"Revolução Francesa: às armas, cidadãos", por Max Gallo


O segundo tomo da obra de Gallo continua de onde o primeiro parou: com Luís XVI sendo guilhotinado. O povo está mais em estado de choque do que de celebração. Os líderes revolucionários comemoram, mas talvez com o sentimento de que teriam ido além do admissível.

Não era ainda o fim da Revolução; longe disso. Se muito, o fim, cinematográfico, da primeira parte. E, se quem estava lá já estava achando o roteiro demasiado sangrento, não perdiam por esperar.

Poucas cabeças iriam se manter conectadas ao seu pescoço de origem.

De todo, a longa sequência de confrontos entre as diversas correntes políticas, algumas mais radicais que outras, com diversos grupos acusando-se mutuamente de oportunismo e corrupção, iria se estender por anos. E absolutamente ninguém sabia onde aquilo iria parar.

Por exemplo, até mesmo os principais líderes da Revolução, tendo se livrado do cadáver do rei e do restante da família real, tinham que se proteger dos próprios "colegas" de causa. 

Danton, que tentara por um pé no freio na escalada da violência, era indistintamente acusado de estar mais interessado em fornicar e roubar. Marat, irrascível, estava sempre por um fio. Robespierre, o Incorruptível ("Só existem dois partidos, o dos homens corrompidos e dos homens virtuosos", bradava), era a reserva moral e mantinha o comando firme da Convenção e da Assembleia.

Nenhum deles, entretanto, estaria vivo no Natal do ano seguinte. E, como você já deve saber, nenhum deles morreria de morte natural.

Aliás, se houvesse uma Cazé TV promovendo um festival de bets na França revolucionária, as odds de sobrevivência dos principais dirigentes políticos estariam sempre pagando uma merreca.

Já na outra extremidade, para o populacho, pouco mudava, na prática. Gallo reproduz o que seria um murmúrio entre a população pobre de Paris: "Quando tínhamos um rei, éramos menos infelizes do que agora, quando temos 745".

Os girondinos, mais moderados, eram a bola da vez. Eram a parte da Assembleia que tentara evitar que o rei fosse condenado à morte. Os jacobinos, radicais, eram a voz dos sans-culottes, que gritavam, animados: "Guilhotina para os girondinos!"

Porém, ainda que moderados, eram revolucionários de primeira hora, desde maio de 1789. Fundaram clubes, opuseram-se à corte durante os Estados-Gerais, participaram do 10 de agosto e do assalto às Tulherias. Seriam os girondinos os primeiros revolucionários vitimados pela Revolução.

Com a assinatura de Marat, 29 deputados girondinos constam no decreto de detenção (ainda que chamados de "os trinta"). Doze fogem, dezessete ficam em prisão domiciliar, outros oito escapam. Os girondinos ausentes do decreto organizam um protesto e pedem sua anulação.

Dos oitenta departamentos que compõem a França, trinta aprovam o decreto de detenção de 2 de junho de 1793. Os outros cinquenta não entendem o racha dos patriotas e a caça aos girondinos.

Robespierre, no Clube dos Jacobinos, acusa que "apenas os ricos, há quatro anos, usufruem das vantagem das Revolução". Conclui que "é preciso que a presente insurreição continue, é preciso fornecer armas aos sans-culottes, encolerizá-los, esclarecê-los: é preciso exaltar o entusiasmo republicano, por todos os meios possíveis".

Os girondinos foram "irmãos de causa" dos jacobinos, ao lado de quem promoveram a Revolução de 1789. Agora são suas vítimas - presos, condenados e executados. De março a setembro de 1793, o Tribunal Revolucionário mantém, por mês, uma média de dez condenações à morte.

Uma a cada três dias.

Danton ficou rico ("É um corrompido, de fortuna recente, adquirida sem dúvida nos cofres dos ministérios", diz Gallo) e viúvo; sua esposa morrera depois de dar a luz a um quarto filho ("Que bela dor fora a de Danton, que todos sabiam enganar Gabrielle todos os dias", afirma o autor).

Não se passam três meses e Danton casa com a sua vizinha, de dezesseis anos. 

Marat sofre com uma doença de pele que o obriga a passar horas na banheira, em busca de alívio. Ignora que a banheira que ameniza suas dores será, em alguns dias, sua própria cova.

Charlotte Corday, uma jovem de Caen, leitora de Rousseau, fôra republicana. Mas os massacres sangrentos mudaram sua opinião. Decidida, partiu para Paris, disposta a assassinar aquele que considerava um "déspota revolucionário" e um "traidor da Constituição".

Simula ser uma apoiadora e, após muita relutância, é recebida pelo próprio Marat, refastelado dentro da sua banheira. Ela o apunhala no peito. É presa. Quatro dias depois, Charlotte é decapitada.

Exércitos imperiais, encorpados por milhares de nobres franceses emigrados, dominam vastas regiões da França pró-monarquia. "A nação é atacada por todos os lados", diz Gallo. "De Angers a Valenciennes, pelos vendeanos e pelos anglo-austríacos, de Lyon a Toulon, pelos aristocratas, pelos monarquistas, pelos girondinos, pelas frotas inglesa e espanhola".

A Convenção determina que todos os jovens de 18 a 25 anos se alistem, formando um exército de setecentos mil homens. É decretada a pena de morte para os desertores.

La guerre de Vendée foi uma guerra civil e uma contrarrevolução. Uma insurreição dos católicos e dos monarquistas contra os republicanos. Para o Comitê de Salvação Pública (que governa a nação e é governado por Robespierre), "a Vendéia é um tumor que precisa ser extirpado a qualquer preço".

E o preço não era barato, devido à cobiça selvagem e corrupta dos generais franceses. E custou caro também em vidas: cento e vinte mil franceses morreriam no conflito.

Para Danton, os rumos da Revolução estão equivocados. Ele sobe à tribuna, inflamado. Segundo ele, houvera o 14 de julho de 1789; depois a segunda revolução, a de 10 de agosto de 1792. Ele grita aos deputados: "É preciso uma terceira revolução!". Ele quer por um fim à matança.

Já o que o povo, os sans-culottes e os jacobinos mais desejam é o acirramento do Terror. Quer-se que "a Santa Guilhotina trabalhe muito todos os dias". Barère de Vieuzac se delicia:

"Coloquemos o Terror na ordem do dia, é assim que desaparecerão, num instante, os monarquistas e os moderados, e a turba contrarrevolucionária que vos agita", grita, na tribuna. "Os monarquistas querem sangue? Muito bem, eles os terão dos conspiradores, dos Brissot, das Maria Antonieta".

(Àquela altura, encarcerada, a ex-rainha permanecia viva. Será decapitada no mês seguinte.)

Neste diapasão, a Lei dos Suspeitos é aprovada pela Convenção em 17 de setembro de 1793. Doravante ninguém mais estará com a cabeça bem atarrachada. Qualquer denúncia tem potencial para separá-la do pescoço do denunciado. "A lei é tão geral em seus termos que o invejoso, o ciumento, o vizinho descontente" pode levar qualquer um à prisão, afirma o autor.

A partir daí, para ser inscrito na relação da degola diária, era um pulo. Em meses, o número de detentos quadruplica e, destes, 1.667 são condenados à morte. Nas cidades, muitos se suicidam antes, temendo a cadeia e a guilhotina. O revolucionário Barbaroux, na iminência de ser preso, dá um tiro de pistola na cabeça - erra e estraçalha a mandíbula. Vai pro cadafalso segurando o queixo.

Às mulheres foi proibido o direito de reunião e passou a exigir-se que portassem todo o tempo a insígnia tricolor. Votam os deputados que qualquer mulher encontrada sem a insígnia passará oito dias na prisão; em caso de reincidência, será presa "até a paz".

Relata Gallo que vinte e um deputados girondinos foram conduzidos ao cadafalso em 31 de outubro. Junto a eles, mais doze condenados. Os girondinos não tremeram. Gritaram: "Viva a República!". O povo repetiu o grito. O carrasco cortou 33 cabeças em 38 minutos. Vive la France.

O ano da França agora começa em 22 de setembro - aniversário da proclamação da República. É dividido em doze meses de trinta dias (mais cinco ou seis dias complementares). Cada mês é composto por três etapas de dez dias. Uma aporrinhação marqueteira.

Os meses do verão são messidor, termidor e frutidor; do outono, vendemiário, brumário e frimário; do inverno, nivoso, pluvioso e ventoso; da primavera, germinal, floreal e prairial. Pode soar poético. Para mim, é uma encheção de saco cada vez que alguém data os eventos com esse calendário.

O cristianismo é abolido e é oficialmente instituída "a religião da pátria". A Catedral de Notre Dame passa a se chamar "Templo da Razão". As igrejas são saqueadas e destruídas.

Frente à enxurrada de mortes, Danton quer lançar uma grande campanha pela Indulgência. Desmoulins questiona, em 30 frimário do Ano II: "Por que a clemência teria se tornado um crime na República?"

Camille e Maximilien são amigos de colégio, revolucionários de primeira hora.

Danton sabe que o povo quer o Terror na ordem do dia, mas protesta: "Existe um fim para tudo. Exijo que se coloque um limite". Prevê que os ultrarrevolucionários se tornarão contrarrevolucionários.

Já Maximilien de Robespierre nomina os citrarrevolucionários, ou moderados e indulgentes, grupo onde ele inclui Danton e Desmoulins. Já ele próprio se considera um revolucionário "puro", que tinha por missão depurar os demais. Poder, política e semântica se engalfinham.

Camille Desmoulins lança um novo jornal, o Le Vieux Cordelier, e brada, sem papas na língua:

"Abri as prisões aos duzentos mil cidadãos que chamai de suspeitos, pois na Declaração dos Direitos não existem casas de suspeição, apenas casas de detenção. A suspeita não tem prisão, mas sim o acusador público..." Mais direto e destemido, impossível. Continua ele: "Quereis exterminar todos os vossos inimigos na guilhotina! Terá jamais havido maior loucura?"

Collot d'Herbois, membro do Comitê de Salvação Pública, atiça, em 3 nivoso do Ano II: "Querem moderar o movimento revolucionário. Mas será possível controlar uma tempestade? Pois bem! A Revolução é uma. Não podemos, não devemos interromper seus avanços".

Em dezembro de 1793 (vamos esquecer o nivoso, combinado?), o capitão Napoleão Bonaparte rompe o sítio de Toulon e expulsa as forças monarquistas italianas, inglesas e espanholas que tomaram o porto e as montanhas. O jovem militar é promovido a general de brigada. Lá vem ele.

Ao passo que o exército francês submete as regiões rebeldes, a Convenção decreta a abolição da escravatura nas colônias francesas, sem indenização aos proprietários.

Na Suíça, Mallet du Pan publica seu livro Considerações sobre a natureza da Revolução da França, onde afirma que "sobre as ruínas do Antigo Regime, o poder está vago em Paris". Du Pan vivera em Paris de 1782 a 1792. Monarquista, aconselhara - em vão - o rei a fugir para Berna.

Em uma época pouca pródiga em opções para o acesso a versões contrárias ao poder dominante (pois as chances de ser separado da própria cabeça era de quase 100%), a leitura da obra faz sucesso.

Diz Du Pan que nenhuma das muitas facções (sans-culottes, indulgentes, ultrarrevolucionários, monarquistas etc) conseguirá tomar o poder. "Eles se entredevoram", afirma. Prevê que "o poder cairá nas mãos de um general, que brandirá o gládio vitorioso e restabelecerá a ordem aspirada pelos cidadãos daquele país há mais de cinco anos vivendo sob distúrbios incessantes".

Que profecia, ehm? Em 1794 era apenas uma remota possibilidade. O mais improvável dos generais, porém, a cumprirá, em poucos anos. Pequeno e esquisito, falava o francês com sotaque.

Mas ainda faltava algum tempo para chegar a vez dele. Por enquanto, no Ano II da República, na "Sala da Liberdade" do Tribunal Revolucionário, o promotor público Fouquier-Tinville se diverte, levando cabeças "à janela", "para que rolem para dentro do saco". 

Em março de 1794, centenas dos revolucionários de anos antes, incluindo alguns dos líderes, engrossam a população carcerária. Neste mês, de acordo com os números de Gallo, são 6.247 detentos. Em apenas 47 dias, revela o autor, "1.376 cabeças vão espirrar no saco".

Ai de quem quer parar as engrenagens da morte. Robespierre não contemporiza: "A República é constituída pela destruição de tudo que lhe é oposto", explana o Incorruptível. "É culpado em relação à República aquele que se apieda dos detentos! É culpado aquele que não quer o Terror."

O discurso tem endereço certo: Danton, Desmoulins e toda a facção dos indulgentes, que propõem comitês de clemência, ao invés dos comitês revolucionários. Mas o destino deles está selado.

Em 30 de março de 1794, Camille Desmoulins, o homem de 14 de julho de 1789, e Georges Danton, o homem de 10 de agosto de 1792, são presos. Em três dias estão ambos diante do interrogatório de identificação. Nenhum dos dois pretende morrer calado.

"Tenho trinta e três anos, idade de Jesus, crítica para os patriotas", declama Desmoulins.

Danton, orador excepcional, agressivo, debochado, desdenhoso, diz que "instituí o Tribunal Revolucionário: peço perdão a Deus e aos homens por isso". Avisa "que o povo respeitará minha cabeça, sim, minha cabeça guilhotinada".

Escreve o livreiro Ruault, revolucionário de primeira hora, que "é porque Danton e Desmoulins quiseram interromper o movimento da guilhotina que eles mesmos perecerão". Afirma que  "Danton fez sombra a Robespierre, que é hoje o rei da Revolução, o pontífice eterno, o apóstolo". E conclui: "Nenhum de nós pode ter certeza de conseguir evitá-lo, pois ele ataca a esmo".

No julgamento, Danton, por decreto, é obrigado a ficar calado - não fosse assim, dominaria os acusadores. Mas, condenado ao lado de Desmoulins e outros treze, declama:

"Que nos conduzam ao cadafalso! Não discutirei mais minha vida com aqueles que me assassinam. Infame Robespierre, o cadafalso te chama, seguir-me-ás!", profetiza. "Povo, morrerei digno de ti!"

Em 5 de abril, são postos nas carroças. O embarque atrasa, porque Desmoulins se desespera, grita, se debate. Segundo uma testemunha, Danton foi o primeiro a subir. E gracejou, para o povo que assistia o cortejo: "O que me desaponta é morrer seis semanas antes de Robespierre".

Foi o último a ser guilhotinado, às cinco e meia da tarde. O povo gritou: "Viva a República!"

Esta, por sinal, é governada pelo Comitê de Salvação Pública, onde quem dá as ordens é Robespierre, ao lado de Couthon e de Saint-Just. O Incorruptível, cujo poder chegou ao ápice, é cada vez mais odiado. Sucedem-se os atentados contra a sua vida. Tramam contra ele.

O Regime escala a matança. "O Tribunal Revolucionário, agora, despacha condenados à morte em seis ou sete carroças por vez", testemunha o livreiro Ruault. "São mortos aos sessenta ou oitenta por vez. Foram construídos corredores subterrâneos para receber o sangue que infectava a vizinhança".

Como Robespierre (e suas listas secretas de condenáveis) é um perigo para todos, a Convenção se torna o instrumento político para destituí-lo. O homem que personifica o Terror é detido. Em meio à balbúrdia, um tiro estilhaça a mandíbula de Robespierre. Teria tentado o suicídio?

"O Incorruptível, com a bochecha dilacerada, dentes arrancados ou quebrados", descreve Gallo, "não passa de um corpo arquejante que tenta estancar com um pedaço de papel o sangue que macula seu casaco azul, sua gravata branca".

Maximilien Robespierre, sob insultos populares ("Monstro, em nome de todas as mães, eu te amaldiçoo"), é posto na carroça, com vinte e um "cúmplices". Ao todo, cento e quarenta cabeças irão "espirrar no saco" nas próximas 24 horas. 

O cadafalso é erguido na Place de la Révolution, proporcionando um longo trajeto turístico aos condenados, de uma hora e meia. Em frente à lâmina, conta Gallo que os lugares às janelas são alugados a preço de ouro.

O irmão de Robespierre, Augustin, também preso, saltara de uma janela, e se espatifara. Mesmo (quase?) morto, seu corpo estropiado acompanhou os demais, para ser guilhotinado.

Robespierre é o penúltimo decapitado ("O carrasco, depois de prendê-lo à prancha e antes de fazer a lâmina cair, arrancou brutalmente seus curativos e o aparato que segurava a mandíbula despedaçada de Maximilien, que soltou um rugido parecido ao de um tigre moribundo"). A cabeça decepada do ex-prefeito de Paris, Fleuriot-Lescot, fechou o evento.

Quem bem definiu o andamento da coisa foi o Mallet du Pan, jornalista e escritor a quem me referi há pouco. Disse ele que "os membros da Convenção são como criados da revolução que assassinam seus mestres e se apoderam da casa depois da morte deles". Foi por aí.

Os nomes dos que condenaram seus precursores são contados às dezenas, centenas; Barras, Sieyès, Fouché, Tallien, Fréron, Collot d'Herbois, Barère, Vadier, Amar, Billaud-Varene, Thibaudeau, Lecointre etc. A maioria deles ficou esquecida no passado. Houve até quem, como Barras, Sieyès e Fouché, viesse a ser protagonista na ascensão de Napoleão. Coisas da política - ontem, hoje e sempre.

A execução de Robespierre trouxe uma reviravolta no jogo. Os jornais celebram a libertação dos ex-suspeitos de girondinismo, ao mesmo tempo que os suspeitos de robespierrismo são perseguidos. Fouquier-Tinville, promotor público do Tribunal Revolucionário, é preso. Chegou a vez dele.

Quem também é preso, e passa uma semana e meia detido, é o general Napoleão Bonaparte. Amigo de Augustin, é acusado de robespierrismo, mas acaba se provando "apenas um patriota".

"A nação parece esgotada, como uma louca que volta à razão", escreve Mallet du Pan. "À febre sucede uma completa prostração", assinala Lépeaux. "Os bairros chiques estão desertos, palacetes estão à venda", aponta Gallo. "A capital do mundo parece um imenso brechó", diz o suíço Meister.

A juventude dourada, doravante apelidada "muscadins", surge como contraponto aos sans-culottes, algo como - com o perdão da comparação - playboys vs povão. Quem vivia na defesa, com medo de ser preso, por ganhar algum dinheiro e ser acusado de "aristocrata", agora está no ataque.

Lógico que o pau ia cantar. Ainda mais com o pão subindo. Em 31 de agosto, o depósito de pólvora em Grenelle vai pelos ares. A explosão (criminosa) provoca dois mil mortos e mais de mil aleijados. O corpo de Marat, o jacobino, é transferido para o Pantheon, em 21 de setembro.

Acabou melhor que Danton, cuja cabeça foi para um cemitério de ossos, e que Robespierre, enterrado em uma vala comum. Começava ali o Ano III da Revolução Francesa.

Há, pasme, festas como "O Baile das Vítimas", onde só são admitidos aqueles que perderam algum parente no cadafalso. O figurino exige nuca raspada (exposta para o carrasco) e um fio vermelho em torno do pescoço. Cumprimentam-se imitando um movimento de cabeça caindo sob o cutelo.

Nas ruas, os muscadins descem a porrada em qualquer um que pareça jacobino. Andam com porretes chumbados, aos quais dão o nome de espanca-canalha. Os suspeitos são caçados, chamados de "bebedores de sangue" e "cavaleiros da guilhotina". O ar de Paris cheira a vingança.

O 21 de janeiro, data da degola de Luís XVI, vira feriado nacional. Na ausência de um rei, os franceses anseiam por um líder. Por que não um general, um homem novo? A desordem constante cansa. O povo, exaurido pelo Terror, agora se enoja da caça aos que apoiavam o Terror. E falta pão.

Alguns dos nomes que eu listei alguns parágrafos acima, se mantendo do lado protegido do Terror após condenarem seus antigos líderes, acabam sendo colhidos pelas sucessivas novas ordens e são deportados para a Guiana - sob o comando do general Pichegru.

"Pela primeira vez um general é ovacionado e honrado no coração da República", assinala Gallo. Visto então como um "salvador", no início do Império de Napoleão não conseguirá salvar a si mesmo. Preso, será descoberto enforcado com o próprio cachecol, num "suicídio" pra lá de suspeito.

Diz o autor que "a comida é tão rara que se vende peixe podre". Pior: um padeiro é preso por "se gabar de ter cagado em seu pão, e, no exame deste, de fato encontrou-se merda". Ao menos, avisou.

O próprio Tribunal Revolucionário é "guilhotinado" pela Convenção. Fouquier-Tinville, seu promotor, o presidente do júri Herman e quatorze jurados perdem a cabeça (atente que, sempre que esta expressão é usada neste post, é no seu sentido literal).

Novas ondas da ininterrupta guerra civil se sucedem. Os muscadins são atacados pelos sans-culottes, que matam o deputado Féraud e cortam sua cabeça, espetando-a na ponta de uma lança. Saem pelas ruas aos gritos: "Os muscadins estão acabados! Fréron está morto! Temos sua cabeça!"

O problema é que a cabeça era de Féraud. Mataram e degolaram o cara errado. Turba é f...

No dia seguinte (23 de maio de 1795, 4 prairial do Ano III, não se perca), o exército da República intervém, com 120 mil soldados, e reprime a insurreição popular. Já são seis anos de Revolução. Será esta a última revolta sans-culotte.

Fréron, que os revoltosos pensavam ter matado, acelera a punição aos deputados jacobinos. Napoleão Bonaparte, pobre e ocioso, zanza pelos gabinetes do governo. Não aceita o comando de uma unidade de infantaria. Sabe continuar suspeito de robespierrismo e que o querem longe, decerto morto.

Os exércitos franceses vêm sendo vitoriosos em todos os fronts. Os tratados de paz geram recursos milionários para o governo. Quem manda agora é Barras, o "rei da República".

"É na antessala de Barras que o general Bonaparte espera, na qualidade de solicitante", nos conta o autor. "Ele também mendiga junto a Fréron e Boissy d'Anglas, os novos senhores da República".

Os novos poderosos querem acabar com a facção política dos montanheses, próxima dos jacobinos. Todos os membros ainda livres dos grandes comitês do Ano II são presos. Quarenta e três deputados são encarcerados, julgados pelo Tribunal Criminal que substituiu o abolido Tribunal Revolucionário. Trinta e seis são condenados à morte (alguns se matam, outros fogem, outros são... executados).

A propósito, a palavra "revolucionário" é proscrita, por decreto da Convenção. O sans-culottismo é condenado. Surgem os gritos de "viva o rei!". A fome popular é atribuída à ausência de um rei.

O rei, entretanto, não poderá ser o filho de Luís XVI - que morrera, aos dez anos, encarcerado. Com a morte de Luis XVII, seu tio, o conde de Provença, instalado em Verona, se proclama Luís XVIII. E não só: anuncia o retorno completo do Antigo Regime. Lógico que é uma peça de ficção. Mas que, a qualquer instante, pode se tornar a nova realidade.

Por isso, os políticos no poder na França revolucionária sabiam que poderiam estar a um triz de perder a cabeça. "Os monarquistas do interior estão desesperados", escreve Mallet du Pan. "Eles percebem que os regicidas, julgando-se imperdoáveis", acrescenta Gallo, "se tornarão mais do que nunca adversários de um retorno dos Bourbon".

"Os protestos das seções onde os monarquistas e a juventude dourada são maioria confirmam, aos olhos dos republicanos, a realidade do perigo da restauração", conclui o autor.

Os ingleses armam os monarquistas, desembarcam 3.500 emigrados e 1.500 prisioneiros franceses em Carnac, mas o exército revolucionário os derrota, expulsando a ameaça da restauração real.

Barras, à frente da Convenção, solta das prisões os revoltosos mais bárbaros, "patriotas de 1789", para se juntarem aos 6 mil homens do exército do Interior, encarregado de proteger a Convenção.

Precisa também de generais que não sejam monarquistas. Tem um que vive se oferecendo, esperando horas na antessala para ser recebido. É um oficial sem fortuna e sem glória, "vestido num uniforme puído e de má qualidade". Mesmo assim, Napoleão, que vinha em desgraça por ter recusado um comando no Oeste, consegue o posto de segundo-comandante do exército do Interior.

Uma força monarquista de trinta mil homens está organizada em 5 de outubro de 1795, sob o comando do general Danican. Bonaparte dispõe quarenta canhões ao redor das Tulherias. São, portanto, trinta mil (mas apenas uns oito mil decididos a lutar, o restante fazia número) contra seis mil e seus quarenta canhões. Danican propõe que Barras se renda. Ele sequer responde.

Chove. Ninguém atira, por horas. Até que, às quatro e meia da tarde, surge um tiro isolado. E mais outros. Então começa a tempestade de balas de canhão, dispersando os atacantes. Às seis horas, estava tudo terminado. Napoleão tem seu cavalo morto sob si. Se levanta ileso. Mais tarde, escreverá ao irmão: "Como sempre, não estou ferido".

De acordo com o livreiro Ruault, oito mil pessoas morreram. "Uma primeira carga de tiros derrubou uma centena de homens. Ela foi seguida por mais quatro ou cinco que varreram a rua inteira. Cerca de oitocentos homens foram mortos em menos de dois minutos". Complementa que "depois do canhoneio, a tropa de linha fuzilou todos que conseguiu fuzilar até meia-noite".

A revolta "foi esmagada sem piedade". Barras promove Bonaparte a comandante-chefe, e "posiciona sua amante, Joséphine de Beauharnais, na cama de Napoleão", pontua Gallo.

"Barras, rei da República, é um nobre corrompido, regicida e terrorista enriquecido". No dizer do autor, o novo rei "é um cínico trapaceiro, que os jacobinos ainda seguem, como se o regicida que ele é não quisesse cortar todos os laços com a revolução, por temer sempre uma restauração monárquica que simplesmente enforcaria os regicidas".

Nesta barafunda da política francesa revolucionária, "existem três partidos bem definidos", esclarece um dos comissários do Diretório. "Os monarquistas, com os fanáticos, os anarquistas e os verdadeiros republicanos. O terceiro combateu e conteve alternadamente os dois outros".

O Estado francês, deficitário, precisa se manter em guerra, "pois nos países conquistados é possível pilhar as obras de arte e os cofres cheios de ouro dos reinos, dos principados e das cidades".

Para executar a tarefa, ninguém mais promissor do que Napoleão. Em 2 de março de 1796 ele é nomeado general chefe do exército da Itália. Um mês depois, ele já está lá, em guerra. Vence três batalhas sucessivas (Montenotte, Millesimo, Mondovi) e se dirige a Turim.

Os Diretores escrevem à Bonaparte: "Não seria possível recolher os tesouros imensos que a superstição acumula nos conventos há quinze séculos? Eles são avaliados em dez milhões de libras esterlinas. Fareis uma operação financeira admirável que prejudicaria apenas alguns monges".

O jovem general não hesitou. "Sois o herói de toda a França", repetem-lhe os Diretores. Napoleão negocia com o rei do Piemonte, que cede a Savoia e Nice à França e lhe paga uma polpuda indenização de três milhões, e mais um armistício é assinado com o duque de Parma, ao custo de dois milhões de liras e vinte dos seus melhores quadros.

Enquanto isso, na França, o povo passa fome. Os políticos são mal vistos. A idolatria popular por Bonaparte, cujos sucessos são divulgados, começa a preocupá-los.

O corso fizera uma entrada triunfal em Milão, em 15 de maio. "Viva Buonaparte il liberatore dell'Italia", gritara a multidão. Enquanto isso, ele escreve ao Diretório: "Coloco à disposição do Diretoria dois milhões de jóias e barras de prata, mais oitenta quadros, obras-primas dos mestres italianos. E os Diretores podem contar com uma dezena de milhões a mais".

Felizes com o dinheiro, mas preocupados com o tamanho de Napoleão, os Diretores ordenam que ele ataque o centro e o sul da Itália - quanto mais longe e ocupado, melhor. Ele se recusa e oferece sua demissão. E quem aceitaria? No way. Napoleão já está dando as cartas.

O corso subjuga o Papa e recebe dele 21 milhões, cem obras de arte e quinhentos manuscritos, além do acordo de passagem livre para o exército francês e do fechamento dos portos aos navios ingleses. Em Paris, Napoleão é aclamado. A descrição das suas glórias fazem dele um ídolo popular.

E um fator com o qual os homens do Diretório não contavam era com sua habilidade política. As vitórias militares eram o ponto de partida de onde Bonaparte exercia um poder crescente - sobre os reinos conquistados, sobre os reis derrotados e sobre a opinião pública francesa.

Ao mesmo tempo em que envia riquezas a Paris, ignora as ordens do Diretório e mantém todo o poder sobre as tropas sob seu comando. Dá ordens ao Imperador da Áustria: "A Europa quer paz, esta guerra desastrosa já dura tempo demais". Mas é ele quem leva a guerra, aonde quer que vá.

Em Bologna, os italianos o celebram como libertador e unificador da Itália. Diante de exércitos austríacos duas vezes mais numerosos que o seu, avança se mantendo na linha de tiro, insuflando seus soldados, e vence. Como frisa Gallo, "Napoleão é o senhor da Itália do Norte".

Desdenha das ordens do Diretório e discursa à tropa: "Soldados, alcançaste a vitória em quatorze batalhas seguidas e setenta combates! Fizestes mais de cem mil prisioneiros, tomaste ao inimigo quinhentos canhões, dois mil de grande calibre". E não esquece do butim: "Enriqueceste o Museu de Paris com mais de trezentas obras-primas da antiga e da nova Itália".

O Luís XVIII - ao qual me referi uns quinze curtos parágrafos atrás - permanece como um ariete dos monarquistas. Em 10 de março de 1797, ele se diz no segundo ano de seu reinado (!) e promete aos franceses "o esquecimento dos erros, das faltas e dos crimes". Mais: diz esperar "da opinião pública um sucesso que somente ela pode tornar sólido e duradouro".

Ou seja, a França estava sob a ação de três poderosos movimentos, no fim do século dezoito: o Diretório republicano revolucionário, que já expurgara boa parte de si mesmo e governava como se rei fosse, o sucessor do rei ele próprio, à frente de exércitos monarquistas, e, como uma sombra, um general carismático, maquiavélico e até então invencível, no comando de exércitos republicanos.

O Diretório temia a onda monarquista. O povo cansara da revolução e das matanças. Agravando a situação, o poder estava vergonhosamente vendido, nas palavras do autor. "Toda a administração é corrompida, venal até o topo do Estado", afirma. Todos os eleitos na primavera de 1797 são monarquistas; um deles, inclusive, é um ex-ministro de Luís XVI, o decapitado.

Bonaparte negocia com a Áustria a entrega de Veneza em troca da Bélgica. O general espera o momento oportuno de voltar à França. Não pretende mais servir seus antigos chefes. Quer mais.

O Conde de Antraigues, que atua como espião, retratara Bonaparte para Luís XVIII, dizendo que "esse gênio destruidor, perverso, querendo ser o senhor e decidido a perecer ou a tornar-se ele, é o símbolo do homem de Estado", escreve. "Naturalmente violento, este homem quer dominar a França e, através da França, a Europa". Era bom de perfil, o conde.

O cerco dos monarquistas à cúpula do poder estava em vias de estrangular o Diretório, que reagiu. Bonaparte envia Augereau, que, em 4 de setembro, invade as Tulherias com doze mil soldados. Deputados, políticos e militares apoiadores de Luís XVIII são presos.

Barras, com o apoio de Napoleão, perpetrara um golpe de Estado. Não houve participação popular. Aos presos que protestaram, foi dito: "O sabre é a lei". Os antigos jacobinos retomam o tom do Ano II: "Não precisamos de provas contras os conspiradores monarquistas". É um vai e vem.

As eleições foram anuladas. Foram demitidos 140 deputados. Jornais são fechados. Opositores são deportados - a "guilhotina seca". São mandados para a Guiana 329 "culpados de traição", sendo que 167 morrerão por lá. Barras, por enquanto, permanece o "Rei da República".

O Diretório nomeia Napoleão como general do exército da Inglaterra, mas ele recusa. "Querem tirar-me da Itália, onde sou mais soberano do que general", diz. "Não sei mais obedecer", avisa. "Provei do comando e não renuncio a ele. E vai além: "Esses advogados de Paris que foram colocados no Diretório não entendem nada de governo, são mentes pequenas".

Para bom entendedor, pingo é letra.

Em 5 de dezembro, Bonaparte chega em Paris. Veio à paisana, passageiro em uma carruagem do correio, e foi direto para casa, na antes denominada rua Chantereine. A rua mudara de nome e passara a se chamar Rue de la Victoire. Sintomático. Há rumores de que o general aspira à ditadura.

"Citoyens", diz Bonaparte, "fico sensibilizado com o ardor que me demonstram". Político, sua modéstia preocupa mais do que tranquiliza o Diretório. "Fiz meu melhor na guerra e meu melhor na paz. Cabe ao Diretório saber tirar proveito, para a felicidade e prosperidade da República".

Além de político, cauteloso. No banquete de 800 talheres servido pelos dois conselhos em sua homenagem ("oitocentos lacaios, 32 maitres, vinho do Cabo, vinho húngaro, carpas do Reno"), Napoleão leva no bolso seu próprio ovo cozido. Terão que se livrar dele de outra maneira.

Oferecem a ele a glória da conquista do Egito. Teria "apenas" que atravessar o Mediterrâneo, escapando à frota inglesa. Mesmo sabendo que é uma armadilha, aceita. Parte em 5 de março de 1798. Porém, como frisa Gallo, "Bonaparte não é tolo". A partida lhe conviria,  "pois ele não quer se envolver em outro golpe de Estado, com o qual, adivinha ele, sonham os Diretores".

Impõe condições; e é atendido. Levou os generais, sábios e artistas que quis, além de trinta mil soldados, três mil cavaleiros, cem peças de artilharia e nove milhões para as despesas.

Enquanto isso, o Diretório, temendo perder as eleições, decreta que os deputados não reeleitos é quem verificarão a idoneidade dos eleitos - logicamente, declarando inelegíveis todos que não lhes convêm (se os congressistas brasileiros lerem isso, vão querer implementar, ehm?). 

Os Quinhentos e os Anciãos validam as eleições em 48 dos 96 departamentos; nos demais, as eleições são anuladas. O novo golpe de Estado de 11 de maio de 1798 exclui 104 deputados. Novas eleições são realizadas no ano seguinte, com mais derrotas e mais manobras.

A Revolução Francesa, o grande evento que ecoará nos quatro quadrantes do mundo ao longo dos séculos seguintes, implode na sucessão ininterrupta de puxadas de tapete e condenações à morte. A França é territorialmente enorme e os monarquistas nunca se conformaram com as decisões tomadas em Paris. A Revolução faz água por todos os costados.

"Os chouans tomaram Le Mans, os monarquistas cercam Toulouse", escreve o autor, dando destaque aos "desertores que se recusam a curvar-se à lei que cria o serviço militar obrigatório, tornando-se salteadores, ladrões, bandidos". Vai além, afirmando que "o país rejeita o Diretório, que acaba de criar novas taxas porque o Tesouro Público precisa de cem milhões".

Por tudo isso, Barras e o Diretório, com medo da revolta monarquista, com apoio dos anarquistas, votam a lei dos reféns, que faz temer um retorno da lei dos suspeitos, do Terror.

"Nobres, parentes de emigrados, ascendentes de suspeitos serão presos como reféns", explica Gallo, "à espera da prisão dos autores de atentados, rebeliões, assassinatos políticos".

Os jacobinos, que lideraram a execução de milhares, são perseguidos pela turba, nas cidades, nos campos. Em Nápoles, os "patriotas" são enforcados (convém que lulopetistas e bolsonaristas não esqueçam que os "patriotas" em questão são os revolucionários, ou seja, os esquerdistas).

Falta pão e a nação é invadida por muitos buracos, pelos russos, pelos ingleses e pelos austríacos.

A solução para todo este caos está no Egito (pelo menos é o que pensa o populacho e o próprio Bonaparte). No Cairo, ele vive uma situação miserável, com um exército gigantesco, e faminto, ilhado no continente africano. O general resolve fugir sozinho da sua guerra no deserto palestino.

Embora os exércitos franceses comandados por um sem número de outros generais tenham repelidos os avanços hostis nos Países Baixos, na Suíça, no norte da Itália e em outros fronts dentro do território francês, todos anseiam por Bonaparte.

"Desde que ele foi para o Egito é que sofremos nossos desastres", escreve uma testemunha. "Parecia que cada batalha perdida poderia ter sido vencida por ele". Mal comparando, o corso era para os franceses o que por muito tempo o português Jorge Jesus foi para os flamenguistas.

Ou ainda é, sei lá.

A volta de Napoleão, não como general, mas para ocupar um cargo no governo francês, é articulada por dois dos cinco Diretores (Sieyes e Ducos) e por Talleyrand. Os outros três Diretores (Barras, Gohier e Moulin), que tantos golpes aplicaram, pretendem impedir este golpe que lhes tirará o poder.

Bonaparte chega em Paris em 16 de outubro de 1799. É aclamado onde quer que vá. Ele se reúne com os Diretores que o apóiam. O golpe é tramado. Gallo o descreve em minúcias.

Os Anciãos denunciariam uma conspiração jacobina contra a República, votariam a transferência das assembleias e nomeariam Bonaparte para o comando da força armada. "Sieyès e Ducos pediriam demissão, outros seriam forçados ao mesmo, e um governo provisório seria constituído", diz.

O corso seria nomeado membro deste governo e os Quinhentos aceitariam o fato consumado. Napoleão exige que sejam apenas três cônsules - ele e os dois golpistas. Mas lógico que ele seria "O" cônsul.

Os que são contra o golpe não têm o que têm Bonaparte: o apoio do exército. Sessenta generais o cercam, e gritam "Viva o Libertador!". O poder é passado dos Diretores a Napoleão; que não aceita, porém, assumi-lo como um golpista, embora o seja. Quer a aprovação dos Quinhentos.

Não pense que a coisa iria se dar assim, na maciota. 

Ao entrar na Orangerie, para obter deles sua anuência, Bonaparte é confrontado aos gritos de "Abaixo o ditador!". Um deputado montanhês, Destrem, lhe dá um soco e o acusa de fora da lei. É empurrado, chutado e posto para fora da assembleia aos pontapés. Isso mesmo que você leu.

Expulso do prédio, monta em seu cavalo e conclama os soldados a segui-lo. Tocam os tambores e avançam contra a Orangerie. Os deputados pulam pelas janelas e fogem pelo parque. Não são mortos, mas são caçados: têm que voltar, para votarem a favor de Napoleão. 

Já passava da meia-noite, quando os deputados capturados aclamaram o decreto que pôs fim ao Diretório. "O Corpo Legislativo cria uma comissão consular executiva compostas pelos cidadãos Sieyès, Ducos, ex-Diretor, e Bonaparte, geral, que usarão o nome de Cônsules da República".

Um mês depois, a nova Constituição é apresentada aos franceses, para sua aprovação plebiscitária. Os três cônsules proclamam uma Mensagem ao povo: "Citoyens, la Révolution", dizia, "está fixa nos princípios que lhe deram início: ela acabou".

Em uma década, por falta de pão e de dinheiro, o rei foi decapitado e milhares de outros cidadãos idem. Os políticos que assumiram o poder foram se matando em ondas sucessivas. O pão e o dinheiro continuaram faltando, o que abriu espaço para que um general audacioso roubasse aos reinos vizinhos os recursos que faltavam na França. 

Este general iria superar o rei que perdeu a cabeça. Se tornaria Imperador e fundaria uma nova dinastia.

Mas aí já é outra história. Esta - a "Revolução Francesa" - acaba aqui.

L&PM Editores, 341 páginas  |  4a edição, 2024  |  Copyright 2009  |  Tradução  Júlia da Rosa Simões

Título original: "Révolution Française: Aux Armes, Citoyens! (1793 - 1799)"

Obs.: Este "resumão" faz um sanduíche apressado de um banquete incomparavelmente maior. Querendo entender com a devida profundidade a Revolução, sugiro a leitura destes dois livros de Gallo, complementada pela de muitos outros que a têm por tema principal. Um resumo é só um resumo. 


"Revolução Francesa: o povo e o rei", por Max Gallo


A Revolução Francesa foi uma carnificina.

Os belos elementos que ela doou à posteridade - La Marseillaise, Liberté, Egalité, Fraternité etc - têm espaço bastante reduzido na sua história prática. Seus protagonistas foram muito mais a guilhotina, os assassinatos e a manipulação do furor das multidões, essa bovina.

Para nós, brasileiros, um rápido - e tosco - paralelo seria o 8 de janeiro, quando uma horda de imbecis invadiu o Congresso e os palácios de Brasília, atacando relógios e poltronas, grafitando estátuas e postando nas próprias redes imagens documentando os crimes idiotas que cometeram.

Pois é. Nossa baderna tupiniquim durou um dia e não matou ninguém. Imagine, porém, que milhares de brasileiros tivessem morrido, com o STF condenando mensalmente centenas de sujeitos à morte, incluindo seus próprios integrantes. Foi mais ou menos assim o período revolucionário.

Só que, pas de doute, muito pior, como nos contam os dois tomos deste "Revolução Francesa".

Inegável que o livro escrito por Max Gallo tenha uma prosódia atípica para um livro de história. Ele é um encadeamento de milhares de frames. Cada frame é um parágrafo. Cada parágrafo, todos curtos, encerra um raciocínio, uma fração da escalada, um desdobramento, uma dor, um fato.

E assim o historiador conduz o leitor, passo a passo, até o cadafalso.

Porque desta maneira termina o primeiro livro: com Luís XVI, ex-rei de França, decapitado.

Gallo escolhe nos contar a história da Revolução sob a ótica do rei. É de dentro das galerias de Versalhes e dos salões das Tulherias que o autor nos traz a dramática história do último rei francês - e de sua esposa soberba e infiel, a austríaca Maria Antonieta.

Todos os demais personagens são vistos da janela do palácio. Solitário, Luís XVI se ressente das atitudes de Necker, Mirabeau, Marat, Danton, Robespierre, Desmoullins e tantos outros.

Decepcionado e confuso, Luís é um sofredor. Sofre por si mesmo, pela família e pela França; sofre com a humilhação que gradativamente é imposta a ele, que deveria estar acima de todos, rei que é por decreto divino. É este soberano em constante conflito que nos é oferecido.

O fato do autor optar por esta abordagem, que privilegia a psique de Luís XVI (que se supunha, repito, eleito por Deus), não distorce os fatos; os humaniza. Gallo prefere o viés da triste história do rei que, ao invés de reinar e ser reverenciado, teve por sina o desrespeito e a guilhotina.

E o mais curioso é que, muito cedo, ele próprio percebeu que a revolução conduziria à sua morte.

Morte esta que foi uma segunda etapa revolucionária. Há um considerável hiato entre os dois momentos-chave da Revolução Francesa, que muitos entulham dentro de um sanduíche só: a Queda da Bastilha e a condenação do Rei à morte. São dois eventos distintos, ainda que interligados.

A Queda da Bastilha aconteceu em 14 de julho de 1789, que a França celebra hoje. Já era a revolução. Seu gatilho era a insatisfação popular com o custo de vida, o preço do pão, a boa vida dos nobres - e a manipulação política de tudo isso por parte de alguns dos personagens que citamos acima. 

A França era um barril de pólvora.

A política de então se fazia menos de moções e mais de linchamentos. Se você estava "em baixa" e, passando pelas ruas de Paris, um ou outro sans-culottes começasse a apontá-lo e a xingá-lo, daí para você em dez minutos estar com a cabeça espetada na ponta de uma lança bastava um espirro.

Matava-se muito, e a troco de nada. E não estávamos na Idade Média. O Iluminismo (também chamado "Século das Luzes" ou "Século da Razão") já tinha produzido nomes como Jean-Jacques Rousseau, Emanuel Kant, Voltaire etc. A barbárie - em tese - pertencia ao passado.

Mesmo sendo difícil comparar sociedades distantes no tempo e no espaço, Gallo nos traz algumas ordens de grandeza. A França era o país mais populoso da Europa e tinha 28 milhões de habitantes. Era uma nação rural. Os camponeses representavam 82,5% da sociedade. Os burgueses eram 10% e os servos eram 6%. A nobreza representava 1,5% - o que incluía os 130 mil representantes do clero.

Era para reinar sobre este povo que Luís XVI recebera, a contragosto, o mandato divino. Luís gostava de caçar e não era o primeiro na linha sucessória. Como detalha o historiador, Luís não achava que reinaria, não queria reinar e nem estava preparado para.

Mas o destino endereçou a ele a missão de ser o Rei da França. O último deles.

Recebeu um país conturbado e endividado. As muitas guerras tinham drenado os cofres. A arrecadação dos impostos ficava aquém das necessidades da nação. Novos empréstimos eram feitos. O populacho, faminto, protestava. A política fervia. A nobreza era o bode expiatório.

Ainda que não quisesse, casar era um impositivo do cargo. Coube a ele a voluntariosa e esnobe princesa austríaca Maria Antonieta - aquela que passou para a história por conta dos brioches. A frase ("Não têm pão? Comam brioches") provavelmente nunca foi dita, mas pegou.

Não rolou química entre os dois. Na verdade, parece que não rolava nada. Houve enorme dificuldade para a consumação do casamento. As testemunhas dentro do quarto não ajudavam. Elas estavam ali para exercer sua função - testemunhar o defloramento da princesa. Mas, se o negócio já não funcionava a contento, pior ainda com um monte de gente cercando.

O vexame saiu do castelo e correu a França. O mundo, aliás. O rei era bom de caçar viado. Era o que fazia desde moleque - ops, desde delfim. Mas naquele novo assunto o buraco era mais embaixo.

Para alívio geral, após alguns meses, enfim, Luís fez o que todos os bons centroavantes fazem na cara do gol: empurrou pra dentro. Quando a rainha engravidou, houve festa em Paris. A dinastia estava salva.

O jovem militar sueco Axel von Fersen, um nobre, amigo próximo da rainha, talvez tenha dado importante contribuição. Vá saber. Próximo da corte e do casal real, Fersen era admitido em Versailles a qualquer tempo e hora, estivesse ou não o rei em casa. 

Luís XVI sabia das visitas e não criava problemas. Já tinha os seus.

O rei era influenciável, tímido, mas cônscio que o poder lhe pertencia. A economia e a política eram desafios constantes. A debilidade da primeira e a temperatura da segunda vinham fragilizando seu governo. O povo estava na rua. Ameaçava os nobres. Ameaçava a monarquia.

A princípio cético, Luís, que não era burro, logo percebeu que as instituições francesas estavam em perigo - mas rejeitava enquadrar a si próprio neste contexto. Era o Rei. Recebera o mandato diretamente de Deus. O povo o adorava. Tudo ao redor poderia, sim, desmoronar. Não o Rei. 

Na noite de 13 para 14 de julho de 1789, cem mil pessoas se acumularam ao redor do fosso da Bastilha. Não temiam os canhões, que não foram disparados. Mil homens, se pondo à frente dos cem mil, ameaçam atacar. A Bastilha é defendida com 82 inválidos e 32 soldados suíços.

A negociação para uma invasão "pacífica" faz baixar as pontes levadiças. "A Bastilha cede. Promete-se poupar a vida da guarnição. A multidão irrompe. Destruição. Tiros", descreve Gallo.

São 98 os mortos da entrada "pacífica". O administrador da Bastilha, o marquês de Launay, que desde o princípio contemporizava, e mandara baixar as pontes, recebe um golpe de espada, sabe-se lá vindo de onde. O povaréu começa a linchá-lo. É atravessado por golpes de baioneta e feito, literalmente, picadinho ("cortado em pedaços"). Um ajudante de cozinheiro corta sua cabeça.

A cabeça de Launay, espetada num tridente, passeia por Paris, cumprimentando as estátuas. Ela vai se juntar a outras cabeças. Quem ainda mantém a sua no lugar de nascença, como o livreiro Ruault, escreve que "a jornada de terça-feira matou o poder do rei. Ei-lo à mercê do povo por ter seguido os pérfidos conselhos de sua mulher e seu irmão, o conde de Artois".

A revolta popular que levou à queda da Bastilha foi um sinal bastante convincente. A Bastilha era a cadeia real. Era onde o poder encarcerava aqueles dos quais não gostava. Pois o povo pôs a Bastilha abaixo. Matou quem se opôs e quem estava pela frente. Uma nova era começava. 

A Era do Terror. 

Os que colocavam a lenha na fogueira eram os novos astros. Marat, físico, filósofo e ex-médico das cavalariças do conde de Artois, lança o jornal L'Ami du People; Camille Desmoulins publica o seu Les Révolutions de France et de Brabant; Brissot, o Le Patriote Français; Robespierre e Danton, com sua oratória virulenta, alcançavam protagonismo na Assembleia. 

Ainda assim, mesmo rechaçando o poder constituído, os revolucionários respeitavam a figura do rei. Acreditava-se possível a derrubada da nobreza e a manutenção do rei. Ele próprio se escorava nessa ideia. Cria que seu status seria mantido na nova ordem. Outros suspeitavam que não.

O regime feudal é abolido. A Assembleia proclama a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. É o espírito das luzes. "Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum", prega o texto. 

"Quase todos se entusiasmam diante das tábuas da lei da Revolução", ressalva o autor. "A Declaração não é apenas uma arma contra a arbitrariedade do regime monárquico", diz Mirabeau. "Ela tem um caráter universal", completa. Barnave aplaude: "A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão é o nosso catecismo nacional".

No meio dessa barafunda, a Revolução não extinguira a monarquia; apenas a limitara. Partidários de um e outro lado esticavam a corda. O Rei pleiteava um direito de veto aos novos decretos (instrumento político ativo até os dias de hoje).

A Assembleia ferve. Deputados monarquistas e patriotas. Separam-se, respectivamente, em "direita" e "esquerda", a favor e contra o veto. Direita e esquerda eram os dois lados da Assembleia. Se tornou uma simbologia permanente. Nesta sua origem, a direita monárquica ganhou. Os patriotas - ou seja, a esquerda - perderam.

Esquerda e direita continuaram se confundindo através dos tempos.

A vitória pontual do rei não seria longeva, como sabemos. E, na verdade, ele aparentava acatar os dispositivos da Revolução sem, na verdade, os aceitar. Se a Assembleia Nacional o proclamou "Restaurador da Liberdade Francesa", ele, às escondidas, escrevia ao bispo de Arles:

"Jamais consentirei no despojamento de meu clero, de minha nobreza...", registrou, na manhã seguinte à votação. "Não darei minha sanção a decretos que os despojem".

A fome e a escassez, porém, continuavam. A revolta popular não esmorecia. Não havia um único dia tranquilo. "Em torno do rei, conheceram-se momentos de pânico, discutiram-se planos de fuga", afirma Gallo. "Mas Luís recusou-os, murmurando que não poderia ser um 'rei fugitivo".

O povo rumou para o castelo de Versalhes. Passam por cima da guarda. Invadem o palácio. Maria Antonieta é o principal alvo. "Queremos cortar sua cabeça, arrancar seu coração, despedaçar seu fígado", gritam os manifestantes. Soldados têm as cabeças cortadas. O rei vai para a sacada, na tentativa de acalmar a turba. O povo o escuta. O rei promete que irá a Paris.

"A uma hora dessa terça-feira, 6 de outubro de 1789, o cortejo de mais de trinta mil homens e mulheres parte na direção de Paris". A família real segue na carruagem. Charretes de trigo e farinha são confiscadas pelo povo.

"Trazemos o padeiro, a padeira e o pequeno ajudante de padaria", cantam. O povo que escolta a carruagem xinga a rainha. As cabeças dos soldados degolados, presas na ponta das lanças, ganham perucas. O povo as brande nas janelas da carruagem, na cara de Maria Antonieta.

No dia 10 de outubro, na Assembleia, um deputado do Terceiro Estado de Paris, o doutor Guillotin, propõe uma nova maneira de execução da pena capital, uma máquina eficaz, que cortaria o pescoço dos condenados "segundo o princípio da igualdade". O deputado deu nome à engenhoca. Guilhotina.

Taí uma coisa que iria ser bem usada nos anos seguintes.

Assim, se durante muito tempo Luís XVI recusou a ideia de uma fuga, a escalada dos acontecimentos pós-queda da Bastilha lhe fizeram ver que ele e a família real estavam em risco iminente de vida. "É preciso fugir, então, como deseja Maria Antonieta, mas Luís se censura por colocar em perigo seus filhos", diz o autor. Marat convoca o povo para exercer uma estrita vigilância sobre a família real.

"Cidadãos, armai-vos de machados e lanças; muita iluminação por três dias, intensa guarda em torno do castelo das Tulherias. Parai todos os veículos que queiram sair de Paris", conclama.

O rei resolve ir com a família ao castelo de Saint Cloud. A carruagem é abordada, as rédeas dos cavalos são tomadas. Os guardas nacionais impedem sua saída. O povo cerca a carruagem por uma hora e meia. Luís XVI desce e se conforma: "Não sou livre? Não posso sair? Muito bem, ficarei!"

Foi a gota dágua. O rei decide fugir. Cartas são enviadas para a Bélgica e para a Áustria. À meia-noite e dez da terça feira, 21 de junho de 1791, Luís XVI, vestido como uma criado de quarto, embarca em uma citadina (um uber da época...), dirigida pelo conde Fersen, o sueco amante da rainha.

Era mais um "uber black", estofado em veludo e com "vasos para necessidades". Certamente os vasos iam sacolejando e respingando. Este seria o menor dos problemas. O que pegava era que já estavam com três horas de atraso em relação ao esquema previsto. Em Montmédy, na fronteira com a Bélgica, dez mil soldados austríacos estavam à espera da família real.

E como às sete horas da manhã fora dado o alarme de que o rei fugira, já estavam em seu encalço. A fuga era inequívoca, pois o rei deixara uma declaração ao povo, se queixando de sua situação. La Fayette diz que o rei fora raptado (o que aliviaria a barra de Luís XVI, se capturado).

Com quatro horas de atraso, a família real é cercada por uma barricada em Varennes-en-Argonne. Os mensageiros de La Fayette apresentam ao rei o decreto ordenando seu retorno à Paris, onde desembarcam, cinco dias depois. A multidão insulta a rainha, quando ela desce da carruagem.

Os "Abaixo a austríaca" derivam para "maldita" e "vadia". Gallo conta que "naquela manhã, ao tirar sua boina na frente da criadas, esta constatará que os cabelos de Maria Antonieta tinham se tornado completamente brancos, como se os de uma mulher de setenta anos".

O autor endossa, entretanto, que "o rei continua sendo rei: fora apenas afastado". A política continua fazendo possível acreditar em todas as alternativas; o poder real poderia ser restituído. Ou não. Mas a "opinião pública" se expressava diariamente

"Imbecil! Porco! Pérfido! Covarde!" grita o populacho para o rei, quando ele se aproximava de uma janela do palácio. Não ficava por aí. Segundo Gallo, o rei era "ameaçado de ser sangrado, desmembrado, de ter o coração devorado".

Com a rainha seguiam na mesma toada. Chamavam-na de "a vadia Toninha" ou a austríaca que é preciso "açoita, esfolar".

Maximilien Robespierre, contido, se atinha ao essencial. "A rainha não passa de uma cidadã", afirmou, "e o rei, na qualidade de primeiro funcionário do reino, está submetido às leis". Enquanto na Assembleia Pétion o dizia um "monstro" e Vadé "um bandido coroado", Robespierre, cauteloso, se recusa a assinar a petição que exigia a deposição do rei.

A nova constituição, em que o rei não o é mais por direito divino, mas permanece rei, é assinada. Luís não é mais prisioneiro. Os envolvidos na sua fuga (o "rapto") são perdoados. Diz-se que a revolução chegou ao fim. Não é o que pensa Robespierre.

A Assembleia estava, como o país, dividida. Amedrontados, oitenta mil nobres haviam deixado a França. Em Paris, dos seiscentos mil habitantes, cem mil eram pobres e tinham fome. Dizia-se que "cem mil armas simples e fáceis de manejar" foram distribuídas aos cidadãos.

Falta comida nas províncias. Nos campos, as colheitas foram medíocres. Carruagens são pilhadas, padarias são saqueadas. Os comboios de grãos que cruzam a cidade são assaltados. O prefeito, Simoneau, que vai às ruas com um destacamento para tentar garantir a ordem, é assassinado.

Enquanto isso, o conde Fersen - sempre ele - chega clandestino à capital. Diz à Luís e Antonieta que o rei da Prússia, Frederico Guilherme II, prepara com o duque de Brunswick uma ofensiva militar a Paris. Luís topa o plano. Em miúdos, o rei da França, no trono, anseia para que os estrangeiros derrotem a França no campo de batalha, para que ele, rei, recupere seu poder monárquico.

Conta Gallo que Maria Antonieta não tinha escrúpulos com a situação; mas que Luís se doía. Afinal de contas, ele estaria se aliando aos inimigos da França. Pois é. Por outro lado, seus súditos são seus algozes e carcereiros. Uma sinuca de bico - mas, a bem da verdade, o rei nem taco tinha.

O povo cotidianamente o insultava e ameaçava. O procurador do Sena, Pierer Roederer, escreveu: "O trono ainda está de pé, mas o povo sentou nele e tirou suas medidas". Segundo Gallo, Luís "em momento algum temeu aquela multidão cheia de ódio, mas sabe que ela um dia o matará".

O rei passou a usar um colete "à prova de balas" rudimentar, composto de quinze camadas de tecido. A ideia foi da esposa, que temia que o apunhalassem. Maria Antonieta avalia o marido:

"O rei não é um covarde", diz ela; "Tem uma imensa coragem passiva... Ele tem medo do comando e teme acima de tudo ter que falar aos homens reunidos... Nas circunstâncias em que nos encontramos, algumas palavras bem articuladas, dirigidas aos parisienses que lhe são devotados, centuplicariam as forças de nosso partido", afirma. "Ele não as dirá".

Paris, amotinada, ainda assim é multiforme. Ao mesmo tempo em que há conflitos pelas ruas, a vida segue normal, as peças estão em cartaz, concertos têm lugares esgotados. De Marselha chegam mais revoltosos armados, cantando "Às armas, cidadãos! Formai vossos batalhões". Vieram cantando pelas estradas. Definitivamente, a música pegou. "Se espalha como um rastilho de pólvora".

Luís vê a situação escalar. Corre o boato de que tropas prussianas e o exército dos príncipes invadiriam Paris e supliciariam os patriotas. Um manifesto defendendo a monarquia é publicado, assinado pelo Duque de Brunswick - um general prussiano.

É como querer apagar o fogo com gasolina. 

Os 745 deputados da Assembleia irão se reunir em 10 de agosto de 1792 para decidir, ou não, pela deposição do rei - concluindo a jornada revolucionária iniciada em 14 de julho de 1789. A Assembleia não quer depor o rei, mas o povo o exige. Cerca o castelo das Tulherias, e o combate com a guarda suíça do rei leva a centenas de mortes. Um massacre hediondo.

Um jovem militar de 23 anos observa a cena da sua janela e depois da refrega percorre o campo de batalha. "Os feridos são assassinados", diz. "Vi mulheres bem-vestidas chegarem às piores indecências sobre os cadáveres dos suíços. Elas mutilavam os soldados mortos e depois brandiam seus sexos ensanguentados. Vil canalha!", se exaspera.

O jovem acusa o que considerou uma covardia de Luís XVI. "Se o rei tivesse se mostrado a cavalo, a vitória seria sua". Este militar, corso, falava francês com sotaque. E se chamava Napoleão.

Dos 745 deputados, apenas 285 apareceram para votar. Decidem pela suspensão e reclusão do rei. Por exigência do populacho, será confinado com a família na torre do Templo, sob vigilância severa. Um preso comum, sem luxo ou visitas. Como diz Gallo, "é o ano I da igualdade que começa".

"A jornada do dia 10 de agosto muda todas as ideias dos patriotas", escreve um membro do Clube dos Jacobinos. "Eis-nos recomeçando uma nova Revolução que anula a de 1789. Parece decidido que a realeza será abolida, que será criado um regime republicano democrático. Será mais um encadeamento de males e desgraças dos quais sairemos quando Deus o quiser..."

Seu texto é anônimo. Ninguém, àquela época, gostaria de estar do lado errado. "A Comuna de 10 de agosto começa a fazer uma parte dos habitantes de Paris tremer... os partidários da Revolução se dividem em dois tipos, os de 89 até o dia 10 de agosto exclusive, e aqueles a partir de 10 de agosto, que se dizem patriotas por excelência".

A França está em convulsão. Se Paris condenou o rei, boa parte do país é contra a Revolução. O exército austro-prussiano avança em território francês e conta com vinte mil emigrados.

A chouannerie, insurreição contrarrevolucionária monarquista, domina a Normandia. Na Vendeia, na Bretanha, no Dauphiné, no Norte, no Centro, no Sudoeste, há oposições à revolução de 10 de agosto.

A Assembleia, em 31 de agosto, declara ilegal a Comuna Insurrecional. "Mas a Comuna se recusa a ceder, ela é o poder de fato", escreve o autor. "Ela é a voz do patriotismo que inflama os sans-culottes, pois a pátria está em perigo". 

"Uma parte do povo irá até a fronteira, outra cavará trincheiras", exclama Danton, "e a terceira, com lanças, defenderá o interior das cidades..." Empolgada, a juventude se alista para combater os invasores, cantando "Mourir pour la patrie/ Est le sort le plus beau/ Le plus digne d'envie".

Mais uma etapa sangrenta da longa guerra civil se desdobra em Paris. Temendo a chegada dos exércitos estrangeiros que invadem a França para revalidar o poder real, as portas das prisões são abertas. Ladrões e assassinos lutarão contra os invasores; os presos políticos são assassinados de forma bárbara.

"Os carrascos vão tomando o tempo de fazer os sentenciados sofrerem, deleitando-se em ver aqueles homens e mulheres se arrastando, ensanguentados, feridos pela lâmina do sabre antes de serem trespassados", detalha Gallo. "Às vezes enfiam o punho no peito do cadáver e retiram seu coração, levando-o à boca, num simulacro de ingestão canibal".

Os criminosos libertados saem cidade afora, matando, pilhando e roubando. "Paris fica entregue, por quase uma semana, a algumas centenas de assassinos e ladrões", afirma o historiador.

A princesa de Lamballe, amiga da rainha, é morta com selvageria. "Uma mulherzinha vestida de branco", testemunhou um cidadão, "que os carrascos armados com todo tipo de arma abateram". 

Descreve Gallo que "sua cabeça é cortada, seu corpo é arrastado, despedaçado e o coração arrancado". Mais: "Espalha-se o rumor de que ela fora grelhada e que um homem a comera".

O povaréu vai até a torre onde está confinada a rainha e exigem que ela venha à janela. Mostram a ela a cabeça decapitada da amiga. "A Comuna Insurrecional chama a turba de o povo soberano".

O tal povo soberano é uma ameaça a todos, incluindo os revolucionários de 14 de julho de 1789; os que não se mostrassem adeptos da Revolução de 10 de agosto de 1792 estavam sob risco de vida.

A encarada entre o exército prussiano monarquista e o exército francês revolucionário se dá na Argonne, no planalto de Valmy, em 20 de setembro. Trocam tiros de canhões. No duelo de artilharias morrem trezentos franceses e quase duzentos prussianos. Um temporal desaba. Os prussianos recuam. A batalha, ganha pela Revolução, passa a se denominar de "A vitória de Valmy".

Em Paris, o povo culpa o rei, encarcerado, pela guerra. Sob o clamor do combate, a Convenção Nacional decreta que a realeza foi abolida da França. O rei, Luís Capeto, é agora um mero prisioneiro.

Na Assembleia, girondinos e montanheses se engalfinham. Robespierre, Marat e Danton, líderes políticos nesse Ano I da República que se inicia, são atacados. Marat é defendido por muitos, enquanto outros querem mandá-lo para a guilhotina. 

Teatral, ele toma a tribuna, tira a pistola da cintura e aponta contra a própria testa: "Estou disposto a estourar meus miolos sob os vossos olhos". Os que o condenam arrefecem. 

Danton tenta conter o ímpeto assassino da Revolução: "Peço que declarem que a Pátria não está mais em perigo", diz. "O princípio desse perigo era a realeza, que foi abolida", contemporiza. Ao mesmo tempo, surpreende Luís Filipe, filho do ex-duque de Orléans, ao sugerir, no dizer de Gallo, que "aquele regime seria provisório e que a monarquia poderia renascer com um rei saído dos Orléans".

Após as vitórias militares, incluindo a ocupação da Bélgica, aumenta o clamor pelo julgamento do rei prisioneiro. Robespierre é categórico: "Luís deve morrer". Já Marat quer um processo. Os girondinos o apoiam. Encarcerados, o rei e a família são humilhados pelos carcereiros.

Para evitar que o Congresso absolva Luís XVI, Marat propõe o voto por chamada nominal e em voz alta. Danton sabe que "se o rei for colocado em julgamento, estará perdido, pois mesmo supondo que a maioria da Convenção se recuse a condená-lo, a minoria o mandará assassinar".

Danton é presenteado com dois milhões de libras para proteger Luís. Admite, porém, a um emigrado, Théodore Lameth, que sua predisposição a preservar a vida do rei tem um limite. "Expor-me-ei se enxergar uma chance de sucesso", diz, "mas se perder toda esperança, declaro que, por não querer perder minha cabeça junto com a dele, estarei entre aqueles que o condenarão".

A situação real não melhora nada com a descoberta, em 20 de novembro, de um armário de ferro que guardava a correspondência do rei com diversos tiranos e familiares, expondo diversos revolucionários que haviam sido subornados com milhares de libras.

Robespierre não perde a deixa. "Luís denunciou o povo francês como rebelde", exclama, "mas a vitória e o povo decidiram que ele era o único rebelde". Afirma que "ele já foi julgado, está condenado, ou a República não é absoluta". Vai além: "Luís deve morrer porque é preciso que a pátria viva!"

O prisioneiro é avisado que será interrogado e que, a partir daí, não poderá mais ver os seus. Ele é conduzido e, de pé, questionado pela Convenção. Não responde a nada. Sabe que está condenado e que a morte o aguarda. Afirma que "não cabe a uma Assembleia julgar o rei da França".

Três semanas depois, 26 de dezembro, se pronuncia no seu julgamento final. Está calmo. Ao contrário dos deputados, com um lado acusando o outro de terem sido encontrados no "armário de ferro" - uma espécie de "celular do Vorcaro". Tinha gente de ambos os lados naquele armário/celular.

A votação é marcada para segunda-feira, 14 de janeiro. Luís já sabe seu veredito.

A Convenção declara Luís Capeto culpado de conspiração contra a liberdade pública por 707 votos a zero. Em seguida, em 16 de janeiro, vota-se a questão capital: "Que pena será inflingida a Luís Capeto?"

Robespierre vota pela morte do rei. Danton idem ("Voto pela morte do tirano!"). Filipe Egalité, ex-duque de Orléans, vota pela degola do primo. Marat e Desmoulins também. Mas o placar não foi folgado: 387 regicidas contra 334 contrários. 

No dia seguinte, inúmeros deputados contestam a votação da véspera. Faz-se nova votação. Pasme: foram 361 votos pela morte do rei e 360 votos contrários. Luís XVI seria executado por um único voto. Deputados pedem o adiamento da execução (que será rejeitado por 380 votos a 310)

Qualquer manobra política estava fadada ao fracasso. Os sans-culottes, armados de lanças, cercam a Assembleia. "Berram com todas as suas forças que se Luís XVI não for condenado à morte, eles mesmos irão assassiná-lo", escreve Gallo.

Era o fim da linha para a dinastia dos Bourbon, que há trezentos anos ocupava o trono da França. Como frisa Adam Zamoyski em sua biografia de Napoleão, era muito tempo: "A Casa de Hanover reinava a Grã-Bretanha havia apenas 86 anos, o mesmo tempo do reinado dos Bourbon na Espanha, os reis de Nápoles estavam havia 66 anos no poder, e os Habsburgo tinham se entranhado no poder apenas em 1745". 

Não só. "O eleitor de Brandemburgo decidira se chamar rei na Prússia havia menos de cem anos, e o tsar de Moscou virou imperador da Rússia em 1721", completa.

A mais antiga casa monárquica europeia está prestes a desmoronar, com o assassinato revolucionário do rei (os franceses ainda não sabem, mas em sete anos estarão aclamando um novo imperador).

Em Roma, inimigos da Revolução matam um diplomata francês e tentam incendiar o gueto da cidade, acusando os judeus de serem cúmplices da Revolução Francesa. Você sabe como funciona. Sempre sobra para os judeus. 

Comunicado da decisão, Luís Capeto se diz surpreso com o voto do primo e pede três dias "para se preparar para surgir diante de Deus". Também isso lhe é negado. Será executado no dia seguinte.

A execução se dará na segunda-feira, 21 de janeiro de 1793. Alguém que viria, na posteridade, se tornar gíria e sinônimo de maluco no Rio de Janeiro, o médico Filipe Pinel (que em seu trabalho generoso se dedicou a desacorrentar os loucos e separá-los dos criminosos), escreveu, consternado:

"Para meu grande pesar fui obrigado a assistir à execução, armado, e agora escrevo com o coração cheio de dor". Diz Pinel que muitos gritaram "Viva a nação", mas que um grande número "se retirou, indo derramar lágrimas no seio da sua família".

Luís XVI, ex-rei dos franceses, foi decapitado. A monarquia foi extinta na França.

O jornal montanhês Le Republicain, entusiasmado, registrou, no dia seguinte, que "hoje acabamos de nos convencer que um rei não passa de um homem, e que nenhum homem está acima das leis". Vai adiante: "Povos da Europa! Contemplai os tronos: vereis que não passam de poeira!"

Marat celebra, no Le Publiciste de la République française: "A cabeça do tirano acaba de cair sob o gládio da lei... Finalmente acredito na República... O suplício de Luís é um desses acontecimentos que marcam uma época na história das nações..."

Não terá mais do que seis meses para comemorar. Em breve, uma jovem, de fora de Paris, horrorizada com a escalada do terror, irá surpreender Marat no banho, e enfiar um punhal em seu peito. Mas esta (e muitas outras mortes) ficam para o segundo volume da obra de Gallo.

L&PM Editores, 345 páginas  |  3a edição, 2021  |  Copyright 2009  |  Tradução  Júlia da Rosa Simões

Título original: "Révolution Française: Le Peuple et le Roi (1774 - 1793)"

"A guerra do retorno", por Adi Schwartz e Einat Wilf


Após a criação do Estado de Israel, em 1948, o novo país teve sua fundação batizada pelo ataque de cinco nações vizinhas: o Egito, a Síria, a Jordânia, o Líbano e o Iraque. Quantificando em termos populacionais, eram 600 mil judeus cercados por 30 milhões de árabes (números dos autores).

A estúpida vantagem em armas e soldados não trouxe o resultado esperado. Os árabes invasores (pois vinham de outros países) perderam para os mal-armados colonos judeus da Palestina.

Sequer o apoio da Inglaterra à causa árabe foi suficiente para modificar o resultado. A Inglaterra era a detentora do Mandato Palestino e era parceira no petróleo árabe. Os soviéticos e os americanos agiam ainda sob o grosso impacto do Holocausto na opinião pública e preferiram não se meter.

A vitória dos judeus no que eles chamam a "Guerra da Independência" - a mesma que os derrotados nominaram de a "grande Nakba" (grande catástrofe) - deu início ao problema dos refugiados.

É um flagrante desta guerra, vencida pelos judeus, que você vê na foto acima. Mas, ao contrário do desenlace das guerras convencionais, este, ao invés do término, foi o início. De uma guerra sem fim.

Os autores tratam-na como "a guerra do retorno". Mas retorno de quem, mesmo? Vamos recapitular.

Diante do conflito, ao longo de 1948 centenas de milhares de árabes residentes no território do Mandato Britânico da Palestina haviam deixado a região, por diferentes razões. A elite árabe, por vontade própria; a população, em geral, em muitas vilas e cidades, partiu por ordem dos invasores árabes; ou liminarmente expulsa pelos judeus.

Até hoje o número total é impreciso - e é inflado ou reduzido de acordo com o interesse do emissor.

Peço a paciência do leitor, porque vamos revisitar a eclosão desta guerra - ponto de partida da polêmica palestina. Todo o contencioso que já vimos acima começou na resolução da ONU pela criação de dois estados na região: um Estado judeu e um Estado árabe. E, como também vimos, os árabes rejeitaram (categoricamente e em bloco) a resolução e foram para o pau.

O impasse era simples. Os árabes não admitiam que os judeus pudessem ter direito a um Estado soberano - ali. Ameaçaram os judeus: os que não abandonassem a região seriam mortos.

Eclodiu a tal guerra - desculpe se sou repetitivo. Árabes versus judeus.

O ataque aos judeus foi a execução prática do entendimento político árabe, contrário à existência de um Estado judeu. Confiantes na enorme vantagem militar e numérica a seu favor, os árabes não cogitavam que os judeus resistissem às forças invasoras. O conflito se estendeu de 1948 a 1949.

Para surpresa do mundo, os árabes foram derrotados pelos judeus. Fez-se - a contragosto - a paz.

O fracasso bélico exigiu uma reavaliação. Parte dos dois milhões de habitantes árabes que viviam dentro do perímetro definido pela ONU para o Estado judeu havia abandonado suas casas, fugido ou sido expulso à força. Desterrados, buscaram acolhimento nos estados árabes vizinhos.

À exceção da Jordânia, não foram absorvidos pelos seus vizinhos árabes, e sim assentados em acampamentos provisórios. A Liga Árabe foi, inicialmente, contra o retorno dos refugiados a Israel. Mas logo os dirigentes árabes mudaram seu discurso. Entenderam que a exigência do retorno poderia se tornar uma arma importante para uma reversão política da derrota militar.

As diversas movimentações e consequências desta postura deram início à "guerra do retorno".

Nesta nova etapa, a agência criada pela ONU para apoio humanitário aos refugiados - a UNRWA -, se tornaria o principal pivô e sustentáculo de uma guerra que, ao contrário de outras, jamais teria fim.

Embora, com a passagem dos anos, os refugiados tivessem obtido uma qualidade de vida superior às dos próprios países árabes onde estavam assentados - pois o financiamento internacional da UNRWA bancava alimentação, educação e investimentos em agricultura e infra-estrutura -, a manutenção do status de "refugiados" era o pivô do não-reconhecimento de Israel como Estado.

A Liga Árabe, que NÃO contribuía financeiramente com a UNRWA, se opôs quando a ONU se manifestou favorável à desativação da agência. Era que, sob a perspectiva humanitária - a razão de ser original da UNRWA -, a ONU considerava que seu trabalho estava concluído.

Mas, sob a perspectiva geopolítica, havia certos entraves para que esta decisão fosse tomada.

Pairava o temor de que, se a ONU suspendesse o auxílio, o cartel árabe dos produtores de petróleo reduzisse seu fornecimento, provocando o aumento do preço do barril. A ameaça, se concretizada, custaria muito mais caro às potências ocidentais do que manter o financiamento da UNRWA.

Por outro lado, a manutenção da UNRWA era a chancela política da comunidade internacional à existência dos refugiados. Estes, a esta altura, estavam socialmente estabelecidos, em cidades provisórias, dentro das fronteiras dos países vizinhos, ainda que sem reconhecimento pleno.

O único país que aceitou dar cidadania ou direitos legais aos palestinos foi a Jordânia. A Síria os admitia como trabalhadores de segunda classe, o Egito os confinava na Faixa de Gaza (então sob administração egípcia) e o Líbano queria expulsá-los do território libanês.

Nos anos 60, muitos palestinos emigraram para o Iraque e o Kuwait, onde, por conta da sua formação superior (graças aos esforços da UNRWA), tinham posição de destaque no mercado de trabalho e eram bem-remunerados. Era condição sine qua non, entretanto, mesmo vivendo fora, manterem suas matrículas de refugiado e estarem inscritos para o recebimento de cupons de assistência humanitária, abastecendo um mercado paralelo de alimentos e produtos básicos.

(A propósito, dessa coisa de não abrir mão de benefício o brasileiro é mestre. Aqui, muito político rico - ô redundância - se inscreveu pra receber auxílio na pandemia e mama todo mês o bolsa-família...)

No mais, a questão se tornara 100% política. A presença da UNRWA não mais se encaixava em um contexto humanitário, e sim como legitimação de uma condição atemporal de um povo refugiado.

Na prática, a UNRWA funcionava como a negação permanente da legalidade do Estado de Israel.

A nova geração palestina nascera em outros países e jamais pisara na Palestina. Mas a manutenção da condição de "refugiados" era a afirmação política da existência de uma terra alhures, que lhes fora "roubada", onde fariam jus à cidadania que lhes era negada... nos países em que nasceram!

Enquanto a comunidade internacional validasse a existência dos "refugiados", haveria uma arma política de contestação do Estado israelense - por mais que este Estado fosse fruto de uma resolução internacional legal que criara dois países.

A política regional se estabeleceu desde o início como a credora da circunstância palestina.

Não importava que os árabes tivessem recusado a criação de um Estado palestino e declarado guerra ao Estado judeu. Não importava que, na guerra que promoveram contra os judeus, os árabes tivessem sido legitimamente derrotados no campo de batalha, sem interferência estrangeira.

Como o massacre que os árabes tentaram infligir aos judeus foi um fiasco, os perdedores, oportunistas, identificaram na UNRWA o instrumento para o prolongamento indeterminado da guerra. E, de posse do dinheiro, investiram na retórica.

A juventude palestina em Gaza, Síria, Líbano e Jordânia cresceu instruída sobre a existência de um vizinho - os judeus - que havia "roubado" sua terra. Este aprendizado de ódio culmina em um credo de santificação do assassinato do invasor, que mora do outro lado da cerca. A criança palestina passou a ter por ideal de vida matar um ou mais judeus, não importa quais, nem onde, nem como.

Esta foi a grande vitória da Liga Árabe e dos países que representava. Cultivou, em uma estufa, gerações sucessivas de jovens muçulmanos, mas estrangeiros, dispostos a abrir mão da vida em prol do não-reconhecimento de um Estado do qual os países árabes eram inimigos.

Os países árabes alimentam crianças palestinas para serem galos de rinha.

E, melhor, são bem-sucedidos sem gastar um centavo com isso, pois todo o dinheiro envolvido é fruto da contribuição da comunidade ocidental às necessidades humanitárias dos refugiados.

Assim, o presente com o qual lidamos é uma massa gigantesca de jordanianos, sírios e libaneses, nascidos nestes países, cujos pais nasceram nestes países e neles se formaram, casaram e tiveram filhos, com uma dupla identidade (financiada e validada pelo orçamento internacional de US$ 1,2 bilhão de dólares anuais da UNRWA). Eles são, eternamente, refugiados palestinos.

A circunstância mantém o pescoço do Estado de Israel sob a guilhotina.

Talvez se trate de um caso ímpar e sem paralelo na história. Os autores dedicam o livro à exposição desta singularidade, e de como foi imposta uma questão para a qual não há solução - o Retorno.

Historicamente, populações refugiadas buscam assentamento e integração em outros países, de preferência aqueles com os quais compartilhem identidade étnica e cultural. Foi exatamente o que aconteceu com a diáspora palestina, que se distribuiu entre Jordânia, Síria e Líbano.

Na Jordânia, eles são mais de dois milhões e meio de cidadãos jordanianos - mas que continuam sendo registrados pela UNRWA como refugiados. Nasceram na Jordânia. Cresceram na Jordânia. Se educaram na Jordânia. Se casaram na Jordânia. Tiveram filhos na Jordânia. Têm toda a documentação legal jordaniana. Mas, estatisticamente, são "refugiados palestinos".

Na Síria, que passou as últimas décadas em guerra civil, a situação é ainda mais esdrúxula. Os sírios "palestinos" que nasceram na Síria e eram contabilizados pela UNRWA como refugiados palestinos, fugiram para a Jordânia, onde passaram a ser atendidos pelo ACNUR como refugiados... sírios!

Ou seja, se tornaram duplamente refugiados. Eram palestinos refugiados na Síria e passaram a ser sírios refugiados na Jordânia, mas sendo simultaneamente registrados e subvencionados por duas instituições internacionais de auxílio humanitário, a UNRWA e o ACNUR. No mínimo, exótico.

Schwartz e Wilf buscam ao longo de todo o texto uma organização cronológica e didática do problema. Não obstante - ou talvez por isso mesmo -, acabam presos em um labirinto, pois sua linha de raciocínio, ainda que correta e bem fundamentada, repassa diversas vezes os mesmos pontos, pecando em uma redundância que talvez fosse mesmo inevitável.

Mais ou menos o que também fiz por aqui, tentando explicar esse furdunço.

Um dos pontos altos da obra é o entendimento da perspectiva palestina. Os palestinos têm por anseio de vida o retorno à terra anteriormente ocupada por seus antepassados. Mais que isso, querem retornar às mesmas casas em que seus avós viveram; mesmo que tenham sido destruídas, eles as mantêm holograficamente de pé, na fabricação das suas memórias.

A compreensão desta perspectiva, entretanto, redunda na conclusão da impossibilidade prática do sonhado retorno. Porque não há para onde os pretensos refugiados possam retornar. O espaço desejado é ocupado por um outro povo, que foi vitorioso na guerra travada entre ambos.

Dois corpos não têm como ocupar o mesmo espaço. Neste caso, o derrotado pleiteia que lhe seja dada a reocupação do espaço conquistado pelo vitorioso. Para onde, neste caso, iria o vitorioso na guerra, se derrotado na disputa retórica? Há que se dar um destino ao corpo.

Se vivo, precisaria ser recebido em outro país, como refugiado (e, imagino, sem direito a retorno, pois, senão, teríamos um círculo vicioso eterno); se morto, é porque foi derrotado em confronto. Mas como matá-lo, se permanece imbatível, se Israel venceu (e continua vencendo) todas as guerras?

Eu aqui tomei a liberdade de novas formulações para encarar este paradoxo.

Não informei no início, mas conto agora: os autores lançaram o seu texto em 2020. Muito antes do 7 de outubro de 2023, portanto. E aqui já anteviam a catástrofe, desde sempre anunciada.

Já eu escrevo no primeiro semestre de 2026. Estados Unidos e Israel, em ação militar conjunta, atacaram em fevereiro a maior força militar da região, o Irã. E, desde então, estão encalacrados por lá. O Irã era justamente quem havia financiado o 7 de outubro, armando e subsidiando o grupo terrorista palestino Hamas.

Mas, como estamos carecas de saber, Israel reagiu e dizimou o Hamas.

Para conseguir dizimar o Hamas, Israel arrasou a Faixa de Gaza. E não só - Israel, em uma operação cinematográfica, implodiu o Hezbollah, um grupo terrorista libanês também armado pelo Irã e incomparavelmente mais forte e numeroso que o Hamas.

Com a perda dos seus dois grandes postos avançados na circunvizinhança do Estado israelense, o Irã se tornou mais vulnerável e sem poder de reação - e coação. Sofreu um ataque devastador na sua planta nuclear, ainda em 2025. E agora, em 2026, foi seviciado pelo ataque israelo-americano.

De acordo com a cobertura jornalística, recentemente Israel vem destruindo vastas regiões urbanizadas do território libanês, para impedir uma reorganização do Hezbollah na fronteira.

A palavra sistematicamente utilizada na mídia e nas redes sociais é "genocídio". Seu uso, entretanto, é meramente hiperbólico. A ação israelense, covarde ou não, visa ocupação de espaço. A população é estimulada a abandonar a zona de conflito. Não há confinamento ou perseguição. 

Estes últimos parágrafos parecem migrar do tema original, mas o ratificam e dão momentaneidade. A "guerra do retorno" é uma guerra política, econômica e midiática. Ela acontece em substituição à verdadeira guerra, não como uma negação desta última, mas como um recurso estratégico. 

A Guerra do Retorno é um importante instrumento retórico dos países árabes contra a presença de Israel na região do Oriente Médio. Eles estão certos em querer ejetá-la. A operação atual contra o regime iraniano só pôde ocorrer porque havia um inimigo poderoso nas cercanias - Israel. 

Israel é a presença militar do Ocidente no coração do Oriente Médio. Os árabes podem tolerá-la por algum tempo. Mas dedicarão todo seu esforço a combater esta presença. Do Ocidente querem apenas o dinheiro pago pelo petróleo - que, se por um lado é ainda o principal combustível da civilização ocidental, por outro financia o poder de fogo das ditaduras do Oriente.

Por fim, o retorno dos palestinos é um ótimo pretexto para manipular o engajamento ideológico superficial de milhões de jovens conectados em seus celulares. Mas as únicas questões ali que realmente importam são as econômicas e as militares (que sempre andam juntas). O mais é farofa.

Dará certo? A aliança midiático-pseudo-ideológica será suficiente para fazer desaparecer oito milhões de judeus do Oriente Médio? Só o futuro dirá. Em caso positivo, quando Israel for exterminado, os árabes poderão voltar a se matar entre si - e aí sim mandar os palestinos para o raio que os parta.

Por enquanto, porém, Israel parece estar mais forte e beligerante do que nunca.

Editora Contexto, 301 páginas  |  1a edição 2021  |  Copyright 2020  |  Tradução: Rachel Meneguello

Título original:

"The war of return: how western indulgence of the palestinian dream has obstructed the path to peace"

"Johan Cruyff 14, a autobiografia"


Uma coisa que eu não indico a ninguém são as autobiografias. Na maioria dos casos, são uma monótona auto-exaltação. "Johan Cruyff 14, a autobiografia" não foge à regra.

E olha que o cara que assina essa aqui jogou muita bola.

Johan Cruyff foi um dos maiores jogadores de todos os tempos. E não só. Foi também um técnico polêmico. Segundo alguns, revolucionário. Mas daí ao livro que ele escreveu (sobre ele mesmo) prestar, vai a distância de Amsterdam a Taubaté. A nado...

Li, resignado, as centenas de auto-elogios que ele enfileira ao longo de catorze capítulos da biografia do "14" mais famoso da história do futebol (já do basquete foi o nosso Oscar, que nos deixou há pouco). Ele aproveita o número para listar também os seus 14 "mandamentos".

Meras obviedades. Roteiro básico de coach.

Mas, apesar dos pesares, no livro há o que se aproveitar. E, como esse gringo gastou a bola, esteve em momentos capitais da história do esporte e, do banco, deu início à revolução tática do Barcelona, a gente tem que respeitar. E engolir o seu bla-bla-blá interminável.

E olha que o livro começa bem demais. O prefácio é de Tostão, o único que eu conheci que foi craque de campo e de texto. O mineiro, fera do Cruzeiro de 60 e da Copa de 70, foi contemporâneo do holandês. Se nunca se enfrentaram nos gramados, um dia, porém, se encontraram num shopping na África do Sul e mutuamente se reverenciaram. Duas lendas.

"Cruyff não foi o melhor jogador do mundo de todos os tempos - foi Pelé -, mas certamente está entre os dez melhores", afirma. Cruyff era um "técnico em campo", diz. "Tinha extraordinária inteligência espacial. Parecia olhar a partida de cima, com um megacomputador instalado no corpo para medir a movimentação e a velocidade da bola, dos companheiros e dos adversários".

Prefiro reproduzir os elogios que Tostão faz a ele do que os que ele próprio se faz. "Era perfeccionista, essencialment técnico, sem firulas", diz. "Jogava com elegância, com a cabeça em pé, sem olhar para a bola, o símbolo do jogo coletivo. Foi brilhante como armador e como atacante".

Pena que não foi o Tostão que escreveu o livro. Ia ser bem mais palatável. Vai por mim...

Cruyff fala menos do que se passou e mais sobre o que ele pensa. Faz da obra um espaço para responder a todos aqueles com os quais se desentendeu ao longo da carreira. E não foram poucos.

Quando se reporta aos seus tempos de jogador, é lacônico, mas direto. "Em 1971, vencemos a Copa dos Campeões da Europa pela primeira vez e ganhamos os dois anos seguintes também", conta. "Assim, em seis anos, o Ajax passou de um clube mediano para o melhor time do mundo".

Eu concordo, sem tirar nem por. Como já disse carradas de vezes, sou da opinião de que seis times mudaram a história do futebol: Honved, Botafogo, Santos, Bayern, Ajax e Barcelona.

Os quatro primeiros, pelos seus jogadores excepcionais; os dois últimos, pelos grandes jogadores que souberam executar a estratégia de técnicos geniais, Rinus Michels e Pep Guardiola.

Todos estes seis times foram a base do selecionado nacional e levaram as suas respectivas seleções a finais de Copas do Mundo. O Honved levou a Hungria ao vice-campeonato de 54; o Ajax levou a Holanda a dois vice-campeonatos consecutivos, 74 e 78; o Bayern foi a base da Alemanha campeã em 74; o Botafogo levou o Brasil a vencer três Copas do Mundo, em 58, 62 e 70; o Santos, a duas, 58 e 70; e o Barcelona foi a essência do time espanhol que venceu a Copa de 2010.

Então, o depoimento sobre a Laranja Mecânica, a seleção holandesa de 1974, cuja base era o Ajax, é um dos pontos altos da publicação. Cruyff conta que, duas semanas antes de começar a Copa, o técnico reuniu os jogadores e disse: "Como não vamos ganhar a Copa, façamos algo diferente, surpreendente". Tostão explica como o Carrossel Holandês (outros dos epítetos do time) funcionava:

"Foi o início da marcação por pressão. Onde estava a bola, havia vários holandeses para tomá-la. Era a pelada organizada", brinca. "Recuperavam a bola e chegavam com vários jogadores à área adversária. Zagueiros, armadores e atacantes se misturavam". Era isso mesmo. Uma pena que este timaço revolucionário tenha sido vencido pela Alemanha, a dona da casa, na final. 

E olha que abriram o placar, em uma arrancada de Johan Cruyff com 40 segundos de jogo, em um pênalti marcado pelo britânico Jack Taylor. Alguma chance do Daronco dar um pênalti contra os alemães, numa final de Copa disputada na Alemanha, ainda mais no primeiro minuto? zero, né.

Johan Neeskens, um dos craques do time, cobrou, como se diz hoje, com a "batida de segurança" (que de segura não tem nada, é um risco danado). Chutou baixo, no meio do gol. Holanda 1x0.

No lance seguinte os alemães começaram a cair na área adversária, mas Taylor não foi na onda deles. Aos 25 minutos, porém, o meia holandês Win Jansen deu um carrinho estúpido em Hölzenbein, dentro da área, e Taylor não hesitou em marcar o segundo penal da partida.

Paul Breitner, eleito o segundo melhor lateral esquerdo da Copa (o primeiro foi o brasileiro Marinho Chagas, o Bruxa, do Botafogo), bateu na bochecha da rede e empatou o jogo. Ainda no fim do primeiro tempo, Gerd Müller virou e deu o bicampeonato à Alemanha. Cruyff e seu fantástico time martelaram todo o segundo tempo, mas o gol não saiu. Mais uma injustiça histórica do futebol.

"Às vezes acontece de você perder um jogo no psicológico", interpreta Johan, décadas depois. "É só olhar como os gols foram marcados. Wim Jansen arriscando um carrinho na área, o que acabou em pênalti, e Ruud Krol abrindo as pernas ao tentar bloquear o chute adversário".

A partir daí, Cruyff faz uma digressão bem interessante sobre a importância do zagueiro jamais deixar que a bola passe entre suas pernas, pois mata o goleiro, que não espera seja isso possível. "O goleiro está contando com o zagueiro para cobrir uma parte do gol. É por isso que você nunca deve conceder esse espaço".

Os lances de uma final perdida ficam remoendo na cabeça dos atletas por décadas.

"Em nenhum momento conseguimos realmente entrar no jogo, e o gol de Müller se provou fatal", lamenta. "Quando tudo acabou, ficamos muito decepcionados. Sabíamos que éramos os melhores do mundo, mas não levamos o prêmio".

Como a Hungria de 1954 e o Brasil de 1982, porém, foi um time que entrou para a história.

"Muitos times e seleções de todo o mundo tentaram repetir a marcação por pressão realizada pela Holanda de 1974, contudo as atuações e os resultados foram muito irregulares", analisa Tostão. "Essas equipes pressionavam, mas quando não conseguiam recuperar a bola, deixavam enormes espaços na defesa".

O alto nível dessa seleção, segundo Cruyff, somente tinha ficado claro para o próprio elenco na semifinal, contra o Brasil. "Até então, ninguém sabia realmente o quanto éramos bons, e o jogo contra o Brasil foi o momento em que as pessoas descobriram o Futebol Total".

A Laranja Mecânica foi uma surpresa até para quem não devia ser - Zagalo, técnico brasileiro, que, ao invés de estudar os holandeses, achava que eles é que tinham que estudar o Brasil. Deu ruim. Fomos eliminados e Zagalo, demitido.

"Quando entramos no campo, estávamos nervosos, porque a gente achava que ainda estava jogando com o time de 1970, que venceu a Copa do Mundo", escreveu Cruyff. Mas o time do Brasil era totalmente outro. Dos titulares campeões do mundo, só Jairzinho e Rivelino estavam em campo. Gerson, Tostão, Clodoaldo e Carlos Alberto não foram. Sem contar o tal do Pelé, que se recusou.

Cruyff continua. "Não demorou mais de trinta minutos para entendermos que éramos realmente mais habilidosos do que eles". O Brasil foi atropelado, além de ter entrado no sarrafo (os europeus naquele tempo batiam muito). Mesmo com a Holanda melhor, Johan ficou apreensivo. 

"Tivemos sorte de não levar um gol algumas vezes no início do primeiro tempo", reconhece. "Porém, depois do susto, nosso time se encontrou para jogar o melhor futebol possível".

O craque holandês avalia que "a equipe brasileira também estava passando por uma fase de transição". Ele acredita que o Brasil "vinha tentando abandonar a técnica pura e optar por uma mistura de técnica e força física". Pode ser. Seja como for, fizemos mais três finais de Copa do Mundo depois disso e ganhamos duas. E ainda fomos a outras três semifinais.

Curioso que, como disse, a biografia dedique apenas poucos e curtos parágrafos sobre o apogeu do Carrossel Holandês. Cruyff é idiossincrático na escolha dos seus temas e discursos.

Se Pelé, com 34 anos, não quis disputar sua quinta Copa do Mundo, em 1974 (depois de ter ganho duas, 58 e 70), Cruyff, com 30 anos, não quis disputar sua segunda Copa do Mundo, em 1978. Ele tenta se explicar, mas não é convincente. O fato é que ele vivia em litígio com literalmente todo mundo.

Me pergunto se, mesmo com toda a roubalheira e coação, com Cruyff em campo aquela final em Buenos Aires não acabaria indo para os holandeses. Mas vá saber. Nem Cruyff, nem Maradona.

Em 1978, o rubro-negro Claudio Coutinho, militar brasileiro travestido de técnico, proclamou o Brasil "campeão moral" da Copa de 1978. Ele entendia do assunto. Fomos escrachadamente roubados, sim. Não perdemos no campo, mas o Peru abriu as pernas e engoliu seis gols argentinos, tirando o escrete brasileiro da final. Saímos invictos da Argentina e "campeões morais".

(Nem sempre o técnico reclamava da moralidade das conquistas. Coutinho, no ano seguinte, celebrou a proeza de ser duas vezes campeão carioca com o Flamengo no mesmo ano, 1979. Na verdade, foi uma vez campeão carioca e a outra vez foi campeão "especial". Mas O Globo sapecou na capa que era tricampeão 78-79-79 e a federação chancelou. Moralidade seletiva...)

Voltando à vaca holandesa, Cruyff não disputou a Copa de 78 e foi amplamente criticado. Como jogador, deu prosseguimento à carreira no incipiente futebol norte-americano, primeiro no Los Angeles Aztecs e depois no Washington Diplomats. Desperdício de talento.

Retorna à Holanda em 1980, aos 33 anos, onde ainda joga por mais quatro anos, ganhando campeonatos nacionais (Eredivisie) pelo Ajax e pelo seu maior rival, o Feyenoord. No Ajax, onde começou, garoto, e onde seus pais foram funcionários, teve uma relação de amor e ódio - mais este que aquele.

Ao encerrar a carreira, Cruyff retorna ao Ajax, como diretor técnico (e técnico de facto), vencendo duas Copas da Holanda e uma Recopa europeia - e reproduz o movimento que já havia feito como jogador, indo do Ajax para o Barcelona, desta vez como treinador.

E, se já tinha revolucionado o futebol como jogador, comete o crime pela segunda vez, ao mudar o jogo, agora como técnico do Barça. Lá, aplica o conceito de futebol total que sempre defendera. Fica oito anos no clube e é tetracampeão espanhol (de verdade, em anos consecutivos), ganha a Copa do Rei da Espanha, a Recopa Europeia, a Copa dos Campeões e a Supercopa da Europa.

Tudo bem que que o cara era marrento, mas ele tinha lá suas razões...

À vera, porém, a impressão que dá ao leitor é que, em quase todos os ambientes que esteve, saiu pela porta dos fundos, atirando. Inclusive, aproveita o livro para falar mal de muita gente que eu não fazia a menor ideia que existia, um monte de van der qualquer coisa.

Gênio incompreendido? Pode ser. Mas chato pra boné.

Com residência fixa na Espanha, confessou: "Sinto falta da Holanda e continuo tendo orgulho do meu país, mas nem sempre somos as pessoas mais legais de se conviver".

Acho que o elenco do Botafogo que dividiu o vestiário com o holandês Clarence Seedorf sabe muito bem como é isso de "convivência com holandês". Pergunta lá pra eles...

Enfim, a leitura da autobiografia de Johan Cruyff deve ser feita com critério e com estômago. Há muita coisa interessante, mas vem muita baboseira junto. Provável que um ghost-writer tenha ajudado o atleta, mas não deve ter tido autonomia para sequer tentar salvar o texto. 

Isso em nada macula o seu tamanho como jogador e treinador. Foi eleito em 1999 o Jogador Europeu do Século e ficou em segundo lugar (logo atrás de Pelé), como Jogador do Século.

(Cá para nós, se o pessoal contabilizar o que o Garrincha fez no futebol, não ia dar pro Pelé...)

Quando Cruyff fala do seu entendimento do jogo, observamos o quanto ele foi visionário. Ele já fazia há décadas do jogo de posicionamento o seu catecismo pessoal - enquanto há quem trate ainda hoje essa distribuição dos jogadores pelos setores do campo como se fosse a última palavra em tática.

Ele foi como os gênios são: um sujeito à frente do seu tempo. 

Editora Grande Área, 322 páginas  |  1a Reimpressão, 2023  |  Copyright 2016   

Título original: "My Turn: A Life of Total Football"  |  Tradução  Liliana Negrello e Christian Schwartz