"História da imigração no Brasil", por Luís Reznik


O estudo organizado por Luís Reznik se debruça sobre as políticas migratórias - estimuladas ou coibidas - do Estado brasileiro ao longo de um século e meio.

Dividido em sete capítulos, cada um deles sob a responsabilidade de um historiador, o texto fatia o arcabouço étnico do país. A abordagem revela que o perfil e o volume dos fluxos migratórios foram sempre pautados pelo governo - com influência de latifundiários e empresários.

O primeiro capítulo, de Lená Menezes, introduz o tema do livro. O viés é protocolar.

O segundo capítulo, de Marieta de Moraes, foge à abordagem mais generalista dos demais e ilumina um episódio. Fala de Nova Friburgo e conta como, em 1818, D. João VI, Rei do Brasil, investiu na importação de famílias de agricultores suíços, para, a título de experimento colonizatório, introduzi-los na região serrana do Rio de Janeiro.

Vale explicar melhor. O rei andava à cata de soluções para resolver um problema estratégico. É que, com as dificuldades impostas ao tráfico negreiro pelos ingleses, urgia encontrar alternativas para substituir a mão-de-obra escrava - até então o único motor da produção brasileira.

Esta primeira operação, denominada de "Tratado de Colonização", foi contratada ao suiço Sébastien-Nicolas Gachet, representante diplomático do cantão de Fribourg. O diplomata se comprometeu com o rei a importar 100 famílias suíças, que seriam estabelecidas na antiga fazenda do Morro Queimado - a partir daí rebatizada como Nova Friburgo.

Tinha início um procedimento comercial que se estenderia por décadas e que se tornaria o principal vetor de imigração no país. Agenciadores estrangeiros, sob comissão, "vendiam" colonos ao governo brasileiro. A opção estava em voga. Era um produto fartamente disponível no mercado.

Em uma época em que o povo europeu enfrentava ciclos de fome, era fácil cooptar desesperados dispostos a enfrentar o desafio de se lançarem rumo aos trópicos desconhecidos.

Uma epopeia arriscada e insalubre, que se dava em padrões inaceitáveis aos olhos de hoje.

Em outubro de 1818, atendendo aos panfletos que diziam tratar-se de uma terra de "espantosa fertilidade", as inscrições foram abertas em Fribourg. Ao longo de nove meses, dois mil suíços se inscreveram. A maioria (57%) tinha menos de 19 anos. Entre os 20 e os 59 anos se situavam 42%.

Imagine duas mil pessoas deixarem todos os seus vínculos para trás e se meterem nessa aventura.

Os dois mil suíços que partiram em julho de 1819 foram minguando. A primeira etapa, até a Holanda, onde foram instalados em um acampamento precário, em terreno pantanoso, acabou na morte de 43 dos emigrantes. Durante a travessia, que durou quase cinco meses, morreram mais 311 candidatos a colonos, ou seja - quase 20% dos suiços jamais viu o Morro Queimado.

Chegando ao Rio, as famílias foram acomodadas em um mosteiro no fundo da Baía de Guanabara. Dali partiram para uma viagem de dez dias serra acima (hoje o percurso se faz em duas horas). Em 18 de fevereiro de 1820, Nova Friburgo foi fundada. Os imigrantes foram distribuídos em cem casas de pedra. Tudo sem: sem assoalho, sem banheiro e sem cozinha. As janelas eram sem vidros.

Nos primeiros cinco meses na nova cidade, morreram mais 131 suíços. Quase um por dia.

Este não foi necessariamente o procedimento padrão das operações de colonização praticadas no Brasil, mas é um exemplo real e pioneiro. Marieta destrincha o desenvolvimento inicial da Friburgo brasileira, com destaque para uma família específica, dando cores vivas ao relato.

No terceiro capítulo, Rui Aniceto e Julianna Costa falam do período compreendido entre 1830 e 1880, quando estima-se que mais de 400 mil imigrantes chegaram ao Império. Durante meio século, a questão da imigração foi ora contestada, ora celebrada. Subordinada a interesses políticos e comerciais, a situação era conduzida sob o prisma oportunista de cada ocasião.

É no quarto capítulo, por Paulo Cesar Gonçalves, que se estuda o grande boom da imigração no Brasil (e no mundo), com o Brasil recebendo 17% da Grande Emigração italiana no período que vai de 1876 ao início da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Coube à Argentina 25% desse fluxo e aos Estados Unidos quase 60%, ficando os EUA com 871 mil dos 1,6 milhão de italianos emigrados.

A diáspora portuguesa inverte estes números em favor da América do Sul. Um milhão de portugueses emigraram de 1876 a 1914 - e 80% deles vieram para o Brasil, ao passo que somente 16% escolheram os Estados Unidos. Não só o idioma fazia do Brasil a opção natural, como o Estado brasileiro sempre foi extremamente receptivo a receber os emigrantes lusitanos.

Gonçalves abastece o leitor de números absolutos e percentuais. E mostra o valor pago pelo governo brasileiro aos importadores de imigrantes. Curioso é que o Brasil se esforçou para reduzir a imigração italiana - na escala da subvenção estatal no fim do século XIX, o mais valorizado era o imigrante canadense, seguido pelos "europeu", aí pelo "ibérico" e, por último, o italiano.

Mantega, Bolsonaro, Toffoli e Vorcaro, entre outros, podem dar substância a essa subapreciação.

O quinto capítulo, escrito por Paula Ribeiro, se dedica à imigração urbana no entreguerras - uma imigração espontânea, diferente da arquitetada e financiada pelo Estado e pelo poder econômico. São fugitivos dos conflitos e da miséria, em um momento em que o Brasil recebia a predileção dos estrangeiros, pois EUA, Canadá e Argentina estavam no auge das políticas restritivas.

Sem dispor de subvenção (oferecida aos portugueses, alemães, espanhóis, italianos e japoneses), desembarcaram aqui - sem convite - sírios, libaneses, armênios e judeus. Atente que estes últimos logo seriam impedidos de emigrar para o Brasil, por força da política hostil do governo Vargas (que é justo o tema do sexto capítulo, assinado pelo renomado historiador Fábio Koifman).

Aqui posso dar alguns pitacos e oferecer meu próprio exemplo familiar.

Fruto ostensivo da feijoada étnica que é o brasileiro, nunca procurei rastrear minhas raízes maternas portuguesas. Os nomes dos meus avós baianos, inequivocamente lusos (Braga, Cardoso e Carvalho) não dão margem à dúvida. Há ainda um "Quintanilha", ostentado com orgulho por minha mãe, que me faz supor ancestrais galegos ou espanhóis.

Por serem mais recentes no país e plenas de perda e sofrimento, são minhas origens judaicas que mais me atraíram a atenção. É gente chegada quase agora, no século passado.

A partida rumo ao desconhecido, cumprida por milhares de judeus do Leste europeu, me instigava a curiosidade. Fui ao Arquivo Nacional (recomendo), onde localizei farta documentação sobre a vinda dos meus avós poloneses para o Brasil (reproduzo parte destes documentos na ilustração do post).

Meu avô, Izrael Puterman, chegou antes das leis de controle racial da imigração terem sido implantadas no país. Se já estivessem em vigor, ele certamente não teria sido admitido. Vindo de Varsóvia, de onde partiu em dezembro de 1929, desembarcou do navio Formosa no pier da Praça Mauá em janeiro de 1930.

Minha avó, Cyrla, née Rawicz, só veio para o Brasil dois anos depois, em julho de 1932. Casaram, no civil, no mês seguinte. As leis restritivas estavam em debate. Se já fossem vigentes, Cyrla poderia se valer do mecanismo das "cartas de chamada" para imigrar (as leis aprovadas permitiam o ingresso de parentes de estrangeiros já residentes no país, desde que assinassem as tais cartas).

A racionália da legislação proibitória acreditava - ou pelo menos dizia acreditar - que os judeus jamais se deixariam assimilar pelo povo brasileiro. Me soa mais a repetição de um estereótipo arcaico.

Posso provar o que digo com a história da minha família. Ela não vale nem mais nem menos do que as outras, mas é um exemplo real - e se deu de forma oposta ao que o fazedor das leis dizia temer.

Meus avós polacos tiveram um casal de filhos. Um deles, meu pai polonês (ruivo, judeu), que casou com uma brasileira morena católica, paranaense, filha de meus avós baianos (ele, Durval, de uma tez árabe, e ela, Leopoldina, cor de jambo). Meus pais, por sua vez, tiveram dois filhos, ambos cristãos, ambos formados, que, por sua vez, tiveram cinco filhos. Todos brasileiros, cristãos e formados.

Nenhum deles judeu. Porque, ao contrário do que supunha a lei, no Brasil a gente se mistura.

Mas é importante frisar que o disparate de que os descendentes de emigrantes judeus não se tornariam tão brasileiros como qualquer outro brasileiro se constituiu indiretamente na condenação à morte de centenas de milhares de fugitivos - impedidos de emigrar, e que acabaram capturados pelos nazistas. Foram perversa e covardemente assassinados.

Koifman vai além e detalha as minúcias de um aparato legal construído para arianizar a população brasileira. Não preciso dizer a você que o projeto de nos embranquecer foi um fracasso - basta você andar pelas ruas das principais capitais do país, noventa anos depois, e constatar.

Meio ridículo ainda que o desejo de consumo do ibérico e roliço Getúlio tivessem sido os nórdicos - louros, altos e de olhos azuis. Em vão. Os vikings não se interessaram em vir melhorar nossa raça.

O sétimo e último texto é assinado pelo organizador da obra, Luís Reznik, e trata do menos debatido viés da imigração - aquela que se deu após a Segunda Guerra Mundial. Embora inclua o fluxo alemão, Reznik não entra no mérito de quantos dos emigrados eram suspeitos de crimes de guerra.

Teria enriquecido o estudo se mencionasse que, entre os imigrantes que recebemos, estava Josef Mengele. O facínora foi médico nos campos nazistas de extermínio. Fazia experimentos bárbaros (sem viés científico, somente crueldade doentia) com bebês vivos. Foi um sádico torturador de crianças inocentes. Mengele viveu por anos no Brasil, arrogante, incólume e impune.

Morreu tomando banho de mar em Ubatuba.

Se, em seu "História da imigração no Brasil", Reznik não considerou destacar a porção criminosa de uma das nossas últimas ondas migratórias, fica aqui minha humilde contribuição.

FGV Editora, 253 páginas  |  Copyright 2020  |  1a reimpressão 2022

Obs.: Um emigrado não alemão, mas letão, e famoso criminoso nazista, foi Herberts Cukurs. Há dois livros sobre ele postados aqui no blog - "O homem dos pedalinhos", por Bruno Leal, e "O cisne e o aviador", por Heliete Vaitsman. Ambos valem a leitura. A propósito, Cukurs foi quem introduziu os pedalinhos na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio. Denunciado, fugiu. Foi caçado e morto pelos judeus no Uruguai.

"Urupês", por Monteiro Lobato


Monteiro Lobato, um dos maiores escritores brasileiros, veja só, não queria escrever. Queria ser pintor. Foi advogado. Amuado, virou fazendeiro. Mas era sina. Acabou, graças a Deus, escritor.

Deixou de advogar porque herdara terras do avô, o Visconde de Tremembé (sim, é ele quem dá nome à cidade, que deu nome ao presídio, que deu nome ao livro e à série que falamos semanas atrás). Após investir tempo e dinheiro, a lida com a terra não prosperou; pelo contrário, lhe frustrou.

Foi à guisa de se queixar dos contratempos que enfrentara que publica, em novembro de 1914, no jornal "O Estado de São Paulo", o artigo "Velha Praga", indignado com as queimadas. Na verdade, o texto era uma carta, que o editor do jornal, por conta própria, promoveu a artigo.

Repercussão tremenda. Estimulado, escreveu outros textos. "A Hosteofagia", sobre a guerra que grassava na Europa, e "Urupês", ambos bem recebidos. O doutor escrevia bem. É convidado pela "Revista do Brasil" a publicar um dos seus contos, que foi "A vingança da peroba". Uma pancada.

A crítica positiva fez com que sua produção de contos engrenasse. Era um em cada edição do magazine. Porém, a despeito do seu sucesso pessoal como escritor, a Revista, que o publicava, ia de mal a pior. A fazenda também tropeçava. Eureca. Empreendedor nato, Lobato teve uma ideia.

Vendeu uma para comprar a outra. De escritor eventual, passou a dono da revista, onde era também o dono da gráfica e, se valendo disso, o dono da editora. Resolveu lançar no prelo a si mesmo.

Sua primeira edição seria justamente a reunião em livro dos contos que publicara. Dos quinze, selecionou dez. Escolheu o nome: "Dez mortes trágicas". Um colega achou ruim. Sugeriu que intitulasse a brochura com o nome de um dos contos. Dito e feito. Nem todo palpite é ruim.

"Urupês" foi um marco no mercado editorial do país. Até porque não havia mercado, de fato, e praticamente não tínhamos editoras. As livrarias eram escassas (trinta e poucas em todo o território nacional). A maioria dos livros que circulavam no Brasil eram impressos em Portugal. 

Urupês foi promovido também a nome da editora. Segundo Edgar Cavalheiro, um dos especialistas na obra de Lobato, o livro foi "um acontecimento sem precedentes na literatura brasileira". Oswald de Andrade, posteriormente, chamou a obra de o "marco zero" do movimento modernista.

Se o mercado era incipiente, Lobato o fomentou: rapidamente se esgotaram as três primeiras edições do livro. Todos queriam lê-lo. Um dos tipos do autor virara uma coqueluche: o "Jeca Tatu". Você certamente já ouviu falar. O personagem virou adjetivo.

Mas do que tratam esses contos de Monteiro Lobato, escritos há cento e dez anos?

Os temas são variados. Mas desbordam quase sempre para a estultice humana. Para a preguiça. Para a má índole. Para a dissimulação. Coisa ruim não tempo. Vem desde sempre. 

E Lobato não perdoa. É ácido com seus contemporâneos. Embora pertencentes a uma sociedade que não mais reconhecemos no espelho, somos nós mesmos, cinco ou seis gerações atrás.

E, mais do que meros causos, Monteiro Lobato fala do Brasil. Do brasileiro. Fica fácil entrever que o que fomos no passado, somos no presente. Basta apurar a vista.

E o ouvido, né. Como é um linguajar de um outro tempo, seus contos nos impõem uma abordagem cautelosa. Seu idioma antigo é, às vezes, uma estrada de barro, assim, cheia de poças e solavancos. Há que tolerar. Acostumar. Chegando lá, também, é aproveitar. Lamber os beiços.

Quem o conseguir fazer, vai viver algumas horas em um mundo que era outro: o país, as gentes, os ditados, os costumes. Por isso, ler a obra adulta de Lobato (que antecedeu sua produção infantil, sua derradeira obra) é mergulhar no túnel do tempo. E subir à tona no miolo do cafundó do Judas.

Vai encarar? Recomendo, mas prepare-se para o vocabulário autoral (mesmo para a época). O autor fazia gosto no linguajar mastigado do matuto. Lobato era devoto do jargão do capiau.

A coletânea abre com "Faroleiros". Um sujeito suborna os responsáveis para que permitam que passe uns dias no farol, construção que, à distância, sempre lhe seduzira. Aquela luz, bruxuleante, isolada no mar. O curioso, que foi para contemplar a solidão, termina cúmplice de um crime.

Depois ele vem com um mais ingênuo. Que nada mais é do que a velha história de Pedro e o lobo. E o terceiro conto, a "Colcha de retalhos" dói a dor que todo mundo um dia temeu sofrer.

O quarto deles, "A vingança da peroba", é ímpar. É um tratado antropológico, ao reproduzir o cotidiano das famílias que faziam suas roças na mata brava. É quase uma escavação, ao resgatar expressões perdidas no tempo. É um recorte da lida rural, ao detalhar a produção do monjolo.

O conto do estafeta é ironia dolorosa, ao expor como a política de hoje permanece a pobre política de outrora. Ela está toda lá, no "fósforo" (hoje "cabo eleitoral") Biriba, na demissão dos apadrinhados e no emprego dos agregados, na exploração do idiota pelo esperto de sempre. Ê Brasil.

Há um, curtinho, onde em um tal crime, que tem um suspeito óbvio, deixa-se o famigerado suspeito - um italiano de maus bofes - fugir, para bem mais tarde prendê-lo; para, na confissão tardia de um outro sacripanta, descobrir-se que o suposto criminoso não tinha nada a ver com as calças.

Um outro, "Pollice verso", remete à vocação médica ancestral. Conta de Inacinho, que desde moleque o pai acreditava que era fadado à medicina. Acertou. O garoto saiu do Vale do Paraíba para estudar na capital. Formado, voltou para clinicar em Itaoca. Ficou lá por pouco tempo. 

Seu único paciente foi o major Mendanha, "capitalista aposentado com trezentas apólices federais, o Rockefeller de Itaoca". O major sentiu uma "canseira" e resolveu se consultar. Mas desfazia de todos os doutores da cidade. Ocorreu a ele o nome do novo médico, o Inacinho. A esposa chiou.

"É moço bonito, que o que quer é dinheiro e pândega, você não vê?" Mendanha não viu. "Qual!... emberrinchou o teimoso. Sempre há de saber um pouco mais que os velhos", retrucou o major.

Não era só a mulher do Mendanha que não via Inacinho com bons olhos. "Uma bestinha! dizia um", cochicha o autor. "Eu fico pasmado mas é de saírem da Faculdade cavalgaduras daquele porte! É médico no diploma, na barbicha e no anel no dedo. Fora d'aí, que cavalo!"

Pois foi Inacinho que Mendanha escolheu. O doutor auscultou o paciente e vaticinou: "É uma pericardite aguda agravada por uma flegmasia hepático-renal". Afirmou que "era grave, mas não era", pois, ao chamar a ele, Inacinho, ao invés de "um desses matassanos que por aí rabulejam", o resultado seria diferente. "Tive no Rio numerosos casos mais graves e a nenhum perdi", gabou-se.

Deu o diagnóstico e o prazo de melhora. Em um mês Mendanha estaria completamente são.

Mas não foi o que se deu. A "canseira" evoluiu. "O velho peorou com a medicação. Injeções hipodérmicas, cápsulas, pílulas, poções, não houve terapêutica que se não experimentasse desastrosamente". Inacinho reconheceu: "É mais grave do que eu supunha".

Havia, porém, algo mais grave. Uma praxe que eu desconhecia em absoluto - e que continuo com o pé atrás - era a dos médicos se fazerem herdeiros dos clientes. Com isso, diz Lobato, "serviços pagos com casos de cura aí com centenas de mil réis, em caso de morte reputavam-se em contos". 

Ou seja - o paciente morrer era mais negócio. Onde já se viu.

"Se os interessados relutavam no pagamento, a questão subia aos tribunais, com base no arbitramento. Os árbitros, mestres do mesmo ofício, sustentavam o pedido por coleguismo", revela.

(Por falar em coleguismo, nesse mês de janeiro corre por aí que um ministro do Supremo tem negócios camuflados na hotelaria, com testa-de-ferro e tudo o mais que caracteriza as falcatruas; aflitos, seus colegas do STF já cuidaram de lhe defender. Normal. O causo que conto se passou há 110 anos? Pode ser. Por aqui, porém, continua tudo como dantes no quartel de Abrantes...)

Mas me perdi. Inacinho é que não, embora tenha perdido o paciente, o major. O doutor "herdou" os tais trinta contos e eu estraguei o conto, porque contei tudo, de cabo a rabo.

Em tempo: fui pesquisar. "Pollice verso" é o célebre gesto dos imperadores romanos no Coliseu, virando o polegar para baixo e decidindo pela vida - no caso, morte - dos gladiadores.

Há contos que são uma cacetada na moleira. Nos é comum pensar que a natureza sórdida, sensual e rapace do ser humano é mais propensa a vicejar nas grandes cidades modernas. O "Mata-pau" prova que esse desgosto se dá no rincão mais caipira. E mais não digo.

E dá-lhe gente má. Em "Bucólica", fala do "sítio de Maria Véva. Tem ruim fama essa mulher papuda". Já no "Bocatorta" o autor nos traz o Quasímodo do sertão, um negro disforme que a terra chupou.

Aprendi muito com o livro. Vim a saber em "O estigma" da face noruega do sítio de Fausto, encontrado depois que o autor opta pelo caminho errado. Para Lobato, entretanto, o desvio é a estrada principal. E, conto a conto, o que era folclórico e embolorado ganha viço e pertinência. 

Tolere a velharia dos dizeres antigos e dos preconceitos de outrora. Tempos d'antanho, onde se dizia "do fígado para o rim", "veiu pegar água a este cor'go" e onde o Nunes enchia a cara de tanta filha mulher que o destino lhe dera, "um rosário de oito mariquinhas de saia comprida".

O escritor, hoje "cancelável" (um perfeito sinal dos tempos), diz que "tanta mulher em casa amargava o ânimo do Nunes, que nos dias de cachaça ameaçava afogá-las na lagoa como se fossem uma ninhada de gatos".

À vontade para criar neologismos, diz da eleição que "o primeiro ato do vencedor foi correr a vassoura do Olho da Rua em tudo quanto era olhodarruável em matéria de funcionalismo público".

Ou, como em "Urupês", fala do jecocentrismo. A propósito, este, que é o conto final, foi adicionado somente em edições posteriores, juntamente com "Velha Praga" - conto que não é conto, e sim a carta que o fazendeiro Lobato enviou à seção de queixas do jornal da capital, como disse acima.

Quem tomou a decisão de adicioná-lo foi o próprio autor, que, a propósito, explica que mandou a carta por se sentir impotente contra os invasores de terras, que metiam fogo na mata para plantar um litro de milho - que, como consequência da queimada, calcinava dezenas de alqueires.

Pôr para fora os invasores era tarefa ingrata, pois era gente que "votava com o governo". Assim, Lobato admite no livro - falando de si mesmo em terceira pessoa - que o que lhe restou foi reclamar.

"Impossibilitado de agir contra eles por meio da justiça o pobre fazendeiro limitou-se a tocar alguns que eram seus agregados e... a 'vir pela imprensa'. Escreveu e mandou para as "Queixas e Reclamações" d'O Estado se S. Paulo a tal catilinária mãe dos Urupês", confessa.

Foi daí que nasceu o livro e, mais, que nasceu o escritor. 

"Esse jornal, publicando-a fora da seção de queixas, estimulou o fazendeiro a reincidir. Reincidiu", relata. " E quando deu acordo de si, virara o que os noticiários gravemente chamam 'um homem de letras". Ou seja: a queimada dos caboclos deu à nação um dos seus maiores escritores.

(Que, diga-se, recusou o convite para se tornar "imortal" da Academia Brasileira de Letras.)

O caboclo, o jeca tatu, é seu ponto de partida. O tipo rústico era então louvado pela cultura nacional. O indianismo provocado pelo nobre Peri de "Iracema" fora substituído pelo culto ao caboclo, agora um "atributo da raça". Já Lobato - vítima - denunciava ali a modorra do jeca.

"O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado", alerta. "Crismou-se de 'caboclismo", criticava. "O caboclo é o 'Ai Jesus!' nacional", ironiza. Transferiram-se as virtudes idealizadas do tipo indígena para o roceiro genuíno. Talvez o popular "Rancho fundo" lhe seja uma louvação.

"O substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio, em suma, sem faltar uma azeitona, dos Peris e dos Ubirajaras". Mas Lobato conhece bem o caboclo. É seu vizinho, seu agregado, antagonista cotidiano.

Vende nas feiras aquilo que encontra no caminho. "Seu grande cuidado", diz, é seguir "a lei do menor esforço - e nisto vai longe". Sua casa não tem estética, nem móveis. Senta nos próprios calcanhares. "Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas", acrescentando que "três pernas permitem equilíbrio; inútil, portanto, meter a quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão".

Conta como a mandioca é o pão do caboclo, que não requer preparo ou trabalho. "É um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas". Eu, que nem sabia como se planta aquilo que por aqui chamamos de aipim, soube que "o plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha".

Nos conta também da medicina do caboclo. Da cura para a bronquite à simpatia para o parto difícil.

"Para bronquite", diz, "é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo; o mal se vai com o peixe água abaixo". E, num parto difícil, "nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu". Se esta última não funcionar, basta "colar no ventre encruado a imagem de São Benedito". Parece que aí é tiro e queda.

Não tenho estatísticas sobre os resultados. Quem quiser que experimente.

Perceba que não é só aos caboclos que o escritor pega no pé. Ele não alivia também os seus colegas de sina. Em "O comprador de fazendas", Lobato já inicia descrevendo as desditas de uma tal fazenda e de um tal fazendeiro. Imaginei o quanto não teria posto aí a sua mal-sucedida experiência.

"Os cafezais em vara, ano sim ano não batidos de pedra ou esturrados de geada, nunca deram de si colheita de entupir tulha", descreve o autor, ex-fazendeiro, condição na qual, como já revelei, foi um fracasso. " Os pastos ensapezados, enguanxumados, ensamambaiados nos topes, eram acampamentos de cupins com entremeios de macegas mortiças, formigantes de carrapatos". 

"Boi entrado ali punha-se logo de costelas à mostra, encaroçado de bernes" - parece que Lobato vai desfiar, no texto, tudo que purgou, na terra.

Mas qual. Um escritor de contos é um contador de estórias. Não se lamenta; nos diverte. O Moreira, dono da fazenda pindaíba, pai do pulha Zico e da Zilda, filha casadoira, finalmente tem chance de passar o encosto à frente, quando lhe aparece o Trancoso. E não avanço, para não dar spoiler.

(Talvez eu esteja sendo otimista demais achando que mais alguém, em 2026, vai correr a ler uma dúzia de contos publicados em 1918; mas eu sou otimista de nascença.)

Eu vou ler outros. Muitos mais. Porque a leitura da obra de Monteiro Lobato é boa e me enche de lembranças. É impossível ler seu texto, mesmo que sem o sotaque da obra infantil, e não reconhecer a toada que me encantou e fez companhia na meninice - e me deixaram apaixonado.

Seus livros foram o meu melhor amigo aos oito anos - e olha que eu não parava quieto, sumia tardes inteiras Teresópolis afora, vadiando, correndo, aprontando, jogando gude, bola ou pião. Só sossegava com um livro na mão. Mãezinha que o diga.

Mas a sua obra completa, reunindo livros, contos, artigos, correspondências, foi herança do meu tio Felipe Mayer, gaúcho de bombacha e chimarrão, invariavelmente com um cigarro de palha entre os dedos. As paredes da sua casa, todas tomadas por prosaicas prateleiras de ferro e milhares de livros, me fascinavam (herdei dele também o gosto pelo suco de tomate, vá entender).

Este "Urupês" é o Tomo Um da coleção de treze volumes, vendida ao tio em 18 de dezembro de 1957, por Cr$ 3.460,00 cruzeiros, como revela a nota fiscal 28.868. Venho guardando, em usufruto, centenas dos seus livros, há meio século. Com eles vieram suas anotações, via de regra veementes.

Ler os livros que ele me deixou me formaram como leitor. Nunca tive a letra caprichada como a que o tio fazia suas anotações às margens; mas eu também passei a garranchar meus comentários. Com sua caligrafia poderosa, ele escrevia com caneta-tinteiro; desvirtuoso, eu até hoje anoto à lápis. 

Provável que estas escrivinhações me tenham estimulado a escrever sobre os livros; são ambas, as anotações e os comentários, uma forma de estreitar meu relacionamento com a obra impressa. Mais que amigos, somos amantes. Elas me dão conhecimento, eu dou a elas minha devoção.

Ao redor de Lobato estão muitos dos amores que me formaram. Meu avô José, nascido Izrael na distante Warszawa, que me deu os dezessete volumes da coleção infantil. Meu tio Felipe, o grande leitor que conheci, que me legou os treze volumes da coleção adulta. O escritor José Bento Monteiro Lobato, que, com seu caráter e talento, tatuou na minha pele a paixão pela leitura. 

Semanas atrás visitei o sítio da infância do escritor em Taubaté. O lugar passou para a história com o nome de "Sítio do Picapau Amarelo". Lógico que me emocionei. Mexido, iniciei ali mesmo a leitura de "Urupês". Pois é. Na hora nem me ocorreu, mas já era uma boa pedida para ser o post #500 do blog.

Editora Braziliense, 300 páginas  |   8a edição  |  1956

Foto: Ana Puterman

"Tremembé", por Ullisses Campbell


O autor hoje é figurinha carimbada na mídia. Presença recorrente em dezenas de podcasts que pululam no YouTube. Não à toa. É articulado, bem-apessoado, falante. Não se engane. Ullisses Campbell, com seus quatro "l", mescla fala macia com palavras duras.

Seus livros vendem aos borbotões. Tem até embalagem box, luxuosa, com o título "Mulheres assassinas" (Matsunaga, Flordelis e Richthofen, um trio matador), com 1.088 páginas. Na Amazon, a caixa está por R$ 142,00 (já com 45% de desconto) e a distribuidora entrega amanhã. 

No Prime Vídeo, Campbell faz sucesso com a série "Tremembé". Em uma produção caprichada, o elenco - selecionado buscando alta similaridade física com os condenados - oferece xaroposos dramas românticos ao telespectador. Homossexualismo a dar com o pau e carradas de ciúme.

O livro homônimo traz a essência do escritor. À Talese, coloca o leitor dentro da cena, oferecendo uma cornucópia de detalhes. Mesmo com objetivos comerciais, não lhe faltam esmero e arte. Obviamente o livro é um apanhadão. Se nos anteriores ele dedicava centenas de páginas a uma única criminosa, este "Tremembé" é uma van que vai e volta, cada hora com uma cambada diferente.

As estórias são mais curtas e os crimes ainda mais horripilantes. De vomitar.

Mas não menospreze o conteúdo. Como já disse outras vezes, Ullisses Campbell é mestre no ofício. Repórter, biógrafo, roteirista, é craque no texto e no timing; seus livros são obras técnicas de engenharia, com cada ripa e cada parafuso encaixados no lugar correto.

Em respeito aos seus leitores fiéis, Ullisses revisita de forma resumida a história das criminosas que já biografou. Richthofen, por exemplo, mal tem seu crime esmiuçado (todo mundo já sabe, né). Acompanhamos a fútil rotina da matricida, incluindo seus envolvimentos amorosos na faculdade.

Sagaz, o autor abre e fecha o livro sobre os encarcerados em Tremembé com duas estórias inusitadas e que, imagino, sejam desconhecidas da quase totalidade dos leitores. 

A primeira delas é a da Madre Maurina. É a única das narrativas a voltar décadas no tempo. E, juntamente com a estória que fecha a obra, ela e Matheus são os únicos já mortos. 

O capítulo de abertura é um tributo à coragem e à retidão da religiosa. Presa no interior de São Paulo no início da ditadura militar, foi torturada por meses. Negou até o fim da vida que houvesse sido estuprada. Mas, mesmo depois de solta, a Igreja a manteve no limbo, por considerá-la impura.

Madre Maurina comeu o pão que o diabo amassou, mas não dedurou ninguém. E, segundo o autor, ela sequer era uma subversiva. Apenas permitiu que estudantes (ligados a células terroristas) utilizassem uma das salas da instituição religiosa que dirigia, para estudos teológicos.

Bem, isso é o que eles alegavam. Na prática, imprimiam jornalecos e panfletos contra o governo militar e tramavam sequestros. Foram presos, a madre também, e os meganhas do porão fizeram toda a sorte de maldades contra a mulher inabalável, da estirpe de uma Agnès Humbert.

Nada adiantou. Foi trancada em Tremembé. Anos depois, acabou inocentada.

A partir daí, vem uma sucessão maldita de criminosos repulsivos e sem caráter, que mataram de forma covarde pessoas da própria família, que, paradoxalmente, os amavam: filhos, pais, etc.

Mãe que contrata selvagens para matar o filho gay a pauladas dentro da própria casa ou filha que contrata selvagens para matar os pais e o irmão, para roubar o carro e algum dinheiro. Mãe que prostitui a filha. Filho que simula assalto para matar o pai, como fez Gil Rugai.

O estuprador serial Roger Abdelmassih, que resenhei aqui há alguns anos (como o fiz também com outros facínoras condenados), permanece fazendo das suas na cadeia, simulando debilidades e alegando consentimento das mulheres que dopava, estuprava e engravidava.

Campbell publica um verdadeiro almanaque de gente da pior laia. Já virou best-seller.

O subtítulo, "o presídio dos famosos", ajuda a vender. Além das celebridades Richthofen, que mandou esmigalhar a cabeça dos pais, Pimenta Neves, que matou pelas costas a ex-namorada, e Matsunaga, que picou o marido em pedaços, estão lá o craque Robinho (condenado por relação sexual não consentida com uma albanesa em uma boate italiana), rei das pedaladas, e o herdeiro pernambucano Thiago Vieira, que tatuava as suas iniciais no corpo das mulheres que estuprava.

Todos viviam bem em Tremembé. Os dois últimos, certamente entre os mais ricos da prisão, compravam a vassalagem dos presos pobres. Rivais em prestígio, nenhum dos dois está mais lá.

Matéria publicada no portal da CNN de ontem, 13 de janeiro de 2026, atualizada às 8h05, afirma que ambos foram transferidos "porque a ideia é 'pulverizar' os presos em outras penitenciárias para que não haja mais um espaço batizado de 'presídio dos famosos' como Tremembé".

Será que o filão vai secar? Não creio. Ullisses Campbell está fadado ao sucesso. Seus editores sabem disso. Um splash na capa da primeira edição avisa: "O livro que deu origem à série. Vol. 1".

Vem mais por aí. O que não falta é criminoso. Campbell não deixará a história deles escapar.

Editora Matrix, 376 páginas  |   1a edição   |   2025

"A batalha do Avaí", por Lilia Schwarcz


É comum dizermos que a história "é escrita pelos vencedores". Não só, mas também. Quer um exemplo? O Paraguai perdeu a guerra, mas conta essa história segundo a sua própria conveniência. 

(Lembrando que até o nome da guerra requer perspectiva. No Brasil ela atende pelo nome do oponente - a "guerra do Paraguai". Em Assunção eles se referem aos seus três algozes juntos. Nos bancos escolares paraguaios, as crianças chamam-na "la guerra de la Triple Alianza".)

Se hoje o confronto é contado por uma multiplicidade de plataformas, no passado os meios se restringiam aos livros e às pinturas. Os quadros, mormente os de dimensões monumentais, eram o canal predileto dos governos - pois resumiam a narrativa a uma única cena grandiosa. O pintor reproduzia o momento (congelado e maquiado) que interessava ao governante e fim de papo.

Pronta, a obra era exibida publicamente, com festa, e depois iria decorar alguma parede palaciana.

Importante era ser encomendada ao cara certo. Vindo com a grife adequada, já era garantia de aprovação prévia. Nesse sentido, em termos de pintura histórica, dois nomes monopolizavam o mercado de grandes encomendas: o catarinense Victor Meirelles e o paraibano Pedro Américo.

Victor Meirelles foi o autor de "A primeira missa no Brasil", "Combate Naval do Riachuelo", "Passagem de Humaitá" (ambas da Guerra do Paraguai) e "Batalha dos Guararapes".

Pedro Américo foi o autor de "Fala do Trono", "O Grito do Ipiranga", "Chaco", "Batalha de Campo Grande" e "A batalha do Avaí" (as três últimas sobre a Guerra do Paraguai).

Curioso é que Américo fechou contrato para pintar a batalha dos Guararapes, ocorrida duzentos anos antes, e resolveu por conta própria pintar a batalha do Avaí, que tinha "acabado" de acontecer.

Aí a encomenda sobrou pro Meirelles, que fez a pintura do confronto com os holandeses. Prontas praticamente ao mesmo tempo, as telas foram expostas ao público lado a lado. Choveram críticas.

Caxias ficou estressado. Américo o retratou em posição de destaque, mas desabotoado. O duque achou um acinte a representação. Alegou que nunca estivera descomposto em batalha.

Houve também quem criticasse a representação do general Osorio, apartado do comando, em meio à soldadesca. Zoaram que ele era o comandante "de si mesmo". 

Não foram estes os únicos comentários negativos. Muitos chamaram Américo de empreiteiro de pintores (acusavam-no de ter posto onze diferentes artistas para executar o quadro) e, pior, de plagiário. Julgue você mesmo. Schwarcz, a autora do livro sobre a obra, exibe as pinturas, de outros autores famosos, dos quais Pedro Américo havia surrupiado as cenas.

A área nobre de "A batalha do Avaí" exibe o Duque de Caxias, montado a cavalo, em um promontório iluminado, ao lado de outros dois oficiais. Confira no livro uma representação idêntica na obra de Gustave Doré em seu "Bataille de Montebello", uma litografia de 1859.

O que mais denuncia a cópia é que os três cavalos estão em posição corporal absolutamente idêntica, assim como seus três cavaleiros. A única sutil diferença é que um deles segura um binóculo. Aos olhos de hoje, seria uma tremenda cara-de-pau. À época, provável que Américo apostasse que ninguém jamais iria constatar a "coincidência".

Que não se restringiu a essa, vale frisar. Se a representação de um dos dois grandes personagens da guerra - Caxias - foi copiada de um outro autor, o outro personagem de destaque, Osorio, também teve sua postura plagiada de uma outra obra.

Paul Delaroche, em seu "Charlemagne traversant les alpes", um óleo sobre tela datado de 1847, exibe o francês em posição semelhante à escolhida por Américo para representar Osorio. O plágio, neste caso, não é tão evidente. Schwarcz presenteia o leitor, permitindo a comparação entre as duas obras.

Antes de vir para o Brasil, a pintura foi vista, ainda na Europa, por Pedro II. Ou seja, já desembarcou por aqui com o selo da aprovação imperial. O quadro foi pintado na Itália, de 1872 a 1877. 

A historiadora Lilia Schwarcz disseca o quadro e o contexto do período. Seu estudo analisa diligentemente o momento político e os poderes envolvidos - o Império, o Senado e o Exército. 

Traz também a ironia dos cartunistas brasileiros sobre a celeuma entre os quadros de Américo e Meirelles. Mostra a divertida caricatura de Angelo Agostini, publicada na Illustrada, em 1879, onde os personagens da sangrenta e caótica pintura d' "A batalha do Avaí" invadem a pintura mais estática e (me pareceu) conspiratória de "Batalha dos Guararapes". 

Voltando à questão inicial, de que cada país é dono da sua própria história e a chancela como lhe agrada, o livro exibe também o óleo sobre tela "Batalla do Abay" (isso mesmo, com "b"), atualmente exposto no Museo Nacional de Bellas Artes do Paraguay.

Na tela paraguaia (sem data e autor), ao contrário do massacre das forças imperiais, em um dia tempestuoso, sobre um exército acuado e seminu, temos uma refrega mais contida, onde, em um dia ensolarado e verdejante, um bem composto exército paraguaio encurrala as tropas brasileiras, com direito a um mastro da bandeira paraguaia enfiado em uma garganta imperial.

Cada um conta a história como lhe apraz. Aí você tem que ler, para depurar o que realmente sucedeu...

Graficamente, o livro é espetacular. Com capa dura e sobrecapa em couchê (mesmo papel e gramatura do miolo), a obra de Schwarcz reproduz dezenas de obras do período. E, o principal, o quadro que é motivo do livro é desdobrado em uma página tripla, com 37,5cm de altura e generosos 79cm de largura (além da ampliação de cenas específicas e substanciosas).

A edição, pena, não está mais disponível nos principais sites livreiros. Mas exemplares usados são encontrados, na Amazon e no Estante Virtual, a partir de R$ 89,00. Uma pechincha. 

Editora Sextante, 172 páginas   |   1a edição,  2013