha as minúcias de um aparato legal construído para arianizar a população brasileira. Não preciso dizer a você que o projeto de nos embranquecer foi um fracasso - basta você andar pelas ruas das principais capitais do país, noventa anos depois, e constatar.

Meio ridículo ainda que o desejo de consumo do ibérico e roliço Getúlio tivessem sido os nórdicos - louros, altos e de olhos azuis. Em vão. Os vikings não se interessaram em vir melhorar nossa raça.

O sétimo e último texto é assinado pelo organizador da obra, Luís Reznik, e trata do menos debatido viés da imigração - aquela que se deu após a Segunda Guerra Mundial. Embora inclua o fluxo alemão, Reznik não entra no mérito de quantos dos emigrados eram suspeitos de crimes de guerra.

Teria enriquecido o estudo se mencionasse que, entre os imigrantes que recebemos, estava Josef Mengele. O facínora foi médico nos campos nazistas de extermínio. Fazia experimentos bárbaros (sem viés científico, somente crueldade doentia) com bebês vivos. Foi um sádico torturador de crianças inocentes. Mengele viveu por anos no Brasil, arrogante, incólume e impune.

Morreu tomando banho de mar em Ubatuba.

Se, em seu "História da imigração no Brasil", Reznik não considerou destacar a porção criminosa de uma das nossas últimas ondas migratórias, fica aqui minha humilde contribuição.

FGV Editora, 253 páginas  |  Copyright 2020  |  1a reimpressão 2022

Obs.: Um emigrado não alemão, mas letão, e famoso criminoso nazista, foi Herberts Cukurs. Há dois livros sobre ele postados aqui no blog - "O homem dos pedalinhos", por Bruno Leal, e "O cisne e o aviador", por Heliete Vaitsman. Ambos valem a leitura. A propósito, Cukurs foi quem introduziu os pedalinhos na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. Denunciado, fugiu. Foi caçado e morto pelos judeus no Uruguai.

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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