Monteiro Lobato, um dos maiores escritores brasileiros, veja só, não queria escrever. Queria ser pintor. Foi advogado. Amuado, virou fazendeiro. Mas era sina. Acabou, graças a Deus, escritor.
Deixou de advogar porque herdara terras do avô, o Visconde de Tremembé (sim, é ele quem dá nome à cidade, que deu nome ao presídio, que deu nome ao livro e à série que falamos semanas atrás). Após investir tempo e dinheiro, a lida com a terra não prosperou; pelo contrário, lhe frustrou.
Foi à guisa de se queixar dos contratempos que enfrentara que publica, em novembro de 1914, no jornal "O Estado de São Paulo", o artigo "Velha Praga", indignado com as queimadas. Na verdade, o texto era uma carta, que o editor do jornal, por conta própria, promoveu a artigo.
Repercussão tremenda. Estimulado, escreveu outros textos. "A Hosteofagia", sobre a guerra que grassava na Europa, e "Urupês", ambos bem recebidos. O doutor escrevia bem. É convidado pela "Revista do Brasil" a publicar um dos seus contos, que foi "A vingança da peroba". Uma pancada.
A crítica positiva fez com que sua produção de contos engrenasse. Era um em cada edição do magazine. Porém, a despeito do seu sucesso pessoal como escritor, a Revista, que o publicava, ia de mal a pior. A fazenda também tropeçava. Eureca. Empreendedor nato, Lobato teve uma ideia.
Vendeu uma para comprar a outra. De escritor eventual, passou a dono da revista, onde era também o dono da gráfica e, se valendo disso, o dono da editora. Resolveu lançar no prelo a si mesmo.
Sua primeira edição seria justamente a reunião em livro dos contos que publicara. Dos quinze, selecionou dez. Escolheu o nome: "Dez mortes trágicas". Um colega achou ruim. Sugeriu que intitulasse a brochura com o nome de um dos contos. Dito e feito. Nem todo palpite é ruim.
"Urupês" foi um marco no mercado editorial do país. Até porque não havia mercado, de fato, e praticamente não tínhamos editoras. As livrarias eram escassas (trinta e poucas em todo o território nacional). A maioria dos livros que circulavam no Brasil eram impressos em Portugal.
Urupês foi promovido também a nome da editora. Segundo Edgar Cavalheiro, um dos especialistas na obra de Lobato, o livro foi "um acontecimento sem precedentes na literatura brasileira". Oswald de Andrade, posteriormente, chamou a obra de o "marco zero" do movimento modernista.
Se o mercado era incipiente, Lobato o fomentou: rapidamente se esgotaram as três primeiras edições do livro. Todos queriam lê-lo. Um dos tipos do autor virara uma coqueluche: o "Jeca Tatu". Você certamente já ouviu falar. O personagem virou adjetivo.
Mas do que tratam esses contos de Monteiro Lobato, escritos há cento e dez anos?
Os temas são variados. Mas desbordam quase sempre para a estultice humana. Para a preguiça. Para a má índole. Para a dissimulação. Coisa ruim não tempo. Vem desde sempre.
E Lobato não perdoa. É ácido com seus contemporâneos. Embora pertencentes a uma sociedade que não mais reconhecemos no espelho, somos nós mesmos, cinco ou seis gerações atrás.
E, mais do que meros causos, Monteiro Lobato fala do Brasil. Do brasileiro. Fica fácil entrever que o que fomos no passado, somos no presente. Basta apurar a vista.
E o ouvido, né. Como é um linguajar de um outro tempo, seus contos nos impõem uma abordagem cautelosa. Seu idioma antigo é, às vezes, uma estrada de barro, assim, cheia de poças e solavancos. Há que tolerar. Acostumar. Chegando lá, também, é aproveitar. Lamber os beiços.
Quem o conseguir fazer, vai viver algumas horas em um mundo que era outro: o país, as gentes, os ditados, os costumes. Por isso, ler a obra adulta de Lobato (que antecedeu sua produção infantil, sua derradeira obra) é mergulhar no túnel do tempo. E subir à tona no miolo do cafundó do Judas.
Vai encarar? Recomendo, mas prepare-se para o vocabulário autoral (mesmo para a época). O autor fazia gosto no linguajar mastigado do matuto. Lobato era devoto do jargão do capiau.
A coletânea abre com "Faroleiros". Um sujeito suborna os responsáveis para que permitam que passe uns dias no farol, construção que, à distância, sempre lhe seduzira. Aquela luz, bruxuleante, isolada no mar. O curioso, que foi para contemplar a solidão, termina cúmplice de um crime.
Depois ele vem com um mais ingênuo. Que nada mais é do que a velha história de Pedro e o lobo. E o terceiro conto, a "Colcha de retalhos" dói a dor que todo mundo um dia temeu sofrer.
O quarto deles, "A vingança da peroba", é ímpar. É um tratado antropológico, ao reproduzir o cotidiano das famílias que faziam suas roças na mata brava. É quase uma escavação, ao resgatar expressões perdidas no tempo. É um recorte da lida rural, ao detalhar a produção do monjolo.
O conto do estafeta é ironia dolorosa, ao expor como a política de hoje permanece a pobre política de outrora. Ela está toda lá, no "fósforo" (hoje "cabo eleitoral") Biriba, na demissão dos apadrinhados e no emprego dos agregados, na exploração do idiota pelo esperto de sempre. Ê Brasil.
Há um, curtinho, onde em um tal crime, que tem um suspeito óbvio, deixa-se o famigerado suspeito - um italiano de maus bofes - fugir, para bem mais tarde prendê-lo; para, na confissão tardia de um outro sacripanta, descobrir-se que o suposto criminoso não tinha nada a ver com as calças.
Um outro, "Pollice verso", remete à vocação médica ancestral. Conta de Inacinho, que desde moleque o pai acreditava que era fadado à medicina. Acertou. O garoto saiu do Vale do Paraíba para estudar na capital. Formado, voltou para clinicar em Itaoca. Ficou lá por pouco tempo.
Seu único paciente foi o major Mendanha, "capitalista aposentado com trezentas apólices federais, o Rockefeller de Itaoca". O major sentiu uma "canseira" e resolveu se consultar. Mas desfazia de todos os doutores da cidade. Ocorreu a ele o nome do novo médico, o Inacinho. A esposa chiou.
"É moço bonito, que o que quer é dinheiro e pândega, você não vê?" Mendanha não viu. "Qual!... emberrinchou o teimoso. Sempre há de saber um pouco mais que os velhos", retrucou o major.
Não era só a mulher do Mendanha que não via Inacinho com bons olhos. "Uma bestinha! dizia um", cochicha o autor. "Eu fico pasmado mas é de saírem da Faculdade cavalgaduras daquele porte! É médico no diploma, na barbicha e no anel no dedo. Fora d'aí, que cavalo!"
Pois foi Inacinho que Mendanha escolheu. O doutor auscultou o paciente e vaticinou: "É uma pericardite aguda agravada por uma flegmasia hepático-renal". Afirmou que "era grave, mas não era", pois, ao chamar a ele, Inacinho, ao invés de "um desses matassanos que por aí rabulejam", o resultado seria diferente. "Tive no Rio numerosos casos mais graves e a nenhum perdi", gabou-se.
Deu o diagnóstico e o prazo de melhora. Em um mês Mendanha estaria completamente são.
Mas não foi o que se deu. A "canseira" evoluiu. "O velho peorou com a medicação. Injeções hipodérmicas, cápsulas, pílulas, poções, não houve terapêutica que se não experimentasse desastrosamente". Inacinho reconheceu: "É mais grave do que eu supunha".
Havia, porém, algo mais grave. Uma praxe que eu desconhecia em absoluto - e que continuo com o pé atrás - era a dos médicos se fazerem herdeiros dos clientes. Com isso, diz Lobato, "serviços pagos com casos de cura aí com centenas de mil réis, em caso de morte reputavam-se em contos".
Ou seja - o paciente morrer era mais negócio. Onde já se viu.
"Se os interessados relutavam no pagamento, a questão subia aos tribunais, com base no arbitramento. Os árbitros, mestres do mesmo ofício, sustentavam o pedido por coleguismo", revela.
(Por falar em coleguismo, nesse mês de janeiro corre por aí que um ministro do Supremo tem negócios camuflados na hotelaria, com testa-de-ferro e tudo o mais que caracteriza as falcatruas; aflitos, seus colegas do STF já cuidaram de lhe defender. Normal. O causo que conto se passou há 110 anos? Pode ser. Por aqui, porém, continua tudo como dantes no quartel de Abrantes...)
Mas me perdi. Inacinho é que não, embora tenha perdido o paciente, o major. O doutor "herdou" os tais trinta contos e eu estraguei o conto, porque contei tudo, de cabo a rabo.
Em tempo: fui pesquisar. "Pollice verso" é o célebre gesto dos imperadores romanos no Coliseu, virando o polegar para baixo e decidindo pela vida - no caso, morte - dos gladiadores.
Há contos que são uma cacetada na moleira. Nos é comum pensar que a natureza sórdida, sensual e rapace do ser humano é mais propensa a vicejar nas grandes cidades modernas. O "Mata-pau" prova que esse desgosto se dá no rincão mais caipira. E mais não digo.
E dá-lhe gente má. Em "Bucólica", fala do "sítio de Maria Véva. Tem ruim fama essa mulher papuda". Já no "Bocatorta" o autor nos traz o Quasímodo do sertão, um negro disforme que a terra chupou.
Aprendi muito com o livro. Vim a saber em "O estigma" da face noruega do sítio de Fausto, encontrado depois que o autor opta pelo caminho errado. Para Lobato, entretanto, o desvio é a estrada principal. E, conto a conto, o que era folclórico e embolorado ganha viço e pertinência.
Tolere a velharia dos dizeres antigos e dos preconceitos de outrora. Tempos d'antanho, onde se dizia "do fígado para o rim", "veiu pegar água a este cor'go" e onde o Nunes enchia a cara de tanta filha mulher que o destino lhe dera, "um rosário de oito mariquinhas de saia comprida".
O escritor, hoje "cancelável" (um perfeito sinal dos tempos), diz que "tanta mulher em casa amargava o ânimo do Nunes, que nos dias de cachaça ameaçava afogá-las na lagoa como se fossem uma ninhada de gatos".
À vontade para criar neologismos, diz da eleição que "o primeiro ato do vencedor foi correr a vassoura do Olho da Rua em tudo quanto era olhodarruável em matéria de funcionalismo público".
Ou, como em "Urupês", fala do jecocentrismo. A propósito, este, que é o conto final, foi adicionado somente em edições posteriores, juntamente com "Velha Praga" - conto que não é conto, e sim a carta que o fazendeiro Lobato enviou à seção de queixas do jornal da capital, como disse acima.
Quem tomou a decisão de adicioná-lo foi o próprio autor, que, a propósito, explica que mandou a carta por se sentir impotente contra os invasores de terras, que metiam fogo na mata para plantar um litro de milho - que, como consequência da queimada, calcinava dezenas de alqueires.
Pôr para fora os invasores era tarefa ingrata, pois era gente que "votava com o governo". Assim, Lobato admite no livro - falando de si mesmo em terceira pessoa - que o que lhe restou foi reclamar.
"Impossibilitado de agir contra eles por meio da justiça o pobre fazendeiro limitou-se a tocar alguns que eram seus agregados e... a 'vir pela imprensa'. Escreveu e mandou para as "Queixas e Reclamações" d'O Estado se S. Paulo a tal catilinária mãe dos Urupês", confessa.
Foi daí que nasceu o livro e, mais, que nasceu o escritor.
"Esse jornal, publicando-a fora da seção de queixas, estimulou o fazendeiro a reincidir. Reincidiu", relata. " E quando deu acordo de si, virara o que os noticiários gravemente chamam 'um homem de letras". Ou seja: a queimada dos caboclos deu à nação um dos seus maiores escritores.
(Que, diga-se, recusou o convite para se tornar "imortal" da Academia Brasileira de Letras.)
O caboclo, o jeca tatu, é seu ponto de partida. O tipo rústico era então louvado pela cultura nacional. O indianismo provocado pelo nobre Peri de "Iracema" fora substituído pelo culto ao caboclo, agora um "atributo da raça". Já Lobato - vítima - denunciava ali a modorra do jeca.
"O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado", alerta. "Crismou-se de 'caboclismo", criticava. "O caboclo é o 'Ai Jesus!' nacional", ironiza. Transferiram-se as virtudes idealizadas do tipo indígena para o roceiro genuíno. Talvez o popular "Rancho fundo" lhe seja uma louvação.
"O substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio, em suma, sem faltar uma azeitona, dos Peris e dos Ubirajaras". Mas Lobato conhece bem o caboclo. É seu vizinho, seu agregado, antagonista cotidiano.
Vende nas feiras aquilo que encontra no caminho. "Seu grande cuidado", diz, é seguir "a lei do menor esforço - e nisto vai longe". Sua casa não tem estética, nem móveis. Senta nos próprios calcanhares. "Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas", acrescentando que "três pernas permitem equilíbrio; inútil, portanto, meter a quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão".
Conta como a mandioca é o pão do caboclo, que não requer preparo ou trabalho. "É um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas". Eu, que nem sabia como se planta aquilo que por aqui chamamos de aipim, soube que "o plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha".
Nos conta também da medicina do caboclo. Da cura para a bronquite à simpatia para o parto difícil.
"Para bronquite", diz, "é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo; o mal se vai com o peixe água abaixo". E, num parto difícil, "nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu". Se esta última não funcionar, basta "colar no ventre encruado a imagem de São Benedito". Parece que aí é tiro e queda.
Não tenho estatísticas sobre os resultados. Quem quiser que experimente.
Perceba que não é só aos caboclos que o escritor pega no pé. Ele não alivia também os seus colegas de sina. Em "O comprador de fazendas", Lobato já inicia descrevendo as desditas de uma tal fazenda e de um tal fazendeiro. Imaginei o quanto não teria posto aí a sua mal-sucedida experiência.
"Os cafezais em vara, ano sim ano não batidos de pedra ou esturrados de geada, nunca deram de si colheita de entupir tulha", descreve o autor, ex-fazendeiro, condição na qual, como já revelei, foi um fracasso. " Os pastos ensapezados, enguanxumados, ensamambaiados nos topes, eram acampamentos de cupins com entremeios de macegas mortiças, formigantes de carrapatos".
"Boi entrado ali punha-se logo de costelas à mostra, encaroçado de bernes" - parece que Lobato vai desfiar, no texto, tudo que purgou, na terra.
Mas qual. Um escritor de contos é um contador de estórias. Não se lamenta; nos diverte. O Moreira, dono da fazenda pindaíba, pai do pulha Zico e da Zilda, filha casadoira, finalmente tem chance de passar o encosto à frente, quando lhe aparece o Trancoso. E não avanço, para não dar spoiler.
(Talvez eu esteja sendo otimista demais achando que mais alguém, em 2026, vai correr a ler uma dúzia de contos publicados em 1918; mas eu sou otimista de nascença.)
Eu vou ler outros. Muitos mais. Porque a leitura da obra de Monteiro Lobato é boa e me enche de lembranças. É impossível ler seu texto, mesmo que sem o sotaque da obra infantil, e não reconhecer a toada que me encantou e fez companhia na meninice - e me deixaram apaixonado.
Seus livros foram o meu melhor amigo aos oito anos - e olha que eu não parava quieto, sumia tardes inteiras Teresópolis afora, vadiando, correndo, aprontando, jogando gude, bola ou pião. Só sossegava com um livro na mão. Mãezinha que o diga.
Mas a sua obra completa, reunindo livros, contos, artigos, correspondências, foi herança do meu tio Felipe Mayer, gaúcho de bombacha e chimarrão, invariavelmente com um cigarro de palha entre os dedos. As paredes da sua casa, todas tomadas por prosaicas prateleiras de ferro e milhares de livros, me fascinavam (herdei dele também o gosto pelo suco de tomate, vá entender).
Este "Urupês" é o Tomo Um da coleção de treze volumes, vendida ao tio em 18 de dezembro de 1957, por Cr$ 3.460,00 cruzeiros, como revela a nota fiscal 28.868. Venho guardando, em usufruto, centenas dos seus livros, há meio século. Com eles vieram suas anotações, via de regra veementes.
Ler os livros que ele me deixou me formaram como leitor. Nunca tive a letra caprichada como a que o tio fazia suas anotações às margens; mas eu também passei a garranchar meus comentários. Com sua caligrafia poderosa, ele escrevia com caneta-tinteiro; desvirtuoso, eu até hoje anoto à lápis.
Provável que estas escrivinhações me tenham estimulado a escrever sobre os livros; são ambas, as anotações e os comentários, uma forma de estreitar meu relacionamento com a obra impressa. Mais que amigos, somos amantes. Elas me dão conhecimento, eu dou a elas minha devoção.
Ao redor de Lobato estão muitos dos amores que me formaram. Meu avô José, nascido Izrael na distante Warszawa, que me deu os dezessete volumes da coleção infantil. Meu tio Felipe, o grande leitor que conheci, que me legou os treze volumes da coleção adulta. O escritor José Bento Monteiro Lobato, que, com seu caráter e talento, tatuou na minha pele a paixão pela leitura.
Semanas atrás visitei o sítio da infância do escritor em Taubaté. O lugar passou para a história com o nome de "Sítio do Picapau Amarelo". Lógico que me emocionei. Mexido, iniciei ali mesmo a leitura de "Urupês". Pois é. Na hora nem me ocorreu, mas já era uma boa pedida para ser o post #500 do blog.
Editora Braziliense, 300 páginas | 8a edição | 1956
Foto: Ana Puterman