"Marcoré", por Antonio Olavo Pereira

Um livro incomodoso. Um romance psicológico, passado numa cidadezinha imprecisa do interior paulista. Vidas comezinhas e um cotidiano banal. Descrição de duas décadas de observações triviais e amargas de um ocioso oficial-maior de cartório, sobre os personagens ao seu redor e sua pequena família. Em tempos do politicamente correto, o oposto. Narrado em primeira pessoa, o autor expõe seu juízo crítico sobre os que o cercam e confessa as suas atitudes humanamente egoístas. Seu núcleo familiar é pequeno e descompensado: ele e a esposa moram com o casal de sogros, dos quais é empregado no cartório. Seu casamento de dez anos é estéril. A sogra lhe é hostil. Fora dali, a mãe lhe é azeda. A ausência de um filho traz apatia ao rame-rame da sua vida, até que a súbita notícia da sua chegada lhe deixa cético sobre se o rebento temporão traria alegria ou desconforto. O autor é garimpeiro das palavras. Traz na bateia a cada página meia dúzia de pepitas. Na contagem total, são centenas, quiça milhares. Brejaúva, monjolo, gabiroba, mamangavas, bacupari, canjarana, sapucaia, sequilho, escaveirada, sabulho, sarilho, sanhaço, gata seca, cafarnaum, currilho, desoras, cumeadas, esparolada, curiango, marosca, um palavreado garboso. Mas o livro não é feito só de sabores sonoros. É recheado com um amargor cheio de minúcias, que o oficial-maior vai derramando no seu diário. As vidas vão se passando em lento torvelinho e ele tudo observa, dá nome, critica, confessa, expobra, se expõe. A erudita resenha de Antônio Houaiss no fim do livro elogia a madeira da obra e julga descabida a única quebra de monotonia de toda a história, a passagem órfã de mesmice e verossimilhança (te prepara que vai ter spoiler): o inusitado voto de castidade pós-parto de Sílvia. Tudo o mais no livro é banal, comezinho, cotidiano. Esta Silvia obstinada na renúncia ao sexo remete a Nelson Rodrigues - casta, beata, de uma fraqueza doentia. Houaiss citara a todos, de Machado a Graciliano, para explicar Antonio Olavo, mas ignorou Nelson. Já eu volto a Machado, à sua Capitu, para jogar uma sombra em Silvia, suspeita que ninguém teve: naquele casamento infértil, que súbito ganha um bebê já no seu declínio, não teria sido em sacrifício que Silvia se entregara a outrem, e depois recusara o próprio marido, casta que era, mas autocondenando o extremo a que fora, para iluminar a casa com um rebento? E (larga a resenha que lá vem o spoiler definitivo, o mata-livro) o abandono de Marcoré, nas páginas derradeiras, não renega o pai e reafirma que ele não o era? Não fora ele viver com o doutor parteiro, de quem o próprio autor se enciumava, de muito tempo? Bem, esta minha tese ousada e sacrílega não há quem esteja vivo para confirmar. O livro é de 1957 e eu teço caraminholas em 2018. Além deste conteúdo provocativo, uma linda capa. Mas enigmática. Quem é a mulher, surpreendida na beira da cama? Alheia ou pensativa? A cama e as coxas expostas, com o vestido-camisola arregaçado, denunciam a intenção sensual. Mas, por quê? As duas mulheres da vida do personagem narrador são a esposa, Silvia, e a amante, Emiliana - ambas sem protagonismo ou cuidado descritivo. São personagens corrimão, precariamente descritas. Se determinantes no roteiro - uma por não ir para a cama, a outra por ir em demasia -, não passam de sombras no relato cru do autor. Por que uma delas estaria na capa? Curioso, fui à ficha técnica da obra. O responsável pela capa era Victor Burton. Googlei e descobri que é um designer fantástico, com mais de 2.000 capas, com livros sobre o cara e tudo. Mas não me explicou nada. Voltei à ficha técnica e descobri que a imagem era um fragmento da pintura Morning Sun, do gênio americano Edward Hopper. A tela é belíssima. Uma senhora magra e sensual, sentada à cama, em um quarto desnudo, em frente à uma grande janela, de onde se entrevê uma fábrica monumental e o céu azul. Solidão e melancolia - tanto na tela, como no livro. Talvez não haja nenhuma razão, que não a beleza, para uma ilustrar a outra. Eis o paradoxo da arte: a beleza da obra vem da feiúra que destila. Ao me apartar do livro, me segue o rancor cruento de dona Ema, a sogra morta. Volta do túmulo para bicar o fígado de Olavo, semivivo.

Editora Arqueiro, 222 páginas

"O que é fascismo? e outros ensaios", por George Orwell

Fascista? Eu? Você? Ninguém? Bem, apenas três semanas depois, esta questão ficou datada. Obsoleta. Ninguém chama mais ninguém de fascista, como se a ameaça suprema do fascismo nunca tivesse existido. Pelo menos, não aqui no Brasil. Até há pouco, ser ou não ser"fascista" era o que determinava quem era ser humano e quem era anti-ser humano. Agora o assunto acabou. Ou seja, não era uma questão política, como se assemelhava tratar. Nem ideológica. Era menor, era somente uma questão eleitoreira. Não falávamos de princípios, falávamos tão somente de conveniências eleitorais. Perda de tempo. Para não dizer que absolutamente ninguém mais fala nisso, o ex-procurador geral da República, Rodrigo Janot, tuitou esta semana seu entendimento de fascista e citou um livro da Madeleine Albright sobre o tema. Humm. Eu nem achei a autora essa coca-cola toda e ainda implico com alguém que escreve "facista". Um PGR com problemas de alfabetização, que se reúne com advogado das partes no botequim e que cita a secretária de Estado do Bill Clinton acaba ficando demais para mim. Para falar de fascismo, preferi uma rota incontroversa e ir de Orwell. Todo mundo conhece George Orwell. Pelo menos de ler ou, no mínimo, ouvir falar sobre algumas das suas obras mais famosas. O indiano é autor de "1984" e de "Revolução dos bichos". Foi um obstinado defensor da liberdade, sobretudo a de expressão, que definia como "o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir". Em artigo publicado no ano seguinte ao término da Segunda Guerra Mundial, se auto-definiu: "Cada linha de tudo o que eu escrevi a partir de 1936 foi escrita contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático como o entendo." É pouco. Mais do que um escritor comprometido, foi combatente na Espanha, pelo POUM (Partido Operário da Unificação Marxista), contra as forças de Franco, onde deu baixa após tomar um tiro no pescoço na linha de frente. Para escrever sobre os despossuídos, viveu meses como miserável nas maiores capitais europeias, mendigando, dormindo na rua e aceitando os piores serviços (daí surgiu o seu ótimo "Na pior em Paris e em Londres"). Intelectual e jornalista, manteve no londrino Tribune, por meio da sua coluna As I Please (que poderíamos traduzir "Como eu quiser"), uma visão engajada das suas convicções sócio-políticas. A questão do fascismo, que me interessa aqui, foi recorrente nos seus artigos na imprensa inglesa. Por isso, na compilação de ensaios feitas neste livro pelo botafoguense Sergio Augusto (o fato dele ser botafoguense não tem nada a ver, mas eu gosto de citar), o fascismo é tema central, ou periférico, em muitos dos seus textos, sejam artigos políticos ou resenhas de livros. Ora, eu e George temos mais ou menos o mesmo hobby, escrever sobre livros. Ele teve mais experiências de guerra (muitas dele contra nenhuma minha), mais talento e mais leitores, mas, fora isso, fazemos a mesma coisa. Como não gostar do cara? O artigo que dá título ao livro foi publicado em março de 1944, há gloriosos 74 anos e meio. E ele, que lutou contra o fascismo, na época do fascismo, já abre antecipando: "De todas as perguntas não respondidas sobre nossa época, talvez a mais importante seja: 'O que é o fascismo?" Já eu me questiono que, se continuamos a perguntar a mesma coisa três quartos de século depois, algo nisso aí cheira mal. Mas vamos dar a palavra à Orwell: "Não existe quase nenhum grupo de pessoas - certamente não um partido político nem um corpo organizado de nenhum tipo - que não tenha sido denunciado como fascista durante os últimos dez anos." Sim, essa coisa de chamar todo mundo de fascista não é novidade nem no tempo, nem no espaço. É figurinha repetida. E enfadonha, por tola. Orwell relaciona os grupos que costuma ver chamados de fascistas: 1) Conservadores ("todos os conservadores, apaziguadores ou anti-apaziguadores são tidos como subjetivamente pró-fascistas"); 2) Socialistas (diz ele que há quem sustente que "socialismo e fascismo são a mesma coisa"); 3) Comunistas (refere-se a escolas de pensamento que defendem que "todos os fascistas e comunistas visam aproximadamente à mesma coisa"); 4) Trotskistas ("os comunistas acusam os trotskistas de serem um órgão criptofascista sustentado pelos nazistas"); 5) Católicos ("a Igreja Católica é quase universalmente considerada pró-fascista"); 6) Os que resistem à guerra ("pacifistas são acusados de sentimentos pró-fascistas"); 7) Os que apoiam a guerra ("os que resistem à guerra aplicam o termo fascista a qualquer um que queira uma vitória militar - os que apoiaram a Convenção do Povo chegaram perto de proclamar que a vontade de resistir à invasão nazista era um sinal de simpatia pelo fascismo; além disso, toda a esquerda tende a comparar militarismo com fascismo"); 8) Nacionalistas ("o nacionalismo é sempre considerado inerentemente fascista, mas entende-se que isso é aplicável apenas a movimentos nacionais desaprovados por quem o está avaliando"). Ou seja, segundo George Orwell, nos idos de 1944, no continente europeu em guerra contra o nazifascismo, "do modo como é usada, a palavra fascismo é quase desprovida de todo significado". Para ele, a expressão carregava um forte componente emocional. Seu conteúdo era tão ralo, que quase todo conterrâneo seu aceitaria "troglodita" como sinônimo de "fascista" e que a palavra foi degradada ao nível de um palavrão. Não para ele, entretanto. Em um artigo escrito quatro anos antes, "Profecias do fascismo", George traz Marx para o debate: "Às vezes se alega que Marx falhou ao não prever a ascensão do fascismo. Não sei se ele previu ou não, mas seus seguidores falharam ao não perceber perigo algum no fascismo até eles mesmos atingirem o portão do campo de concentração. Um ano ou mais depois que Hitler chegou ao poder, o marxismo oficial ainda proclamava que Hitler não tinha importância e que o fascismo social (isto é, a democracia) é que era o real inimigo." Então, para o socialista Orwell, o comunista Marx aliviava o nazismo e achava que a democracia é que era fascista? Que dureza, ehm? Atribuir a alcunha a outrem é rápido, mas escarafunchar suas raízes requer mais tutano. Me pergunto se não será fascista chamar quem discorda da gente de fascista. Ao menos, parece. Neste debate que reputo artificial, por todo o exposto, pelas razões acima e pelos últimos dois meses do entorno midiático, vou me valer de um outro ensaio do autor, citado pela economista Monica de Bolle em seu delicioso "Como matar a borboleta-azul".  O texto é intitulado "Na frente do nariz" e, nele, a flexibilidade individual perante uma mentira (hoje sob o clichê eufemístico fake news) é a protagonista: "Todos somos capazes de acreditar no que sabemos ser falso, e quando enfim os acontecimentos provam que estávamos errados, reinterpretamos os fatos de modo despudorado para mostrar nossos acertos. Intelectualmente, é possível continuar assim por tempo indefinido; o único problema é que mais cedo ou mais tarde uma crença falsa esbarra na dura realidade." Põe dura nisso. Mas defendo que quebrar a cara é um direito inalienável do ser humano. Bem, já que estamos bem acompanhados, vamos abrir o nosso leque. A saborosa seleção de ensaios de Orwell feita por Sergio Augusto vai muito além do tema fascismo e da política, embora ela esteja sempre presente. O jornalista inglês se aprofunda na crônica de filmes de Charles Chaplin e navega pelo universo literário de James Joyce, T.S. Eliot e W.B.Yeats - indo até, pasme, Mein Kampf, de você sabe quem. Este último foi resenhado em março de 1940, onde Orwell identifica um plano de "esmagar primeiro a Rússia, com intenção explícita de esmagar a Inglaterra em seguida". A ordem, segundo ele, acabou invertida, porque a Rússia foi "mais fácil de subornar, mas que a vez da Rússia chegará quando a Inglaterra estiver fora de cena". Profético. A despeito do pacto russo-alemão, no ano seguinte a vez da Rússia chegou, para surpresa de Stalin. George Orwell analisa as possibilidades de efetivação do programa de Hitler: "O que ele imagina para daqui a cem anos é um estado [territorialmente] contínuo com 250 milhões de alemães com abundante espaço vital (estendendo-se até o Afeganistão ou arredores), um horrível império desmiolado no qual, em essência, nada jamais acontece, exceto o treinamento de jovens para a guerra e a interminável produção de bucha fresca de canhão." Sobremodo delicioso nos depararmos com uma visão irreverente dos fatos extraída no calor dos acontecimentos, em um momento em que tudo que, no futuro, se tornaria História definitiva, ainda estava em curso. Este é o grande barato. Visto à distância, de agora, é tudo uniforme (sem trocadilho), porque hoje o passado é uma verdade monolítica. Por falar na dicotomia passado vs presente, não deixa de ser curiosa a menção feita na resenha do livro The Secret of the League, de Ernest Bramah, escrito em 1907, onde Orwell analisa uma então utópica chegada do partido dos trabalhadores ao governo: "Chega ao poder com uma maioria tão imensa que seria impossível desalojá-lo. No entanto, eles não estabelecem uma economia totalmente socialista. Apenas continuam a operar o capitalismo em seu próprio benefício, elevando todo o tempo os salários e criando um enorme exército de burocratas." O resenhista falava de uma Inglaterra de um século atrás, mas jamais imaginava que um outro partido dos trabalhadores faria algo semelhante no terceiro milênio, em um folclórico país de terceiro mundo. Falando em capitalismo, que algumas vezes é empregado à guisa de fascismo, como um insulto, por quem se arvora no discurso pretensa e ingenuamente ideológico, Orwell cita uma palestra sobre Shakespeare, proferida para uma plateia socialista, que foi interrompida pela pergunta: "Shakespeare era capitalista?" Havemos de convir que a burrice, na sua avidez por rótulos simplistas, é atemporal. Em todos os seus ensaios, não importa o tema, o texto limpo de George é instigante. O impulso é listar suas tantas agudas observações, mas vou me conter e sugerir a você que adquira este simpático compêndio. O leitor inteligente não desperdiçará seu tempo. Por fim, pulando dolorosamente sobre Churchill, Mussolini, Cidade do Sol, revolução russa, Oscar Wilde, Aldous Huxley e tanto, tanto mais, é fascinante ver "O grande ditador" ser avaliado por um contemporâneo, em dezembro de 1940, antes do filme virar um clássico à prova de crítica. Orwell enaltece aquilo que vê como uma manifestação política engajada: "Um poderoso e combativo discurso em prol da democracia, da tolerância e da decência (...), uma espécie de versão do discurso de Gettysburg de Lincoln num inglês de Hollywood, uma das mais fortes peças de propaganda que já ouvi". Mas o filme em si George acha desconexo, ainda que ressalte a capacidade de Chaplin representar "uma espécie de essência concentrada do homem comum, a inerradicável crença na decência que existe no coração das pessoas normais". Interessante definição. Aposto que teria aplicação no entendimento do voto do brasileiro nas eleições presidenciais de 2018.

Companhia das Letras, 158 páginas

"The diary of Petr Ginz 1941 - 1942", por Petr Ginz e Chava Pressburguer


Caso se tratasse de uma única pessoa morta premeditadamente pelo Estado, por conta da sua religião, bastaria isto para fazer de Hitler e seu reich nazista criminosos. Mas o regime alemão genocida assassinou milhões de inocentes. Crianças, mulheres, idosos e homens inofensivos foram segregados, espoliados e mortos de forma covarde e sistemática. Foram tantos, que se tornaram indistintos, todos pertencentes à mesma massa amorfa de corpos fuzilados e asfixiados. Suas casas foram tomadas, seus bens roubados, seus itens pessoais queimados. Era complementar ao projeto do Grande Crime a supressão total da memória dos assassinados. Por pouco não se deu tudo exatamente desta forma abjeta. Para alívio da civilização, uma reviravolta se deu, a carnificina foi interrompida e o mal absoluto foi abortado. Mesmo assim, as características individuais de milhões de seres humanos foram apagadas da História. Ou quase isso. Vez por outra, emerge dos destroços um relato solitário, uma voz indefesa de criança vinda do passado para denunciar o horror - como já o tinham feito a holandesa Anne Frank e a polonesa Rutka Laskier. O tcheco Petr Ginz veio se juntar a elas. Quando os Estados Unidos lançaram a espaçonave Columbia, em 2003, um dos membros da tripulação, o astronauta israelense Ilan Ramon, filho de uma sobrevivente de Auschwitz, resolveu homenagear seu povo e levar consigo um símbolo da tragédia. Havia visto no Museu do Holocausto, em Jerusalém, um instigante desenho feito 60 anos antes, retratando uma imaginária paisagem lunar, cujo autor era um garoto assassinado pelos nazistas no mesmo campo de concentração de Auschwitz. Por meio do gesto carinhoso do astronauta judeu, a ilustração iria até pertinho da lua - e a singela aventura espacial do desenho se tornaria uma delicada notícia de pé de página nos jornais de Israel. Tocante, mas uma não-notícia. A explosão da Columbia, porém, ao reingressar na atmosfera terrestre, após pouco mais de duas semanas em órbita, trouxe para o noticiário mundial a história dos sete astronautas mortos. Isto incluiu a divulgação da perda da Moon Landscape (acima) e do nome do seu jovem autor, Petr Ginz. Alguém no planeta ouviu este nome e o achou familiar. Algumas semanas depois, o museu foi contatado por um tcheco, que dizia ter comprado uma velha casa em um bairro de Praga e, junto com todas as velharias que estavam guardadas no porão, encontrou alguns cadernos manuscritos assinados pelo mesmo nome que assinara aquele sombrio desenho da lua. O nome era Petr Ginz - e foi assim que os diários ex-perdidos-para-sempre de um menino judeu, registrando a escalada da deportação da população judaica da capital tcheca para os campos de concentração, saíram da obscuridade. E revelaram como uma criança testemunhou os fatos acontecerem ao seu redor, nas ruas, no colégio, na própria casa, e os registrou com a acuidade de um jornalista. As páginas de Petr contam da sua rotina e de como a cidade foi se tornando dia a dia um espaço proibido aos judeus: ruas, quarteirões, transportes públicos, armazéns, lojas, profissões, moradias, pertences, médicos, remédios, a simples leitura de jornais. Com apenas 14 anos, Petr fazia parte da força de trabalho da remoção (perversidade suprema, os judeus eram obrigados a gerir o seu próprio processo de expulsão e aniquilamento). O jovem Ginz foi encarregado de levar a bagagem de muitos parentes para a plataforma de onde partiam os trens rumo aos campos de concentração. Na rígida e bem sucedida metodologia alemã, nem a um guri era permitido carregar malas sem as devidas permissões legais: como era proibido aos judeus irem às ruas antes das 6h, e os trens partiam às 5h30, Petr precisava no dia anterior conseguir um passe que lhe autorizasse a auto-locomoção no horário vedado (ressalte-se que o direito à bagagem era apenas um estratagema do governo nazista para que os condenados não soubessem que o eram, e se dirigissem para a morte cordatamente; a bagagem seria confiscada no embarque pelos SS). Nos seus cadernos, Petr discriminou de forma sucinta sua rotina diária e como o cerco foi se apertando ao redor dos judeus, da sua família e dele próprio. O tom ameno dos seus apontamentos disfarça a tragédia que o cercava, mas também deixa claro o seu profundo grau de entendimento. Seus comentários pontuais sobre o bombardeio aliado e o atentado de maio de 1942, que matou o SS Gruppenführer, não deixam margem à dúvida. Ele foi capaz de descrever com sobriedade até mesmo quando recebeu a notícia de que chegara a sua vez de seguir para um campo de concentração. Sabia também que a expectativa dos pais de que ele voltaria em breve não procedia. Petr seguiu para Terezin, denominada pelos nazistas Theresiensdat, onde ficou preso por dois anos, e de lá foi mandado para a morte em Auschwitz. Theresiensdat era uma exceção entre os campos de concentração. Era a estas instalações que os nazistas recorriam, quando queriam negar a existência dos campos de extermínio. A estrutura do campo tcheco permitia a simulação de que aquele era um espaço de relativa liberdade para os judeus em confinamento. A Cruz Vermelha foi até o campo para checar como os judeus eram tratados e aprovou publicamente as condições. Mas foi uma visita arranjada - não só o campo era uma farsa, como os visitantes eram cúmplices dela. Este selo de aprovação do campo não evitou que 33.000 prisioneiros saíssem mortos de lá. Ou que 88.000 fossem de lá para os campos especializados em extermínio. De todo modo, as condições sui generis da prisão permitiram a Petr escrever e desenhar enquanto esteve preso. Lá ele viveu junto com outros 50 garotos da mesma idade, onde chegaram a editar um jornal, "Vedem" (em tcheco, "venceremos"). Toda a sua produção hoje pertence ao Museu do Holocausto e à sua irmã Chava. Vendo os muitos desenhos deixados pelo jovem Petr, um leitor voraz, é impossível impedir que seu talento nos emocione - ainda mais por sabermos em que condições a sua arte intensa, genuína, floresceu. Dói vermos a beleza dos seus desenhos e termos o conhecimento que logo ele seria assassinado, sem chances, sem culpa. Ginz foi além, tendo escrito oito livros de ficção científica, sob inspiração do seu ídolo Jules Verne, antes mesmo dos 14 anos. Tivesse sobrevivido, teria sido um gênio que iria assombrar a segunda metade do século XX? Estaria entre os grandes? Jamais saberemos, mas é uma hipótese e tanto. Seus traços tinham tanto poder que foram eles que, sessenta anos após seu desaparecimento, resgataram a sua história e a sua curta biografia do limbo. Assassinado covardemente por um regime criminoso quando tinha apenas 16 anos, Petr hoje é um símbolo vivo. Na web é fácil encontrar vídeos inspirados nos seus desenhos e filmes diversos contando a sua história. Lógico que aqui no Brasil ele é totalmente desconhecido. O horizonte de interesse dos nossos conterrâneos é curto. Nosso panorama cultural vem dando preferência nesta década ao sertanejo universitário e às memes de whatsapp. Mas, se você teve interesse na história de Petr Ginz e me leu até aqui, certamente terá prazer em conhecer a obra desse garoto-prodígio que o nazismo assassinou. Mais um deles. Em Vedem (https://www.youtube.com/watch?v=fPxE21mTXQ8) se vê em detalhes a sua produção editorial no gueto. Em The Last Flight of Petr Ginz (https://www.youtube.com/watch?v=_CrEyO_Buro) vemos o presídio e sua belíssima reprodução artística do lugar. Temos a história de Petr e seus companheiros em Terezin, em Petr Ginz and the boys of Vedem. E muitos outros. Retornando aos diários de Petr, não espere encontrá-los em português. Como eu dizia há pouco, nosso interesse local é um pouco mais restrito. Nenhuma editora pátria acreditou que os leitores brasileiros teriam sua atenção despertada para esta história desinteressante. Por isso, o meu exemplar, tradução do tcheco para o inglês, eu encomendei diretamente na Amazon. Tem uma introdução do Jonathan Foer, o prefácio e o posfácio de Chava Pressburger (irmã de Petr, ao lado dele na foto), imagens de família e ilustrações. Ah, a propósito, quando eu falei do triste acidente espacial que, por vias indiretas, permitiu à posteridade resgatar do anonimato a história e a obra do jovem artista Petr Ginz, esqueci de mencionar o dia em que isto aconteceu, 1o de fevereiro. Não sei se vem ao caso, mas Petr Ginz veio ao mundo justamente em um dia 1o de fevereiro. Coincidências.

Grove Press, 176 páginas

"O Retrato", por Osvaldo Peralva

Eleições. Ideologias. Estratégias de tomada do poder. Revoluções. Ditaduras. A tal da democracia. A passagem do tempo e a sucessão de gerações embaralha a percepção dos incautos. Muitas vezes achamos velho o que é novo - e novo o que é velho. "O Retrato", de 1960, fala de tudo isso, direta ou indiretamente, e nos deixa uma sensação assim. Um déjà vu. Uma sensação de familiaridade. Constatamos que o que vemos agora, ao nosso redor, nas ruas, na mídia, nas redes sociais, já estava em prática, e também teorizado, há quase um século. Mas não vamos colocar o carro na frente dos bois. Catei o livro na prateleira em homenagem ao segundo turno da disputa para presidente do Brasil. Neste nosso país multirracial, foram para a final um descendente de italiano e outro de libanês. Um dos vices era um general bugre e a outra vice uma mocinha do Partido Comunista do Brasil. Esta relíquia me chamou a atenção. Não à toa. É como se olhássemos para o céu e víssemos um pterodáctilo. Eles não existem mais. O comunismo também não. Mas temos (ainda) um partido dedicado a ele. Então achei de bom-tom viajar no tempo para encontrar o partido no seu auge aqui no Brasil. Se é que alguma vez experimentou algum. Passei o dedo pela lombada de meia-dúzia de livros sobre o tema e puxei o que me pareceu mais convidativo para o dia. Seu autor é Osvaldo Peralva. Um jovem nordestino, jornalista, ativista dedicado à causa das esquerdas. Filiado ao Partido Comunista do Brasil desde o período em que o partido estava na ilegalidade. Idealista, fez seu texto em primeira pessoa. Não teve medo de se expor. Pagou um preço alto. Osvaldo foi um dos líderes do primeiro grupo de brasileiros a ir clandestinamente para a União Soviética, na etapa preparatória para a tentativa de implantação do comunismo em diversos países capitalistas, entre eles o Brasil. Estávamos nos anos 50. Aqui presidia Getúlio, em crise. Nos EUA, imaginava-se espiões em cada esquina e a caça às bruxas imperava no showbusiness, seara onde aportaram dezenas de profissionais europeus fugidos da Segunda Grande Guerra. Boa parte deles simpatizantes do regime comunista. Apesar de já terem se passado mais de três décadas da revolução que trucidou a família do czar, o planeta permanecia vendo o comunismo como uma jovem promissora. Osvaldo era um entusiasta. Em Moscou, permaneceu um ano e meio no curso preparatório, que não chegou a terminar: foi designado para ser o representante brasileiro no Kominform, o Centro Mundial de disseminação de conteúdo revolucionário, mantido pelos russos em Bucareste, Romênia.  Esta foi sua base até o encerramento (temporário) do jornal, quando retornou à União Soviética, depois à Praga e finalmente foi determinada sua volta ao Brasil. Para enganar as autoridades brasileiras e evitar sua prisão (o comunismo permanecia ilegal no país), na volta os soviéticos lhe prepararam um passaporte falso. Como trazia escondidos para o partido US$ 24.000 dólares (um milhão de reais em dinheiro de hoje) e incontáveis documentos comprometedores, seu périplo dissimulatório incluiu escalas e trocas de vôo no Caribe e no Peru, de onde embarcou para Porto Alegre, aeroporto tido por de menor rigor na vigilância. Na mosca. O baiano Peralva foi liberado na alfândega sem problemas, após três anos de atividade comunista no coração da Cortina de Ferro. Retornara ao país repleto de experiência e de expectativas. Não que tivesse chegado mais convicto do que quando partira; na verdade, agora tinha dúvidas que antes sequer lhe passavam pela cabeça. Os dias, porém, não correram como ele sonhara. E, no curso das suas primeiras semanas no Brasil, não poderia imaginar que, apenas quatro anos depois, estaria escrevendo o livro onde revelava tudo o que viu e de que participou na União Soviética, na Romênia e na Tcheco-Eslováquia (com o cuidado de não denunciar o nome dos companheiros que viviam na clandestinidade). Ossos da ideologia. O livro é dividido em três partes. A primeira traz sua partida do Brasil e a rotina dos trainees de revolucionários comunistas em Moscou. A segunda parte é a sua experiência como agente do comunismo, dentro do Kominform. A última parte é dedicada ao seu retorno e à disputa interna no partido, descrevendo como os nomes mais conhecidos do comunismo brasileiro estavam entregues a uma luta pelo poder - com Prestes, Grabois, Pomar, Amazonas, Barata e Marighella em primeiro plano. Cada um destes três grandes blocos revela prismas diferentes do regime comunista, dos partidos soviético, romeno, tcheco-eslovaco e brasileiro, bem como dos seus líderes. Uma descrição valiosa por se dar não em retrospectiva, mas em pleno bojo dos acontecimentos. Por se dar não em segunda mão ou por ouvir falar, mas testemunhal e participativa. Por ter o ponto de vista de um dos nossos, não de um estrangeiro. Peralva relata o que aconteceu no período 1953-56, sob a ótica do tempo em que escreve, 1960. Nós, privilegiados, temos a perspectiva de contemplar este cenário de cima, daqui de 2018 - e constatarmos o quanto Peralva estava certo em suas conclusões de momento. Seu registro é de valor inestimável e merecia ao menos umas cinco salas de museu, como um tributo à cegueira e à farsa do totalitarismo. Não só pela visão macro dos acontecimentos, mas pelas minúcias. Dezenas, centenas delas. A começar pela situação de subserviência em que se encontravam os brasileiros em curso, que eram tratados com desdém pelos diretores. Apesar das dezenas de brasileiros matriculados, a ignorância sobre o Brasil era absoluta. Sivolobov, um dos maiorais da Escola, sugeria para futuro nome do Brasil comunista o de República Autônoma dos Negros. Na sua displicente ignorância sobre nós, desconhecia que éramos multirraciais. Num texto de Peralva sobre a campanha política no Brasil, que mencionava que ela se dava nos jornais, no rádio e na televisão, Pavlienko riscou a palavra "televisão". Ao questionar o porquê da medida, o revisor explicou: "Só os países adiantados têm televisão. A Grande Enciclopédia Soviética diz que o Brasil é um país agrário, atrasado." Certa vez foi exibido um documentário tcheco com takes de cidades brasileiras. Ao serem exibidas cenas da praia de Copacabana, repleta em um dia de sol, o locutor, em russo, não deixou margem a dúvidas sobre o que se passava naquele país capitalista: "Aqui só os ricos podem banhar-se." A realidade era preterida pelas versões mais convenientes à causa. As utopias de Peralva derretiam à medida em que avançavam os meses. Tudo era vedado aos ativistas brasileiros, sem permissão para sair do internato em que estudavam. Os raros deslocamentos eram feitos sob vigilância. Quando circulavam, não lhes era permitido nenhum contato com o povo local. Os dirigentes comunistas brasileiros, que bajulavam os diretores russos e eram implacáveis com os alunos da própria nacionalidade, gostavam de repetir que qualquer dos brasileiros em curso era de valor insignificante perto de qualquer russo varredor de lixo, pois estes tinham "feito a revolução" e tinham direito à recompensa, da qual ainda não éramos merecedores. Não era isso, porém, que Osvaldo constatou já no fim do seu período no país, quando eventualmente tinha algumas poucas horas de liberdade. Observou mendigos que imaginava não existirem lá. Ao perceberem seu interesse, os vigias russos, sempre atentos, atalhavam: "Ele está assim porque quer. Se recusa a trabalhar." Em todas as circunstâncias em que pôde ouvir diretamente do povo local, percebia que a realidade era diferente da alardeada. Certa vez, em uma excursão comemorativa, assistiu um operário ter o seu momento mano brown ao atalhar o discurso de uma dirigente do partido, Fúrtsieva, na fábrica de automóveis ZIS (Zavoda Imeni Stalina). Dizia ela que "todos agora podem falar francamente, pois os tempos de terror pertencem ao passado". O trabalhador ousou perguntar quanto ganhava a camarada. Desconcertada, respondeu ela que 18 mil rublos. Disse ele: "A companheira pode explicar-me como consegue gastar tanto dinheiro, se eu, um velho operário com muitos filhos, ganho apenas mil rublos?" Constrangedor, mas didático. Há revelações espantosas no livro, como o plano soviético de levar armas aos revolucionários brasileiros, disfarçadas em carregamentos de trigo, para que fossem desembarcadas em algum ponto da nossa extensa costa. Os projetos da União Soviética para o Brasil eram ousados, embora nos menosprezassem. Havia muito cuidado em relação ao tema reforma agrária - apesar de todo o discurso em prol da reforma, os soviéticos a queriam no Brasil apenas como retórica. Não lhes convinha que o governo brasileiro avançasse neste campo, para não subtrair ao discurso comunista uma das suas principais bandeiras. Na realidade, consideravam que a insurreição deveria ser urbana e só então se deveria pautar uma reforma agrária. Bem, este era o discurso. Na prática, o campesinato russo morreu de fome. Uma política agrária equivocada e o desprezo estatal pela vida humana dizimaram a população rural. Os fundamentos por trás desta posição ficam claros no minucioso paralelo que faz Peralva entre o comunismo soviético, então dominante, e o cada vez mais fortalecido comunismo chinês. Os dois regimes contextualizavam o confronto conceitual entre uma revolução proletária e uma revolução camponesa. O marxismo-leninismo era intransigente quanto à prevalência do proletariado. Nas pouco humanitárias teses socialistas, era negada a possibilidade da burguesia e dos proprietários de terra evoluírem para o socialismo. O ponto defendido pelo stanilismo era o antagonismo irreconciliável (grifo do autor) de interesses entre capitalistas da cidade e do campo e a classe operária. Esta impossibilidade de evolução significou a execução de centenas de milhares de pessoas. Com suas posses, lógico, revertendo para o Estado e beneficiando diretamente os que estavam no topo da hierarquia comunista. O russo era um prisioneiro do Estado, e as relações entre o Estado e o povo soviético não eram muito camaradas. Qualquer cidadão que soubesse de alguém que tivesse pensado em imigrar se sujeitava aos rigores do artigo 58 do Código Penal Russo. Introduzido na década de 30, determinava a "perda da liberdade por cinco a dez anos e confisco de todos os bens, ou o exílio na Sibéria por cinco anos, para inocentes que - só por terem conhecimento de que um soldado, seu filho, irmão, primo ou amigo se preparava para desertar e se evadir do país, ou que o fizera - não o delatassem às autoridades." Não eram poucos os condenados. Não à toa os professores do PCB gostavam de repetir: "Às vezes é preciso cortar cabeças como se corta salame." Em meados dos anos 50, muitos dirigentes brasileiros queimaram suas "carreiras" apostando na ascensão do regime chinês de Mao Tsé-tung, em detrimento do conturbado regime russo pós-Stalin. A percepção dominante era a de que a China seria em breve a liderança do comunismo. A curto e médio prazo, um erro grosseiro. A longo prazo, a bem sucedida China se tornou economicamente capitalista e manteve o comunismo político, como instrumento de coação dos seus cidadãos, já habituados à ausência de certos direitos. Peralva pôde fazer o confronto in loco de diversos formatos de comunismo. Além de quase dois anos vividos na União Soviética, esteve por um ano em Bucareste. Trabalhava e vivia em uma antiga fortaleza, quase uma cidade intramuros, na periferia da capital romena. Nela viviam 500 almas, 70% delas russas. Esta população era a equipe (incluindo seus familiares, que viviam ali às expensas do governo russo) que editava semanalmente o jornal Por Uma Paz Duradoura, Por Uma Democracia Popular. O comunismo sempre teve uma interpretação muito criativa das palavras. O jornal tinha 4 páginas, traduzido para 21 idiomas, onde "se publicavam as palavras de ordem que iriam mobilizar a opinião de milhões de pessoas em favor das posições soviéticas no cenário internacional". Pelo menos era a intenção. A direção colegiada era constituída de representantes de 17 partidos comunistas e fazia do local uma babel. Ainda assim, todos desconfiavam de todos e ninguém se dava com ninguém. Nos regimes comunistas todos sabiam que os eventuais amigos eram os primeiros a serem perseguidos quando alguém caía em desgraça. Além da falta de convívio pessoal - exceto em família -, a constante rigidez da hierarquia era incômoda. Em todos os espaços da sociedade comunista a hierarquia era predominante. Fosse em situações pretensamente sociais, ou nas atividades de trabalho, ou seja lá como se chama aquilo que faziam lá. As reuniões precisavam ter à cabeceira o mais importante dos ali presentes. Os ocupantes à esquerda e à direita se sentavam em sequência decrescente. Quanto menos importante o sujeito, mais longe da cabeceira. Até a duração dos beijos protocolares entre homens se subordinava à hierarquia. Não se aceitava que esta ordem fosse subvertida, como relata Peralva, que sempre foi preterido na disposição dos assentos pelo representante argentino. Até que um dia algum burocrata descobriu que o comunismo brasileiro era mais prestigiado do que o argentino, e as posições se inverteram, ainda que Peralva fosse contrário. Era malvista qualquer interação entre níveis diferentes. Osvaldo, que gozava de status por integrar a cúpula do Kominform, foi admoestado nas vezes em que optou almoçar no restaurante dos empregados. Não convinha. Não só por uma suposta convenção, mas porque todos precisavam estar todo o tempo sob vigilância. Quanto menor a interação, menor o risco. Apesar da sua posição no extrato superior da comunidade, as saídas de Peralva da muralha eram desestimuladas. Quando saía, sabia que o chofer o vigiava. Mesmo assim, conversavam - e, ao perguntar dos seus ganhos, soube que eram irrisórios, mal davam para alimentar a si e à família. Não obstante, nas eleições romenas, Peralva testemunhou a chapa comunista Frente Democrática Popular ser vitoriosa com 99,88% dos votos. Hoje sabemos como. O jornal foi descontinuado por razões políticas e Osvaldo foi transferido para Praga, instalado em um hotel em que centenas de comunistas de diversos países viviam custeados pelo governo russo. Peralva achava graça como qualquer dirigente comunista estrangeiro era excepcionalmente bem tratado, nos primeiros dias. Mas aqueles que permaneciam semanas - ou meses - no hotel passavam a ser ignorados e quase escorraçados pelos garçons. Lá o brasileiro travou contato com nomes que estão até hoje no panteão da esquerda, como La Pasionaria, Dolores Ibarruri - que Osvaldo conheceu bem e antecipa que não era lá das mais católicas. Mas, se é para falar mal, o indignado Peralva não poupou praticamente ninguém. De volta ao Brasil, para sua crescente decepção, encontrou no PCB um ambiente de discórdia e traição. Sua definição do partido é brilhante: "O Partido Comunista do Brasil, feito à imagem e semelhança do PCUS, é uma organização complexa, contraditória, absorvente e, até certo ponto, incognoscível. Os que estão fora não têm meios para examinar-lhe as entranhas e os que estão dentro já não têm isenção para fazê-lo." Ainda no coração dos acontecimentos - não esqueçam que Osvaldo Peralva publicou este livro em 1960 - o arretado baiano foi um duro crítico das figuras mais proeminentes do comunismo brasileiro. Algumas permanecem símbolos da esquerda, enquanto outros, importantes à época, hoje são nomes conhecidos exclusivamente pelos velhos ou pelos estudiosos - do período e do movimento. Luís Carlos Prestes, o afamado Cavaleiro da Esperança, manteve no livro o quase consenso com que seria contemplado nas décadas seguintes, por historiadores e memorialistas: o de um lacaio dos interesses soviéticos, de atitude principesca e ditatorial no comando do partido no país. Peralva descreve Prestes como alguém dissociado das bases e dos militantes, vaidoso em excesso, que se referia a si mesmo em terceira pessoa. Mais que isso, um traidor, epíteto o qual Peralva situa no tempo e no espaço. Diz ele que Prestes, na União Soviética, tendo sofrido uma tentativa de cooptação para o ramo trotskista do partido, os denunciou ao governo, então dominado pelos stalinistas. Segundo o autor, o brasileiro foi regiamente recompensado por denunciar os colegas. O episódio está descrito no número 6 da revista comunista Problemas, de janeiro de 1949. Curiosa, para os tempos atuais, em que o termo "fascista" vem sendo empregado para adjetivar todo o espectro da sociedade, a entrevista de Prestes em 1958, reproduzida no livro. Nela Prestes afirma que o malogrado golpe comunista de novembro de 1935 impedira a implantação do fascismo no Brasil. O repórter, Lourival Coutinho, se surpreende - afinal de contas, o Estado Novo instaurado em 37 era uma ditadura. Prestes, aludindo ao fato de que fora preso e não tinha sido assassinado na prisão, ratifica: "Se o regime instaurado fosse realmente fascista, com todas as monstruosidades que caracterizam um regime dessa natureza, eu não teria sido poupado." Donde podemos depreender que, sob a ótica de Luís Carlos Prestes, se o governo não mandar matar os oposicionistas presos, não é fascismo. A ver o que acontecerá com os nossos políticos presos - se bem que os de agora estão presos por corrupção, ao passo que Prestes o fora por ideologia. Os tempos não eram menos trepidantes do que os atuais. Um episódio determinante na trajetória do partido no Brasil foi quando da invasão da Hungria pela URSS. Houve amplo questionamento, entre a própria militância, contra a ação imperialista dos soviéticos. Prestes, sempre soberano (como já havia sido no episódio da expulsão do colega comunista José Maria Crispim, que, por divergir e se opor a Prestes, foi rotulado democraticamente pelo Rei Sol (apud Peralva) como "fracionista, aventureiro e infiltrado"), se dirigiu ao PCB por carta, "onde dizia-se 'entusiasta da discussão', mas logo a seguir manifestava 'estranheza e indignação' pelos jornais comunistas veicularem 'ataques a União Soviética'. Declarava que 'são inadmissíveis quaisquer ataques à URSS e ao Partido Comunista da URSS". Internamente a missiva ficou conhecida como "carta-rolha", por destinada a arrolhar a liberdade de discussão. E continha aqueles considerados princípios sagrados de Prestes - sobre o Internacionalismo Proletário (jamais criticar a URSS e os PCUS), sobre a defesa do marxismo-leninismo (nunca criticar seus dogmas doutrinários) e sobre a defesa do partido (impedir a circulação de ideias contrárias). Destaque-se que a atroz e equivocada ordem de assassinato de Elsa Fernandes, determinada (em bilhete!) por Prestes, é citada apenas en passant, sem maior peso. Em suma, Osvaldo considerava o Cavaleiro da Esperança um fantoche do Partido Comunista Soviético, restrito à repetição de frases feitas. Outro grande nome da esquerda que não é poupado por Peralva é Carlos Marighella. A bem da verdade, Osvaldo revela admirar a coragem e jovialidade do seu conterrâneo; mas crê que ele se apequenou em busca de posição na direção do partido. Não aceitou a defesa de Prestes feita publicamente por Marighella, que acudiu para justificar a carta-rolha: "Era inevitável que se cometessem os erros  de que agora procuramos fazer autocrítica." Rotulou de "ridícula" sua tese da inevitabilidade dos erros. Quanto aos demais nomes graúdos, Peralva só foi condescendente com a valentia e os princípios de Agildo Barata. Pomar, Grabois, Amazonas e Arruda foram espinafrados. Aparentemente, com razão. Mas é uma discussão da qual eu só tenho uma versão. Seria delicioso - e produtivo - listar aqui as centenas de pérolas que caem em nosso colo, quando abrimos a ostra do comunismo. Porque, todo o tempo, Peralva vai no âmago da disfuncionalidade do sistema. Tendo convivido dentro da sociedade russa, no apogeu do regime, que tinha então quatro décadas de implantado (ou seja, um russo de meia-idade só tinha referências do comunismo, desconhecia o que poderia ser a vida fora dele), lembra da visita à Moscou, quando trabalhava no Kominform, em que seus amigos residentes na cidade se recusaram a recebê-lo, constrangidos por morarem em um pequeno cômodo, com banheiro e cozinha compartilhados com outros moradores de cômodos do andar. Moravam ali há dezesseis anos. Seja por trás da Cortina de Ferro ou no Brasil, Peralva percebeu o que realmente contava pontos para "galgar degraus" dentro do partido e sua inexorável burocracia: o puxa-saquismo. Osvaldo foi crítico constante dos bajuladores: "Aquela bajulação não era por acaso nem gratuita. Os bajuladores mais firmes foram todos premiados com uma vertiginosa ascensão na hierarquia partidária." A briga interna pelo poder era uma constante. Esta conflagração intestina não merece maior espaço aqui, por interminável. Sinédrio, Presidium, abridistas, fechadistas, pântano - são, todas estas, denominações de grupos e de correntes que se atacavam e buscavam a destruição das demais. Algumas vezes, recorrendo até à eliminação física. Deste entrechoque de correntes internas surgiu a divisão cuja costela temos ainda hoje, o Partido Comunista do Brasil. Sua correligionária é candidata a vice em uma das chapas concorrentes pelo segundo turno, amanhã. Não entro no mérito das suas possibilidades; mas a sua mera existência, diante de tal folha corrida, é um contrassenso. O Brasil e suas idiossincrasias. Por sobre tudo o mais, se há um ponto em que o autor explicita o que vê de mais maligno, é a preponderância da estratégia de coação e difamação como instrumento político do comunismo, a ponto dele considerá-la a essência da ideologia de um partido de esquerda. Ele chega a listar as engrenagens da máquina do "Aparelho do Partido Comunista": 1) Apelo à mística partidária; 2) Terrorismo ideológico; 3) Pressão da opinião coletiva de grupos partidários e periféricos; 4) Ameaça de expulsão e violência física; 5) Canais de difamação. Esta era a máquina infernal a que se referia Agildo Barata. Seu controle era exercido em diversos níveis, inclusive pelo "dono" do partido, Luís Carlos Prestes, como detalha Peralva. "Tendo construído uma poderosa máquina de difamação, e seguindo fielmente a linha tática stalinista, Prestes agredia furiosamente todos os homens progressistas que não se submetessem aos seus interesses ou que lhe fizessem restrições". Alguém aí lembrou de Lula metralhando Marina? Este era o organismo do qual Osvaldo Peralva, depois de mais de uma década de ativismo, desistiu de fazer parte. A utopia comunista que era elemento indissociável da sua personalidade tinha se esvaído após anos de atividade militante no Leste Europeu e no próprio Partido Comunista Brasileiro, onde foi de jornalista a encarregado de Agitação e Propaganda. A definição que Peralva faz da administração do PCB, formada por revolucionários profissionais, é impactante: "Essa máquina funciona em um ambiente de sombras e entretons, de segredos e mistérios, de sortilégios e mistificações. Aquele que infrinja seu ritual é esconjurado, excomungado e condenado às penas do inferno. Como todas as sociedades secretas, só tem porta de entrada. Para sair, tem-se de escapar pela janela da execração, sob o apupo ululante dos que ficam." Ôpa. Voltando a falar de fascismo, não à toa Peralva compara Prestes ao chefe fascista Plínio Salgado: "O comunismo e o fascismo sempre pensaram de acordo com a natureza dos regimes que pregavam, de modo totalitário." Pois é. Em toda esta longa digressão (vá ao livro, encomende-o, não perca esta chance), não seria justo nos esquecermos da Coréia do Norte. O país, este último bastião totalitário de uma época remota, também integra as memórias de Peralva. Para seu dissabor, ele teve contato com o aparato que cercou a chegada do chefe norte-coreano Kim Ir-sen a Praga. Sua guarda pessoal ocupou militarmente todo o hotel em que o brasileiro estava hospedado. Ora os elevadores foram bloqueados, ora eram as escadas. O restaurante foi reservado para a delegação e aos hóspedes fixos restou comerem no subsolo. Más lembranças da empáfia militarista dos visitantes. Irônico. Tudo o mais, de lá para cá, virou poeira, história comida pelas traças, retratos velhos. O regime comunista norte-coreano, não. Com suas cartolinas de escola do interior, continua aí, como um esqueleto de dinossauro, escravizando seus cidadãos e lobotomizando sua juventude. Uma excrecência de meados do século passado, que sobrevive como um parque temático do terror. Este circo de horrores, contemporâneo do Nacional Kid, funciona numa península encravada na China, disponível para quem quiser ver e experimentar o que é o comunismo in natura. O comunismo-raiz. Osvaldo Peralva abdicou do comunismo, mas não da utopia socialista. Ao denunciar a arapuca da qual conheceu as vísceras, foi proscrito e seus livros caíram no esquecimento. O mundo via com ceticismo os poucos relatos existentes sobre o que se passava sob a Cortina de Ferro. No Brasil, o exército deu um golpe de estado e o corajoso e patriota Osvaldo Peralva acabou preso pela ditadura militar. Seu nome foi esquecido. Suas revelações, largadas de lado. Mas são elas que hoje testemunham que o que é errado agora foi errado desde sempre. Têm vício de origem. São parafusos que não pegam rosca. Para entender o que acontece hoje e o que mais pode acontecer no futuro, nunca é tarde para lembrar.

Editora Três Estrelas, 439 páginas