"Sangue e ruínas", por Richard Overy

terça-feira, setembro 01, 2026 Sidney Puterman


"Volk ohne raum"
. Este é o título do romance de Hans Grimm, um ex-colono alemão, publicado em 1926 e que vendeu 315 mil exemplares na Alemanha. "Um povo sem espaço".

Segundo o autor, "o conceito de Raum era mais amplo do que a palavra 'espaço' sugere; denotava uma área onde o Volk, ou povo, plantaria suas qualidades culturais e seus atributos biológicos raciais especiais à custa de povos subjugados ou estrangeiros".

Assim, no dizer do historiador, o anseio político das grandes nações europeias (mais o Japão) de dominarem e explorarem comercialmente países e povos inferiores estava de tal forma estabelecido que transbordara para o imaginário popular, como atestaria a popularidade do livro de Grimm.

E este é, na verdade, o leitmotiv da obra de Overy. O subtítulo, "A Grande Guerra Imperial 1931-1945", sintetiza o que o autor busca demonstrar: que toda a primeira metade do século XX foi um grande conflito entre nações imperiais e nações que queriam sê-lo - a Alemanha, a Itália e o Japão.

"Queremos um império", disse Herman Göring, segundo Overy, a um conhecido inglês em 1937 durante uma discussão sobre o que inibia o futuro nacional da Alemanha.

Espaço e raça. "90% dos investimentos japoneses no exterior de 1926 a 1931 foram feitos na Manchúria", aponta o historiador. Controlar a região chinesa era vital, "na esperança de que pelo menos 5 milhões de camponeses pobres do país pudessem se estabelecer ali até os anos 1950".

Mussolini também olhava nesta direção, considerando que as conquistas da Líbia e da Etiópia proporcionariam terras agrícolas para que até "6,5 milhões de camponeses italianos pudessem se estabelecer no Império ao invés de migrar para o novo mundo". 

Esta era uma preocupação dos governantes, que viam a população partir. Em "História da imigração no Brasil", organizada por Luís Reznik, vemos que, em meio século, o Brasil recebera 1.430.466 imigrantes italianos - lembrando que 16% deles escolheram a nação brasileira como novo lar. A maioria (60%) optou pelos Estados Unidos. A Argentina recebeu 25% da diáspora da Velha Bota.

Mussolini, que já em 1919 havia dito que o imperialismo 'era uma eterna e imutável lei da vida", vinha tentando fazer "da nova nação italiana o centro de um império mediterrâneo e africano, uma versão moderna da Roma antiga", ressalta Overy. Precisava do seu povo para colonizar a Eritreia, a Somália e a Abissínia (hoje Etiópia). E ainda estava de olho em Malta, na Albânia e na Córsega.

Os alemães olhavam para o Leste Europeu como se fosse um terreno baldio, à espera dos teutões para ser cultivado - com o consequente extermínio dos indesejáveis e a escravização dos convenientes.

Como o belicoso volante Felipe Melo, avisando antecipadamente que iria dar "porrada em uruguaio" antes do seu time seguir para um jogo eliminatório em Montevidéu, ninguém ali estava escondendo as suas reais intenções. Disfarçavam as razões, mas anunciavam suas pretensões territoriais.

Entendido. E, como a proposição inicial de Overy era por uma nova abordagem do conflito - sob o viés do imperialismo -, o leitor se mantém, portanto, na expectativa do desenvolvimento da tese do autor. Mas o avanço das páginas vai revelando a fragilidade da concepção pretendida.

Ele trata as conquistas territoriais sucessivas da Alemanha como um projeto imperial, que se encerraria em si mesmo, e que teriam sido as duas grandes potências, Inglaterra e França, as responsáveis pela Segunda Guerra Mundial, ao fazerem a sua declaração de guerra em apoio à Polônia invadida.

O historiador inglês acha razoável supor que Hitler se contentaria com o território austríaco, tcheco e polonês e que a partir daí os nazistas tocariam a vida. Porque, se não fosse assim, não faria sentido condenar ingleses e franceses por cumprirem o que haviam prometido após a tomada da Tchecoslováquia: se a Alemanha invadisse a Polônia, os Aliados declarariam guerra.

Mas é o que Richard Overy faz, ainda que de forma mambembe. Com isso, baseado numa percepção estapafúrdia (para mim), a de que o estopim da guerra mundial foi a reação aliada à quarta invasão alemã, o autor envereda por uma marqueteira revisão da ordem dos fatores - muito mais retórica do que qualquer outra coisa.

O que ele faz é recontar a sucessão de eventos, mas de uma forma mais mal contada do que em outros bons livros sobre a Segunda Guerra. Ele traz sim um conteúdo muitas vezes menos referido em outras publicações - efetivos, números de artilharia, planos estratégicos -, mas isso é um simples exercício de seleção. Seu livro de 1.130 páginas poderia ter 100 mil páginas, que não caberia nelas 1% do material histórico disponível sobre a guerra e seus desdobramentos nucleares e periféricos.

Então a pergunta que o leitor faz à medida em que a leitura se dá é: "Onde Overy quer chegar?". A questão é relevante, já que a seu ponto de partida, mesmo bem descrito, é mal sustentado, ao apresentar os eventos de forma similar às demais obras sobre a guerra.

Outra estranheza é uma recusa, aparentemente deliberada, de citar o nome de um dos protagonistas inequívocos do evento, o inglês Winston Churchill. Causa espécie que apenas na página 135, de uma composição gráfica de 43 linhas por página, o autor cite o político britânico.

É aceitável que Churchill seja citado pela primeira vez - em um livro maciçamente sobre a Segunda Guerra Mundial - apenas após seis mil linhas? É para deixar pasmos os leitores mais lidos.

A segunda menção, na página 142, é para, en passant, atribuir ao então primeiro-lorde do almirantado - Churchill - a responsabilidade por falhas na operação de defesa da Noruega, que teriam recaído, injustamente, segundo Overy, nas costas de Chamberlain.

E, de todas as menções a Churchill que a obra traz, a única que não traz crítica, desdém, desaprovação ou malícia é a da página 687.

Rapaz, se não é de caso pensado, parece, ehm? Mas vamos tocar o barco.

O historiador fala da "guerra de mentira", de como os generais alemães enganaram franceses, ingleses e belgas e invadiram, com astúcia, a França. De como a França capitulou. Fala ainda da gulodice atrapalhada de Mussolini. 

Tudo bem. Mas onde está o viés diferenciado prometido na divulgação da obra? 

A erudição de Overy é inegável. E as mais de mil páginas do seu calhamaço são recheadas de descrições detalhadas, como quando o porta-aviões Illustrious "lançou um ataque arrasador contra o principal porto da Marinha italiana em Taranto, usando biplanos Fairey "Swordfish" que transportavam uma mistura de sinalizadores, bombas e torpedos".

O historiador prossegue afirmando que "a missão se beneficiou do fraco reconhecimento aéreo-marítimo da Força Aérea italiana, mas principalmente da vantagem tática dos novos torpedos aéreos britânicos, capazes de passar por baixo da rede de proteção do porto (nesse caso não instalada por completo) e graças a um novo fusível magnético, detonar a quilha de navios de guerra desprevenidos". 

Uau. É uma carrada de pormenores técnicos, esmiuçados com raro detalhismo. Certamente o volume de informações deixa o leitor aturdido. Mas a seleção dos fatos parece randômica. Overy salta de datas e teatros de guerra como uma pulga sabichã. Parece que o único critério que o norteia é enaltecer Hitler e as operações alemãs, por um lado, e depreciar Churchill e Mussolini, pelo outro.

A tese central do autor, não esqueçamos, é a "Grande Guerra Imperial". Um dos principais atores, entretanto, o Império Italiano, é sempre tratado entre gracejos. "O Império Africano da Itália, sacramentado apenas cinco anos antes pela conquista da Etiópia, desmanchou-se em poucos meses depois do desastre grego", faz troça.

Bem, se dos três candidatos a novos impérios - alemães, japoneses e italianos -, um deles é sempre risível e fracassado, restam dois. Um deles, porém, é uma ilha lá nos confins de caixa-prego, totalmente desassociada do fulcro das ações, a Europa. Sobra a Alemanha.

Então, a Alemanha, comandada pelo histérico orador austríaco Adolf Hitler, quer assumir o comando imperial do planeta, em substituição aos impérios francês (o qual já está submetido aos germânicos) e inglês (em vias de destruição). Mas será que toda essa tese não se restringe a uma reles escolha de nomenclatura? Porque não parece provável a ninguém que a movimentação alemã nos anos 30/40 teria ocorrido sem Hitler por trás.

Ou seja, o conceito que move o livro sequer seria possível sem a presença de um determinado sujeito. Ora, será então que este conceito se sustenta? Ou "Sangue e ruínas" é uma fraude editorial?

Em última análise, é isso mesmo. Tanto que, após poucas centenas de páginas, na página 427 a Alemanha se rende. Já o Japão se rendeu incondicionalmente seis páginas depois, na 433. A Itália já tinha desmanchado. E não estávamos nem na metade do livro.

A propalada ideia de uma "guerra imperial" já havia sido abandonada há tempos pelo autor. Sua descrição da guerra, ainda que errática, é convencional. Seu método é curioso. Ele age como alguém que, em um programa de auditório, abre um verbete qualquer da enciclopédia e a partir daí deita uma falação erudita e minuciosa sobre o tópico em questão.

E assim ele segue, mesmo após o "fim" da guerra. Ele continua abrindo capítulos e esmiuçando questões pontuais, que vão dos apelidos dos comandantes americanos nos ataques anfíbios à dieta pulverizada com bolotas de carvalho da Seção de Alimentos Substitutos do governo japonês.

É um jânio quadros a esmo, deitando cátedra sobre itens insignificantes que ele pinçou sabe-se lá de onde, indo diretamente para o âmago de lugar nenhum.

Tem horas que parece até aquele sanduíche que fazemos com o que achamos na geladeira, para dar um destino ao resto do pepino em conserva e àquela meia cebola molenga. Ações de caridade, resistência civil, agentes especiais, todas as anotações velhas e não aproveitadas viram um novo capítulo.

Por outro lado - e aqui está a grande incongruência e a grande armadilha ao se criticar este texto -, a capacidade de síntese e de análise de Richard Overy é nada menos que espetacular. Cada pequena faceta sobre a qual Overy se debruça desnuda e impacta. E o texto dele é muito bom.

Um bom exemplo são as páginas que ele dedica à reação dos demais países ao Holocausto. O autor expõe a contradição da guerra moral, que os Aliados alegavam praticar, com a relutância e ineficiência com que eles efetivamente lidaram com o problema judaico.

Mas este seria apenas um exemplo, entre dezenas de outros. Como se estivesse em um gigantesco armarinho, cada gaveta que Overy abre traz preciosidades. Porém, repito, não é esta a questão.

Porque a grande questão que o leitor tem que encarar é que comprou um livro cujo autor promete uma abordagem revolucionária da guerra. E o que temos quando abrimos o embrulho é um malabarismo retórico sobre a tal tese basilar de um suposto imperialismo; conceito, porém, fragilmente pré-concebido, que o próprio autor desmente em parte das suas elucubrações.

Não importam aqui o domínio do evento ou a qualidade do texto; se suas digressões sobre a propaganda pacifista, o racismo nos EUA e o massacre de Katyn procedem ou não. A única questão relevante é que o dono do circo vendeu ingresso para vermos o lobisomem de Trás-Os-Montes e trouxe um português peludo.

Se você não se estressa com isso, eu me estresso.

Na página 670, shazam!, ele volta ao blá-blá-blá das ambições imperiais de Alemanha, Itália e Japão. Bullshit. Pertencesse eu ao mainstream da crítica literária, atado por vínculos comerciais e corporativos ao mercado editorial, não poderia falar de forma tão clara. Mas não tenho rabo preso. Então posso mandar na cara dura que o que o Overy praticou com seu livro é estelionato intelectual.

Não que a farinha que ele misturou à massa do seu bolo seja de má qualidade. A questão é que ele vendeu o bolo como sendo de pura fruta - e meteu noventa por cento de farinha nele.

"A alegação de que o Eixo, e em especial a Alemanha de Hitler, buscava a 'dominação mundial' nunca foi definida de forma clara, mas foi usada como ferramenta retórica para maximizar a ameaça representada pelos Estados agressores", diz. E é curioso como ele se entrega aqui.

"Ferramenta retórica para maximizar a ameaça" é exatamente o uso que o autor faz do robusto conteúdo analítico e informativo trazido para a obra. Só que somente é possível saber desse truque lendo o livro. E, para lê-lo, desperdiça-se tempo, porque o apregoado não será encontrado ali.

Pena que não haja mercado, público ou espaço para debate deste gênero de fraude. Não convém a ninguém, dentro do establishment editorial e jornalístico, que obras densas de historiadores e cientistas sejam discutidas com distanciamento e sem reverência.

É bem mais confortável escrever elogios em série a alguém bem reputado, que escreveu e publicou um calhamaço de mais de mil páginas sobre um evento de há oitenta anos atrás (e que já foi tema de milhares de publicações, com centenas de abordagens diferentes), do que ler e questionar.

Ninguém tá por aí procurando sarna para se coçar. 

Assim, certamente você não verá essa afirmação em lugar algum, a não ser aqui. Mas "Sangue e ruínas", de Richard Overy, é uma fraude editorial. Não entrega o que apregoa.

E, se os mecanismos de busca não fossem subordinados a aspectos comerciais, os interessados no caleidoscópio de opiniões sobre a produção livreira poderiam encontrar esse viés aqui.

Mas, de boa, acho que não vai rolar. Pelo sim, pelo não, que fique registrado (alô Google) em bom português e também em um inglês capenga.

"Blood and ruins", by Richard Overy, is a fraud. By all means.

Companhia das Letras, 1.130 páginas  |  1a edição, 2025  |  Copyright 2021  |  Diversos tradutores

Obs.: Bela capa, trazendo uma foto aérea da Berlim arrasada. Mas, se você prestar atenção nos encaixes geométricos, verá que são as mesmas fotos, superpostas. Na verdade, uma montagem. Assim como o livro.

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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