"O cadete e o capitão", por Luiz Maklouf Carvalho

Reconstituição histórica de um período emblemático da biografia de Jair Bolsonaro, hoje Presidente do Brasil: seu julgamento, no fim dos anos 80, por suspeita de participação em um plano terrorista. A ação, batizada de "Beco Sem Saída", planejava a detonação de bombas em locais estratégicos do Rio de Janeiro, incluindo instalações militares e a Adutora do Guandu, interrompendo o abastecimento de água da cidade. O esquema foi denunciado e abortado, sendo alvo depois de uma investigação do Exército. Perante o tribunal, Jair Bolsonaro se disse inocente. Foi absolvido por 9 a 4 em uma sessão secreta. Mas há quem até hoje questione o veredito. O livro que se propõe a dissecar o assunto, "O cadete e o capitão", está desde a semana passada em pré-venda. O autor é Luiz Maklouf Carvalho, jornalista com títulos de peso no portfolio. Eu, curioso incorrigível, já encomendei e recebi. E já li. Maklouf organiza um painel provocante. Nele, o leitor interessado encontra conteúdo valioso não somente sobre a operação terrorista não consumada e seu respectivo julgamento, como também convive com as nuances da personalidade do então militar e futuro político Jair Bolsonaro - indo desde a infância até o encerramento do seu ciclo nas Forças Armadas. Para remontar aos primórdios da linha do tempo do capitão, Maklouf se vale de diversas passagens da obra "Bolsonaro: mito ou verdade", escrita pelo seu filho, Flavio Bolsonaro. A edição assinada pelo Zero Um está disponível na Amazon desde 30 de dezembro de 2016 e hoje pode ser adquirida a R$ 25,20 mais frete. Antes que perguntem, adianto que não irá para a minha lista de compras. Esse não. Além do relato filial, Maklouf se vale do metódico registro militar para descrever os anos de Bolsonaro nas Agulhas Negras e também na caserna. Neste período, Cavalão (apelido de Jair entre os colegas) se destacou inúmeras vezes por seu arrojo e desempenho nos esportes. Além das conquistas na modalidade pentatlo militar, são atribuídos a ele dois salvamentos. No mais heróico deles, em 1985, Bolsonaro se apresentou como voluntário quando um ônibus da Cometa caiu no córrego do Vigário, na Serra de Araras. Segundo o tenente Djalma Antônio, do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, que havia sido seu instrutor em um curso de mergulho, Bolsonaro trabalhou no salvamento "durante dois dias seguidos, realizando mergulhos de até vinte metros, sem revezamento e em condições adversas." Resta claro que a performance física do atual presidente sempre foi digna de nota. Mas, como sabemos, não foi por seus dotes de atleta que Bolsonaro passou a trilhar o caminho da fama. É o que nos contam os capítulos mais encorpados, que abordam o artigo publicado em Veja e os preparativos do atentado. A partir deste instante, duas fontes se impõem: o material veiculado na mídia à época (uma pequena parte reproduzida aqui na ilustração do post), consubstanciando a narrativa, e a transcrição do inquérito e do julgamento, tanto no Conselho de Justificação, como no Supremo Tribunal Militar. Há talvez uma dúzia de depoimentos atuais, mas a grande maioria dos envolvidos não respondeu aos pedidos de entrevista do autor - incluindo Jair Bolsonaro e familiares. Compreensível. Além do corporativismo e do perfil já naturalmente reservado dos ex-colegas de farda, ninguém se sente confortável em falar de um processo antigo contra um presidente da República belicoso e no poder. Ou seja, para os perguntados o assunto é nitroglicerina pura. Ou trinitrotolueno (o popular TNT), que era o explosivo que o capitão planejou utilizar, segundo a Veja. O meticuloso trabalho do jornalista reconstitui os bastidores da publicação do artigo, que gerou a aproximação entre o militar descontente e a redação de Veja. O nome de Bolsonaro foi sugerido à direção da revista por José Carlos de Andrade, que chefiava a sucursal carioca. Entrevistado por Maklouf, Andrade ressalta que Bolsonaro "ainda era um total desconhecido fora da caserna, mas quem tinha fonte no meio militar sabia das insatisfações. O Clube Militar, intramuros, dava força aos protestos do jovem capitão. Ele já contava com o apoio  de generais de pijama, e não foi num repente que resolveu meter a cara. Eu acredito que tinha projeto para seguir na vida partidária." Aceito o convite, Bolsonaro entregou o artigo datilografado e recusou os setecentos cruzados a que teria direito pelo artigo. Após a enorme repercussão do texto, publicado na seção Ponto de Vista (e onde pela primeira vez ganhou destaque a expressão "Brasil acima de tudo", slogan do grupo paraquedista Centelha Nativista), Jair Bolsonaro foi preso por transgressão disciplinar e hierárquica e cumpriu 15 dias de cadeia. Apesar da detenção, não foi aberta sindicância, nem se tomaram depoimentos. O próprio Jair declarou que, depois da prisão disciplinar, voltou à sucursal de Veja em Botafogo para agradecer ao jornalista pelo artigo, complementando que alguns colegas "passaram a cumprimentá-lo mais efusivamente". O subcomandante de Bolsonaro no 8o GAC paraquedista, coronel Edson Bimbi, declarou ao autor: "Ele [Bolsonaro] falou comigo na segunda-feira, depois da publicação do artigo, ainda na adrenalina, perguntando o que fazer. Eu respondi: 'o teu caminho é a política'. O Bolsonaro era uma liderança carismática para os subtenentes, cabos e soldados. Vivia reclamando por melhores soldos e condições, mas não tinha eco junto aos canais hierárquicos superiores." Este desejo do capitão por melhores rendimentos já havia lhe valido algumas polêmicas. Uma delas teve origem um bom tempo antes, em 1979, quando pediu uma inusitada transferência do Rio de Janeiro para Nioaque, no Mato Grosso do Sul. O livro de Flávio Bolsonaro afirma que a transferência foi "motivada pelo desafio patriótico, por estar numa região de fronteira". Segundo uma reportagem recente do site G1, porém, "na cidade cuja principal atividade econômica é a produção rural, Bolsonaro também se aventurou como agricultor. Segundo José Cardoso, funcionário público, ele arrendou terras para plantar: 'Nós plantamos arroz, só que na época deu uma chuvarada, não deu para colher, e perdemos o arroz. Então ele 'fez a terra' de novo e plantou melancia (...), comemos muita melancia na época', diverte-se José, que cuidava da lavoura." Outro empreendimento do capitão aconteceu em 1983, quando aproveitou as férias para fazer uma viagem a uma região de garimpo, no interior da Bahia. A atitude não foi bem vista por seu superior, coronel Pellegrino, que então relatoriou: "Deu mostras de imaturidade ao ser atraído por empreendimento de 'garimpo de ouro'. Necessita ser colocado em funções que exijam esforço e dedicação, a fim de reorientar sua carreira. Deu demonstrações de excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente." Quatro anos depois, o coronel foi ainda mais incisivo, afirmando que tinha "bem presentes" os comentários pessoais de Bolsonaro "sobre lendas e histórias, sempre referentes à existência de ouro, pedras preciosas e outros valores no Vale do Ribeira (...), consistindo sempre em relatos fantasiosos sobre fortunas feitas da noite para o dia", concluindo que Bolsonaro voltou "desiludido e frustrado". A inquietação de Bolsonaro não pararia por aí. Onze meses depois do artigo, ele se envolveria naquela que é o tópico central do livro: a operação Beco Sem Saída. Também aí a revista Veja esteve no centro dos acontecimentos. A edição 999, da última semana de outubro de 1987, trouxe a matéria intitulada "Pôr bomba nos quartéis, um plano da ESAO", um box da notícia principal (nota minha: o autor Luiz Maklouf se confundiu com a grafia correta do anglicismo e escreveu boxe, sem que o revisor o tivesse salvo do erro; boxe, com e, é pugilismo, e box, sem o e, é um "texto entre fios, sempre em associação com outro mais longo", na definição do Dicionário de Jornalismo, disponível na internet). O texto mencionava o aumento de 110% dado aos militares pelo presidente José Sarney, e afirmava que ele "começou preocupado com generais" e que havia descoberto que "na área militar a palavra-chave é capitão". Em seguida noticiava a prisão de dois capitães do Exército na semana anterior, "por protestos contra os baixos salários que recebem" e de dois outros que "revelaram um plano para explodir bombas em instalações militares - sem machucar ninguém, mas deixando claro sua insatisfação com os soldos". Um capitão foi preso em Apucarana (PR). O outro capitão foi preso no Rio. O aludido box narrava que a repórter de Veja, Cassia Maria, foi à Vila Militar do Rio e conversou com alguns militares e suas esposas, que detalharam seu planejamento para explodir bombas em várias unidades no Rio, Resende e em outros quartéis do interior. O clima era de insatisfação com os vencimentos, com a cúpula do Exército e com a prisão do colega capitão. A reunião se deu no prédio número 865 da Avenida Duque de Caxias. Lá, quem revelou os detalhes da operação Beco sem Saída foi Lígia, mulher de um outro capitão. Após algum tempo chegou o capitão Bolsonaro, que, pouco depois, fez críticas ao general Leônidas Pires Gonçalves: "Temos um ministro incompetente e até racista." Perguntado pela repórter se pretendia realizar alguma operação nos quartéis, Bolsonaro brincou: "Só a explosão de algumas espoletas." Em seguida, nas palavras da própria repórter, "sem o menor constrangimento o capitão Bolsonaro deu uma detalhada explicação sobre como construir uma bomba-relógio". Ele foi enfático nas críticas ao comando: "Nosso Exército é uma vergonha nacional, e o ministro está se saindo como um segundo Pinochet." Impactada com a revelação do plano e se sentindo compelida a publicá-lo, Cassia Maria, atrás de mais detalhes, telefonou para Bolsonaro alguns dias depois, que desconversou: "Eu estou fora disso." Ainda advertiu a repórter: "Você sabe o terreno em que está entrando, não sabe?" Ela teria respondido: "Você não pode esquecer que sou uma profissional." Ou seja, após a revelação do plano na reunião com os militares, seguiu-se por telefone uma ameaça velada pedindo sigilo. A repórter não respeitou o pedido e publicou o que lhe foi dado saber ("a partir do momento em que se falou em bombas, achou que deveria participar o fato", disse ela em seu depoimento de 28 de dezembro de 1987 ao Conselho de Justificação do Exército). A divulgação feita por Veja dos planos para a realização do atentado fez com que Bolsonaro fosse chamado na noite de domingo ao gabinete do subcomandante da ESAO, onde, às 23h22, prestou depoimento por escrito, negando sua participação na operação: "Considero uma fantasia o publicado (...) Não tenho a menor intenção de fazer o relatado na revista (...) nego ter participado de reunião na casa do cap Fábio com a repórter Kássia (sic) tenho pouca, mas alguma experiência sobre repórteres e sei o real objetivo dos mesmos, que é no meu ponto de vista vender matéria, doa a quem doer (...) Desconheço o plano Beco sem Saída." Na quarta-feira, o Ministro do Exército, general Leônidas, saindo de uma audiência com o presidente José Sarney no Palácio do Planalto, afirmou dar total crédito ao "desmentido dos dois oficiais a quem foram atribuídas as declarações". Negou o ocorrido e tachou as informações da revista de "ficção". Veja rebateu o Ministro, oferecendo provas adicionais que incriminavam os capitães: "Bolsonaro e Fabio mentiram peremptoriamente (...), por escrito e de próprio punho (...). A revista então expôs o encontro em minúcias: "Entre os dias 6 e 21 de outubro, quando lhe confirmou (a Cassia Maria) a existência da operação Beco sem Saída, Bolsonaro encontrou-se com a repórter quatro vezes e queixou-se do comando, do ministro, do presidente e da vida (...). No dia 21 de outubro, quando exemplificava para Cassia Maria o que seriam as explosões de 'apenas algumas espoletas', destinadas a demonstrar a fragilidade do comando do ministro Leônidas e da autoridade do presidente Sarney, Bolsonaro foi didático. Desenhou um croqui em que apareciam as tubulações do que seria a Adutora do Guandu, responsável pelo abastecimento de água do Rio de Janeiro, e, junto a elas, colocou o rabisco de uma carga de dinamite detonável por intermédio de um mecanismo elétrico instalável num relógio." Após a publicação ter retrucado o Ministro e os capitães, Bolsonaro foi inquirido quatro vezes, dando início a um longo processo para apurar quem estaria mentindo - se o capitão ou se a revista. Confrontada com a negação, a repórter Cássia Maria levou ao Conselho de Justificação do Exército os croquis desenhados por Bolsonaro, ainda em seu poder, como prova das declarações dadas pelo capitão. Eu aqui discrimino os detalhes sobre as perícias das referidas provas, pois elas serão decisivas para a condenação, em um primeiro momento, e pela absolvição, ao final. Os croquis foram submetidos a exames grafológicos. Duas perícias foram inicialmente produzidas pelo próprio Exército e foram declaradas inconclusivas, ou seja, os peritos militares não tinham como afirmar que as letras existentes nos croquis realmente teriam promanado do punho de Jair ou não. Uma terceira perícia foi encomendada à Polícia Federal. Esta última afirmou que os croquis haviam sido desenhados por ele. Em seguida, houve uma revisão da primeira perícia, que recebeu elementos adicionais, chegando também à conclusão de que a caligrafia pertencia a Jair Messias Bolsonaro, o que comprovaria sua autoria dos croquis do atentado. Em uma movimentação audaciosa, Bolsonaro abriu mão do advogado e centrou sua argumentação de inocência baseado no conceito de in dubio pro reo. Alegou ele marotamente que duas perícias eram inconclusivas e que duas perícias identificaram como sendo pertencente a ele os esboços. Ou seja, 2x2. Empate. Mas era uma falácia, pois a primeira perícia havia sido retificada, e o laudo retificado apontou então Bolsonaro como autor. Sua enviezada argumentação, entretanto, multiplicava a segunda perícia por dois, onde uma era afirmativa e outra inconclusiva (portanto negativa), como se elas se auto-anulassem. Porém, apesar das cambalhotas retóricas do capitão, a matemática insistia em que, das três perícias, duas apontavam Bolsonaro como autor, e uma não dizia que sim, nem que não. Então, descartada a inconclusiva, o resultado das perícias eram dois laudos atestando a autoria dos croquis. O Conselho de Justificação, em sessão secreta, não se deixou confundir e decidiu por unanimidade considerar o capitão Jair Bolsonaro culpado das acusações. No texto de Luiz Maklouf, "O Conselho afirmou que Bolsonaro mentiu no depoimento da noite de 25 de outubro de 1987, mentiu durante todo o processo, na sindicância e no Conselho de Justificação, e 'revelou comportamento aético e incompatível com o pundonor militar e o decoro da classe, ao passar à imprensa informações sobre sua Instituição, sendo por aquela considerado com fonte." Veja comemorou em sua edição de 2 de março de 1988: "Leônidas conserta o erro - Ministro diz que Bolsonaro mentiu". Com a condenação unânime por parte do Conselho, o parecer foi remetido para o Superior Tribunal Militar. Mas lá a matemática foi literalmente outra, embora os números tivessem sido os mesmos. Em sua autodefesa, ao longo de 26 páginas Bolsonaro insistiu nos quatro laudos (que eram três, na verdade), com dois inconclusivos e dois afirmando que a caligrafia pertencia a ele (como já expliquei, só um era inconclusivo, de fato, pois o segundo inconclusivo havia sido retificado e se tornado o segundo conclusivo [complemento do laudo pericial no 58/87], ambos contra ele). Ainda que este detalhamento seja maçante, ele é vital para entendermos o cerne da questão, que, para mim, não são as bombas, e sim as técnicas de dissimulação empregadas por Bolsonaro para não se submeter às penalidades previstas em lei. E, no que tange a detalhamento, Maklouf foi insuperável: sua pesquisa atenta não dá margem a mal-entendidos. Por dezenas de páginas ele transcreve os áudios do processo no STM, os fác-similes, os votos de cada julgador, em um trabalho de pertinência histórica. Incluindo a defesa feita por Bolsonaro, que pediu a anulação do Conselho de Justificação por "gritante cerceamento do direito de defesa" e por ele não ter tido "ciência do conteúdo da prova pericial". Ao fim, o tribunal militar absolveu o capitão Jair Messias Bolsonaro por 9 votos a 4. Sintomaticamente, como num prenúncio da linha de defesa petista do início do terceiro milênio, quem foi verdadeiramente condenada foi a publicação que denunciou a trama, como finalizou o ministro relator do processo, Sérgio de Ary Pires: "Há tantas contradições, distorções e mentiras na duas reportagens, com o objetivo único de manter a credibilidade da revista, que causa estranheza que tais fatos não tenham sido percebidos." O relator discordou do veredito unâmime do Conselho, que teria considerado que "Bolsonaro mentiu durante todo o processo": "Este Tribunal discorda dessas conclusões do Conselho, (...) porque permanece duvidosa a autoria dos esboços (croquis)". Na transcrição do áudio de um outro voto absolvendo Bolsonaro, do tenente-brigadeiro do ar George Belham da Motta, Maklouf encontrou a pérola "peço permissão para demonstrar o que é essa revista Veja", onde o militar, seu assinante, denunciou a "má-fé" da publicação e encerrou: "Essa revista não vale o que come (...). Essa revista visa dar furo de reportagem e jogar uns contra os outros. Essa revista não é digna de respeito." O quarto voto a favor de Bolsonaro veio do almirante de esquadra Roberto Andersen Cavalcanti, que ignorou o capitão, ainda que o absolvesse, e condenou a Veja: "Mero sensacionalismo (...). É lamentável que se queira condenar um oficial baseado na veracidade de Veja." O general Erichsen da Fonseca seguiu o tom: "O confronto é entre Veja e o Exército, entre Veja e a estabilidade do governo." Esta última é, a propósito, uma frase sobre a revista que nenhum ocupante do governo brasileiro negaria entre 2002 e 2016, ainda que o governo fosse outro. Mas ninguém superou o relator, que se esmerou no seu discurso final: "Eu não guardo uma reputação condigna com esses homens de Veja. Já ouvi vários comentários sobre a procedência desses homens, sobre os seus objetivos, e na verdade não tenho uma opinião formada. Já me disseram que são judeus internacionais argentinos em busca de dinheiro. Outros dizem que são comunistas internacionais a serviço da subversão, outros dizem que são simples anarquistas. (...) Há dúvidas quanto à idoneidade dessa gente." Embalado por esta saborosa referência tão Protocolos dos Sábios de Sião (a famosa peça forjada na Rússia czarista um século atrás), agradeço o trabalho impecável de Luiz Maklouf, nos trazendo, três décadas depois de acontecido, os áudios e à íntegra do processo. Confesso que vi nesta antiga argumentação de Bolsonaro uma linha muito semelhante às declarações dele e dos filhos sobre o Fabrício Queiroz. O próprio sumiço do ex-assessor do filho lembra o sumiço de Rogéria Bolsonaro do grupo de mulheres que visitou a redação de Veja (em outra passagem divertida do texto de Maklouf, uma eventual presença da então esposa do capitão à sucursal foi veementemente negada, e seu reconhecimento praticamente impossibilitado, pois ela teria se transfigurado - cabelo, roupas, maquiagem - entre o dia da não comprovada ida à publicação ao dia da sessão em que compareceu no Conselho de Justificação). Toda esta cadeia de fatos pertence ao passado e seria totalmente irrelevante se o oficial inocentado não tivesse sido eleito presidente do País. Apenas três dos quinze julgadores de Bolsonaro ainda estão vivos (doze estão mortos e dois estão doentes, sem condição de dar entrevistas, segundo o autor). E o único dos componentes do julgamento do STM ainda apto a falar, o ministro togado Paulo César Cataldo, de 87 anos, respondeu negativamente à pergunta direta de Maklouf: "Não houve ali um combinado para livrar o capitão Bolsonaro?" Cataldo negou e se disse com a consciência tranquila. Reproduzo o autor: "No fim da nossa conversa, o ex-ministro comentou ser uma ironia do destino que aquele capitão julgado e absolvido por uma maioria expressiva tenha virado presidente da República'. 'O senhor gostou?', perguntei. 'Boa tarde', ele respondeu." O bem amarrado livro-reportagem de Luiz Maklouf traz insights úteis para os tempos atuais e achei valioso dedicar um tempo a contextualizá-lo, para aqueles que não dispuserem de tempo ou suficiente interesse para se dedicarem à leitura desta pesquisa que reputo de enorme relevância. Pelo retrospecto profissional de Luiz Maklouf Carvalho (ex-editor do jornal Resistência e repórter dos jornais Movimento, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e das revistas Piauí e Época), e também pela escolha do tema, sou levado a crer que o autor não comunga das mesmas crenças que o atual ocupante do poder - o que não diminui em nada a qualidade e credibilidade do texto e da pesquisa. Maklouf entrega uma apuração jornalística de primeira linha. Seria ótimo para o país se tivéssemos mais produtos investigativos desta monta. Um exemplo é o excelente "Celso Daniel", de Silvio Navarro (http://bit.ly/CelsoDaniel) ou o "Indefensável" (http://bit.ly/OGoleiroIndefensável), de Leslie Leitão, Paula Sarapu e Paulo Carvalho, ambos resenhados aqui no blog. Atente que não comparo os crimes apurados. São totalmente distintos os dois crimes bárbaros quando confrontados ao caso "Beco Sem Saída", que se revelou mais uma fanfarronada que qualquer outra coisa. Mas que conta muito, entretanto, sobre o atual mandatário do país - e, como cidadão, o país me interessa. Não só as grandes questões, que se impõem por seu tamanho, mas mesmo passagens menores da política têm significado relevante - afinal, por exemplo, qual foi o senador trapaceiro que votou duas vezes em Renan Calheiros na eleição de Davi Alcolumbre? Quem irá apurar? A casa ali é tão misteriosa e se move tão nas sombras que nem o próprio quis saber.

Editora Todavia, 253 páginas

"O Levante de 44", por Norman Davies

Norman Davies escarafuncha, nas mais de 800 páginas da sua obra monumental, a revolta de uma cidade contra um império. Uma briga de um chiuaua contra um urso. Pelo prisma bíblico, o clássico confronto de David contra Golias. Tipo de não ter como vencer. Atente que a descomunal desproporção de forças não era o único obstáculo - a situação era mais encardida. Tinha uma armadilha, alguém que prometeu (ou fez que) e não cumpriu. O sujeito oculto desta estória era um outro império, mezzo oriental, mezzo ocidental, pretensamente aliado, que injetou confiança nas veias mirradas do franzino combatente. Instigou o pobre, digamos assim, liliputiano. Insinuou que daria cobertura, mas era só o dom de iludir, como na canção de Caetano. Este segundo gigante, malandro, fingiu que ia, mas não foi, na prática sabotando o pequenino David. Deixou o moleque de calças arriadas e virado para o lado errado. Um péssimo negócio. Fosse uma fábula, poderíamos intitulá-la "Os Dois Golias contra Um Anão". Mas a edição venderia pouco, seria uma fábula amoral, perversa, porque o resultado final foi o sangrento estraçalhamento do anão. Sem uma gota de piedade. Fim da estória. Metáforas à parte, se podemos gracejar reduzindo esta passagem, das mais complexas da história recente, a um punhado de frases jocosas, seu verdadeiro desdobramento é uma mancha que envergonha a vitória aliada. Um cadáver no armário - ou, melhor, um milhão deles. Por mais deplorável que seja, contudo, a circunstância é valiosa para quem demanda compreender a história contemporânea. Reafirma que entre países não existem escrúpulos. Para quem não sabe (e eu durante muitos anos não soube), Varsóvia, já no fim da Segunda Guerra Mundial, após cinco humilhantes anos sob a tirania do ocupante nazista, se levantou contra o invasor. É um cisco no retrospecto da guerra, mas um tsunami na história da Polônia. Rebeldes precariamente armados desafiaram a máquina de guerra nazista. E, surpreendentemente, encontraram brechas na defesa alemã. Usando táticas de guerrilha urbana, atacavam onde os nazistas não esperavam e em seguida se evadiam. Emboscavam comboios maiores. Chegaram a provocar milhares de baixas. Alarmado, o comando alemão em Varsóvia convocou as forças especiais da SS. De pronto, nem elas conseguiram estancar a sangria. Tomou tempo. Se valeram da covarde estratégia de proteger suas manobras por meio de um escudo humano. Pasme: um cinturão formado por civis indefesos, que avançava na frente dos tanques alemães. Uma barreira viva de idosos, mulheres e crianças, para que os rebeldes poloneses fossem forçados a atirar em seu próprio povo, se quisessem atingir os soldados alemães. Durante oito longas semanas o combate tomou as ruas, porões e esgotos da capital polonesa. Mas era uma guerra impossível de ser vencida, sequer continuada. Após sessenta dias de bombardeios, não havia mais prédios ou porões. Os ataques aéreos nazistas esfarelaram o que restava da cidade. O Armia Krajowa - o Exército da Pátria, civis e rebeldes que lutavam com armas e uniformes roubados dos alemães -, se rendeu. A bandeira vermelha e branca com a kotwica (pronuncia-se kotvitsa) sobreposta, símbolo do AK, não foi mais desfraldada. Seus integrantes, os caídos e os sobreviventes, virariam lenda, se lhes tivesse sido permitido um lugar na História. Após o fim da guerra, este direito lhes foi vetado pelos russos. A verdade se tornou maldita. A narrativa do levante heroico se tornou um dogma. Qualquer relato que dignificasse a resistência era uma versão proibida. O país foi dizimado, moído e espezinhado e sequer pôde honrar seus heróis - sob pena de que quem o fizesse ganhar uma passagem só de ida para a Sibéria. Vou explicar porquê. Em meados de 44, os poloneses estavam esperançosos na libertação de Varsóvia pelo exército soviético. Não sem razão. É que, após também terem sido invadidos pelos nazistas, os russos vinham selvagemente atropelando os alemães. Desde o cerco de Stalingrado, os batalhões germânicos vinham sendo escorraçados das suas posições originais. Esgotados, famintos, os que não se rendiam batiam em retirada, mesmo contra as ordens de Hitler, para quem, parece, soldado bom era soldado morto. Os que não concordavam com o chiste, fugiam. Com isso, os russos ganhavam terreno, semana a semana. E, na velocidade em que vinham fazendo a Wehrmacht recuar, já se dava por favas contadas a entrada do Exército Vermelho em Varsóvia. Era uma grande notícia para os polacos - mas havia um porém. Russos e poloneses não se bicavam. Apenas um quarto de século antes, no início dos anos 20, tinham estado em guerra um contra o outro. Na eclosão da Segunda Guerra, em 1939, o território polonês foi partilhado entre russos e alemães, em um acordo que surpreendeu o mundo. Comunistas dos quatro cantos do planeta, que até a véspera maldiziam Hitler e incensavam Stalin, ficaram com o discurso entalado na garganta (passada a surpresa, logo arrumaram um catálogo de justificativas para o acerto, provando que o discurso ideológico sempre se adapta aos fatos). Vítima impotente, a Polônia foi dividida ao meio e cada fatia ficou em poder de um seu inimigo histórico. A sociedade do mal só terminou quando Stalin foi traído por Hitler. Também aqui abro um parênteses. O ditador georgiano foi acordado de madrugada com a notícia de que os alemães tinham invadido a Rússia. Incrédulo, mandou matar o mensageiro. Chegou um outro filípedes cossaco ao QG, com a mesma notícia. Atônito, o magnata mandou matar também o segundo mensageiro. A partir do terceiro, os mensageiros foram poupados. Em pânico, Stalin se trancou no seu gabinete por 24 horas, sem coragem de abrir a porta (assim diz a lenda). A Rússia demorou a se organizar. Seus combatentes mal armados morriam como moscas. O Exército Vermelho somente teve poder de fogo para combater os boches em pé de igualdade quando os EUA entraram na guerra e iniciaram uma bilionária operação de delivery de equipamento bélico. Lastreado pelo fornecimento luxuoso e ininterrupto, Stalin fez da população soviética bucha de canhão. Milhões de russos morreram em resistência kamikaze aos nazistas. Graças ao estoicismo soviético, ao rico suporte aliado e ao general inverno, o território russo começou a ser recuperado. Inclemente, Stalin - atenção, isto não é uma piada - matava os russos que tinham sobrevivido à ocupação. Na sua lógica, se o inimigo não os matou, só poderiam ser traidores. Em todo o tempo o raciocínio de Stalin foi matemático: havia ainda muitos russos para morrer e os alemães estavam acabando. O Exército Vermelho entrou na Polônia em perseguição às forças alemãs, que, acuadas, recuavam em direção à terra pátria. Varsóvia, porém, estava no caminho. E o polonês não queria a substituição de um invasor por outro. Por isso, organizou um levante, contra os ocupantes teutões, para fazer coincidir a batalha pela cidade com a chegada dos russos. Estariam no poder da própria capital, quando o Exército Vermelho cruzasse o Vístula na caça aos alemães. Ainda que em número e condições insignificantes para ousar combater o ainda forte exército nazista, civis e rebeldes poloneses atacaram. Visavam manter dois ou três dias de combate, tempo suficiente para os russos chegarem e mandarem tiro para cima dos alemães remanescentes. Só que isso não aconteceu. O Exército Vermelho parou do outro lado do rio. E ficou de camarote assistindo como o verdugo alemão iria reagir ao esquálido pigmeu polaco, que ousou chutar seu traseiro. O confronto desproporcional, previsto para durar um par de dias, durou um par de meses, graças à coragem e à habilidade do Exército da Pátria polonês. Mas que acabou tendo o fim lógico: o aniquilamento total de Varsóvia e da resistência polonesa. Só depois dos alemães exterminarem os poloneses rebeldes é que os russos cruzaram o rio e colocaram os alemães para correr. Visto sob este ângulo, parece um drama corriqueiro de rivais seculares. Só que a realidade foi muito mais cruel do que uma simplificação ginasiana. Sabe aquele tal dogma que mencionei há pouco? É que, passada a guerra, aconteceu o que os poloneses temiam. Os russos se apropriaram da Polônia e instituíram um governo títere, obediente a Moscou. A verdadeira estória do que se passou no levante - a fria e criminosa inércia russa - foi ocultada. Os russos inverteram os pólos da verdade histórica e determinaram que os poloneses que lutaram contra os alemães eram traidores da nação. Prenderam e executaram os oficiais sobreviventes. E durante décadas uma corajosa epopeia de resistência virou uma vergonhosa traição, na narrativa oficial. É esta estória que Davies trata de por em pratos limpos. E o faz magnificamente bem. Não alivia para o governo polonês no exílio, ainda que a Polônia seja sempre reverenciada e tratada pelo título de Primeira Aliada. Aborda de frente a grande questão histórica (lá para eles, europeus; aqui tudo isso é sumamente desconhecido): as forças rebeldes polonesas se precipitaram? haveria pretensões políticas de seus comandantes já visando o cenário pós-guerra? foi alinhavada corretamente a imprescindível costura diplomática que uniria os governantes exilados à liderança russa? Estas perguntas têm o dedo apontado para o comando polonês aquartelado em Londres. Mas, seguindo a cronologia da guerra, são premissas invalidadas pela movimentação russa nas coxias, pelo estímulo ostensivo dado pelas rádios soviéticas (governamentais, como tudo o mais por lá) na segunda quinzena de julho de 1944, conclamando o povo polonês a se sublevar contra o ocupante teutão. Evidencia que a decisão polonesa não poderia ter sido outra, senão confiar no apoio russo, que os convocava à luta. E os aliados ocidentais, Inglaterra e EUA? Como permitiram que a Primeira Aliada fosse trucidada? Por que não exigiram que o Exército Vermelho levantasse acampamento e cruzasse o rio, já que os alemães que eles vinham perseguindo e matando por quinhentos quilômetros estavam ali, a duzentos metros de distância? A vexaminosa resposta é que os Estados Unidos não estavam nem aí para a desimportante Polônia. Os ianques submissamente comiam na mão de Stalin, apesar dos esforços de Churchill em honrar as garantias que os Aliados haviam dado ao povo polonês. O gigantesco sacrifício em vidas humanas dos soviéticos concedeu ao manda-chuva russo todas as prerrogativas. Aos olhos dos norte-americanos, os russos mereciam ser recompensados. Por que não com aquelas vastas terras do Leste europeu? Os ingleses, dependentes tanto de Roosevelt como de Stalin, tentaram timidamente influir para salvar a Polônia. Em vão. Os russos ameaçaram derrubar aviões britânicos que tentassem pousar em solo russo, para daí partirem para dar suporte aéreo aos combatentes do AK. Exaurida, sem ajuda, a órfã nação polonesa tombou. Seus despojos foram reclamados pela União Soviética. Cada pormenor desse teatro de operações paralelo na Segunda Guerra Mundial é esmiuçado e debatido por Davies. Para quem se interessa pelo conflito, imperdível. O autor é brilhante na montagem deste quebra-cabeças decisivo para os anos do porvir. O mundo ganharia uma nova feição. Aquela Polônia que lutou a guerra estava morta. Finita. Porém, diferentemente da maioria dos relatos, que encerram com o término do evento principal, nesta obra o autor vai além. Segue a narrativa do Levante de Varsóvia nas décadas seguintes. Descreve como a sua história foi negada, apagada, condenada. Como seus sobreviventes foram aprisionados e mortos. Relata o longo vácuo até o momento da tímida aceitação da existência honrosa do AK, após a morte de Stalin. Acompanha seu resgate. Como, depois de tantos anos, os que morreram na luta pela libertação de Varsóvia tiveram seus nomes restaurados. O que até então era listado como criminoso se tornou épico. Enfim, era permitida ser contada a estória da cidade que enfrentou a temível máquina de guerra da Alemanha. Norman exalta o primeiro museu a celebrar a resistência polonesa ao invasor, inaugurado em 2004, sessenta anos depois do evento inesquecível. Hoje o Uprising Museum de Varsóvia é um dos mais comoventes museus da Europa. Minha foto nesta montagem foi tirada lá. Um gigantesco galpão imerso em sombras. Hoje o Levante é parte indelével da história da nação. E, quando eu falo hoje, é hoje mesmo. Hoje é o dia em que se completam 75 anos do Levante de Varsóvia. 1o de agosto de 1944 foi o dia em que o primeiro explosivo foi jogado contra um tanque alemão, e centenas de garotos envergando um simulacro de uniforme, muitas vezes apenas uma faixa vermelha no braço, dispararam tiros de garrucha contra nazistas entrincheirados em ninhos de metralhadora. Há quem até hoje chame de suicídio o Levante de Varsóvia. Pode ser. Me vem à mente a bela cena final do filme Butch Cassidy and Sundance Kid, quando Paul Newman e Robert Redford, totalmente cercados, saem detrás do cubículo em que estavam escondidos, armas na mão, contra duas centenas de mercenários que os tinham sob mira. Neste momento de ação, a imagem congela. O mundo para. Na minha recordação de guri, sobe a música, descem os letreiros. O filme termina. Toda a coragem e irreverência ficam eternizadas neste penúltimo segundo. O fuzilamento que se seguiria, inevitável, é um grito distante de "fuego!". Na eternidade do filme, os combatentes permanecem de pé. Na película, mesmo perdidos, os heróis jamais morrerão. Já as dezenas de milhares de rebeldes poloneses mortos não tiveram esta sorte. Morreram mesmo. Mas, após a leitura do soberbo O Levante de 44, ao fim de tantos dias de intensa convivência com o seu voluntário encurralamento, a imagem do seu heroísmo permanece congelada na minha memória. E este é um mérito que não pode ser negado à Norman Davies: o resgate de uma lenda. A epopeia de um povo que não se curvou. Bravo, professor. Que resgate. Ou, em uma outra palavra mais simples e definitiva - justiça. Antes três quartos de século depois do que nunca.

Editora Record, 862 páginas

P.S.: O lançamento é de 2006 e não foi reeditado. Consegui o livro num sebo, via site estantevirtual.com.br, pelo qual paguei R$ 30,00 mais R$ 19,00 de frete. O investimento do ano.

"Inverno na manhã", por Janina Bauman

O subtítulo - "uma jovem no Gueto de Varsóvia" - antecipa que será uma leitura doída. Então, ao ter o livro nas mãos, sinto um aperto. Normal. Sei que vou sofrer junto com a autora e com os personagens, todos tão reais como você e eu. Lógico que este sofrimento é retórico. Não estamos lá, naquele tempo. Sequer estávamos vivos. Mas, ao lermos, a distância evapora. Hipnotizados pelo texto, ao fim de cada frase tudo nos parece dolorosamente real. No capitulo seguinte, estaremos num labirinto, cercados por verdugos, com frio e fome. Escolado de outros livros, já sei como é. Sigo, página a página, revisitando as mesmas crueldades, a mesma vilania, a mesma sensação de impotência. Me escondo dos nazistas e vejo outros fugitivos perdendo tudo: amigos, família, saúde, dignidade, amor próprio. Sei que, impotente, terminarei o livro querendo permanecer unido àqueles que enfrentaram toda aquela ignomínia - os muitos mortos e os poucos sobreviventes. Mas isto não existe. Para nós, meros leitores, tudo acabará com a volta do livro para a prateleira. Nos resta pensar que é só uma velha estória de genocídio, dos tempos em que o mundo ainda era em preto-e-branco. Igual a tantas outras estórias de desgraça, durante os anos da carnificina alemã. Igual? nem tanto. Cada uma destas estórias, por mais semelhantes que sejam, tem uma personalidade ímpar e nos cativa. Se iguais por se tratarem de relatos de quem esteve por morrer inúmeras vezes, pelos mesmos algozes, são distintas porque cada uma revela ângulos e detalhes ainda desconhecidos da tragédia. Nos tomam de uma outra forma. A história de Janina Bauman é dessas. Descortina flagrantes de uma cidade que permanecia viva sob o domínio dos boches. Com Janina soube de uma vida social do gueto que eu desconhecia (espetáculos de música, restaurantes sofisticados, hortas coletivas; ainda que clandestinamente, durante um bom tempo quem pudesse pagar desfrutava intramuros de um cotidiano com luxo e regalias). Soube pelo livro da Varsóvia que desmoronou em etapas. Soube ainda da existência desta judia, cuja coragem à época faz dela exemplo para o protagonismo feminino de hoje. É o que nos oferece o livro. Nele, Janina conta em ritmo cronológico a sua história. Começa com a descrição dos tempos de criança, antes da guerra. Do seu particular estranhamento ao judaísmo. Da sua rotina de rica menina judia em uma nação antissemita, preconceito volta e meia referido, como quando ela conta, ainda no tempo de paz, sobre seus planos de ser ser médica, tal qual o pai: "Era difícil para qualquer um entrar na escola de medicina da Universidade de Varsóvia - para uma moça ou rapaz judeu, era quase impossível. Embora as universidades polonesas não tivessem chegado a adotar a exclusão total, havia não obstante uma clara restrição extra-oficial ao número de judeus admitidos como alunos, em particular nos cursos que formavam profissionais liberais, como medicina." Até o início da adolescência, Janina ainda vivia na sua bolha feliz, adaptada ao racismo belicoso da cultura local. A erupção da guerra, porém, desarticula o arranjo social. Seus imaturos olhos adolescentes testemunham a degradação da vida sob jugo alemão. Ressalte-se que o confinamento no gueto se deu em várias fases, não foi linear: por ainda alguns meses foi possível a Janina ter uma vida digna, enquanto assistia milhares de conterrâneos judeus morrendo de inanição pelas ruas do bairro murado. A partir daí, a piora foi rápida. Quando começaram as deportações em massa, o gueto já era o inferno. Já aí o cotidiano de Janina não era mais do que se esconder, procurar restos de comida, se esgueirar entre becos e prédios abandonados e escapar das patrulhas de execução. Nesse período assistiu a irmã de onze anos ser atropelada, por um caminhão alemão, pelo que lhe pareceu puro sadismo do motorista. Para alívio da família, após a ameaça de cegueira e amputação, Sophie sobreviveu, sem sequelas. Já então dignidade não era mais um sentimento cabível. O regime alemão havia transformado seres humanos em ratos. Ela mesma comenta: "Logo me acostumei a remexer as casas de pessoas mortas e até aprendi a tirar algum prazer disso. Sabia que a corrupção havia se infiltrado em minha alma e eu não estava dando a mínima." A deterioração das condições de vida no gueto - uma frase perversa, pois foi a queda do indizível ao inominável - é um ângulo importante trazido por Janina. Ela descreve o terror provocado pelas Aktions, as ações para captura de judeus no interior do gueto, para deportação para os campos de concentração. Ainda que vivendo em condições subumanas, as famílias tentavam se manter coesas e com expectativa de sobrevivência, dentro do ambiente de circulação vigiada do gueto. A partir de julho de 1942, entretanto, a administração nazista resolveu esvaziar o bairro murado onde viviam meio milhão de pessoas. As convocações voluntárias para que os judeus partissem em direção ao leste (sob promessa de trabalho e moradia, mas que eram na verdade uma farsa para conduzir os judeus cordatamente aos campos de extermínio) foram substituídas pelas Aktions. Estas eram blitze que apanhavam todos os judeus que estavam nas ruas do gueto e os levavam dali diretamente para os trens de deportação. As operações de caça duravam até que se atingisse a cota do dia. Isto fazia com que informações privilegiadas sobre os dias das Aktions corressem de boca em boca, levando as pessoas a não saírem ou a se esconderem nos dias de captura. Em semanas, porém, pela ausência de judeus disponíveis nas calçadas, as buscas avançavam pelos prédios, e, à medida em que estes iam sendo esvaziados, pedaços do gueto eram devolvidos à cidade. As possibilidades de permanência no gueto iam se extinguindo, restritas aos trabalhadores-escravos ainda considerados essenciais pelos alemães. Um ano depois, o bairro de aprisionamento dos judeus foi destruído, incendiado pelos nazistas. À custa das jóias e do tio motorista de ambulância - que morreu sem que Janina soubesse se era corrupto ou herói -, mãe e filhas se mantiveram à salvo da morte e da deportação. Mas o desmonte prosseguiu, e seu derradeiro ato foi o Levante do Gueto, onde, de 19 de abril a 15 de maio de 1943, rebeldes judeus liderados pelo jovem Mordechai Anielewicz enfrentaram e mataram centenas de soldados do Reich. Mordechai tombou em 8 de maio e o levante, desde o início utópico e suicida, foi debelado na semana seguinte. A resistência judaica teve colaboração de poloneses cristãos (versão sustentada por Julian Kulski em seu "A cor da coragem", livro recentemente resenhado aqui neste blog) e certamente inspirou o Levante de Varsóvia, que aconteceria no ano seguinte, em 1o de agosto de 1944 - tema de uma obra seminal de Norman Davies, que em breve comentarei aqui também. O cartaz que Janina vira no gueto no ano anterior (um folheto que dizia "Irmãos, não morram em silêncio. Resistam ao terror nazista. Vamos lutar."), assinado por uma tal ZZW, havia antecipado tanto a luta quanto a derrota. Em quatro semanas as forças especiais da SS carbonizaram os revoltosos. Dos escombros do gueto foi acionada a rede de auxílio a Janina, sua irmã e sua mãe. Mulheres abnegadas e corajosas ajudaram as três. Algumas por laços de família, outras por amizade ou caridade e algumas mais por dinheiro. A pequena célula familiar, constituída por três mulheres em fuga permanente, passou por mais de 20 esconderijos ao longo de seis anos, na Polônia ocupada pelos nazistas. Foram caçadas pela SS, confinadas no gueto, embarcadas em vagões de transporte, ameaçadas de estupro e escondidas em sótãos, porões, paredes falsas, armários, bordéis e em apartamentos de antigos ricos. Estiveram boa parte do tempo a um triz da descoberta e da morte. Exceção das exceções, sobreviveram - fazem parte do punhado de milhares de exceções em meio aos milhões de mortos. Sua fuga incessante conta muito da sina dos judeus e dos poloneses. O livro de Janina Bauman, née Lewinson, foi uma surpresa. Não esperava fosse tão bom, quer pelo conteúdo, quer pela forma. Pesquisando após a leitura da obra, descobri que ela se tornou jornalista e escritora, e que veio a casar com o famoso filósofo polonês Zygmunt Bauman. Talentosa, me fez procurar por outros livros seus. Um título que me despertou o interesse foi "A Dream of belonging: my years in Postwar Poland" (em tradução literal, "Um Sonho de pertencimento: meus anos na Polônia do pós-guerra"), mas está esgotado mesmo nos sites estrangeiros. Continuarei procurando, quero retomar minha vida com ela pelas ruas da Varsóvia arrasada. Conhecer seus pensamentos sobre a Polônia que sobreviveu ao Reich, mas não aos russos. Esta é a magia suprema da literatura: Janina partiu do planeta em 2009, mas eu ainda irei encontrá-la em 1945 e escutarei dela mesma tudo o que se passou. Aos meus olhos de leitor, viva.

Jorge Zahar Editor, 230 páginas

P.S.: Tirei a foto no Uprising Museum de Varsóvia, ao lado de um dos muitos painéis revivendo a capital polonesa do final dos anos 30. Um museu único, triste e sombrio.

"Entre amigos", por Amós Oz

Sempre ouvi falar bem de Amós. Um escritor com a reputação de pacifista. Um judeu nascido em Israel que pregava o entendimento entre árabes e israelenses. Partiu há pouco do planeta, pranteado por todos aqueles que preferem a via do meio, a do entendimento. Amós Oz fará falta, em um mundo em que tolerância e ponderação são artigos raros nas prateleiras do debate político. "Entre amigos" é um dos seus últimos títulos publicados. São oito contos sobre a convivência humana. Todos os personagens são chaverim, moradores do kibutz Ikhat. Guglando, descobri que o termo chaverim significa "companheiros" - uma denominação que remete à ideologia socialista que está na base do sionismo - e que os kibutz foram estabelecidos há mais de 100 anos, na Palestina. Isto aconteceu quatro décadas antes da criação de Erets Israel, como é chamado pelos hebreus o Estado de Israel. Aqui vale a pena um pouquinho de cultura de rádio-relógio (tic-tac, tic-tac, tic-tac... você sabia?). Os kibutz são cidades-fazendas comunitárias, propriedades coletivas norteadas pelo conceito de igualdade social. Sequer os membros escolhidos para liderar cada kibutz têm privilégios: os líderes cumprem as mesmas tarefas que os demais integrantes. Um dos trunfos dos kibutz é seu sistema educacional, voltado para dar às crianças uma formação completa, que vai além do ensino básico e inclui técnicas de agricultura e diversas oficinas de trabalho. Hoje existem em torno de 300 kibutz em Israel. Curioso é que em um kibutz não há circulação de dinheiro, pois não há o que comprar, haja visto que tudo é fornecido pela administração. Não há contas a pagar e o refeitório serve três refeições diárias à população. Por fim, em um kibutz as crianças não "pertencem" aos pais, e sim à comunidade. Bem, feito este preâmbulo (como disse, para o qual tive que pesquisar), nos dediquemos ao livro de Amós. Ele próprio ex-habitante de um kibutz, seus contos nos ambientam com sua experiência. Seus parágrafos gostam de pequenos detalhes e seus personagens são solitários. Parecem engrenagens: funcionam acoplados, mas cada qual no seu quadrado, ininterruptamente isolados. Apesar de co-habitarem em um sistema cooperativo, o texto de Oz nos revela a incompreensão permanente nas tão próximas relações humanas da comunidade. Colegas, casais, pais e filhos, amigos, todos dividindo - e se estranhando - na sufocante micro-célula de um kibutz. O fofoqueiro Roni, pai do vítima de bully Iuval, ambos amedrontados pela personalidade forte da mulher e mãe, Lena. Tzvi, o jardineiro que só falava em tragédias, cortejado (em vão) por Luna, uma professora solteirona (termo velho, ehm, Sidney?). Moshe, o adolescente calado, do pai entrevado que não o reconhece. Ariela e Osnat, as duas mulheres que dividiam a cama do mecânico Boaz. Nahum, pai de Edna e amigo de David, traído pelos dois. A maledicente Henia, mãe do bovino Iotam, que sonhava deixar o kibutz, e que era apaixonado por Nina, que abandonara Avner no meio da noite. O utópico e intransigente Martin, sobrevivente do Holocausto e fundador do kibutz. Ioav, o secretário-geral, o gestor e responsável, jovem e contemporizador, cujo conto o aborda na madrugada em que cumpria seu plantão de guarda-noturno. Todos ilhados no deserto, respirando o ar seco e tentando, em vão, construir a sociedade ideal. Sobressaem as contradições da pretensamente idílica vida em comum, onde todos seriam iguais, dividindo o mesmo espaço e as mesmas tarefas. Resta o ingrediente instável nesta equação, o ser humano - sobre o qual Oz constrói a sua parábola da inadequação. Na idealizada aldeia comunitária dos judeus (um imenso pré-reality show), todos se apoiam, em dependência funcional, mas não se encaixam, não se completam e não se entendem. Se os judeus não se entendem entre si, imagine com os palestinos - seus vizinhos, hospedeiros e inquilinos -, em uma terra onde o contrato social ainda hesita na denominação das partes. Após uma vida de tolerância, Amós Oz partiu deste mundo de conflitos. A nós, que aqui continuamos, cabe achar o caminho. Ainda que tateando em um labirinto de areia e pedras.

Companhia das Letras, 135 páginas