"A guerra do retorno", por Adi Schwartz e Einat Wilf


Após a criação do Estado de Israel, em 1948, o novo país teve sua fundação batizada pelo ataque de cinco nações vizinhas: o Egito, a Síria, a Jordânia, o Líbano e o Iraque. Quantificando em termos populacionais, eram 600 mil judeus cercados por 30 milhões de árabes (números dos autores).

A estúpida vantagem em armas e soldados não trouxe o resultado esperado. Os árabes invasores (pois vinham de outros países) perderam para os mal-armados colonos judeus da Palestina.

Sequer o apoio da Inglaterra à causa árabe foi suficiente para modificar o resultado. A Inglaterra era a detentora do Mandato Palestino e era parceira no petróleo árabe. Os soviéticos e os americanos agiam ainda sob o grosso impacto do Holocausto na opinião pública e preferiram não se meter.

A vitória dos judeus no que eles chamam a "Guerra da Independência" - a mesma que os derrotados nominaram de a "grande Nakba" (grande catástrofe) - deu início ao problema dos refugiados.

É um flagrante desta guerra, vencida pelos judeus, que você vê na foto acima. Mas, ao contrário do desenlace das guerras convencionais, este, ao invés do término, foi o início. De uma guerra sem fim.

Os autores tratam-na como "a guerra do retorno". Mas retorno de quem, mesmo? Vamos recapitular.

Diante do conflito, ao longo de 1948 centenas de milhares de árabes residentes no território do Mandato Britânico da Palestina haviam deixado a região, por diferentes razões. A elite árabe, por vontade própria; a população, em geral, em muitas vilas e cidades, partiu por ordem dos invasores árabes; ou liminarmente expulsa pelos judeus.

Até hoje o número total é impreciso - e é inflado ou reduzido de acordo com o interesse do emissor.

Peço a paciência do leitor, porque vamos revisitar a eclosão desta guerra - ponto de partida da polêmica palestina. Todo o contencioso que já vimos acima começou na resolução da ONU pela criação de dois estados na região: um Estado judeu e um Estado árabe. E, como também vimos, os árabes rejeitaram (categoricamente e em bloco) a resolução e foram para o pau.

O impasse era simples. Os árabes não admitiam que os judeus pudessem ter direito a um Estado soberano - ali. Ameaçaram os judeus: os que não abandonassem a região seriam mortos.

Eclodiu a tal guerra - desculpe se sou repetitivo. Árabes versus judeus.

O ataque aos judeus foi a execução prática do entendimento político árabe, contrário à existência de um Estado judeu. Confiantes na enorme vantagem militar e numérica a seu favor, os árabes não cogitavam que os judeus resistissem às forças invasoras. O conflito se estendeu de 1948 a 1949.

Para surpresa do mundo, os árabes foram derrotados pelos judeus. Fez-se - a contragosto - a paz.

O fracasso bélico exigiu uma reavaliação. Parte dos dois milhões de habitantes árabes que viviam dentro do perímetro definido pela ONU para o Estado judeu havia abandonado suas casas, fugido ou sido expulso à força. Desterrados, buscaram acolhimento nos estados árabes vizinhos.

À exceção da Jordânia, não foram absorvidos pelos seus vizinhos árabes, e sim assentados em acampamentos provisórios. A Liga Árabe foi, inicialmente, contra o retorno dos refugiados a Israel. Mas logo os dirigentes árabes mudaram seu discurso. Entenderam que a exigência do retorno poderia se tornar uma arma importante para uma reversão política da derrota militar.

As diversas movimentações e consequências desta postura deram início à "guerra do retorno".

Nesta nova etapa, a agência criada pela ONU para apoio humanitário aos refugiados - a UNRWA -, se tornaria o principal pivô e sustentáculo de uma guerra que, ao contrário de outras, jamais teria fim.

Embora, com a passagem dos anos, os refugiados tivessem obtido uma qualidade de vida superior às dos próprios países árabes onde estavam assentados - pois o financiamento internacional da UNRWA bancava alimentação, educação e investimentos em agricultura e infra-estrutura -, a manutenção do status de "refugiados" era o pivô do não-reconhecimento de Israel como Estado.

A Liga Árabe, que NÃO contribuía financeiramente com a UNRWA, se opôs quando a ONU se manifestou favorável à desativação da agência. Era que, sob a perspectiva humanitária - a razão de ser original da UNRWA -, a ONU considerava que seu trabalho estava concluído.

Mas, sob a perspectiva geopolítica, havia certos entraves para que esta decisão fosse tomada.

Pairava o temor de que, se a ONU suspendesse o auxílio, o cartel árabe dos produtores de petróleo reduzisse seu fornecimento, provocando o aumento do preço do barril. A ameaça, se concretizada, custaria muito mais caro às potências ocidentais do que manter o financiamento da UNRWA.

Por outro lado, a manutenção da UNRWA era a chancela política da comunidade internacional à existência dos refugiados. Estes, a esta altura, estavam socialmente estabelecidos, em cidades provisórias, dentro das fronteiras dos países vizinhos, ainda que sem reconhecimento pleno.

O único país que aceitou dar cidadania ou direitos legais aos palestinos foi a Jordânia. A Síria os admitia como trabalhadores de segunda classe, o Egito os confinava na Faixa de Gaza (então sob administração egípcia) e o Líbano queria expulsá-los do território libanês.

Nos anos 60, muitos palestinos emigraram para o Iraque e o Kuwait, onde, por conta da sua formação superior (graças aos esforços da UNRWA), tinham posição de destaque no mercado de trabalho e eram bem-remunerados. Era condição sine qua non, entretanto, mesmo vivendo fora, manterem suas matrículas de refugiado e estarem inscritos para o recebimento de cupons de assistência humanitária, abastecendo um mercado paralelo de alimentos e produtos básicos.

(A propósito, dessa coisa de não abrir mão de benefício o brasileiro é mestre. Aqui, muito político rico - ô redundância - se inscreveu pra receber auxílio na pandemia e mama todo mês o bolsa-família...)

No mais, a questão se tornara 100% política. A presença da UNRWA não mais se encaixava em um contexto humanitário, e sim como legitimação de uma condição atemporal de um povo refugiado.

Na prática, a UNRWA funcionava como a negação permanente da legalidade do Estado de Israel.

A nova geração palestina nascera em outros países e jamais pisara na Palestina. Mas a manutenção da condição de "refugiados" era a afirmação política da existência de uma terra alhures, que lhes fora "roubada", onde fariam jus à cidadania que lhes era negada... nos países em que nasceram!

Enquanto a comunidade internacional validasse a existência dos "refugiados", haveria uma arma política de contestação do Estado israelense - por mais que este Estado fosse fruto de uma resolução internacional legal que criara dois países.

A política regional se estabeleceu desde o início como a credora da circunstância palestina.

Não importava que os árabes tivessem recusado a criação de um Estado palestino e declarado guerra ao Estado judeu. Não importava que, na guerra que promoveram contra os judeus, os árabes tivessem sido legitimamente derrotados no campo de batalha, sem interferência estrangeira.

Como o massacre que os árabes tentaram infligir aos judeus foi um fiasco, os perdedores, oportunistas, identificaram na UNRWA o instrumento para o prolongamento indeterminado da guerra. E, de posse do dinheiro, investiram na retórica.

A juventude palestina em Gaza, Síria, Líbano e Jordânia cresceu instruída sobre a existência de um vizinho - os judeus - que havia "roubado" sua terra. Este aprendizado de ódio culmina em um credo de santificação do assassinato do invasor, que mora do outro lado da cerca. A criança palestina passou a ter por ideal de vida matar um ou mais judeus, não importa quais, nem onde, nem como.

Esta foi a grande vitória da Liga Árabe e dos países que representava. Cultivou, em uma estufa, gerações sucessivas de jovens muçulmanos, mas estrangeiros, dispostos a abrir mão da vida em prol do não-reconhecimento de um Estado do qual os países árabes eram inimigos.

Os países árabes alimentam crianças palestinas para serem galos de rinha.

E, melhor, são bem-sucedidos sem gastar um centavo com isso, pois todo o dinheiro envolvido é fruto da contribuição da comunidade ocidental às necessidades humanitárias dos refugiados.

Assim, o presente com o qual lidamos é uma massa gigantesca de jordanianos, sírios e libaneses, nascidos nestes países, cujos pais nasceram nestes países e neles se formaram, casaram e tiveram filhos, com uma dupla identidade (financiada e validada pelo orçamento internacional de US$ 1,2 bilhão de dólares anuais da UNRWA). Eles são, eternamente, refugiados palestinos.

A circunstância mantém o pescoço do Estado de Israel sob a guilhotina.

Talvez se trate de um caso ímpar e sem paralelo na história. Os autores dedicam o livro à exposição desta singularidade, e de como foi imposta uma questão para a qual não há solução - o Retorno.

Historicamente, populações refugiadas buscam assentamento e integração em outros países, de preferência aqueles com os quais compartilhem identidade étnica e cultural. Foi exatamente o que aconteceu com a diáspora palestina, que se distribuiu entre Jordânia, Síria e Líbano.

Na Jordânia, eles são mais de dois milhões e meio de cidadãos jordanianos - mas que continuam sendo registrados pela UNRWA como refugiados. Nasceram na Jordânia. Cresceram na Jordânia. Se educaram na Jordânia. Se casaram na Jordânia. Tiveram filhos na Jordânia. Têm toda a documentação legal jordaniana. Mas, estatisticamente, são "refugiados palestinos".

Na Síria, que passou as últimas décadas em guerra civil, a situação é ainda mais esdrúxula. Os sírios "palestinos" que nasceram na Síria e eram contabilizados pela UNRWA como refugiados palestinos, fugiram para a Jordânia, onde passaram a ser atendidos pelo ACNUR como refugiados... sírios!

Ou seja, se tornaram duplamente refugiados. Eram palestinos refugiados na Síria e passaram a ser sírios refugiados na Jordânia, mas sendo simultaneamente registrados e subvencionados por duas instituições internacionais de auxílio humanitário, a UNRWA e o ACNUR. No mínimo, exótico.

Schwartz e Wilf buscam ao longo de todo o texto uma organização cronológica e didática do problema. Não obstante - ou talvez por isso mesmo -, acabam presos em um labirinto, pois sua linha de raciocínio, ainda que correta e bem fundamentada, repassa diversas vezes os mesmos pontos, pecando em uma redundância que talvez fosse mesmo inevitável.

Mais ou menos o que também fiz por aqui, tentando explicar esse furdunço.

Um dos pontos altos da obra é o entendimento da perspectiva palestina. Os palestinos têm por anseio de vida o retorno à terra anteriormente ocupada por seus antepassados. Mais que isso, querem retornar às mesmas casas em que seus avós viveram; mesmo que tenham sido destruídas, eles as mantêm holograficamente de pé, na fabricação das suas memórias.

A compreensão desta perspectiva, entretanto, redunda na conclusão da impossibilidade prática do sonhado retorno. Porque não há para onde os pretensos refugiados possam retornar. O espaço desejado é ocupado por um outro povo, que foi vitorioso na guerra travada entre ambos.

Dois corpos não têm como ocupar o mesmo espaço. Neste caso, o derrotado pleiteia que lhe seja dada a reocupação do espaço conquistado pelo vitorioso. Para onde, neste caso, iria o vitorioso na guerra, se derrotado na disputa retórica? Há que se dar um destino ao corpo.

Se vivo, precisaria ser recebido em outro país, como refugiado (e, imagino, sem direito a retorno, pois, senão, teríamos um círculo vicioso eterno); se morto, é porque foi derrotado em confronto. Mas como matá-lo, se permanece imbatível, se Israel venceu (e continua vencendo) todas as guerras?

Eu aqui tomei a liberdade de novas formulações para encarar este paradoxo.

Não informei no início, mas conto agora: os autores lançaram o seu texto em 2020. Muito antes do 7 de outubro de 2023, portanto. E aqui já anteviam a catástrofe, desde sempre anunciada.

Já eu escrevo no primeiro semestre de 2026. Estados Unidos e Israel, em ação militar conjunta, atacaram em fevereiro a maior força militar da região, o Irã. E, desde então, estão encalacrados por lá. O Irã era justamente quem havia financiado o 7 de outubro, armando e subsidiando o grupo terrorista palestino Hamas.

Mas, como estamos carecas de saber, Israel reagiu e dizimou o Hamas.

Para conseguir dizimar o Hamas, Israel arrasou a Faixa de Gaza. E não só - Israel, em uma operação cinematográfica, implodiu o Hezbollah, um grupo terrorista libanês também armado pelo Irã e incomparavelmente mais forte e numeroso que o Hamas.

Com a perda dos seus dois grandes postos avançados na circunvizinhança do Estado israelense, o Irã se tornou mais vulnerável e sem poder de reação - e coação. Sofreu um ataque devastador na sua planta nuclear, ainda em 2025. E agora, em 2026, foi seviciado pelo ataque israelo-americano.

De acordo com a cobertura jornalística, recentemente Israel vem destruindo vastas regiões urbanizadas do território libanês, para impedir uma reorganização do Hezbollah na fronteira.

A palavra sistematicamente utilizada na mídia e nas redes sociais é "genocídio". Seu uso, entretanto, é meramente hiperbólico. A ação israelense, covarde ou não, visa ocupação de espaço. A população é estimulada a abandonar a zona de conflito. Não há confinamento ou perseguição. 

Estes últimos parágrafos parecem migrar do tema original, mas o ratificam e dão momentaneidade. A "guerra do retorno" é uma guerra política, econômica e midiática. Ela acontece em substituição à verdadeira guerra, não como uma negação desta última, mas como um recurso estratégico. 

A Guerra do Retorno é um importante instrumento retórico dos países árabes contra a presença de Israel na região do Oriente Médio. Eles estão certos em querer ejetá-la. A operação atual contra o regime iraniano só pôde ocorrer porque havia um inimigo poderoso nas cercanias - Israel. 

Israel é a presença militar do Ocidente no coração do Oriente Médio. Os árabes podem tolerá-la por algum tempo. Mas dedicarão todo seu esforço a combater esta presença. Do Ocidente querem apenas o dinheiro pago pelo petróleo - que, se por um lado é ainda o principal combustível da civilização ocidental, por outro financia o poder de fogo das ditaduras do Oriente.

Por fim, o retorno dos palestinos é um ótimo pretexto para manipular o engajamento ideológico superficial de milhões de jovens conectados em seus celulares. Mas as únicas questões ali que realmente importam são as econômicas e as militares (que sempre andam juntas). O mais é farofa.

Dará certo? A aliança midiático-pseudo-ideológica será suficiente para fazer desaparecer oito milhões de judeus do Oriente Médio? Só o futuro dirá. Em caso positivo, quando Israel for exterminado, os árabes poderão voltar a se matar entre si - e aí sim mandar os palestinos para o raio que os parta.

Por enquanto, porém, Israel parece estar mais forte e beligerante do que nunca.

Editora Contexto, 301 páginas  |  1a edição 2021  |  Copyright 2020  |  Tradução: Rachel Meneguello

Título original:

"The war of return: how western indulgence of the palestinian dream has obstructed the path to peace"

"Johan Cruyff 14, a autobiografia"


Uma coisa que eu não indico a ninguém são as autobiografias. Na maioria dos casos, são uma monótona auto-exaltação. "Johan Cruyff 14, a autobiografia" não foge à regra.

E olha que o cara que assina essa aqui jogou muita bola.

Johan Cruyff foi um dos maiores jogadores de todos os tempos. E não só. Foi também um técnico polêmico. Segundo alguns, revolucionário. Mas daí ao livro que ele escreveu (sobre ele mesmo) prestar, vai a distância de Amsterdam a Taubaté. A nado...

Li, resignado, as centenas de auto-elogios que ele enfileira ao longo de catorze capítulos da biografia do "14" mais famoso da história do futebol (já do basquete foi o nosso Oscar, que nos deixou há pouco). Ele aproveita o número para listar também os seus 14 "mandamentos".

Meras obviedades. Roteiro básico de coach.

Mas, apesar dos pesares, no livro há o que se aproveitar. E, como esse gringo gastou a bola, esteve em momentos capitais da história do esporte e, do banco, deu início à revolução tática do Barcelona, a gente tem que respeitar. E engolir o seu bla-bla-blá interminável.

E olha que o livro começa bem demais. O prefácio é de Tostão, o único que eu conheci que foi craque de campo e de texto. O mineiro, fera do Cruzeiro de 60 e da Copa de 70, foi contemporâneo do holandês. Se nunca se enfrentaram nos gramados, um dia, porém, se encontraram num shopping na África do Sul e mutuamente se reverenciaram. Duas lendas.

"Cruyff não foi o melhor jogador do mundo de todos os tempos - foi Pelé -, mas certamente está entre os dez melhores", afirma. Cruyff era um "técnico em campo", diz. "Tinha extraordinária inteligência espacial. Parecia olhar a partida de cima, com um megacomputador instalado no corpo para medir a movimentação e a velocidade da bola, dos companheiros e dos adversários".

Prefiro reproduzir os elogios que Tostão faz a ele do que os que ele próprio se faz. "Era perfeccionista, essencialment técnico, sem firulas", diz. "Jogava com elegância, com a cabeça em pé, sem olhar para a bola, o símbolo do jogo coletivo. Foi brilhante como armador e como atacante".

Pena que não foi o Tostão que escreveu o livro. Ia ser bem mais palatável. Vai por mim...

Cruyff fala menos do que se passou e mais sobre o que ele pensa. Faz da obra um espaço para responder a todos aqueles com os quais se desentendeu ao longo da carreira. E não foram poucos.

Quando se reporta aos seus tempos de jogador, é lacônico, mas direto. "Em 1971, vencemos a Copa dos Campeões da Europa pela primeira vez e ganhamos os dois anos seguintes também", conta. "Assim, em seis anos, o Ajax passou de um clube mediano para o melhor time do mundo".

Eu concordo, sem tirar nem por. Como já disse carradas de vezes, sou da opinião de que seis times mudaram a história do futebol: Honved, Botafogo, Santos, Bayern, Ajax e Barcelona.

Os quatro primeiros, pelos seus jogadores excepcionais; os dois últimos, pelos grandes jogadores que souberam executar a estratégia de técnicos geniais, Rinus Michels e Pep Guardiola.

Todos estes seis times foram a base do selecionado nacional e levaram as suas respectivas seleções a finais de Copas do Mundo. O Honved levou a Hungria ao vice-campeonato de 54; o Ajax levou a Holanda a dois vice-campeonatos consecutivos, 74 e 78; o Bayern foi a base da Alemanha campeã em 74; o Botafogo levou o Brasil a vencer três Copas do Mundo, em 58, 62 e 70; o Santos, a duas, 58 e 70; e o Barcelona foi a essência do time espanhol que venceu a Copa de 2010.

Então, o depoimento sobre a Laranja Mecânica, a seleção holandesa de 1974, cuja base era o Ajax, é um dos pontos altos da publicação. Cruyff conta que, duas semanas antes de começar a Copa, o técnico reuniu os jogadores e disse: "Como não vamos ganhar a Copa, façamos algo diferente, surpreendente". Tostão explica como o Carrossel Holandês (outros dos epítetos do time) funcionava:

"Foi o início da marcação por pressão. Onde estava a bola, havia vários holandeses para tomá-la. Era a pelada organizada", brinca. "Recuperavam a bola e chegavam com vários jogadores à área adversária. Zagueiros, armadores e atacantes se misturavam". Era isso mesmo. Uma pena que este timaço revolucionário tenha sido vencido pela Alemanha, a dona da casa, na final. 

E olha que abriram o placar, em uma arrancada de Johan Cruyff com 40 segundos de jogo, em um pênalti marcado pelo britânico Jack Taylor. Alguma chance do Daronco dar um pênalti contra os alemães, numa final de Copa disputada na Alemanha, ainda mais no primeiro minuto? zero, né.

Johan Neeskens, um dos craques do time, cobrou, como se diz hoje, com a "batida de segurança" (que de segura não tem nada, é um risco danado). Chutou baixo, no meio do gol. Holanda 1x0.

No lance seguinte os alemães começaram a cair na área adversária, mas Taylor não foi na onda deles. Aos 25 minutos, porém, o meia holandês Win Jansen deu um carrinho estúpido em Hölzenbein, dentro da área, e Taylor não hesitou em marcar o segundo penal da partida.

Paul Breitner, eleito o segundo melhor lateral esquerdo da Copa (o primeiro foi o brasileiro Marinho Chagas, o Bruxa, do Botafogo), bateu na bochecha da rede e empatou o jogo. Ainda no fim do primeiro tempo, Gerd Müller virou e deu o bicampeonato à Alemanha. Cruyff e seu fantástico time martelaram todo o segundo tempo, mas o gol não saiu. Mais uma injustiça histórica do futebol.

"Às vezes acontece de você perder um jogo no psicológico", interpreta Johan, décadas depois. "É só olhar como os gols foram marcados. Wim Jansen arriscando um carrinho na área, o que acabou em pênalti, e Ruud Krol abrindo as pernas ao tentar bloquear o chute adversário".

A partir daí, Cruyff faz uma digressão bem interessante sobre a importância do zagueiro jamais deixar que a bola passe entre suas pernas, pois mata o goleiro, que não espera seja isso possível. "O goleiro está contando com o zagueiro para cobrir uma parte do gol. É por isso que você nunca deve conceder esse espaço".

Os lances de uma final perdida ficam remoendo na cabeça dos atletas por décadas.

"Em nenhum momento conseguimos realmente entrar no jogo, e o gol de Müller se provou fatal", lamenta. "Quando tudo acabou, ficamos muito decepcionados. Sabíamos que éramos os melhores do mundo, mas não levamos o prêmio".

Como a Hungria de 1954 e o Brasil de 1982, porém, foi um time que entrou para a história.

"Muitos times e seleções de todo o mundo tentaram repetir a marcação por pressão realizada pela Holanda de 1974, contudo as atuações e os resultados foram muito irregulares", analisa Tostão. "Essas equipes pressionavam, mas quando não conseguiam recuperar a bola, deixavam enormes espaços na defesa".

O alto nível dessa seleção, segundo Cruyff, somente tinha ficado claro para o próprio elenco na semifinal, contra o Brasil. "Até então, ninguém sabia realmente o quanto éramos bons, e o jogo contra o Brasil foi o momento em que as pessoas descobriram o Futebol Total".

A Laranja Mecânica foi uma surpresa até para quem não devia ser - Zagalo, técnico brasileiro, que, ao invés de estudar os holandeses, achava que eles é que tinham que estudar o Brasil. Deu ruim. Fomos eliminados e Zagalo, demitido.

"Quando entramos no campo, estávamos nervosos, porque a gente achava que ainda estava jogando com o time de 1970, que venceu a Copa do Mundo", escreveu Cruyff. Mas o time do Brasil era totalmente outro. Dos titulares campeões do mundo, só Jairzinho e Rivelino estavam em campo. Gerson, Tostão, Clodoaldo e Carlos Alberto não foram. Sem contar o tal do Pelé, que se recusou.

Cruyff continua. "Não demorou mais de trinta minutos para entendermos que éramos realmente mais habilidosos do que eles". O Brasil foi atropelado, além de ter entrado no sarrafo (os europeus naquele tempo batiam muito). Mesmo com a Holanda melhor, Johan ficou apreensivo. 

"Tivemos sorte de não levar um gol algumas vezes no início do primeiro tempo", reconhece. "Porém, depois do susto, nosso time se encontrou para jogar o melhor futebol possível".

O craque holandês avalia que "a equipe brasileira também estava passando por uma fase de transição". Ele acredita que o Brasil "vinha tentando abandonar a técnica pura e optar por uma mistura de técnica e força física". Pode ser. Seja como for, fizemos mais três finais de Copa do Mundo depois disso e ganhamos duas. E ainda fomos a outras três semifinais.

Curioso que, como disse, a biografia dedique apenas poucos e curtos parágrafos sobre o apogeu do Carrossel Holandês. Cruyff é idiossincrático na escolha dos seus temas e discursos.

Se Pelé, com 34 anos, não quis disputar sua quinta Copa do Mundo, em 1974 (depois de ter ganho duas, 58 e 70), Cruyff, com 30 anos, não quis disputar sua segunda Copa do Mundo, em 1978. Ele tenta se explicar, mas não é convincente. O fato é que ele vivia em litígio com literalmente todo mundo.

Me pergunto se, mesmo com toda a roubalheira e coação, com Cruyff em campo aquela final em Buenos Aires não acabaria indo para os holandeses. Mas vá saber. Nem Cruyff, nem Maradona.

Em 1978, o rubro-negro Claudio Coutinho, militar brasileiro travestido de técnico, proclamou o Brasil "campeão moral" da Copa de 1978. Ele entendia do assunto. Fomos escrachadamente roubados, sim. Não perdemos no campo, mas o Peru abriu as pernas e engoliu seis gols argentinos, tirando o escrete brasileiro da final. Saímos invictos da Argentina e "campeões morais".

(Nem sempre o técnico reclamava da moralidade das conquistas. Coutinho, no ano seguinte, celebrou a proeza de ser duas vezes campeão carioca com o Flamengo no mesmo ano, 1979. Na verdade, foi uma vez campeão carioca e a outra vez foi campeão "especial". Mas O Globo sapecou na capa que era tricampeão 78-79-79 e a federação chancelou. Moralidade seletiva...)

Voltando à vaca holandesa, Cruyff não disputou a Copa de 78 e foi amplamente criticado. Como jogador, deu prosseguimento à carreira no incipiente futebol norte-americano, primeiro no Los Angeles Aztecs e depois no Washington Diplomats. Desperdício de talento.

Retorna à Holanda em 1980, aos 33 anos, onde ainda joga por mais quatro anos, ganhando campeonatos nacionais (Eredivisie) pelo Ajax e pelo seu maior rival, o Feyenoord. No Ajax, onde começou, garoto, e onde seus pais foram funcionários, teve uma relação de amor e ódio - mais este que aquele.

Ao encerrar a carreira, Cruyff retorna ao Ajax, como diretor técnico (e técnico de facto), vencendo duas Copas da Holanda e uma Recopa europeia - e reproduz o movimento que já havia feito como jogador, indo do Ajax para o Barcelona, desta vez como treinador.

E, se já tinha revolucionado o futebol como jogador, comete o crime pela segunda vez, ao mudar o jogo, agora como técnico do Barça. Lá, aplica o conceito de futebol total que sempre defendera. Fica oito anos no clube e é tetracampeão espanhol (de verdade, em anos consecutivos), ganha a Copa do Rei da Espanha, a Recopa Europeia, a Copa dos Campeões e a Supercopa da Europa.

Tudo bem que que o cara era marrento, mas ele tinha lá suas razões...

À vera, porém, a impressão que dá ao leitor é que, em quase todos os ambientes que esteve, saiu pela porta dos fundos, atirando. Inclusive, aproveita o livro para falar mal de muita gente que eu não fazia a menor ideia que existia, um monte de van der qualquer coisa.

Gênio incompreendido? Pode ser. Mas chato pra boné.

Com residência fixa na Espanha, confessou: "Sinto falta da Holanda e continuo tendo orgulho do meu país, mas nem sempre somos as pessoas mais legais de se conviver".

Acho que o elenco do Botafogo que dividiu o vestiário com o holandês Clarence Seedorf sabe muito bem como é isso de "convivência com holandês". Pergunta lá pra eles...

Enfim, a leitura da autobiografia de Johan Cruyff deve ser feita com critério e com estômago. Há muita coisa interessante, mas vem muita baboseira junto. Provável que um ghost-writer tenha ajudado o atleta, mas não deve ter tido autonomia para sequer tentar salvar o texto. 

Isso em nada macula o seu tamanho como jogador e treinador. Foi eleito em 1999 o Jogador Europeu do Século e ficou em segundo lugar (logo atrás de Pelé), como Jogador do Século.

(Cá para nós, se o pessoal contabilizar o que o Garrincha fez no futebol, não ia dar pro Pelé...)

Quando Cruyff fala do seu entendimento do jogo, observamos o quanto ele foi visionário. Ele já fazia há décadas do jogo de posicionamento o seu catecismo pessoal - enquanto há quem trate ainda hoje essa distribuição dos jogadores pelos setores do campo como se fosse a última palavra em tática.

Ele foi como os gênios são: um sujeito à frente do seu tempo. 

Editora Grande Área, 322 páginas  |  1a Reimpressão, 2023  |  Copyright 2016   

Título original: "My Turn: A Life of Total Football"  |  Tradução  Liliana Negrello e Christian Schwartz

"A segunda espada", por Peter Handke


O desejo do narrador é vingar a mãe. O alvo da vingança seria uma tal jornalista que, em um momento difuso do passado, escreveu algumas barbaridades - segundo ele - e, pior, escolheu a foto da mãe do narrador para ilustrar uma matéria sobre o apoio do povo austríaco aos nazistas.

"Li que minha mãe seria uma entre os milhões de cidadãos da antiga grande 'Monarquia do Danúbio'", diz, "para quem a incorporação da Áustria, que se tornara tão pequena depois da Primeira Guerra Mundial, ao 'Reich alemão' foi causa de alegria e festividades, quer dizer, minha mãe teria sido uma das que se rejubilaram com a anexação da Áustria pelo Reich, teria sido uma seguidora, membro do partido nazista".

Seja qual for sua importância para a trama, esta informação surge quase na metade do livro. Mais precisamente, na página oitenta e três. Até então, o autor se limitara a desfiar banalidades. Pensamentos esparsos sobre a cidade, os caminhos, os vizinhos, os meios de transporte et cetera.

Mas na tal página oitenta e três ele dá azo à sua inconformação.

"Não se tratava simplesmente de uma frase secundária: na mesma página, junto com o artigo, via-se também uma fotomontagem na qual uma imagem muito ampliada da cabeça de minha mãe, que àquela altura tinha dezessete anos de idade, foi acrescentada a uma multidão que gritava 'heil-ou-sei-lá-o-quê' na Heldenplatz ou em algum lugar assim".

O que o narrador chama de "heil-ou-sei-lá-o-quê" nós sabemos bem que é "heil Hitler". Nitidamente ele não fica confortável em ver sua mãe flagrada fazendo, entusiasmada, o heil Hitler, em meio à multidão que saudava a passagem do führer pelas ruas de Viena, depois do Anschluss

A cabeçorra ampliada da mãe doravante irá povoar seus sonhos e devaneios. Mas o fato concreto surgido apenas na metade do livro será mal e mal retomado. Foi uma ilha de três parágrafos em meio a centenas de outros parágrafos que não contam nada, nem vão - nem levam - a lugar nenhum.

Porém, ele que desde o início do seu enigmático texto se auto-intitula um vingador, é nesta página oitenta e três que ele segreda o que havia a ser vingado. A pretexto disso, o que temos são mais impressões comezinhas suas, ociosamente rodando de ônibus pelos subúrbios de Paris.

O fato - e cometo aqui o mais tremendo dos spoilers - é que ele jamais irá vingar ninguém. Apenas destilará sua cantilena monótona páginas afora. Mas, dando o spoiler, eu me vingo dele.

Ele, um escritor ganhador do Prêmio Nobel, não se constrange em fazer do tempo do leitor o seu quintal. Joga ali as tralhas que quer, do jeito que lhe agrada. Sua estória é acéfala, seus personagens são anônimos. A responsável pela matéria jornalística que o atingiu não tem nome. Praticamente nada, nem ninguém, tem nome no livro. Mas houve um certo dia, porém, em que ela o respondeu.

"Nunca a tinha encontrado antes e assim também continuou a ser depois daquilo que eu chamava 'o crime", revela. "Ainda que junto àquilo que ela escrevera na época, publicou-se uma fotografia, eu não dispunha de nenhuma imagem dela".

Não pense o leitor ingênuo, ou otimista, que alguma coisa irá mudar depois da tal resposta.

"Já desde antes da leitura, eu não imaginava nenhum rosto à minha frente e isso tampouco mudou depois da leitura", esclarece (ou não). "Um reconhecimento, indefinido e indefinível, acontecia apenas quando eu tirava os óculos, o que embaçava os traços do retrato da autora do artigo."

Como Peter Handke - o autor do livro - em momento algum é muito preciso, não sabemos muito bem como se dá a relação (ou não) entre os dois. O ofendido e a ofensora. Com ou sem óculos.

"Por outro lado, havia tempo que eu tinha seu endereço", confessa. "Anos depois de cometer aquele ato, eu tinha recebido uma carta dela. É quase impossível dizer qual era o assunto da carta e menos ainda dizer algo sobre o seu conteúdo". Ou seja, a carta era um espelho do livro, no qual o assunto é vago e o conteúdo é poroso.

"Seja como for, não havia qualquer palavra a respeito da agressão contra mim - que, aliás, pouco tinha me interessado e muito menos atingido; e sobretudo nenhuma palavra a respeito da ofensa que de maneira tão secundária, como que de passagem, tinha sido cometida contra a memória da minha santa mãe".

Embora eu me exaspere com o texto de Handke, fora de dúvida que ele domina o ofício da escrita. E eu, ao selecionar os raros trechos que parecem unir lé com cré, acabo criando a falsa impressão de que o livro é, em alguma medida, sensato ou aprazível. Não, não é. 

"Agora, durante a viagem de bonde, ao tentar me lembrar daquela carta que talvez estivesse mesmo sendo esperada por mim, muito embora eu estivesse à espera de uma carta totalmente diferente, pareceu-me ('ocorreu-me') que aquela carta, através de desvios corteses, fosse um convite para um debate amistoso e público, a distância e por escrito, e que de maneira 'privada' ela também 'simpatizava' comigo".

Apesar de um tanto evasivo, nestes trechos, estes são um dos poucos em que aquele que é, em tese, o leitmotif do livro é diretamente (ou quase) abordado. No mais, somos levados para circunlóquios sobre os mais diferentes temas que povoam a paisagem e as memórias do narrador.

Ele reclama que os tios, que não conheceu, tenham sido "forçados ao serviço militar do grande Reich na Rússia", onde teriam sido mortos. Diz também que certa vez recebeu uma carta anônima, "com a ameaça de matar meu filho". Foi sua única menção a um filho.

A ameaça teria a ver com "os seis milhões de judeus que foram mortos pelos meus antepassados".

Que fique claro que estas referências a circunstâncias históricas estavam soltas em meio a frases gasosas. Eu as catei e uni aqui, como quem garimpa pedrinhas na água do rio e crê que achou algo de valor. Mas aqui é tudo quimera, ganga, cascalho. Bijuteria, no melhor dos casos.

Inquestionável que a orelha do livro é sincera. "Um exercício de escrita, uma introspecção no ofício", abre a orelha, honesta. "Peter Handke permanece fiel a si mesmo numa balada ao redor do seu terreiro nos arrabaldes parisienses. É nessas cercanias que o vencedor do Prêmio Nobel de 2019 consegue dar as mais longínquas escapadas reais e imaginárias".

Eu disse. O que eu não fiz (e devia ter feito) foi ter lido antes a orelha com a atenção que ela merecia.

"Leva em sua navegação desde operários no bar local em fim de expediente até questionamentos à família sobre o nazismo", continua. "O que é palpável no mundo à volta do seu subúrbio de escriba? O que sobra do real? De tanto escrever, reeescrever, remexer com as palavras, os enlaces se perdem em meio a uma grande desconfiança perante o existente".

Ah, a literatura! leio e devoro livros desde moleque. Mas suspeito que a literatura não foi feita para mim, ou eu não fui feito para ela. Seus brocados e rococós, que fascinam a tantos com seus brilhos e formatos, descem na minha garganta como um angu encaroçado.

Meu paladar, tosco, não foi adestrado para as iguarias mais finas. Paciência.

Não sabendo exatamente do que se tratava, levei o livro comigo para lê-lo no castelo de Annecy, na Alta Savóia. Sabia que lá havia uma amurada de onde se via a cidade velha e também o lago. Diz a wikipedia que é o segundo maior lago da França, formado, 18.000 anos atrás, pelo degelo alpino.

O castelo, milenar, estava bem preservado. Idem o lago cristalino. Já o livro eu não indicaria a ninguém de quem eu gostasse, e nem mesmo de quem eu não gostasse. Um livro que se destaca por merecer liderar qualquer relação de livros a jamais serem lidos.

Mais não falo, falei até demais. Fica aí a decisão por sua conta.

Editora Estação Liberdade, 176 páginas  |  1a edição, 2022  |  Copyright 2020  | Tradução Luiz Krausz
Título original: "Das zwette Schwert: Eine Maigeschichte"

Obs.: Não obstante, particularmente gostei da menção ao "oito de maio". É o dia do meu aniversário, também conhecido como "hoje". Meu amado tio Werther, ex-pracinha da FEB na Itália, sempre dizia que eu tinha nascido no mais importante dos dias. Esse cara sim merecia o Nobel. Saudades, tio!

"Diaries of War", por Nora Krug


Nora Krug, alemã radicada em Nova York, escreve em "Diaries of War" sobre o primeiro ano da guerra entre Rússia e Ucrânia. Sua narrativa, à margem dos bombardeios, fala do impacto da guerra na vida das pessoas comuns. O livro, lançado nos Estados Unidos em 2023, repercutiu mundo afora, com trechos publicados (ainda em 2022) em jornais da Itália, Espanha, Alemanha e Holanda.

A autora, como em seu livro anterior, "Heimat", tem um formato próprio. Ela mescla suas ilustrações aos textos, que, por sua vez, nos são apresentados como páginas de diários - aqui, assinados por uma jornalista ucraniana e por um artista russo. As páginas pares cabem à primeira e as ímpares ao segundo. A proposta é um ping-pong, mas temo que o resultado seja uma leitura picotada.

A cada vez que o leitor engrena na narrativa e na ambientação de um dos protagonistas, ele é forçado a, digamos, reiniciar seu HD para se reinserir na outra estória. A semelhança entre ambos (aos nossos olhos tropicais) deixa tudo ainda mais confuso.

Pior: se com isso a intenção de Krug era nos oferecer simultaneamente duas visões distintas, com perspectivas antagônicas dos acontecimentos, não é o que se dá. Porque a ucraniana e o russo coincidem no seu repúdio a Putin, o presidente russo que ordenou a invasão da Ucrânia.

Assim, sob a ótica da geopolítica, se estão em lados opostos geograficamente, coabitam a mesma esfera sócio-política: ambos querem a paz, ambos abandonaram temporariamente seus países e ambos são contra Putin. Então, aqui, o "antagonismo" pretendido pela autora não se concretiza. 

Tanto, que o russo, artista, se espanta com a posição do diretor do museu de São Petersburgo, o Heritage, que apoia a ofensiva de Putin: "We are no longer retreating, we've made a turn". O curador, enfático, diz que "we're all militarists and imperialists. Our country is changing world history". 

Quando o responsável pela burocracia da arte tem um discurso de general, o negócio não tá bom.

Já a ucraniana registra que "today, Russia fired missiles at a crowded neighbourhood in Vinnytsia. A little girl was killed, and this news crushed me". E completa, dizendo que "the girl's mother survived the attack, but in hospital with multiple injuries. The doctors haven't told her yet that her daughter is dead".

Muito triste. Mas aqui sim há antagonismo: vemos que as semelhanças ideológicas não anulam as diferenças práticas. Se ambos fogem de Putin, ela foge das bombas, e ele do recrutamento militar.

São dois universos distintos de uma região cujos raros momentos de paz são um oásis em uma trajetória historicamente marcada por conflitos sangrentos. É um povo ao qual não faltam cicatrizes.

Além de expor o cotidiano dos protagonistas, Krug nos traz dados relevantes de como a população civil (que parecem comigo, com você, com nossos vizinhos) lidou com as ameaças do primeiro ano de guerra. A rotina dos filhos de ambos deixam claro que há questões funcionais com as quais lidar.

Independentemente de lado, são todos vítimas de um devaneio do presidente russo: a reconstrução do antigo império soviético. Para justificar a nova invasão da Ucrânia, ele seleciona as interpretações da história que lhe convêm. Mas o fato é que são mais de mil anos de povos misturados.

Por medida de segurança e proteção às respectivas famílias, os protagonistas não são identificados. K., a jornalista ucraniana, tem origens russas e judaicas, é casada, com um casal de filhos. A guerra a obriga a levar as crianças para Copenhagen, enquanto o marido permanece em Kyiv, pois homens entre 16 e 60 anos não podem abandonar o país. Isso faz com que ela se divida entre os dois mundos. Um de ordem e calma (a Dinamarca) e outro de perigo e privação (a Ucrânia).

"I recently spoke to my mother about our cultural identity", confidencia. "She considers herself Ukrainian, but she is really Russian-Jewish". Conta que os pais e avós foram criados na região do Volga, próxima à Ucrânia, e que o avô se referia a si mesmo mais como cossaco do que como russo.

O russo, D., é também casado, com dois filhos e com raízes judaicas. Nativo de São Petersburgo, nunca se sentiu confortável com o passado soviético e com as pretensões imperialistas de Vladimir Putin. Com a eclosão da guerra, temendo ser recrutado para o front, parte, sozinho, para a Turquia e dali para a França. Lá sofre com as dificuldades de adaptação, a distância da família e o preconceito.

"I don't have a clear idea of what Russian cultural identity means. I have Siberian and Jewish ancestors. I was born in the Soviet Union, but I grew up in Russia", diz. Que salada. "I feel as if St. Petersburg is my country", revela, enfatizando que, se alguém pergunta de onde ele é, fala que é de São Petersburgo, não da Rússia. É um estigma difícil de carregar Europa afora.

Para nós, brasileiros, muito distantes da realidade da guerra, o que temos é um breve recorte do momento inicial do confronto. Resilientes, tanto K. como D. imaginam que o conflito encerrará logo. Nós, que estamos em 2026, sabemos que não. A invasão completou quatro anos agora em fevereiro, e não há nada que indique que a guerra esteja próxima do seu termo. 

Então é ainda mais melancólico acompanhar as expectativas que ambos os protagonistas de Krug mantêm. Crianças ucranianas que conseguiram emigrar crescerão no exílio. Mães expatriadas se moverão à reboque de sua prole. Homens seguirão para o front para se manterem moral e legalmente vinculados à própria pátria, vivos ou mortos.

A ânsia pelo retorno à vida normal não se mistura à ilusão de que uma paz duradoura seja possível. "For Ukranians to think that Russia will change if Putin dies is stupid", reflete a ucraniana. "Russia will be Ukraine's neighbour forever, whether we like it or not. And that scares me very much".

Este sentimento está enraizado em todos os povos da região. Ela comenta que "people who live in post-Soviet countries usually say that temporary things are the only things that are permanent".

A alegação divulgada pela Rússia para invadir a Ucrânia em 2022 foi a de "combater o neonazismo". Seria meritório. Mas, para alguns, isso soa hilário. Os neonazis lá se caracterizam mais pelos rituais antissemitas, um preconceito atávico compartilhado por russos e ucranianos. 

"Ukraine never was a very open state because it was part of the Soviet system for so long, and the Soviet Union itself was anti-Semitic", explica K. "I've also witnessed many attacks on human right defenders, left-wing activists anda LGBT people by far-right groups". Às vezes a própria polícia era conivente. "Sometimes the police interfered, other times they didn't".

Estes grupos ucranianos não escondiam sua inspiração ("Some of the attackers wore tattoos of swastikas and Adolf Hitler"), o que coube como uma luva aos propósitos de Putin.  "What Putin has done is blame those kinds of radicals to justify his aggression and Russia's invasion. He even accused our Jewish presidente of being a nazi", deplora.

Desde o fim do nazismo, em 1945, as pessoas passaram a tachar de nazistas aqueles de quem discordam ou simplesmente não gostam. "It will be difficult for people to acknowledge the fact that by supporting Putin, they actually supported a Nazi-like regime", avalia D., fazendo de Putin - que alega ter iniciado a guerra para impedir a retomada do "nazismo" - também um nazista. 

É um xingamento prático. Aqui no Brasil também chamamos bolsonaristas e judeus de "nazistas".

Outra palavra muito em voga é "genocídio". Putin, acredite, atribuiu aos ucranianos um genocídio contra os russos.  D. relata que o governo russo afirma que "the war didn't start last year, but in 2014 in Donbas, where a 'genocide against Russians' has been taking place ever since". Os russos, segundo Putin, não estariam "atacando" os ucranianos, e sim apenas "reagindo" aos genocidas.

D., ainda que fugitivo, sente no exterior o peso de pertencer ao país invasor. "I've been thinking about the idea of guilt", registra. "As a Russian, I feel guilty. At the same time, I'm against the idea of collective guilt because I think that collective guilt stops you from confronting your personal guilt".

Sei não. Ele elabora um pouco mais o raciocínio. "Do I feel personal guilt? I don't know. I worked hard over the years to try to change my country by exposing it to the international art world". Vou passar essa.

Em outra ocasião, ele vai a um shopping center em Paris assistir a uma performance de artistas ucranianos, exilados como ele. Lidar com os depoimentos de quem tem prédios e escolas bombardeados agrava suas reflexões sobre culpa. Evita fitar os ucranianos nos olhos.

Interminável, a guerra iniciada quatro anos atrás no Leste Europeu se cruza com a guerra atual entre Estados Unidos e Irã. A funcionalidade dos armamentos iranianos já era, então, determinante. "Russia recently started using Iranian Shahed drones to attack Ukraine", denuncia K. "These drones are simple and stupid, but unpredictable, and it's very hard to shoot them down".

Como fica claro pelas inúmeras convergências, seria uma obra "datada" se a guerra já tivesse acabado; porém, como a guerra segue de vento em popa, já em seu quinto ano, o que temos em "Diaries of War" é um recorte prático das expectativas de seus habitantes nos meses iniciais do conflito. Ainda viria muito pela frente - mas nem a autora, nem os personagens, sabiam disso então.

O livro de Nora Krug é, como outros relatos de guerra, atemporal. É um almanaque didático sobre agressão e sobrevivência, sobre gente comum vendo bombas explodir apartamentos. 

Ten Speed Graphic, 128 páginas  |  1a edição  |  Copyright 2023

Obs.: Em uma das fotos que ilustram o post, à direita, um homem carrega o caixão branco de uma criancinha morta. Por alguma razão, criancinhas ucranianas mortas suscitam pouca reação por aqui.