"Diaries of War", por Nora Krug
Nora Krug, alemã radicada em Nova York, escreve em "Diaries of War" sobre o primeiro ano da guerra entre Rússia e Ucrânia. Sua narrativa, à margem dos bombardeios, fala do impacto da guerra na vida das pessoas comuns. O livro, lançado nos Estados Unidos em 2023, repercutiu mundo afora, com trechos publicados (ainda em 2022) em jornais da Itália, Espanha, Alemanha e Holanda.
A autora, como em seu livro anterior, "Heimat", tem um formato próprio. Ela mescla suas ilustrações aos textos, que, por sua vez, nos são apresentados como páginas de diários - aqui, assinados por uma jornalista ucraniana e por um artista russo. As páginas pares cabem à primeira e as ímpares ao segundo. A proposta é um ping-pong, mas temo que o resultado seja uma leitura picotada.
A cada vez que o leitor engrena na narrativa e na ambientação de um dos protagonistas, ele é forçado a, digamos, reiniciar seu HD para se reinserir na outra estória. A semelhança entre ambos (aos nossos olhos tropicais) deixa tudo ainda mais confuso.
Pior: se com isso a intenção de Krug era nos oferecer simultaneamente duas visões distintas, com perspectivas antagônicas dos acontecimentos, não é o que se dá. Porque a ucraniana e o russo coincidem no seu repúdio a Putin, o presidente russo que ordenou a invasão da Ucrânia.
Assim, sob a ótica da geopolítica, se estão em lados opostos geograficamente, coabitam a mesma esfera sócio-política: ambos querem a paz, ambos abandonaram temporariamente seus países e ambos são contra Putin. Então, aqui, o "antagonismo" pretendido pela autora não se concretiza.
Tanto, que o russo, artista, se espanta com a posição do diretor do museu de São Petersburgo, o Heritage, que apoia a ofensiva de Putin: "We are no longer retreating, we've made a turn". O curador, enfático, diz que "we're all militarists and imperialists. Our country is changing world history".
Quando o responsável pela burocracia da arte tem um discurso de general, o negócio não tá bom.
Já a ucraniana registra que "today, Russia fired missiles at a crowded neighbourhood in Vinnytsia. A little girl was killed, and this news crushed me". E completa, dizendo que "the girl's mother survived the attack, but in hospital with multiple injuries. The doctors haven't told her yet that her daughter is dead".
Muito triste. Mas aqui sim há antagonismo: vemos que as semelhanças ideológicas não anulam as diferenças práticas. Se ambos fogem de Putin, ela foge das bombas, e ele do recrutamento militar.
São dois universos distintos de uma região cujos raros momentos de paz são um oásis em uma trajetória historicamente marcada por conflitos sangrentos. É um povo ao qual não faltam cicatrizes.
Além de expor o cotidiano dos protagonistas, Krug nos traz dados relevantes de como a população civil (que parecem comigo, com você, com nossos vizinhos) lidou com as ameaças do primeiro ano de guerra. A rotina dos filhos de ambos deixam claro que há questões funcionais com as quais lidar.
Independentemente de lado, são todos vítimas de um devaneio do presidente russo: a reconstrução do antigo império soviético. Para justificar a nova invasão da Ucrânia, ele seleciona as interpretações da história que lhe convêm. Mas o fato é que são mais de mil anos de povos misturados.
Por medida de segurança e proteção às respectivas famílias, os protagonistas não são identificados. K., a jornalista ucraniana, tem origens russas e judaicas, é casada, com um casal de filhos. A guerra a obriga a levar as crianças para Copenhagen, enquanto o marido permanece em Kyiv, pois homens entre 16 e 60 anos não podem abandonar o país. Isso faz com que ela se divida entre os dois mundos. Um de ordem e calma (a Dinamarca) e outro de perigo e privação (a Ucrânia).
"I recently spoke to my mother about our cultural identity", confidencia. "She considers herself Ukrainian, but she is really Russian-Jewish". Conta que os pais e avós foram criados na região do Volga, próxima à Ucrânia, e que o avô se referia a si mesmo mais como cossaco do que como russo.
O russo, D., é também casado, com dois filhos e com raízes judaicas. Nativo de São Petersburgo, nunca se sentiu confortável com o passado soviético e com as pretensões imperialistas de Vladimir Putin. Com a eclosão da guerra, temendo ser recrutado para o front, parte, sozinho, para a Turquia e dali para a França. Lá sofre com as dificuldades de adaptação, a distância da família e o preconceito.
"I don't have a clear idea of what Russian cultural identity means. I have Siberian and Jewish ancestors. I was born in the Soviet Union, but I grew up in Russia", diz. Que salada. "I feel as if St. Petersburg is my country", revela, enfatizando que, se alguém pergunta de onde ele é, fala que é de São Petersburgo, não da Rússia. É um estigma difícil de carregar Europa afora.
Para nós, brasileiros, muito distantes da realidade da guerra, o que temos é um breve recorte do momento inicial do confronto. Resilientes, tanto K. como D. imaginam que o conflito encerrará logo. Nós, que estamos em 2026, sabemos que não. A invasão completou quatro anos agora em fevereiro, e não há nada que indique que a guerra esteja próxima do seu termo.
Então é ainda mais melancólico acompanhar as expectativas que ambos os protagonistas de Krug mantêm. Crianças ucranianas que conseguiram emigrar crescerão no exílio. Mães expatriadas se moverão à reboque de sua prole. Homens seguirão para o front para se manterem moral e legalmente vinculados à própria pátria, vivos ou mortos.
A ânsia pelo retorno à vida normal não se mistura à ilusão de que uma paz duradoura seja possível. "For Ukranians to think that Russia will change if Putin dies is stupid", reflete a ucraniana. "Russia will be Ukraine's neighbour forever, whether we like it or not. And that scares me very much".
Este sentimento está enraizado em todos os povos da região. Ela comenta que "people who live in post-Soviet countries usually say that temporary things are the only things that are permanent".
A alegação divulgada pela Rússia para invadir a Ucrânia em 2022 foi a de "combater o neonazismo". Seria meritório. Mas, para alguns, isso soa hilário. Os neonazis lá se caracterizam mais pelos rituais antissemitas, um preconceito atávico compartilhado por russos e ucranianos.
"Ukraine never was a very open state because it was part of the Soviet system for so long, and the Soviet Union itself was anti-Semitic", explica K. "I've also witnessed many attacks on human right defenders, left-wing activists anda LGBT people by far-right groups". Às vezes a própria polícia era conivente. "Sometimes the police interfered, other times they didn't".
Estes grupos ucranianos não escondiam sua inspiração ("Some of the attackers wore tattoos of swastikas and Adolf Hitler"), o que coube como uma luva aos propósitos de Putin. "What Putin has done is blame those kinds of radicals to justify his aggression and Russia's invasion. He even accused our Jewish presidente of being a nazi", deplora.
Desde o fim do nazismo, em 1945, as pessoas passaram a tachar de nazistas aqueles de quem discordam ou simplesmente não gostam. "It will be difficult for people to acknowledge the fact that by supporting Putin, they actually supported a Nazi-like regime", avalia D., fazendo de Putin - que alega ter iniciado a guerra para impedir a retomada do "nazismo" - também um nazista.
É um xingamento prático. Aqui no Brasil também chamamos bolsonaristas e judeus de "nazistas".
Outra palavra muito em voga é "genocídio". Putin, acredite, atribuiu aos ucranianos um genocídio contra os russos. D. relata que o governo russo afirma que "the war didn't start last year, but in 2014 in Donbas, where a 'genocide against Russians' has been taking place ever since". Os russos, segundo Putin, não estariam "atacando" os ucranianos, e sim apenas "reagindo" aos genocidas.
D., ainda que fugitivo, sente no exterior o peso de pertencer ao país invasor. "I've been thinking about the idea of guilt", registra. "As a Russian, I feel guilty. At the same time, I'm against the idea of collective guilt because I think that collective guilt stops you from confronting your personal guilt".
Sei não. Ele elabora um pouco mais o raciocínio. "Do I feel personal guilt? I don't know. I worked hard over the years to try to change my country by exposing it to the international art world". Vou passar essa.
Em outra ocasião, ele vai a um shopping center em Paris assistir a uma performance de artistas ucranianos, exilados como ele. Lidar com os depoimentos de quem tem prédios e escolas bombardeados agrava suas reflexões sobre culpa. Evita fitar os ucranianos nos olhos.
Interminável, a guerra iniciada quatro anos atrás no Leste Europeu se cruza com a guerra atual entre Estados Unidos e Irã. A funcionalidade dos armamentos iranianos já era, então, determinante. "Russia recently started using Iranian Shahed drones to attack Ukraine", denuncia K. "These drones are simple and stupid, but unpredictable, and it's very hard to shoot them down".
Como fica claro pelas inúmeras convergências, seria uma obra "datada" se a guerra já tivesse acabado; porém, como a guerra segue de vento em popa, já em seu quinto ano, o que temos em "Diaries of War" é um recorte prático das expectativas de seus habitantes nos meses iniciais do conflito. Ainda viria muito pela frente - mas nem a autora, nem os personagens, sabiam disso então.
O livro de Nora Krug é, como outros relatos de guerra, atemporal. É um almanaque didático sobre agressão e sobrevivência, sobre gente comum vendo bombas explodir apartamentos.
Ten Speed Graphic, 128 páginas | 1a edição | Copyright 2023
Obs.: Em uma das fotos que ilustram o post, à direita, um homem carrega o caixão branco de uma criancinha morta. Por alguma razão, criancinhas ucranianas mortas suscitam pouca reação por aqui.

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