"90 minutos em Entebbe", por William Stevenson

terça-feira, abril 07, 2026 Sidney Puterman


Há meio século, a União Soviética e o mundo árabe comemoravam a ousada ação terrorista que sequestrou o vôo 139 da Air France. Mais um - em uma época recheada de sequestros aéreos. Havia, fácil, mais de um por mês. A autoria desta ação foi reclamada pela Frente Popular para a Libertação da Palestina e pelas Células Revolucionárias (Revolutionäre Zellen) da Alemanha.

Apenas para citar alguns números: entre 1961 e 1972, 159 aviões tinham sido sequestrados nos Estados Unidos. No Brasil, no período de três anos, de 1969 a 1972, quinze aviões foram sequestrados. Um único Boeing 707, da brasileira Varig, foi sequestrado três vezes em seis meses.

As vítimas se contavam aos milhares. O Boeing 737 sequestrado pelo Exército Vermelho Japonês caiu em Singapura, com mais de cem vítimas fatais. A Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) explodiu uma bomba no vôo da Swiss Air em 1970, matando 47 pessoas.

Ou seja, não havia dúvida sobre o grau de periculosidade dos sequestradores.

Entre os 248 passageiros do vôo sequestrado, o AF139, havia 106 cidadãos israelenses. O vôo partira de Tel Aviv rumo a Paris no dia 27 de junho de 1976. Os sequestradores aproveitaram para embarcar durante a escala em Atenas, com um estoque graúdo de pistolas e granadas a tiracolo.

Mesmo sendo os sequestradores bandidos internacionalmente fichados, o embarque foi tranquilo.

Sei como é lá. Eu estive no aeroporto de Atenas vinte anos depois, em 1995, e o lugar parecia uma rodoviária do interior. Segurança zero. A esteira para retirada das malas era já na beira da rua, com absolutamente ninguém do aeroporto para fiscalizar. Uma verdadeira zona.

Já no ar, os terroristas se apresentaram à tripulação (com os gritos e as ameaças de praxe, todo mundo quieto, vou explodir isso aqui etc) e o avião foi desviado para Benghazi, na Líbia, onde reabasteceu. Dali seguiram viagem para o aeroporto de Entebbe, na Uganda. Seu destino final. 

O sequestro ganhou as manchetes do planeta. A exigência anunciada foi a libertação de 53 terroristas presos em Israel (40) e na Alemanha, França, Suíça e Quênia (os demais treze). O prazo dado foi o do dia 1o de julho. Caso contrário, explodiriam o avião, com os passageiros dentro.

Festa no deserto.

A moçada favorável à ação terrorista estava certa em comemorar. A situação era muito complicada para ser revertida. Uganda, no coração da África, era praticamente inacessível. Era governada por um ditador, com estreitos vínculos políticos com os árabes e, particularmente, os palestinos. Seu exército havia dizimado a oposição e matado dezenas de milhares de civis. 

O prazo dado era exíguo e, face à logística, o cativeiro parecia inexpugnável.

Em êxtase com a visibilidade global alcançada, o auto-intitulado Marechal de Campo Doutor Presidente Idi Amin Dada, Presidente perpétuo da República de Uganda, desfilava entre os presos. Ainda que coiteiro dos terroristas, pretendia ser exaltado como o "mediador".

Vaidoso, no dia 2 de julho viajou para Maurício, para "abrir a 13a sessão da Assembleia dos Chefes de Estado da Organização da Unidade Africana" e desfrutar do boost na sua popularidade. Como disse o ministro do Exterior de Uganda, Juma Abdullah, o "Presidente Amin aproveitou a oportunidade para explicar aos seus colegas todos os esforços que fizera para a liberação dos reféns".

Amin, que nas aparições se dizia candidato a salvar os judeus dos terroristas, era um declarado admirador de Adolf Hitler, o ex-cabo austríaco que promoveu a morte de 60 milhões de pessoas (e que, quando viu a si mesmo em perigo, entrou em pânico e se suicidou dentro de um bunker).

Stevenson cita um discurso na ONU em que Amin "aplaudiu publicamente o assassinato dos atletas israelenses e exigiu a extinção do estado de Israel". O presidente de Uganda "não apenas louvou Hitler pelo massacre de seis milhões de judeus como ainda propôs que lhe fosse erguido um monumento".

O ódio de Amin a Israel talvez possa ser explicado de forma mais prática. Uganda havia se beneficiado da política externa israelense nos anos 70, marcada pelo suporte humanitário e tecnológico às nações africanas. Israel desenvolveu a aviação aérea do país e fez o treinamento dos seus pilotos. 

Amin, que tinha pretensões maiores na África, queria mais, e pleiteou aviões de caça supersônicos (negados por Israel). Em seguida, disse que mandaria um ugandense à Lua e se indispôs com a Tanganica. Resolveu bombardeá-la, contando com o apoio israelense - que, obviamente, tirou o corpo fora dessa roubada, e pôs fim à lua-de-mel diplomática com o ditador maluco. 

Enfurecido, Amin se voltou para a União Soviética, que ficou bem satisfeita em fornecer seus Migs. A partir daí, o Marechal de Campo Doutor Presidente Idi Amin transformou-se em um entusiasta da causa palestina. "Mais de trezentos palestinos foram nomeados para cargos públicos antes ocupados por asiáticos", diz o jornalista.

Uganda, então, virou um enorme campo de treinamento para o terrorismo profissional. O desvio do AF136 para Entebbe era o corolário de um grande esforço para estar no centro dos acontecimentos. Idi Amin estava radiante.

(Apenas para ilustrar: nos anos 70, o exótico ditador da Uganda se tornara tão mundialmente midiático que, quando uma avalanche de milhões de pequenos besouros tomou conta do Rio de Janeiro, eles foram batizados aqui de "Idi amin". Duvida? Pergunte à IA.)

Com tudo isso dito, fica claro o êxito potencial da ação. O avião e os reféns estavam guardados pelo exército de Uganda, que ocupava o aeroporto por dentro e por fora. Após o pouso, os quatro terroristas que sequestraram o avião foram rebaixados a meros vigias. Uma equipe de alto escalão do terror, formada por árabes e palestinos, chegara para negociar e exercer o comando.

Foi feita uma seleção de passageiros, como nos tempos do nazismo. Judeus para um lado, não-judeus para o outro. Os não-judeus foram mandados de volta para casa, como um pretenso gesto de boa vontade de Amin, que dizia ter sido uma conquista dele perante os sequestradores.

Entretanto, os sequestrados não-judeus libertados foram essenciais na descrição 1) do local, 2) do posicionamento dos guardas e estado emocional dos terroristas e 3) da mise-en-scéne do "marechal".

Os sequestradores postergaram a deadline para o dia 3 de julho, domingo, às 11h da manhã. Ou os 53 terroristas que estavam na cadeia seriam libertados ou então os judeus sequestrados seriam executados. A ameaça era começar pelas crianças, uma a uma, até que as exigências fossem atendidas. Não era da boca para fora. Matar era com os caras mesmo.

Assim, estavam a um passo de uma vitória grandiosa. Para os terroristas, era por de joelhos o Estado sionista e dar liberdade aos seus chefes e companheiros. Para Idi Amin Dada, era o estrelato global.

Àquela altura, já havia uma semana que os judeus estavam confinados em um galpão no aeroporto, dormindo no chão, alimentados com carne estragada, sem água e sofrendo com latrinas entupidas. Diariamente, Amin cumpria o ritual de ir lá e responsabilizá-los pela própria situação, dizendo que era o país deles, Israel, que os prendia ali, ao não aceitar as exigências dos sequestradores.

Hipocritamente, se dizia protetor dos reféns, quando era, na verdade, carcereiro.

A diplomacia de Israel, por sua vez, estava em contato diário com o presidente de Uganda, em telefonemas sucessivos, pedindo para que ele não acoitasse os terroristas. Amin se fazia de sonso e se dizia solidário, mas impotente para persuadi-los. Israel teria que pagar o resgate.

Uma situação dramática. Libertar os 53 terroristas pedidos seria uma derrota e uma rendição. Tentar libertar os reféns seria uma ação de alto risco e poderia acabar em tragédia. Enquanto os políticos tentavam chegar a um acordo - sem um fiapo de luz no fim do túnel -, as equipes especiais do exército israelense, após três dias de treinamento exaustivo, já estavam na ponta dos cascos. 

Correndo contra o relógio, quatro quadrimotores israelenses, carregando algumas dezenas de soldados e um Mercedes Benz recém-pintado, alçaram vôo rumo à Entebbe na noite do dia 3 de julho de 1976. Poderiam ser chamados de volta a qualquer tempo; ou receberem no ar o OK para a missão.

As chances de terem êxito eram pequenas; mas a possibilidade de sucesso valia o risco.

Parafraseando a Wikipedia, esta que passou para a história como Operação Entebbe "é considerada por muitos especialistas como a missão de resgate mais complexa e perfeita de todos os tempos".

Confesso que eu já tinha escutado dezenas de vezes referências a esse sequestro. Volta e meia o tal "resgate em Entebbe" aparecia no meu radar. Mas jamais parara para ler a estória. Na verdade, o Oriente Médio nunca foi minha zona de interesse. Até um certo dia, dois anos e meio atrás.

O inominável 7 de outubro de 2023 fisgou minha atenção para o conflito entre israelenses e palestinos. Nunca me ative muito a um problema que eu, erradamente, julgava periférico. O ataque subumano do Hamas, porém, pareceu coisa de neandertais e eu quis entender melhor a questão.

Desde então, li, talvez, uma dúzia de livros sobre a região. Alguns deles já comentei aqui; pretendo comentar outros, mais à frente. Para diminuir minha ignorância, fucei quais autores eram mais respeitados. Tentei evitar os engajados e os panfletários. Acho que deu certo. Gostei do que li.

O rolo no Oriente Médio é um saco de gatos. É melhor delimitar uma linha do tempo e pular fora das abordagens maniqueístas. Mesmo com todo esse cuidado, é difícil entender esse pega-pra-capar.

Sob um prisma mais restrito, tudo começa a partir da resolução da ONU que estabelece a divisão do antigo Mandato Britânico da Palestina entre árabes e judeus, em 1948. A recusa árabe em aceitar a divisão desemboca na guerra aberta contra os 700 mil judeus nascidos e residentes na região.

A resistência dos judeus, apesar da sua precariedade militar, leva a um desfecho imprevisto - a vitória dos locais e à declaração do Estado de Israel. O evento é conhecido pelos vitoriosos como "Guerra da Independência" - e pelos derrotados como a "Grande Nakba". A grande catástrofe. 

A partir daí houve a guerra dos israelenses contra os egípcios, em 1956, a Guerra dos Seis Dias, em 1967 (dos israelenses contra os egípcios, sírios, libaneses, jordanianos e iraquianos), e a Guerra do Yom Kippur (assim chamada por terem os egípcios deflagrado a guerra no feriado sagrado anual dos judeus, o "Dia do Perdão"), em 1973.

A guerra no sul do Líbano, em 1978, também denominada Operação Litani, teve início após o atentado terrorista palestino conhecido como "Massacre da Estrada Costeira", que sequestrou e matou 38 civis israelenses, incluindo 13 crianças.

É a partir daí que a desproporção de forças entre Israel e seus vizinhos se torna evidente. Israel deixa de ser um pobre-coitado, sempre sob ameaça de linchamento pelos árabes ao redor, e passa a bully.

A ofensiva israelense visava estabelecer uma linha de proteção entre Israel e as forças terroristas da OLP (Organização pela Libertação da Palestina), que se valiam do Líbano para lançar ataques terrestres e de mísseis contra o território israelense. Após empurrarem os terroristas para trás do rio Litani, um acordo de paz foi celebrado entre Israel e a OLP. 

O conflito, entretanto, não ficou suficientemente bem resolvido (como não ficara nos trinta anos anteriores e também jamais ficaria, como temos acompanhado no meio século seguinte). Em 1982, Israel novamente invadiu o Líbano, para combater os terroristas palestinos. O país enfrentava o caos e a guerra civil.

Após diversas guerras, a década de 70 e o início dos anos 80 remodelaram o conflito árabe-israelense. Se o bully, Israel, conquistou supremacia militar, o acossado, o palestino, contava com o efeito surpresa em ataques surgidos do nada, no meio das cidades israelenses.

O novo front era protagonizado por terroristas armados, à paisana, contra civis desarmados (incluindo mulheres, velhos e crianças) e alheios à proximidade do perigo. O embate soldado a soldado ficara no passado. Na nova contabilidade do terrorismo, o que valia era a quantidade de defuntos.

Foi espremido entre esse monte de eventos, entre a Guerra do Yom Kippur, em 1973, e a Operação Litani, em 1978, que ocorreu o sequestro do vôo 139 da Air France.

Quando o assunto foi mais uma vez mencionado em um dos livros que lia, encasquetei - como é que Israel conseguiu resgatar os sequestrados no meio da noite, trancafiados em um galpão no coração da África, cercados por fanáticos sanguinários, perdendo apenas um soldado e quatro reféns?

Foi aí que fui buscar na internet livros que me contassem essa estória. Optei por "90 minutos em Entebbe" pelo ano da publicação. Só achei no sebo. Foi publicado em 1976, no próprio ano do sequestro. O autor era um reputado jornalista britânico-canadense, que lançou o livro semanas após o evento, certamente visando faturar enquanto o assunto ainda estava quente nos jornais.

Isso trouxe algumas desvantagens na concepção do livro, que parece uma colagem feita às pressas de uma série de depoimentos e versões. Parece, não; é. O autor vai e vem na estória, mistura diários, matérias de jornal, relatos diplomáticos e o próprio conhecimento. O livro é uma colcha de retalhos. 

Essa "colagem" poderia dar certo, se fosse mais bem organizada. Não foi. O jornalista tinha nome, background, e os relatos eram verdadeiros. Bastava. Tinha ainda as transcrições dos debates da semana seguinte na ONU e a transcrição integral de três telefonemas entre o coronel Baruch Bar-Lev e o presidente Idi Amin. O editor juntou tudo e mandou para o prelo. 

O fato é que, ainda que Stevenson tenha tido livre acesso a interlocutores de peso, o resultado ficou longe do ideal. Jogaram para o leitor a responsabilidade de fazer seu próprio rearranjo mental dos fatos narrados.

Funciona, mas não é o que se espera de um (bom) livro-reportagem.

É verdade, admitamos, que qualquer coisa produzida no calor dos acontecimentos terá sempre suas lacunas. E que o texto mais bem pesquisado (e melhor burilado) da atual indústria editorial está léguas à frente do que se fazia, nesse mercado, nos anos 70.

Ou seja, deficiências à parte, a obra tem seu valor. Sendo contemporânea dos fatos que descreve, não está contaminada pela obtusa politização ideológica das décadas posteriores.

O frenesi mundial por aquela que foi batizada "Operation Thunderbolt" gerou uma vasta quantidade de filmes, entre produção de ficção e documentários. O "Victory at Entebbe", produzido em 1976 para a ABC TV, reunia no elenco Burt Lancaster, Elizabeth Taylor, Anthony Hopkins, Linda Blair, Richard Dreyfuss e Kirk Douglas - uma constelação dos mais populares e bem pagos astros da época.

"Raid on Entebbe", produzido em 1977 para o cinema, trazia Charles Bronson (a grande estrela dos anos 70), além de Peter Finch, James Woods e Martin Balsam, entre outros. 

Por conta do heroísmo, das dificuldades e do sucesso quase absoluto da operação, as telas continuaram recebendo uma série de produções, entre elas a mais recente "7 days in Entebbe", de 2018. O elenco é internacional e o diretor é brasileiro - José Padilha, famoso pelo seu "Tropa de elite".

Antes de ver os filmes, porém, quis ler a estória detalhada do que aconteceu. "90 minutos em Entebbe", do jornalista William Stevenson, me permitiu entender, ainda que precariamente, filigranas do que se passou. Não me satisfez (ainda), mas trouxe um conteúdo robusto.

Como não é ficção, não tem spoiler, né? então tô liberado pra contar o fim dessa estória.

Na noite de 3 de julho de 1976, os quadrimotores dos judeus pousaram no velho aeroporto. Da barriga dos cargueiros saíram uma Mercedes e vários Land Rovers, entulhados com os melhores atiradores do exército de Israel. Quando se aproximaram dos soldados que protegiam o galpão, passaram os caras no fogo antes de darem boa-noite.

Os sequestradores nem de longe sonhavam que aquilo pudesse acontecer. Ninguém, aliás. Foram surpreendidos com o tiroteio que acontecia em meio à escuridão. As tropas de Israel invadiram a velha sala de embarque sem dó, mandando bala em todo mundo que estava em pé.

Tiveram a presença de espírito de gritarem em hebraico para os reféns se jogarem no chão.

Os sequestradores não foram páreo os invasores. Depois de eliminar os terroristas, o comando deu ordem para que os reféns fossem para o avião. A contar entre o pouso e a decolagem do aeroporto de Entebbe, toda a ação tomou 55 minutos - um minuto a mais do que o previsto nos ensaios.

Enquanto isso, o marechal doutor presidente dormia o sono dos anjos. Foi acordado, porém, às duas da manhã, por mais um telefonema de Israel. Acordou irritado. Do outro lado da linha, o israelense Bar-Lev tranquilizou Idi Amin: "Liguei somente para agradecer sua cooperação, presidente". 

O corpulento ditador de Uganda (1,93m, 140 quilos), balbuciou, sem entender do que se tratava. "Com o que ele tinha cooperado?" perguntou. Pediu explicações, mas o judeu desligou. Essa iria ser uma desconsolada madrugada para Amin e seus besouros homônimos.

Os reféns foram recebidos com festa em Israel. O sucesso da operação Thunderbolt foi estampado em todas as manchetes do mundo ocidental. Já os árabes acusavam, indignados, a inaceitável violação da soberania ugandense, que teve seu território invadido, seus aviões destruídos e seus soldados mortos.

"A África não pode permitir que uma parte do seu solo seja usada pelos sionistas de Israel para atacar um país irmão", disse, uma semana após, o ministro do Exterior de Uganda, no plenário da ONU. "Israel mais uma vez demonstrou sua qualidade de banditismo e de barbarismo".

O ministro ugandense foi enfático ao condenar Israel por ter resgatado os israelenses sequestrados. Condenou "a agressão de Israel" como sendo "bárbara, não provocada e injustificada".

A Somália fez coro com a Uganda. Hussein, seu representante, insistiu para que "o Conselho condene em termos os mais fortes possíveis o regime sionista de Tel Aviv pelo incrível ato de agressão cometido contra o povo e a o governo da República de Uganda".

Os principais jornais do planeta acompanharam a evolução dos acontecimentos. Em 1o de julho, assim que parte dos reféns foi libertada, a Associated Press informou que "os reféns recentemente liberados pelos sequestradores de um avião da Air France disseram que, quando pousaram em Entebbe, já havia quatro árabes bem armados aguardando no aeroporto".

Le Monde ratificou o fato na edição de 5 de julho. Na pista do aeroporto "vieram ao seu encontro, logo depois do avião haver descido, quatro ou cinco palestinos com metralhadoras".

A edição do New York Times do mesmo dia publicou que "fontes oficiais e os passageiros liberados declararam hoje que tinham provas de que o Presidente Amin estava em conluio com os sequestradores do avião depois que ele desceu em Uganda". 

Complementa ainda o NYT que nas "primeiras 24 horas depois da chegada em Entebbe, os sequestradores foram embora para descansar e os soldados ficaram tomando conta dos reféns".

Também no mesmo dia o Washington Post publicou que "os 148 passageiros não judeus liberados disseram que viram Amin abraçar o chefe da quadrilha e que os quatro terroristas haviam saído deixando os reféns entregues à guarda de soldados durante 24 horas".

A transcrição dos debates na ONU toma quase quarenta páginas do livro de Stevenson. Nela, o nome da passageira Dora Bloch é mencionado dezenas de vezes. Dora foi a única refém não resgatada. Ela, uma senhora idosa, viajava com seu filho adulto, para ir ao casamento do seu outro filho. Passou mal no cativeiro e foi levada a um hospital. Não estava no aeroporto no momento da ação.

Chaim Herzog, representante de Israel, questionou o governo de Uganda sobre o seu paradeiro e sobre sua cumplicidade com os sequestradores:

"Por que não soltou Dora Bloch, uma senhora de 75 anos, logo depois dos terroristas terem sido eliminados? Por que ela foi retida em custódia no hospital sob a guarda de soldados em Kampala? Por que não a entregaram ao Cônsul da Inglaterra, quando ele a procurou no domingo, 4 de julho, depois da operação de resgate?"

"Por que, de repente, somos notificados que as autoridades de Uganda não sabem do seu paradeiro quando ela foi retirada resistindo e gritando por quatro funcionários do hospital?", questionou veementemente Herzog, escalando o tom.

"Aqui nós temos esse espetáculo incrível e macabro de um estado declarando guerra a uma senhora de 75 anos", acusou o representante israelense. "Um estado que encontra apoio presumível naqueles que se associam com esse comportamento desprezível e covarde".

O representante de Uganda rechaçou as acusações. "Ela foi devolvida para o prédio do aeroporto de Entebbe na noite de sábado, 3 de julho. Só Israel sabe responder onde está Dora Bloch".

O New York Times, porém, publicara em 9 de julho que "na Câmara dos Comuns da Inglaterra, ontem, um ministro do governo disse que Dora Bloch fora visitada no hospital por um membro da Alta Comissão no dia seguinte do ataque de Israel", o que desmentia a versão do ministro de Uganda.

"O diplomata informou que Dora Bloch estava sob as vistas de dois homens em trajes civis e quando voltou uma hora depois não lhe permitiram mais que a visse", prosseguiu o artigo do NYT. "Pessoas do Hospital Mulago informam que seus registros mostram a entrada de Dora Bloch na última sexta feira, mas nada dizem quanto ao seu tratamento ou alta do hospital".

À época, dias após a operação, havia a expectativa que Dora Bloch fosse libertada com vida - o que jamais aconteceu. Consultando hoje o Google, a informação oferecida é que "uma refém idosa, Dora Bloch, que tinha sido levada a um hospital em Uganda antes do resgate, foi assassinada por ordem de Idi Amin como retaliação após a operação israelense".

Durante os quatro dias de debates na ONU, o paradeiro de Dora Bloch permaneceu desconhecido.

O presidente da Somália, Jaalle Mohamed Siad Berre, telegrafou então a Idi Amin, chamando os israelenses de "terroristas". Disse ele ter acompanhado "com grande choque e assombro o sujo ato de agressão perpetrado por tropas dos sionistas de Israel, terroristas e imperialistas, em Entebbe". 

Chamou ainda a operação de resgate dos reféns de "bárbara" e um "arrogante insulto à dignidade da África e da humanidade". Fez questão de destacar que o resgate dos sequestrados "contraria todas as normas de comportamento e conduta internacionais".

O presidente somali intitulou Uganda como "amante da paz" e que o país não teria sido o primeiro "cuja integridade e soberania territorial foram violadas pelo arrogante regime racista de Israel".

Siad Berre invoca que "todos nós lembramos das ocasiões em que o mundo esteve à beira de uma guerra total devido ao descarado comportamento do regime sionista no Oriente Médio e ao seu completo desprezo pelo direito internacional". Atribui à Israel uma "sinistra mentalidade".

Posteriormente, a ação "sinistra" seria rebatizada de "Operação Yonni", em homenagem ao único soldado israelense morto na ação. Militar experiente e intelectual admirado, seu nome completo era Yehonatan Netanyahu. Seu irmão, Benjamin, vulgo "Bibi", se tornaria o Primeiro-Ministro de Israel.

Mas aí já é outra história.

Editora Difel, 223 páginas  |  4a edição, 1977  |  Copyright 1976  | Tradução  Luiz Corção




Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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