"Revolução Francesa: às armas, cidadãos", por Max Gallo
O segundo tomo da obra de Gallo continua de onde o primeiro parou: com Luís XVI sendo guilhotinado. O povo está mais em estado de choque do que de celebração. Os líderes revolucionários comemoram, mas talvez com o sentimento de que teriam ido além do admissível.
Não era ainda o fim da Revolução; longe disso. Se muito, o fim, cinematográfico, da primeira parte. E, se quem estava lá já estava achando o roteiro demasiado sangrento, não perdiam por esperar.
Poucas cabeças iriam se manter conectadas ao seu pescoço de origem.
De todo, a longa sequência de confrontos entre as diversas correntes políticas, algumas mais radicais que outras, com diversos grupos acusando-se mutuamente de oportunismo e corrupção, iria se estender por anos. E absolutamente ninguém sabia onde aquilo iria parar.
Por exemplo, até mesmo os principais líderes da Revolução, tendo se livrado do cadáver do rei e do restante da família real, tinham que se proteger dos próprios "colegas" de causa.
Danton, que tentara por um pé no freio na escalada da violência, era indistintamente acusado de estar mais interessado em fornicar e roubar. Marat, irrascível, estava sempre por um fio. Robespierre, o Incorruptível ("Só existem dois partidos, o dos homens corrompidos e dos homens virtuosos", bradava), era a reserva moral e mantinha o comando firme da Convenção e da Assembleia.
Nenhum deles, entretanto, estaria vivo no Natal do ano seguinte. E, como você já deve saber, nenhum deles morreria de morte natural.
Aliás, se houvesse uma Cazé TV promovendo um festival de bets na França revolucionária, as odds de sobrevivência dos principais dirigentes políticos estariam sempre pagando uma merreca.
Já na outra extremidade, para o populacho, pouco mudava, na prática. Gallo reproduz o que seria um murmúrio entre a população pobre de Paris: "Quando tínhamos um rei, éramos menos infelizes do que agora, quando temos 745".
Os girondinos, mais moderados, eram a bola da vez. Eram a parte da Assembleia que tentara evitar que o rei fosse condenado à morte. Os jacobinos, radicais, eram a voz dos sans-culottes, que gritavam, animados: "Guilhotina para os girondinos!"
Porém, ainda que moderados, eram revolucionários de primeira hora, desde maio de 1789. Fundaram clubes, opuseram-se à corte durante os Estados-Gerais, participaram do 10 de agosto e do assalto às Tulherias. Seriam os girondinos os primeiros revolucionários vitimados pela Revolução.
Com a assinatura de Marat, 29 deputados girondinos constam no decreto de detenção (ainda que chamados de "os trinta"). Doze fogem, dezessete ficam em prisão domiciliar, outros oito escapam. Os girondinos ausentes do decreto organizam um protesto e pedem sua anulação.
Dos oitenta departamentos que compõem a França, trinta aprovam o decreto de detenção de 2 de junho de 1793. Os outros cinquenta não entendem o racha dos patriotas e a caça aos girondinos.
Robespierre, no Clube dos Jacobinos, acusa que "apenas os ricos, há quatro anos, usufruem das vantagem das Revolução". Conclui que "é preciso que a presente insurreição continue, é preciso fornecer armas aos sans-culottes, encolerizá-los, esclarecê-los: é preciso exaltar o entusiasmo republicano, por todos os meios possíveis".
Os girondinos foram "irmãos de causa" dos jacobinos, ao lado de quem promoveram a Revolução de 1789. Agora são suas vítimas - presos, condenados e executados. De março a setembro de 1793, o Tribunal Revolucionário mantém, por mês, uma média de dez condenações à morte.
Uma a cada três dias.
Danton ficou rico ("É um corrompido, de fortuna recente, adquirida sem dúvida nos cofres dos ministérios", diz Gallo) e viúvo; sua esposa morrera depois de dar a luz a um quarto filho ("Que bela dor fora a de Danton, que todos sabiam enganar Gabrielle todos os dias", afirma o autor).
Não se passam três meses e Danton casa com a sua vizinha, de dezesseis anos.
Marat sofre com uma doença de pele que o obriga a passar horas na banheira, em busca de alívio. Ignora que a banheira que ameniza suas dores será, em alguns dias, sua própria cova.
Charlotte Corday, uma jovem de Caen, leitora de Rousseau, fôra republicana. Mas os massacres sangrentos mudaram sua opinião. Decidida, partiu para Paris, disposta a assassinar aquele que considerava um "déspota revolucionário" e um "traidor da Constituição".
Simula ser uma apoiadora e, após muita relutância, é recebida pelo próprio Marat, refastelado dentro da sua banheira. Ela o apunhala no peito. É presa. Quatro dias depois, Charlotte é decapitada.
Exércitos imperiais, encorpados por milhares de nobres franceses emigrados, dominam vastas regiões da França pró-monarquia. "A nação é atacada por todos os lados", diz Gallo. "De Angers a Valenciennes, pelos vendeanos e pelos anglo-austríacos, de Lyon a Toulon, pelos aristocratas, pelos monarquistas, pelos girondinos, pelas frotas inglesa e espanhola".
A Convenção determina que todos os jovens de 18 a 25 anos se alistem, formando um exército de setecentos mil homens. É decretada a pena de morte para os desertores.
La guerre de Vendée foi uma guerra civil e uma contrarrevolução. Uma insurreição dos católicos e dos monarquistas contra os republicanos. Para o Comitê de Salvação Pública (que governa a nação e é governado por Robespierre), "a Vendéia é um tumor que precisa ser extirpado a qualquer preço".
E o preço não era barato, devido à cobiça selvagem e corrupta dos generais franceses. E custou caro também em vidas: cento e vinte mil franceses morreriam no conflito.
Para Danton, os rumos da Revolução estão equivocados. Ele sobe à tribuna, inflamado. Segundo ele, houvera o 14 de julho de 1789; depois a segunda revolução, a de 10 de agosto de 1792. Ele grita aos deputados: "É preciso uma terceira revolução!". Ele quer por um fim à matança.
Já o que o povo, os sans-culottes e os jacobinos mais desejam é o acirramento do Terror. Quer-se que "a Santa Guilhotina trabalhe muito todos os dias". Barère de Vieuzac se delicia:
"Coloquemos o Terror na ordem do dia, é assim que desaparecerão, num instante, os monarquistas e os moderados, e a turba contrarrevolucionária que vos agita", grita, na tribuna. "Os monarquistas querem sangue? Muito bem, eles os terão dos conspiradores, dos Brissot, das Maria Antonieta".
(Àquela altura, encarcerada, a ex-rainha permanecia viva. Será decapitada no mês seguinte.)
Neste diapasão, a Lei dos Suspeitos é aprovada pela Convenção em 17 de setembro de 1793. Doravante ninguém mais estará com a cabeça bem atarrachada. Qualquer denúncia tem potencial para separá-la do pescoço do denunciado. "A lei é tão geral em seus termos que o invejoso, o ciumento, o vizinho descontente" pode levar qualquer um à prisão, afirma o autor.
A partir daí, para ser inscrito na relação da degola diária, era um pulo. Em meses, o número de detentos quadruplica e, destes, 1.667 são condenados à morte. Nas cidades, muitos se suicidam antes, temendo a cadeia e a guilhotina. O revolucionário Barbaroux, na iminência de ser preso, dá um tiro de pistola na cabeça - erra e estraçalha a mandíbula. Vai pro cadafalso segurando o queixo.
Às mulheres foi proibido o direito de reunião e passou a exigir-se que portassem todo o tempo a insígnia tricolor. Votam os deputados que qualquer mulher encontrada sem a insígnia passará oito dias na prisão; em caso de reincidência, será presa "até a paz".
Relata Gallo que vinte e um deputados girondinos foram conduzidos ao cadafalso em 31 de outubro. Junto a eles, mais doze condenados. Os girondinos não tremeram. Gritaram: "Viva a República!". O povo repetiu o grito. O carrasco cortou 33 cabeças em 38 minutos. Vive la France.
O ano da França agora começa em 22 de setembro - aniversário da proclamação da República. É dividido em doze meses de trinta dias (mais cinco ou seis dias complementares). Cada mês é composto por três etapas de dez dias. Uma aporrinhação marqueteira.
Os meses do verão são messidor, termidor e frutidor; do outono, vendemiário, brumário e frimário; do inverno, nivoso, pluvioso e ventoso; da primavera, germinal, floreal e prairial. Pode soar poético. Para mim, é uma encheção de saco cada vez que alguém data os eventos com esse calendário.
O cristianismo é abolido e é oficialmente instituída "a religião da pátria". A Catedral de Notre Dame passa a se chamar "Templo da Razão". As igrejas são saqueadas e destruídas.
Frente à enxurrada de mortes, Danton quer lançar uma grande campanha pela Indulgência. Desmoulins questiona, em 30 frimário do Ano II: "Por que a clemência teria se tornado um crime na República?"
Camille e Maximilien são amigos de colégio, revolucionários de primeira hora.
Danton sabe que o povo quer o Terror na ordem do dia, mas protesta: "Existe um fim para tudo. Exijo que se coloque um limite". Prevê que os ultrarrevolucionários se tornarão contrarrevolucionários.
Já Maximilien de Robespierre nomina os citrarrevolucionários, ou moderados e indulgentes, grupo onde ele inclui Danton e Desmoulins. Já ele próprio se considera um revolucionário "puro", que tinha por missão depurar os demais. Poder, política e semântica se engalfinham.
Camille Desmoulins lança um novo jornal, o Le Vieux Cordelier, e brada, sem papas na língua:
"Abri as prisões aos duzentos mil cidadãos que chamai de suspeitos, pois na Declaração dos Direitos não existem casas de suspeição, apenas casas de detenção. A suspeita não tem prisão, mas sim o acusador público..." Mais direto e destemido, impossível. Continua ele: "Quereis exterminar todos os vossos inimigos na guilhotina! Terá jamais havido maior loucura?"
Collot d'Herbois, membro do Comitê de Salvação Pública, atiça, em 3 nivoso do Ano II: "Querem moderar o movimento revolucionário. Mas será possível controlar uma tempestade? Pois bem! A Revolução é uma. Não podemos, não devemos interromper seus avanços".
Em dezembro de 1793 (vamos esquecer o nivoso, combinado?), o capitão Napoleão Bonaparte rompe o sítio de Toulon e expulsa as forças monarquistas italianas, inglesas e espanholas que tomaram o porto e as montanhas. O jovem militar é promovido a general de brigada. Lá vem ele.
Ao passo que o exército francês submete as regiões rebeldes, a Convenção decreta a abolição da escravatura nas colônias francesas, sem indenização aos proprietários.
Na Suíça, Mallet du Pan publica seu livro Considerações sobre a natureza da Revolução da França, onde afirma que "sobre as ruínas do Antigo Regime, o poder está vago em Paris". Du Pan vivera em Paris de 1782 a 1792. Monarquista, aconselhara - em vão - o rei a fugir para Berna.
Em uma época pouca pródiga em opções para o acesso a versões contrárias ao poder dominante (pois as chances de ser separado da própria cabeça era de quase 100%), a leitura da obra faz sucesso.
Diz Du Pan que nenhuma das muitas facções (sans-culottes, indulgentes, ultrarrevolucionários, monarquistas etc) conseguirá tomar o poder. "Eles se entredevoram", afirma. Prevê que "o poder cairá nas mãos de um general, que brandirá o gládio vitorioso e restabelecerá a ordem aspirada pelos cidadãos daquele país há mais de cinco anos vivendo sob distúrbios incessantes".
Que profecia, ehm? Em 1794 era apenas uma remota possibilidade. O mais improvável dos generais, porém, a cumprirá, em poucos anos. Pequeno e esquisito, falava o francês com sotaque.
Mas ainda faltava algum tempo para chegar a vez dele. Por enquanto, no Ano II da República, na "Sala da Liberdade" do Tribunal Revolucionário, o promotor público Fouquier-Tinville se diverte, levando cabeças "à janela", "para que rolem para dentro do saco".
Em março de 1794, centenas dos revolucionários de anos antes, incluindo alguns dos líderes, engrossam a população carcerária. Neste mês, de acordo com os números de Gallo, são 6.247 detentos. Em apenas 47 dias, revela o autor, "1.376 cabeças vão espirrar no saco".
Ai de quem quer parar as engrenagens da morte. Robespierre não contemporiza: "A República é constituída pela destruição de tudo que lhe é oposto", explana o Incorruptível. "É culpado em relação à República aquele que se apieda dos detentos! É culpado aquele que não quer o Terror."
O discurso tem endereço certo: Danton, Desmoulins e toda a facção dos indulgentes, que propõem comitês de clemência, ao invés dos comitês revolucionários. Mas o destino deles está selado.
Em 30 de março de 1794, Camille Desmoulins, o homem de 14 de julho de 1789, e Georges Danton, o homem de 10 de agosto de 1792, são presos. Em três dias estão ambos diante do interrogatório de identificação. Nenhum dos dois pretende morrer calado.
"Tenho trinta e três anos, idade de Jesus, crítica para os patriotas", declama Desmoulins.
Danton, orador excepcional, agressivo, debochado, desdenhoso, diz que "instituí o Tribunal Revolucionário: peço perdão a Deus e aos homens por isso". Avisa "que o povo respeitará minha cabeça, sim, minha cabeça guilhotinada".
Escreve o livreiro Ruault, revolucionário de primeira hora, que "é porque Danton e Desmoulins quiseram interromper o movimento da guilhotina que eles mesmos perecerão". Afirma que "Danton fez sombra a Robespierre, que é hoje o rei da Revolução, o pontífice eterno, o apóstolo". E conclui: "Nenhum de nós pode ter certeza de conseguir evitá-lo, pois ele ataca a esmo".
No julgamento, Danton, por decreto, é obrigado a ficar calado - não fosse assim, dominaria os acusadores. Mas, condenado ao lado de Desmoulins e outros treze, declama:
"Que nos conduzam ao cadafalso! Não discutirei mais minha vida com aqueles que me assassinam. Infame Robespierre, o cadafalso te chama, seguir-me-ás!", profetiza. "Povo, morrerei digno de ti!"
Em 5 de abril, são postos nas carroças. O embarque atrasa, porque Desmoulins se desespera, grita, se debate. Segundo uma testemunha, Danton foi o primeiro a subir. E gracejou, para o povo que assistia o cortejo: "O que me desaponta é morrer seis semanas antes de Robespierre".
Foi o último a ser guilhotinado, às cinco e meia da tarde. O povo gritou: "Viva a República!"
Esta, por sinal, é governada pelo Comitê de Salvação Pública, onde quem dá as ordens é Robespierre, ao lado de Couthon e de Saint-Just. O Incorruptível, cujo poder chegou ao ápice, é cada vez mais odiado. Sucedem-se os atentados contra a sua vida. Tramam contra ele.
O Regime escala a matança. "O Tribunal Revolucionário, agora, despacha condenados à morte em seis ou sete carroças por vez", testemunha o livreiro Ruault. "São mortos aos sessenta ou oitenta por vez. Foram construídos corredores subterrâneos para receber o sangue que infectava a vizinhança".
Como Robespierre (e suas listas secretas de condenáveis) é um perigo para todos, a Convenção se torna o instrumento político para destituí-lo. O homem que personifica o Terror é detido. Em meio à balbúrdia, um tiro estilhaça a mandíbula de Robespierre. Teria tentado o suicídio?
"O Incorruptível, com a bochecha dilacerada, dentes arrancados ou quebrados", descreve Gallo, "não passa de um corpo arquejante que tenta estancar com um pedaço de papel o sangue que macula seu casaco azul, sua gravata branca".
Maximilien Robespierre, sob insultos populares ("Monstro, em nome de todas as mães, eu te amaldiçoo"), é posto na carroça, com vinte e um "cúmplices". Ao todo, cento e quarenta cabeças irão "espirrar no saco" nas próximas 24 horas.
O cadafalso é erguido na Place de la Révolution, proporcionando um longo trajeto turístico aos condenados, de uma hora e meia. Em frente à lâmina, conta Gallo que os lugares às janelas são alugados a preço de ouro.
O irmão de Robespierre, Augustin, também preso, saltara de uma janela, e se espatifara. Mesmo (quase?) morto, seu corpo estropiado acompanhou os demais, para ser guilhotinado.
Robespierre é o penúltimo decapitado ("O carrasco, depois de prendê-lo à prancha e antes de fazer a lâmina cair, arrancou brutalmente seus curativos e o aparato que segurava a mandíbula despedaçada de Maximilien, que soltou um rugido parecido ao de um tigre moribundo"). A cabeça decepada do ex-prefeito de Paris, Fleuriot-Lescot, fechou o evento.
Quem bem definiu o andamento da coisa foi o Mallet du Pan, jornalista e escritor a quem me referi há pouco. Disse ele que "os membros da Convenção são como criados da revolução que assassinam seus mestres e se apoderam da casa depois da morte deles". Foi por aí.
Os nomes dos que condenaram seus precursores são contados às dezenas, centenas; Barras, Sieyès, Fouché, Tallien, Fréron, Collot d'Herbois, Barère, Vadier, Amar, Billaud-Varene, Thibaudeau, Lecointre etc. A maioria deles ficou esquecida no passado. Houve até quem, como Barras, Sieyès e Fouché, viesse a ser protagonista na ascensão de Napoleão. Coisas da política - ontem, hoje e sempre.
A execução de Robespierre trouxe uma reviravolta no jogo. Os jornais celebram a libertação dos ex-suspeitos de girondinismo, ao mesmo tempo que os suspeitos de robespierrismo são perseguidos. Fouquier-Tinville, promotor público do Tribunal Revolucionário, é preso. Chegou a vez dele.
Quem também é preso, e passa uma semana e meia detido, é o general Napoleão Bonaparte. Amigo de Augustin, é acusado de robespierrismo, mas acaba se provando "apenas um patriota".
"A nação parece esgotada, como uma louca que volta à razão", escreve Mallet du Pan. "À febre sucede uma completa prostração", assinala Lépeaux. "Os bairros chiques estão desertos, palacetes estão à venda", aponta Gallo. "A capital do mundo parece um imenso brechó", diz o suíço Meister.
A juventude dourada, doravante apelidada "muscadins", surge como contraponto aos sans-culottes, algo como - com o perdão da comparação - playboys vs povão. Quem vivia na defesa, com medo de ser preso, por ganhar algum dinheiro e ser acusado de "aristocrata", agora está no ataque.
Lógico que o pau ia cantar. Ainda mais com o pão subindo. Em 31 de agosto, o depósito de pólvora em Grenelle vai pelos ares. A explosão (criminosa) provoca dois mil mortos e mais de mil aleijados. O corpo de Marat, o jacobino, é transferido para o Pantheon, em 21 de setembro.
Acabou melhor que Danton, cuja cabeça foi para um cemitério de ossos, e que Robespierre, enterrado em uma vala comum. Começava ali o Ano III da Revolução Francesa.
Há, pasme, festas como "O Baile das Vítimas", onde só são admitidos aqueles que perderam algum parente no cadafalso. O figurino exige nuca raspada (exposta para o carrasco) e um fio vermelho em torno do pescoço. Cumprimentam-se imitando um movimento de cabeça caindo sob o cutelo.
Nas ruas, os muscadins descem a porrada em qualquer um que pareça jacobino. Andam com porretes chumbados, aos quais dão o nome de espanca-canalha. Os suspeitos são caçados, chamados de "bebedores de sangue" e "cavaleiros da guilhotina". O ar de Paris cheira a vingança.
O 21 de janeiro, data da degola de Luís XVI, vira feriado nacional. Na ausência de um rei, os franceses anseiam por um líder. Por que não um general, um homem novo? A desordem constante cansa. O povo, exaurido pelo Terror, agora se enoja da caça aos que apoiavam o Terror. E falta pão.
Alguns dos nomes que eu listei alguns parágrafos acima, se mantendo do lado protegido do Terror após condenarem seus antigos líderes, acabam sendo colhidos pelas sucessivas novas ordens e são deportados para a Guiana - sob o comando do general Pichegru.
"Pela primeira vez um general é ovacionado e honrado no coração da República", assinala Gallo. Visto então como um "salvador", no início do Império de Napoleão não conseguirá salvar a si mesmo. Preso, será descoberto enforcado com o próprio cachecol, num "suicídio" pra lá de suspeito.
Diz o autor que "a comida é tão rara que se vende peixe podre". Pior: um padeiro é preso por "se gabar de ter cagado em seu pão, e, no exame deste, de fato encontrou-se merda". Ao menos, avisou.
O próprio Tribunal Revolucionário é "guilhotinado" pela Convenção. Fouquier-Tinville, seu promotor, o presidente do júri Herman e quatorze jurados perdem a cabeça (atente que, sempre que esta expressão é usada neste post, é no seu sentido literal).
Novas ondas da ininterrupta guerra civil se sucedem. Os muscadins são atacados pelos sans-culottes, que matam o deputado Féraud e cortam sua cabeça, espetando-a na ponta de uma lança. Saem pelas ruas aos gritos: "Os muscadins estão acabados! Fréron está morto! Temos sua cabeça!"
O problema é que a cabeça era de Féraud. Mataram e degolaram o cara errado. Turba é f...
No dia seguinte (23 de maio de 1795, 4 prairial do Ano III, não se perca), o exército da República intervém, com 120 mil soldados, e reprime a insurreição popular. Já são seis anos de Revolução. Será esta a última revolta sans-culotte.
Fréron, que os revoltosos pensavam ter matado, acelera a punição aos deputados jacobinos. Napoleão Bonaparte, pobre e ocioso, zanza pelos gabinetes do governo. Não aceita o comando de uma unidade de infantaria. Sabe continuar suspeito de robespierrismo e que o querem longe, decerto morto.
Os exércitos franceses vêm sendo vitoriosos em todos os fronts. Os tratados de paz geram recursos milionários para o governo. Quem manda agora é Barras, o "rei da República".
"É na antessala de Barras que o general Bonaparte espera, na qualidade de solicitante", nos conta o autor. "Ele também mendiga junto a Fréron e Boissy d'Anglas, os novos senhores da República".
Os novos poderosos querem acabar com a facção política dos montanheses, próxima dos jacobinos. Todos os membros ainda livres dos grandes comitês do Ano II são presos. Quarenta e três deputados são encarcerados, julgados pelo Tribunal Criminal que substituiu o abolido Tribunal Revolucionário. Trinta e seis são condenados à morte (alguns se matam, outros fogem, outros são... executados).
A propósito, a palavra "revolucionário" é proscrita, por decreto da Convenção. O sans-culottismo é condenado. Surgem os gritos de "viva o rei!". A fome popular é atribuída à ausência de um rei.
O rei, entretanto, não poderá ser o filho de Luís XVI - que morrera, aos dez anos, encarcerado. Com a morte de Luis XVII, seu tio, o conde de Provença, instalado em Verona, se proclama Luís XVIII. E não só: anuncia o retorno completo do Antigo Regime. Lógico que é uma peça de ficção. Mas que, a qualquer instante, pode se tornar a nova realidade.
Por isso, os políticos no poder na França revolucionária sabiam que poderiam estar a um triz de perder a cabeça. "Os monarquistas do interior estão desesperados", escreve Mallet du Pan. "Eles percebem que os regicidas, julgando-se imperdoáveis", acrescenta Gallo, "se tornarão mais do que nunca adversários de um retorno dos Bourbon".
"Os protestos das seções onde os monarquistas e a juventude dourada são maioria confirmam, aos olhos dos republicanos, a realidade do perigo da restauração", conclui o autor.
Os ingleses armam os monarquistas, desembarcam 3.500 emigrados e 1.500 prisioneiros franceses em Carnac, mas o exército revolucionário os derrota, expulsando a ameaça da restauração real.
Barras, à frente da Convenção, solta das prisões os revoltosos mais bárbaros, "patriotas de 1789", para se juntarem aos 6 mil homens do exército do Interior, encarregado de proteger a Convenção.
Precisa também de generais que não sejam monarquistas. Tem um que vive se oferecendo, esperando horas na antessala para ser recebido. É um oficial sem fortuna e sem glória, "vestido num uniforme puído e de má qualidade". Mesmo assim, Napoleão, que vinha em desgraça por ter recusado um comando no Oeste, consegue o posto de segundo-comandante do exército do Interior.
Uma força monarquista de trinta mil homens está organizada em 5 de outubro de 1795, sob o comando do general Danican. Bonaparte dispõe quarenta canhões ao redor das Tulherias. São, portanto, trinta mil (mas apenas uns oito mil decididos a lutar, o restante fazia número) contra seis mil e seus quarenta canhões. Danican propõe que Barras se renda. Ele sequer responde.
Chove. Ninguém atira, por horas. Até que, às quatro e meia da tarde, surge um tiro isolado. E mais outros. Então começa a tempestade de balas de canhão, dispersando os atacantes. Às seis horas, estava tudo terminado. Napoleão tem seu cavalo morto sob si. Se levanta ileso. Mais tarde, escreverá ao irmão: "Como sempre, não estou ferido".
De acordo com o livreiro Ruault, oito mil pessoas morreram. "Uma primeira carga de tiros derrubou uma centena de homens. Ela foi seguida por mais quatro ou cinco que varreram a rua inteira. Cerca de oitocentos homens foram mortos em menos de dois minutos". Complementa que "depois do canhoneio, a tropa de linha fuzilou todos que conseguiu fuzilar até meia-noite".
A revolta "foi esmagada sem piedade". Barras promove Bonaparte a comandante-chefe, e "posiciona sua amante, Joséphine de Beauharnais, na cama de Napoleão", pontua Gallo.
"Barras, rei da República, é um nobre corrompido, regicida e terrorista enriquecido". No dizer do autor, o novo rei "é um cínico trapaceiro, que os jacobinos ainda seguem, como se o regicida que ele é não quisesse cortar todos os laços com a revolução, por temer sempre uma restauração monárquica que simplesmente enforcaria os regicidas".
Nesta barafunda da política francesa revolucionária, "existem três partidos bem definidos", esclarece um dos comissários do Diretório. "Os monarquistas, com os fanáticos, os anarquistas e os verdadeiros republicanos. O terceiro combateu e conteve alternadamente os dois outros".
O Estado francês, deficitário, precisa se manter em guerra, "pois nos países conquistados é possível pilhar as obras de arte e os cofres cheios de ouro dos reinos, dos principados e das cidades".
Para executar a tarefa, ninguém mais promissor do que Napoleão. Em 2 de março de 1796 ele é nomeado general chefe do exército da Itália. Um mês depois, ele já está lá, em guerra. Vence três batalhas sucessivas (Montenotte, Millesimo, Mondovi) e se dirige a Turim.
Os Diretores escrevem à Bonaparte: "Não seria possível recolher os tesouros imensos que a superstição acumula nos conventos há quinze séculos? Eles são avaliados em dez milhões de libras esterlinas. Fareis uma operação financeira admirável que prejudicaria apenas alguns monges".
O jovem general não hesitou. "Sois o herói de toda a França", repetem-lhe os Diretores. Napoleão negocia com o rei do Piemonte, que cede a Savoia e Nice à França e lhe paga uma polpuda indenização de três milhões, e mais um armistício é assinado com o duque de Parma, ao custo de dois milhões de liras e vinte dos seus melhores quadros.
Enquanto isso, na França, o povo passa fome. Os políticos são mal vistos. A idolatria popular por Bonaparte, cujos sucessos são divulgados, começa a preocupá-los.
O corso fizera uma entrada triunfal em Milão, em 15 de maio. "Viva Buonaparte il liberatore dell'Italia", gritara a multidão. Enquanto isso, ele escreve ao Diretório: "Coloco à disposição do Diretoria dois milhões de jóias e barras de prata, mais oitenta quadros, obras-primas dos mestres italianos. E os Diretores podem contar com uma dezena de milhões a mais".
Felizes com o dinheiro, mas preocupados com o tamanho de Napoleão, os Diretores ordenam que ele ataque o centro e o sul da Itália - quanto mais longe e ocupado, melhor. Ele se recusa e oferece sua demissão. E quem aceitaria? No way. Napoleão já está dando as cartas.
O corso subjuga o Papa e recebe dele 21 milhões, cem obras de arte e quinhentos manuscritos, além do acordo de passagem livre para o exército francês e do fechamento dos portos aos navios ingleses. Em Paris, Napoleão é aclamado. A descrição das suas glórias fazem dele um ídolo popular.
E um fator com o qual os homens do Diretório não contavam era com sua habilidade política. As vitórias militares eram o ponto de partida de onde Bonaparte exercia um poder crescente - sobre os reinos conquistados, sobre os reis derrotados e sobre a opinião pública francesa.
Ao mesmo tempo em que envia riquezas a Paris, ignora as ordens do Diretório e mantém todo o poder sobre as tropas sob seu comando. Dá ordens ao Imperador da Áustria: "A Europa quer paz, esta guerra desastrosa já dura tempo demais". Mas é ele quem leva a guerra, aonde quer que vá.
Em Bologna, os italianos o celebram como libertador e unificador da Itália. Diante de exércitos austríacos duas vezes mais numerosos que o seu, avança se mantendo na linha de tiro, insuflando seus soldados, e vence. Como frisa Gallo, "Napoleão é o senhor da Itália do Norte".
Desdenha das ordens do Diretório e discursa à tropa: "Soldados, alcançaste a vitória em quatorze batalhas seguidas e setenta combates! Fizestes mais de cem mil prisioneiros, tomaste ao inimigo quinhentos canhões, dois mil de grande calibre". E não esquece do butim: "Enriqueceste o Museu de Paris com mais de trezentas obras-primas da antiga e da nova Itália".
O Luís XVIII - ao qual me referi uns quinze curtos parágrafos atrás - permanece como um ariete dos monarquistas. Em 10 de março de 1797, ele se diz no segundo ano de seu reinado (!) e promete aos franceses "o esquecimento dos erros, das faltas e dos crimes". Mais: diz esperar "da opinião pública um sucesso que somente ela pode tornar sólido e duradouro".
Ou seja, a França estava sob a ação de três poderosos movimentos, no fim do século dezoito: o Diretório republicano revolucionário, que já expurgara boa parte de si mesmo e governava como se rei fosse, o sucessor do rei ele próprio, à frente de exércitos monarquistas, e, como uma sombra, um general carismático, maquiavélico e até então invencível, no comando de exércitos republicanos.
O Diretório temia a onda monarquista. O povo cansara da revolução e das matanças. Agravando a situação, o poder estava vergonhosamente vendido, nas palavras do autor. "Toda a administração é corrompida, venal até o topo do Estado", afirma. Todos os eleitos na primavera de 1797 são monarquistas; um deles, inclusive, é um ex-ministro de Luís XVI, o decapitado.
Bonaparte negocia com a Áustria a entrega de Veneza em troca da Bélgica. O general espera o momento oportuno de voltar à França. Não pretende mais servir seus antigos chefes. Quer mais.
O Conde de Antraigues, que atua como espião, retratara Bonaparte para Luís XVIII, dizendo que "esse gênio destruidor, perverso, querendo ser o senhor e decidido a perecer ou a tornar-se ele, é o símbolo do homem de Estado", escreve. "Naturalmente violento, este homem quer dominar a França e, através da França, a Europa". Era bom de perfil, o conde.
O cerco dos monarquistas à cúpula do poder estava em vias de estrangular o Diretório, que reagiu. Bonaparte envia Augereau, que, em 4 de setembro, invade as Tulherias com doze mil soldados. Deputados, políticos e militares apoiadores de Luís XVIII são presos.
Barras, com o apoio de Napoleão, perpetrara um golpe de Estado. Não houve participação popular. Aos presos que protestaram, foi dito: "O sabre é a lei". Os antigos jacobinos retomam o tom do Ano II: "Não precisamos de provas contras os conspiradores monarquistas". É um vai e vem.
As eleições foram anuladas. Foram demitidos 140 deputados. Jornais são fechados. Opositores são deportados - a "guilhotina seca". São mandados para a Guiana 329 "culpados de traição", sendo que 167 morrerão por lá. Barras, por enquanto, permanece o "Rei da República".
O Diretório nomeia Napoleão como general do exército da Inglaterra, mas ele recusa. "Querem tirar-me da Itália, onde sou mais soberano do que general", diz. "Não sei mais obedecer", avisa. "Provei do comando e não renuncio a ele. E vai além: "Esses advogados de Paris que foram colocados no Diretório não entendem nada de governo, são mentes pequenas".
Para bom entendedor, pingo é letra.
Em 5 de dezembro, Bonaparte chega em Paris. Veio à paisana, passageiro em uma carruagem do correio, e foi direto para casa, na antes denominada rua Chantereine. A rua mudara de nome e passara a se chamar Rue de la Victoire. Sintomático. Há rumores de que o general aspira à ditadura.
"Citoyens", diz Bonaparte, "fico sensibilizado com o ardor que me demonstram". Político, sua modéstia preocupa mais do que tranquiliza o Diretório. "Fiz meu melhor na guerra e meu melhor na paz. Cabe ao Diretório saber tirar proveito, para a felicidade e prosperidade da República".
Além de político, cauteloso. No banquete de 800 talheres servido pelos dois conselhos em sua homenagem ("oitocentos lacaios, 32 maitres, vinho do Cabo, vinho húngaro, carpas do Reno"), Napoleão leva no bolso seu próprio ovo cozido. Terão que se livrar dele de outra maneira.
Oferecem a ele a glória da conquista do Egito. Teria "apenas" que atravessar o Mediterrâneo, escapando à frota inglesa. Mesmo sabendo que é uma armadilha, aceita. Parte em 5 de março de 1798. Porém, como frisa Gallo, "Bonaparte não é tolo". A partida lhe conviria, "pois ele não quer se envolver em outro golpe de Estado, com o qual, adivinha ele, sonham os Diretores".
Impõe condições; e é atendido. Levou os generais, sábios e artistas que quis, além de trinta mil soldados, três mil cavaleiros, cem peças de artilharia e nove milhões para as despesas.
Enquanto isso, o Diretório, temendo perder as eleições, decreta que os deputados não reeleitos é quem verificarão a idoneidade dos eleitos - logicamente, declarando inelegíveis todos que não lhes convêm (se os congressistas brasileiros lerem isso, vão querer implementar, ehm?).
Os Quinhentos e os Anciãos validam as eleições em 48 dos 96 departamentos; nos demais, as eleições são anuladas. O novo golpe de Estado de 11 de maio de 1798 exclui 104 deputados. Novas eleições são realizadas no ano seguinte, com mais derrotas e mais manobras.
A Revolução Francesa, o grande evento que ecoará nos quatro quadrantes do mundo ao longo dos séculos seguintes, implode na sucessão ininterrupta de puxadas de tapete e condenações à morte. A França é territorialmente enorme e os monarquistas nunca se conformaram com as decisões tomadas em Paris. A Revolução faz água por todos os costados.
"Os chouans tomaram Le Mans, os monarquistas cercam Toulouse", escreve o autor, dando destaque aos "desertores que se recusam a curvar-se à lei que cria o serviço militar obrigatório, tornando-se salteadores, ladrões, bandidos". Vai além, afirmando que "o país rejeita o Diretório, que acaba de criar novas taxas porque o Tesouro Público precisa de cem milhões".
Por tudo isso, Barras e o Diretório, com medo da revolta monarquista, com apoio dos anarquistas, votam a lei dos reféns, que faz temer um retorno da lei dos suspeitos, do Terror.
"Nobres, parentes de emigrados, ascendentes de suspeitos serão presos como reféns", explica Gallo, "à espera da prisão dos autores de atentados, rebeliões, assassinatos políticos".
Os jacobinos, que lideraram a execução de milhares, são perseguidos pela turba, nas cidades, nos campos. Em Nápoles, os "patriotas" são enforcados (convém que lulopetistas e bolsonaristas não esqueçam que os "patriotas" em questão são os revolucionários, ou seja, os esquerdistas).
Falta pão e a nação é invadida por muitos buracos, pelos russos, pelos ingleses e pelos austríacos.
A solução para todo este caos está no Egito (pelo menos é o que pensa o populacho e o próprio Bonaparte). No Cairo, ele vive uma situação miserável, com um exército gigantesco, e faminto, ilhado no continente africano. O general resolve fugir sozinho da sua guerra no deserto palestino.
Embora os exércitos franceses comandados por um sem número de outros generais tenham repelidos os avanços hostis nos Países Baixos, na Suíça, no norte da Itália e em outros fronts dentro do território francês, todos anseiam por Bonaparte.
"Desde que ele foi para o Egito é que sofremos nossos desastres", escreve uma testemunha. "Parecia que cada batalha perdida poderia ter sido vencida por ele". Mal comparando, o corso era para os franceses o que por muito tempo o português Jorge Jesus foi para os flamenguistas.
Ou ainda é, sei lá.
A volta de Napoleão, não como general, mas para ocupar um cargo no governo francês, é articulada por dois dos cinco Diretores (Sieyes e Ducos) e por Talleyrand. Os outros três Diretores (Barras, Gohier e Moulin), que tantos golpes aplicaram, pretendem impedir este golpe que lhes tirará o poder.
Bonaparte chega em Paris em 16 de outubro de 1799. É aclamado onde quer que vá. Ele se reúne com os Diretores que o apóiam. O golpe é tramado. Gallo o descreve em minúcias.
Os Anciãos denunciariam uma conspiração jacobina contra a República, votariam a transferência das assembleias e nomeariam Bonaparte para o comando da força armada. "Sieyès e Ducos pediriam demissão, outros seriam forçados ao mesmo, e um governo provisório seria constituído", diz.
O corso seria nomeado membro deste governo e os Quinhentos aceitariam o fato consumado. Napoleão exige que sejam apenas três cônsules - ele e os dois golpistas. Mas lógico que ele seria "O" cônsul.
Os que são contra o golpe não têm o que têm Bonaparte: o apoio do exército. Sessenta generais o cercam, e gritam "Viva o Libertador!". O poder é passado dos Diretores a Napoleão; que não aceita, porém, assumi-lo como um golpista, embora o seja. Quer a aprovação dos Quinhentos.
Não pense que a coisa iria se dar assim, na maciota.
Ao entrar na Orangerie, para obter deles sua anuência, Bonaparte é confrontado aos gritos de "Abaixo o ditador!". Um deputado montanhês, Destrem, lhe dá um soco e o acusa de fora da lei. É empurrado, chutado e posto para fora da assembleia aos pontapés. Isso mesmo que você leu.
Expulso do prédio, monta em seu cavalo e conclama os soldados a segui-lo. Tocam os tambores e avançam contra a Orangerie. Os deputados pulam pelas janelas e fogem pelo parque. Não são mortos, mas são caçados: têm que voltar, para votarem a favor de Napoleão.
Já passava da meia-noite, quando os deputados capturados aclamaram o decreto que pôs fim ao Diretório. "O Corpo Legislativo cria uma comissão consular executiva compostas pelos cidadãos Sieyès, Ducos, ex-Diretor, e Bonaparte, geral, que usarão o nome de Cônsules da República".
Um mês depois, a nova Constituição é apresentada aos franceses, para sua aprovação plebiscitária. Os três cônsules proclamam uma Mensagem ao povo: "Citoyens, la Révolution", dizia, "está fixa nos princípios que lhe deram início: ela acabou".
Em uma década, por falta de pão e de dinheiro, o rei foi decapitado e milhares de outros cidadãos idem. Os políticos que assumiram o poder foram se matando em ondas sucessivas. O pão e o dinheiro continuaram faltando, o que abriu espaço para que um general audacioso roubasse aos reinos vizinhos os recursos que faltavam na França.
Este general iria superar o rei que perdeu a cabeça. Se tornaria Imperador e fundaria uma nova dinastia.
Mas aí já é outra história. Esta - a "Revolução Francesa" - acaba aqui.
L&PM Editores, 341 páginas | 4a edição, 2024 | Copyright 2009 | Tradução Júlia da Rosa Simões
Título original: "Révolution Française: Aux Armes, Citoyens! (1793 - 1799)"
Obs.: Este "resumão" faz um sanduíche apressado de um banquete incomparavelmente maior. Querendo entender com a devida profundidade a Revolução, sugiro a leitura destes dois livros de Gallo, complementada pela de muitos outros que a têm por tema principal. Um resumo é só um resumo.

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