"Johan Cruyff 14, a autobiografia"
E olha que o cara que assina essa aqui jogou muita bola.
Johan Cruyff foi um dos maiores jogadores de todos os tempos. E não só. Foi também um técnico polêmico. Segundo alguns, revolucionário. Mas daí ao livro que ele escreveu (sobre ele mesmo) prestar, vai a distância de Amsterdam a Taubaté. A nado...
Li, resignado, as centenas de auto-elogios que ele enfileira ao longo de catorze capítulos da biografia do "14" mais famoso da história do futebol (já do basquete foi o nosso Oscar, que nos deixou há pouco). Ele aproveita o número para listar também os seus 14 "mandamentos".
Meras obviedades. Roteiro básico de coach.
Mas, apesar dos pesares, no livro há o que se aproveitar. E, como esse gringo gastou a bola, esteve em momentos capitais da história do esporte e, do banco, deu início à revolução tática do Barcelona, a gente tem que respeitar. E engolir o seu bla-bla-blá interminável.
E olha que o livro começa bem demais. O prefácio é de Tostão, o único que eu conheci que foi craque de campo e de texto. O mineiro, fera do Cruzeiro de 60 e da Copa de 70, foi contemporâneo do holandês. Se nunca se enfrentaram nos gramados, um dia, porém, se encontraram num shopping na África do Sul e mutuamente se reverenciaram. Duas lendas.
"Cruyff não foi o melhor jogador do mundo de todos os tempos - foi Pelé -, mas certamente está entre os dez melhores", afirma. Cruyff era um "técnico em campo", diz. "Tinha extraordinária inteligência espacial. Parecia olhar a partida de cima, com um megacomputador instalado no corpo para medir a movimentação e a velocidade da bola, dos companheiros e dos adversários".
Prefiro reproduzir os elogios que Tostão faz a ele do que os que ele próprio se faz. "Era perfeccionista, essencialment técnico, sem firulas", diz. "Jogava com elegância, com a cabeça em pé, sem olhar para a bola, o símbolo do jogo coletivo. Foi brilhante como armador e como atacante".
Pena que não foi o Tostão que escreveu o livro. Ia ser bem mais palatável. Vai por mim...
Cruyff fala menos do que se passou e mais sobre o que ele pensa. Faz da obra um espaço para responder a todos aqueles com os quais se desentendeu ao longo da carreira. E não foram poucos.
Quando se reporta aos seus tempos de jogador, é lacônico, mas direto. "Em 1971, vencemos a Copa dos Campeões da Europa pela primeira vez e ganhamos os dois anos seguintes também", conta. "Assim, em seis anos, o Ajax passou de um clube mediano para o melhor time do mundo".
Eu concordo, sem tirar nem por. Como já disse carradas de vezes, sou da opinião de que seis times mudaram a história do futebol: Honved, Botafogo, Santos, Bayern, Ajax e Barcelona.
Os quatro primeiros, pelos seus jogadores excepcionais; os dois últimos, pelos grandes jogadores que souberam executar a estratégia de técnicos geniais, Rinus Michels e Pep Guardiola.
Todos estes seis times foram a base do selecionado nacional e levaram as suas respectivas seleções a finais de Copas do Mundo. O Honved levou a Hungria ao vice-campeonato de 54; o Ajax levou a Holanda a dois vice-campeonatos consecutivos, 74 e 78; o Bayern foi a base da Alemanha campeã em 74; o Botafogo levou o Brasil a vencer três Copas do Mundo, em 58, 62 e 70; o Santos, a duas, 58 e 70; e o Barcelona foi a essência do time espanhol que venceu a Copa de 2010.
Então, o depoimento sobre a Laranja Mecânica, a seleção holandesa de 1974, cuja base era o Ajax, é um dos pontos altos da publicação. Cruyff conta que, duas semanas antes de começar a Copa, o técnico reuniu os jogadores e disse: "Como não vamos ganhar a Copa, façamos algo diferente, surpreendente". Tostão explica como o Carrossel Holandês (outros dos epítetos do time) funcionava:
"Foi o início da marcação por pressão. Onde estava a bola, havia vários holandeses para tomá-la. Era a pelada organizada", brinca. "Recuperavam a bola e chegavam com vários jogadores à área adversária. Zagueiros, armadores e atacantes se misturavam". Era isso mesmo. Uma pena que este timaço revolucionário tenha sido vencido pela Alemanha, a dona da casa, na final.
E olha que abriram o placar, em uma arrancada de Johan Cruyff com 40 segundos de jogo, em um pênalti marcado pelo britânico Jack Taylor. Alguma chance do Daronco dar um pênalti contra os alemães, numa final de Copa disputada na Alemanha, ainda mais no primeiro minuto? zero, né.
Johan Neeskens, um dos craques do time, cobrou, como se diz hoje, com a "batida de segurança" (que de segura não tem nada, é um risco danado). Chutou baixo, no meio do gol. Holanda 1x0.
No lance seguinte os alemães começaram a cair na área adversária, mas Taylor não foi na onda deles. Aos 25 minutos, porém, o meia holandês Win Jansen deu um carrinho estúpido em Hölzenbein, dentro da área, e Taylor não hesitou em marcar o segundo penal da partida.
Paul Breitner, eleito o segundo melhor lateral esquerdo da Copa (o primeiro foi o brasileiro Marinho Chagas, o Bruxa, do Botafogo), bateu na bochecha da rede e empatou o jogo. Ainda no fim do primeiro tempo, Gerd Müller virou e deu o bicampeonato à Alemanha. Cruyff e seu fantástico time martelaram todo o segundo tempo, mas o gol não saiu. Mais uma injustiça histórica do futebol.
"Às vezes acontece de você perder um jogo no psicológico", interpreta Johan, décadas depois. "É só olhar como os gols foram marcados. Wim Jansen arriscando um carrinho na área, o que acabou em pênalti, e Ruud Krol abrindo as pernas ao tentar bloquear o chute adversário".
A partir daí, Cruyff faz uma digressão bem interessante sobre a importância do zagueiro jamais deixar que a bola passe entre suas pernas, pois mata o goleiro, que não espera seja isso possível. "O goleiro está contando com o zagueiro para cobrir uma parte do gol. É por isso que você nunca deve conceder esse espaço".
Os lances de uma final perdida ficam remoendo na cabeça dos atletas por décadas.
"Em nenhum momento conseguimos realmente entrar no jogo, e o gol de Müller se provou fatal", lamenta. "Quando tudo acabou, ficamos muito decepcionados. Sabíamos que éramos os melhores do mundo, mas não levamos o prêmio".
Como a Hungria de 1954 e o Brasil de 1982, porém, foi um time que entrou para a história.
"Muitos times e seleções de todo o mundo tentaram repetir a marcação por pressão realizada pela Holanda de 1974, contudo as atuações e os resultados foram muito irregulares", analisa Tostão. "Essas equipes pressionavam, mas quando não conseguiam recuperar a bola, deixavam enormes espaços na defesa".
O alto nível dessa seleção, segundo Cruyff, somente tinha ficado claro para o próprio elenco na semifinal, contra o Brasil. "Até então, ninguém sabia realmente o quanto éramos bons, e o jogo contra o Brasil foi o momento em que as pessoas descobriram o Futebol Total".
A Laranja Mecânica foi uma surpresa até para quem não devia ser - Zagalo, técnico brasileiro, que, ao invés de estudar os holandeses, achava que eles é que tinham que estudar o Brasil. Deu ruim. Fomos eliminados e Zagalo, demitido.
"Quando entramos no campo, estávamos nervosos, porque a gente achava que ainda estava jogando com o time de 1970, que venceu a Copa do Mundo", escreveu Cruyff. Mas o time do Brasil era totalmente outro. Dos titulares campeões do mundo, só Jairzinho e Rivelino estavam em campo. Gerson, Tostão, Clodoaldo e Carlos Alberto não foram. Sem contar o tal do Pelé, que se recusou.
Cruyff continua. "Não demorou mais de trinta minutos para entendermos que éramos realmente mais habilidosos do que eles". O Brasil foi atropelado, além de ter entrado no sarrafo (os europeus naquele tempo batiam muito). Mesmo com a Holanda melhor, Johan ficou apreensivo.
"Tivemos sorte de não levar um gol algumas vezes no início do primeiro tempo", reconhece. "Porém, depois do susto, nosso time se encontrou para jogar o melhor futebol possível".
O craque holandês avalia que "a equipe brasileira também estava passando por uma fase de transição". Ele acredita que o Brasil "vinha tentando abandonar a técnica pura e optar por uma mistura de técnica e força física". Pode ser. Seja como for, fizemos mais três finais de Copa do Mundo depois disso e ganhamos duas. E ainda fomos a outras três semifinais.
Curioso que, como disse, a biografia dedique apenas poucos e curtos parágrafos sobre o apogeu do Carrossel Holandês. Cruyff é idiossincrático na escolha dos seus temas e discursos.
Se Pelé, com 34 anos, não quis disputar sua quinta Copa do Mundo, em 1974 (depois de ter ganho duas, 58 e 70), Cruyff, com 30 anos, não quis disputar sua segunda Copa do Mundo, em 1978. Ele tenta se explicar, mas não é convincente. O fato é que ele vivia em litígio com literalmente todo mundo.
Me pergunto se, mesmo com toda a roubalheira e coação, com Cruyff em campo aquela final em Buenos Aires não acabaria indo para os holandeses. Mas vá saber. Nem Cruyff, nem Maradona.
Em 1978, o rubro-negro Claudio Coutinho, militar brasileiro travestido de técnico, proclamou o Brasil "campeão moral" da Copa de 1978. Ele entendia do assunto. Fomos escrachadamente roubados, sim. Não perdemos no campo, mas o Peru abriu as pernas e engoliu seis gols argentinos, tirando o escrete brasileiro da final. Saímos invictos da Argentina e "campeões morais".
(Nem sempre o técnico reclamava da moralidade das conquistas. Coutinho, no ano seguinte, celebrou a proeza de ser duas vezes campeão carioca com o Flamengo no mesmo ano, 1979. Na verdade, foi uma vez campeão carioca e a outra vez foi campeão "especial". Mas O Globo sapecou na capa que era tricampeão 78-79-79 e a federação chancelou. Moralidade seletiva...)
Voltando à vaca holandesa, Cruyff não disputou a Copa de 78 e foi amplamente criticado. Como jogador, deu prosseguimento à carreira no incipiente futebol norte-americano, primeiro no Los Angeles Aztecs e depois no Washington Diplomats. Desperdício de talento.
Retorna à Holanda em 1980, aos 33 anos, onde ainda joga por mais quatro anos, ganhando campeonatos nacionais (Eredivisie) pelo Ajax e pelo seu maior rival, o Feyenoord. No Ajax, onde começou, garoto, e onde seus pais foram funcionários, teve uma relação de amor e ódio - mais este que aquele.
Ao encerrar a carreira, Cruyff retorna ao Ajax, como diretor técnico (e técnico de facto), vencendo duas Copas da Holanda e uma Recopa europeia - e reproduz o movimento que já havia feito como jogador, indo do Ajax para o Barcelona, desta vez como treinador.
E, se já tinha revolucionado o futebol como jogador, comete o crime pela segunda vez, ao mudar o jogo, agora como técnico do Barça. Lá, aplica o conceito de futebol total que sempre defendera. Fica oito anos no clube e é tetracampeão espanhol (de verdade, em anos consecutivos), ganha a Copa do Rei da Espanha, a Recopa Europeia, a Copa dos Campeões e a Supercopa da Europa.
Tudo bem que que o cara era marrento, mas ele tinha lá suas razões...
À vera, porém, a impressão que dá ao leitor é que, em quase todos os ambientes que esteve, saiu pela porta dos fundos, atirando. Inclusive, aproveita o livro para falar mal de muita gente que eu não fazia a menor ideia que existia, um monte de van der qualquer coisa.
Gênio incompreendido? Pode ser. Mas chato pra boné.
Com residência fixa na Espanha, confessou: "Sinto falta da Holanda e continuo tendo orgulho do meu país, mas nem sempre somos as pessoas mais legais de se conviver".
Acho que o elenco do Botafogo que dividiu o vestiário com o holandês Clarence Seedorf sabe muito bem como é isso de "convivência com holandês". Pergunta lá pra eles...
Enfim, a leitura da autobiografia de Johan Cruyff deve ser feita com critério e com estômago. Há muita coisa interessante, mas vem muita baboseira junto. Provável que um ghost-writer tenha ajudado o atleta, mas não deve ter tido autonomia para sequer tentar salvar o texto.
Isso em nada macula o seu tamanho como jogador e treinador. Foi eleito em 1999 o Jogador Europeu do Século e ficou em segundo lugar (logo atrás de Pelé), como Jogador do Século.
(Cá para nós, se o pessoal contabilizar o que o Garrincha fez no futebol, não ia dar pro Pelé...)
Quando Cruyff fala do seu entendimento do jogo, observamos o quanto ele foi visionário. Ele já fazia há décadas do jogo de posicionamento o seu catecismo pessoal - enquanto há quem trate ainda hoje essa distribuição dos jogadores pelos setores do campo como se fosse a última palavra em tática.
Ele foi como os gênios são: um sujeito à frente do seu tempo.
Editora Grande Área, 322 páginas | 1a Reimpressão, 2023 | Copyright 2016
Título original: "My Turn: A Life of Total Football" | Tradução Liliana Negrello e Christian Schwartz



