"90 minutos em Entebbe", por William Stevenson


Há meio século, a União Soviética e o mundo árabe comemoravam a ousada ação terrorista que sequestrou o vôo 139 da Air France. Mais um - em uma época recheada de sequestros aéreos. Havia, fácil, mais de um por mês. A autoria desta ação foi reclamada pela Frente Popular para a Libertação da Palestina e pelas Células Revolucionárias (Revolutionäre Zellen) da Alemanha.

Apenas para citar alguns números: entre 1961 e 1972, 159 aviões tinham sido sequestrados nos Estados Unidos. No Brasil, no período de três anos, de 1969 a 1972, quinze aviões foram sequestrados. Um único Boeing 707, da brasileira Varig, foi sequestrado três vezes em seis meses.

As vítimas se contavam aos milhares. O Boeing 737 sequestrado pelo Exército Vermelho Japonês caiu em Singapura, com mais de cem vítimas fatais. A Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) explodiu uma bomba no vôo da Swiss Air em 1970, matando 47 pessoas.

Ou seja, não havia dúvida sobre o grau de periculosidade dos sequestradores.

Entre os 248 passageiros do vôo sequestrado, o AF139, havia 106 cidadãos israelenses. O vôo partira de Tel Aviv rumo a Paris no dia 27 de junho de 1976. Os sequestradores aproveitaram para embarcar durante a escala em Atenas, com um estoque graúdo de pistolas e granadas a tiracolo.

Mesmo sendo os sequestradores bandidos internacionalmente fichados, o embarque foi tranquilo.

Sei como é lá. Eu estive no aeroporto de Atenas vinte anos depois, em 1995, e o lugar parecia uma rodoviária do interior. Segurança zero. A esteira para retirada das malas era já na beira da rua, com absolutamente ninguém do aeroporto para fiscalizar. Uma verdadeira zona.

Já no ar, os terroristas se apresentaram à tripulação (com os gritos e as ameaças de praxe, todo mundo quieto, vou explodir isso aqui etc) e o avião foi desviado para Benghazi, na Líbia, onde reabasteceu. Dali seguiram viagem para o aeroporto de Entebbe, na Uganda. Seu destino final. 

O sequestro ganhou as manchetes do planeta. A exigência anunciada foi a libertação de 53 terroristas presos em Israel (40) e na Alemanha, França, Suíça e Quênia (os demais treze). O prazo dado foi o do dia 1o de julho. Caso contrário, explodiriam o avião, com os passageiros dentro.

Festa no deserto.

A moçada favorável à ação terrorista estava certa em comemorar. A situação era muito complicada para ser revertida. Uganda, no coração da África, era praticamente inacessível. Era governada por um ditador, com estreitos vínculos políticos com os árabes e, particularmente, os palestinos. Seu exército havia dizimado a oposição e matado dezenas de milhares de civis. 

O prazo dado era exíguo e, face à logística, o cativeiro parecia inexpugnável.

Em êxtase com a visibilidade global alcançada, o auto-intitulado Marechal de Campo Doutor Presidente Idi Amin Dada, Presidente perpétuo da República de Uganda, desfilava entre os presos. Ainda que coiteiro dos terroristas, pretendia ser exaltado como o "mediador".

Vaidoso, no dia 2 de julho viajou para Maurício, para "abrir a 13a sessão da Assembleia dos Chefes de Estado da Organização da Unidade Africana" e desfrutar do boost na sua popularidade. Como disse o ministro do Exterior de Uganda, Juma Abdullah, o "Presidente Amin aproveitou a oportunidade para explicar aos seus colegas todos os esforços que fizera para a liberação dos reféns".

Amin, que nas aparições se dizia candidato a salvar os judeus dos terroristas, era um declarado admirador de Adolf Hitler, o ex-cabo austríaco que promoveu a morte de 60 milhões de pessoas (e que, quando viu a si mesmo em perigo, entrou em pânico e se suicidou dentro de um bunker).

Stevenson cita um discurso na ONU em que Amin "aplaudiu publicamente o assassinato dos atletas israelenses e exigiu a extinção do estado de Israel". O presidente de Uganda "não apenas louvou Hitler pelo massacre de seis milhões de judeus como ainda propôs que lhe fosse erguido um monumento".

O ódio de Amin a Israel talvez possa ser explicado de forma mais prática. Uganda havia se beneficiado da política externa israelense nos anos 70, marcada pelo suporte humanitário e tecnológico às nações africanas. Israel desenvolveu a aviação aérea do país e fez o treinamento dos seus pilotos. 

Amin, que tinha pretensões maiores na África, queria mais, e pleiteou aviões de caça supersônicos (negados por Israel). Em seguida, disse que mandaria um ugandense à Lua e se indispôs com a Tanganica. Resolveu bombardeá-la, contando com o apoio israelense - que, obviamente, tirou o corpo fora dessa roubada, e pôs fim à lua-de-mel diplomática com o ditador maluco. 

Enfurecido, Amin se voltou para a União Soviética, que ficou bem satisfeita em fornecer seus Migs. A partir daí, o Marechal de Campo Doutor Presidente Idi Amin transformou-se em um entusiasta da causa palestina. "Mais de trezentos palestinos foram nomeados para cargos públicos antes ocupados por asiáticos", diz o jornalista.

Uganda, então, virou um enorme campo de treinamento para o terrorismo profissional. O desvio do AF136 para Entebbe era o corolário de um grande esforço para estar no centro dos acontecimentos. Idi Amin estava radiante.

(Apenas para ilustrar: nos anos 70, o exótico ditador da Uganda se tornara tão mundialmente midiático que, quando uma avalanche de milhões de pequenos besouros tomou conta do Rio de Janeiro, eles foram batizados aqui de "Idi amin". Duvida? Pergunte à IA.)

Com tudo isso dito, fica claro o êxito potencial da ação. O avião e os reféns estavam guardados pelo exército de Uganda, que ocupava o aeroporto por dentro e por fora. Após o pouso, os quatro terroristas que sequestraram o avião foram rebaixados a meros vigias. Uma equipe de alto escalão do terror, formada por árabes e palestinos, chegara para negociar e exercer o comando.

Foi feita uma seleção de passageiros, como nos tempos do nazismo. Judeus para um lado, não-judeus para o outro. Os não-judeus foram mandados de volta para casa, como um pretenso gesto de boa vontade de Amin, que dizia ter sido uma conquista dele perante os sequestradores.

Entretanto, os sequestrados não-judeus libertados foram essenciais na descrição 1) do local, 2) do posicionamento dos guardas e estado emocional dos terroristas e 3) da mise-en-scéne do "marechal".

Os sequestradores postergaram a deadline para o dia 3 de julho, domingo, às 11h da manhã. Ou os 53 terroristas que estavam na cadeia seriam libertados ou então os judeus sequestrados seriam executados. A ameaça era começar pelas crianças, uma a uma, até que as exigências fossem atendidas. Não era da boca para fora. Matar era com os caras mesmo.

Assim, estavam a um passo de uma vitória grandiosa. Para os terroristas, era por de joelhos o Estado sionista e dar liberdade aos seus chefes e companheiros. Para Idi Amin Dada, era o estrelato global.

Àquela altura, já havia uma semana que os judeus estavam confinados em um galpão no aeroporto, dormindo no chão, alimentados com carne estragada, sem água e sofrendo com latrinas entupidas. Diariamente, Amin cumpria o ritual de ir lá e responsabilizá-los pela própria situação, dizendo que era o país deles, Israel, que os prendia ali, ao não aceitar as exigências dos sequestradores.

Hipocritamente, se dizia protetor dos reféns, quando era, na verdade, carcereiro.

A diplomacia de Israel, por sua vez, estava em contato diário com o presidente de Uganda, em telefonemas sucessivos, pedindo para que ele não acoitasse os terroristas. Amin se fazia de sonso e se dizia solidário, mas impotente para persuadi-los. Israel teria que pagar o resgate.

Uma situação dramática. Libertar os 53 terroristas pedidos seria uma derrota e uma rendição. Tentar libertar os reféns seria uma ação de alto risco e poderia acabar em tragédia. Enquanto os políticos tentavam chegar a um acordo - sem um fiapo de luz no fim do túnel -, as equipes especiais do exército israelense, após três dias de treinamento exaustivo, já estavam na ponta dos cascos. 

Correndo contra o relógio, quatro quadrimotores israelenses, carregando algumas dezenas de soldados e um Mercedes Benz recém-pintado, alçaram vôo rumo à Entebbe na noite do dia 3 de julho de 1976. Poderiam ser chamados de volta a qualquer tempo; ou receberem no ar o OK para a missão.

As chances de terem êxito eram pequenas; mas a possibilidade de sucesso valia o risco.

Parafraseando a Wikipedia, esta que passou para a história como Operação Entebbe "é considerada por muitos especialistas como a missão de resgate mais complexa e perfeita de todos os tempos".

Confesso que eu já tinha escutado dezenas de vezes referências a esse sequestro. Volta e meia o tal "resgate em Entebbe" aparecia no meu radar. Mas jamais parara para ler a estória. Na verdade, o Oriente Médio nunca foi minha zona de interesse. Até um certo dia, dois anos e meio atrás.

O inominável 7 de outubro de 2023 fisgou minha atenção para o conflito entre israelenses e palestinos. Nunca me ative muito a um problema que eu, erradamente, julgava periférico. O ataque subumano do Hamas, porém, pareceu coisa de neandertais e eu quis entender melhor a questão.

Desde então, li, talvez, uma dúzia de livros sobre a região. Alguns deles já comentei aqui; pretendo comentar outros, mais à frente. Para diminuir minha ignorância, fucei quais autores eram mais respeitados. Tentei evitar os engajados e os panfletários. Acho que deu certo. Gostei do que li.

O rolo no Oriente Médio é um saco de gatos. É melhor delimitar uma linha do tempo e pular fora das abordagens maniqueístas. Mesmo com todo esse cuidado, é difícil entender esse pega-pra-capar.

Sob um prisma mais restrito, tudo começa a partir da resolução da ONU que estabelece a divisão do antigo Mandato Britânico da Palestina entre árabes e judeus, em 1948. A recusa árabe em aceitar a divisão desemboca na guerra aberta contra os 700 mil judeus nascidos e residentes na região.

A resistência dos judeus, apesar da sua precariedade militar, leva a um desfecho imprevisto - a vitória dos locais e à declaração do Estado de Israel. O evento é conhecido pelos vitoriosos como "Guerra da Independência" - e pelos derrotados como a "Grande Nakba". A grande catástrofe. 

A partir daí houve a guerra dos israelenses contra os egípcios, em 1956, a Guerra dos Seis Dias, em 1967 (dos israelenses contra os egípcios, sírios, libaneses, jordanianos e iraquianos), e a Guerra do Yom Kippur (assim chamada por terem os egípcios deflagrado a guerra no feriado sagrado anual dos judeus, o "Dia do Perdão"), em 1973.

A guerra no sul do Líbano, em 1978, também denominada Operação Litani, teve início após o atentado terrorista palestino conhecido como "Massacre da Estrada Costeira", que sequestrou e matou 38 civis israelenses, incluindo 13 crianças.

É a partir daí que a desproporção de forças entre Israel e seus vizinhos se torna evidente. Israel deixa de ser um pobre-coitado, sempre sob ameaça de linchamento pelos árabes ao redor, e passa a bully.

A ofensiva israelense visava estabelecer uma linha de proteção entre Israel e as forças terroristas da OLP (Organização pela Libertação da Palestina), que se valiam do Líbano para lançar ataques terrestres e de mísseis contra o território israelense. Após empurrarem os terroristas para trás do rio Litani, um acordo de paz foi celebrado entre Israel e a OLP. 

O conflito, entretanto, não ficou suficientemente bem resolvido (como não ficara nos trinta anos anteriores e também jamais ficaria, como temos acompanhado no meio século seguinte). Em 1982, Israel novamente invadiu o Líbano, para combater os terroristas palestinos. O país enfrentava o caos e a guerra civil.

Após diversas guerras, a década de 70 e o início dos anos 80 remodelaram o conflito árabe-israelense. Se o bully, Israel, conquistou supremacia militar, o acossado, o palestino, contava com o efeito surpresa em ataques surgidos do nada, no meio das cidades israelenses.

O novo front era protagonizado por terroristas armados, à paisana, contra civis desarmados (incluindo mulheres, velhos e crianças) e alheios à proximidade do perigo. O embate soldado a soldado ficara no passado. Na nova contabilidade do terrorismo, o que valia era a quantidade de defuntos.

Foi espremido entre esse monte de eventos, entre a Guerra do Yom Kippur, em 1973, e a Operação Litani, em 1978, que ocorreu o sequestro do vôo 139 da Air France.

Quando o assunto foi mais uma vez mencionado em um dos livros que lia, encasquetei - como é que Israel conseguiu resgatar os sequestrados no meio da noite, trancafiados em um galpão no coração da África, cercados por fanáticos sanguinários, perdendo apenas um soldado e quatro reféns?

Foi aí que fui buscar na internet livros que me contassem essa estória. Optei por "90 minutos em Entebbe" pelo ano da publicação. Só achei no sebo. Foi publicado em 1976, no próprio ano do sequestro. O autor era um reputado jornalista britânico-canadense, que lançou o livro semanas após o evento, certamente visando faturar enquanto o assunto ainda estava quente nos jornais.

Isso trouxe algumas desvantagens na concepção do livro, que parece uma colagem feita às pressas de uma série de depoimentos e versões. Parece, não; é. O autor vai e vem na estória, mistura diários, matérias de jornal, relatos diplomáticos e o próprio conhecimento. O livro é uma colcha de retalhos. 

Essa "colagem" poderia dar certo, se fosse mais bem organizada. Não foi. O jornalista tinha nome, background, e os relatos eram verdadeiros. Bastava. Tinha ainda as transcrições dos debates da semana seguinte na ONU e a transcrição integral de três telefonemas entre o coronel Baruch Bar-Lev e o presidente Idi Amin. O editor juntou tudo e mandou para o prelo. 

O fato é que, ainda que Stevenson tenha tido livre acesso a interlocutores de peso, o resultado ficou longe do ideal. Jogaram para o leitor a responsabilidade de fazer seu próprio rearranjo mental dos fatos narrados.

Funciona, mas não é o que se espera de um (bom) livro-reportagem.

É verdade, admitamos, que qualquer coisa produzida no calor dos acontecimentos terá sempre suas lacunas. E que o texto mais bem pesquisado (e melhor burilado) da atual indústria editorial está léguas à frente do que se fazia, nesse mercado, nos anos 70.

Ou seja, deficiências à parte, a obra tem seu valor. Sendo contemporânea dos fatos que descreve, não está contaminada pela obtusa politização ideológica das décadas posteriores.

O frenesi mundial por aquela que foi batizada "Operation Thunderbolt" gerou uma vasta quantidade de filmes, entre produção de ficção e documentários. O "Victory at Entebbe", produzido em 1976 para a ABC TV, reunia no elenco Burt Lancaster, Elizabeth Taylor, Anthony Hopkins, Linda Blair, Richard Dreyfuss e Kirk Douglas - uma constelação dos mais populares e bem pagos astros da época.

"Raid on Entebbe", produzido em 1977 para o cinema, trazia Charles Bronson (a grande estrela dos anos 70), além de Peter Finch, James Woods e Martin Balsam, entre outros. 

Por conta do heroísmo, das dificuldades e do sucesso quase absoluto da operação, as telas continuaram recebendo uma série de produções, entre elas a mais recente "7 days in Entebbe", de 2018. O elenco é internacional e o diretor é brasileiro - José Padilha, famoso pelo seu "Tropa de elite".

Antes de ver os filmes, porém, quis ler a estória detalhada do que aconteceu. "90 minutos em Entebbe", do jornalista William Stevenson, me permitiu entender, ainda que precariamente, filigranas do que se passou. Não me satisfez (ainda), mas trouxe um conteúdo robusto.

Como não é ficção, não tem spoiler, né? então tô liberado pra contar o fim dessa estória.

Na noite de 3 de julho de 1976, os quadrimotores dos judeus pousaram no velho aeroporto. Da barriga dos cargueiros saíram uma Mercedes e vários Land Rovers, entulhados com os melhores atiradores do exército de Israel. Quando se aproximaram dos soldados que protegiam o galpão, passaram os caras no fogo antes de darem boa-noite.

Os sequestradores nem de longe sonhavam que aquilo pudesse acontecer. Ninguém, aliás. Foram surpreendidos com o tiroteio que acontecia em meio à escuridão. As tropas de Israel invadiram a velha sala de embarque sem dó, mandando bala em todo mundo que estava em pé.

Tiveram a presença de espírito de gritarem em hebraico para os reféns se jogarem no chão.

Os sequestradores não foram páreo os invasores. Depois de eliminar os terroristas, o comando deu ordem para que os reféns fossem para o avião. A contar entre o pouso e a decolagem do aeroporto de Entebbe, toda a ação tomou 55 minutos - um minuto a mais do que o previsto nos ensaios.

Enquanto isso, o marechal doutor presidente dormia o sono dos anjos. Foi acordado, porém, às duas da manhã, por mais um telefonema de Israel. Acordou irritado. Do outro lado da linha, o israelense Bar-Lev tranquilizou Idi Amin: "Liguei somente para agradecer sua cooperação, presidente". 

O corpulento ditador de Uganda (1,93m, 140 quilos), balbuciou, sem entender do que se tratava. "Com o que ele tinha cooperado?" perguntou. Pediu explicações, mas o judeu desligou. Essa iria ser uma desconsolada madrugada para Amin e seus besouros homônimos.

Os reféns foram recebidos com festa em Israel. O sucesso da operação Thunderbolt foi estampado em todas as manchetes do mundo ocidental. Já os árabes acusavam, indignados, a inaceitável violação da soberania ugandense, que teve seu território invadido, seus aviões destruídos e seus soldados mortos.

"A África não pode permitir que uma parte do seu solo seja usada pelos sionistas de Israel para atacar um país irmão", disse, uma semana após, o ministro do Exterior de Uganda, no plenário da ONU. "Israel mais uma vez demonstrou sua qualidade de banditismo e de barbarismo".

O ministro ugandense foi enfático ao condenar Israel por ter resgatado os israelenses sequestrados. Condenou "a agressão de Israel" como sendo "bárbara, não provocada e injustificada".

A Somália fez coro com a Uganda. Hussein, seu representante, insistiu para que "o Conselho condene em termos os mais fortes possíveis o regime sionista de Tel Aviv pelo incrível ato de agressão cometido contra o povo e a o governo da República de Uganda".

Os principais jornais do planeta acompanharam a evolução dos acontecimentos. Em 1o de julho, assim que parte dos reféns foi libertada, a Associated Press informou que "os reféns recentemente liberados pelos sequestradores de um avião da Air France disseram que, quando pousaram em Entebbe, já havia quatro árabes bem armados aguardando no aeroporto".

Le Monde ratificou o fato na edição de 5 de julho. Na pista do aeroporto "vieram ao seu encontro, logo depois do avião haver descido, quatro ou cinco palestinos com metralhadoras".

A edição do New York Times do mesmo dia publicou que "fontes oficiais e os passageiros liberados declararam hoje que tinham provas de que o Presidente Amin estava em conluio com os sequestradores do avião depois que ele desceu em Uganda". 

Complementa ainda o NYT que nas "primeiras 24 horas depois da chegada em Entebbe, os sequestradores foram embora para descansar e os soldados ficaram tomando conta dos reféns".

Também no mesmo dia o Washington Post publicou que "os 148 passageiros não judeus liberados disseram que viram Amin abraçar o chefe da quadrilha e que os quatro terroristas haviam saído deixando os reféns entregues à guarda de soldados durante 24 horas".

A transcrição dos debates na ONU toma quase quarenta páginas do livro de Stevenson. Nela, o nome da passageira Dora Bloch é mencionado dezenas de vezes. Dora foi a única refém não resgatada. Ela, uma senhora idosa, viajava com seu filho adulto, para ir ao casamento do seu outro filho. Passou mal no cativeiro e foi levada a um hospital. Não estava no aeroporto no momento da ação.

Chaim Herzog, representante de Israel, questionou o governo de Uganda sobre o seu paradeiro e sobre sua cumplicidade com os sequestradores:

"Por que não soltou Dora Bloch, uma senhora de 75 anos, logo depois dos terroristas terem sido eliminados? Por que ela foi retida em custódia no hospital sob a guarda de soldados em Kampala? Por que não a entregaram ao Cônsul da Inglaterra, quando ele a procurou no domingo, 4 de julho, depois da operação de resgate?"

"Por que, de repente, somos notificados que as autoridades de Uganda não sabem do seu paradeiro quando ela foi retirada resistindo e gritando por quatro funcionários do hospital?", questionou veementemente Herzog, escalando o tom.

"Aqui nós temos esse espetáculo incrível e macabro de um estado declarando guerra a uma senhora de 75 anos", acusou o representante israelense. "Um estado que encontra apoio presumível naqueles que se associam com esse comportamento desprezível e covarde".

O representante de Uganda rechaçou as acusações. "Ela foi devolvida para o prédio do aeroporto de Entebbe na noite de sábado, 3 de julho. Só Israel sabe responder onde está Dora Bloch".

O New York Times, porém, publicara em 9 de julho que "na Câmara dos Comuns da Inglaterra, ontem, um ministro do governo disse que Dora Bloch fora visitada no hospital por um membro da Alta Comissão no dia seguinte do ataque de Israel", o que desmentia a versão do ministro de Uganda.

"O diplomata informou que Dora Bloch estava sob as vistas de dois homens em trajes civis e quando voltou uma hora depois não lhe permitiram mais que a visse", prosseguiu o artigo do NYT. "Pessoas do Hospital Mulago informam que seus registros mostram a entrada de Dora Bloch na última sexta feira, mas nada dizem quanto ao seu tratamento ou alta do hospital".

À época, dias após a operação, havia a expectativa que Dora Bloch fosse libertada com vida - o que jamais aconteceu. Consultando hoje o Google, a informação oferecida é que "uma refém idosa, Dora Bloch, que tinha sido levada a um hospital em Uganda antes do resgate, foi assassinada por ordem de Idi Amin como retaliação após a operação israelense".

Durante os quatro dias de debates na ONU, o paradeiro de Dora Bloch permaneceu desconhecido.

O presidente da Somália, Jaalle Mohamed Siad Berre, telegrafou então a Idi Amin, chamando os israelenses de "terroristas". Disse ele ter acompanhado "com grande choque e assombro o sujo ato de agressão perpetrado por tropas dos sionistas de Israel, terroristas e imperialistas, em Entebbe". 

Chamou ainda a operação de resgate dos reféns de "bárbara" e um "arrogante insulto à dignidade da África e da humanidade". Fez questão de destacar que o resgate dos sequestrados "contraria todas as normas de comportamento e conduta internacionais".

O presidente somali intitulou Uganda como "amante da paz" e que o país não teria sido o primeiro "cuja integridade e soberania territorial foram violadas pelo arrogante regime racista de Israel".

Siad Berre invoca que "todos nós lembramos das ocasiões em que o mundo esteve à beira de uma guerra total devido ao descarado comportamento do regime sionista no Oriente Médio e ao seu completo desprezo pelo direito internacional". Atribui à Israel uma "sinistra mentalidade".

Posteriormente, a ação "sinistra" seria rebatizada de "Operação Yonni", em homenagem ao único soldado israelense morto na ação. Militar experiente e intelectual admirado, seu nome completo era Yehonatan Netanyahu. Seu irmão, Benjamin, vulgo "Bibi", se tornaria o Primeiro-Ministro de Israel.

Mas aí já é outra história.

Editora Difel, 223 páginas  |  4a edição, 1977  |  Copyright 1976  | Tradução  Luiz Corção




"Trens rigorosamente vigiados", por Bohumil Hrabal


Em uma mistura de non-sense, lirismo e um humor parvo que sublima a idiotia, acompanhamos as desventuras e reflexões de Milos Hrma, um jovem tcheco, morador de uma cidadezinha fronteiriça à Alemanha nazista e, deduzo cá com meus botões, alter-ego do autor.

O universo da literatura tcheca é singular. Conheço poucos, mas bons. Franz Kafka, com suas mil gavetas, e Jaroslav Hasek, com seus bêbados, são meus prediletos. Encontrei um pouco de ambos no texto de Hrabal, principalmente aquele assombro terno de Hasek, sempre se auto-ridicularizando.

Para Hasek e Hrabal, tudo transborda uma certa imponência abobalhada. Se Hasek legou para a posteridade o seu soldado Svejk, Hrabal nos oferece o simplório, mas prático, aprendiz ferroviário Milos. Ora com a cabeça nas nuvens ora com um atilado bom senso, o aprendiz vai, de personagem em personagem, desvelando os ladinos e os apatetados.

"O incrível casamento do humor plebeu com a imaginação barroca", disse de Hrabal seu compatriota Milan Kundera, mundialmente famoso pelo seu "A insustentável leveza do ser". Que nunca li.

A novela começa com o retorno do ferroviário ao emprego. Vinha de três meses de licença, pois se recobrava de uma tentativa de suicídio. Cortara os pulsos porque falhara na hora H com a namorada ("como pôde acontecer o que me aconteceu, que quando era para acontecer aquilo com Masa eu de repente murchei como um lírio?"). Vestira novamente seu belo uniforme de ferroviário.

O ano era 1945 e os alemães vinham correndo para trás. Fizeram da República Tcheca um Protetorado alemão e mataram tchecos a torto e a direito. Não que os tchecos fossem assim tão hostis aos chucrutes - não, não eram, e aí reside parte do problema. A literatura vem, às vezes, providencialmente socorrer a honra nacional.

Milos descendia de uma linhagem de resistentes. Ou quase. O protagonista teve por duas vezes um revólver alemão apertado contra as fuças - como o próprio escritor, que também tinha sido ferroviário e também estivera duas vezes sob a mira dos boches. Personagem e autor sobreviveram.

Tiveram melhor destino que o avô do Milos, que era hipnotizador e que, na Primeira Guerra Mundial, avançou sozinho contra uma divisão alemã, para pará-la utilizando apenas a força do pensamento. O tanque passou por cima dele. Decapitou o pobre e a cabeça ainda ficou presa na lagarta.

O bisavô, aleijado de guerra, vivia da pensão militar. Gostava de beber aonde houvesse alguém trabalhando, para tirar sarro de quem trabalhava enquanto ele ficava à toa debochando. Volta e meia levava uma surra de um trabalhador de cabeça quente. Até que um dia apanhou tanto que morreu.

O pai era um acumulador compulsivo e montava coisas com as tralhas que catava no lixo. A namorada ele conheceu após pintarem uma longa cerca, um de cada lado. No fim da cerca era para as coisas terem acontecido naturalmente, mas o pincel dele não funcionou e ele resolveu se matar.

Com o que voltamos ao início.

Sua estação de trem emula um teatro de vaudeville, com personagens caricatos. O chefe da estação vivia dentro de um pombal. A mulher do sr. chefe degolava coelhos, entupia gansos e dava um pau no marido. O controlador de tráfego carimbava a bunda da secretária do sr. chefe. E por aí vai.

E vai com algum spoiler, aviso. A uma certa altura o tom galhofeiro da novela migra para uma linha heroico-piegas. Os ferroviários resolvem explodir um dos trens rigorosamente vigiados. Uma agente secreta que veio ajudar a sabotar os alemães acaba dando para o virgem aprendiz.

Mais não digo.

Bohumil Hrabal, o autor, teve a vida marcada pelas guerras mundiais. Nasceu no início da primeira e enfrentou os dissabores da segunda. Filho bastardo de um soldado austro-húngaro, casou-se com Eliska, filha de um alemão rico e de uma austríaca simpatizante do nazismo. Não tiveram filhos, pois Eliska, estuprada por soldados soviéticos, não conseguia engravidar.

No regime comunista pós-Segunda Guerra, tornou-se operário, ferroviário e impressor. Só depois obteve autorização para ser escritor. Acabou perseguido por não se dobrar ao regime. Sua obra faz dele um dos maiores escritores tchecos do século XX.

Foi viver na roça. No fim da vida, viúvo, suspeita-se que tenha se matado.

Para encerrar. Em 1967, pouco depois da publicação de "Trens rigorosamente vigiados", fez imprimir no anúncio de falecimento do seu tio Pepin (um contador de estórias que influenciou seu texto e espírito), uma frase que talvez conte muito da ativa melancolia do próprio Bohumil.

"Ah, minha Nossa Senhora, a vida é, de qualquer jeito, bela, não que seja, mas é assim que eu a vejo".

Editora 34, 127 páginas  |  1a edição, 2025  |  Copyright 1965  |  Tradução  Luís Carlos Cabral

Foto: Ana Puterman (estação ferroviária de Rive-de-Gier)


"História da imigração no Brasil", por Luís Reznik


O estudo organizado por Luís Reznik se debruça sobre as políticas migratórias - estimuladas ou coibidas - do Estado brasileiro ao longo de um século e meio.

Dividido em sete capítulos, cada um deles sob a responsabilidade de um historiador, o texto fatia o arcabouço étnico do país. A abordagem revela que o perfil e o volume dos fluxos migratórios foram sempre pautados pelo governo - com influência de latifundiários e empresários.

O primeiro capítulo, de Lená Menezes, introduz o tema do livro. O viés é protocolar.

O segundo capítulo, de Marieta de Moraes, foge à abordagem mais generalista dos demais e ilumina um episódio. Fala de Nova Friburgo e conta como, em 1818, D. João VI, Rei do Brasil, investiu na importação de famílias de agricultores suíços, para, a título de experimento colonizatório, introduzi-los na região serrana do Rio de Janeiro.

Vale explicar melhor. O rei andava à cata de soluções para resolver um problema estratégico. É que, com as dificuldades impostas ao tráfico negreiro pelos ingleses, urgia encontrar alternativas para substituir a mão-de-obra escrava - até então o único motor da produção brasileira.

Esta primeira operação, denominada de "Tratado de Colonização", foi contratada ao suiço Sébastien-Nicolas Gachet, representante diplomático do cantão de Fribourg. O diplomata se comprometeu com o rei a importar 100 famílias suíças, que seriam estabelecidas na antiga fazenda do Morro Queimado - a partir daí rebatizada como Nova Friburgo.

Tinha início um procedimento comercial que se estenderia por décadas e que se tornaria o principal vetor de imigração no país. Agenciadores estrangeiros, sob comissão, "vendiam" colonos ao governo brasileiro. A opção estava em voga. Era um produto fartamente disponível no mercado.

Em uma época em que o povo europeu enfrentava ciclos de fome, era fácil cooptar desesperados dispostos a enfrentar o desafio de se lançarem rumo aos trópicos desconhecidos.

Uma epopeia arriscada e insalubre, que se dava em padrões inaceitáveis aos olhos de hoje.

Em outubro de 1818, atendendo aos panfletos que diziam tratar-se de uma terra de "espantosa fertilidade", as inscrições foram abertas em Fribourg. Ao longo de nove meses, dois mil suíços se inscreveram. A maioria (57%) tinha menos de 19 anos. Entre os 20 e os 59 anos se situavam 42%.

Imagine duas mil pessoas deixarem todos os seus vínculos para trás e se meterem nessa aventura.

Os dois mil suíços que partiram em julho de 1819 foram minguando. A primeira etapa, até a Holanda, onde foram instalados em um acampamento precário, em terreno pantanoso, acabou na morte de 43 dos emigrantes. Durante a travessia, que durou quase cinco meses, morreram mais 311 candidatos a colonos, ou seja - quase 20% dos suiços jamais viu o Morro Queimado.

Chegando ao Rio, as famílias foram acomodadas em um mosteiro no fundo da Baía de Guanabara. Dali partiram para uma viagem de dez dias serra acima (hoje o percurso se faz em duas horas). Em 18 de fevereiro de 1820, Nova Friburgo foi fundada. Os imigrantes foram distribuídos em cem casas de pedra. Tudo sem: sem assoalho, sem banheiro e sem cozinha. As janelas eram sem vidros.

Nos primeiros cinco meses na nova cidade, morreram mais 131 suíços. Quase um por dia.

Este não foi necessariamente o procedimento padrão das operações de colonização praticadas no Brasil, mas é um exemplo real e pioneiro. Marieta destrincha o desenvolvimento inicial da Friburgo brasileira, com destaque para uma família específica, dando cores vivas ao relato.

No terceiro capítulo, Rui Aniceto e Julianna Costa falam do período compreendido entre 1830 e 1880, quando estima-se que mais de 400 mil imigrantes chegaram ao Império. Durante meio século, a questão da imigração foi ora contestada, ora celebrada. Subordinada a interesses políticos e comerciais, a situação era conduzida sob o prisma oportunista de cada ocasião.

É no quarto capítulo, por Paulo Cesar Gonçalves, que se estuda o grande boom da imigração no Brasil (e no mundo), com o Brasil recebendo 17% da Grande Emigração italiana no período que vai de 1876 ao início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Coube à Argentina 25% desse fluxo e aos Estados Unidos quase 60%, ficando os EUA com 871 mil dos 1,6 milhão de italianos emigrados.

A diáspora portuguesa inverte estes números em favor da América do Sul. Um milhão de portugueses emigraram de 1876 a 1914 - e 80% deles vieram para o Brasil, ao passo que somente 16% escolheram os Estados Unidos. Não só o idioma fazia do Brasil a opção natural, como o Estado brasileiro sempre foi extremamente receptivo a receber os emigrantes lusitanos.

Gonçalves abastece o leitor de números absolutos e percentuais. E mostra o valor pago pelo governo brasileiro aos importadores de imigrantes. Curioso é que o Brasil se esforçou para reduzir a imigração italiana - na escala da subvenção estatal no fim do século XIX, o mais valorizado era o imigrante canadense, seguido pelos "europeu", aí pelo "ibérico" e, por último, o italiano.

Mantega, Bolsonaro, Toffoli e Vorcaro, entre outros, podem dar substância a essa subapreciação.

O quinto capítulo, escrito por Paula Ribeiro, se dedica à imigração urbana no entreguerras - uma imigração espontânea, diferente da arquitetada e financiada pelo Estado e pelo poder econômico. São fugitivos dos conflitos e da miséria, em um momento em que o Brasil recebia a predileção dos estrangeiros, pois EUA, Canadá e Argentina estavam no auge das políticas restritivas.

Sem dispor de subvenção (oferecida aos portugueses, alemães, espanhóis, italianos e japoneses), desembarcaram aqui - sem convite - sírios, libaneses, armênios e judeus. Atente que estes últimos logo seriam impedidos de emigrar para o Brasil, por força da política hostil do governo Vargas (que é justo o tema do sexto capítulo, assinado pelo renomado historiador Fábio Koifman).

Aqui posso dar alguns pitacos e oferecer meu próprio exemplo familiar.

Fruto ostensivo da feijoada étnica que é o brasileiro, nunca procurei rastrear minhas raízes maternas portuguesas. Os nomes dos meus avós baianos, inequivocamente lusos (Braga, Cardoso e Carvalho) não dão margem à dúvida. Há ainda um "Quintanilha", ostentado com orgulho por minha mãe, que me faz supor ancestrais galegos ou espanhóis.

Por serem mais recentes no país e plenas de perda e sofrimento, são minhas origens judaicas que mais me atraíram a atenção. É gente chegada quase agora, no século passado.

A partida rumo ao desconhecido, cumprida por milhares de judeus do Leste europeu, me instigava a curiosidade. Fui ao Arquivo Nacional (recomendo), onde localizei farta documentação sobre a vinda dos meus avós poloneses para o Brasil (reproduzo parte destes documentos na ilustração do post).

Meu avô, Izrael Puterman, chegou antes das leis de controle racial da imigração terem sido implantadas no país. Se já estivessem em vigor, ele certamente não teria sido admitido. Vindo de Varsóvia, de onde partiu em dezembro de 1929, desembarcou do navio Formosa no pier da Praça Mauá em janeiro de 1930.

Minha avó, Cyrla, née Rawicz, só veio para o Brasil dois anos depois, em julho de 1932. Casaram, no civil, no mês seguinte. As leis restritivas estavam em debate. Se já fossem vigentes, Cyrla poderia se valer do mecanismo das "cartas de chamada" para imigrar (as leis aprovadas permitiam o ingresso de parentes de estrangeiros já residentes no país, desde que assinassem as tais cartas).

A racionália da legislação proibitória acreditava - ou pelo menos dizia acreditar - que os judeus jamais se deixariam assimilar pelo povo brasileiro. Me soa mais a repetição de um estereótipo arcaico.

Posso provar o que digo com a história da minha família. Ela não vale nem mais nem menos do que as outras, mas é um exemplo real - e se deu de forma oposta ao que o fazedor das leis dizia temer.

Meus avós polacos tiveram um casal de filhos. Um deles, meu pai polonês (ruivo, judeu), que casou com uma brasileira morena católica, paranaense, filha de meus avós baianos (ele, Durval, de uma tez árabe, e ela, Leopoldina, cor de jambo). Meus pais, por sua vez, tiveram dois filhos, ambos cristãos, ambos formados, que, por sua vez, tiveram cinco filhos. Todos brasileiros, cristãos e formados.

Nenhum deles judeu. Porque, ao contrário do que supunha a lei, no Brasil a gente se mistura.

Mas é importante frisar que o disparate de que os descendentes de emigrantes judeus não se tornariam tão brasileiros como qualquer outro brasileiro se constituiu indiretamente na condenação à morte de centenas de milhares de fugitivos - impedidos de emigrar, e que acabaram capturados pelos nazistas. Foram perversa e covardemente assassinados.

Koifman vai além e detalha as minúcias de um aparato legal construído para arianizar a população brasileira. Não preciso dizer a você que o projeto de nos embranquecer foi um fracasso - basta você andar pelas ruas das principais capitais do país, noventa anos depois, e constatar.

Meio ridículo ainda que o desejo de consumo do ibérico e roliço Getúlio tivessem sido os nórdicos - louros, altos e de olhos azuis. Em vão. Os vikings não se interessaram em vir melhorar nossa raça.

O sétimo e último texto é assinado pelo organizador da obra, Luís Reznik, e trata do menos debatido viés da imigração - aquela que se deu após a Segunda Guerra Mundial. Embora inclua o fluxo alemão, Reznik não entra no mérito de quantos dos emigrados eram suspeitos de crimes de guerra.

Teria enriquecido o estudo se mencionasse que, entre os imigrantes que recebemos, estava Josef Mengele. O facínora foi médico nos campos nazistas de extermínio. Fazia experimentos bárbaros (sem viés científico, somente crueldade doentia) com bebês vivos. Foi um sádico torturador de crianças inocentes. Mengele viveu por anos no Brasil, arrogante, incólume e impune.

Morreu tomando banho de mar em Ubatuba.

Se, em seu "História da imigração no Brasil", Reznik não considerou destacar a porção criminosa de uma das nossas últimas ondas migratórias, fica aqui minha humilde contribuição.

FGV Editora, 253 páginas  |  Copyright 2020  |  1a reimpressão 2022

Obs.: Um emigrado não alemão, mas letão, e famoso criminoso nazista, foi Herberts Cukurs. Há dois livros sobre ele postados aqui no blog - "O homem dos pedalinhos", por Bruno Leal, e "O cisne e o aviador", por Heliete Vaitsman. Ambos valem a leitura. A propósito, Cukurs foi quem introduziu os pedalinhos na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. Denunciado, fugiu. Foi caçado e morto pelos judeus no Uruguai.

"Urupês", por Monteiro Lobato


Monteiro Lobato, um dos maiores escritores brasileiros, veja só, não queria escrever. Queria ser pintor. Foi advogado. Amuado, virou fazendeiro. Mas era sina. Acabou, graças a Deus, escritor.

Deixou de advogar porque herdara terras do avô, o Visconde de Tremembé (sim, é ele quem dá nome à cidade, que deu nome ao presídio, que deu nome ao livro e à série que falamos semanas atrás). Após investir tempo e dinheiro, a lida com a terra não prosperou; pelo contrário, lhe frustrou.

Foi à guisa de se queixar dos contratempos que enfrentara que publica, em novembro de 1914, no jornal "O Estado de São Paulo", o artigo "Velha Praga", indignado com as queimadas. Na verdade, o texto era uma carta, que o editor do jornal, por conta própria, promoveu a artigo.

Repercussão tremenda. Estimulado, escreveu outros textos. "A Hosteofagia", sobre a guerra que grassava na Europa, e "Urupês", ambos bem recebidos. O doutor escrevia bem. É convidado pela "Revista do Brasil" a publicar um dos seus contos, que foi "A vingança da peroba". Uma pancada.

A crítica positiva fez com que sua produção de contos engrenasse. Era um em cada edição do magazine. Porém, a despeito do seu sucesso pessoal como escritor, a Revista, que o publicava, ia de mal a pior. A fazenda também tropeçava. Eureca. Empreendedor nato, Lobato teve uma ideia.

Vendeu uma para comprar a outra. De escritor eventual, passou a dono da revista, onde era também o dono da gráfica e, se valendo disso, o dono da editora. Resolveu lançar no prelo a si mesmo.

Sua primeira edição seria justamente a reunião em livro dos contos que publicara. Dos quinze, selecionou dez. Escolheu o nome: "Dez mortes trágicas". Um colega achou ruim. Sugeriu que intitulasse a brochura com o nome de um dos contos. Dito e feito. Nem todo palpite é ruim.

"Urupês" foi um marco no mercado editorial do país. Até porque não havia mercado, de fato, e praticamente não tínhamos editoras. As livrarias eram escassas (trinta e poucas em todo o território nacional). A maioria dos livros que circulavam no Brasil eram impressos em Portugal. 

Urupês foi promovido também a nome da editora. Segundo Edgar Cavalheiro, um dos especialistas na obra de Lobato, o livro foi "um acontecimento sem precedentes na literatura brasileira". Oswald de Andrade, posteriormente, chamou a obra de o "marco zero" do movimento modernista.

Se o mercado era incipiente, Lobato o fomentou: rapidamente se esgotaram as três primeiras edições do livro. Todos queriam lê-lo. Um dos tipos do autor virara uma coqueluche: o "Jeca Tatu". Você certamente já ouviu falar. O personagem virou adjetivo.

Mas do que tratam esses contos de Monteiro Lobato, escritos há cento e dez anos?

Os temas são variados. Mas desbordam quase sempre para a estultice humana. Para a preguiça. Para a má índole. Para a dissimulação. Coisa ruim não tempo. Vem desde sempre. 

E Lobato não perdoa. É ácido com seus contemporâneos. Embora pertencentes a uma sociedade que não mais reconhecemos no espelho, somos nós mesmos, cinco ou seis gerações atrás.

E, mais do que meros causos, Monteiro Lobato fala do Brasil. Do brasileiro. Fica fácil entrever que o que fomos no passado, somos no presente. Basta apurar a vista.

E o ouvido, né. Como é um linguajar de um outro tempo, seus contos nos impõem uma abordagem cautelosa. Seu idioma antigo é, às vezes, uma estrada de barro, assim, cheia de poças e solavancos. Há que tolerar. Acostumar. Chegando lá, também, é aproveitar. Lamber os beiços.

Quem o conseguir fazer, vai viver algumas horas em um mundo que era outro: o país, as gentes, os ditados, os costumes. Por isso, ler a obra adulta de Lobato (que antecedeu sua produção infantil, sua derradeira obra) é mergulhar no túnel do tempo. E subir à tona no miolo do cafundó do Judas.

Vai encarar? Recomendo, mas prepare-se para o vocabulário autoral (mesmo para a época). O autor fazia gosto no linguajar mastigado do matuto. Lobato era devoto do jargão do capiau.

A coletânea abre com "Faroleiros". Um sujeito suborna os responsáveis para que permitam que passe uns dias no farol, construção que, à distância, sempre lhe seduzira. Aquela luz, bruxuleante, isolada no mar. O curioso, que foi para contemplar a solidão, termina cúmplice de um crime.

Depois ele vem com um mais ingênuo. Que nada mais é do que a velha história de Pedro e o lobo. E o terceiro conto, a "Colcha de retalhos" dói a dor que todo mundo um dia temeu sofrer.

O quarto deles, "A vingança da peroba", é ímpar. É um tratado antropológico, ao reproduzir o cotidiano das famílias que faziam suas roças na mata brava. É quase uma escavação, ao resgatar expressões perdidas no tempo. É um recorte da lida rural, ao detalhar a produção do monjolo.

O conto do estafeta é ironia dolorosa, ao expor como a política de hoje permanece a pobre política de outrora. Ela está toda lá, no "fósforo" (hoje "cabo eleitoral") Biriba, na demissão dos apadrinhados e no emprego dos agregados, na exploração do idiota pelo esperto de sempre. Ê Brasil.

Há um, curtinho, onde em um tal crime, que tem um suspeito óbvio, deixa-se o famigerado suspeito - um italiano de maus bofes - fugir, para bem mais tarde prendê-lo; para, na confissão tardia de um outro sacripanta, descobrir-se que o suposto criminoso não tinha nada a ver com as calças.

Um outro, "Pollice verso", remete à vocação médica ancestral. Conta de Inacinho, que desde moleque o pai acreditava que era fadado à medicina. Acertou. O garoto saiu do Vale do Paraíba para estudar na capital. Formado, voltou para clinicar em Itaoca. Ficou lá por pouco tempo. 

Seu único paciente foi o major Mendanha, "capitalista aposentado com trezentas apólices federais, o Rockefeller de Itaoca". O major sentiu uma "canseira" e resolveu se consultar. Mas desfazia de todos os doutores da cidade. Ocorreu a ele o nome do novo médico, o Inacinho. A esposa chiou.

"É moço bonito, que o que quer é dinheiro e pândega, você não vê?" Mendanha não viu. "Qual!... emberrinchou o teimoso. Sempre há de saber um pouco mais que os velhos", retrucou o major.

Não era só a mulher do Mendanha que não via Inacinho com bons olhos. "Uma bestinha! dizia um", cochicha o autor. "Eu fico pasmado mas é de saírem da Faculdade cavalgaduras daquele porte! É médico no diploma, na barbicha e no anel no dedo. Fora d'aí, que cavalo!"

Pois foi Inacinho que Mendanha escolheu. O doutor auscultou o paciente e vaticinou: "É uma pericardite aguda agravada por uma flegmasia hepático-renal". Afirmou que "era grave, mas não era", pois, ao chamar a ele, Inacinho, ao invés de "um desses matassanos que por aí rabulejam", o resultado seria diferente. "Tive no Rio numerosos casos mais graves e a nenhum perdi", gabou-se.

Deu o diagnóstico e o prazo de melhora. Em um mês Mendanha estaria completamente são.

Mas não foi o que se deu. A "canseira" evoluiu. "O velho peorou com a medicação. Injeções hipodérmicas, cápsulas, pílulas, poções, não houve terapêutica que se não experimentasse desastrosamente". Inacinho reconheceu: "É mais grave do que eu supunha".

Havia, porém, algo mais grave. Uma praxe que eu desconhecia em absoluto - e que continuo com o pé atrás - era a dos médicos se fazerem herdeiros dos clientes. Com isso, diz Lobato, "serviços pagos com casos de cura aí com centenas de mil réis, em caso de morte reputavam-se em contos". 

Ou seja - o paciente morrer era mais negócio. Onde já se viu.

"Se os interessados relutavam no pagamento, a questão subia aos tribunais, com base no arbitramento. Os árbitros, mestres do mesmo ofício, sustentavam o pedido por coleguismo", revela.

(Por falar em coleguismo, nesse mês de janeiro corre por aí que um ministro do Supremo tem negócios camuflados na hotelaria, com testa-de-ferro e tudo o mais que caracteriza as falcatruas; aflitos, seus colegas do STF já cuidaram de lhe defender. Normal. O causo que conto se passou há 110 anos? Pode ser. Por aqui, porém, continua tudo como dantes no quartel de Abrantes...)

Mas me perdi. Inacinho é que não, embora tenha perdido o paciente, o major. O doutor "herdou" os tais trinta contos e eu estraguei o conto, porque contei tudo, de cabo a rabo.

Em tempo: fui pesquisar. "Pollice verso" é o célebre gesto dos imperadores romanos no Coliseu, virando o polegar para baixo e decidindo pela vida - no caso, morte - dos gladiadores.

Há contos que são uma cacetada na moleira. Nos é comum pensar que a natureza sórdida, sensual e rapace do ser humano é mais propensa a vicejar nas grandes cidades modernas. O "Mata-pau" prova que esse desgosto se dá no rincão mais caipira. E mais não digo.

E dá-lhe gente má. Em "Bucólica", fala do "sítio de Maria Véva. Tem ruim fama essa mulher papuda". Já no "Bocatorta" o autor nos traz o Quasímodo do sertão, um negro disforme que a terra chupou.

Aprendi muito com o livro. Vim a saber em "O estigma" da face noruega do sítio de Fausto, encontrado depois que o autor opta pelo caminho errado. Para Lobato, entretanto, o desvio é a estrada principal. E, conto a conto, o que era folclórico e embolorado ganha viço e pertinência. 

Tolere a velharia dos dizeres antigos e dos preconceitos de outrora. Tempos d'antanho, onde se dizia "do fígado para o rim", "veiu pegar água a este cor'go" e onde o Nunes enchia a cara de tanta filha mulher que o destino lhe dera, "um rosário de oito mariquinhas de saia comprida".

O escritor, hoje "cancelável" (um perfeito sinal dos tempos), diz que "tanta mulher em casa amargava o ânimo do Nunes, que nos dias de cachaça ameaçava afogá-las na lagoa como se fossem uma ninhada de gatos".

À vontade para criar neologismos, diz da eleição que "o primeiro ato do vencedor foi correr a vassoura do Olho da Rua em tudo quanto era olhodarruável em matéria de funcionalismo público".

Ou, como em "Urupês", fala do jecocentrismo. A propósito, este, que é o conto final, foi adicionado somente em edições posteriores, juntamente com "Velha Praga" - conto que não é conto, e sim a carta que o fazendeiro Lobato enviou à seção de queixas do jornal da capital, como disse acima.

Quem tomou a decisão de adicioná-lo foi o próprio autor, que, a propósito, explica que mandou a carta por se sentir impotente contra os invasores de terras, que metiam fogo na mata para plantar um litro de milho - que, como consequência da queimada, calcinava dezenas de alqueires.

Pôr para fora os invasores era tarefa ingrata, pois era gente que "votava com o governo". Assim, Lobato admite no livro - falando de si mesmo em terceira pessoa - que o que lhe restou foi reclamar.

"Impossibilitado de agir contra eles por meio da justiça o pobre fazendeiro limitou-se a tocar alguns que eram seus agregados e... a 'vir pela imprensa'. Escreveu e mandou para as "Queixas e Reclamações" d'O Estado se S. Paulo a tal catilinária mãe dos Urupês", confessa.

Foi daí que nasceu o livro e, mais, que nasceu o escritor. 

"Esse jornal, publicando-a fora da seção de queixas, estimulou o fazendeiro a reincidir. Reincidiu", relata. " E quando deu acordo de si, virara o que os noticiários gravemente chamam 'um homem de letras". Ou seja: a queimada dos caboclos deu à nação um dos seus maiores escritores.

(Que, diga-se, recusou o convite para se tornar "imortal" da Academia Brasileira de Letras.)

O caboclo, o jeca tatu, é seu ponto de partida. O tipo rústico era então louvado pela cultura nacional. O indianismo provocado pelo nobre Peri de "Iracema" fora substituído pelo culto ao caboclo, agora um "atributo da raça". Já Lobato - vítima - denunciava ali a modorra do jeca.

"O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado", alerta. "Crismou-se de 'caboclismo", criticava. "O caboclo é o 'Ai Jesus!' nacional", ironiza. Transferiram-se as virtudes idealizadas do tipo indígena para o roceiro genuíno. Talvez o popular "Rancho fundo" lhe seja uma louvação.

"O substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio, em suma, sem faltar uma azeitona, dos Peris e dos Ubirajaras". Mas Lobato conhece bem o caboclo. É seu vizinho, seu agregado, antagonista cotidiano.

Vende nas feiras aquilo que encontra no caminho. "Seu grande cuidado", diz, é seguir "a lei do menor esforço - e nisto vai longe". Sua casa não tem estética, nem móveis. Senta nos próprios calcanhares. "Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas", acrescentando que "três pernas permitem equilíbrio; inútil, portanto, meter a quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão".

Conta como a mandioca é o pão do caboclo, que não requer preparo ou trabalho. "É um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas". Eu, que nem sabia como se planta aquilo que por aqui chamamos de aipim, soube que "o plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha".

Nos conta também da medicina do caboclo. Da cura para a bronquite à simpatia para o parto difícil.

"Para bronquite", diz, "é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo; o mal se vai com o peixe água abaixo". E, num parto difícil, "nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu". Se esta última não funcionar, basta "colar no ventre encruado a imagem de São Benedito". Parece que aí é tiro e queda.

Não tenho estatísticas sobre os resultados. Quem quiser que experimente.

Perceba que não é só aos caboclos que o escritor pega no pé. Ele não alivia também os seus colegas de sina. Em "O comprador de fazendas", Lobato já inicia descrevendo as desditas de uma tal fazenda e de um tal fazendeiro. Imaginei o quanto não teria posto aí a sua mal-sucedida experiência.

"Os cafezais em vara, ano sim ano não batidos de pedra ou esturrados de geada, nunca deram de si colheita de entupir tulha", descreve o autor, ex-fazendeiro, condição na qual, como já revelei, foi um fracasso. " Os pastos ensapezados, enguanxumados, ensamambaiados nos topes, eram acampamentos de cupins com entremeios de macegas mortiças, formigantes de carrapatos". 

"Boi entrado ali punha-se logo de costelas à mostra, encaroçado de bernes" - parece que Lobato vai desfiar, no texto, tudo que purgou, na terra.

Mas qual. Um escritor de contos é um contador de estórias. Não se lamenta; nos diverte. O Moreira, dono da fazenda pindaíba, pai do pulha Zico e da Zilda, filha casadoira, finalmente tem chance de passar o encosto à frente, quando lhe aparece o Trancoso. E não avanço, para não dar spoiler.

(Talvez eu esteja sendo otimista demais achando que mais alguém, em 2026, vai correr a ler uma dúzia de contos publicados em 1918; mas eu sou otimista de nascença.)

Eu vou ler outros. Muitos mais. Porque a leitura da obra de Monteiro Lobato é boa e me enche de lembranças. É impossível ler seu texto, mesmo que sem o sotaque da obra infantil, e não reconhecer a toada que me encantou e fez companhia na meninice - e me deixaram apaixonado.

Seus livros foram o meu melhor amigo aos oito anos - e olha que eu não parava quieto, sumia tardes inteiras Teresópolis afora, vadiando, correndo, aprontando, jogando gude, bola ou pião. Só sossegava com um livro na mão. Mãezinha que o diga.

Mas a sua obra completa, reunindo livros, contos, artigos, correspondências, foi herança do meu tio Felipe Mayer, gaúcho de bombacha e chimarrão, invariavelmente com um cigarro de palha entre os dedos. As paredes da sua casa, todas tomadas por prosaicas prateleiras de ferro e milhares de livros, me fascinavam (herdei dele também o gosto pelo suco de tomate, vá entender).

Este "Urupês" é o Tomo Um da coleção de treze volumes, vendida ao tio em 18 de dezembro de 1957, por Cr$ 3.460,00 cruzeiros, como revela a nota fiscal 28.868. Venho guardando, em usufruto, centenas dos seus livros, há meio século. Com eles vieram suas anotações, via de regra veementes.

Ler os livros que ele me deixou me formaram como leitor. Nunca tive a letra caprichada como a que o tio fazia suas anotações às margens; mas eu também passei a garranchar meus comentários. Com sua caligrafia poderosa, ele escrevia com caneta-tinteiro; desvirtuoso, eu até hoje anoto à lápis. 

Provável que estas escrivinhações me tenham estimulado a escrever sobre os livros; são ambas, as anotações e os comentários, uma forma de estreitar meu relacionamento com a obra impressa. Mais que amigos, somos amantes. Elas me dão conhecimento, eu dou a elas minha devoção.

Ao redor de Lobato estão muitos dos amores que me formaram. Meu avô José, nascido Izrael na distante Warszawa, que me deu os dezessete volumes da coleção infantil. Meu tio Felipe, o grande leitor que conheci, que me legou os treze volumes da coleção adulta. O escritor José Bento Monteiro Lobato, que, com seu caráter e talento, tatuou na minha pele a paixão pela leitura. 

Semanas atrás visitei o sítio da infância do escritor em Taubaté. O lugar passou para a história com o nome de "Sítio do Picapau Amarelo". Lógico que me emocionei. Mexido, iniciei ali mesmo a leitura de "Urupês". Pois é. Na hora nem me ocorreu, mas já era uma boa pedida para ser o post #500 do blog.

Editora Braziliense, 300 páginas  |   8a edição  |  1956

Foto: Ana Puterman (Sítio do Picapau Amarelo, em Taubaté)