"Johan Cruyff 14, a autobiografia"


Uma coisa que eu não indico a ninguém são as autobiografias. Na maioria dos casos, são uma monótona auto-exaltação. "Johan Cruyff 14, a autobiografia" não foge à regra.

E olha que o cara que assina essa aqui jogou muita bola.

Johan Cruyff foi um dos maiores jogadores de todos os tempos. E não só. Foi também um técnico polêmico. Segundo alguns, revolucionário. Mas daí ao livro que ele escreveu (sobre ele mesmo) prestar, vai a distância de Amsterdam a Taubaté. A nado...

Li, resignado, as centenas de auto-elogios que ele enfileira ao longo de catorze capítulos da biografia do "14" mais famoso da história do futebol (já do basquete foi o nosso Oscar, que nos deixou há pouco). Ele aproveita o número para listar também os seus 14 "mandamentos".

Meras obviedades. Roteiro básico de coach.

Mas, apesar dos pesares, no livro há o que se aproveitar. E, como esse gringo gastou a bola, esteve em momentos capitais da história do esporte e, do banco, deu início à revolução tática do Barcelona, a gente tem que respeitar. E engolir o seu bla-bla-blá interminável.

E olha que o livro começa bem demais. O prefácio é de Tostão, o único que eu conheci que foi craque de campo e de texto. O mineiro, fera do Cruzeiro de 60 e da Copa de 70, foi contemporâneo do holandês. Se nunca se enfrentaram nos gramados, um dia, porém, se encontraram num shopping na África do Sul e mutuamente se reverenciaram. Duas lendas.

"Cruyff não foi o melhor jogador do mundo de todos os tempos - foi Pelé -, mas certamente está entre os dez melhores", afirma. Cruyff era um "técnico em campo", diz. "Tinha extraordinária inteligência espacial. Parecia olhar a partida de cima, com um megacomputador instalado no corpo para medir a movimentação e a velocidade da bola, dos companheiros e dos adversários".

Prefiro reproduzir os elogios que Tostão faz a ele do que os que ele próprio se faz. "Era perfeccionista, essencialment técnico, sem firulas", diz. "Jogava com elegância, com a cabeça em pé, sem olhar para a bola, o símbolo do jogo coletivo. Foi brilhante como armador e como atacante".

Pena que não foi o Tostão que escreveu o livro. Ia ser bem mais palatável. Vai por mim...

Cruyff fala menos do que se passou e mais sobre o que ele pensa. Faz da obra um espaço para responder a todos aqueles com os quais se desentendeu ao longo da carreira. E não foram poucos.

Quando se reporta aos seus tempos de jogador, é lacônico, mas direto. "Em 1971, vencemos a Copa dos Campeões da Europa pela primeira vez e ganhamos os dois anos seguintes também", conta. "Assim, em seis anos, o Ajax passou de um clube mediano para o melhor time do mundo".

Eu concordo, sem tirar nem por. Como já disse carradas de vezes, sou da opinião de que seis times mudaram a história do futebol: Honved, Botafogo, Santos, Bayern, Ajax e Barcelona.

Os quatro primeiros, pelos seus jogadores excepcionais; os dois últimos, pelos grandes jogadores que souberam executar a estratégia de técnicos geniais, Rinus Michels e Pep Guardiola.

Todos estes seis times foram a base do selecionado nacional e levaram as suas respectivas seleções a finais de Copas do Mundo. O Honved levou a Hungria ao vice-campeonato de 54; o Ajax levou a Holanda a dois vice-campeonatos consecutivos, 74 e 78; o Bayern foi a base da Alemanha campeã em 74; o Botafogo levou o Brasil a vencer três Copas do Mundo, em 58, 62 e 70; o Santos, a duas, 58 e 70; e o Barcelona foi a essência do time espanhol que venceu a Copa de 2010.

Então, o depoimento sobre a Laranja Mecânica, a seleção holandesa de 1974, cuja base era o Ajax, é um dos pontos altos da publicação. Cruyff conta que, duas semanas antes de começar a Copa, o técnico reuniu os jogadores e disse: "Como não vamos ganhar a Copa, façamos algo diferente, surpreendente". Tostão explica como o Carrossel Holandês (outros dos epítetos do time) funcionava:

"Foi o início da marcação por pressão. Onde estava a bola, havia vários holandeses para tomá-la. Era a pelada organizada", brinca. "Recuperavam a bola e chegavam com vários jogadores à área adversária. Zagueiros, armadores e atacantes se misturavam". Era isso mesmo. Uma pena que este timaço revolucionário tenha sido vencido pela Alemanha, a dona da casa, na final. 

E olha que abriram o placar, em uma arrancada de Johan Cruyff com 40 segundos de jogo, em um pênalti marcado pelo britânico Jack Taylor. Alguma chance do Daronco dar um pênalti contra os alemães, numa final de Copa disputada na Alemanha, ainda mais no primeiro minuto? zero, né.

Johan Neeskens, um dos craques do time, cobrou, como se diz hoje, com a "batida de segurança" (que de segura não tem nada, é um risco danado). Chutou baixo, no meio do gol. Holanda 1x0.

No lance seguinte os alemães começaram a cair na área adversária, mas Taylor não foi na onda deles. Aos 25 minutos, porém, o meia holandês Win Jansen deu um carrinho estúpido em Hölzenbein, dentro da área, e Taylor não hesitou em marcar o segundo penal da partida.

Paul Breitner, eleito o segundo melhor lateral esquerdo da Copa (o primeiro foi o brasileiro Marinho Chagas, o Bruxa, do Botafogo), bateu na bochecha da rede e empatou o jogo. Ainda no fim do primeiro tempo, Gerd Müller virou e deu o bicampeonato à Alemanha. Cruyff e seu fantástico time martelaram todo o segundo tempo, mas o gol não saiu. Mais uma injustiça histórica do futebol.

"Às vezes acontece de você perder um jogo no psicológico", interpreta Johan, décadas depois. "É só olhar como os gols foram marcados. Wim Jansen arriscando um carrinho na área, o que acabou em pênalti, e Ruud Krol abrindo as pernas ao tentar bloquear o chute adversário".

A partir daí, Cruyff faz uma digressão bem interessante sobre a importância do zagueiro jamais deixar que a bola passe entre suas pernas, pois mata o goleiro, que não espera seja isso possível. "O goleiro está contando com o zagueiro para cobrir uma parte do gol. É por isso que você nunca deve conceder esse espaço".

Os lances de uma final perdida ficam remoendo na cabeça dos atletas por décadas.

"Em nenhum momento conseguimos realmente entrar no jogo, e o gol de Müller se provou fatal", lamenta. "Quando tudo acabou, ficamos muito decepcionados. Sabíamos que éramos os melhores do mundo, mas não levamos o prêmio".

Como a Hungria de 1954 e o Brasil de 1982, porém, foi um time que entrou para a história.

"Muitos times e seleções de todo o mundo tentaram repetir a marcação por pressão realizada pela Holanda de 1974, contudo as atuações e os resultados foram muito irregulares", analisa Tostão. "Essas equipes pressionavam, mas quando não conseguiam recuperar a bola, deixavam enormes espaços na defesa".

O alto nível dessa seleção, segundo Cruyff, somente tinha ficado claro para o próprio elenco na semifinal, contra o Brasil. "Até então, ninguém sabia realmente o quanto éramos bons, e o jogo contra o Brasil foi o momento em que as pessoas descobriram o Futebol Total".

A Laranja Mecânica foi uma surpresa até para quem não devia ser - Zagalo, técnico brasileiro, que, ao invés de estudar os holandeses, achava que eles é que tinham que estudar o Brasil. Deu ruim. Fomos eliminados e Zagalo, demitido.

"Quando entramos no campo, estávamos nervosos, porque a gente achava que ainda estava jogando com o time de 1970, que venceu a Copa do Mundo", escreveu Cruyff. Mas o time do Brasil era totalmente outro. Dos titulares campeões do mundo, só Jairzinho e Rivelino estavam em campo. Gerson, Tostão, Clodoaldo e Carlos Alberto não foram. Sem contar o tal do Pelé, que se recusou.

Cruyff continua. "Não demorou mais de trinta minutos para entendermos que éramos realmente mais habilidosos do que eles". O Brasil foi atropelado, além de ter entrado no sarrafo (os europeus naquele tempo batiam muito). Mesmo com a Holanda melhor, Johan ficou apreensivo. 

"Tivemos sorte de não levar um gol algumas vezes no início do primeiro tempo", reconhece. "Porém, depois do susto, nosso time se encontrou para jogar o melhor futebol possível".

O craque holandês avalia que "a equipe brasileira também estava passando por uma fase de transição". Ele acredita que o Brasil "vinha tentando abandonar a técnica pura e optar por uma mistura de técnica e força física". Pode ser. Seja como for, fizemos mais três finais de Copa do Mundo depois disso e ganhamos duas. E ainda fomos a outras três semifinais.

Curioso que, como disse, a biografia dedique apenas poucos e curtos parágrafos sobre o apogeu do Carrossel Holandês. Cruyff é idiossincrático na escolha dos seus temas e discursos.

Se Pelé, com 34 anos, não quis disputar sua quinta Copa do Mundo, em 1974 (depois de ter ganho duas, 58 e 70), Cruyff, com 30 anos, não quis disputar sua segunda Copa do Mundo, em 1978. Ele tenta se explicar, mas não é convincente. O fato é que ele vivia em litígio com literalmente todo mundo.

Me pergunto se, mesmo com toda a roubalheira e coação, com Cruyff em campo aquela final em Buenos Aires não acabaria indo para os holandeses. Mas vá saber. Nem Cruyff, nem Maradona.

Em 1978, o rubro-negro Claudio Coutinho, militar brasileiro travestido de técnico, proclamou o Brasil "campeão moral" da Copa de 1978. Ele entendia do assunto. Fomos escrachadamente roubados, sim. Não perdemos no campo, mas o Peru abriu as pernas e engoliu seis gols argentinos, tirando o escrete brasileiro da final. Saímos invictos da Argentina e "campeões morais".

(Nem sempre o técnico reclamava da moralidade das conquistas. Coutinho, no ano seguinte, celebrou a proeza de ser duas vezes campeão carioca com o Flamengo no mesmo ano, 1979. Na verdade, foi uma vez campeão carioca e a outra vez foi campeão "especial". Mas O Globo sapecou na capa que era tricampeão 78-79-79 e a federação chancelou. Moralidade seletiva...)

Voltando à vaca holandesa, Cruyff não disputou a Copa de 78 e foi amplamente criticado. Como jogador, deu prosseguimento à carreira no incipiente futebol norte-americano, primeiro no Los Angeles Aztecs e depois no Washington Diplomats. Desperdício de talento.

Retorna à Holanda em 1980, aos 33 anos, onde ainda joga por mais quatro anos, ganhando campeonatos nacionais (Eredivisie) pelo Ajax e pelo seu maior rival, o Feyenoord. No Ajax, onde começou, garoto, e onde seus pais foram funcionários, teve uma relação de amor e ódio - mais este que aquele.

Ao encerrar a carreira, Cruyff retorna ao Ajax, como diretor técnico (e técnico de facto), vencendo duas Copas da Holanda e uma Recopa europeia - e reproduz o movimento que já havia feito como jogador, indo do Ajax para o Barcelona, desta vez como treinador.

E, se já tinha revolucionado o futebol como jogador, comete o crime pela segunda vez, ao mudar o jogo, agora como técnico do Barça. Lá, aplica o conceito de futebol total que sempre defendera. Fica oito anos no clube e é tetracampeão espanhol (de verdade, em anos consecutivos), ganha a Copa do Rei da Espanha, a Recopa Europeia, a Copa dos Campeões e a Supercopa da Europa.

Tudo bem que que o cara era marrento, mas ele tinha lá suas razões...

À vera, porém, a impressão que dá ao leitor é que, em quase todos os ambientes que esteve, saiu pela porta dos fundos, atirando. Inclusive, aproveita o livro para falar mal de muita gente que eu não fazia a menor ideia que existia, um monte de van der qualquer coisa.

Gênio incompreendido? Pode ser. Mas chato pra boné.

Com residência fixa na Espanha, confessou: "Sinto falta da Holanda e continuo tendo orgulho do meu país, mas nem sempre somos as pessoas mais legais de se conviver".

Acho que o elenco do Botafogo que dividiu o vestiário com o holandês Clarence Seedorf sabe muito bem como é isso de "convivência com holandês". Pergunta lá pra eles...

Enfim, a leitura da autobiografia de Johan Cruyff deve ser feita com critério e com estômago. Há muita coisa interessante, mas vem muita baboseira junto. Provável que um ghost-writer tenha ajudado o atleta, mas não deve ter tido autonomia para sequer tentar salvar o texto. 

Isso em nada macula o seu tamanho como jogador e treinador. Foi eleito em 1999 o Jogador Europeu do Século e ficou em segundo lugar (logo atrás de Pelé), como Jogador do Século.

(Cá para nós, se o pessoal contabilizar o que o Garrincha fez no futebol, não ia dar pro Pelé...)

Quando Cruyff fala do seu entendimento do jogo, observamos o quanto ele foi visionário. Ele já fazia há décadas do jogo de posicionamento o seu catecismo pessoal - enquanto há quem trate ainda hoje essa distribuição dos jogadores pelos setores do campo como se fosse a última palavra em tática.

Ele foi como os gênios são: um sujeito à frente do seu tempo. 

Editora Grande Área, 322 páginas  |  1a Reimpressão, 2023  |  Copyright 2016   

Título original: "My Turn: A Life of Total Football"  |  Tradução  Liliana Negrello e Christian Schwartz

"A segunda espada", por Peter Handke


O desejo do narrador é vingar a mãe. O alvo da vingança seria uma tal jornalista que, em um momento difuso do passado, escreveu algumas barbaridades - segundo ele - e, pior, escolheu a foto da mãe do narrador para ilustrar uma matéria sobre o apoio do povo austríaco aos nazistas.

"Li que minha mãe seria uma entre os milhões de cidadãos da antiga grande 'Monarquia do Danúbio'", diz, "para quem a incorporação da Áustria, que se tornara tão pequena depois da Primeira Guerra Mundial, ao 'Reich alemão' foi causa de alegria e festividades, quer dizer, minha mãe teria sido uma das que se rejubilaram com a anexação da Áustria pelo Reich, teria sido uma seguidora, membro do partido nazista".

Seja qual for sua importância para a trama, esta informação surge quase na metade do livro. Mais precisamente, na página oitenta e três. Até então, o autor se limitara a desfiar banalidades. Pensamentos esparsos sobre a cidade, os caminhos, os vizinhos, os meios de transporte et cetera.

Mas na tal página oitenta e três ele dá azo à sua inconformação.

"Não se tratava simplesmente de uma frase secundária: na mesma página, junto com o artigo, via-se também uma fotomontagem na qual uma imagem muito ampliada da cabeça de minha mãe, que àquela altura tinha dezessete anos de idade, foi acrescentada a uma multidão que gritava 'heil-ou-sei-lá-o-quê' na Heldenplatz ou em algum lugar assim".

O que o narrador chama de "heil-ou-sei-lá-o-quê" nós sabemos bem que é "heil Hitler". Nitidamente ele não fica confortável em ver sua mãe flagrada fazendo, entusiasmada, o heil Hitler, em meio à multidão que saudava a passagem do führer pelas ruas de Viena, depois do Anschluss

A cabeçorra ampliada da mãe doravante irá povoar seus sonhos e devaneios. Mas o fato concreto surgido apenas na metade do livro será mal e mal retomado. Foi uma ilha de três parágrafos em meio a centenas de outros parágrafos que não contam nada, nem vão - nem levam - a lugar nenhum.

Porém, ele que desde o início do seu enigmático texto se auto-intitula um vingador, é nesta página oitenta e três que ele segreda o que havia a ser vingado. A pretexto disso, o que temos são mais impressões comezinhas suas, ociosamente rodando de ônibus pelos subúrbios de Paris.

O fato - e cometo aqui o mais tremendo dos spoilers - é que ele jamais irá vingar ninguém. Apenas destilará sua cantilena monótona páginas afora. Mas, dando o spoiler, eu me vingo dele.

Ele, um escritor ganhador do Prêmio Nobel, não se constrange em fazer do tempo do leitor o seu quintal. Joga ali as tralhas que quer, do jeito que lhe agrada. Sua estória é acéfala, seus personagens são anônimos. A responsável pela matéria jornalística que o atingiu não tem nome. Praticamente nada, nem ninguém, tem nome no livro. Mas houve um certo dia, porém, em que ela o respondeu.

"Nunca a tinha encontrado antes e assim também continuou a ser depois daquilo que eu chamava 'o crime", revela. "Ainda que junto àquilo que ela escrevera na época, publicou-se uma fotografia, eu não dispunha de nenhuma imagem dela".

Não pense o leitor ingênuo, ou otimista, que alguma coisa irá mudar depois da tal resposta.

"Já desde antes da leitura, eu não imaginava nenhum rosto à minha frente e isso tampouco mudou depois da leitura", esclarece (ou não). "Um reconhecimento, indefinido e indefinível, acontecia apenas quando eu tirava os óculos, o que embaçava os traços do retrato da autora do artigo."

Como Peter Handke - o autor do livro - em momento algum é muito preciso, não sabemos muito bem como se dá a relação (ou não) entre os dois. O ofendido e a ofensora. Com ou sem óculos.

"Por outro lado, havia tempo que eu tinha seu endereço", confessa. "Anos depois de cometer aquele ato, eu tinha recebido uma carta dela. É quase impossível dizer qual era o assunto da carta e menos ainda dizer algo sobre o seu conteúdo". Ou seja, a carta era um espelho do livro, no qual o assunto é vago e o conteúdo é poroso.

"Seja como for, não havia qualquer palavra a respeito da agressão contra mim - que, aliás, pouco tinha me interessado e muito menos atingido; e sobretudo nenhuma palavra a respeito da ofensa que de maneira tão secundária, como que de passagem, tinha sido cometida contra a memória da minha santa mãe".

Embora eu me exaspere com o texto de Handke, fora de dúvida que ele domina o ofício da escrita. E eu, ao selecionar os raros trechos que parecem unir lé com cré, acabo criando a falsa impressão de que o livro é, em alguma medida, sensato ou aprazível. Não, não é. 

"Agora, durante a viagem de bonde, ao tentar me lembrar daquela carta que talvez estivesse mesmo sendo esperada por mim, muito embora eu estivesse à espera de uma carta totalmente diferente, pareceu-me ('ocorreu-me') que aquela carta, através de desvios corteses, fosse um convite para um debate amistoso e público, a distância e por escrito, e que de maneira 'privada' ela também 'simpatizava' comigo".

Apesar de um tanto evasivo, nestes trechos, estes são um dos poucos em que aquele que é, em tese, o leitmotif do livro é diretamente (ou quase) abordado. No mais, somos levados para circunlóquios sobre os mais diferentes temas que povoam a paisagem e as memórias do narrador.

Ele reclama que os tios, que não conheceu, tenham sido "forçados ao serviço militar do grande Reich na Rússia", onde teriam sido mortos. Diz também que certa vez recebeu uma carta anônima, "com a ameaça de matar meu filho". Foi sua única menção a um filho.

A ameaça teria a ver com "os seis milhões de judeus que foram mortos pelos meus antepassados".

Que fique claro que estas referências a circunstâncias históricas estavam soltas em meio a frases gasosas. Eu as catei e uni aqui, como quem garimpa pedrinhas na água do rio e crê que achou algo de valor. Mas aqui é tudo quimera, ganga, cascalho. Bijuteria, no melhor dos casos.

Inquestionável que a orelha do livro é sincera. "Um exercício de escrita, uma introspecção no ofício", abre a orelha, honesta. "Peter Handke permanece fiel a si mesmo numa balada ao redor do seu terreiro nos arrabaldes parisienses. É nessas cercanias que o vencedor do Prêmio Nobel de 2019 consegue dar as mais longínquas escapadas reais e imaginárias".

Eu disse. O que eu não fiz (e devia ter feito) foi ter lido antes a orelha com a atenção que ela merecia.

"Leva em sua navegação desde operários no bar local em fim de expediente até questionamentos à família sobre o nazismo", continua. "O que é palpável no mundo à volta do seu subúrbio de escriba? O que sobra do real? De tanto escrever, reeescrever, remexer com as palavras, os enlaces se perdem em meio a uma grande desconfiança perante o existente".

Ah, a literatura! leio e devoro livros desde moleque. Mas suspeito que a literatura não foi feita para mim, ou eu não fui feito para ela. Seus brocados e rococós, que fascinam a tantos com seus brilhos e formatos, descem na minha garganta como um angu encaroçado.

Meu paladar, tosco, não foi adestrado para as iguarias mais finas. Paciência.

Não sabendo exatamente do que se tratava, levei o livro comigo para lê-lo no castelo de Annecy, na Alta Savóia. Sabia que lá havia uma amurada de onde se via a cidade velha e também o lago. Diz a wikipedia que é o segundo maior lago da França, formado, 18.000 anos atrás, pelo degelo alpino.

O castelo, milenar, estava bem preservado. Idem o lago cristalino. Já o livro eu não indicaria a ninguém de quem eu gostasse, e nem mesmo de quem eu não gostasse. Um livro que se destaca por merecer liderar qualquer relação de livros a jamais serem lidos.

Mais não falo, falei até demais. Fica aí a decisão por sua conta.

Editora Estação Liberdade, 176 páginas  |  1a edição, 2022  |  Copyright 2020  | Tradução Luiz Krausz
Título original: "Das zwette Schwert: Eine Maigeschichte"

Obs.: Não obstante, particularmente gostei da menção ao "oito de maio". É o dia do meu aniversário, também conhecido como "hoje". Meu amado tio Werther, ex-pracinha da FEB na Itália, sempre dizia que eu tinha nascido no mais importante dos dias. Esse cara sim merecia o Nobel. Saudades, tio!

"Diaries of War", por Nora Krug


Nora Krug, alemã radicada em Nova York, escreve em "Diaries of War" sobre o primeiro ano da guerra entre Rússia e Ucrânia. Sua narrativa, à margem dos bombardeios, fala do impacto da guerra na vida das pessoas comuns. O livro, lançado nos Estados Unidos em 2023, repercutiu mundo afora, com trechos publicados (ainda em 2022) em jornais da Itália, Espanha, Alemanha e Holanda.

A autora, como em seu livro anterior, "Heimat", tem um formato próprio. Ela mescla suas ilustrações aos textos, que, por sua vez, nos são apresentados como páginas de diários - aqui, assinados por uma jornalista ucraniana e por um artista russo. As páginas pares cabem à primeira e as ímpares ao segundo. A proposta é um ping-pong, mas temo que o resultado seja uma leitura picotada.

A cada vez que o leitor engrena na narrativa e na ambientação de um dos protagonistas, ele é forçado a, digamos, reiniciar seu HD para se reinserir na outra estória. A semelhança entre ambos (aos nossos olhos tropicais) deixa tudo ainda mais confuso.

Pior: se com isso a intenção de Krug era nos oferecer simultaneamente duas visões distintas, com perspectivas antagônicas dos acontecimentos, não é o que se dá. Porque a ucraniana e o russo coincidem no seu repúdio a Putin, o presidente russo que ordenou a invasão da Ucrânia.

Assim, sob a ótica da geopolítica, se estão em lados opostos geograficamente, coabitam a mesma esfera sócio-política: ambos querem a paz, ambos abandonaram temporariamente seus países e ambos são contra Putin. Então, aqui, o "antagonismo" pretendido pela autora não se concretiza. 

Tanto, que o russo, artista, se espanta com a posição do diretor do museu de São Petersburgo, o Heritage, que apoia a ofensiva de Putin: "We are no longer retreating, we've made a turn". O curador, enfático, diz que "we're all militarists and imperialists. Our country is changing world history". 

Quando o responsável pela burocracia da arte tem um discurso de general, o negócio não tá bom.

Já a ucraniana registra que "today, Russia fired missiles at a crowded neighbourhood in Vinnytsia. A little girl was killed, and this news crushed me". E completa, dizendo que "the girl's mother survived the attack, but in hospital with multiple injuries. The doctors haven't told her yet that her daughter is dead".

Muito triste. Mas aqui sim há antagonismo: vemos que as semelhanças ideológicas não anulam as diferenças práticas. Se ambos fogem de Putin, ela foge das bombas, e ele do recrutamento militar.

São dois universos distintos de uma região cujos raros momentos de paz são um oásis em uma trajetória historicamente marcada por conflitos sangrentos. É um povo ao qual não faltam cicatrizes.

Além de expor o cotidiano dos protagonistas, Krug nos traz dados relevantes de como a população civil (que parecem comigo, com você, com nossos vizinhos) lidou com as ameaças do primeiro ano de guerra. A rotina dos filhos de ambos deixam claro que há questões funcionais com as quais lidar.

Independentemente de lado, são todos vítimas de um devaneio do presidente russo: a reconstrução do antigo império soviético. Para justificar a nova invasão da Ucrânia, ele seleciona as interpretações da história que lhe convêm. Mas o fato é que são mais de mil anos de povos misturados.

Por medida de segurança e proteção às respectivas famílias, os protagonistas não são identificados. K., a jornalista ucraniana, tem origens russas e judaicas, é casada, com um casal de filhos. A guerra a obriga a levar as crianças para Copenhagen, enquanto o marido permanece em Kyiv, pois homens entre 16 e 60 anos não podem abandonar o país. Isso faz com que ela se divida entre os dois mundos. Um de ordem e calma (a Dinamarca) e outro de perigo e privação (a Ucrânia).

"I recently spoke to my mother about our cultural identity", confidencia. "She considers herself Ukrainian, but she is really Russian-Jewish". Conta que os pais e avós foram criados na região do Volga, próxima à Ucrânia, e que o avô se referia a si mesmo mais como cossaco do que como russo.

O russo, D., é também casado, com dois filhos e com raízes judaicas. Nativo de São Petersburgo, nunca se sentiu confortável com o passado soviético e com as pretensões imperialistas de Vladimir Putin. Com a eclosão da guerra, temendo ser recrutado para o front, parte, sozinho, para a Turquia e dali para a França. Lá sofre com as dificuldades de adaptação, a distância da família e o preconceito.

"I don't have a clear idea of what Russian cultural identity means. I have Siberian and Jewish ancestors. I was born in the Soviet Union, but I grew up in Russia", diz. Que salada. "I feel as if St. Petersburg is my country", revela, enfatizando que, se alguém pergunta de onde ele é, fala que é de São Petersburgo, não da Rússia. É um estigma difícil de carregar Europa afora.

Para nós, brasileiros, muito distantes da realidade da guerra, o que temos é um breve recorte do momento inicial do confronto. Resilientes, tanto K. como D. imaginam que o conflito encerrará logo. Nós, que estamos em 2026, sabemos que não. A invasão completou quatro anos agora em fevereiro, e não há nada que indique que a guerra esteja próxima do seu termo. 

Então é ainda mais melancólico acompanhar as expectativas que ambos os protagonistas de Krug mantêm. Crianças ucranianas que conseguiram emigrar crescerão no exílio. Mães expatriadas se moverão à reboque de sua prole. Homens seguirão para o front para se manterem moral e legalmente vinculados à própria pátria, vivos ou mortos.

A ânsia pelo retorno à vida normal não se mistura à ilusão de que uma paz duradoura seja possível. "For Ukranians to think that Russia will change if Putin dies is stupid", reflete a ucraniana. "Russia will be Ukraine's neighbour forever, whether we like it or not. And that scares me very much".

Este sentimento está enraizado em todos os povos da região. Ela comenta que "people who live in post-Soviet countries usually say that temporary things are the only things that are permanent".

A alegação divulgada pela Rússia para invadir a Ucrânia em 2022 foi a de "combater o neonazismo". Seria meritório. Mas, para alguns, isso soa hilário. Os neonazis lá se caracterizam mais pelos rituais antissemitas, um preconceito atávico compartilhado por russos e ucranianos. 

"Ukraine never was a very open state because it was part of the Soviet system for so long, and the Soviet Union itself was anti-Semitic", explica K. "I've also witnessed many attacks on human right defenders, left-wing activists anda LGBT people by far-right groups". Às vezes a própria polícia era conivente. "Sometimes the police interfered, other times they didn't".

Estes grupos ucranianos não escondiam sua inspiração ("Some of the attackers wore tattoos of swastikas and Adolf Hitler"), o que coube como uma luva aos propósitos de Putin.  "What Putin has done is blame those kinds of radicals to justify his aggression and Russia's invasion. He even accused our Jewish presidente of being a nazi", deplora.

Desde o fim do nazismo, em 1945, as pessoas passaram a tachar de nazistas aqueles de quem discordam ou simplesmente não gostam. "It will be difficult for people to acknowledge the fact that by supporting Putin, they actually supported a Nazi-like regime", avalia D., fazendo de Putin - que alega ter iniciado a guerra para impedir a retomada do "nazismo" - também um nazista. 

É um xingamento prático. Aqui no Brasil também chamamos bolsonaristas e judeus de "nazistas".

Outra palavra muito em voga é "genocídio". Putin, acredite, atribuiu aos ucranianos um genocídio contra os russos.  D. relata que o governo russo afirma que "the war didn't start last year, but in 2014 in Donbas, where a 'genocide against Russians' has been taking place ever since". Os russos, segundo Putin, não estariam "atacando" os ucranianos, e sim apenas "reagindo" aos genocidas.

D., ainda que fugitivo, sente no exterior o peso de pertencer ao país invasor. "I've been thinking about the idea of guilt", registra. "As a Russian, I feel guilty. At the same time, I'm against the idea of collective guilt because I think that collective guilt stops you from confronting your personal guilt".

Sei não. Ele elabora um pouco mais o raciocínio. "Do I feel personal guilt? I don't know. I worked hard over the years to try to change my country by exposing it to the international art world". Vou passar essa.

Em outra ocasião, ele vai a um shopping center em Paris assistir a uma performance de artistas ucranianos, exilados como ele. Lidar com os depoimentos de quem tem prédios e escolas bombardeados agrava suas reflexões sobre culpa. Evita fitar os ucranianos nos olhos.

Interminável, a guerra iniciada quatro anos atrás no Leste Europeu se cruza com a guerra atual entre Estados Unidos e Irã. A funcionalidade dos armamentos iranianos já era, então, determinante. "Russia recently started using Iranian Shahed drones to attack Ukraine", denuncia K. "These drones are simple and stupid, but unpredictable, and it's very hard to shoot them down".

Como fica claro pelas inúmeras convergências, seria uma obra "datada" se a guerra já tivesse acabado; porém, como a guerra segue de vento em popa, já em seu quinto ano, o que temos em "Diaries of War" é um recorte prático das expectativas de seus habitantes nos meses iniciais do conflito. Ainda viria muito pela frente - mas nem a autora, nem os personagens, sabiam disso então.

O livro de Nora Krug é, como outros relatos de guerra, atemporal. É um almanaque didático sobre agressão e sobrevivência, sobre gente comum vendo bombas explodir apartamentos. 

Ten Speed Graphic, 128 páginas  |  1a edição  |  Copyright 2023

Obs.: Em uma das fotos que ilustram o post, à direita, um homem carrega o caixão branco de uma criancinha morta. Por alguma razão, criancinhas ucranianas mortas suscitam pouca reação por aqui.

"90 minutos em Entebbe", por William Stevenson


Há meio século, a União Soviética e o mundo árabe comemoravam a ousada ação terrorista que sequestrou o vôo 139 da Air France. Mais um - em uma época recheada de sequestros aéreos. Havia, fácil, mais de um por mês. A autoria desta ação foi reclamada pela Frente Popular para a Libertação da Palestina e pelas Células Revolucionárias (Revolutionäre Zellen) da Alemanha.

Apenas para citar alguns números: entre 1961 e 1972, 159 aviões tinham sido sequestrados nos Estados Unidos. No Brasil, no período de três anos, de 1969 a 1972, quinze aviões foram sequestrados. Um único Boeing 707, da brasileira Varig, foi sequestrado três vezes em seis meses.

As vítimas se contavam aos milhares. O Boeing 737 sequestrado pelo Exército Vermelho Japonês caiu em Singapura, com mais de cem vítimas fatais. A Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) explodiu uma bomba no vôo da Swiss Air em 1970, matando 47 pessoas.

Ou seja, não havia dúvida sobre o grau de periculosidade dos sequestradores.

Entre os 248 passageiros do vôo sequestrado, o AF139, havia 106 cidadãos israelenses. O vôo partira de Tel Aviv rumo a Paris no dia 27 de junho de 1976. Os sequestradores aproveitaram para embarcar durante a escala em Atenas, com um estoque graúdo de pistolas e granadas a tiracolo.

Mesmo sendo os sequestradores bandidos internacionalmente fichados, o embarque foi tranquilo.

Sei como é lá. Eu estive no aeroporto de Atenas vinte anos depois, em 1995, e o lugar parecia uma rodoviária do interior. Segurança zero. A esteira para retirada das malas era já na beira da rua, com absolutamente ninguém do aeroporto para fiscalizar. Uma verdadeira zona.

Já no ar, os terroristas se apresentaram à tripulação (com os gritos e as ameaças de praxe, todo mundo quieto, vou explodir isso aqui etc) e o avião foi desviado para Benghazi, na Líbia, onde reabasteceu. Dali seguiram viagem para o aeroporto de Entebbe, na Uganda. Seu destino final. 

O sequestro ganhou as manchetes do planeta. A exigência anunciada foi a libertação de 53 terroristas presos em Israel (40) e na Alemanha, França, Suíça e Quênia (os demais treze). O prazo dado foi o do dia 1o de julho. Caso contrário, explodiriam o avião, com os passageiros dentro.

Festa no deserto.

A moçada favorável à ação terrorista estava certa em comemorar. A situação era muito complicada para ser revertida. Uganda, no coração da África, era praticamente inacessível. Era governada por um ditador, com estreitos vínculos políticos com os árabes e, particularmente, os palestinos. Seu exército havia dizimado a oposição e matado dezenas de milhares de civis. 

O prazo dado era exíguo e, face à logística, o cativeiro parecia inexpugnável.

Em êxtase com a visibilidade global alcançada, o auto-intitulado Marechal de Campo Doutor Presidente Idi Amin Dada, Presidente perpétuo da República de Uganda, desfilava entre os presos. Ainda que coiteiro dos terroristas, pretendia ser exaltado como o "mediador".

Vaidoso, no dia 2 de julho viajou para Maurício, para "abrir a 13a sessão da Assembleia dos Chefes de Estado da Organização da Unidade Africana" e desfrutar do boost na sua popularidade. Como disse o ministro do Exterior de Uganda, Juma Abdullah, o "Presidente Amin aproveitou a oportunidade para explicar aos seus colegas todos os esforços que fizera para a liberação dos reféns".

Amin, que nas aparições se dizia candidato a salvar os judeus dos terroristas, era um declarado admirador de Adolf Hitler, o ex-cabo austríaco que promoveu a morte de 60 milhões de pessoas (e que, quando viu a si mesmo em perigo, entrou em pânico e se suicidou dentro de um bunker).

Stevenson cita um discurso na ONU em que Amin "aplaudiu publicamente o assassinato dos atletas israelenses e exigiu a extinção do estado de Israel". O presidente de Uganda "não apenas louvou Hitler pelo massacre de seis milhões de judeus como ainda propôs que lhe fosse erguido um monumento".

O ódio de Amin a Israel talvez possa ser explicado de forma mais prática. Uganda havia se beneficiado da política externa israelense nos anos 70, marcada pelo suporte humanitário e tecnológico às nações africanas. Israel desenvolveu a aviação aérea do país e fez o treinamento dos seus pilotos. 

Amin, que tinha pretensões maiores na África, queria mais, e pleiteou aviões de caça supersônicos (negados por Israel). Em seguida, disse que mandaria um ugandense à Lua e se indispôs com a Tanganica. Resolveu bombardeá-la, contando com o apoio israelense - que, obviamente, tirou o corpo fora dessa roubada, e pôs fim à lua-de-mel diplomática com o ditador maluco. 

Enfurecido, Amin se voltou para a União Soviética, que ficou bem satisfeita em fornecer seus Migs. A partir daí, o Marechal de Campo Doutor Presidente Idi Amin transformou-se em um entusiasta da causa palestina. "Mais de trezentos palestinos foram nomeados para cargos públicos antes ocupados por asiáticos", diz o jornalista.

Uganda, então, virou um enorme campo de treinamento para o terrorismo profissional. O desvio do AF136 para Entebbe era o corolário de um grande esforço para estar no centro dos acontecimentos. Idi Amin estava radiante.

(Apenas para ilustrar: nos anos 70, o exótico ditador da Uganda se tornara tão mundialmente midiático que, quando uma avalanche de milhões de pequenos besouros tomou conta do Rio de Janeiro, eles foram batizados aqui de "Idi amin". Duvida? Pergunte à IA.)

Com tudo isso dito, fica claro o êxito potencial da ação. O avião e os reféns estavam guardados pelo exército de Uganda, que ocupava o aeroporto por dentro e por fora. Após o pouso, os quatro terroristas que sequestraram o avião foram rebaixados a meros vigias. Uma equipe de alto escalão do terror, formada por árabes e palestinos, chegara para negociar e exercer o comando.

Foi feita uma seleção de passageiros, como nos tempos do nazismo. Judeus para um lado, não-judeus para o outro. Os não-judeus foram mandados de volta para casa, como um pretenso gesto de boa vontade de Amin, que dizia ter sido uma conquista dele perante os sequestradores.

Entretanto, os sequestrados não-judeus libertados foram essenciais na descrição 1) do local, 2) do posicionamento dos guardas e estado emocional dos terroristas e 3) da mise-en-scéne do "marechal".

Os sequestradores postergaram a deadline para o dia 3 de julho, domingo, às 11h da manhã. Ou os 53 terroristas que estavam na cadeia seriam libertados ou então os judeus sequestrados seriam executados. A ameaça era começar pelas crianças, uma a uma, até que as exigências fossem atendidas. Não era da boca para fora. Matar era com os caras mesmo.

Assim, estavam a um passo de uma vitória grandiosa. Para os terroristas, era por de joelhos o Estado sionista e dar liberdade aos seus chefes e companheiros. Para Idi Amin Dada, era o estrelato global.

Àquela altura, já havia uma semana que os judeus estavam confinados em um galpão no aeroporto, dormindo no chão, alimentados com carne estragada, sem água e sofrendo com latrinas entupidas. Diariamente, Amin cumpria o ritual de ir lá e responsabilizá-los pela própria situação, dizendo que era o país deles, Israel, que os prendia ali, ao não aceitar as exigências dos sequestradores.

Hipocritamente, se dizia protetor dos reféns, quando era, na verdade, carcereiro.

A diplomacia de Israel, por sua vez, estava em contato diário com o presidente de Uganda, em telefonemas sucessivos, pedindo para que ele não acoitasse os terroristas. Amin se fazia de sonso e se dizia solidário, mas impotente para persuadi-los. Israel teria que pagar o resgate.

Uma situação dramática. Libertar os 53 terroristas pedidos seria uma derrota e uma rendição. Tentar libertar os reféns seria uma ação de alto risco e poderia acabar em tragédia. Enquanto os políticos tentavam chegar a um acordo - sem um fiapo de luz no fim do túnel -, as equipes especiais do exército israelense, após três dias de treinamento exaustivo, já estavam na ponta dos cascos. 

Correndo contra o relógio, quatro quadrimotores israelenses, carregando algumas dezenas de soldados e um Mercedes Benz recém-pintado, alçaram vôo rumo à Entebbe na noite do dia 3 de julho de 1976. Poderiam ser chamados de volta a qualquer tempo; ou receberem no ar o OK para a missão.

As chances de terem êxito eram pequenas; mas a possibilidade de sucesso valia o risco.

Parafraseando a Wikipedia, esta que passou para a história como Operação Entebbe "é considerada por muitos especialistas como a missão de resgate mais complexa e perfeita de todos os tempos".

Confesso que eu já tinha escutado dezenas de vezes referências a esse sequestro. Volta e meia o tal "resgate em Entebbe" aparecia no meu radar. Mas jamais parara para ler a estória. Na verdade, o Oriente Médio nunca foi minha zona de interesse. Até um certo dia, dois anos e meio atrás.

O inominável 7 de outubro de 2023 fisgou minha atenção para o conflito entre israelenses e palestinos. Nunca me ative muito a um problema que eu, erradamente, julgava periférico. O ataque subumano do Hamas, porém, pareceu coisa de neandertais e eu quis entender melhor a questão.

Desde então, li, talvez, uma dúzia de livros sobre a região. Alguns deles já comentei aqui; pretendo comentar outros, mais à frente. Para diminuir minha ignorância, fucei quais autores eram mais respeitados. Tentei evitar os engajados e os panfletários. Acho que deu certo. Gostei do que li.

O rolo no Oriente Médio é um saco de gatos. É melhor delimitar uma linha do tempo e pular fora das abordagens maniqueístas. Mesmo com todo esse cuidado, é difícil entender esse pega-pra-capar.

Sob um prisma mais restrito, tudo começa a partir da resolução da ONU que estabelece a divisão do antigo Mandato Britânico da Palestina entre árabes e judeus, em 1948. A recusa árabe em aceitar a divisão desemboca na guerra aberta contra os 700 mil judeus nascidos e residentes na região.

A resistência dos judeus, apesar da sua precariedade militar, leva a um desfecho imprevisto - a vitória dos locais e à declaração do Estado de Israel. O evento é conhecido pelos vitoriosos como "Guerra da Independência" - e pelos derrotados como a "Grande Nakba". A grande catástrofe. 

A partir daí houve a guerra dos israelenses contra os egípcios, em 1956, a Guerra dos Seis Dias, em 1967 (dos israelenses contra os egípcios, sírios, libaneses, jordanianos e iraquianos), e a Guerra do Yom Kippur (assim chamada por terem os egípcios deflagrado a guerra no feriado sagrado anual dos judeus, o "Dia do Perdão"), em 1973.

A guerra no sul do Líbano, em 1978, também denominada Operação Litani, teve início após o atentado terrorista palestino conhecido como "Massacre da Estrada Costeira", que sequestrou e matou 38 civis israelenses, incluindo 13 crianças.

É a partir daí que a desproporção de forças entre Israel e seus vizinhos se torna evidente. Israel deixa de ser um pobre-coitado, sempre sob ameaça de linchamento pelos árabes ao redor, e passa a bully.

A ofensiva israelense visava estabelecer uma linha de proteção entre Israel e as forças terroristas da OLP (Organização pela Libertação da Palestina), que se valiam do Líbano para lançar ataques terrestres e de mísseis contra o território israelense. Após empurrarem os terroristas para trás do rio Litani, um acordo de paz foi celebrado entre Israel e a OLP. 

O conflito, entretanto, não ficou suficientemente bem resolvido (como não ficara nos trinta anos anteriores e também jamais ficaria, como temos acompanhado no meio século seguinte). Em 1982, Israel novamente invadiu o Líbano, para combater os terroristas palestinos. O país enfrentava o caos e a guerra civil.

Após diversas guerras, a década de 70 e o início dos anos 80 remodelaram o conflito árabe-israelense. Se o bully, Israel, conquistou supremacia militar, o acossado, o palestino, contava com o efeito surpresa em ataques surgidos do nada, no meio das cidades israelenses.

O novo front era protagonizado por terroristas armados, à paisana, contra civis desarmados (incluindo mulheres, velhos e crianças) e alheios à proximidade do perigo. O embate soldado a soldado ficara no passado. Na nova contabilidade do terrorismo, o que valia era a quantidade de defuntos.

Foi espremido entre esse monte de eventos, entre a Guerra do Yom Kippur, em 1973, e a Operação Litani, em 1978, que ocorreu o sequestro do vôo 139 da Air France.

Quando o assunto foi mais uma vez mencionado em um dos livros que lia, encasquetei - como é que Israel conseguiu resgatar os sequestrados no meio da noite, trancafiados em um galpão no coração da África, cercados por fanáticos sanguinários, perdendo apenas um soldado e quatro reféns?

Foi aí que fui buscar na internet livros que me contassem essa estória. Optei por "90 minutos em Entebbe" pelo ano da publicação. Só achei no sebo. Foi publicado em 1976, no próprio ano do sequestro. O autor era um reputado jornalista britânico-canadense, que lançou o livro semanas após o evento, certamente visando faturar enquanto o assunto ainda estava quente nos jornais.

Isso trouxe algumas desvantagens na concepção do livro, que parece uma colagem feita às pressas de uma série de depoimentos e versões. Parece, não; é. O autor vai e vem na estória, mistura diários, matérias de jornal, relatos diplomáticos e o próprio conhecimento. O livro é uma colcha de retalhos. 

Essa "colagem" poderia dar certo, se fosse mais bem organizada. Não foi. O jornalista tinha nome, background, e os relatos eram verdadeiros. Bastava. Tinha ainda as transcrições dos debates da semana seguinte na ONU e a transcrição integral de três telefonemas entre o coronel Baruch Bar-Lev e o presidente Idi Amin. O editor juntou tudo e mandou para o prelo. 

O fato é que, ainda que Stevenson tenha tido livre acesso a interlocutores de peso, o resultado ficou longe do ideal. Jogaram para o leitor a responsabilidade de fazer seu próprio rearranjo mental dos fatos narrados.

Funciona, mas não é o que se espera de um (bom) livro-reportagem.

É verdade, admitamos, que qualquer coisa produzida no calor dos acontecimentos terá sempre suas lacunas. E que o texto mais bem pesquisado (e melhor burilado) da atual indústria editorial está léguas à frente do que se fazia, nesse mercado, nos anos 70.

Ou seja, deficiências à parte, a obra tem seu valor. Sendo contemporânea dos fatos que descreve, não está contaminada pela obtusa politização ideológica das décadas posteriores.

O frenesi mundial por aquela que foi batizada "Operation Thunderbolt" gerou uma vasta quantidade de filmes, entre produção de ficção e documentários. O "Victory at Entebbe", produzido em 1976 para a ABC TV, reunia no elenco Burt Lancaster, Elizabeth Taylor, Anthony Hopkins, Linda Blair, Richard Dreyfuss e Kirk Douglas - uma constelação dos mais populares e bem pagos astros da época.

"Raid on Entebbe", produzido em 1977 para o cinema, trazia Charles Bronson (a grande estrela dos anos 70), além de Peter Finch, James Woods e Martin Balsam, entre outros. 

Por conta do heroísmo, das dificuldades e do sucesso quase absoluto da operação, as telas continuaram recebendo uma série de produções, entre elas a mais recente "7 days in Entebbe", de 2018. O elenco é internacional e o diretor é brasileiro - José Padilha, famoso pelo seu "Tropa de elite".

Antes de ver os filmes, porém, quis ler a estória detalhada do que aconteceu. "90 minutos em Entebbe", do jornalista William Stevenson, me permitiu entender, ainda que precariamente, filigranas do que se passou. Não me satisfez (ainda), mas trouxe um conteúdo robusto.

Como não é ficção, não tem spoiler, né? então tô liberado pra contar o fim dessa estória.

Na noite de 3 de julho de 1976, os quadrimotores dos judeus pousaram no velho aeroporto. Da barriga dos cargueiros saíram uma Mercedes e vários Land Rovers, entulhados com os melhores atiradores do exército de Israel. Quando se aproximaram dos soldados que protegiam o galpão, passaram os caras no fogo antes de darem boa-noite.

Os sequestradores nem de longe sonhavam que aquilo pudesse acontecer. Ninguém, aliás. Foram surpreendidos com o tiroteio que acontecia em meio à escuridão. As tropas de Israel invadiram a velha sala de embarque sem dó, mandando bala em todo mundo que estava em pé.

Tiveram a presença de espírito de gritarem em hebraico para os reféns se jogarem no chão.

Os sequestradores não foram páreo os invasores. Depois de eliminar os terroristas, o comando deu ordem para que os reféns fossem para o avião. A contar entre o pouso e a decolagem do aeroporto de Entebbe, toda a ação tomou 55 minutos - um minuto a mais do que o previsto nos ensaios.

Enquanto isso, o marechal doutor presidente dormia o sono dos anjos. Foi acordado, porém, às duas da manhã, por mais um telefonema de Israel. Acordou irritado. Do outro lado da linha, o israelense Bar-Lev tranquilizou Idi Amin: "Liguei somente para agradecer sua cooperação, presidente". 

O corpulento ditador de Uganda (1,93m, 140 quilos), balbuciou, sem entender do que se tratava. "Com o que ele tinha cooperado?" perguntou. Pediu explicações, mas o judeu desligou. Essa iria ser uma desconsolada madrugada para Amin e seus besouros homônimos.

Os reféns foram recebidos com festa em Israel. O sucesso da operação Thunderbolt foi estampado em todas as manchetes do mundo ocidental. Já os árabes acusavam, indignados, a inaceitável violação da soberania ugandense, que teve seu território invadido, seus aviões destruídos e seus soldados mortos.

"A África não pode permitir que uma parte do seu solo seja usada pelos sionistas de Israel para atacar um país irmão", disse, uma semana após, o ministro do Exterior de Uganda, no plenário da ONU. "Israel mais uma vez demonstrou sua qualidade de banditismo e de barbarismo".

O ministro ugandense foi enfático ao condenar Israel por ter resgatado os israelenses sequestrados. Condenou "a agressão de Israel" como sendo "bárbara, não provocada e injustificada".

A Somália fez coro com a Uganda. Hussein, seu representante, insistiu para que "o Conselho condene em termos os mais fortes possíveis o regime sionista de Tel Aviv pelo incrível ato de agressão cometido contra o povo e a o governo da República de Uganda".

Os principais jornais do planeta acompanharam a evolução dos acontecimentos. Em 1o de julho, assim que parte dos reféns foi libertada, a Associated Press informou que "os reféns recentemente liberados pelos sequestradores de um avião da Air France disseram que, quando pousaram em Entebbe, já havia quatro árabes bem armados aguardando no aeroporto".

Le Monde ratificou o fato na edição de 5 de julho. Na pista do aeroporto "vieram ao seu encontro, logo depois do avião haver descido, quatro ou cinco palestinos com metralhadoras".

A edição do New York Times do mesmo dia publicou que "fontes oficiais e os passageiros liberados declararam hoje que tinham provas de que o Presidente Amin estava em conluio com os sequestradores do avião depois que ele desceu em Uganda". 

Complementa ainda o NYT que nas "primeiras 24 horas depois da chegada em Entebbe, os sequestradores foram embora para descansar e os soldados ficaram tomando conta dos reféns".

Também no mesmo dia o Washington Post publicou que "os 148 passageiros não judeus liberados disseram que viram Amin abraçar o chefe da quadrilha e que os quatro terroristas haviam saído deixando os reféns entregues à guarda de soldados durante 24 horas".

A transcrição dos debates na ONU toma quase quarenta páginas do livro de Stevenson. Nela, o nome da passageira Dora Bloch é mencionado dezenas de vezes. Dora foi a única refém não resgatada. Ela, uma senhora idosa, viajava com seu filho adulto, para ir ao casamento do seu outro filho. Passou mal no cativeiro e foi levada a um hospital. Não estava no aeroporto no momento da ação.

Chaim Herzog, representante de Israel, questionou o governo de Uganda sobre o seu paradeiro e sobre sua cumplicidade com os sequestradores:

"Por que não soltou Dora Bloch, uma senhora de 75 anos, logo depois dos terroristas terem sido eliminados? Por que ela foi retida em custódia no hospital sob a guarda de soldados em Kampala? Por que não a entregaram ao Cônsul da Inglaterra, quando ele a procurou no domingo, 4 de julho, depois da operação de resgate?"

"Por que, de repente, somos notificados que as autoridades de Uganda não sabem do seu paradeiro quando ela foi retirada resistindo e gritando por quatro funcionários do hospital?", questionou veementemente Herzog, escalando o tom.

"Aqui nós temos esse espetáculo incrível e macabro de um estado declarando guerra a uma senhora de 75 anos", acusou o representante israelense. "Um estado que encontra apoio presumível naqueles que se associam com esse comportamento desprezível e covarde".

O representante de Uganda rechaçou as acusações. "Ela foi devolvida para o prédio do aeroporto de Entebbe na noite de sábado, 3 de julho. Só Israel sabe responder onde está Dora Bloch".

O New York Times, porém, publicara em 9 de julho que "na Câmara dos Comuns da Inglaterra, ontem, um ministro do governo disse que Dora Bloch fora visitada no hospital por um membro da Alta Comissão no dia seguinte do ataque de Israel", o que desmentia a versão do ministro de Uganda.

"O diplomata informou que Dora Bloch estava sob as vistas de dois homens em trajes civis e quando voltou uma hora depois não lhe permitiram mais que a visse", prosseguiu o artigo do NYT. "Pessoas do Hospital Mulago informam que seus registros mostram a entrada de Dora Bloch na última sexta feira, mas nada dizem quanto ao seu tratamento ou alta do hospital".

À época, dias após a operação, havia a expectativa que Dora Bloch fosse libertada com vida - o que jamais aconteceu. Consultando hoje o Google, a informação oferecida é que "uma refém idosa, Dora Bloch, que tinha sido levada a um hospital em Uganda antes do resgate, foi assassinada por ordem de Idi Amin como retaliação após a operação israelense".

Durante os quatro dias de debates na ONU, o paradeiro de Dora Bloch permaneceu desconhecido.

O presidente da Somália, Jaalle Mohamed Siad Berre, telegrafou então a Idi Amin, chamando os israelenses de "terroristas". Disse ele ter acompanhado "com grande choque e assombro o sujo ato de agressão perpetrado por tropas dos sionistas de Israel, terroristas e imperialistas, em Entebbe". 

Chamou ainda a operação de resgate dos reféns de "bárbara" e um "arrogante insulto à dignidade da África e da humanidade". Fez questão de destacar que o resgate dos sequestrados "contraria todas as normas de comportamento e conduta internacionais".

O presidente somali intitulou Uganda como "amante da paz" e que o país não teria sido o primeiro "cuja integridade e soberania territorial foram violadas pelo arrogante regime racista de Israel".

Siad Berre invoca que "todos nós lembramos das ocasiões em que o mundo esteve à beira de uma guerra total devido ao descarado comportamento do regime sionista no Oriente Médio e ao seu completo desprezo pelo direito internacional". Atribui à Israel uma "sinistra mentalidade".

Posteriormente, a ação "sinistra" seria rebatizada de "Operação Yonni", em homenagem ao único soldado israelense morto na ação. Militar experiente e intelectual admirado, seu nome completo era Yehonatan Netanyahu. Seu irmão, Benjamin, vulgo "Bibi", se tornaria o Primeiro-Ministro de Israel.

Mas aí já é outra história.

Editora Difel, 223 páginas  |  4a edição, 1977  |  Copyright 1976  | Tradução  Luiz Corção