"Urupês", por Monteiro Lobato


Monteiro Lobato, um dos maiores escritores brasileiros, veja só, não queria escrever. Queria ser pintor. Foi advogado. Amuado, virou fazendeiro. Mas era sina. Acabou, graças a Deus, escritor.

Deixou de advogar porque herdara terras do avô, o Visconde de Tremembé (sim, é ele quem dá nome à cidade, que deu nome ao presídio, que deu nome ao livro e à série que falamos semanas atrás). Após investir tempo e dinheiro, a lida com a terra não prosperou; pelo contrário, lhe frustrou.

Foi à guisa de se queixar dos contratempos que enfrentara que publica, em novembro de 1914, no jornal "O Estado de São Paulo", o artigo "Velha Praga", indignado com as queimadas. Na verdade, o texto era uma carta, que o editor do jornal, por conta própria, promoveu a artigo.

Repercussão tremenda. Estimulado, escreveu outros textos. "A Hosteofagia", sobre a guerra que grassava na Europa, e "Urupês", ambos bem recebidos. O doutor escrevia bem. É convidado pela "Revista do Brasil" a publicar um dos seus contos, que foi "A vingança da peroba". Uma pancada.

A crítica positiva fez com que sua produção de contos engrenasse. Era um em cada edição do magazine. Porém, a despeito do seu sucesso pessoal como escritor, a Revista, que o publicava, ia de mal a pior. A fazenda também tropeçava. Eureca. Empreendedor nato, Lobato teve uma ideia.

Vendeu uma para comprar a outra. De escritor eventual, passou a dono da revista, onde era também o dono da gráfica e, se valendo disso, o dono da editora. Resolveu lançar no prelo a si mesmo.

Sua primeira edição seria justamente a reunião em livro dos contos que publicara. Dos quinze, selecionou dez. Escolheu o nome: "Dez mortes trágicas". Um colega achou ruim. Sugeriu que intitulasse a brochura com o nome de um dos contos. Dito e feito. Nem todo palpite é ruim.

"Urupês" foi um marco no mercado editorial do país. Até porque não havia mercado, de fato, e praticamente não tínhamos editoras. As livrarias eram escassas (trinta e poucas em todo o território nacional). A maioria dos livros que circulavam no Brasil eram impressos em Portugal. 

Urupês foi promovido também a nome da editora. Segundo Edgar Cavalheiro, um dos especialistas na obra de Lobato, o livro foi "um acontecimento sem precedentes na literatura brasileira". Oswald de Andrade, posteriormente, chamou a obra de o "marco zero" do movimento modernista.

Se o mercado era incipiente, Lobato o fomentou: rapidamente se esgotaram as três primeiras edições do livro. Todos queriam lê-lo. Um dos tipos do autor virara uma coqueluche: o "Jeca Tatu". Você certamente já ouviu falar. O personagem virou adjetivo.

Mas do que tratam esses contos de Monteiro Lobato, escritos há cento e dez anos?

Os temas são variados. Mas desbordam quase sempre para a estultice humana. Para a preguiça. Para a má índole. Para a dissimulação. Coisa ruim não tempo. Vem desde sempre. 

E Lobato não perdoa. É ácido com seus contemporâneos. Embora pertencentes a uma sociedade que não mais reconhecemos no espelho, somos nós mesmos, cinco ou seis gerações atrás.

E, mais do que meros causos, Monteiro Lobato fala do Brasil. Do brasileiro. Fica fácil entrever que o que fomos no passado, somos no presente. Basta apurar a vista.

E o ouvido, né. Como é um linguajar de um outro tempo, seus contos nos impõem uma abordagem cautelosa. Seu idioma antigo é, às vezes, uma estrada de barro, assim, cheia de poças e solavancos. Há que tolerar. Acostumar. Chegando lá, também, é aproveitar. Lamber os beiços.

Quem o conseguir fazer, vai viver algumas horas em um mundo que era outro: o país, as gentes, os ditados, os costumes. Por isso, ler a obra adulta de Lobato (que antecedeu sua produção infantil, sua derradeira obra) é mergulhar no túnel do tempo. E subir à tona no miolo do cafundó do Judas.

Vai encarar? Recomendo, mas prepare-se para o vocabulário autoral (mesmo para a época). O autor fazia gosto no linguajar mastigado do matuto. Lobato era devoto do jargão do capiau.

A coletânea abre com "Faroleiros". Um sujeito suborna os responsáveis para que permitam que passe uns dias no farol, construção que, à distância, sempre lhe seduzira. Aquela luz, bruxuleante, isolada no mar. O curioso, que foi para contemplar a solidão, termina cúmplice de um crime.

Depois ele vem com um mais ingênuo. Que nada mais é do que a velha história de Pedro e o lobo. E o terceiro conto, a "Colcha de retalhos" dói a dor que todo mundo um dia temeu sofrer.

O quarto deles, "A vingança da peroba", é ímpar. É um tratado antropológico, ao reproduzir o cotidiano das famílias que faziam suas roças na mata brava. É quase uma escavação, ao resgatar expressões perdidas no tempo. É um recorte da lida rural, ao detalhar a produção do monjolo.

O conto do estafeta é ironia dolorosa, ao expor como a política de hoje permanece a pobre política de outrora. Ela está toda lá, no "fósforo" (hoje "cabo eleitoral") Biriba, na demissão dos apadrinhados e no emprego dos agregados, na exploração do idiota pelo esperto de sempre. Ê Brasil.

Há um, curtinho, onde em um tal crime, que tem um suspeito óbvio, deixa-se o famigerado suspeito - um italiano de maus bofes - fugir, para bem mais tarde prendê-lo; para, na confissão tardia de um outro sacripanta, descobrir-se que o suposto criminoso não tinha nada a ver com as calças.

Um outro, "Pollice verso", remete à vocação médica ancestral. Conta de Inacinho, que desde moleque o pai acreditava que era fadado à medicina. Acertou. O garoto saiu do Vale do Paraíba para estudar na capital. Formado, voltou para clinicar em Itaoca. Ficou lá por pouco tempo. 

Seu único paciente foi o major Mendanha, "capitalista aposentado com trezentas apólices federais, o Rockefeller de Itaoca". O major sentiu uma "canseira" e resolveu se consultar. Mas desfazia de todos os doutores da cidade. Ocorreu a ele o nome do novo médico, o Inacinho. A esposa chiou.

"É moço bonito, que o que quer é dinheiro e pândega, você não vê?" Mendanha não viu. "Qual!... emberrinchou o teimoso. Sempre há de saber um pouco mais que os velhos", retrucou o major.

Não era só a mulher do Mendanha que não via Inacinho com bons olhos. "Uma bestinha! dizia um", cochicha o autor. "Eu fico pasmado mas é de saírem da Faculdade cavalgaduras daquele porte! É médico no diploma, na barbicha e no anel no dedo. Fora d'aí, que cavalo!"

Pois foi Inacinho que Mendanha escolheu. O doutor auscultou o paciente e vaticinou: "É uma pericardite aguda agravada por uma flegmasia hepático-renal". Afirmou que "era grave, mas não era", pois, ao chamar a ele, Inacinho, ao invés de "um desses matassanos que por aí rabulejam", o resultado seria diferente. "Tive no Rio numerosos casos mais graves e a nenhum perdi", gabou-se.

Deu o diagnóstico e o prazo de melhora. Em um mês Mendanha estaria completamente são.

Mas não foi o que se deu. A "canseira" evoluiu. "O velho peorou com a medicação. Injeções hipodérmicas, cápsulas, pílulas, poções, não houve terapêutica que se não experimentasse desastrosamente". Inacinho reconheceu: "É mais grave do que eu supunha".

Havia, porém, algo mais grave. Uma praxe que eu desconhecia em absoluto - e que continuo com o pé atrás - era a dos médicos se fazerem herdeiros dos clientes. Com isso, diz Lobato, "serviços pagos com casos de cura aí com centenas de mil réis, em caso de morte reputavam-se em contos". 

Ou seja - o paciente morrer era mais negócio. Onde já se viu.

"Se os interessados relutavam no pagamento, a questão subia aos tribunais, com base no arbitramento. Os árbitros, mestres do mesmo ofício, sustentavam o pedido por coleguismo", revela.

(Por falar em coleguismo, nesse mês de janeiro corre por aí que um ministro do Supremo tem negócios camuflados na hotelaria, com testa-de-ferro e tudo o mais que caracteriza as falcatruas; aflitos, seus colegas do STF já cuidaram de lhe defender. Normal. O causo que conto se passou há 110 anos? Pode ser. Por aqui, porém, continua tudo como dantes no quartel de Abrantes...)

Mas me perdi. Inacinho é que não, embora tenha perdido o paciente, o major. O doutor "herdou" os tais trinta contos e eu estraguei o conto, porque contei tudo, de cabo a rabo.

Em tempo: fui pesquisar. "Pollice verso" é o célebre gesto dos imperadores romanos no Coliseu, virando o polegar para baixo e decidindo pela vida - no caso, morte - dos gladiadores.

Há contos que são uma cacetada na moleira. Nos é comum pensar que a natureza sórdida, sensual e rapace do ser humano é mais propensa a vicejar nas grandes cidades modernas. O "Mata-pau" prova que esse desgosto se dá no rincão mais caipira. E mais não digo.

E dá-lhe gente má. Em "Bucólica", fala do "sítio de Maria Véva. Tem ruim fama essa mulher papuda". Já no "Bocatorta" o autor nos traz o Quasímodo do sertão, um negro disforme que a terra chupou.

Aprendi muito com o livro. Vim a saber em "O estigma" da face noruega do sítio de Fausto, encontrado depois que o autor opta pelo caminho errado. Para Lobato, entretanto, o desvio é a estrada principal. E, conto a conto, o que era folclórico e embolorado ganha viço e pertinência. 

Tolere a velharia dos dizeres antigos e dos preconceitos de outrora. Tempos d'antanho, onde se dizia "do fígado para o rim", "veiu pegar água a este cor'go" e onde o Nunes enchia a cara de tanta filha mulher que o destino lhe dera, "um rosário de oito mariquinhas de saia comprida".

O escritor, hoje "cancelável" (um perfeito sinal dos tempos), diz que "tanta mulher em casa amargava o ânimo do Nunes, que nos dias de cachaça ameaçava afogá-las na lagoa como se fossem uma ninhada de gatos".

À vontade para criar neologismos, diz da eleição que "o primeiro ato do vencedor foi correr a vassoura do Olho da Rua em tudo quanto era olhodarruável em matéria de funcionalismo público".

Ou, como em "Urupês", fala do jecocentrismo. A propósito, este, que é o conto final, foi adicionado somente em edições posteriores, juntamente com "Velha Praga" - conto que não é conto, e sim a carta que o fazendeiro Lobato enviou à seção de queixas do jornal da capital, como disse acima.

Quem tomou a decisão de adicioná-lo foi o próprio autor, que, a propósito, explica que mandou a carta por se sentir impotente contra os invasores de terras, que metiam fogo na mata para plantar um litro de milho - que, como consequência da queimada, calcinava dezenas de alqueires.

Pôr para fora os invasores era tarefa ingrata, pois era gente que "votava com o governo". Assim, Lobato admite no livro - falando de si mesmo em terceira pessoa - que o que lhe restou foi reclamar.

"Impossibilitado de agir contra eles por meio da justiça o pobre fazendeiro limitou-se a tocar alguns que eram seus agregados e... a 'vir pela imprensa'. Escreveu e mandou para as "Queixas e Reclamações" d'O Estado se S. Paulo a tal catilinária mãe dos Urupês", confessa.

Foi daí que nasceu o livro e, mais, que nasceu o escritor. 

"Esse jornal, publicando-a fora da seção de queixas, estimulou o fazendeiro a reincidir. Reincidiu", relata. " E quando deu acordo de si, virara o que os noticiários gravemente chamam 'um homem de letras". Ou seja: a queimada dos caboclos deu à nação um dos seus maiores escritores.

(Que, diga-se, recusou o convite para se tornar "imortal" da Academia Brasileira de Letras.)

O caboclo, o jeca tatu, é seu ponto de partida. O tipo rústico era então louvado pela cultura nacional. O indianismo provocado pelo nobre Peri de "Iracema" fora substituído pelo culto ao caboclo, agora um "atributo da raça". Já Lobato - vítima - denunciava ali a modorra do jeca.

"O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado", alerta. "Crismou-se de 'caboclismo", criticava. "O caboclo é o 'Ai Jesus!' nacional", ironiza. Transferiram-se as virtudes idealizadas do tipo indígena para o roceiro genuíno. Talvez o popular "Rancho fundo" lhe seja uma louvação.

"O substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio, em suma, sem faltar uma azeitona, dos Peris e dos Ubirajaras". Mas Lobato conhece bem o caboclo. É seu vizinho, seu agregado, antagonista cotidiano.

Vende nas feiras aquilo que encontra no caminho. "Seu grande cuidado", diz, é seguir "a lei do menor esforço - e nisto vai longe". Sua casa não tem estética, nem móveis. Senta nos próprios calcanhares. "Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas", acrescentando que "três pernas permitem equilíbrio; inútil, portanto, meter a quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão".

Conta como a mandioca é o pão do caboclo, que não requer preparo ou trabalho. "É um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas". Eu, que nem sabia como se planta aquilo que por aqui chamamos de aipim, soube que "o plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha".

Nos conta também da medicina do caboclo. Da cura para a bronquite à simpatia para o parto difícil.

"Para bronquite", diz, "é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo; o mal se vai com o peixe água abaixo". E, num parto difícil, "nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu". Se esta última não funcionar, basta "colar no ventre encruado a imagem de São Benedito". Parece que aí é tiro e queda.

Não tenho estatísticas sobre os resultados. Quem quiser que experimente.

Perceba que não é só aos caboclos que o escritor pega no pé. Ele não alivia também os seus colegas de sina. Em "O comprador de fazendas", Lobato já inicia descrevendo as desditas de uma tal fazenda e de um tal fazendeiro. Imaginei o quanto não teria posto aí a sua mal-sucedida experiência.

"Os cafezais em vara, ano sim ano não batidos de pedra ou esturrados de geada, nunca deram de si colheita de entupir tulha", descreve o autor, ex-fazendeiro, condição na qual, como já revelei, foi um fracasso. " Os pastos ensapezados, enguanxumados, ensamambaiados nos topes, eram acampamentos de cupins com entremeios de macegas mortiças, formigantes de carrapatos". 

"Boi entrado ali punha-se logo de costelas à mostra, encaroçado de bernes" - parece que Lobato vai desfiar, no texto, tudo que purgou, na terra.

Mas qual. Um escritor de contos é um contador de estórias. Não se lamenta; nos diverte. O Moreira, dono da fazenda pindaíba, pai do pulha Zico e da Zilda, filha casadoira, finalmente tem chance de passar o encosto à frente, quando lhe aparece o Trancoso. E não avanço, para não dar spoiler.

(Talvez eu esteja sendo otimista demais achando que mais alguém, em 2026, vai correr a ler uma dúzia de contos publicados em 1918; mas eu sou otimista de nascença.)

Eu vou ler outros. Muitos mais. Porque a leitura da obra de Monteiro Lobato é boa e me enche de lembranças. É impossível ler seu texto, mesmo que sem o sotaque da obra infantil, e não reconhecer a toada que me encantou e fez companhia na meninice - e me deixaram apaixonado.

Seus livros foram o meu melhor amigo aos oito anos - e olha que eu não parava quieto, sumia tardes inteiras Teresópolis afora, vadiando, correndo, aprontando, jogando gude, bola ou pião. Só sossegava com um livro na mão. Mãezinha que o diga.

Mas a sua obra completa, reunindo livros, contos, artigos, correspondências, foi herança do meu tio Felipe Mayer, gaúcho de bombacha e chimarrão, invariavelmente com um cigarro de palha entre os dedos. As paredes da sua casa, todas tomadas por prosaicas prateleiras de ferro e milhares de livros, me fascinavam (herdei dele também o gosto pelo suco de tomate, vá entender).

Este "Urupês" é o Tomo Um da coleção de treze volumes, vendida ao tio em 18 de dezembro de 1957, por Cr$ 3.460,00 cruzeiros, como revela a nota fiscal 28.868. Venho guardando, em usufruto, centenas dos seus livros, há meio século. Com eles vieram suas anotações, via de regra veementes.

Ler os livros que ele me deixou me formaram como leitor. Nunca tive a letra caprichada como a que o tio fazia suas anotações às margens; mas eu também passei a garranchar meus comentários. Com sua caligrafia poderosa, ele escrevia com caneta-tinteiro; desvirtuoso, eu até hoje anoto à lápis. 

Provável que estas escrivinhações me tenham estimulado a escrever sobre os livros; são ambas, as anotações e os comentários, uma forma de estreitar meu relacionamento com a obra impressa. Mais que amigos, somos amantes. Elas me dão conhecimento, eu dou a elas minha devoção.

Ao redor de Lobato estão muitos dos amores que me formaram. Meu avô José, nascido Izrael na distante Warszawa, que me deu os dezessete volumes da coleção infantil. Meu tio Felipe, o grande leitor que conheci, que me legou os treze volumes da coleção adulta. O escritor José Bento Monteiro Lobato, que, com seu caráter e talento, tatuou na minha pele a paixão pela leitura. 

Semanas atrás visitei o sítio da infância do escritor em Taubaté. O lugar passou para a história com o nome de "Sítio do Picapau Amarelo". Lógico que me emocionei. Mexido, iniciei ali mesmo a leitura de "Urupês". Pois é. Na hora nem me ocorreu, mas já era uma boa pedida para ser o post #500 do blog.

Editora Braziliense, 300 páginas  |   8a edição  |  1956

Foto: Ana Puterman

"Tremembé", por Ullisses Campbell


O autor hoje é figurinha carimbada na mídia. Presença recorrente em dezenas de podcasts que pululam no YouTube. Não à toa. É articulado, bem-apessoado, falante. Não se engane. Ullisses Campbell, com seus quatro "l", mescla fala macia com palavras duras.

Seus livros vendem aos borbotões. Tem até embalagem box, luxuosa, com o título "Mulheres assassinas" (Matsunaga, Flordelis e Richthofen, um trio matador), com 1.088 páginas. Na Amazon, a caixa está por R$ 142,00 (já com 45% de desconto) e a distribuidora entrega amanhã. 

No Prime Vídeo, Campbell faz sucesso com a série "Tremembé". Em uma produção caprichada, o elenco - selecionado buscando alta similaridade física com os condenados - oferece xaroposos dramas românticos ao telespectador. Homossexualismo a dar com o pau e carradas de ciúme.

O livro homônimo traz a essência do escritor. À Talese, coloca o leitor dentro da cena, oferecendo uma cornucópia de detalhes. Mesmo com objetivos comerciais, não lhe faltam esmero e arte. Obviamente o livro é um apanhadão. Se nos anteriores ele dedicava centenas de páginas a uma única criminosa, este "Tremembé" é uma van que vai e volta, cada hora com uma cambada diferente.

As estórias são mais curtas e os crimes ainda mais horripilantes. De vomitar.

Mas não menospreze o conteúdo. Como já disse outras vezes, Ullisses Campbell é mestre no ofício. Repórter, biógrafo, roteirista, é craque no texto e no timing; seus livros são obras técnicas de engenharia, com cada ripa e cada parafuso encaixados no lugar correto.

Em respeito aos seus leitores fiéis, Ullisses revisita de forma resumida a história das criminosas que já biografou. Richthofen, por exemplo, mal tem seu crime esmiuçado (todo mundo já sabe, né). Acompanhamos a fútil rotina da matricida, incluindo seus envolvimentos amorosos na faculdade.

Sagaz, o autor abre e fecha o livro sobre os encarcerados em Tremembé com duas estórias inusitadas e que, imagino, sejam desconhecidas da quase totalidade dos leitores. 

A primeira delas é a da Madre Maurina. É a única das narrativas a voltar décadas no tempo. E, juntamente com a estória que fecha a obra, ela e Matheus são os únicos já mortos. 

O capítulo de abertura é um tributo à coragem e à retidão da religiosa. Presa no interior de São Paulo no início da ditadura militar, foi torturada por meses. Negou até o fim da vida que houvesse sido estuprada. Mas, mesmo depois de solta, a Igreja a manteve no limbo, por considerá-la impura.

Madre Maurina comeu o pão que o diabo amassou, mas não dedurou ninguém. E, segundo o autor, ela sequer era uma subversiva. Apenas permitiu que estudantes (ligados a células terroristas) utilizassem uma das salas da instituição religiosa que dirigia, para estudos teológicos.

Bem, isso é o que eles alegavam. Na prática, imprimiam jornalecos e panfletos contra o governo militar e tramavam sequestros. Foram presos, a madre também, e os meganhas do porão fizeram toda a sorte de maldades contra a mulher inabalável, da estirpe de uma Agnès Humbert.

Nada adiantou. Foi trancada em Tremembé. Anos depois, acabou inocentada.

A partir daí, vem uma sucessão maldita de criminosos repulsivos e sem caráter, que mataram de forma covarde pessoas da própria família, que, paradoxalmente, os amavam: filhos, pais, etc.

Mãe que contrata selvagens para matar o filho gay a pauladas dentro da própria casa ou filha que contrata selvagens para matar os pais e o irmão, para roubar o carro e algum dinheiro. Mãe que prostitui a filha. Filho que simula assalto para matar o pai, como fez Gil Rugai.

O estuprador serial Roger Abdelmassih, que resenhei aqui há alguns anos (como o fiz também com outros facínoras condenados), permanece fazendo das suas na cadeia, simulando debilidades e alegando consentimento das mulheres que dopava, estuprava e engravidava.

Campbell publica um verdadeiro almanaque de gente da pior laia. Já virou best-seller.

O subtítulo, "o presídio dos famosos", ajuda a vender. Além das celebridades Richthofen, que mandou esmigalhar a cabeça dos pais, Pimenta Neves, que matou pelas costas a ex-namorada, e Matsunaga, que picou o marido em pedaços, estão lá o craque Robinho (condenado por relação sexual não consentida com uma albanesa em uma boate italiana), rei das pedaladas, e o herdeiro pernambucano Thiago Vieira, que tatuava as suas iniciais no corpo das mulheres que estuprava.

Todos viviam bem em Tremembé. Os dois últimos, certamente entre os mais ricos da prisão, compravam a vassalagem dos presos pobres. Rivais em prestígio, nenhum dos dois está mais lá.

Matéria publicada no portal da CNN de ontem, 13 de janeiro de 2026, atualizada às 8h05, afirma que ambos foram transferidos "porque a ideia é 'pulverizar' os presos em outras penitenciárias para que não haja mais um espaço batizado de 'presídio dos famosos' como Tremembé".

Será que o filão vai secar? Não creio. Ullisses Campbell está fadado ao sucesso. Seus editores sabem disso. Um splash na capa da primeira edição avisa: "O livro que deu origem à série. Vol. 1".

Vem mais por aí. O que não falta é criminoso. Campbell não deixará a história deles escapar.

Editora Matrix, 376 páginas  |   1a edição   |   2025

"A batalha do Avaí", por Lilia Schwarcz


É comum dizermos que a história "é escrita pelos vencedores". Não só, mas também. Quer um exemplo? O Paraguai perdeu a guerra, mas conta essa história segundo a sua própria conveniência. 

(Lembrando que até o nome da guerra requer perspectiva. No Brasil ela atende pelo nome do oponente - a "guerra do Paraguai". Em Assunção eles se referem aos seus três algozes juntos. Nos bancos escolares paraguaios, as crianças chamam-na "la guerra de la Triple Alianza".)

Se hoje o confronto é contado por uma multiplicidade de plataformas, no passado os meios se restringiam aos livros e às pinturas. Os quadros, mormente os de dimensões monumentais, eram o canal predileto dos governos - pois resumiam a narrativa a uma única cena grandiosa. O pintor reproduzia o momento (congelado e maquiado) que interessava ao governante e fim de papo.

Pronta, a obra era exibida publicamente, com festa, e depois iria decorar alguma parede palaciana.

Importante era ser encomendada ao cara certo. Vindo com a grife adequada, já era garantia de aprovação prévia. Nesse sentido, em termos de pintura histórica, dois nomes monopolizavam o mercado de grandes encomendas: o catarinense Victor Meirelles e o paraibano Pedro Américo.

Victor Meirelles foi o autor de "A primeira missa no Brasil", "Combate Naval do Riachuelo", "Passagem de Humaitá" (ambas da Guerra do Paraguai) e "Batalha dos Guararapes".

Pedro Américo foi o autor de "Fala do Trono", "O Grito do Ipiranga", "Chaco", "Batalha de Campo Grande" e "A batalha do Avaí" (as três últimas sobre a Guerra do Paraguai).

Curioso é que Américo fechou contrato para pintar a batalha dos Guararapes, ocorrida duzentos anos antes, e resolveu por conta própria pintar a batalha do Avaí, que tinha "acabado" de acontecer.

Aí a encomenda sobrou pro Meirelles, que fez a pintura do confronto com os holandeses. Prontas praticamente ao mesmo tempo, as telas foram expostas ao público lado a lado. Choveram críticas.

Caxias ficou estressado. Américo o retratou em posição de destaque, mas desabotoado. O duque achou um acinte a representação. Alegou que nunca estivera descomposto em batalha.

Houve também quem criticasse a representação do general Osorio, apartado do comando, em meio à soldadesca. Zoaram que ele era o comandante "de si mesmo". 

Não foram estes os únicos comentários negativos. Muitos chamaram Américo de empreiteiro de pintores (acusavam-no de ter posto onze diferentes artistas para executar o quadro) e, pior, de plagiário. Julgue você mesmo. Schwarcz, a autora do livro sobre a obra, exibe as pinturas, de outros autores famosos, dos quais Pedro Américo havia surrupiado as cenas.

A área nobre de "A batalha do Avaí" exibe o Duque de Caxias, montado a cavalo, em um promontório iluminado, ao lado de outros dois oficiais. Confira no livro uma representação idêntica na obra de Gustave Doré em seu "Bataille de Montebello", uma litografia de 1859.

O que mais denuncia a cópia é que os três cavalos estão em posição corporal absolutamente idêntica, assim como seus três cavaleiros. A única sutil diferença é que um deles segura um binóculo. Aos olhos de hoje, seria uma tremenda cara-de-pau. À época, provável que Américo apostasse que ninguém jamais iria constatar a "coincidência".

Que não se restringiu a essa, vale frisar. Se a representação de um dos dois grandes personagens da guerra - Caxias - foi copiada de um outro autor, o outro personagem de destaque, Osorio, também teve sua postura plagiada de uma outra obra.

Paul Delaroche, em seu "Charlemagne traversant les alpes", um óleo sobre tela datado de 1847, exibe o francês em posição semelhante à escolhida por Américo para representar Osorio. O plágio, neste caso, não é tão evidente. Schwarcz presenteia o leitor, permitindo a comparação entre as duas obras.

Antes de vir para o Brasil, a pintura foi vista, ainda na Europa, por Pedro II. Ou seja, já desembarcou por aqui com o selo da aprovação imperial. O quadro foi pintado na Itália, de 1872 a 1877. 

A historiadora Lilia Schwarcz disseca o quadro e o contexto do período. Seu estudo analisa diligentemente o momento político e os poderes envolvidos - o Império, o Senado e o Exército. 

Traz também a ironia dos cartunistas brasileiros sobre a celeuma entre os quadros de Américo e Meirelles. Mostra a divertida caricatura de Angelo Agostini, publicada na Illustrada, em 1879, onde os personagens da sangrenta e caótica pintura d' "A batalha do Avaí" invadem a pintura mais estática e (me pareceu) conspiratória de "Batalha dos Guararapes". 

Voltando à questão inicial, de que cada país é dono da sua própria história e a chancela como lhe agrada, o livro exibe também o óleo sobre tela "Batalla do Abay" (isso mesmo, com "b"), atualmente exposto no Museo Nacional de Bellas Artes do Paraguay.

Na tela paraguaia (sem data e autor), ao contrário do massacre das forças imperiais, em um dia tempestuoso, sobre um exército acuado e seminu, temos uma refrega mais contida, onde, em um dia ensolarado e verdejante, um bem composto exército paraguaio encurrala as tropas brasileiras, com direito a um mastro da bandeira paraguaia enfiado em uma garganta imperial.

Cada um conta a história como lhe apraz. Aí você tem que ler, para depurar o que realmente sucedeu...

Graficamente, o livro é espetacular. Com capa dura e sobrecapa em couchê (mesmo papel e gramatura do miolo), a obra de Schwarcz reproduz dezenas de obras do período. E, o principal, o quadro que é motivo do livro é desdobrado em uma página tripla, com 37,5cm de altura e generosos 79cm de largura (além da ampliação de cenas específicas e substanciosas).

A edição, pena, não está mais disponível nos principais sites livreiros. Mas exemplares usados são encontrados, na Amazon e no Estante Virtual, a partir de R$ 89,00. Uma pechincha. 

Editora Sextante, 172 páginas   |   1a edição,  2013



"General Osorio", por Francisco Doratioto


Aposto que você não sabe patavinas sobre o General Osorio. Morto, o general não passa de um endereço: praça, rua, avenida etc. Vivo, ele, além de general, foi o Marechal Osorio, o Senador Osorio e o Marquês de Herval - uma vasta série de títulos, empoeirados, de um passado remoto.

Não conheço ninguém que saiba que esse cara foi o tal. Na boa, quem quer saber? 

Devíamos. Porque houve certos momentos na História do Brasil em que um sujeito, sozinho, fez diferença. É o caso dele. Osorio (isso mesmo, sem acento) foi para o Brasil, na Guerra do Paraguai, o que Garrincha foi para a Seleção nas Copas de 1958 e 1962. Era Osorio quem matava no peito, gingava, ia pra dentro do adversário e conquistava as vitórias.

Sem Mané dificilmente o Brasil teria conquistado as duas Copas. Nesse meu paralelo maluco, poderíamos dizer que Osorio foi o grande craque da guerra. Mesmo que, nas batalhas finais, estivesse sem conseguir andar, montar ou comer - já que sua mandíbula foi estourada por um petardo guarani - e que se resumisse a um espantalho pendurado à frente das tropas.

Para sabermos disso, dou todo o crédito à Francisco Doratioto. O autor, que já havia dissecado a Guerra do Paraguai, aproveitou o material obtido com as pesquisas que fez em seu seminal "Maldita Guerra", para escrever a biografia do maior protagonista brasileiro do confronto.

O historiador relata a origem humilde do gaúcho Manoel Luís Osorio e sua entrada para o exército com apenas 14 anos, em um cerco a Montevidéu (besteira pouca, cercar uruguaio). Na verdade, ele sequer queria ser militar - foi por forçação de barra do pai, o Major Osorio, um ex-peão de fazenda que ascendeu no Exército Imperial, força que era uma mistura de gringos e portugueses.

Nesta e em seguidas circunstâncias o garoto se viu em meio ao tiroteio. Osorio foi literalmente forjado no fogo, na fronteira mais incandescente do país, na divisa do Rio Grande com o Uruguai.

Doratioto então nos oferece um painel sintético da política sul-americana do período, com destaque para o Rio Grande e seus vizinhos hispânicos, sempre em ebulição (seja nas disputas intestinas, seja no acima referido confronto com os rivais fronteiriços).

Fala também da política imperial: afinal de contas, Osorio nasceu no Brasil Colônia, em 10 de maio de 1810, e se alistou para defender um Brasil recém-independente, com vínculos ainda umbelicais com Portugal e com um Imperador que logo iria abandonar o país.

Osorio tomou parte na Guerra Cisplatina - na qual a ex-Província Cisplatina brasileira se tornou um país estrangeiro soberano, o Uruguai - e também na longa revolução civil gaúcha que foi a Revolução Farroupilha, onde lutou contra os rebelados (na maioria, seus próprios ex-companheiros do confronto anterior com os uruguaios).

Um sinal de como era tudo embaralhado naqueles rincões, Osorio, assim que pôde, juntou um pecúlio, que usou para comprar uma estância... no Uruguai! Ou seja, ele era um gaúcho que defendia o Império dos farroupilhas, que lutavam pelo separatismo; era um militar brasileiro, volta e meia peleando contra militares e bandidos uruguaios; mas era também um estancieiro uruguaio.

Voltando à sua adolescência, Osorio saiu da guerra contra os uruguaios promovido a tenente, com meros 17 anos. O soldo, porém, era baixo, e não dava para ter uma vida estável com o dinheiro pago pelo Império. Por isso, até o fim da vida, nunca quis que seus filhos entrassem para o Exército.

O roubo de gado era uma constante na região. Perseguindo bandidos, Osorio matou alguns deles no lado uruguaio, o que lhe valeu uma cana de onze meses. O pior é que caiu em desgraça e demorou mais de dez anos para conseguir uma nova promoção nas forças armadas.

É durante a Revolução Farroupilha que Osorio mais se destaca, defendendo a monarquia e a integridade do território brasileiro (que Bento Gonçalves, cercando Porto Alegre, e Seiva Netto teimam em dividir, proclamando a República Rio Grandense).

Osorio, na verdade, a princípio entrou nessa briga ao lado dos farroupilhas. Bento Gonçalves fora seu superior. Mas sua adesão era mais por ver a província mal administrada, e não por ser republicano. 

Seu pai, monarquista, ficou possesso. Escreveu para o filho, alertando-o que lutariam um contra o outro. Tudo somado, filho leal, bom cidadão, Osorio mudou de lado - ou permaneceu onde estivera antes, uma espada a serviço do Imperador.

Sua atuação no conflito foi decisiva para cair nas graças de Caxias e do governo imperial. A partir daí, as promoções se sucederam. Foi a capitão (antes pediu reforma do Exército, o que não foi aceito), depois a major e a tenente-coronel. O Imperador, grato, faz dele Cavaleiro da Ordem.

Seu prestígio cresce. Tanto que, quando D. Pedro II e Teresa Cristina visitam o Rio Grande do Sul, onde ficaram por cinco meses, coube a Osorio a missão de guarda-costas do casal.

Suas funções se diversificam. Com ótimo trânsito entre os países vizinhos, é designado para missão de "espionagem" em Corrientes e Entre Rios. Recebe 700 contos de réis para subsidiar sua viagem. Faz o serviço e devolve 503 contos de réis à Coroa. Pois é. Osorio era diferente.

Osorio se torna mais útil e relevante com o acirramento das guerras platinas. Os principais caudilhos da época - Rosas, Urquiza e Uribe - disputam o controle de Uruguai e Argentina. O Brasil, parte interessada no conflito, se une aos uruguaios, correntinos e entrerrienses e derrota Rosas na Batalha de Monte Caseros. Osorio entra marchando em Buenos Aires e é promovido a coronel.

Alguns anos depois, após umas picuinhas políticas, Osorio é alçado a "Brigadeiro", o equivalente hoje ao "General". O contexto platino mudara (outra vez). A Argentina, pouco tempo antes adversária, era agora aliada - coisa rara entre brasileiros e argentinos, mesmo naquela época.

O Uruguai, dois parágrafos atrás aliado, era agora adversário - ou vítima, como queiram. O governo de Aguirre fazia ouvidos surdos aos protestos dos latifundiários brasileiros com terras no país, que vinham sofrendo roubos e violências. O Império resolveu proteger os brasileiros, e estacionou uma esquadra, sob o comando do almirante Tamandaré, em frente ao porto de Montevidéu.

O Paraguai estrilou. Seu caudilho, Solano Lopéz, reagiu ao cerco, declarando apoio ao governo blanco uruguaio. Aprisionou o navio mercante brasileiro Marquês de Olinda, que navegava próximo a Assunção, e ameaçou mandar seu exército à guerra (para que se tenha uma dimensão, as forças militares paraguaias dispunham de 77 mil homens, contra 18 mil de todo o exército brasileiro).

O Brasil ignorou Lopéz e apoiou a rebelião do colorado Venâncio Flores (seu ex-adversário na Guerra Cisplatina de 1825). Sob as ordens do Ministro da Guerra, Visconde de Beaurepaire-Rohan (quem?), Osorio assume o comando da 1a Divisão, invade o Uruguai e toma Paysandú, em dezembro de 1864.

(Parênteses. Tive que ir fuçar para saber quem foi esse tal de Beaurepaire-Rohan, do qual eu jamais tinha ouvido falar. Seu pai, Jacques Antoine Marc, foi um marechal-de-campo do exército francês perseguido por Napoleão, que fugiu para Portugal e veio para o Brasil com D. João VI, naquela mesma leva que trouxe os Taunay e os D'Escragnolle do meu amigo Dionísio. Fecha parentêses.)

O bagulho estava tão sinistro que, por precaução, Osorio, antes de invadir o Uruguai, mandou a esposa e os filhos saírem de Jaguarão e se refugiarem em Pelotas. Foi previdente. Os blancos uruguaios, com 1.500 soldados, efetivamente invadiram e saquearam a cidade brasileira.

A ausência de defesa nas fronteiras, naquele tempo, era uma festa.

Enquanto isso, Montevidéu estava sob sítio da esquadra brasileira, e Osorio marchou de Paysandú à capital uruguaia para fazer sua parte no cerco. O Império era arame liso: cercava, mas não machucava. Já Lopéz pagou para ver. Sob o pretexto de prestar solidariedade ao Uruguai, os paraguaios invadem o Mato Grosso, tomam o Forte Coimbra e saqueiam Corumbá.

Tinha sido dado o pontapé inicial na "Guerra do Paraguai". 

Ele não contava é que, naquele mês, com as eleições no Uruguai, o governo blanco seria substituído por um governo colorado. Viva a democracia. Saiu Aguirre e assumiu Villalba, que assinou um protocolo de paz com brasileiros e argentinos, evitando que o cerco redundasse em mortes desnecessárias de ambos os lados. Bom, né? que nada.

O imbroglio político era tal, que Paranhos, o diplomata brasileiro que fora enviado em substituição ao Conselheiro Saraiva, justamente para costurar uma saída diplomática para o impasse no Uruguai (e que assinou a paz), foi espezinhado e demitido pelo governo imperial. A questão era que a "honra brasileira" tinha sido ultrajada, com a nossa bandeira arrastada pelas ruas de Montevidéu, e que o tratado de paz não previa a punição dos autores. Sem comentários.

Osorio era agora o comandante do Exército brasileiro no Uruguai, substituindo seu desafeto Menna Barreto, que pedira para ser exonerado. A força, que contava com dez mil homens, logo subira para treze mil, mas a qualidade da tropa era "sofrível", com os cavalos em estado de miséria.

A situação era mais crítica ainda, porque tudo indicava que o Exército de Solano Lopéz estava a postos para invadir o Brasil, nas cercanias de São Borja, e o Exército brasileiro estava todo no Uruguai. Osorio escreveu ao ministro da Guerra, o Beaurepaire, alertando para o fato e pedindo providências.

Você fez alguma coisa? Pois é, o ministro da Guerra também não.

Antes de invadir o Brasil, Lopéz ocupou a cidade argentina de Corrientes, com um Exército de 22.000 paraguaios. Osorio foi a Buenos Aires, onde se reuniu com Bartolomeu Mitre, e depois, secretamente, com Urquiza, que não queria se comprometer contra os paraguaios. Depois que Osorio fez de Urquiza fornecedor exclusivo de cavalos para o Exército imperial, o uruguaio garantiu apoio.

(Foram milhares de cavalos comprados, por valor inflacionado, sem possibilidade de uso pelas forças brasileiras. Mas acabou com o estoque de cavalos argentinos à disposição dos paraguaios.)

Diante da agressão paraguaia, Brasil, Argentina e Uruguai assinaram o acordo da Tríplice Aliança, em 1o de maio de 1865. A sorte de Lopéz foi selada ali. Haveria dezenas de batalhas até que o paraguaio fosse enviado para o outro mundo, mas o conjunto de forças que pesariam contra ele era insuperável.

Em detrimento de Caxias, Osorio foi nomeado Comandante Efetivo do Exército Brasileiro na guerra contra o Paraguai. A indicação foi contestada, porque ele não possuía base acadêmica, nem grande lustro estratégico. Mas ninguém conhecia mais do que ele o combate, a região e o povo local.

Osorio era o cara certo, no lugar certo e na hora certa.

Coube a ele organizar o 1o Corpo do Exército, em boa parte formado por civis. Partindo de Salto, no Uruguai, "marchou quinhentos quilômetros pelo interior argentino até a fronteira com o Paraguai", explana Doratioto, que considerou o avanço "uma verdadeira epopeia feita por milhares de homens, cavalos, carroças com suprimentos e pesados armamentos puxados por animais em terreno sem estradas, cruzando pântanos, rios e riachos que não dispunham de pontes, durante o rigoroso inverno da região".

Em dias de grandes jogos no Maracanã, as ruas ao redor do estádio são interditadas. Uma das soluções para quem vem da Tijuca em direção ao Centro e Zona Sul é pegar a General Canabarro. A ruela, dividida ao meio por um calçadão arborizado, dá vazão ao trânsito. Pois é, era a ele, Canabarro, a quem estava confiada a defesa das fronteiras contra uma eventual invasão paraguaia. Foi um fiasco.

No dia 10 de junho, doze mil soldados paraguaios invadiram São Borja, e no início de agosto já ocupavam Uruguaiana. Se a tomada de Corumbá era incapaz de produzir resultados práticos, as cidades fronteiriças gaúchas eram outros quinhentos. O Paraguai estava duas jogadas à nossa frente nessa guerra.

E toma-lhe promoção. Em 24 de julho, Osorio foi promovido a marechal-de-campo. Com os aliados se aproximando de Corrientes, os paraguaios deram no pé, levando tudo o que fora saqueado.

É que o avanço, ousado, não tinha como se sustentar. Não havia linha de suprimento, disciplina ou comando. Apenas muita gente. E mesmo esta tal quantidade, bêbada, esfarelou.

A partir daí, a dinâmica da guerra se inverteria. Os Aliados é que invadiriam o Paraguai, em perseguição a Lopéz. Na lentidão de deslocamento de grandes forças que caracterizava a época, somente em abril do ano seguinte a ofensiva se concretizou, com o bombardeio de Ita Piru.

A decisão foi tomada no dia 10 de abril de 1866, quando os comandantes aliados se reuniram e definiram que a invasão se daria no Paso da Patria. "Osorio detestava participar de conselhos de guerra e neles costumava manter atitude modesta, justificando-a com a frase de Napoleão que, nas juntas de generais, prevalecia a opinião do mais fraco", destaca o biógrafo.

A única coisa que o marechal-de-campo brasileiro afirmou foi: "Qualquer que seja a decisão, o primeiro a pisar em território inimigo serei eu". E assim foi. Às nove da manhã do dia 16, na vanguarda do Exército, Osorio foi o primeiro a invadir o Paraguai. 

Foi criticado. Disseram que pusera em risco "as forças que comandava". O brasileiro rebateu: "Deram-me civis e não soldados para combater o inimigo. Eu precisava provar aos meus comandados que o seu general era capaz de ir até onde os mandava". A invasão foi um sucesso.

Se os pares criticaram, o chefão aprovou. Duas semanas depois, ao saber da performance do general na invasão, o Imperador D. Pedro II concedeu a ele o título de barão do Herval (na Monarquia brasileira a condição de nobre não era hereditária, mas obtida por mérito). O valente Osorio subia.

Com o Paso da Patria ocupado, os Aliados já estavam dando o Paraguai como favas contadas. Osorio pregara precaução, mas Flores, o general uruguaio, ignorou. Pra quê. Lopéz determinou uma contra-ofensiva surpresa, com quatro mil soldados atacando a vanguarda brasileira. Dois mil e quinhentos guaranis morreram na ação. Do lado aliado, mil e quinhentos.

E a ofensiva só fracassou porque Osorio, que almoçava com Bartolomeu Mitre em um navio na hora do ataque, largou o prato, organizou a tropa da retaguarda e partiu em socorro a Flores, sem sequer escovar os dentes. Foi seu apoio que levou o ataque paraguaio ao fracasso.

"Osorio conquistou a maior gloria desta jornada e todo o apreço do Exército argentino", escreveu o coronel argentino Emilio Conesa. O diplomata Almeida Rosa assinalou "que os sábios e literatos do Brasil e daqui não o valem". Dionísio Cerqueira, ao invés de elogiar Osorio, foi para o campo de batalha contar cabeças, como relata o historiador.

Encontrou "uma grande área com cadáveres mutilados, com cabeças decepadas presas ao tronco por músculos ensanguentados e outras rachadas ao meio, além de membros partidos e peitos esburacados". Como ressalta Doratioto, "era a imagem dantesca de uma época em que a guerra se travava corpo a corpo". Uma mutilação decorrente do uso maciço da espada, a arma da cavalaria contra a infantaria.

Poucas semanas depois teria lugar a Batalha de Tuiuti, o maior enfrentamento militar jamais ocorrido na América do Sul. Tuiuti, onde acamparam os aliados, era "um local seco, de apenas quatro quilômetros de comprimento por 2,4 km de largura, cercado por terreno inundado, o qual tinha juncos com mais de dois metros de altura, onde o inimigo podia esconder-se", esclarece o autor.

Essa área apetecível era cercada por pântanos, com passagens conhecidas somente pelos paraguaios. Para piorar, eles ergueram ali aquela que ficou conhecida como a "trincheira de Sauce", com três quilômetros de extensão, protegida por vinte canhões e fossos camuflados com estacas de madeira.

Conhecido o terreno, vamos aos times: 24 mil paraguaios atacando 32 mil aliados (sendo 21 mil brasileiros). Os paraguaios avançam a cavalo, destroçando a infantaria (nossos cavalos estavam mortos ou esgotados). Osorio, precavido semanas antes, dessa vez deu mole.

Os guaranis vieram jantando a brasileirada, dando um apavoro nas forças aliadas. O barata-voa foi contido, entretanto, pelo próprio Osorio, que, a cavalo, aos gritos de "Viva a nação brasileira" e "Viva o Imperador", evitou que a vanguarda recuasse e coordenou para que a retaguarda avançasse.

A peleja, que passou para a história como a Batalha de Tuiuti, teve a duração de um jogo de futebol americano, pouco mais de cinco horas. O campo ficou coberto por milhares de cadáveres, sendo seis mil paraguaios e mil aliados. Foram ainda sete mil paraguaios feridos e três mil aliados postos fora de combate. Os seja, Lopéz perdeu treze mil homens e a Aliança perdeu quatro mil.

"A ferocidade com que a batalha de Tuiuti foi travada pelas duas partes e as perdas humanas impactaram Osorio", escreveu Doratioto. "No dia seguinte ao da batalha, Silveira da Motta encontrou o general, que estava com a aparência de um 'esquálido fantasma', mal se reconhecendo nele o guerreiro cheio de energia da véspera".

Os aliados não tiveram forças para perseguir os paraguaios em fuga. Osorio, ao saber do número de mortos, se disse envergonhado. Posteriormente, perguntado sobre o que sentia ao entrar em batalha, respondeu que "ao avistar o inimigo, entusiasmo; ao primeiro choque medo e ao derrotá-lo pena".

Aos 58 anos, o general Osorio sentiu o esforço da campanha. Pediu para ser substituído. Estava tão doente e inchado que não podia andar a pé ou montar a cavalo. Francisco Otaviano (que viraria a última rua da praia de Copacabana) ainda tentou demovê-lo, em vão. Para seu lugar foi nomeado o General Polidoro.

A sua ausência era temida, pois Osorio era o principal elo com as lideranças argentina e uruguaia. Ainda em Corrientes, foi "inspecionado por três médicos da Marinha imperial e Tamandaré comunicou ao governo que o estado de saúde do general 'foi julgado gravíssimo".

Osorio partiu para o Rio Grande em 20 de julho de 1866. "Partia após ter organizado e treinado o Exército que invadiu o Paraguai e desempenhou papel decisivo na destruição da capacidade ofensiva paraguaia, com a vitória em Tuiuti", Doratioto deixa claro. "Após essa batalha, Francisco Solano Lopéz tinha condição de defender-se mas não mais de se impor ao Exército aliado", conclui.

Àquela altura, a maioria já dava a guerra como favas contadas. Mas Lopéz era carne de pescoço. 

O caudilho fez da fortaleza de Humaitá o bastião paraguaio. O Exército aliado se imobilizou nas cercanias. Como debocha o adágio popular, "nem trepava, nem saía de cima". Os generais não se articulavam. Os soldados morriam vítimas de balaços dos franco-atiradores ou de doenças.

Havia uma queda-de-braço entre Mitre e Tamandaré. Este pensava que aquele queria que os navios brasileiros atacassem Humaitá para serem destruídos pelos defensores e, assim, deixarem o terreno livre para um domínio argentino do Prata. Estultices. O autor afirma que Mitre era "fiel à aliança".

Para romper a a imobilidade, os generais aliados decidiram por um ataque maciço contra Curupaiti, fortificação paraguaia cinco quilômetros abaixo de Humaitá. Pra quê. Levamos um pau histórico. A esquadra brasileira gastou toda sua munição errando os alvos. O ataque da infantaria foi dizimado.

Os aliados perderam nove mil homens. Os paraguaios, apenas cem. Catastrófico.

Tudo bem, o assunto aqui é Osorio, e não, necessariamente, a Guerra do Paraguai. É que as duas coisas são uma coisa só. O fiasco em Curupaiti levou à nomeação de Caxias - que, por sua vez, fez questão de reconvocar Osorio para o conflito (ainda que sem a menor condição, registre-se).

Não só "reconvocou". Caxias, que ainda era marquês, saiu renomeando Osorio a torto e a direito, primeiro como comandante das armas do Rio Grande do Sul e depois como comandante-em-chefe do 3o Corpo do Exército. Nomeações à revelia do nomeado. E Osorio mal conseguia se por em pé.

A verdade por trás das nomeações é que Caxias queria que Osorio formasse o 3o Corpo do Exército. Não havia soldados. E os políticos gaúchos, ao invés de ajudar, estavam dificultando ao máximo. Ainda andou às turras com o marquês de Paranaguá, que, nessa dança das cadeiras de nomes históricos, é justo o meu prédio. Fazer o quê. O apartamento é bom e os porteiros são calados.

Na impossibilidade de andar, de montar, engatinhar ou rastejar, Osorio "utilizava-se de charretes e carruagens adaptadas para que pudesse manter a perna esquerda, inchada e com ulcerações, em posição de descanso", esmiuça o historiador. 

Caxias, a esta altura no Paraguai, estava estressado. Escreveu a Osorio, em carta datada de 17 de fevereiro de 1867, que "encontrara mais dificuldades do que previra". Queixou-se dos que "ficavam em casa" criticando, julgando "que tudo é fácil e que a guerra pode ser feita sem gente, sem dinheiro, sem armamento e sem fardamento".

Não deixou barato. Lastimou que "assim vai tudo em nossa terra e por isso é que estamos, há dois anos, a braços com uma guerra que já estaria concluída há muito, se as nossas coisas não tivessem, desde o começo desta campanha, sido tão mal dirigidas pelos chamados políticos e diplomatas".

Sorte é que Osorio era mesmo o cara certo, na hora certa e no lugar certo. Conseguiu amealhar quatro mil homens. Era um feito, pois que ninguém mais queria ir para a guerra. Herói, mas mortal, como nós, Osorio escreveu à esposa confessando que estava "morto de cansado".

O 3o Corpo do Exército atravessou o rio Uruguai. "A força de Osorio foi praticamente a responsável por abrir o caminho e a marcha se estendeu por sessenta quilômetros", conta o autor. Finalizado o cerco terrestre a Humaitá, pela primeira vez ousaram subir o rio - para descobrir que três grossas correntes, de uma margem a outra, impediam a navegação rio acima.

O que fez o vice-almirante José Ignácio, substituto de Tamandaré? Fundeou os navios "em uma enseada e aí permaneceu por seis meses, executando bombardeios sobre a distante posição paraguaia, sem maiores consequências. Não achavam possível superar as correntes, que neutralizaram a esquadra imperial.

Ficou assim: os aliados cercaram os paraguaios e ficaram a esperar, sem infligir dano. Já Lopéz não era dado a essas calmarias e, em 3 de novembro de 1867, invadiu o acampamento aliado com 9 mil homens. O resultado foi uma debandada geral de brasileiros e argentinos. Pernas para que te quero. 

O problema da paraguaiada foi que, ao invés de perseguirem os fujões, aproveitaram para saquear o acampamento, se abarrotando de comida e bebida. Foi o tirocínio do general Porto Alegre, que aglutinou o recuo, comandou a resistência e esperou a chegada de reforços enviados por Caxias, que fez a maré virar.

O contra-ataque à baioneta acabou com os paraguaios, que foram surpreendidos enquanto se refestelavam e não conseguiram se reorganizar. O saldo foi de 2.734 paraguaios mortos, 155 presos e 294 aliados mortos. Lopéz não conseguiu se recuperar de mais esse fracasso.

Osorio participava das refregas, mas cheio de limitações. Passava boa parte do tempo de cama, à base de medicamentos, mas, a qualquer sinal de melhora, se enfiava na charrete, com o cavalo encilhado ao lado - para combater o inimigo ou para supervisionar a soldadesca.

Em abril de 1868, D.Pedro II elevou Osorio a visconde. O general completou 60 anos em Humaitá.

Dois meses antes a esquadra brasileira havia ultrapassado - com facilidade - as correntes do rio e cercara Humaitá também por água. O que deteve os navios (por quase um ano) não passara de um temor infundado. Lopéz, esperto, ordenou a retirada de dez mil homens. Ficaram três mil.

Caxias bombardeou a fortaleza e enviou Osorio para um reconhecimento armado e para tomar Humaitá. Osorio avançou com seis mil homens, mas deu ruim: armadilhas engoliram os cavalos e 46 bocas de fogo causaram um morticínio. O cavalo de Osorio morreu, mas ele continuou a pé.

"A pé, ele pegou uma espingarda e matou um soldado paraguaio e pôs em fuga os companheiros do morto com outros dois tiros, enquanto o ponche que vestia foi perfurado por várias balas", descreve Doratioto. Depois dessa, os soldados passaram a acreditar que o general tinha "o corpo fechado".

Posteriormente, a ação foi considerada inútil e Caxias tirou o corpo fora, culpando Osorio pelo fracasso. Era para ter sido uma ação de "reconhecimento" e não um ataque. Esse toma-que-o-filho-é-teu se estendeu por anos e azedou a relação dos dois monumentos do Exército brasileiro. Até hoje não se sabe quem estava certo. Cada um atribuía a lambança ao outro.

No dia seguinte, Humaitá amanheceu às moscas. Os últimos paraguaios retiraram à noite para o Chaco. Osorio entrou na cidadela vazia. Escreveu para a esposa: "A guerra acabou". Nonada...

Enfermo, sem conseguir se locomover por conta própria, Osorio permaneceu no teatro de guerra. Logo percebeu que o pau continuaria a cantar. O Exército paraguaio se reagrupara em Lomas Valentinas.

Caxias e Osorio continuaram batendo cabeça e se estranhando na linha de frente, naquela que foi a Batalha de Itororó. Nesse dia, o baiano general Argolo (uma comprida rua em São Cristóvão onde minha primogênita trabalhou antes de partir para Paris) meteu os pés pelas mãos e atacou precipitadamente, sem esperar as forças de Osorio.

Segundo Doratioto, Argolo morreu no ataque, à uma da tarde. De acordo com a Wikipedia, morreu dois anos depois, na Bahia, devido a ferimentos de guerra. Não vou meter minha mão nessa cumbuca.

A dificuldade de agir de forma articulada tinha se repetido em Itororó. Osorio se atrasou para o ataque coordenado (por conta de uma escaramuça) ou o ataque havia se precipitado? Também essa questão se tornou alvo de um debate que varou as décadas. 

Seja como for, seis dias depois brasileiros e paraguaios se enfrentaram em um terreno seis quilômetros à frente, cortado pelo riacho do Avaí. Solano Lopéz mandou seu general Caballero interceptar a marcha do Exército imperial. Mais uma vez, Solano errou. Dos quase seis mil paraguaios que enfrentaram os brasileiros, três mil morreram, contra apenas 297 brasileiros.

A batalha do Avaí, que aconteceu em 11 de dezembro de 1868, completa hoje 157 anos.

Se para os aliados a carnificina foi vantajosa, para Osorio a batalha do Avaí foi fatídica. "Foi travada sob chuva torrencial e Osorio iniciou a ação, atacando o centro da linha paraguaia, dividindo-a em duas e tomando a artilharia inimiga", descreve o autor. Mas "os soldados brasileiros fraquejaram e ameaçaram debandar", diz.

Para conter o pânico da tropa e assegurar uma vitória que era próxima, Caxias desceu do seu posto de observação e se meteu na refrega. Osorio, por sua vez, se deslocava pela linha de frente, "dando ordens rápidas". Um paraguaio, trepado em uma árvore, mirou seu fuzil e acertou a cara de Osorio.

"A bala atravessou-lhe o rosto, de cima para baixo, partindo-lhe o maxilar inferior esquerdo, derrubando-o", narra Doratioto. "Ele voltou a montar a cavalo, mas o sangue jorrava e, como não podia estancá-lo, passou a galope por todas as linhas, com o rosto semi-escondido pelo poncho enrolado", gritando palavras de ordem. 

(A batalha do Avaí foi eternizada naquele que é um dos mais famosos - e dispendiosos - quadros a retratar a guerra do Paraguai. Pintada por Pedro Américo, a contratação e criação da obra mereceu recentemente um estudo historiográfico assinado por Lilian Schwarcz. Em breve falo dele aqui.)

Ferido, Osorio não participou da destruição final do Exército paraguaio. Foi levado para Assunção e dali partiu para o Rio Grande do Sul, onde chegou dois meses depois, "alquebrado, com o ferimento do rosto em ferida viva", como conta o biógrafo. A população o recebeu com entusiasmo e festa.

Neste ínterim, Lopéz fugiu e Caxias se demitiu. O caudilho paraguaio recusou a rendição e sacrificou o que restava do seu povo. Formou unidades com mulheres, velhos e crianças para protegê-lo, fazendo com que ficassem entre ele e o Exército imperial. Que morram os outros, não ele.

D. Pedro II nomeou seu genro, o conde d'Eu, para assumir o comando das forças brasileiras na perseguição ao fugitivo. O conde fez das tripas coração para não ir, mas não teve jeito. Nomeado, escreveu ao estropiado general Osorio, pedindo que fosse com ele, à frente das tropas.

Doratioto conta o estado de Osorio, na ocasião em que o conde d'Eu implorava sua participação. 

"Osorio não tinha condições físicas para esse retorno, pois fora ferido havia apenas três meses e continuava com a saúde precária", detalha o biógrafo. " Não conseguia movimentar o queixo, falava com muita dificuldade, tinha o rosto inchado e era alimentado por uma bomba de mate, com a qual tomava caldos e leite".

"Sofreu com dez fragmentos de osso que cresceram em meio à carne - esquírolas - das mandíbulas quebradas", diz Doratioto. Além dos dois dentes que perdera com o tiro, Osorio tivera que extrair outros quatro. Escreveu ao filho dizendo que não tinha como "comandar um Exército em guerra, pois nem mesmo conseguia fechar a boca ou falar".

Acabou capitulando. Em 14 de abril de 1869, escreveu ao conde d'Eu que, "apesar de doente e inútil para o serviço", aceitava a missão. "A Pátria ainda precisa dos meus serviços, sou soldado, tenho que cumprir o meu dever". 

Embarcou em meados de maio para o Paraguai, fazendo escalas em Montevidéu e Buenos Aires. Em um domingo, 6 de junho, encontrou com o conde d'Eu em Piraju, aonde chegou "com o queixo seguro por um lenço preso no alto da cabeça e acompanhado de um médico".

Osorio, recebido com festa pela soldadesca, ainda se alimentava por canudinho e, para falar, "amparava o queixo com as mãos, em forma de concha".

"Em 2 de julho foram-lhe extraídas, da ferida no rosto, duas esquírolas, e, no dia seguinte, ele desmaiou, chegando a perder a pulsação - 'estive morto por alguns minutos', escreveu -, antes de ser reanimado. Ainda assim, dois dias depois, participou da tomada da trincheira de Sapucaí".

A batalha seguinte foi a de Peribebuí, numa vergonhosa desproporção de forças. O exército paraguaio estava em frangalhos. Eram 21 mil soldados brasileiros contra 1.800 pessoas ("soldados, velhos, mulheres, adolescentes") que, carecendo de armamento, "jogaram todo tipo de projétil, como pedras, tijolos, pedaços de madeira, vidro etc".

Mas não só pedras e paus - tanto, que o general Menna Barreto foi morto não por um cacete, mas por um tiro de fuzil. Conta Doratioto que o conde d'Eu, "enfurecido, ordenou a degola dos prisioneiros". 

A situação absurda - de um militar idoso e arrebentado permanecer à frente de um exército como contrapeso à insegurança de seu comandante, o genro do Imperador - não tinha como se estender. Já não havia, de fato, uma "guerra". Apenas uma caça à Lopéz. "A saúde de Osorio se agravou e o conde d'Eu não pode dessa vez negar-lhe licença para retirar-se para o Rio Grande do Sul".

Seguiu no transporte de guerra Alice. Na escala em Montevidéu, soube que sua esposa morrera.

Finda a guerra, viúvo, lhe restaram as glórias e o prestígio. Foi elevado a Marquês do Herval e depois escolhido, pela regente Isabel, como senador. É promovido a Marechal do Exército e depois nomeado Ministro da Guerra. Morre em 4 de outubro de 1879, como o maior nome do Exército brasileiro.

O autor assinala que por muitas décadas foi Osorio, e não Caxias, o patrono do Exército nacional. Explica as questões políticas que geraram a "substituição". Mas aí já é outro assunto.

Este livro sobre Osorio ilumina a trajetória de um brasileiro que merecia ser mais bem conhecido. Eu, que sou um mero curioso, achei a biografia escrita por Francisco Doratioto um presente. E, para quem não dispuser do mesmo tempo que eu (para ler a íntegra), resumi aqui quem foi Osorio.

Sem acento, por favor.

Companhia das Letras, 262 páginas  |  1a reimpressão  |  Copyright 2008