"A guerra do retorno", por Adi Schwartz e Einat Wilf
Após a criação do Estado de Israel, em 1948, o novo país teve sua fundação batizada pelo ataque de cinco nações vizinhas: o Egito, a Síria, a Jordânia, o Líbano e o Iraque. Quantificando em termos populacionais, eram 600 mil judeus cercados por 30 milhões de árabes (números dos autores).
A vitória dos judeus no que eles chamam a "Guerra da Independência" - a mesma que os derrotados nominaram de a "grande Nakba" (grande catástrofe) - deu início ao problema dos refugiados.
É um flagrante desta guerra, vencida pelos judeus, que você vê na foto acima. Mas, ao contrário do desenlace das guerras convencionais, este, ao invés do término, foi o início. De uma guerra sem fim.
Os autores tratam-na como "a guerra do retorno". Mas retorno de quem, mesmo? Vamos recapitular.
Diante do conflito, ao longo de 1948 centenas de milhares de árabes residentes no território do Mandato Britânico da Palestina haviam deixado a região, por diferentes razões. A elite árabe, por vontade própria; a população, em geral, em muitas vilas e cidades, partiu por ordem dos invasores árabes; ou liminarmente expulsa pelos judeus.
Até hoje o número total é impreciso - e é inflado ou reduzido de acordo com o interesse do emissor.
Peço a paciência do leitor, porque vamos revisitar a eclosão desta guerra - ponto de partida da polêmica palestina. Todo o contencioso que já vimos acima começou na resolução da ONU pela criação de dois estados na região: um Estado judeu e um Estado árabe. E, como também vimos, os árabes rejeitaram (categoricamente e em bloco) a resolução e foram para o pau.
O impasse era simples. Os árabes não admitiam que os judeus pudessem ter direito a um Estado soberano - ali. Ameaçaram os judeus: os que não abandonassem a região seriam mortos.
Eclodiu a tal guerra - desculpe se sou repetitivo. Árabes versus judeus.
O ataque aos judeus foi a execução prática do entendimento político árabe, contrário à existência de um Estado judeu. Confiantes na enorme vantagem militar e numérica a seu favor, os árabes não cogitavam que os judeus resistissem às forças invasoras. O conflito se estendeu de 1948 a 1949.
Para surpresa do mundo, os árabes foram derrotados pelos judeus. Fez-se - a contragosto - a paz.
O fracasso bélico exigiu uma reavaliação. Parte dos dois milhões de habitantes árabes que viviam dentro do perímetro definido pela ONU para o Estado judeu havia abandonado suas casas, fugido ou sido expulso à força. Desterrados, buscaram acolhimento nos estados árabes vizinhos.
À exceção da Jordânia, não foram absorvidos pelos seus vizinhos árabes, e sim assentados em acampamentos provisórios. A Liga Árabe foi, inicialmente, contra o retorno dos refugiados a Israel. Mas logo os dirigentes árabes mudaram seu discurso. Entenderam que a exigência do retorno poderia se tornar uma arma importante para uma reversão política da derrota militar.
As diversas movimentações e consequências desta postura deram início à "guerra do retorno".
Nesta nova etapa, a agência criada pela ONU para apoio humanitário aos refugiados - a UNRWA -, se tornaria o principal pivô e sustentáculo de uma guerra que, ao contrário de outras, jamais teria fim.
Embora, com a passagem dos anos, os refugiados tivessem obtido uma qualidade de vida superior às dos próprios países árabes onde estavam assentados - pois o financiamento internacional da UNRWA bancava alimentação, educação e investimentos em agricultura e infra-estrutura -, a manutenção do status de "refugiados" era o pivô do não-reconhecimento de Israel como Estado.
A Liga Árabe, que NÃO contribuía financeiramente com a UNRWA, se opôs quando a ONU se manifestou favorável à desativação da agência. Era que, sob a perspectiva humanitária - a razão de ser original da UNRWA -, a ONU considerava que seu trabalho estava concluído.
Mas, sob a perspectiva geopolítica, havia certos entraves para que esta decisão fosse tomada.
Pairava o temor de que, se a ONU suspendesse o auxílio, o cartel árabe dos produtores de petróleo reduzisse seu fornecimento, provocando o aumento do preço do barril. A ameaça, se concretizada, custaria muito mais caro às potências ocidentais do que manter o financiamento da UNRWA.
Por outro lado, a manutenção da UNRWA era a chancela política da comunidade internacional à existência dos refugiados. Estes, a esta altura, estavam socialmente estabelecidos, em cidades provisórias, dentro das fronteiras dos países vizinhos, ainda que sem reconhecimento pleno.
O único país que aceitou dar cidadania ou direitos legais aos palestinos foi a Jordânia. A Síria os admitia como trabalhadores de segunda classe, o Egito os confinava na Faixa de Gaza (então sob administração egípcia) e o Líbano queria expulsá-los do território libanês.
Nos anos 60, muitos palestinos emigraram para o Iraque e o Kuwait, onde, por conta da sua formação superior (graças aos esforços da UNRWA), tinham posição de destaque no mercado de trabalho e eram bem-remunerados. Era condição sine qua non, entretanto, mesmo vivendo fora, manterem suas matrículas de refugiado e estarem inscritos para o recebimento de cupons de assistência humanitária, abastecendo um mercado paralelo de alimentos e produtos básicos.
(A propósito, dessa coisa de não abrir mão de benefício o brasileiro é mestre. Aqui, muito político rico - ô redundância - se inscreveu pra receber auxílio na pandemia e mama todo mês o bolsa-família...)
No mais, a questão se tornara 100% política. A presença da UNRWA não mais se encaixava em um contexto humanitário, e sim como legitimação de uma condição atemporal de um povo refugiado.
Na prática, a UNRWA funcionava como a negação permanente da legalidade do Estado de Israel.
A nova geração palestina nascera em outros países e jamais pisara na Palestina. Mas a manutenção da condição de "refugiados" era a afirmação política da existência de uma terra alhures, que lhes fora "roubada", onde fariam jus à cidadania que lhes era negada... nos países em que nasceram!
Enquanto a comunidade internacional validasse a existência dos "refugiados", haveria uma arma política de contestação do Estado israelense - por mais que este Estado fosse fruto de uma resolução internacional legal que criara dois países.
A política regional se estabeleceu desde o início como a credora da circunstância palestina.
Não importava que os árabes tivessem recusado a criação de um Estado palestino e declarado guerra ao Estado judeu. Não importava que, na guerra que promoveram contra os judeus, os árabes tivessem sido legitimamente derrotados no campo de batalha, sem interferência estrangeira.
Como o massacre que os árabes tentaram infligir aos judeus foi um fiasco, os perdedores, oportunistas, identificaram na UNRWA o instrumento para o prolongamento indeterminado da guerra. E, de posse do dinheiro, investiram na retórica.
A juventude palestina em Gaza, Síria, Líbano e Jordânia cresceu instruída sobre a existência de um vizinho - os judeus - que havia "roubado" sua terra. Este aprendizado de ódio culmina em um credo de santificação do assassinato do invasor, que mora do outro lado da cerca. A criança palestina passou a ter por ideal de vida matar um ou mais judeus, não importa quais, nem onde, nem como.
Esta foi a grande vitória da Liga Árabe e dos países que representava. Cultivou, em uma estufa, gerações sucessivas de jovens muçulmanos, mas estrangeiros, dispostos a abrir mão da vida em prol do não-reconhecimento de um Estado do qual os países árabes eram inimigos.
Os países árabes alimentam crianças palestinas para serem galos de rinha.
E, melhor, são bem-sucedidos sem gastar um centavo com isso, pois todo o dinheiro envolvido é fruto da contribuição da comunidade ocidental às necessidades humanitárias dos refugiados.
Assim, o presente com o qual lidamos é uma massa gigantesca de jordanianos, sírios e libaneses, nascidos nestes países, cujos pais nasceram nestes países e neles se formaram, casaram e tiveram filhos, com uma dupla identidade (financiada e validada pelo orçamento internacional de US$ 1,2 bilhão de dólares anuais da UNRWA). Eles são, eternamente, refugiados palestinos.
A circunstância mantém o pescoço do Estado de Israel sob a guilhotina.
Talvez se trate de um caso ímpar e sem paralelo na história. Os autores dedicam o livro à exposição desta singularidade, e de como foi imposta uma questão para a qual não há solução - o Retorno.
Historicamente, populações refugiadas buscam assentamento e integração em outros países, de preferência aqueles com os quais compartilhem identidade étnica e cultural. Foi exatamente o que aconteceu com a diáspora palestina, que se distribuiu entre Jordânia, Síria e Líbano.
Na Jordânia, eles são mais de dois milhões e meio de cidadãos jordanianos - mas que continuam sendo registrados pela UNRWA como refugiados. Nasceram na Jordânia. Cresceram na Jordânia. Se educaram na Jordânia. Se casaram na Jordânia. Tiveram filhos na Jordânia. Têm toda a documentação legal jordaniana. Mas, estatisticamente, são "refugiados palestinos".
Na Síria, que passou as últimas décadas em guerra civil, a situação é ainda mais esdrúxula. Os sírios "palestinos" que nasceram na Síria e eram contabilizados pela UNRWA como refugiados palestinos, fugiram para a Jordânia, onde passaram a ser atendidos pelo ACNUR como refugiados... sírios!
Ou seja, se tornaram duplamente refugiados. Eram palestinos refugiados na Síria e passaram a ser sírios refugiados na Jordânia, mas sendo simultaneamente registrados e subvencionados por duas instituições internacionais de auxílio humanitário, a UNRWA e o ACNUR. No mínimo, exótico.
Schwartz e Wilf buscam ao longo de todo o texto uma organização cronológica e didática do problema. Não obstante - ou talvez por isso mesmo -, acabam presos em um labirinto, pois sua linha de raciocínio, ainda que correta e bem fundamentada, repassa diversas vezes os mesmos pontos, pecando em uma redundância que talvez fosse mesmo inevitável.
Mais ou menos o que também fiz por aqui, tentando explicar esse furdunço.
Um dos pontos altos da obra é o entendimento da perspectiva palestina. Os palestinos têm por anseio de vida o retorno à terra anteriormente ocupada por seus antepassados. Mais que isso, querem retornar às mesmas casas em que seus avós viveram; mesmo que tenham sido destruídas, eles as mantêm holograficamente de pé, na fabricação das suas memórias.
A compreensão desta perspectiva, entretanto, redunda na conclusão da impossibilidade prática do sonhado retorno. Porque não há para onde os pretensos refugiados possam retornar. O espaço desejado é ocupado por um outro povo, que foi vitorioso na guerra travada entre ambos.
Dois corpos não têm como ocupar o mesmo espaço. Neste caso, o derrotado pleiteia que lhe seja dada a reocupação do espaço conquistado pelo vitorioso. Para onde, neste caso, iria o vitorioso na guerra, se derrotado na disputa retórica? Há que se dar um destino ao corpo.
Se vivo, precisaria ser recebido em outro país, como refugiado (e, imagino, sem direito a retorno, pois, senão, teríamos um círculo vicioso eterno); se morto, é porque foi derrotado em confronto. Mas como matá-lo, se permanece imbatível, se Israel venceu (e continua vencendo) todas as guerras?
Eu aqui tomei a liberdade de novas formulações para encarar este paradoxo.
Não informei no início, mas conto agora: os autores lançaram o seu texto em 2020. Muito antes do 7 de outubro de 2023, portanto. E aqui já anteviam a catástrofe, desde sempre anunciada.
Já eu escrevo no primeiro semestre de 2026. Estados Unidos e Israel, em ação militar conjunta, atacaram em fevereiro a maior força militar da região, o Irã. E, desde então, estão encalacrados por lá. O Irã era justamente quem havia financiado o 7 de outubro, armando e subsidiando o grupo terrorista palestino Hamas.
Mas, como estamos carecas de saber, Israel reagiu e dizimou o Hamas.
Para conseguir dizimar o Hamas, Israel arrasou a Faixa de Gaza. E não só - Israel, em uma operação cinematográfica, implodiu o Hezbollah, um grupo terrorista libanês também armado pelo Irã e incomparavelmente mais forte e numeroso que o Hamas.
Com a perda dos seus dois grandes postos avançados na circunvizinhança do Estado israelense, o Irã se tornou mais vulnerável e sem poder de reação - e coação. Sofreu um ataque devastador na sua planta nuclear, ainda em 2025. E agora, em 2026, foi seviciado pelo ataque israelo-americano.
De acordo com a cobertura jornalística, recentemente Israel vem destruindo vastas regiões urbanizadas do território libanês, para impedir uma reorganização do Hezbollah na fronteira.
A palavra sistematicamente utilizada na mídia e nas redes sociais é "genocídio". Seu uso, entretanto, é meramente hiperbólico. A ação israelense, covarde ou não, visa ocupação de espaço. A população é estimulada a abandonar a zona de conflito. Não há confinamento ou perseguição.
Estes últimos parágrafos parecem migrar do tema original, mas o ratificam e dão momentaneidade. A "guerra do retorno" é uma guerra política, econômica e midiática. Ela acontece em substituição à verdadeira guerra, não como uma negação desta última, mas como um recurso estratégico.
A Guerra do Retorno é um importante instrumento retórico dos países árabes contra a presença de Israel na região do Oriente Médio. Eles estão certos em querer ejetá-la. A operação atual contra o regime iraniano só pôde ocorrer porque havia um inimigo poderoso nas cercanias - Israel.
Israel é a presença militar do Ocidente no coração do Oriente Médio. Os árabes podem tolerá-la por algum tempo. Mas dedicarão todo seu esforço a combater esta presença. Do Ocidente querem apenas o dinheiro pago pelo petróleo - que, se por um lado é ainda o principal combustível da civilização ocidental, por outro financia o poder de fogo das ditaduras do Oriente.
Por fim, o retorno dos palestinos é um ótimo pretexto para manipular o engajamento ideológico superficial de milhões de jovens conectados em seus celulares. Mas as únicas questões ali que realmente importam são as econômicas e as militares (que sempre andam juntas). O mais é farofa.
Dará certo? A aliança midiático-pseudo-ideológica será suficiente para fazer desaparecer oito milhões de judeus do Oriente Médio? Só o futuro dirá. Em caso positivo, quando Israel for exterminado, os árabes poderão voltar a se matar entre si - e aí sim mandar os palestinos para o raio que os parta.
Por enquanto, porém, Israel parece estar mais forte e beligerante do que nunca.
Editora Contexto, 301 páginas | 1a edição 2021 | Copyright 2020 | Tradução: Rachel Meneguello
Título original:
"The war of return: how western indulgence of the palestinian dream has obstructed the path to peace"



