"Revolução Francesa: o povo e o rei", por Max Gallo


A Revolução Francesa foi uma carnificina.

Os belos elementos que ela doou à posteridade - La Marseillaise, Liberté, Egalité, Fraternité etc - têm espaço bastante reduzido na sua história prática. Seus protagonistas foram muito mais a guilhotina, os assassinatos e a manipulação do furor das multidões, essa bovina.

Para nós, brasileiros, um rápido - e tosco - paralelo seria o 8 de janeiro, quando uma horda de imbecis invadiu o Congresso e os palácios de Brasília, atacando relógios e poltronas, grafitando estátuas e postando nas próprias redes imagens documentando os crimes idiotas que cometeram.

Pois é. Nossa baderna tupiniquim durou um dia e não matou ninguém. Imagine, porém, que milhares de brasileiros tivessem morrido, com o STF condenando mensalmente centenas de sujeitos à morte, incluindo seus próprios integrantes. Foi mais ou menos assim o período revolucionário.

Só que, pas de doute, muito pior, como nos contam os dois tomos deste "Revolução Francesa".

Inegável que o livro escrito por Max Gallo tenha uma prosódia atípica para um livro de história. Ele é um encadeamento de milhares de frames. Cada frame é um parágrafo. Cada parágrafo, todos curtos, encerra um raciocínio, uma fração da escalada, um desdobramento, uma dor, um fato.

E assim o historiador conduz o leitor, passo a passo, até o cadafalso.

Porque desta maneira termina o primeiro livro: com Luís XVI, ex-rei de França, decapitado.

Gallo escolhe nos contar a história da Revolução sob a ótica do rei. É de dentro das galerias de Versalhes e dos salões das Tulherias que o autor nos traz a dramática história do último rei francês - e de sua esposa soberba e infiel, a austríaca Maria Antonieta.

Todos os demais personagens são vistos da janela do palácio. Solitário, Luís XVI se ressente das atitudes de Necker, Mirabeau, Marat, Danton, Robespierre, Desmoullins e tantos outros.

Decepcionado e confuso, Luís é um sofredor. Sofre por si mesmo, pela família e pela França; sofre com a humilhação que gradativamente é imposta a ele, que deveria estar acima de todos, rei que é por decreto divino. É este soberano em constante conflito que nos é oferecido.

O fato do autor optar por esta abordagem, que privilegia a psique de Luís XVI (que se supunha, repito, eleito por Deus), não distorce os fatos; os humaniza. Gallo prefere o viés da triste história do rei que, ao invés de reinar e ser reverenciado, teve por sina o desrespeito e a guilhotina.

E o mais curioso é que, muito cedo, ele próprio percebeu que a revolução conduziria à sua morte.

Morte esta que foi uma segunda etapa revolucionária. Há um considerável hiato entre os dois momentos-chave da Revolução Francesa, que muitos entulham dentro de um sanduíche só: a Queda da Bastilha e a condenação do Rei à morte. São dois eventos distintos, ainda que interligados.

A Queda da Bastilha aconteceu em 14 de julho de 1789. Já era a revolução. Seu gatilho era a insatisfação popular com o custo de vida, o preço do pão, a boa vida dos nobres - e a manipulação política de tudo isso por parte de alguns dos personagens que citamos acima. 

A França era um barril de pólvora.

A política de então se fazia menos de moções e mais de linchamentos. Se você estava "em baixa" e, passando pelas ruas de Paris, um ou outro sans-culottes começasse a apontá-lo e a xingá-lo, daí para você em dez minutos estar com a cabeça espetada na ponta de uma lança bastava um espirro.

Matava-se muito, e a troco de nada. E não estávamos na Idade Média. O Iluminismo (também chamado "Século das Luzes" ou "Século da Razão") já tinha produzido nomes como Jean-Jacques Rousseau, Emanuel Kant, Voltaire etc. A barbárie - em tese - pertencia ao passado.

Mesmo sendo difícil comparar sociedades distantes no tempo e no espaço, Gallo nos traz algumas ordens de grandeza. A França era o país mais populoso da Europa e tinha 28 milhões de habitantes. Era uma nação rural. Os camponeses representavam 82,5% da sociedade. Os burgueses eram 10% e os servos eram 6%. A nobreza representava 1,5% - o que incluía os 130 mil representantes do clero.

Era para reinar sobre este povo que Luís XVI recebera, a contragosto, o mandato divino. Luís gostava de caçar e não era o primeiro na linha sucessória. Como detalha o historiador, Luís não achava que reinaria, não queria reinar e nem estava preparado para.

Mas o destino endereçou a ele a missão de ser o Rei da França. O último deles.

Recebeu um país conturbado e endividado. As muitas guerras tinham drenado os cofres. A arrecadação dos impostos ficava aquém das necessidades da nação. Novos empréstimos eram feitos. O populacho, faminto, protestava. A política fervia. A nobreza era o bode expiatório.

Ainda que não quisesse, casar era um impositivo do cargo. Coube a ele a voluntariosa e esnobe princesa austríaca Maria Antonieta - aquela que passou para a história por conta dos brioches. A frase ("Não têm pão? Comam brioches") provavelmente nunca foi dita, mas pegou.

Não rolou química entre os dois. Na verdade, parece que não rolava nada. Houve enorme dificuldade para a consumação do casamento. As testemunhas dentro do quarto não ajudavam. Elas estavam ali para exercer sua função - testemunhar o defloramento da princesa. Mas, se o negócio já não funciona a contento, pior ainda com um monte de gente cercando.

O vexame saiu do castelo e correu a França. O mundo, aliás. O rei era bom de caçar viado. Era o que fazia desde moleque - ops, desde delfim. Mas naquele novo assunto o buraco era mais embaixo.

Para alívio geral, após alguns meses, enfim, Luís fez o que todos os bons centroavantes fazem na cara do gol: empurrou pra dentro. Quando a rainha engravidou, houve festa em Paris. A dinastia estava salva.

O jovem militar sueco Axel von Fersen, um nobre, amigo próximo da rainha, talvez tenha dado importante contribuição. Vá saber. Próximo da corte e do casal real, Fersen era admitido em Versailles a qualquer tempo e hora, estivesse ou não o rei em casa. 

Luís XVI sabia das visitas e não criava problemas. Já tinha os seus.

O rei era influenciável, tímido, mas cônscio que o poder lhe pertencia. A economia e a política eram desafios constantes. A debilidade da primeira e a temperatura da segunda vinham fragilizando seu governo. O povo estava na rua. Ameaçava os nobres. Ameaçava a monarquia.

A princípio cético, Luís, que não era burro, logo percebeu que as instituições francesas estavam em perigo - mas rejeitava enquadrar a si próprio neste contexto. Era o Rei. Recebera o mandato diretamente de Deus. O povo o adorava. Tudo ao redor poderia, sim, desmoronar. Não o Rei. 

Na noite de 13 para 14 de julho de 1789, cem mil pessoas se acumularam ao redor do fosso da Bastilha. Não temiam os canhões, que não foram disparados. Mil homens, se pondo à frente dos cem mil, ameaçam atacar. A Bastilha é defendida com 82 inválidos e 32 soldados suíços.

A negociação para uma invasão "pacífica" faz baixar as pontes levadiças. "A Bastilha cede. Promete-se poupar a vida da guarnição. A multidão irrompe. Destruição. Tiros", descreve Gallo.

São 98 os mortos da entrada "pacífica". O administrador da Bastilha, o marquês de Launay, que desde o princípio contemporizava, e mandara baixar as pontes, recebe um golpe de espada, sabe-se lá vindo de onde. O povaréu começa a linchá-lo. É atravessado por golpes de baioneta e feito, literalmente, picadinho ("cortado em pedaços"). Um ajudante de cozinheiro corta sua cabeça.

A cabeça de Launay, espetada num tridente, passeia por Paris, cumprimentando as estátuas. Ela vai se juntar a outras cabeças. Quem ainda mantém a sua no lugar de nascença, como o livreiro Ruault, escreve que "a jornada de terça-feira matou o poder do rei. Ei-lo à mercê do povo por ter seguido os pérfidos conselhos de sua mulher e seu irmão, o conde de Artois".

A revolta popular que levou à queda da Bastilha foi um sinal bastante convincente. A Bastilha era a cadeia real. Era onde o poder encarcerava aqueles dos quais não gostava. Pois o povo pôs a Bastilha abaixo. Matou quem se opôs e quem estava pela frente. Uma nova era começava. 

A Era do Terror. 

Os que colocavam a lenha na fogueira eram os novos astros. Marat, físico, filósofo e ex-médico das cavalariças do conde de Artois, lança o jornal L'Ami du People; Camille Desmoulins publica o seu Les Révolutions de France et de Brabant; Brissot, o Le Patriote Français; Robespierre e Danton, com sua oratória virulenta, alcançavam protagonismo na Assembleia. 

Ainda assim, mesmo rechaçando o poder constituído, os revolucionários respeitavam a figura do rei. Acreditava-se possível a derrubada da nobreza e a manutenção do rei. Ele próprio se escorava nessa ideia. Cria que seu status seria mantido na nova ordem. Outros suspeitavam que não.

O regime feudal é abolido. A Assembleia proclama a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. É o espírito das luzes. "Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum", prega o texto. 

"Quase todos se entusiasmam diante das tábuas da lei da Revolução", ressalva o autor. "A Declaração não é apenas uma arma contra a arbitrariedade do regime monárquico", diz Mirabeau. "Ela tem um caráter universal", completa. Barnave aplaude: "A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão é o nosso catecismo nacional".

No meio dessa barafunda, a Revolução não extinguira a monarquia; apenas a limitara. Partidários de um e outro lado esticavam a corda. O Rei pleiteava um direito de veto aos novos decretos (instrumento político ativo até os dias de hoje; o presidente do Brasil faz uso dele para vetar as leis que não lhe agradam, cabendo ao Congresso derrubar, ou não, o veto).

A Assembleia ferve. Deputados monarquianos e patriotas. Separam-se, respectivamente, em "direita" e "esquerda", a favor e contra o veto. Direita e esquerda eram os dois lados da Assembleia. Se tornou uma simbologia permanente. Nesta sua origem, a direita monárquica ganhou. Os patriotas - ou seja, a esquerda - perderam.

Esquerda e direita continuaram se confundindo através dos tempos.

A vitória pontual do rei não seria longeva, como sabemos. E, na verdade, ele aparentava acatar os dispositivos da Revolução sem, na verdade, os aceitar. Se a Assembleia Nacional o proclamou "Restaurador da Liberdade Francesa", ele, às escondidas, escrevia ao bispo de Arles:

"Jamais consentirei no despojamento de meu clero, de minha nobreza...", registrou, na manhã seguinte à votação. "Não darei minha sanção a decretos que os despojem".

A fome e a escassez, porém, continuavam. A revolta popular não esmorecia. Nada ali era tranquilo. "Em torno do rei, conheceram-se momentos de pânico, discutiram-se planos de fuga", afirma Gallo. "Mas Luís recusou-os, murmurando que não poderia ser um 'rei fugitivo".

O povo rumou para o castelo de Versalhes. Passam por cima da guarda. Invadem o palácio. Maria Antonieta é o principal alvo. "Queremos cortar sua cabeça, arrancar seu coração, despedaçar seu fígado", gritam os manifestantes. Soldados têm as cabeças cortadas. O rei vai para a sacada, na tentativa de acalmar a turba. O povo o escuta. O rei promete que irá a Paris.

"A uma hora dessa terça-feira, 6 de outubro de 1789, o cortejo de mais de trinta mil homens e mulheres parte na direção de Paris". A família real segue na carruagem. Charretes de trigo e farinha são confiscadas pelo povo.

"Trazemos o padeiro, a padeira e o pequeno ajudante de padaria", cantam. O povo que escolta a carruagem xinga a rainha. As cabeças dos soldados degolados, presas na ponta das lanças, ganham perucas. O povo as brande nas janelas da carruagem, na cara de Maria Antonieta.

No dia 10 de outubro, na Assembleia, um deputado do Terceiro Estado de Paris, o doutor Guillotin, propõe uma nova maneira de execução da pena capital, uma máquina eficaz, que cortaria o pescoço dos condenados "segundo o princípio da igualdade". O deputado deu nome à engenhoca. Guilhotina.

Taí uma coisa que iria ser bem usada nos anos seguintes, seja para tirar a cabeça dos outros ou para perder a própria.

Assim, se durante muito tempo Luís XVI recusou a ideia de uma fuga, a escalada dos acontecimentos pós-queda da Bastilha lhe fizeram ver que ele e a família real corriam perigo. "É preciso fugir, então, como deseja Maria Antonieta, mas Luís se censura por colocar em perigo seus filhos", diz o autor. Marat convoca o povo para exercer uma estrita vigilância sobre a família real.

"Cidadãos, armai-vos de machados e lanças; muita iluminação por três dias, intensa guarda em torno do castelo das Tulherias. Parai todos os veículos que queiram sair de Paris", conclama.

O rei resolve ir com a família ao castelo de Saint Cloud. A carruagem é abordada, as rédeas dos cavalos são tomadas. Os guardas nacionais impedem sua saída. O povo cerca a carruagem por uma hora e meia. Luís XVI desce e se conforma: "Não sou livre? Não posso sair? Muito bem, ficarei!"

Foi a gota dágua. O rei decide fugir. Cartas são enviadas para a Bélgica e para a Áustria. À meia-noite e dez da terça feira, 21 de junho de 1791, Luís XVI, vestido como uma criado de quarto, embarca em uma citadina (um uber da época...), dirigida pelo conde Fersen, o sueco amante da rainha.

Era mais um "uber black", estofado em veludo e com "vasos para necessidades". Certamente os vasos iam sacolejando e respingando. Este seria o menor dos problemas. O que pegava era que já estavam com três horas de atraso em relação ao esquema previsto. Em Montmédy, na fronteira com a Bélgica, dez mil soldados austríacos estavam à espera da família real.

E como às sete horas da manhã fora dado o alarme de que o rei fugira, já estavam em seu encalço. A fuga era inequívoca, pois o rei deixara uma declaração ao povo, se queixando de sua situação. La Fayette diz que o rei fora raptado (o que aliviaria a barra de Luís XVI, se capturado).

Com quatro horas de atraso, a família real é cercada por uma barricada em Varennes-en-Argonne. Os mensageiros de La Fayette apresentam ao rei o decreto ordenando seu retorno à Paris, onde desembarcam, cinco dias depois. A multidão insulta a rainha, quando ela desce da carruagem.

Os "Abaixo a austríaca" derivam para "maldita" e "vadia". Gallo conta que "naquela manhã, ao tirar sua boina na frente da criadas, esta constatará que os cabelos de Maria Antonieta tinham se tornado completamente brancos, como se os de uma mulher de setenta anos".

O autor endossa, entretanto, que "o rei continua sendo rei: fora apenas afastado". A política continua fazendo possível acreditar em todas as alternativas; o poder real poderia ser restituído. Ou não. Mas a "opinião pública" se expressava diariamente

"Imbecil! Porco! Pérfido! Covarde!" grita o populacho para o rei, quando ele se aproximava de uma janela do palácio. Não ficava por aí. Segundo Gallo, o rei era "ameaçado de ser sangrado, desmembrado, de ter o coração devorado".

Com a rainha seguiam na mesma toada. Chamavam-na de "a vadia Toninha" ou a austríaca que é preciso "açoita, esfolar".

Maximilien Robespierre, contido, se atinha ao essencial. "A rainha não passa de uma cidadã", afirmou, "e o rei, na qualidade de primeiro funcionário do reino, está submetido às leis". Enquanto na Assembleia Pétion o dizia um "monstro" e Vadé "um bandido coroado", Robespierre, cauteloso, se recusa a assinar a petição que exigia a deposição do rei.

A nova constituição, em que o rei não o é mais por direito divino, mas permanece rei, é assinada. Luís não é mais prisioneiro. Os envolvidos na sua fuga (o "rapto") são perdoados. Diz-se que a revolução chegou ao fim. Não é o que pensa Robespierre.

A Assembleia estava, como o país, dividida. Amedrontados, oitenta mil nobres haviam deixado a França. Em Paris, dos seiscentos mil habitantes, cem mil eram pobres e tinham fome. Dizia-se que "cem mil armas simples e fáceis de manejar" foram distribuídas aos cidadãos.

Falta comida nas províncias. Nos campos, as colheitas foram medíocres. Carruagens são pilhadas, padarias são saqueadas. Os comboios de grãos que cruzam a cidade são pilhados. O prefeito, Simoneau, que vai às ruas com um destacamento para tentar garantir a ordem, é assassinado.

Enquanto isso, o conde Fersen - sempre ele - chega clandestino à capital. Diz à Luís e Antonieta que o rei da Prússia, Frederico Guilherme II, prepara com o duque de Brunswick uma ofensiva militar a Paris. Luís topa o plano. Em miúdos, o rei da França, no trono, anseia para que os estrangeiros derrotem a França no campo de batalha, para que ele, rei, recupere seu poder monárquico.

Conta Gallo que Maria Antonieta não tinha escrúpulos com a situação; mas que Luís se doía. Afinal de contas, ele estaria se aliando aos inimigos da França. Pois é. Por outro lado, seus súditos são seus algozes e carcereiros. Uma sinuca de bico - mas, a bem da verdade, o rei nem taco tinha.

O povo cotidianamente o insultava e ameaçava. O procurador do Sena, Pierer Roederer, escreveu: "O trono ainda está de pé, mas o povo sentou nele e tirou suas medidas". Segundo Gallo, Luís "em momento algum temeu aquela multidão cheia de ódio, mas sabe que ela um dia o matará".

O rei passou a usar um colete "à prova de balas" rudimentar, composto de quinze camadas de tecido. A ideia foi da esposa, que temia que o apunhalassem. Maria Antonieta avalia o marido:

"O rei não é um covarde", diz ela; "Tem uma imensa coragem passiva... Ele tem medo do comando e teme acima de tudo ter que falar aos homens reunidos... Nas circunstâncias em que nos encontramos, algumas palavras bem articuladas, dirigidas aos parisienses que lhe são devotados, centuplicariam as forças de nosso partido", afirma. "Ele não as dirá".

Paris, amotinada, ainda assim é multiforme. Ao mesmo tempo em que há conflitos pelas ruas, a vida segue normal, as peças estão em cartaz, concertos têm lugares esgotados. De Marselha chegam mais revoltosos armados, cantando "Às armas, cidadãos! Formai vossos batalhões". Vieram cantando pelas estradas. Definitivamente, a música pegou. "Se espalha como um rastilho de pólvora".

Luís vê a situação escalar. Corre o boato de que tropas prussianas e o exército dos príncipes invadiriam Paris e supliciariam os patriotas. Um manifesto defendendo a monarquia é publicado, assinado pelo Duque de Brunswick - um general prussiano. É como querer apagar o fogo com gasolina. 

Os 745 deputados da Assembleia irão se reunir em 10 de agosto de 1792 para decidir, ou não, pela deposição do rei - concluindo a jornada revolucionária iniciada em 14 de julho de 1789. A Assembleia não quer depor o rei, mas o povo o exige. Cerca o castelo das Tulherias, e o combate com a guarda suíça do rei leva a centenas de mortes. Um massacre hediondo.

Um jovem militar de 23 anos observa a cena da sua janela e depois da refrega percorre o campo de batalha. "Os feridos são assassinados", diz. "Vi mulheres bem-vestidas chegarem às piores indecências sobre os cadáveres dos suíços. Elas mutilavam os soldados mortos e depois brandiam seus sexos ensanguentados. Vil canalha!", se exaspera.

O jovem acusa o que considerou uma covardia de Luís XVI. "Se o rei tivesse se mostrado a cavalo, a vitória seria sua". Este militar, corso, falava francês com sotaque. E se chamava Napoleão.

Dos 745 deputados, apenas 285 apareceram para votar. Decidem pela suspensão e reclusão do rei. Por exigência do populacho, será confinado com a família na torre do Templo, sob vigilância severa. Um preso comum, sem luxo ou visitas. Como diz Gallo, "é o ano I da igualdade que começa".

"A jornada do dia 10 de agosto muda todas as ideias dos patriotas", escreve um membro do Clube dos Jacobinos. "Eis-nos recomeçando uma nova Revolução que anula a de 1789. Parece decidido que a realeza será abolida, que será criado um regime republicano democrático. Será mais um encadeamento de males e desgraças dos quais sairemos quando Deus o quiser..."

Seu texto é anônimo. Ninguém, àquela época, gostaria de estar do lado errado. "A Comuna de 10 de agosto começa a fazer uma parte dos habitantes de Paris tremer... os partidários da Revolução se dividem em dois tipos, os de 89 até o dia 10 de agosto exclusive, e aqueles a partir de 10 de agosto, que se dizem patriotas por excelência".

A França está em convulsão. Se Paris condenou o rei, boa parte do país é contra a Revolução. O exército austro-prussiano avança em território francês e conta com vinte mil emigrados.

A chouannerie, insurreição contrarrevolucionária monarquista, domina a Normandia. Na Vendeia, na Bretanha, no Dauphiné, no Norte, no Centro, no Sudoeste, há oposições à revolução de 10 de agosto.

A Assembleia, em 31 de agosto, declara ilegal a Comuna Insurrecional. "Mas a Comuna se recusa a ceder, ela é o poder de fato", escreve o autor. "Ela é a voz do patriotismo que inflama os sans-culottes, pois a pátria está em perigo". 

"Uma parte do povo irá até a fronteira, outra cavará trincheiras", exclama Danton, "e a terceira, com lanças, defenderá o interior das cidades..." Empolgada, a juventude se alista para combater os invasores, cantando "Mourir pour la patrie/ Est le sort le plus beau/ Le plus digne d'envie".

Mais uma etapa sangrenta da longa guerra civil se desdobra em Paris. Temendo a chegada dos exércitos estrangeiros que invadem a França para revalidar o poder real, as portas das prisões são abertas. Ladrões e assassinos lutarão contra os invasores; os presos políticos são assassinados de forma bárbara.

"Os carrascos vão tomando o tempo de fazer os sentenciados sofrerem, deleitando-se em ver aqueles homens e mulheres se arrastando, ensanguentados, feridos pela lâmina do sabre antes de serem trespassados", detalha Gallo. "Às vezes enfiam o punho no peito do cadáver e retiram seu coração, levando-o à boca, num simulacro de ingestão canibal".

Os criminosos libertados saem cidade afora, matando, pilhando e roubando. "Paris fica entregue, por quase uma semana, a algumas centenas de assassinos e ladrões", afirma o historiador.

A princesa de Lamballe, amiga da rainha, é morta com selvageria. "Uma mulherzinha vestida de branco", testemunhou um cidadão, "que os carrascos armados com todo tipo de arma abateram". 

Descreve Gallo que "sua cabeça é cortada, seu corpo é arrastado, despedaçado e o coração arrancado". Mais: "Espalha-se o rumor de que ela fora grelhada e que um homem a comera".

O povaréu vai até a torre onde está confinada a rainha e exigem que ela venha à janela. Mostram a ela a cabeça decapitada da amiga. "A Comuna Insurrecional chama a turba de o povo soberano".

O tal povo soberano é uma ameaça a todos, incluindo os revolucionários de 14 de julho de 1789; os que não se mostrassem adeptos da Revolução de 10 de agosto de 1792 estavam sob risco de vida.

A encarada entre o exército prussiano monarquista e o exército francês revolucionário se dá na Argonne, no planalto de Valmy, em 20 de setembro. Trocam tiros de canhões. No duelo de artilharias morrem trezentos franceses e quase duzentos prussianos. Um temporal desaba. Os prussianos recuam. A batalha, ganha pela Revolução, passa a se denominar de "A vitória de Valmy".

Em Paris, o povo culpa o rei, encarcerado, pela guerra. Sob o clamor do combate, a Convenção Nacional decreta que a realeza foi abolida da França. O rei, Luís Capeto, é agora um mero prisioneiro.

Na Assembleia, girondinos e montanheses se engalfinham. Robespierre, Marat e Danton, líderes políticos nesse Ano I da República que se inicia, são atacados. Marat é defendido por muitos, enquanto outros querem mandá-lo para a guilhotina. 

Teatral, ele toma a tribuna, tira a pistola da cintura e aponta contra a própria testa: "Estou disposto a estourar meus miolos sob os vossos olhos". Os que o condenam arrefecem. 

Danton tenta conter o ímpeto assassino da Revolução: "Peço que declarem que a Pátria não está mais em perigo", diz. "O princípio desse perigo era a realeza, que foi abolida", contemporiza. Ao mesmo tempo, surpreende Luís Filipe, filho do ex-duque de Orléans, ao sugerir, no dizer de Gallo, que "aquele regime seria provisório e que a monarquia poderia renascer com um rei saído dos Orléans".

Após as vitórias militares, incluindo a ocupação da Bélgica, aumenta o clamor pelo julgamento do rei prisioneiro. Robespierre é categórico: "Luís deve morrer". Já Marat quer um processo. Os girondinos o apoiam. Encarcerados, o rei e a família são humilhados pelos carcereiros.

Para evitar que o Congresso absolva Luís XVI, Marat propõe o voto por chamada nominal e em voz alta. Danton sabe que "se o rei for colocado em julgamento, estará perdido, pois mesmo supondo que a maioria da Convenção se recuse a condená-lo, a minoria o mandará assassinar".

Danton é presenteado com dois milhões de libras para proteger Luís. Admite, porém, a um emigrado, Théodore Lameth, que sua predisposição a preservar a vida do rei tem um limite. "Expor-me-ei se enxergar uma chance de sucesso", diz, "mas se perder toda esperança, declaro que, por não querer perder minha cabeça junto com a dele, estarei entre aqueles que o condenarão".

A situação real não melhora nada com a descoberta, em 20 de novembro, de um armário de ferro que guardava a correspondência do rei com diversos tiranos e familiares, expondo diversos revolucionários que haviam sido subornados com milhares de libras.

Robespierre não perde a deixa. "Luís denunciou o povo francês como rebelde", exclama, "mas a vitória e o povo decidiram que ele era o único rebelde". Afirma que "ele já foi julgado, está condenado, ou a República não é absoluta". Vai além: "Luís deve morrer porque é preciso que a pátria viva!"

O prisioneiro é avisado que será interrogado e que, a partir daí, não poderá mais ver os seus. Ele é conduzido e, de pé, questionado pela Convenção. Não responde a nada. Sabe que está condenado e que a morte o aguarda. Afirma que "não cabe a uma Assembleia julgar o rei da França".

Três semanas depois, 26 de dezembro, se pronuncia no seu julgamento final. Está calmo. Ao contrário dos deputados, com um lado acusando o outro de terem sido encontrados no "armário de ferro". A votação é marcada para segunda-feira, 14 de janeiro. Luís já sabe seu veredito.

A Convenção declara Luís Capeto culpado de conspiração contra a liberdade pública por 707 votos a zero. Em seguida, em 16 de janeiro, vota-se a questão capital: "Que pena será inflingida a Luís Capeto?"

Robespierre vota pela morte do rei. Danton idem ("Voto pela morte do tirano!"). Filipe Egalité, ex-duque de Orléans, vota pela morte do primo. Marat e Desmoulins também. Mas o placar não foi folgado: 387 regicidas contra 334 contrários. 

No dia seguinte, inúmeros deputados contestam a votação da véspera. Faz-se nova votação. Pasme: foram 361 votos pela morte do rei e 360 votos contrários. Luís XVI seria executado por um único voto. Deputados pedem o adiamento da execução (que será rejeitado por 380 votos a 310)

Qualquer manobra política estava fadada ao fracasso. Os sans-culottes, armados de lanças, cercam a Assembleia. "Berram com todas as suas forças que se Luís XVI não for condenado à morte, eles mesmos irão assassiná-lo", escreve Gallo.

Era o fim da linha para a dinastia dos Bourbon, que há trezentos anos ocupava o trono da França. Como frisa Adam Zamoyski em sua biografia de Napoleão, "a Casa de Hanover reinava a Grã-Bretanha havia apenas 86 anos, o mesmo tempo do reinado dos Bourbon na Espanha, os reis de Nápoles estavam havia 66 anos no poder, e os Habsburgo tinham se entranhado no poder apenas em 1745". 

Não só. "O eleitor de Brandemburgo decidira se chamar rei na Prússia havia menos de cem anos, e o tsar de Moscou virou imperador da Rússia em 1721", completa.

A mais antiga casa monárquica europeia está prestes a desmoronar, com o assassinato revolucionário do rei (os franceses ainda não sabem, mas em sete anos estarão aclamando um novo imperador).

Em Roma, inimigos da Revolução matam um diplomata francês e tentam incendiar o gueto da cidade, acusando os judeus de serem cúmplices da Revolução Francesa. Sempre sobra para os judeus. 

Comunicado da decisão, Luís Capeto se diz surpreso com o voto do primo e pede três dias "para se preparar para surgir diante de Deus". Também isso lhe é negado. Será executado no dia seguinte.

A execução se dará na segunda-feira, 21 de janeiro de 1793. Alguém que viria, na posteridade, se tornar gíria e sinônimo de maluco no Rio de Janeiro, o médico Filipe Pinel (que em seu trabalho generoso se dedicou a desacorrentar os loucos e separá-los dos criminosos), escreveu, consternado:

"Para meu grande pesar fui obrigado a assistir à execução, armado, e agora escrevo com o coração cheio de dor". Diz Pinel que muitos gritaram "Viva a nação", mas que um grande número "se retirou, indo derramar lágrimas no seio da sua família".

Luís XVI, ex-rei dos franceses, foi decapitado. A monarquia foi extinta na França.

O jornal montanhês Le Republicain, entusiasmado, registrou, no dia seguinte, que "hoje acabamos de nos convencer que um rei não passa de um homem, e que nenhum homem está acima das leis". Vai adiante: "Povos da Europa! Contemplai os tronos: vereis que não passam de poeira!"

Marat celebra, no Le Publiciste de la République française: "A cabeça do tirano acaba de cair sob o gládio da lei... Finalmente acredito na República... O suplício de Luís é um desses acontecimentos que marcam uma época na história das nações..."

Não terá mais do que seis meses para comemorar. Em breve, uma jovem, de fora de Paris, horrorizada com a escalada do terror, irá surpreender Marat no banho, e enfiar um punhal em seu peito. Mas esta (e muitas outras mortes) ficam para o segundo volume da obra de Gallo.

L&PM Editores, 345 páginas  |  3a edição, 2021  |  Copyright 2009  |  Tradução  Júlia da Rosa Simões

Título original: "Révolution Française: Le Peuple et le Roi (1774 - 1793)"

"A guerra do retorno", por Adi Schwartz e Einat Wilf


Após a criação do Estado de Israel, em 1948, o novo país teve sua fundação batizada pelo ataque de cinco nações vizinhas: o Egito, a Síria, a Jordânia, o Líbano e o Iraque. Quantificando em termos populacionais, eram 600 mil judeus cercados por 30 milhões de árabes (números dos autores).

A estúpida vantagem em armas e soldados não trouxe o resultado esperado. Os árabes invasores (pois vinham de outros países) perderam para os mal-armados colonos judeus da Palestina.

Sequer o apoio da Inglaterra à causa árabe foi suficiente para modificar o resultado. A Inglaterra era a detentora do Mandato Palestino e era parceira no petróleo árabe. Os soviéticos e os americanos agiam ainda sob o grosso impacto do Holocausto na opinião pública e preferiram não se meter.

A vitória dos judeus no que eles chamam a "Guerra da Independência" - a mesma que os derrotados nominaram de a "grande Nakba" (grande catástrofe) - deu início ao problema dos refugiados.

É um flagrante desta guerra, vencida pelos judeus, que você vê na foto acima. Mas, ao contrário do desenlace das guerras convencionais, este, ao invés do término, foi o início. De uma guerra sem fim.

Os autores tratam-na como "a guerra do retorno". Mas retorno de quem, mesmo? Vamos recapitular.

Diante do conflito, ao longo de 1948 centenas de milhares de árabes residentes no território do Mandato Britânico da Palestina haviam deixado a região, por diferentes razões. A elite árabe, por vontade própria; a população, em geral, em muitas vilas e cidades, partiu por ordem dos invasores árabes; ou liminarmente expulsa pelos judeus.

Até hoje o número total é impreciso - e é inflado ou reduzido de acordo com o interesse do emissor.

Peço a paciência do leitor, porque vamos revisitar a eclosão desta guerra - ponto de partida da polêmica palestina. Todo o contencioso que já vimos acima começou na resolução da ONU pela criação de dois estados na região: um Estado judeu e um Estado árabe. E, como também vimos, os árabes rejeitaram (categoricamente e em bloco) a resolução e foram para o pau.

O impasse era simples. Os árabes não admitiam que os judeus pudessem ter direito a um Estado soberano - ali. Ameaçaram os judeus: os que não abandonassem a região seriam mortos.

Eclodiu a tal guerra - desculpe se sou repetitivo. Árabes versus judeus.

O ataque aos judeus foi a execução prática do entendimento político árabe, contrário à existência de um Estado judeu. Confiantes na enorme vantagem militar e numérica a seu favor, os árabes não cogitavam que os judeus resistissem às forças invasoras. O conflito se estendeu de 1948 a 1949.

Para surpresa do mundo, os árabes foram derrotados pelos judeus. Fez-se - a contragosto - a paz.

O fracasso bélico exigiu uma reavaliação. Parte dos dois milhões de habitantes árabes que viviam dentro do perímetro definido pela ONU para o Estado judeu havia abandonado suas casas, fugido ou sido expulso à força. Desterrados, buscaram acolhimento nos estados árabes vizinhos.

À exceção da Jordânia, não foram absorvidos pelos seus vizinhos árabes, e sim assentados em acampamentos provisórios. A Liga Árabe foi, inicialmente, contra o retorno dos refugiados a Israel. Mas logo os dirigentes árabes mudaram seu discurso. Entenderam que a exigência do retorno poderia se tornar uma arma importante para uma reversão política da derrota militar.

As diversas movimentações e consequências desta postura deram início à "guerra do retorno".

Nesta nova etapa, a agência criada pela ONU para apoio humanitário aos refugiados - a UNRWA -, se tornaria o principal pivô e sustentáculo de uma guerra que, ao contrário de outras, jamais teria fim.

Embora, com a passagem dos anos, os refugiados tivessem obtido uma qualidade de vida superior às dos próprios países árabes onde estavam assentados - pois o financiamento internacional da UNRWA bancava alimentação, educação e investimentos em agricultura e infra-estrutura -, a manutenção do status de "refugiados" era o pivô do não-reconhecimento de Israel como Estado.

A Liga Árabe, que NÃO contribuía financeiramente com a UNRWA, se opôs quando a ONU se manifestou favorável à desativação da agência. Era que, sob a perspectiva humanitária - a razão de ser original da UNRWA -, a ONU considerava que seu trabalho estava concluído.

Mas, sob a perspectiva geopolítica, havia certos entraves para que esta decisão fosse tomada.

Pairava o temor de que, se a ONU suspendesse o auxílio, o cartel árabe dos produtores de petróleo reduzisse seu fornecimento, provocando o aumento do preço do barril. A ameaça, se concretizada, custaria muito mais caro às potências ocidentais do que manter o financiamento da UNRWA.

Por outro lado, a manutenção da UNRWA era a chancela política da comunidade internacional à existência dos refugiados. Estes, a esta altura, estavam socialmente estabelecidos, em cidades provisórias, dentro das fronteiras dos países vizinhos, ainda que sem reconhecimento pleno.

O único país que aceitou dar cidadania ou direitos legais aos palestinos foi a Jordânia. A Síria os admitia como trabalhadores de segunda classe, o Egito os confinava na Faixa de Gaza (então sob administração egípcia) e o Líbano queria expulsá-los do território libanês.

Nos anos 60, muitos palestinos emigraram para o Iraque e o Kuwait, onde, por conta da sua formação superior (graças aos esforços da UNRWA), tinham posição de destaque no mercado de trabalho e eram bem-remunerados. Era condição sine qua non, entretanto, mesmo vivendo fora, manterem suas matrículas de refugiado e estarem inscritos para o recebimento de cupons de assistência humanitária, abastecendo um mercado paralelo de alimentos e produtos básicos.

(A propósito, dessa coisa de não abrir mão de benefício o brasileiro é mestre. Aqui, muito político rico - ô redundância - se inscreveu pra receber auxílio na pandemia e mama todo mês o bolsa-família...)

No mais, a questão se tornara 100% política. A presença da UNRWA não mais se encaixava em um contexto humanitário, e sim como legitimação de uma condição atemporal de um povo refugiado.

Na prática, a UNRWA funcionava como a negação permanente da legalidade do Estado de Israel.

A nova geração palestina nascera em outros países e jamais pisara na Palestina. Mas a manutenção da condição de "refugiados" era a afirmação política da existência de uma terra alhures, que lhes fora "roubada", onde fariam jus à cidadania que lhes era negada... nos países em que nasceram!

Enquanto a comunidade internacional validasse a existência dos "refugiados", haveria uma arma política de contestação do Estado israelense - por mais que este Estado fosse fruto de uma resolução internacional legal que criara dois países.

A política regional se estabeleceu desde o início como a credora da circunstância palestina.

Não importava que os árabes tivessem recusado a criação de um Estado palestino e declarado guerra ao Estado judeu. Não importava que, na guerra que promoveram contra os judeus, os árabes tivessem sido legitimamente derrotados no campo de batalha, sem interferência estrangeira.

Como o massacre que os árabes tentaram infligir aos judeus foi um fiasco, os perdedores, oportunistas, identificaram na UNRWA o instrumento para o prolongamento indeterminado da guerra. E, de posse do dinheiro, investiram na retórica.

A juventude palestina em Gaza, Síria, Líbano e Jordânia cresceu instruída sobre a existência de um vizinho - os judeus - que havia "roubado" sua terra. Este aprendizado de ódio culmina em um credo de santificação do assassinato do invasor, que mora do outro lado da cerca. A criança palestina passou a ter por ideal de vida matar um ou mais judeus, não importa quais, nem onde, nem como.

Esta foi a grande vitória da Liga Árabe e dos países que representava. Cultivou, em uma estufa, gerações sucessivas de jovens muçulmanos, mas estrangeiros, dispostos a abrir mão da vida em prol do não-reconhecimento de um Estado do qual os países árabes eram inimigos.

Os países árabes alimentam crianças palestinas para serem galos de rinha.

E, melhor, são bem-sucedidos sem gastar um centavo com isso, pois todo o dinheiro envolvido é fruto da contribuição da comunidade ocidental às necessidades humanitárias dos refugiados.

Assim, o presente com o qual lidamos é uma massa gigantesca de jordanianos, sírios e libaneses, nascidos nestes países, cujos pais nasceram nestes países e neles se formaram, casaram e tiveram filhos, com uma dupla identidade (financiada e validada pelo orçamento internacional de US$ 1,2 bilhão de dólares anuais da UNRWA). Eles são, eternamente, refugiados palestinos.

A circunstância mantém o pescoço do Estado de Israel sob a guilhotina.

Talvez se trate de um caso ímpar e sem paralelo na história. Os autores dedicam o livro à exposição desta singularidade, e de como foi imposta uma questão para a qual não há solução - o Retorno.

Historicamente, populações refugiadas buscam assentamento e integração em outros países, de preferência aqueles com os quais compartilhem identidade étnica e cultural. Foi exatamente o que aconteceu com a diáspora palestina, que se distribuiu entre Jordânia, Síria e Líbano.

Na Jordânia, eles são mais de dois milhões e meio de cidadãos jordanianos - mas que continuam sendo registrados pela UNRWA como refugiados. Nasceram na Jordânia. Cresceram na Jordânia. Se educaram na Jordânia. Se casaram na Jordânia. Tiveram filhos na Jordânia. Têm toda a documentação legal jordaniana. Mas, estatisticamente, são "refugiados palestinos".

Na Síria, que passou as últimas décadas em guerra civil, a situação é ainda mais esdrúxula. Os sírios "palestinos" que nasceram na Síria e eram contabilizados pela UNRWA como refugiados palestinos, fugiram para a Jordânia, onde passaram a ser atendidos pelo ACNUR como refugiados... sírios!

Ou seja, se tornaram duplamente refugiados. Eram palestinos refugiados na Síria e passaram a ser sírios refugiados na Jordânia, mas sendo simultaneamente registrados e subvencionados por duas instituições internacionais de auxílio humanitário, a UNRWA e o ACNUR. No mínimo, exótico.

Schwartz e Wilf buscam ao longo de todo o texto uma organização cronológica e didática do problema. Não obstante - ou talvez por isso mesmo -, acabam presos em um labirinto, pois sua linha de raciocínio, ainda que correta e bem fundamentada, repassa diversas vezes os mesmos pontos, pecando em uma redundância que talvez fosse mesmo inevitável.

Mais ou menos o que também fiz por aqui, tentando explicar esse furdunço.

Um dos pontos altos da obra é o entendimento da perspectiva palestina. Os palestinos têm por anseio de vida o retorno à terra anteriormente ocupada por seus antepassados. Mais que isso, querem retornar às mesmas casas em que seus avós viveram; mesmo que tenham sido destruídas, eles as mantêm holograficamente de pé, na fabricação das suas memórias.

A compreensão desta perspectiva, entretanto, redunda na conclusão da impossibilidade prática do sonhado retorno. Porque não há para onde os pretensos refugiados possam retornar. O espaço desejado é ocupado por um outro povo, que foi vitorioso na guerra travada entre ambos.

Dois corpos não têm como ocupar o mesmo espaço. Neste caso, o derrotado pleiteia que lhe seja dada a reocupação do espaço conquistado pelo vitorioso. Para onde, neste caso, iria o vitorioso na guerra, se derrotado na disputa retórica? Há que se dar um destino ao corpo.

Se vivo, precisaria ser recebido em outro país, como refugiado (e, imagino, sem direito a retorno, pois, senão, teríamos um círculo vicioso eterno); se morto, é porque foi derrotado em confronto. Mas como matá-lo, se permanece imbatível, se Israel venceu (e continua vencendo) todas as guerras?

Eu aqui tomei a liberdade de novas formulações para encarar este paradoxo.

Não informei no início, mas conto agora: os autores lançaram o seu texto em 2020. Muito antes do 7 de outubro de 2023, portanto. E aqui já anteviam a catástrofe, desde sempre anunciada.

Já eu escrevo no primeiro semestre de 2026. Estados Unidos e Israel, em ação militar conjunta, atacaram em fevereiro a maior força militar da região, o Irã. E, desde então, estão encalacrados por lá. O Irã era justamente quem havia financiado o 7 de outubro, armando e subsidiando o grupo terrorista palestino Hamas.

Mas, como estamos carecas de saber, Israel reagiu e dizimou o Hamas.

Para conseguir dizimar o Hamas, Israel arrasou a Faixa de Gaza. E não só - Israel, em uma operação cinematográfica, implodiu o Hezbollah, um grupo terrorista libanês também armado pelo Irã e incomparavelmente mais forte e numeroso que o Hamas.

Com a perda dos seus dois grandes postos avançados na circunvizinhança do Estado israelense, o Irã se tornou mais vulnerável e sem poder de reação - e coação. Sofreu um ataque devastador na sua planta nuclear, ainda em 2025. E agora, em 2026, foi seviciado pelo ataque israelo-americano.

De acordo com a cobertura jornalística, recentemente Israel vem destruindo vastas regiões urbanizadas do território libanês, para impedir uma reorganização do Hezbollah na fronteira.

A palavra sistematicamente utilizada na mídia e nas redes sociais é "genocídio". Seu uso, entretanto, é meramente hiperbólico. A ação israelense, covarde ou não, visa ocupação de espaço. A população é estimulada a abandonar a zona de conflito. Não há confinamento ou perseguição. 

Estes últimos parágrafos parecem migrar do tema original, mas o ratificam e dão momentaneidade. A "guerra do retorno" é uma guerra política, econômica e midiática. Ela acontece em substituição à verdadeira guerra, não como uma negação desta última, mas como um recurso estratégico. 

A Guerra do Retorno é um importante instrumento retórico dos países árabes contra a presença de Israel na região do Oriente Médio. Eles estão certos em querer ejetá-la. A operação atual contra o regime iraniano só pôde ocorrer porque havia um inimigo poderoso nas cercanias - Israel. 

Israel é a presença militar do Ocidente no coração do Oriente Médio. Os árabes podem tolerá-la por algum tempo. Mas dedicarão todo seu esforço a combater esta presença. Do Ocidente querem apenas o dinheiro pago pelo petróleo - que, se por um lado é ainda o principal combustível da civilização ocidental, por outro financia o poder de fogo das ditaduras do Oriente.

Por fim, o retorno dos palestinos é um ótimo pretexto para manipular o engajamento ideológico superficial de milhões de jovens conectados em seus celulares. Mas as únicas questões ali que realmente importam são as econômicas e as militares (que sempre andam juntas). O mais é farofa.

Dará certo? A aliança midiático-pseudo-ideológica será suficiente para fazer desaparecer oito milhões de judeus do Oriente Médio? Só o futuro dirá. Em caso positivo, quando Israel for exterminado, os árabes poderão voltar a se matar entre si - e aí sim mandar os palestinos para o raio que os parta.

Por enquanto, porém, Israel parece estar mais forte e beligerante do que nunca.

Editora Contexto, 301 páginas  |  1a edição 2021  |  Copyright 2020  |  Tradução: Rachel Meneguello

Título original:

"The war of return: how western indulgence of the palestinian dream has obstructed the path to peace"

"Johan Cruyff 14, a autobiografia"


Uma coisa que eu não indico a ninguém são as autobiografias. Na maioria dos casos, são uma monótona auto-exaltação. "Johan Cruyff 14, a autobiografia" não foge à regra.

E olha que o cara que assina essa aqui jogou muita bola.

Johan Cruyff foi um dos maiores jogadores de todos os tempos. E não só. Foi também um técnico polêmico. Segundo alguns, revolucionário. Mas daí ao livro que ele escreveu (sobre ele mesmo) prestar, vai a distância de Amsterdam a Taubaté. A nado...

Li, resignado, as centenas de auto-elogios que ele enfileira ao longo de catorze capítulos da biografia do "14" mais famoso da história do futebol (já do basquete foi o nosso Oscar, que nos deixou há pouco). Ele aproveita o número para listar também os seus 14 "mandamentos".

Meras obviedades. Roteiro básico de coach.

Mas, apesar dos pesares, no livro há o que se aproveitar. E, como esse gringo gastou a bola, esteve em momentos capitais da história do esporte e, do banco, deu início à revolução tática do Barcelona, a gente tem que respeitar. E engolir o seu bla-bla-blá interminável.

E olha que o livro começa bem demais. O prefácio é de Tostão, o único que eu conheci que foi craque de campo e de texto. O mineiro, fera do Cruzeiro de 60 e da Copa de 70, foi contemporâneo do holandês. Se nunca se enfrentaram nos gramados, um dia, porém, se encontraram num shopping na África do Sul e mutuamente se reverenciaram. Duas lendas.

"Cruyff não foi o melhor jogador do mundo de todos os tempos - foi Pelé -, mas certamente está entre os dez melhores", afirma. Cruyff era um "técnico em campo", diz. "Tinha extraordinária inteligência espacial. Parecia olhar a partida de cima, com um megacomputador instalado no corpo para medir a movimentação e a velocidade da bola, dos companheiros e dos adversários".

Prefiro reproduzir os elogios que Tostão faz a ele do que os que ele próprio se faz. "Era perfeccionista, essencialment técnico, sem firulas", diz. "Jogava com elegância, com a cabeça em pé, sem olhar para a bola, o símbolo do jogo coletivo. Foi brilhante como armador e como atacante".

Pena que não foi o Tostão que escreveu o livro. Ia ser bem mais palatável. Vai por mim...

Cruyff fala menos do que se passou e mais sobre o que ele pensa. Faz da obra um espaço para responder a todos aqueles com os quais se desentendeu ao longo da carreira. E não foram poucos.

Quando se reporta aos seus tempos de jogador, é lacônico, mas direto. "Em 1971, vencemos a Copa dos Campeões da Europa pela primeira vez e ganhamos os dois anos seguintes também", conta. "Assim, em seis anos, o Ajax passou de um clube mediano para o melhor time do mundo".

Eu concordo, sem tirar nem por. Como já disse carradas de vezes, sou da opinião de que seis times mudaram a história do futebol: Honved, Botafogo, Santos, Bayern, Ajax e Barcelona.

Os quatro primeiros, pelos seus jogadores excepcionais; os dois últimos, pelos grandes jogadores que souberam executar a estratégia de técnicos geniais, Rinus Michels e Pep Guardiola.

Todos estes seis times foram a base do selecionado nacional e levaram as suas respectivas seleções a finais de Copas do Mundo. O Honved levou a Hungria ao vice-campeonato de 54; o Ajax levou a Holanda a dois vice-campeonatos consecutivos, 74 e 78; o Bayern foi a base da Alemanha campeã em 74; o Botafogo levou o Brasil a vencer três Copas do Mundo, em 58, 62 e 70; o Santos, a duas, 58 e 70; e o Barcelona foi a essência do time espanhol que venceu a Copa de 2010.

Então, o depoimento sobre a Laranja Mecânica, a seleção holandesa de 1974, cuja base era o Ajax, é um dos pontos altos da publicação. Cruyff conta que, duas semanas antes de começar a Copa, o técnico reuniu os jogadores e disse: "Como não vamos ganhar a Copa, façamos algo diferente, surpreendente". Tostão explica como o Carrossel Holandês (outros dos epítetos do time) funcionava:

"Foi o início da marcação por pressão. Onde estava a bola, havia vários holandeses para tomá-la. Era a pelada organizada", brinca. "Recuperavam a bola e chegavam com vários jogadores à área adversária. Zagueiros, armadores e atacantes se misturavam". Era isso mesmo. Uma pena que este timaço revolucionário tenha sido vencido pela Alemanha, a dona da casa, na final. 

E olha que abriram o placar, em uma arrancada de Johan Cruyff com 40 segundos de jogo, em um pênalti marcado pelo britânico Jack Taylor. Alguma chance do Daronco dar um pênalti contra os alemães, numa final de Copa disputada na Alemanha, ainda mais no primeiro minuto? zero, né.

Johan Neeskens, um dos craques do time, cobrou, como se diz hoje, com a "batida de segurança" (que de segura não tem nada, é um risco danado). Chutou baixo, no meio do gol. Holanda 1x0.

No lance seguinte os alemães começaram a cair na área adversária, mas Taylor não foi na onda deles. Aos 25 minutos, porém, o meia holandês Win Jansen deu um carrinho estúpido em Hölzenbein, dentro da área, e Taylor não hesitou em marcar o segundo penal da partida.

Paul Breitner, eleito o segundo melhor lateral esquerdo da Copa (o primeiro foi o brasileiro Marinho Chagas, o Bruxa, do Botafogo), bateu na bochecha da rede e empatou o jogo. Ainda no fim do primeiro tempo, Gerd Müller virou e deu o bicampeonato à Alemanha. Cruyff e seu fantástico time martelaram todo o segundo tempo, mas o gol não saiu. Mais uma injustiça histórica do futebol.

"Às vezes acontece de você perder um jogo no psicológico", interpreta Johan, décadas depois. "É só olhar como os gols foram marcados. Wim Jansen arriscando um carrinho na área, o que acabou em pênalti, e Ruud Krol abrindo as pernas ao tentar bloquear o chute adversário".

A partir daí, Cruyff faz uma digressão bem interessante sobre a importância do zagueiro jamais deixar que a bola passe entre suas pernas, pois mata o goleiro, que não espera seja isso possível. "O goleiro está contando com o zagueiro para cobrir uma parte do gol. É por isso que você nunca deve conceder esse espaço".

Os lances de uma final perdida ficam remoendo na cabeça dos atletas por décadas.

"Em nenhum momento conseguimos realmente entrar no jogo, e o gol de Müller se provou fatal", lamenta. "Quando tudo acabou, ficamos muito decepcionados. Sabíamos que éramos os melhores do mundo, mas não levamos o prêmio".

Como a Hungria de 1954 e o Brasil de 1982, porém, foi um time que entrou para a história.

"Muitos times e seleções de todo o mundo tentaram repetir a marcação por pressão realizada pela Holanda de 1974, contudo as atuações e os resultados foram muito irregulares", analisa Tostão. "Essas equipes pressionavam, mas quando não conseguiam recuperar a bola, deixavam enormes espaços na defesa".

O alto nível dessa seleção, segundo Cruyff, somente tinha ficado claro para o próprio elenco na semifinal, contra o Brasil. "Até então, ninguém sabia realmente o quanto éramos bons, e o jogo contra o Brasil foi o momento em que as pessoas descobriram o Futebol Total".

A Laranja Mecânica foi uma surpresa até para quem não devia ser - Zagalo, técnico brasileiro, que, ao invés de estudar os holandeses, achava que eles é que tinham que estudar o Brasil. Deu ruim. Fomos eliminados e Zagalo, demitido.

"Quando entramos no campo, estávamos nervosos, porque a gente achava que ainda estava jogando com o time de 1970, que venceu a Copa do Mundo", escreveu Cruyff. Mas o time do Brasil era totalmente outro. Dos titulares campeões do mundo, só Jairzinho e Rivelino estavam em campo. Gerson, Tostão, Clodoaldo e Carlos Alberto não foram. Sem contar o tal do Pelé, que se recusou.

Cruyff continua. "Não demorou mais de trinta minutos para entendermos que éramos realmente mais habilidosos do que eles". O Brasil foi atropelado, além de ter entrado no sarrafo (os europeus naquele tempo batiam muito). Mesmo com a Holanda melhor, Johan ficou apreensivo. 

"Tivemos sorte de não levar um gol algumas vezes no início do primeiro tempo", reconhece. "Porém, depois do susto, nosso time se encontrou para jogar o melhor futebol possível".

O craque holandês avalia que "a equipe brasileira também estava passando por uma fase de transição". Ele acredita que o Brasil "vinha tentando abandonar a técnica pura e optar por uma mistura de técnica e força física". Pode ser. Seja como for, fizemos mais três finais de Copa do Mundo depois disso e ganhamos duas. E ainda fomos a outras três semifinais.

Curioso que, como disse, a biografia dedique apenas poucos e curtos parágrafos sobre o apogeu do Carrossel Holandês. Cruyff é idiossincrático na escolha dos seus temas e discursos.

Se Pelé, com 34 anos, não quis disputar sua quinta Copa do Mundo, em 1974 (depois de ter ganho duas, 58 e 70), Cruyff, com 30 anos, não quis disputar sua segunda Copa do Mundo, em 1978. Ele tenta se explicar, mas não é convincente. O fato é que ele vivia em litígio com literalmente todo mundo.

Me pergunto se, mesmo com toda a roubalheira e coação, com Cruyff em campo aquela final em Buenos Aires não acabaria indo para os holandeses. Mas vá saber. Nem Cruyff, nem Maradona.

Em 1978, o rubro-negro Claudio Coutinho, militar brasileiro travestido de técnico, proclamou o Brasil "campeão moral" da Copa de 1978. Ele entendia do assunto. Fomos escrachadamente roubados, sim. Não perdemos no campo, mas o Peru abriu as pernas e engoliu seis gols argentinos, tirando o escrete brasileiro da final. Saímos invictos da Argentina e "campeões morais".

(Nem sempre o técnico reclamava da moralidade das conquistas. Coutinho, no ano seguinte, celebrou a proeza de ser duas vezes campeão carioca com o Flamengo no mesmo ano, 1979. Na verdade, foi uma vez campeão carioca e a outra vez foi campeão "especial". Mas O Globo sapecou na capa que era tricampeão 78-79-79 e a federação chancelou. Moralidade seletiva...)

Voltando à vaca holandesa, Cruyff não disputou a Copa de 78 e foi amplamente criticado. Como jogador, deu prosseguimento à carreira no incipiente futebol norte-americano, primeiro no Los Angeles Aztecs e depois no Washington Diplomats. Desperdício de talento.

Retorna à Holanda em 1980, aos 33 anos, onde ainda joga por mais quatro anos, ganhando campeonatos nacionais (Eredivisie) pelo Ajax e pelo seu maior rival, o Feyenoord. No Ajax, onde começou, garoto, e onde seus pais foram funcionários, teve uma relação de amor e ódio - mais este que aquele.

Ao encerrar a carreira, Cruyff retorna ao Ajax, como diretor técnico (e técnico de facto), vencendo duas Copas da Holanda e uma Recopa europeia - e reproduz o movimento que já havia feito como jogador, indo do Ajax para o Barcelona, desta vez como treinador.

E, se já tinha revolucionado o futebol como jogador, comete o crime pela segunda vez, ao mudar o jogo, agora como técnico do Barça. Lá, aplica o conceito de futebol total que sempre defendera. Fica oito anos no clube e é tetracampeão espanhol (de verdade, em anos consecutivos), ganha a Copa do Rei da Espanha, a Recopa Europeia, a Copa dos Campeões e a Supercopa da Europa.

Tudo bem que que o cara era marrento, mas ele tinha lá suas razões...

À vera, porém, a impressão que dá ao leitor é que, em quase todos os ambientes que esteve, saiu pela porta dos fundos, atirando. Inclusive, aproveita o livro para falar mal de muita gente que eu não fazia a menor ideia que existia, um monte de van der qualquer coisa.

Gênio incompreendido? Pode ser. Mas chato pra boné.

Com residência fixa na Espanha, confessou: "Sinto falta da Holanda e continuo tendo orgulho do meu país, mas nem sempre somos as pessoas mais legais de se conviver".

Acho que o elenco do Botafogo que dividiu o vestiário com o holandês Clarence Seedorf sabe muito bem como é isso de "convivência com holandês". Pergunta lá pra eles...

Enfim, a leitura da autobiografia de Johan Cruyff deve ser feita com critério e com estômago. Há muita coisa interessante, mas vem muita baboseira junto. Provável que um ghost-writer tenha ajudado o atleta, mas não deve ter tido autonomia para sequer tentar salvar o texto. 

Isso em nada macula o seu tamanho como jogador e treinador. Foi eleito em 1999 o Jogador Europeu do Século e ficou em segundo lugar (logo atrás de Pelé), como Jogador do Século.

(Cá para nós, se o pessoal contabilizar o que o Garrincha fez no futebol, não ia dar pro Pelé...)

Quando Cruyff fala do seu entendimento do jogo, observamos o quanto ele foi visionário. Ele já fazia há décadas do jogo de posicionamento o seu catecismo pessoal - enquanto há quem trate ainda hoje essa distribuição dos jogadores pelos setores do campo como se fosse a última palavra em tática.

Ele foi como os gênios são: um sujeito à frente do seu tempo. 

Editora Grande Área, 322 páginas  |  1a Reimpressão, 2023  |  Copyright 2016   

Título original: "My Turn: A Life of Total Football"  |  Tradução  Liliana Negrello e Christian Schwartz

"A segunda espada", por Peter Handke


O desejo do narrador é vingar a mãe. O alvo da vingança seria uma tal jornalista que, em um momento difuso do passado, escreveu algumas barbaridades - segundo ele - e, pior, escolheu a foto da mãe do narrador para ilustrar uma matéria sobre o apoio do povo austríaco aos nazistas.

"Li que minha mãe seria uma entre os milhões de cidadãos da antiga grande 'Monarquia do Danúbio'", diz, "para quem a incorporação da Áustria, que se tornara tão pequena depois da Primeira Guerra Mundial, ao 'Reich alemão' foi causa de alegria e festividades, quer dizer, minha mãe teria sido uma das que se rejubilaram com a anexação da Áustria pelo Reich, teria sido uma seguidora, membro do partido nazista".

Seja qual for sua importância para a trama, esta informação surge quase na metade do livro. Mais precisamente, na página oitenta e três. Até então, o autor se limitara a desfiar banalidades. Pensamentos esparsos sobre a cidade, os caminhos, os vizinhos, os meios de transporte et cetera.

Mas na tal página oitenta e três ele dá azo à sua inconformação.

"Não se tratava simplesmente de uma frase secundária: na mesma página, junto com o artigo, via-se também uma fotomontagem na qual uma imagem muito ampliada da cabeça de minha mãe, que àquela altura tinha dezessete anos de idade, foi acrescentada a uma multidão que gritava 'heil-ou-sei-lá-o-quê' na Heldenplatz ou em algum lugar assim".

O que o narrador chama de "heil-ou-sei-lá-o-quê" nós sabemos bem que é "heil Hitler". Nitidamente ele não fica confortável em ver sua mãe flagrada fazendo, entusiasmada, o heil Hitler, em meio à multidão que saudava a passagem do führer pelas ruas de Viena, depois do Anschluss

A cabeçorra ampliada da mãe doravante irá povoar seus sonhos e devaneios. Mas o fato concreto surgido apenas na metade do livro será mal e mal retomado. Foi uma ilha de três parágrafos em meio a centenas de outros parágrafos que não contam nada, nem vão - nem levam - a lugar nenhum.

Porém, ele que desde o início do seu enigmático texto se auto-intitula um vingador, é nesta página oitenta e três que ele segreda o que havia a ser vingado. A pretexto disso, o que temos são mais impressões comezinhas suas, ociosamente rodando de ônibus pelos subúrbios de Paris.

O fato - e cometo aqui o mais tremendo dos spoilers - é que ele jamais irá vingar ninguém. Apenas destilará sua cantilena monótona páginas afora. Mas, dando o spoiler, eu me vingo dele.

Ele, um escritor ganhador do Prêmio Nobel, não se constrange em fazer do tempo do leitor o seu quintal. Joga ali as tralhas que quer, do jeito que lhe agrada. Sua estória é acéfala, seus personagens são anônimos. A responsável pela matéria jornalística que o atingiu não tem nome. Praticamente nada, nem ninguém, tem nome no livro. Mas houve um certo dia, porém, em que ela o respondeu.

"Nunca a tinha encontrado antes e assim também continuou a ser depois daquilo que eu chamava 'o crime", revela. "Ainda que junto àquilo que ela escrevera na época, publicou-se uma fotografia, eu não dispunha de nenhuma imagem dela".

Não pense o leitor ingênuo, ou otimista, que alguma coisa irá mudar depois da tal resposta.

"Já desde antes da leitura, eu não imaginava nenhum rosto à minha frente e isso tampouco mudou depois da leitura", esclarece (ou não). "Um reconhecimento, indefinido e indefinível, acontecia apenas quando eu tirava os óculos, o que embaçava os traços do retrato da autora do artigo."

Como Peter Handke - o autor do livro - em momento algum é muito preciso, não sabemos muito bem como se dá a relação (ou não) entre os dois. O ofendido e a ofensora. Com ou sem óculos.

"Por outro lado, havia tempo que eu tinha seu endereço", confessa. "Anos depois de cometer aquele ato, eu tinha recebido uma carta dela. É quase impossível dizer qual era o assunto da carta e menos ainda dizer algo sobre o seu conteúdo". Ou seja, a carta era um espelho do livro, no qual o assunto é vago e o conteúdo é poroso.

"Seja como for, não havia qualquer palavra a respeito da agressão contra mim - que, aliás, pouco tinha me interessado e muito menos atingido; e sobretudo nenhuma palavra a respeito da ofensa que de maneira tão secundária, como que de passagem, tinha sido cometida contra a memória da minha santa mãe".

Embora eu me exaspere com o texto de Handke, fora de dúvida que ele domina o ofício da escrita. E eu, ao selecionar os raros trechos que parecem unir lé com cré, acabo criando a falsa impressão de que o livro é, em alguma medida, sensato ou aprazível. Não, não é. 

"Agora, durante a viagem de bonde, ao tentar me lembrar daquela carta que talvez estivesse mesmo sendo esperada por mim, muito embora eu estivesse à espera de uma carta totalmente diferente, pareceu-me ('ocorreu-me') que aquela carta, através de desvios corteses, fosse um convite para um debate amistoso e público, a distância e por escrito, e que de maneira 'privada' ela também 'simpatizava' comigo".

Apesar de um tanto evasivo, nestes trechos, estes são um dos poucos em que aquele que é, em tese, o leitmotif do livro é diretamente (ou quase) abordado. No mais, somos levados para circunlóquios sobre os mais diferentes temas que povoam a paisagem e as memórias do narrador.

Ele reclama que os tios, que não conheceu, tenham sido "forçados ao serviço militar do grande Reich na Rússia", onde teriam sido mortos. Diz também que certa vez recebeu uma carta anônima, "com a ameaça de matar meu filho". Foi sua única menção a um filho.

A ameaça teria a ver com "os seis milhões de judeus que foram mortos pelos meus antepassados".

Que fique claro que estas referências a circunstâncias históricas estavam soltas em meio a frases gasosas. Eu as catei e uni aqui, como quem garimpa pedrinhas na água do rio e crê que achou algo de valor. Mas aqui é tudo quimera, ganga, cascalho. Bijuteria, no melhor dos casos.

Inquestionável que a orelha do livro é sincera. "Um exercício de escrita, uma introspecção no ofício", abre a orelha, honesta. "Peter Handke permanece fiel a si mesmo numa balada ao redor do seu terreiro nos arrabaldes parisienses. É nessas cercanias que o vencedor do Prêmio Nobel de 2019 consegue dar as mais longínquas escapadas reais e imaginárias".

Eu disse. O que eu não fiz (e devia ter feito) foi ter lido antes a orelha com a atenção que ela merecia.

"Leva em sua navegação desde operários no bar local em fim de expediente até questionamentos à família sobre o nazismo", continua. "O que é palpável no mundo à volta do seu subúrbio de escriba? O que sobra do real? De tanto escrever, reeescrever, remexer com as palavras, os enlaces se perdem em meio a uma grande desconfiança perante o existente".

Ah, a literatura! leio e devoro livros desde moleque. Mas suspeito que a literatura não foi feita para mim, ou eu não fui feito para ela. Seus brocados e rococós, que fascinam a tantos com seus brilhos e formatos, descem na minha garganta como um angu encaroçado.

Meu paladar, tosco, não foi adestrado para as iguarias mais finas. Paciência.

Não sabendo exatamente do que se tratava, levei o livro comigo para lê-lo no castelo de Annecy, na Alta Savóia. Sabia que lá havia uma amurada de onde se via a cidade velha e também o lago. Diz a wikipedia que é o segundo maior lago da França, formado, 18.000 anos atrás, pelo degelo alpino.

O castelo, milenar, estava bem preservado. Idem o lago cristalino. Já o livro eu não indicaria a ninguém de quem eu gostasse, e nem mesmo de quem eu não gostasse. Um livro que se destaca por merecer liderar qualquer relação de livros a jamais serem lidos.

Mais não falo, falei até demais. Fica aí a decisão por sua conta.

Editora Estação Liberdade, 176 páginas  |  1a edição, 2022  |  Copyright 2020  | Tradução Luiz Krausz
Título original: "Das zwette Schwert: Eine Maigeschichte"

Obs.: Não obstante, particularmente gostei da menção ao "oito de maio". É o dia do meu aniversário, também conhecido como "hoje". Meu amado tio Werther, ex-pracinha da FEB na Itália, sempre dizia que eu tinha nascido no mais importante dos dias. Esse cara sim merecia o Nobel. Saudades, tio!