"Diaries of War", por Nora Krug


Nora Krug, alemã radicada em Nova York, escreve em "Diaries of War" sobre o primeiro ano da guerra entre Rússia e Ucrânia. Sua narrativa, à margem dos bombardeios, fala do impacto da guerra na vida das pessoas comuns. O livro, lançado nos Estados Unidos em 2023, repercutiu mundo afora, com trechos publicados (ainda em 2022) em jornais da Itália, Espanha, Alemanha e Holanda.

A autora, como em seu livro anterior, "Heimat", tem um formato próprio. Ela mescla suas ilustrações aos textos, que, por sua vez, nos são apresentados como páginas de diários - aqui, assinados por uma jornalista ucraniana e por um artista russo. As páginas pares cabem à primeira e as ímpares ao segundo. A proposta é um ping-pong, mas temo que o resultado seja uma leitura picotada.

A cada vez que o leitor engrena na narrativa e na ambientação de um dos protagonistas, ele é forçado a, digamos, reiniciar seu HD para se reinserir na outra estória. A semelhança entre ambos (aos nossos olhos tropicais) deixa tudo ainda mais confuso.

Pior: se com isso a intenção de Krug era nos oferecer simultaneamente duas visões distintas, com perspectivas antagônicas dos acontecimentos, não é o que se dá. Porque a ucraniana e o russo coincidem no seu repúdio a Putin, o presidente russo que ordenou a invasão da Ucrânia.

Assim, sob a ótica da geopolítica, se estão em lados opostos geograficamente, coabitam a mesma esfera sócio-política: ambos querem a paz, ambos abandonaram temporariamente seus países e ambos são contra Putin. Então, aqui, o "antagonismo" pretendido pela autora não se concretiza. 

Tanto, que o russo, artista, se espanta com a posição do diretor do museu de São Petersburgo, o Heritage, que apoia a ofensiva de Putin: "We are no longer retreating, we've made a turn". O curador, enfático, diz que "we're all militarists and imperialists. Our country is changing world history". 

Quando o responsável pela burocracia da arte tem um discurso de general, o negócio não tá bom.

Já a ucraniana registra que "today, Russia fired missiles at a crowded neighbourhood in Vinnytsia. A little girl was killed, and this news crushed me". E completa, dizendo que "the girl's mother survived the attack, but in hospital with multiple injuries. The doctors haven't told her yet that her daughter is dead".

Muito triste. Mas aqui sim há antagonismo: vemos que as semelhanças ideológicas não anulam as diferenças práticas. Se ambos fogem de Putin, ela foge das bombas, e ele do recrutamento militar.

São dois universos distintos de uma região cujos raros momentos de paz são um oásis em uma trajetória historicamente marcada por conflitos sangrentos. É um povo ao qual não faltam cicatrizes.

Além de expor o cotidiano dos protagonistas, Krug nos traz dados relevantes de como a população civil (que parecem comigo, com você, com nossos vizinhos) lidou com as ameaças do primeiro ano de guerra. A rotina dos filhos de ambos deixam claro que há questões funcionais com as quais lidar.

Independentemente de lado, são todos vítimas de um devaneio do presidente russo: a reconstrução do antigo império soviético. Para justificar a nova invasão da Ucrânia, ele seleciona as interpretações da história que lhe convêm. Mas o fato é que são mais de mil anos de povos misturados.

Por medida de segurança e proteção às respectivas famílias, os protagonistas não são identificados. K., a jornalista ucraniana, tem origens russas e judaicas, é casada, com um casal de filhos. A guerra a obriga a levar as crianças para Copenhagen, enquanto o marido permanece em Kyiv, pois homens entre 16 e 60 anos não podem abandonar o país. Isso faz com que ela se divida entre os dois mundos. Um de ordem e calma (a Dinamarca) e outro de perigo e privação (a Ucrânia).

"I recently spoke to my mother about our cultural identity", confidencia. "She considers herself Ukrainian, but she is really Russian-Jewish". Conta que os pais e avós foram criados na região do Volga, próxima à Ucrânia, e que o avô se referia a si mesmo mais como cossaco do que como russo.

O russo, D., é também casado, com dois filhos e com raízes judaicas. Nativo de São Petersburgo, nunca se sentiu confortável com o passado soviético e com as pretensões imperialistas de Vladimir Putin. Com a eclosão da guerra, temendo ser recrutado para o front, parte, sozinho, para a Turquia e dali para a França. Lá sofre com as dificuldades de adaptação, a distância da família e o preconceito.

"I don't have a clear idea of what Russian cultural identity means. I have Siberian and Jewish ancestors. I was born in the Soviet Union, but I grew up in Russia", diz. Que salada. "I feel as if St. Petersburg is my country", revela, enfatizando que, se alguém pergunta de onde ele é, fala que é de São Petersburgo, não da Rússia. É um estigma difícil de carregar Europa afora.

Para nós, brasileiros, muito distantes da realidade da guerra, o que temos é um breve recorte do momento inicial do confronto. Resilientes, tanto K. como D. imaginam que o conflito encerrará logo. Nós, que estamos em 2026, sabemos que não. A invasão completou quatro anos agora em fevereiro, e não há nada que indique que a guerra esteja próxima do seu termo. 

Então é ainda mais melancólico acompanhar as expectativas que ambos os protagonistas de Krug mantêm. Crianças ucranianas que conseguiram emigrar crescerão no exílio. Mães expatriadas se moverão à reboque de sua prole. Homens seguirão para o front para se manterem moral e legalmente vinculados à própria pátria, vivos ou mortos.

A ânsia pelo retorno à vida normal não se mistura à ilusão de que uma paz duradoura seja possível. "For Ukranians to think that Russia will change if Putin dies is stupid", reflete a ucraniana. "Russia will be Ukraine's neighbour forever, whether we like it or not. And that scares me very much".

Este sentimento está enraizado em todos os povos da região. Ela comenta que "people who live in post-Soviet countries usually say that temporary things are the only things that are permanent".

A alegação divulgada pela Rússia para invadir a Ucrânia em 2022 foi a de "combater o neonazismo". Seria meritório. Mas, para alguns, isso soa hilário. Os neonazis lá se caracterizam mais pelos rituais antissemitas, um preconceito atávico compartilhado por russos e ucranianos. 

"Ukraine never was a very open state because it was part of the Soviet system for so long, and the Soviet Union itself was anti-Semitic", explica K. "I've also witnessed many attacks on human right defenders, left-wing activists anda LGBT people by far-right groups". Às vezes a própria polícia era conivente. "Sometimes the police interfered, other times they didn't".

Estes grupos ucranianos não escondiam sua inspiração ("Some of the attackers wore tattoos of swastikas and Adolf Hitler"), o que coube como uma luva aos propósitos de Putin.  "What Putin has done is blame those kinds of radicals to justify his aggression and Russia's invasion. He even accused our Jewish presidente of being a nazi", deplora.

Desde o fim do nazismo, em 1945, as pessoas passaram a tachar de nazistas aqueles de quem discordam ou simplesmente não gostam. "It will be difficult for people to acknowledge the fact that by supporting Putin, they actually supported a Nazi-like regime", avalia D., fazendo de Putin - que alega ter iniciado a guerra para impedir a retomada do "nazismo" - também um nazista. 

É um xingamento prático. Aqui no Brasil também chamamos bolsonaristas e judeus de "nazistas".

Outra palavra muito em voga é "genocídio". Putin, acredite, atribuiu aos ucranianos um genocídio contra os russos.  D. relata que o governo russo afirma que "the war didn't start last year, but in 2014 in Donbas, where a 'genocide against Russians' has been taking place ever since". Os russos, segundo Putin, não estariam "atacando" os ucranianos, e sim apenas "reagindo" aos genocidas.

D., ainda que fugitivo, sente no exterior o peso de pertencer ao país invasor. "I've been thinking about the idea of guilt", registra. "As a Russian, I feel guilty. At the same time, I'm against the idea of collective guilt because I think that collective guilt stops you from confronting your personal guilt".

Sei não. Ele elabora um pouco mais o raciocínio. "Do I feel personal guilt? I don't know. I worked hard over the years to try to change my country by exposing it to the international art world". Vou passar essa.

Em outra ocasião, ele vai a um shopping center em Paris assistir a uma performance de artistas ucranianos, exilados como ele. Lidar com os depoimentos de quem tem prédios e escolas bombardeados agrava suas reflexões sobre culpa. Evita fitar os ucranianos nos olhos.

Interminável, a guerra iniciada quatro anos atrás no Leste Europeu se cruza com a guerra atual entre Estados Unidos e Irã. A funcionalidade dos armamentos iranianos já era, então, determinante. "Russia recently started using Iranian Shahed drones to attack Ukraine", denuncia K. "These drones are simple and stupid, but unpredictable, and it's very hard to shoot them down".

Como fica claro pelas inúmeras convergências, seria uma obra "datada" se a guerra já tivesse acabado; porém, como a guerra segue de vento em popa, já em seu quinto ano, o que temos em "Diaries of War" é um recorte prático das expectativas de seus habitantes nos meses iniciais do conflito. Ainda viria muito pela frente - mas nem a autora, nem os personagens, sabiam disso então.

O livro de Nora Krug é, como outros relatos de guerra, atemporal. É um almanaque didático sobre agressão e sobrevivência, sobre gente comum vendo bombas explodir apartamentos. 

Ten Speed Graphic, 128 páginas  |  1a edição  |  Copyright 2023

Obs.: Em uma das fotos que ilustram o post, à direita, um homem carrega o caixão branco de uma criancinha morta. Por alguma razão, criancinhas ucranianas mortas suscitam pouca reação por aqui.

"90 minutos em Entebbe", por William Stevenson


Há meio século, a União Soviética e o mundo árabe comemoravam a ousada ação terrorista que sequestrou o vôo 139 da Air France. Mais um - em uma época recheada de sequestros aéreos. Havia, fácil, mais de um por mês. A autoria desta ação foi reclamada pela Frente Popular para a Libertação da Palestina e pelas Células Revolucionárias (Revolutionäre Zellen) da Alemanha.

Apenas para citar alguns números: entre 1961 e 1972, 159 aviões tinham sido sequestrados nos Estados Unidos. No Brasil, no período de três anos, de 1969 a 1972, quinze aviões foram sequestrados. Um único Boeing 707, da brasileira Varig, foi sequestrado três vezes em seis meses.

As vítimas se contavam aos milhares. O Boeing 737 sequestrado pelo Exército Vermelho Japonês caiu em Singapura, com mais de cem vítimas fatais. A Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) explodiu uma bomba no vôo da Swiss Air em 1970, matando 47 pessoas.

Ou seja, não havia dúvida sobre o grau de periculosidade dos sequestradores.

Entre os 248 passageiros do vôo sequestrado, o AF139, havia 106 cidadãos israelenses. O vôo partira de Tel Aviv rumo a Paris no dia 27 de junho de 1976. Os sequestradores aproveitaram para embarcar durante a escala em Atenas, com um estoque graúdo de pistolas e granadas a tiracolo.

Mesmo sendo os sequestradores bandidos internacionalmente fichados, o embarque foi tranquilo.

Sei como é lá. Eu estive no aeroporto de Atenas vinte anos depois, em 1995, e o lugar parecia uma rodoviária do interior. Segurança zero. A esteira para retirada das malas era já na beira da rua, com absolutamente ninguém do aeroporto para fiscalizar. Uma verdadeira zona.

Já no ar, os terroristas se apresentaram à tripulação (com os gritos e as ameaças de praxe, todo mundo quieto, vou explodir isso aqui etc) e o avião foi desviado para Benghazi, na Líbia, onde reabasteceu. Dali seguiram viagem para o aeroporto de Entebbe, na Uganda. Seu destino final. 

O sequestro ganhou as manchetes do planeta. A exigência anunciada foi a libertação de 53 terroristas presos em Israel (40) e na Alemanha, França, Suíça e Quênia (os demais treze). O prazo dado foi o do dia 1o de julho. Caso contrário, explodiriam o avião, com os passageiros dentro.

Festa no deserto.

A moçada favorável à ação terrorista estava certa em comemorar. A situação era muito complicada para ser revertida. Uganda, no coração da África, era praticamente inacessível. Era governada por um ditador, com estreitos vínculos políticos com os árabes e, particularmente, os palestinos. Seu exército havia dizimado a oposição e matado dezenas de milhares de civis. 

O prazo dado era exíguo e, face à logística, o cativeiro parecia inexpugnável.

Em êxtase com a visibilidade global alcançada, o auto-intitulado Marechal de Campo Doutor Presidente Idi Amin Dada, Presidente perpétuo da República de Uganda, desfilava entre os presos. Ainda que coiteiro dos terroristas, pretendia ser exaltado como o "mediador".

Vaidoso, no dia 2 de julho viajou para Maurício, para "abrir a 13a sessão da Assembleia dos Chefes de Estado da Organização da Unidade Africana" e desfrutar do boost na sua popularidade. Como disse o ministro do Exterior de Uganda, Juma Abdullah, o "Presidente Amin aproveitou a oportunidade para explicar aos seus colegas todos os esforços que fizera para a liberação dos reféns".

Amin, que nas aparições se dizia candidato a salvar os judeus dos terroristas, era um declarado admirador de Adolf Hitler, o ex-cabo austríaco que promoveu a morte de 60 milhões de pessoas (e que, quando viu a si mesmo em perigo, entrou em pânico e se suicidou dentro de um bunker).

Stevenson cita um discurso na ONU em que Amin "aplaudiu publicamente o assassinato dos atletas israelenses e exigiu a extinção do estado de Israel". O presidente de Uganda "não apenas louvou Hitler pelo massacre de seis milhões de judeus como ainda propôs que lhe fosse erguido um monumento".

O ódio de Amin a Israel talvez possa ser explicado de forma mais prática. Uganda havia se beneficiado da política externa israelense nos anos 70, marcada pelo suporte humanitário e tecnológico às nações africanas. Israel desenvolveu a aviação aérea do país e fez o treinamento dos seus pilotos. 

Amin, que tinha pretensões maiores na África, queria mais, e pleiteou aviões de caça supersônicos (negados por Israel). Em seguida, disse que mandaria um ugandense à Lua e se indispôs com a Tanganica. Resolveu bombardeá-la, contando com o apoio israelense - que, obviamente, tirou o corpo fora dessa roubada, e pôs fim à lua-de-mel diplomática com o ditador maluco. 

Enfurecido, Amin se voltou para a União Soviética, que ficou bem satisfeita em fornecer seus Migs. A partir daí, o Marechal de Campo Doutor Presidente Idi Amin transformou-se em um entusiasta da causa palestina. "Mais de trezentos palestinos foram nomeados para cargos públicos antes ocupados por asiáticos", diz o jornalista.

Uganda, então, virou um enorme campo de treinamento para o terrorismo profissional. O desvio do AF136 para Entebbe era o corolário de um grande esforço para estar no centro dos acontecimentos. Idi Amin estava radiante.

(Apenas para ilustrar: nos anos 70, o exótico ditador da Uganda se tornara tão mundialmente midiático que, quando uma avalanche de milhões de pequenos besouros tomou conta do Rio de Janeiro, eles foram batizados aqui de "Idi amin". Duvida? Pergunte à IA.)

Com tudo isso dito, fica claro o êxito potencial da ação. O avião e os reféns estavam guardados pelo exército de Uganda, que ocupava o aeroporto por dentro e por fora. Após o pouso, os quatro terroristas que sequestraram o avião foram rebaixados a meros vigias. Uma equipe de alto escalão do terror, formada por árabes e palestinos, chegara para negociar e exercer o comando.

Foi feita uma seleção de passageiros, como nos tempos do nazismo. Judeus para um lado, não-judeus para o outro. Os não-judeus foram mandados de volta para casa, como um pretenso gesto de boa vontade de Amin, que dizia ter sido uma conquista dele perante os sequestradores.

Entretanto, os sequestrados não-judeus libertados foram essenciais na descrição 1) do local, 2) do posicionamento dos guardas e estado emocional dos terroristas e 3) da mise-en-scéne do "marechal".

Os sequestradores postergaram a deadline para o dia 3 de julho, domingo, às 11h da manhã. Ou os 53 terroristas que estavam na cadeia seriam libertados ou então os judeus sequestrados seriam executados. A ameaça era começar pelas crianças, uma a uma, até que as exigências fossem atendidas. Não era da boca para fora. Matar era com os caras mesmo.

Assim, estavam a um passo de uma vitória grandiosa. Para os terroristas, era por de joelhos o Estado sionista e dar liberdade aos seus chefes e companheiros. Para Idi Amin Dada, era o estrelato global.

Àquela altura, já havia uma semana que os judeus estavam confinados em um galpão no aeroporto, dormindo no chão, alimentados com carne estragada, sem água e sofrendo com latrinas entupidas. Diariamente, Amin cumpria o ritual de ir lá e responsabilizá-los pela própria situação, dizendo que era o país deles, Israel, que os prendia ali, ao não aceitar as exigências dos sequestradores.

Hipocritamente, se dizia protetor dos reféns, quando era, na verdade, carcereiro.

A diplomacia de Israel, por sua vez, estava em contato diário com o presidente de Uganda, em telefonemas sucessivos, pedindo para que ele não acoitasse os terroristas. Amin se fazia de sonso e se dizia solidário, mas impotente para persuadi-los. Israel teria que pagar o resgate.

Uma situação dramática. Libertar os 53 terroristas pedidos seria uma derrota e uma rendição. Tentar libertar os reféns seria uma ação de alto risco e poderia acabar em tragédia. Enquanto os políticos tentavam chegar a um acordo - sem um fiapo de luz no fim do túnel -, as equipes especiais do exército israelense, após três dias de treinamento exaustivo, já estavam na ponta dos cascos. 

Correndo contra o relógio, quatro quadrimotores israelenses, carregando algumas dezenas de soldados e um Mercedes Benz recém-pintado, alçaram vôo rumo à Entebbe na noite do dia 3 de julho de 1976. Poderiam ser chamados de volta a qualquer tempo; ou receberem no ar o OK para a missão.

As chances de terem êxito eram pequenas; mas a possibilidade de sucesso valia o risco.

Parafraseando a Wikipedia, esta que passou para a história como Operação Entebbe "é considerada por muitos especialistas como a missão de resgate mais complexa e perfeita de todos os tempos".

Confesso que eu já tinha escutado dezenas de vezes referências a esse sequestro. Volta e meia o tal "resgate em Entebbe" aparecia no meu radar. Mas jamais parara para ler a estória. Na verdade, o Oriente Médio nunca foi minha zona de interesse. Até um certo dia, dois anos e meio atrás.

O inominável 7 de outubro de 2023 fisgou minha atenção para o conflito entre israelenses e palestinos. Nunca me ative muito a um problema que eu, erradamente, julgava periférico. O ataque subumano do Hamas, porém, pareceu coisa de neandertais e eu quis entender melhor a questão.

Desde então, li, talvez, uma dúzia de livros sobre a região. Alguns deles já comentei aqui; pretendo comentar outros, mais à frente. Para diminuir minha ignorância, fucei quais autores eram mais respeitados. Tentei evitar os engajados e os panfletários. Acho que deu certo. Gostei do que li.

O rolo no Oriente Médio é um saco de gatos. É melhor delimitar uma linha do tempo e pular fora das abordagens maniqueístas. Mesmo com todo esse cuidado, é difícil entender esse pega-pra-capar.

Sob um prisma mais restrito, tudo começa a partir da resolução da ONU que estabelece a divisão do antigo Mandato Britânico da Palestina entre árabes e judeus, em 1948. A recusa árabe em aceitar a divisão desemboca na guerra aberta contra os 700 mil judeus nascidos e residentes na região.

A resistência dos judeus, apesar da sua precariedade militar, leva a um desfecho imprevisto - a vitória dos locais e à declaração do Estado de Israel. O evento é conhecido pelos vitoriosos como "Guerra da Independência" - e pelos derrotados como a "Grande Nakba". A grande catástrofe. 

A partir daí houve a guerra dos israelenses contra os egípcios, em 1956, a Guerra dos Seis Dias, em 1967 (dos israelenses contra os egípcios, sírios, libaneses, jordanianos e iraquianos), e a Guerra do Yom Kippur (assim chamada por terem os egípcios deflagrado a guerra no feriado sagrado anual dos judeus, o "Dia do Perdão"), em 1973.

A guerra no sul do Líbano, em 1978, também denominada Operação Litani, teve início após o atentado terrorista palestino conhecido como "Massacre da Estrada Costeira", que sequestrou e matou 38 civis israelenses, incluindo 13 crianças.

É a partir daí que a desproporção de forças entre Israel e seus vizinhos se torna evidente. Israel deixa de ser um pobre-coitado, sempre sob ameaça de linchamento pelos árabes ao redor, e passa a bully.

A ofensiva israelense visava estabelecer uma linha de proteção entre Israel e as forças terroristas da OLP (Organização pela Libertação da Palestina), que se valiam do Líbano para lançar ataques terrestres e de mísseis contra o território israelense. Após empurrarem os terroristas para trás do rio Litani, um acordo de paz foi celebrado entre Israel e a OLP. 

O conflito, entretanto, não ficou suficientemente bem resolvido (como não ficara nos trinta anos anteriores e também jamais ficaria, como temos acompanhado no meio século seguinte). Em 1982, Israel novamente invadiu o Líbano, para combater os terroristas palestinos. O país enfrentava o caos e a guerra civil.

Após diversas guerras, a década de 70 e o início dos anos 80 remodelaram o conflito árabe-israelense. Se o bully, Israel, conquistou supremacia militar, o acossado, o palestino, contava com o efeito surpresa em ataques surgidos do nada, no meio das cidades israelenses.

O novo front era protagonizado por terroristas armados, à paisana, contra civis desarmados (incluindo mulheres, velhos e crianças) e alheios à proximidade do perigo. O embate soldado a soldado ficara no passado. Na nova contabilidade do terrorismo, o que valia era a quantidade de defuntos.

Foi espremido entre esse monte de eventos, entre a Guerra do Yom Kippur, em 1973, e a Operação Litani, em 1978, que ocorreu o sequestro do vôo 139 da Air France.

Quando o assunto foi mais uma vez mencionado em um dos livros que lia, encasquetei - como é que Israel conseguiu resgatar os sequestrados no meio da noite, trancafiados em um galpão no coração da África, cercados por fanáticos sanguinários, perdendo apenas um soldado e quatro reféns?

Foi aí que fui buscar na internet livros que me contassem essa estória. Optei por "90 minutos em Entebbe" pelo ano da publicação. Só achei no sebo. Foi publicado em 1976, no próprio ano do sequestro. O autor era um reputado jornalista britânico-canadense, que lançou o livro semanas após o evento, certamente visando faturar enquanto o assunto ainda estava quente nos jornais.

Isso trouxe algumas desvantagens na concepção do livro, que parece uma colagem feita às pressas de uma série de depoimentos e versões. Parece, não; é. O autor vai e vem na estória, mistura diários, matérias de jornal, relatos diplomáticos e o próprio conhecimento. O livro é uma colcha de retalhos. 

Essa "colagem" poderia dar certo, se fosse mais bem organizada. Não foi. O jornalista tinha nome, background, e os relatos eram verdadeiros. Bastava. Tinha ainda as transcrições dos debates da semana seguinte na ONU e a transcrição integral de três telefonemas entre o coronel Baruch Bar-Lev e o presidente Idi Amin. O editor juntou tudo e mandou para o prelo. 

O fato é que, ainda que Stevenson tenha tido livre acesso a interlocutores de peso, o resultado ficou longe do ideal. Jogaram para o leitor a responsabilidade de fazer seu próprio rearranjo mental dos fatos narrados.

Funciona, mas não é o que se espera de um (bom) livro-reportagem.

É verdade, admitamos, que qualquer coisa produzida no calor dos acontecimentos terá sempre suas lacunas. E que o texto mais bem pesquisado (e melhor burilado) da atual indústria editorial está léguas à frente do que se fazia, nesse mercado, nos anos 70.

Ou seja, deficiências à parte, a obra tem seu valor. Sendo contemporânea dos fatos que descreve, não está contaminada pela obtusa politização ideológica das décadas posteriores.

O frenesi mundial por aquela que foi batizada "Operation Thunderbolt" gerou uma vasta quantidade de filmes, entre produção de ficção e documentários. O "Victory at Entebbe", produzido em 1976 para a ABC TV, reunia no elenco Burt Lancaster, Elizabeth Taylor, Anthony Hopkins, Linda Blair, Richard Dreyfuss e Kirk Douglas - uma constelação dos mais populares e bem pagos astros da época.

"Raid on Entebbe", produzido em 1977 para o cinema, trazia Charles Bronson (a grande estrela dos anos 70), além de Peter Finch, James Woods e Martin Balsam, entre outros. 

Por conta do heroísmo, das dificuldades e do sucesso quase absoluto da operação, as telas continuaram recebendo uma série de produções, entre elas a mais recente "7 days in Entebbe", de 2018. O elenco é internacional e o diretor é brasileiro - José Padilha, famoso pelo seu "Tropa de elite".

Antes de ver os filmes, porém, quis ler a estória detalhada do que aconteceu. "90 minutos em Entebbe", do jornalista William Stevenson, me permitiu entender, ainda que precariamente, filigranas do que se passou. Não me satisfez (ainda), mas trouxe um conteúdo robusto.

Como não é ficção, não tem spoiler, né? então tô liberado pra contar o fim dessa estória.

Na noite de 3 de julho de 1976, os quadrimotores dos judeus pousaram no velho aeroporto. Da barriga dos cargueiros saíram uma Mercedes e vários Land Rovers, entulhados com os melhores atiradores do exército de Israel. Quando se aproximaram dos soldados que protegiam o galpão, passaram os caras no fogo antes de darem boa-noite.

Os sequestradores nem de longe sonhavam que aquilo pudesse acontecer. Ninguém, aliás. Foram surpreendidos com o tiroteio que acontecia em meio à escuridão. As tropas de Israel invadiram a velha sala de embarque sem dó, mandando bala em todo mundo que estava em pé.

Tiveram a presença de espírito de gritarem em hebraico para os reféns se jogarem no chão.

Os sequestradores não foram páreo os invasores. Depois de eliminar os terroristas, o comando deu ordem para que os reféns fossem para o avião. A contar entre o pouso e a decolagem do aeroporto de Entebbe, toda a ação tomou 55 minutos - um minuto a mais do que o previsto nos ensaios.

Enquanto isso, o marechal doutor presidente dormia o sono dos anjos. Foi acordado, porém, às duas da manhã, por mais um telefonema de Israel. Acordou irritado. Do outro lado da linha, o israelense Bar-Lev tranquilizou Idi Amin: "Liguei somente para agradecer sua cooperação, presidente". 

O corpulento ditador de Uganda (1,93m, 140 quilos), balbuciou, sem entender do que se tratava. "Com o que ele tinha cooperado?" perguntou. Pediu explicações, mas o judeu desligou. Essa iria ser uma desconsolada madrugada para Amin e seus besouros homônimos.

Os reféns foram recebidos com festa em Israel. O sucesso da operação Thunderbolt foi estampado em todas as manchetes do mundo ocidental. Já os árabes acusavam, indignados, a inaceitável violação da soberania ugandense, que teve seu território invadido, seus aviões destruídos e seus soldados mortos.

"A África não pode permitir que uma parte do seu solo seja usada pelos sionistas de Israel para atacar um país irmão", disse, uma semana após, o ministro do Exterior de Uganda, no plenário da ONU. "Israel mais uma vez demonstrou sua qualidade de banditismo e de barbarismo".

O ministro ugandense foi enfático ao condenar Israel por ter resgatado os israelenses sequestrados. Condenou "a agressão de Israel" como sendo "bárbara, não provocada e injustificada".

A Somália fez coro com a Uganda. Hussein, seu representante, insistiu para que "o Conselho condene em termos os mais fortes possíveis o regime sionista de Tel Aviv pelo incrível ato de agressão cometido contra o povo e a o governo da República de Uganda".

Os principais jornais do planeta acompanharam a evolução dos acontecimentos. Em 1o de julho, assim que parte dos reféns foi libertada, a Associated Press informou que "os reféns recentemente liberados pelos sequestradores de um avião da Air France disseram que, quando pousaram em Entebbe, já havia quatro árabes bem armados aguardando no aeroporto".

Le Monde ratificou o fato na edição de 5 de julho. Na pista do aeroporto "vieram ao seu encontro, logo depois do avião haver descido, quatro ou cinco palestinos com metralhadoras".

A edição do New York Times do mesmo dia publicou que "fontes oficiais e os passageiros liberados declararam hoje que tinham provas de que o Presidente Amin estava em conluio com os sequestradores do avião depois que ele desceu em Uganda". 

Complementa ainda o NYT que nas "primeiras 24 horas depois da chegada em Entebbe, os sequestradores foram embora para descansar e os soldados ficaram tomando conta dos reféns".

Também no mesmo dia o Washington Post publicou que "os 148 passageiros não judeus liberados disseram que viram Amin abraçar o chefe da quadrilha e que os quatro terroristas haviam saído deixando os reféns entregues à guarda de soldados durante 24 horas".

A transcrição dos debates na ONU toma quase quarenta páginas do livro de Stevenson. Nela, o nome da passageira Dora Bloch é mencionado dezenas de vezes. Dora foi a única refém não resgatada. Ela, uma senhora idosa, viajava com seu filho adulto, para ir ao casamento do seu outro filho. Passou mal no cativeiro e foi levada a um hospital. Não estava no aeroporto no momento da ação.

Chaim Herzog, representante de Israel, questionou o governo de Uganda sobre o seu paradeiro e sobre sua cumplicidade com os sequestradores:

"Por que não soltou Dora Bloch, uma senhora de 75 anos, logo depois dos terroristas terem sido eliminados? Por que ela foi retida em custódia no hospital sob a guarda de soldados em Kampala? Por que não a entregaram ao Cônsul da Inglaterra, quando ele a procurou no domingo, 4 de julho, depois da operação de resgate?"

"Por que, de repente, somos notificados que as autoridades de Uganda não sabem do seu paradeiro quando ela foi retirada resistindo e gritando por quatro funcionários do hospital?", questionou veementemente Herzog, escalando o tom.

"Aqui nós temos esse espetáculo incrível e macabro de um estado declarando guerra a uma senhora de 75 anos", acusou o representante israelense. "Um estado que encontra apoio presumível naqueles que se associam com esse comportamento desprezível e covarde".

O representante de Uganda rechaçou as acusações. "Ela foi devolvida para o prédio do aeroporto de Entebbe na noite de sábado, 3 de julho. Só Israel sabe responder onde está Dora Bloch".

O New York Times, porém, publicara em 9 de julho que "na Câmara dos Comuns da Inglaterra, ontem, um ministro do governo disse que Dora Bloch fora visitada no hospital por um membro da Alta Comissão no dia seguinte do ataque de Israel", o que desmentia a versão do ministro de Uganda.

"O diplomata informou que Dora Bloch estava sob as vistas de dois homens em trajes civis e quando voltou uma hora depois não lhe permitiram mais que a visse", prosseguiu o artigo do NYT. "Pessoas do Hospital Mulago informam que seus registros mostram a entrada de Dora Bloch na última sexta feira, mas nada dizem quanto ao seu tratamento ou alta do hospital".

À época, dias após a operação, havia a expectativa que Dora Bloch fosse libertada com vida - o que jamais aconteceu. Consultando hoje o Google, a informação oferecida é que "uma refém idosa, Dora Bloch, que tinha sido levada a um hospital em Uganda antes do resgate, foi assassinada por ordem de Idi Amin como retaliação após a operação israelense".

Durante os quatro dias de debates na ONU, o paradeiro de Dora Bloch permaneceu desconhecido.

O presidente da Somália, Jaalle Mohamed Siad Berre, telegrafou então a Idi Amin, chamando os israelenses de "terroristas". Disse ele ter acompanhado "com grande choque e assombro o sujo ato de agressão perpetrado por tropas dos sionistas de Israel, terroristas e imperialistas, em Entebbe". 

Chamou ainda a operação de resgate dos reféns de "bárbara" e um "arrogante insulto à dignidade da África e da humanidade". Fez questão de destacar que o resgate dos sequestrados "contraria todas as normas de comportamento e conduta internacionais".

O presidente somali intitulou Uganda como "amante da paz" e que o país não teria sido o primeiro "cuja integridade e soberania territorial foram violadas pelo arrogante regime racista de Israel".

Siad Berre invoca que "todos nós lembramos das ocasiões em que o mundo esteve à beira de uma guerra total devido ao descarado comportamento do regime sionista no Oriente Médio e ao seu completo desprezo pelo direito internacional". Atribui à Israel uma "sinistra mentalidade".

Posteriormente, a ação "sinistra" seria rebatizada de "Operação Yonni", em homenagem ao único soldado israelense morto na ação. Militar experiente e intelectual admirado, seu nome completo era Yehonatan Netanyahu. Seu irmão, Benjamin, vulgo "Bibi", se tornaria o Primeiro-Ministro de Israel.

Mas aí já é outra história.

Editora Difel, 223 páginas  |  4a edição, 1977  |  Copyright 1976  | Tradução  Luiz Corção




"Trens rigorosamente vigiados", por Bohumil Hrabal


Em uma mistura de non-sense, lirismo e um humor parvo que sublima a idiotia, acompanhamos as desventuras e reflexões de Milos Hrma, um jovem tcheco, morador de uma cidadezinha fronteiriça à Alemanha nazista e, deduzo cá com meus botões, alter-ego do autor.

O universo da literatura tcheca é singular. Conheço poucos, mas bons. Franz Kafka, com suas mil gavetas, e Jaroslav Hasek, com seus bêbados, são meus prediletos. Encontrei um pouco de ambos no texto de Hrabal, principalmente aquele assombro terno de Hasek, sempre se auto-ridicularizando.

Para Hasek e Hrabal, tudo transborda uma certa imponência abobalhada. Se Hasek legou para a posteridade o seu soldado Svejk, Hrabal nos oferece o simplório, mas prático, aprendiz ferroviário Milos. Ora com a cabeça nas nuvens ora com um atilado bom senso, o aprendiz vai, de personagem em personagem, desvelando os ladinos e os apatetados.

"O incrível casamento do humor plebeu com a imaginação barroca", disse de Hrabal seu compatriota Milan Kundera, mundialmente famoso pelo seu "A insustentável leveza do ser". Que nunca li.

A novela começa com o retorno do ferroviário ao emprego. Vinha de três meses de licença, pois se recobrava de uma tentativa de suicídio. Cortara os pulsos porque falhara na hora H com a namorada ("como pôde acontecer o que me aconteceu, que quando era para acontecer aquilo com Masa eu de repente murchei como um lírio?"). Vestira novamente seu belo uniforme de ferroviário.

O ano era 1945 e os alemães vinham correndo para trás. Fizeram da República Tcheca um Protetorado alemão e mataram tchecos a torto e a direito. Não que os tchecos fossem assim tão hostis aos chucrutes - não, não eram, e aí reside parte do problema. A literatura vem, às vezes, providencialmente socorrer a honra nacional.

Milos descendia de uma linhagem de resistentes. Ou quase. O protagonista teve por duas vezes um revólver alemão apertado contra as fuças - como o próprio escritor, que também tinha sido ferroviário e também estivera duas vezes sob a mira dos boches. Personagem e autor sobreviveram.

Tiveram melhor destino que o avô do Milos, que era hipnotizador e que, na Primeira Guerra Mundial, avançou sozinho contra uma divisão alemã, para pará-la utilizando apenas a força do pensamento. O tanque passou por cima dele. Decapitou o pobre e a cabeça ainda ficou presa na lagarta.

O bisavô, aleijado de guerra, vivia da pensão militar. Gostava de beber aonde houvesse alguém trabalhando, para tirar sarro de quem trabalhava enquanto ele ficava à toa debochando. Volta e meia levava uma surra de um trabalhador de cabeça quente. Até que um dia apanhou tanto que morreu.

O pai era um acumulador compulsivo e montava coisas com as tralhas que catava no lixo. A namorada ele conheceu após pintarem uma longa cerca, um de cada lado. No fim da cerca era para as coisas terem acontecido naturalmente, mas o pincel dele não funcionou e ele resolveu se matar.

Com o que voltamos ao início.

Sua estação de trem emula um teatro de vaudeville, com personagens caricatos. O chefe da estação vivia dentro de um pombal. A mulher do sr. chefe degolava coelhos, entupia gansos e dava um pau no marido. O controlador de tráfego carimbava a bunda da secretária do sr. chefe. E por aí vai.

E vai com algum spoiler, aviso. A uma certa altura o tom galhofeiro da novela migra para uma linha heroico-piegas. Os ferroviários resolvem explodir um dos trens rigorosamente vigiados. Uma agente secreta que veio ajudar a sabotar os alemães acaba dando para o virgem aprendiz.

Mais não digo.

Bohumil Hrabal, o autor, teve a vida marcada pelas guerras mundiais. Nasceu no início da primeira e enfrentou os dissabores da segunda. Filho bastardo de um soldado austro-húngaro, casou-se com Eliska, filha de um alemão rico e de uma austríaca simpatizante do nazismo. Não tiveram filhos, pois Eliska, estuprada por soldados soviéticos, não conseguia engravidar.

No regime comunista pós-Segunda Guerra, tornou-se operário, ferroviário e impressor. Só depois obteve autorização para ser escritor. Acabou perseguido por não se dobrar ao regime. Sua obra faz dele um dos maiores escritores tchecos do século XX.

Foi viver na roça. No fim da vida, viúvo, suspeita-se que tenha se matado.

Para encerrar. Em 1967, pouco depois da publicação de "Trens rigorosamente vigiados", fez imprimir no anúncio de falecimento do seu tio Pepin (um contador de estórias que influenciou seu texto e espírito), uma frase que talvez conte muito da ativa melancolia do próprio Bohumil.

"Ah, minha Nossa Senhora, a vida é, de qualquer jeito, bela, não que seja, mas é assim que eu a vejo".

Editora 34, 127 páginas  |  1a edição, 2025  |  Copyright 1965  |  Tradução  Luís Carlos Cabral

Foto: Ana Puterman (estação ferroviária de Rive-de-Gier)


"História da imigração no Brasil", por Luís Reznik


O estudo organizado por Luís Reznik se debruça sobre as políticas migratórias - estimuladas ou coibidas - do Estado brasileiro ao longo de um século e meio.

Dividido em sete capítulos, cada um deles sob a responsabilidade de um historiador, o texto fatia o arcabouço étnico do país. A abordagem revela que o perfil e o volume dos fluxos migratórios foram sempre pautados pelo governo - com influência de latifundiários e empresários.

O primeiro capítulo, de Lená Menezes, introduz o tema do livro. O viés é protocolar.

O segundo capítulo, de Marieta de Moraes, foge à abordagem mais generalista dos demais e ilumina um episódio. Fala de Nova Friburgo e conta como, em 1818, D. João VI, Rei do Brasil, investiu na importação de famílias de agricultores suíços, para, a título de experimento colonizatório, introduzi-los na região serrana do Rio de Janeiro.

Vale explicar melhor. O rei andava à cata de soluções para resolver um problema estratégico. É que, com as dificuldades impostas ao tráfico negreiro pelos ingleses, urgia encontrar alternativas para substituir a mão-de-obra escrava - até então o único motor da produção brasileira.

Esta primeira operação, denominada de "Tratado de Colonização", foi contratada ao suiço Sébastien-Nicolas Gachet, representante diplomático do cantão de Fribourg. O diplomata se comprometeu com o rei a importar 100 famílias suíças, que seriam estabelecidas na antiga fazenda do Morro Queimado - a partir daí rebatizada como Nova Friburgo.

Tinha início um procedimento comercial que se estenderia por décadas e que se tornaria o principal vetor de imigração no país. Agenciadores estrangeiros, sob comissão, "vendiam" colonos ao governo brasileiro. A opção estava em voga. Era um produto fartamente disponível no mercado.

Em uma época em que o povo europeu enfrentava ciclos de fome, era fácil cooptar desesperados dispostos a enfrentar o desafio de se lançarem rumo aos trópicos desconhecidos.

Uma epopeia arriscada e insalubre, que se dava em padrões inaceitáveis aos olhos de hoje.

Em outubro de 1818, atendendo aos panfletos que diziam tratar-se de uma terra de "espantosa fertilidade", as inscrições foram abertas em Fribourg. Ao longo de nove meses, dois mil suíços se inscreveram. A maioria (57%) tinha menos de 19 anos. Entre os 20 e os 59 anos se situavam 42%.

Imagine duas mil pessoas deixarem todos os seus vínculos para trás e se meterem nessa aventura.

Os dois mil suíços que partiram em julho de 1819 foram minguando. A primeira etapa, até a Holanda, onde foram instalados em um acampamento precário, em terreno pantanoso, acabou na morte de 43 dos emigrantes. Durante a travessia, que durou quase cinco meses, morreram mais 311 candidatos a colonos, ou seja - quase 20% dos suiços jamais viu o Morro Queimado.

Chegando ao Rio, as famílias foram acomodadas em um mosteiro no fundo da Baía de Guanabara. Dali partiram para uma viagem de dez dias serra acima (hoje o percurso se faz em duas horas). Em 18 de fevereiro de 1820, Nova Friburgo foi fundada. Os imigrantes foram distribuídos em cem casas de pedra. Tudo sem: sem assoalho, sem banheiro e sem cozinha. As janelas eram sem vidros.

Nos primeiros cinco meses na nova cidade, morreram mais 131 suíços. Quase um por dia.

Este não foi necessariamente o procedimento padrão das operações de colonização praticadas no Brasil, mas é um exemplo real e pioneiro. Marieta destrincha o desenvolvimento inicial da Friburgo brasileira, com destaque para uma família específica, dando cores vivas ao relato.

No terceiro capítulo, Rui Aniceto e Julianna Costa falam do período compreendido entre 1830 e 1880, quando estima-se que mais de 400 mil imigrantes chegaram ao Império. Durante meio século, a questão da imigração foi ora contestada, ora celebrada. Subordinada a interesses políticos e comerciais, a situação era conduzida sob o prisma oportunista de cada ocasião.

É no quarto capítulo, por Paulo Cesar Gonçalves, que se estuda o grande boom da imigração no Brasil (e no mundo), com o Brasil recebendo 17% da Grande Emigração italiana no período que vai de 1876 ao início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Coube à Argentina 25% desse fluxo e aos Estados Unidos quase 60%, ficando os EUA com 871 mil dos 1,6 milhão de italianos emigrados.

A diáspora portuguesa inverte estes números em favor da América do Sul. Um milhão de portugueses emigraram de 1876 a 1914 - e 80% deles vieram para o Brasil, ao passo que somente 16% escolheram os Estados Unidos. Não só o idioma fazia do Brasil a opção natural, como o Estado brasileiro sempre foi extremamente receptivo a receber os emigrantes lusitanos.

Gonçalves abastece o leitor de números absolutos e percentuais. E mostra o valor pago pelo governo brasileiro aos importadores de imigrantes. Curioso é que o Brasil se esforçou para reduzir a imigração italiana - na escala da subvenção estatal no fim do século XIX, o mais valorizado era o imigrante canadense, seguido pelos "europeu", aí pelo "ibérico" e, por último, o italiano.

Mantega, Bolsonaro, Toffoli e Vorcaro, entre outros, podem dar substância a essa subapreciação.

O quinto capítulo, escrito por Paula Ribeiro, se dedica à imigração urbana no entreguerras - uma imigração espontânea, diferente da arquitetada e financiada pelo Estado e pelo poder econômico. São fugitivos dos conflitos e da miséria, em um momento em que o Brasil recebia a predileção dos estrangeiros, pois EUA, Canadá e Argentina estavam no auge das políticas restritivas.

Sem dispor de subvenção (oferecida aos portugueses, alemães, espanhóis, italianos e japoneses), desembarcaram aqui - sem convite - sírios, libaneses, armênios e judeus. Atente que estes últimos logo seriam impedidos de emigrar para o Brasil, por força da política hostil do governo Vargas (que é justo o tema do sexto capítulo, assinado pelo renomado historiador Fábio Koifman).

Aqui posso dar alguns pitacos e oferecer meu próprio exemplo familiar.

Fruto ostensivo da feijoada étnica que é o brasileiro, nunca procurei rastrear minhas raízes maternas portuguesas. Os nomes dos meus avós baianos, inequivocamente lusos (Braga, Cardoso e Carvalho) não dão margem à dúvida. Há ainda um "Quintanilha", ostentado com orgulho por minha mãe, que me faz supor ancestrais galegos ou espanhóis.

Por serem mais recentes no país e plenas de perda e sofrimento, são minhas origens judaicas que mais me atraíram a atenção. É gente chegada quase agora, no século passado.

A partida rumo ao desconhecido, cumprida por milhares de judeus do Leste europeu, me instigava a curiosidade. Fui ao Arquivo Nacional (recomendo), onde localizei farta documentação sobre a vinda dos meus avós poloneses para o Brasil (reproduzo parte destes documentos na ilustração do post).

Meu avô, Izrael Puterman, chegou antes das leis de controle racial da imigração terem sido implantadas no país. Se já estivessem em vigor, ele certamente não teria sido admitido. Vindo de Varsóvia, de onde partiu em dezembro de 1929, desembarcou do navio Formosa no pier da Praça Mauá em janeiro de 1930.

Minha avó, Cyrla, née Rawicz, só veio para o Brasil dois anos depois, em julho de 1932. Casaram, no civil, no mês seguinte. As leis restritivas estavam em debate. Se já fossem vigentes, Cyrla poderia se valer do mecanismo das "cartas de chamada" para imigrar (as leis aprovadas permitiam o ingresso de parentes de estrangeiros já residentes no país, desde que assinassem as tais cartas).

A racionália da legislação proibitória acreditava - ou pelo menos dizia acreditar - que os judeus jamais se deixariam assimilar pelo povo brasileiro. Me soa mais a repetição de um estereótipo arcaico.

Posso provar o que digo com a história da minha família. Ela não vale nem mais nem menos do que as outras, mas é um exemplo real - e se deu de forma oposta ao que o fazedor das leis dizia temer.

Meus avós polacos tiveram um casal de filhos. Um deles, meu pai polonês (ruivo, judeu), que casou com uma brasileira morena católica, paranaense, filha de meus avós baianos (ele, Durval, de uma tez árabe, e ela, Leopoldina, cor de jambo). Meus pais, por sua vez, tiveram dois filhos, ambos cristãos, ambos formados, que, por sua vez, tiveram cinco filhos. Todos brasileiros, cristãos e formados.

Nenhum deles judeu. Porque, ao contrário do que supunha a lei, no Brasil a gente se mistura.

Mas é importante frisar que o disparate de que os descendentes de emigrantes judeus não se tornariam tão brasileiros como qualquer outro brasileiro se constituiu indiretamente na condenação à morte de centenas de milhares de fugitivos - impedidos de emigrar, e que acabaram capturados pelos nazistas. Foram perversa e covardemente assassinados.

Koifman vai além e detalha as minúcias de um aparato legal construído para arianizar a população brasileira. Não preciso dizer a você que o projeto de nos embranquecer foi um fracasso - basta você andar pelas ruas das principais capitais do país, noventa anos depois, e constatar.

Meio ridículo ainda que o desejo de consumo do ibérico e roliço Getúlio tivessem sido os nórdicos - louros, altos e de olhos azuis. Em vão. Os vikings não se interessaram em vir melhorar nossa raça.

O sétimo e último texto é assinado pelo organizador da obra, Luís Reznik, e trata do menos debatido viés da imigração - aquela que se deu após a Segunda Guerra Mundial. Embora inclua o fluxo alemão, Reznik não entra no mérito de quantos dos emigrados eram suspeitos de crimes de guerra.

Teria enriquecido o estudo se mencionasse que, entre os imigrantes que recebemos, estava Josef Mengele. O facínora foi médico nos campos nazistas de extermínio. Fazia experimentos bárbaros (sem viés científico, somente crueldade doentia) com bebês vivos. Foi um sádico torturador de crianças inocentes. Mengele viveu por anos no Brasil, arrogante, incólume e impune.

Morreu tomando banho de mar em Ubatuba.

Se, em seu "História da imigração no Brasil", Reznik não considerou destacar a porção criminosa de uma das nossas últimas ondas migratórias, fica aqui minha humilde contribuição.

FGV Editora, 253 páginas  |  Copyright 2020  |  1a reimpressão 2022

Obs.: Um emigrado não alemão, mas letão, e famoso criminoso nazista, foi Herberts Cukurs. Há dois livros sobre ele postados aqui no blog - "O homem dos pedalinhos", por Bruno Leal, e "O cisne e o aviador", por Heliete Vaitsman. Ambos valem a leitura. A propósito, Cukurs foi quem introduziu os pedalinhos na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. Denunciado, fugiu. Foi caçado e morto pelos judeus no Uruguai.