"Deus é justo", por Grigore Valeriu

terça-feira, dezembro 25, 2012 Sidney Puterman


Se o título fosse “Confissões de um Idiota”, não seria de todo ruim. Peguei pesado? não creio. O autor disserta sobre sua vida, partindo do nascimento na Romênia ocupada e da infância atribulada no regime comunista. Culpa a muitos pela suas desditas na Europa e também pelo seu início no Brasil; se lá foi uma criança problemática, aqui se revelou um adulto excêntrico. Judeu com o proverbial tino para os negócios, não tardou a se resolver bem financeiramente, vendendo - como corretor, a princípio -,  e depois comprando - como investidor -, uma série de imóveis. Embora não diga quantos, insinua que adquiriu muitos, antes mesmo do casamento com a ex-empregada doméstica do tio. Grigore, abonado, vivia em um quarto e sala sem móveis, e só depois de casado confessou à esposa que não era pobre, e sim suficientemente rico. A morte do pai e o suicídio da mãe o perturbaram e, até então ateu convicto, acabou indo parar em um templo da Universal, onde se desfez de todos os bens em prol da Igreja do Bispo Edir Macedo. Como doou tudo e não trabalhava, tornou-se um miserável, e foi na porta da própria Igreja espoliadora que ele foi bater em busca de emprego. Foi rechaçado, mas, como não desistiu, acabaram por aceitá-lo (segundo ele, se deu assim). Embora não tivesse experiência como advogado, logo se tornou o mais importante advogado da seita e íntimo do Bispo Macedo, a quem, em seu relato, livrou de muitas e boas. Como, porém, não aceitou ser o agente da tentativa de suborno de um juiz (Rocha Mattos, o da cabeleira, há muitos anos preso por participar de um esquema de venda de sentenças), se indispôs com a Universal e voltou à miséria anterior. Fez um acordo trabalhista e, não obstante no acordo tenha renunciado ao seu direito de processar a Igreja, assim o fez, traindo o acordado. Conseguiu um novo acordo e recebeu de volta o dinheiro equivalente aos imóveis que doou. Ponto final. Essa é a síntese da versão de Grigore Avram Valeriu. Porém, além de ser uma estória de um sujeito de atitudes sobremaneira idiotas, é inverossímil, rocambolesca nas suas reviravoltas  e simplista no que tange ao comportamento dos personagens.  O autor faz dele próprio um monumento à ingenuidade, ao expor a sua relação de explorado pela Igreja até o último centavo, mas se torna o mais malicioso e ponderado dos seres, ao assumir o papel de advogado da seita e depois, ao final, de escritor. São personalidades suspeitamente contraditórias. Os encaixes são todos tão favoráveis à tese de que o autor foi lesado em sua irreprimível boa fé, da qual é irresistível não desconfiar. No mais, ainda que a obra dê nome aos bois e só livre – e bem – a cara de Marcelo Crivella, é um livrinho pitoresco, em sua primeira metade, e aborrecido,  na segunda. Sabe quando alguém se faz de sonso, contando uma estória, bem na sua cara, e você vê que tem truta debaixo do monte de blablablá? Pois é. O livro é fraco. A estória, um concurso de mentirosos entre pastores e o ex-enganado. Não me convenceram, não. Eu, se fosse você, ia rezar (ou orar) noutra paróquia.

Idéia & Ação, 213 páginas

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

3 comentários:

  1. Eu acho que ou você é da Universal, ou não conhece nada sobre ela. Talvez o livro não seja bom em sua retórica por se tratar de uma obra amadora, mas depois de 15 anos estudando sobre a "bendita igreja" e colhendo depoimentos diversos, digo que o livro é muito bom. A ingenuidade do autor criticada por você é, infelizmente, a coisa mais comum de acontecer. São milhares enganados todos os anos pela teoria da prosperidade. O número de igrejas com esse viés financeiro aumenta a cada ano. Um verdadeiro comércio. O cara seguiu enquanto foi bom para ele. Um típico traço do egoísmo humano.

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    1. Caro Anônimo, ao lado das agressões costumeiras de quem não se identifica, acho que você não entendeu o que leu no post. A começar por seu comentário sem pé nem cabeça "OU você é da Universal OU você não conhece nada sobre ela"). Bem, não sou da Universal. Talvez não conheça nada sobre ela, também. Concordamos sobre o comércio evangélico e com o viés financeiro das igrejas. Também não tenho dúvida sobre a ingenuidade dos "fiéis". Só não me convence a "ingenuidade" POSTERIOR deste fiel em particular. Bom que você esteja estudando há 15 anos sobre a igreja, bendita ou não. Estudar é sempre proveitoso. Mas fique atento à lábia de alguns fiéis arrependidos. No mais, assine com seu nome. A opinião dos anônimos já começa sem personalidade na assinatura.

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  2. Sinceramente , eu acredito no que estou lendo , Já frequentei esta igreja e não me abismei com o que li

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