"Trens rigorosamente vigiados", por Bohumil Hrabal

sábado, março 28, 2026 Sidney Puterman


Em uma mistura de non-sense, lirismo e um humor parvo que sublima a idiotia, acompanhamos as desventuras e reflexões de Milos Hrma, um jovem tcheco, morador de uma cidadezinha fronteiriça à Alemanha nazista e, deduzo cá com meus botões, alter-ego do autor.

O universo da literatura tcheca é singular. Conheço poucos, mas bons. Franz Kafka, com suas mil gavetas, e Jaroslav Hasek, com seus bêbados, são meus prediletos. Encontrei um pouco de ambos no texto de Hrabal, principalmente aquele assombro terno de Hasek, sempre se auto-ridicularizando.

Para Hasek e Hrabal, tudo transborda uma certa imponência abobalhada. Se Hasek legou para a posteridade o seu soldado Svejk, Hrabal nos oferece o simplório, mas prático, aprendiz ferroviário Milos. Ora com a cabeça nas nuvens ora com um atilado bom senso, o aprendiz vai, de personagem em personagem, desvelando os ladinos e os apatetados.

"O incrível casamento do humor plebeu com a imaginação barroca", disse de Hrabal seu compatriota Milan Kundera, mundialmente famoso pelo seu "A insustentável leveza do ser". Que nunca li.

A novela começa com o retorno do ferroviário ao emprego. Vinha de três meses de licença, pois se recobrava de uma tentativa de suicídio. Cortara os pulsos porque falhara na hora H com a namorada ("como pôde acontecer o que me aconteceu, que quando era para acontecer aquilo com Masa eu de repente murchei como um lírio?"). Vestira novamente seu belo uniforme de ferroviário.

O ano era 1945 e os alemães vinham correndo para trás. Fizeram da República Tcheca um Protetorado alemão e mataram tchecos a torto e a direito. Não que os tchecos fossem assim tão hostis aos chucrutes - não, não eram, e aí reside parte do problema. A literatura vem, às vezes, providencialmente socorrer a honra nacional.

Milos descendia de uma linhagem de resistentes. Ou quase. O protagonista teve por duas vezes um revólver alemão apertado contra as fuças - como o próprio escritor, que também tinha sido ferroviário e também estivera duas vezes sob a mira dos boches. Personagem e autor sobreviveram.

Tiveram melhor destino que o avô do Milos, que era hipnotizador e que, na Primeira Guerra Mundial, avançou sozinho contra uma divisão alemã, para pará-la utilizando apenas a força do pensamento. O tanque passou por cima dele. Decapitou o pobre e a cabeça ainda ficou presa na lagarta.

O bisavô, aleijado de guerra, vivia da pensão militar. Gostava de beber aonde houvesse alguém trabalhando, para tirar sarro de quem trabalhava enquanto ele ficava à toa debochando. Volta e meia levava uma surra de um trabalhador de cabeça quente. Até que um dia apanhou tanto que morreu.

O pai era um acumulador compulsivo e montava coisas com as tralhas que catava no lixo. A namorada ele conheceu após pintarem uma longa cerca, um de cada lado. No fim da cerca era para as coisas terem acontecido naturalmente, mas o pincel dele não funcionou e ele resolveu se matar.

Com o que voltamos ao início.

Sua estação de trem emula um teatro de vaudeville, com personagens caricatos. O chefe da estação vivia dentro de um pombal. A mulher do sr. chefe degolava coelhos, entupia gansos e dava um pau no marido. O controlador de tráfego carimbava a bunda da secretária do sr. chefe. E por aí vai.

E vai com algum spoiler, aviso. A uma certa altura o tom galhofeiro da novela migra para uma linha heroico-piegas. Os ferroviários resolvem explodir um dos trens rigorosamente vigiados. Uma agente secreta que veio ajudar a sabotar os alemães acaba dando para o virgem aprendiz.

Mais não digo.

Bohumil Hrabal, o autor, teve a vida marcada pelas guerras mundiais. Nasceu no início da primeira e enfrentou os dissabores da segunda. Filho bastardo de um soldado austro-húngaro, casou-se com Eliska, filha de um alemão rico e de uma austríaca simpatizante do nazismo. Não tiveram filhos, pois Eliska, estuprada por soldados soviéticos, não conseguia engravidar.

No regime comunista pós-Segunda Guerra, tornou-se operário, ferroviário e impressor. Só depois obteve autorização para ser escritor. Acabou perseguido por não se dobrar ao regime. Sua obra faz dele um dos maiores escritores tchecos do século XX.

Foi viver na roça. No fim da vida, viúvo, suspeita-se que tenha se matado.

Para encerrar. Em 1967, pouco depois da publicação de "Trens rigorosamente vigiados", fez imprimir no anúncio de falecimento do seu tio Pepin (um contador de estórias que influenciou seu texto e espírito), uma frase que talvez conte muito da ativa melancolia do próprio Bohumil.

"Ah, minha Nossa Senhora, a vida é, de qualquer jeito, bela, não que seja, mas é assim que eu a vejo".

Editora 34, 127 páginas  |  1a edição, 2025  |  Copyright 1965  |  Tradução  Luís Carlos Cabral

Foto: Ana Puterman (estação ferroviária de Rive-de-Gier)


Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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