"Revolução Francesa: o povo e o rei", por Max Gallo
A Revolução Francesa foi uma carnificina.
Os belos elementos que ela doou à posteridade - La Marseillaise, Liberté, Egalité, Fraternité etc - têm espaço bastante reduzido na sua história prática. Seus protagonistas foram muito mais a guilhotina, os assassinatos e a manipulação do furor das multidões, essa bovina.
Para nós, brasileiros, um rápido - e tosco - paralelo seria o 8 de janeiro, quando uma horda de imbecis invadiu o Congresso e os palácios de Brasília, atacando relógios e poltronas, grafitando estátuas e postando nas próprias redes imagens documentando os crimes idiotas que cometeram.
Pois é. Nossa baderna tupiniquim durou um dia e não matou ninguém. Imagine, porém, que milhares de brasileiros tivessem morrido, com o STF condenando mensalmente centenas de sujeitos à morte, incluindo seus próprios integrantes. Foi mais ou menos assim o período revolucionário.
Só que, pas de doute, muito pior, como nos contam os dois tomos deste "Revolução Francesa".
Inegável que o livro escrito por Max Gallo tenha uma prosódia atípica para um livro de história. Ele é um encadeamento de milhares de frames. Cada frame é um parágrafo. Cada parágrafo, todos curtos, encerra um raciocínio, uma fração da escalada, um desdobramento, uma dor, um fato.
E assim o historiador conduz o leitor, passo a passo, até o cadafalso.
Porque desta maneira termina o primeiro livro: com Luís XVI, ex-rei de França, decapitado.
Gallo escolhe nos contar a história da Revolução sob a ótica do rei. É de dentro das galerias de Versalhes e dos salões das Tulherias que o autor nos traz a dramática história do último rei francês - e de sua esposa soberba e infiel, a austríaca Maria Antonieta.
Todos os demais personagens são vistos da janela do palácio. Solitário, Luís XVI se ressente das atitudes de Necker, Mirabeau, Marat, Danton, Robespierre, Desmoullins e tantos outros.
Decepcionado e confuso, Luís é um sofredor. Sofre por si mesmo, pela família e pela França; sofre com a humilhação que gradativamente é imposta a ele, que deveria estar acima de todos, rei que é por decreto divino. É este soberano em constante conflito que nos é oferecido.
O fato do autor optar por esta abordagem, que privilegia a psique de Luís XVI (que se supunha, repito, eleito por Deus), não distorce os fatos; os humaniza. Gallo prefere o viés da triste história do rei que, ao invés de reinar e ser reverenciado, teve por sina o desrespeito e a guilhotina.
E o mais curioso é que, muito cedo, ele próprio percebeu que a revolução conduziria à sua morte.
Morte esta que foi uma segunda etapa revolucionária. Há um considerável hiato entre os dois momentos-chave da Revolução Francesa, que muitos entulham dentro de um sanduíche só: a Queda da Bastilha e a condenação do Rei à morte. São dois eventos distintos, ainda que interligados.
A Queda da Bastilha aconteceu em 14 de julho de 1789. Já era a revolução. Seu gatilho era a insatisfação popular com o custo de vida, o preço do pão, a boa vida dos nobres - e a manipulação política de tudo isso por parte de alguns dos personagens que citamos acima.
A França era um barril de pólvora.
A política de então se fazia menos de moções e mais de linchamentos. Se você estava "em baixa" e, passando pelas ruas de Paris, um ou outro sans-culottes começasse a apontá-lo e a xingá-lo, daí para você em dez minutos estar com a cabeça espetada na ponta de uma lança bastava um espirro.
Matava-se muito, e a troco de nada. E não estávamos na Idade Média. O Iluminismo (também chamado "Século das Luzes" ou "Século da Razão") já tinha produzido nomes como Jean-Jacques Rousseau, Emanuel Kant, Voltaire etc. A barbárie - em tese - pertencia ao passado.
Mesmo sendo difícil comparar sociedades distantes no tempo e no espaço, Gallo nos traz algumas ordens de grandeza. A França era o país mais populoso da Europa e tinha 28 milhões de habitantes. Era uma nação rural. Os camponeses representavam 82,5% da sociedade. Os burgueses eram 10% e os servos eram 6%. A nobreza representava 1,5% - o que incluía os 130 mil representantes do clero.
Era para reinar sobre este povo que Luís XVI recebera, a contragosto, o mandato divino. Luís gostava de caçar e não era o primeiro na linha sucessória. Como detalha o historiador, Luís não achava que reinaria, não queria reinar e nem estava preparado para.
Mas o destino endereçou a ele a missão de ser o Rei da França. O último deles.
Recebeu um país conturbado e endividado. As muitas guerras tinham drenado os cofres. A arrecadação dos impostos ficava aquém das necessidades da nação. Novos empréstimos eram feitos. O populacho, faminto, protestava. A política fervia. A nobreza era o bode expiatório.
Ainda que não quisesse, casar era um impositivo do cargo. Coube a ele a voluntariosa e esnobe princesa austríaca Maria Antonieta - aquela que passou para a história por conta dos brioches. A frase ("Não têm pão? Comam brioches") provavelmente nunca foi dita, mas pegou.
Não rolou química entre os dois. Na verdade, parece que não rolava nada. Houve enorme dificuldade para a consumação do casamento. As testemunhas dentro do quarto não ajudavam. Elas estavam ali para exercer sua função - testemunhar o defloramento da princesa. Mas, se o negócio já não funciona a contento, pior ainda com um monte de gente cercando.
O vexame saiu do castelo e correu a França. O mundo, aliás. O rei era bom de caçar viado. Era o que fazia desde moleque - ops, desde delfim. Mas naquele novo assunto o buraco era mais embaixo.
Para alívio geral, após alguns meses, enfim, Luís fez o que todos os bons centroavantes fazem na cara do gol: empurrou pra dentro. Quando a rainha engravidou, houve festa em Paris. A dinastia estava salva.
O jovem militar sueco Axel von Fersen, um nobre, amigo próximo da rainha, talvez tenha dado importante contribuição. Vá saber. Próximo da corte e do casal real, Fersen era admitido em Versailles a qualquer tempo e hora, estivesse ou não o rei em casa.
Luís XVI sabia das visitas e não criava problemas. Já tinha os seus.
O rei era influenciável, tímido, mas cônscio que o poder lhe pertencia. A economia e a política eram desafios constantes. A debilidade da primeira e a temperatura da segunda vinham fragilizando seu governo. O povo estava na rua. Ameaçava os nobres. Ameaçava a monarquia.
A princípio cético, Luís, que não era burro, logo percebeu que as instituições francesas estavam em perigo - mas rejeitava enquadrar a si próprio neste contexto. Era o Rei. Recebera o mandato diretamente de Deus. O povo o adorava. Tudo ao redor poderia, sim, desmoronar. Não o Rei.
Na noite de 13 para 14 de julho de 1789, cem mil pessoas se acumularam ao redor do fosso da Bastilha. Não temiam os canhões, que não foram disparados. Mil homens, se pondo à frente dos cem mil, ameaçam atacar. A Bastilha é defendida com 82 inválidos e 32 soldados suíços.
A negociação para uma invasão "pacífica" faz baixar as pontes levadiças. "A Bastilha cede. Promete-se poupar a vida da guarnição. A multidão irrompe. Destruição. Tiros", descreve Gallo.
São 98 os mortos da entrada "pacífica". O administrador da Bastilha, o marquês de Launay, que desde o princípio contemporizava, e mandara baixar as pontes, recebe um golpe de espada, sabe-se lá vindo de onde. O povaréu começa a linchá-lo. É atravessado por golpes de baioneta e feito, literalmente, picadinho ("cortado em pedaços"). Um ajudante de cozinheiro corta sua cabeça.
A cabeça de Launay, espetada num tridente, passeia por Paris, cumprimentando as estátuas. Ela vai se juntar a outras cabeças. Quem ainda mantém a sua no lugar de nascença, como o livreiro Ruault, escreve que "a jornada de terça-feira matou o poder do rei. Ei-lo à mercê do povo por ter seguido os pérfidos conselhos de sua mulher e seu irmão, o conde de Artois".
A revolta popular que levou à queda da Bastilha foi um sinal bastante convincente. A Bastilha era a cadeia real. Era onde o poder encarcerava aqueles dos quais não gostava. Pois o povo pôs a Bastilha abaixo. Matou quem se opôs e quem estava pela frente. Uma nova era começava.
A Era do Terror.
Os que colocavam a lenha na fogueira eram os novos astros. Marat, físico, filósofo e ex-médico das cavalariças do conde de Artois, lança o jornal L'Ami du People; Camille Desmoulins publica o seu Les Révolutions de France et de Brabant; Brissot, o Le Patriote Français; Robespierre e Danton, com sua oratória virulenta, alcançavam protagonismo na Assembleia.
Ainda assim, mesmo rechaçando o poder constituído, os revolucionários respeitavam a figura do rei. Acreditava-se possível a derrubada da nobreza e a manutenção do rei. Ele próprio se escorava nessa ideia. Cria que seu status seria mantido na nova ordem. Outros suspeitavam que não.
O regime feudal é abolido. A Assembleia proclama a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. É o espírito das luzes. "Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum", prega o texto.
"Quase todos se entusiasmam diante das tábuas da lei da Revolução", ressalva o autor. "A Declaração não é apenas uma arma contra a arbitrariedade do regime monárquico", diz Mirabeau. "Ela tem um caráter universal", completa. Barnave aplaude: "A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão é o nosso catecismo nacional".
No meio dessa barafunda, a Revolução não extinguira a monarquia; apenas a limitara. Partidários de um e outro lado esticavam a corda. O Rei pleiteava um direito de veto aos novos decretos (instrumento político ativo até os dias de hoje; o presidente do Brasil faz uso dele para vetar as leis que não lhe agradam, cabendo ao Congresso derrubar, ou não, o veto).
A Assembleia ferve. Deputados monarquianos e patriotas. Separam-se, respectivamente, em "direita" e "esquerda", a favor e contra o veto. Direita e esquerda eram os dois lados da Assembleia. Se tornou uma simbologia permanente. Nesta sua origem, a direita monárquica ganhou. Os patriotas - ou seja, a esquerda - perderam.
Esquerda e direita continuaram se confundindo através dos tempos.
A vitória pontual do rei não seria longeva, como sabemos. E, na verdade, ele aparentava acatar os dispositivos da Revolução sem, na verdade, os aceitar. Se a Assembleia Nacional o proclamou "Restaurador da Liberdade Francesa", ele, às escondidas, escrevia ao bispo de Arles:
"Jamais consentirei no despojamento de meu clero, de minha nobreza...", registrou, na manhã seguinte à votação. "Não darei minha sanção a decretos que os despojem".
A fome e a escassez, porém, continuavam. A revolta popular não esmorecia. Nada ali era tranquilo. "Em torno do rei, conheceram-se momentos de pânico, discutiram-se planos de fuga", afirma Gallo. "Mas Luís recusou-os, murmurando que não poderia ser um 'rei fugitivo".
O povo rumou para o castelo de Versalhes. Passam por cima da guarda. Invadem o palácio. Maria Antonieta é o principal alvo. "Queremos cortar sua cabeça, arrancar seu coração, despedaçar seu fígado", gritam os manifestantes. Soldados têm as cabeças cortadas. O rei vai para a sacada, na tentativa de acalmar a turba. O povo o escuta. O rei promete que irá a Paris.
"A uma hora dessa terça-feira, 6 de outubro de 1789, o cortejo de mais de trinta mil homens e mulheres parte na direção de Paris". A família real segue na carruagem. Charretes de trigo e farinha são confiscadas pelo povo.
"Trazemos o padeiro, a padeira e o pequeno ajudante de padaria", cantam. O povo que escolta a carruagem xinga a rainha. As cabeças dos soldados degolados, presas na ponta das lanças, ganham perucas. O povo as brande nas janelas da carruagem, na cara de Maria Antonieta.
No dia 10 de outubro, na Assembleia, um deputado do Terceiro Estado de Paris, o doutor Guillotin, propõe uma nova maneira de execução da pena capital, uma máquina eficaz, que cortaria o pescoço dos condenados "segundo o princípio da igualdade". O deputado deu nome à engenhoca. Guilhotina.
Taí uma coisa que iria ser bem usada nos anos seguintes, seja para tirar a cabeça dos outros ou para perder a própria.
Assim, se durante muito tempo Luís XVI recusou a ideia de uma fuga, a escalada dos acontecimentos pós-queda da Bastilha lhe fizeram ver que ele e a família real corriam perigo. "É preciso fugir, então, como deseja Maria Antonieta, mas Luís se censura por colocar em perigo seus filhos", diz o autor. Marat convoca o povo para exercer uma estrita vigilância sobre a família real.
"Cidadãos, armai-vos de machados e lanças; muita iluminação por três dias, intensa guarda em torno do castelo das Tulherias. Parai todos os veículos que queiram sair de Paris", conclama.
O rei resolve ir com a família ao castelo de Saint Cloud. A carruagem é abordada, as rédeas dos cavalos são tomadas. Os guardas nacionais impedem sua saída. O povo cerca a carruagem por uma hora e meia. Luís XVI desce e se conforma: "Não sou livre? Não posso sair? Muito bem, ficarei!"
Foi a gota dágua. O rei decide fugir. Cartas são enviadas para a Bélgica e para a Áustria. À meia-noite e dez da terça feira, 21 de junho de 1791, Luís XVI, vestido como uma criado de quarto, embarca em uma citadina (um uber da época...), dirigida pelo conde Fersen, o sueco amante da rainha.
Era mais um "uber black", estofado em veludo e com "vasos para necessidades". Certamente os vasos iam sacolejando e respingando. Este seria o menor dos problemas. O que pegava era que já estavam com três horas de atraso em relação ao esquema previsto. Em Montmédy, na fronteira com a Bélgica, dez mil soldados austríacos estavam à espera da família real.
E como às sete horas da manhã fora dado o alarme de que o rei fugira, já estavam em seu encalço. A fuga era inequívoca, pois o rei deixara uma declaração ao povo, se queixando de sua situação. La Fayette diz que o rei fora raptado (o que aliviaria a barra de Luís XVI, se capturado).
Com quatro horas de atraso, a família real é cercada por uma barricada em Varennes-en-Argonne. Os mensageiros de La Fayette apresentam ao rei o decreto ordenando seu retorno à Paris, onde desembarcam, cinco dias depois. A multidão insulta a rainha, quando ela desce da carruagem.
Os "Abaixo a austríaca" derivam para "maldita" e "vadia". Gallo conta que "naquela manhã, ao tirar sua boina na frente da criadas, esta constatará que os cabelos de Maria Antonieta tinham se tornado completamente brancos, como se os de uma mulher de setenta anos".
O autor endossa, entretanto, que "o rei continua sendo rei: fora apenas afastado". A política continua fazendo possível acreditar em todas as alternativas; o poder real poderia ser restituído. Ou não. Mas a "opinião pública" se expressava diariamente
"Imbecil! Porco! Pérfido! Covarde!" grita o populacho para o rei, quando ele se aproximava de uma janela do palácio. Não ficava por aí. Segundo Gallo, o rei era "ameaçado de ser sangrado, desmembrado, de ter o coração devorado".
Com a rainha seguiam na mesma toada. Chamavam-na de "a vadia Toninha" ou a austríaca que é preciso "açoita, esfolar".
Maximilien Robespierre, contido, se atinha ao essencial. "A rainha não passa de uma cidadã", afirmou, "e o rei, na qualidade de primeiro funcionário do reino, está submetido às leis". Enquanto na Assembleia Pétion o dizia um "monstro" e Vadé "um bandido coroado", Robespierre, cauteloso, se recusa a assinar a petição que exigia a deposição do rei.
A nova constituição, em que o rei não o é mais por direito divino, mas permanece rei, é assinada. Luís não é mais prisioneiro. Os envolvidos na sua fuga (o "rapto") são perdoados. Diz-se que a revolução chegou ao fim. Não é o que pensa Robespierre.
A Assembleia estava, como o país, dividida. Amedrontados, oitenta mil nobres haviam deixado a França. Em Paris, dos seiscentos mil habitantes, cem mil eram pobres e tinham fome. Dizia-se que "cem mil armas simples e fáceis de manejar" foram distribuídas aos cidadãos.
Falta comida nas províncias. Nos campos, as colheitas foram medíocres. Carruagens são pilhadas, padarias são saqueadas. Os comboios de grãos que cruzam a cidade são pilhados. O prefeito, Simoneau, que vai às ruas com um destacamento para tentar garantir a ordem, é assassinado.
Enquanto isso, o conde Fersen - sempre ele - chega clandestino à capital. Diz à Luís e Antonieta que o rei da Prússia, Frederico Guilherme II, prepara com o duque de Brunswick uma ofensiva militar a Paris. Luís topa o plano. Em miúdos, o rei da França, no trono, anseia para que os estrangeiros derrotem a França no campo de batalha, para que ele, rei, recupere seu poder monárquico.
Conta Gallo que Maria Antonieta não tinha escrúpulos com a situação; mas que Luís se doía. Afinal de contas, ele estaria se aliando aos inimigos da França. Pois é. Por outro lado, seus súditos são seus algozes e carcereiros. Uma sinuca de bico - mas, a bem da verdade, o rei nem taco tinha.
O povo cotidianamente o insultava e ameaçava. O procurador do Sena, Pierer Roederer, escreveu: "O trono ainda está de pé, mas o povo sentou nele e tirou suas medidas". Segundo Gallo, Luís "em momento algum temeu aquela multidão cheia de ódio, mas sabe que ela um dia o matará".
O rei passou a usar um colete "à prova de balas" rudimentar, composto de quinze camadas de tecido. A ideia foi da esposa, que temia que o apunhalassem. Maria Antonieta avalia o marido:
"O rei não é um covarde", diz ela; "Tem uma imensa coragem passiva... Ele tem medo do comando e teme acima de tudo ter que falar aos homens reunidos... Nas circunstâncias em que nos encontramos, algumas palavras bem articuladas, dirigidas aos parisienses que lhe são devotados, centuplicariam as forças de nosso partido", afirma. "Ele não as dirá".
Paris, amotinada, ainda assim é multiforme. Ao mesmo tempo em que há conflitos pelas ruas, a vida segue normal, as peças estão em cartaz, concertos têm lugares esgotados. De Marselha chegam mais revoltosos armados, cantando "Às armas, cidadãos! Formai vossos batalhões". Vieram cantando pelas estradas. Definitivamente, a música pegou. "Se espalha como um rastilho de pólvora".
Luís vê a situação escalar. Corre o boato de que tropas prussianas e o exército dos príncipes invadiriam Paris e supliciariam os patriotas. Um manifesto defendendo a monarquia é publicado, assinado pelo Duque de Brunswick - um general prussiano. É como querer apagar o fogo com gasolina.
Os 745 deputados da Assembleia irão se reunir em 10 de agosto de 1792 para decidir, ou não, pela deposição do rei - concluindo a jornada revolucionária iniciada em 14 de julho de 1789. A Assembleia não quer depor o rei, mas o povo o exige. Cerca o castelo das Tulherias, e o combate com a guarda suíça do rei leva a centenas de mortes. Um massacre hediondo.
Um jovem militar de 23 anos observa a cena da sua janela e depois da refrega percorre o campo de batalha. "Os feridos são assassinados", diz. "Vi mulheres bem-vestidas chegarem às piores indecências sobre os cadáveres dos suíços. Elas mutilavam os soldados mortos e depois brandiam seus sexos ensanguentados. Vil canalha!", se exaspera.
O jovem acusa o que considerou uma covardia de Luís XVI. "Se o rei tivesse se mostrado a cavalo, a vitória seria sua". Este militar, corso, falava francês com sotaque. E se chamava Napoleão.
Dos 745 deputados, apenas 285 apareceram para votar. Decidem pela suspensão e reclusão do rei. Por exigência do populacho, será confinado com a família na torre do Templo, sob vigilância severa. Um preso comum, sem luxo ou visitas. Como diz Gallo, "é o ano I da igualdade que começa".
"A jornada do dia 10 de agosto muda todas as ideias dos patriotas", escreve um membro do Clube dos Jacobinos. "Eis-nos recomeçando uma nova Revolução que anula a de 1789. Parece decidido que a realeza será abolida, que será criado um regime republicano democrático. Será mais um encadeamento de males e desgraças dos quais sairemos quando Deus o quiser..."
Seu texto é anônimo. Ninguém, àquela época, gostaria de estar do lado errado. "A Comuna de 10 de agosto começa a fazer uma parte dos habitantes de Paris tremer... os partidários da Revolução se dividem em dois tipos, os de 89 até o dia 10 de agosto exclusive, e aqueles a partir de 10 de agosto, que se dizem patriotas por excelência".
A França está em convulsão. Se Paris condenou o rei, boa parte do país é contra a Revolução. O exército austro-prussiano avança em território francês e conta com vinte mil emigrados.
A chouannerie, insurreição contrarrevolucionária monarquista, domina a Normandia. Na Vendeia, na Bretanha, no Dauphiné, no Norte, no Centro, no Sudoeste, há oposições à revolução de 10 de agosto.
A Assembleia, em 31 de agosto, declara ilegal a Comuna Insurrecional. "Mas a Comuna se recusa a ceder, ela é o poder de fato", escreve o autor. "Ela é a voz do patriotismo que inflama os sans-culottes, pois a pátria está em perigo".
"Uma parte do povo irá até a fronteira, outra cavará trincheiras", exclama Danton, "e a terceira, com lanças, defenderá o interior das cidades..." Empolgada, a juventude se alista para combater os invasores, cantando "Mourir pour la patrie/ Est le sort le plus beau/ Le plus digne d'envie".
Mais uma etapa sangrenta da longa guerra civil se desdobra em Paris. Temendo a chegada dos exércitos estrangeiros que invadem a França para revalidar o poder real, as portas das prisões são abertas. Ladrões e assassinos lutarão contra os invasores; os presos políticos são assassinados de forma bárbara.
"Os carrascos vão tomando o tempo de fazer os sentenciados sofrerem, deleitando-se em ver aqueles homens e mulheres se arrastando, ensanguentados, feridos pela lâmina do sabre antes de serem trespassados", detalha Gallo. "Às vezes enfiam o punho no peito do cadáver e retiram seu coração, levando-o à boca, num simulacro de ingestão canibal".
Os criminosos libertados saem cidade afora, matando, pilhando e roubando. "Paris fica entregue, por quase uma semana, a algumas centenas de assassinos e ladrões", afirma o historiador.
A princesa de Lamballe, amiga da rainha, é morta com selvageria. "Uma mulherzinha vestida de branco", testemunhou um cidadão, "que os carrascos armados com todo tipo de arma abateram".
Descreve Gallo que "sua cabeça é cortada, seu corpo é arrastado, despedaçado e o coração arrancado". Mais: "Espalha-se o rumor de que ela fora grelhada e que um homem a comera".
O povaréu vai até a torre onde está confinada a rainha e exigem que ela venha à janela. Mostram a ela a cabeça decapitada da amiga. "A Comuna Insurrecional chama a turba de o povo soberano".
O tal povo soberano é uma ameaça a todos, incluindo os revolucionários de 14 de julho de 1789; os que não se mostrassem adeptos da Revolução de 10 de agosto de 1792 estavam sob risco de vida.
A encarada entre o exército prussiano monarquista e o exército francês revolucionário se dá na Argonne, no planalto de Valmy, em 20 de setembro. Trocam tiros de canhões. No duelo de artilharias morrem trezentos franceses e quase duzentos prussianos. Um temporal desaba. Os prussianos recuam. A batalha, ganha pela Revolução, passa a se denominar de "A vitória de Valmy".
Em Paris, o povo culpa o rei, encarcerado, pela guerra. Sob o clamor do combate, a Convenção Nacional decreta que a realeza foi abolida da França. O rei, Luís Capeto, é agora um mero prisioneiro.
Na Assembleia, girondinos e montanheses se engalfinham. Robespierre, Marat e Danton, líderes políticos nesse Ano I da República que se inicia, são atacados. Marat é defendido por muitos, enquanto outros querem mandá-lo para a guilhotina.
Teatral, ele toma a tribuna, tira a pistola da cintura e aponta contra a própria testa: "Estou disposto a estourar meus miolos sob os vossos olhos". Os que o condenam arrefecem.
Danton tenta conter o ímpeto assassino da Revolução: "Peço que declarem que a Pátria não está mais em perigo", diz. "O princípio desse perigo era a realeza, que foi abolida", contemporiza. Ao mesmo tempo, surpreende Luís Filipe, filho do ex-duque de Orléans, ao sugerir, no dizer de Gallo, que "aquele regime seria provisório e que a monarquia poderia renascer com um rei saído dos Orléans".
Após as vitórias militares, incluindo a ocupação da Bélgica, aumenta o clamor pelo julgamento do rei prisioneiro. Robespierre é categórico: "Luís deve morrer". Já Marat quer um processo. Os girondinos o apoiam. Encarcerados, o rei e a família são humilhados pelos carcereiros.
Para evitar que o Congresso absolva Luís XVI, Marat propõe o voto por chamada nominal e em voz alta. Danton sabe que "se o rei for colocado em julgamento, estará perdido, pois mesmo supondo que a maioria da Convenção se recuse a condená-lo, a minoria o mandará assassinar".
Danton é presenteado com dois milhões de libras para proteger Luís. Admite, porém, a um emigrado, Théodore Lameth, que sua predisposição a preservar a vida do rei tem um limite. "Expor-me-ei se enxergar uma chance de sucesso", diz, "mas se perder toda esperança, declaro que, por não querer perder minha cabeça junto com a dele, estarei entre aqueles que o condenarão".
A situação real não melhora nada com a descoberta, em 20 de novembro, de um armário de ferro que guardava a correspondência do rei com diversos tiranos e familiares, expondo diversos revolucionários que haviam sido subornados com milhares de libras.
Robespierre não perde a deixa. "Luís denunciou o povo francês como rebelde", exclama, "mas a vitória e o povo decidiram que ele era o único rebelde". Afirma que "ele já foi julgado, está condenado, ou a República não é absoluta". Vai além: "Luís deve morrer porque é preciso que a pátria viva!"
O prisioneiro é avisado que será interrogado e que, a partir daí, não poderá mais ver os seus. Ele é conduzido e, de pé, questionado pela Convenção. Não responde a nada. Sabe que está condenado e que a morte o aguarda. Afirma que "não cabe a uma Assembleia julgar o rei da França".
Três semanas depois, 26 de dezembro, se pronuncia no seu julgamento final. Está calmo. Ao contrário dos deputados, com um lado acusando o outro de terem sido encontrados no "armário de ferro". A votação é marcada para segunda-feira, 14 de janeiro. Luís já sabe seu veredito.
A Convenção declara Luís Capeto culpado de conspiração contra a liberdade pública por 707 votos a zero. Em seguida, em 16 de janeiro, vota-se a questão capital: "Que pena será inflingida a Luís Capeto?"
Robespierre vota pela morte do rei. Danton idem ("Voto pela morte do tirano!"). Filipe Egalité, ex-duque de Orléans, vota pela morte do primo. Marat e Desmoulins também. Mas o placar não foi folgado: 387 regicidas contra 334 contrários.
No dia seguinte, inúmeros deputados contestam a votação da véspera. Faz-se nova votação. Pasme: foram 361 votos pela morte do rei e 360 votos contrários. Luís XVI seria executado por um único voto. Deputados pedem o adiamento da execução (que será rejeitado por 380 votos a 310)
Qualquer manobra política estava fadada ao fracasso. Os sans-culottes, armados de lanças, cercam a Assembleia. "Berram com todas as suas forças que se Luís XVI não for condenado à morte, eles mesmos irão assassiná-lo", escreve Gallo.
Era o fim da linha para a dinastia dos Bourbon, que há trezentos anos ocupava o trono da França. Como frisa Adam Zamoyski em sua biografia de Napoleão, "a Casa de Hanover reinava a Grã-Bretanha havia apenas 86 anos, o mesmo tempo do reinado dos Bourbon na Espanha, os reis de Nápoles estavam havia 66 anos no poder, e os Habsburgo tinham se entranhado no poder apenas em 1745".
Não só. "O eleitor de Brandemburgo decidira se chamar rei na Prússia havia menos de cem anos, e o tsar de Moscou virou imperador da Rússia em 1721", completa.
A mais antiga casa monárquica europeia está prestes a desmoronar, com o assassinato revolucionário do rei (os franceses ainda não sabem, mas em sete anos estarão aclamando um novo imperador).
Em Roma, inimigos da Revolução matam um diplomata francês e tentam incendiar o gueto da cidade, acusando os judeus de serem cúmplices da Revolução Francesa. Sempre sobra para os judeus.
Comunicado da decisão, Luís Capeto se diz surpreso com o voto do primo e pede três dias "para se preparar para surgir diante de Deus". Também isso lhe é negado. Será executado no dia seguinte.
A execução se dará na segunda-feira, 21 de janeiro de 1793. Alguém que viria, na posteridade, se tornar gíria e sinônimo de maluco no Rio de Janeiro, o médico Filipe Pinel (que em seu trabalho generoso se dedicou a desacorrentar os loucos e separá-los dos criminosos), escreveu, consternado:
"Para meu grande pesar fui obrigado a assistir à execução, armado, e agora escrevo com o coração cheio de dor". Diz Pinel que muitos gritaram "Viva a nação", mas que um grande número "se retirou, indo derramar lágrimas no seio da sua família".
Luís XVI, ex-rei dos franceses, foi decapitado. A monarquia foi extinta na França.
O jornal montanhês Le Republicain, entusiasmado, registrou, no dia seguinte, que "hoje acabamos de nos convencer que um rei não passa de um homem, e que nenhum homem está acima das leis". Vai adiante: "Povos da Europa! Contemplai os tronos: vereis que não passam de poeira!"
Marat celebra, no Le Publiciste de la République française: "A cabeça do tirano acaba de cair sob o gládio da lei... Finalmente acredito na República... O suplício de Luís é um desses acontecimentos que marcam uma época na história das nações..."
Não terá mais do que seis meses para comemorar. Em breve, uma jovem, de fora de Paris, horrorizada com a escalada do terror, irá surpreender Marat no banho, e enfiar um punhal em seu peito. Mas esta (e muitas outras mortes) ficam para o segundo volume da obra de Gallo.
L&PM Editores, 345 páginas | 3a edição, 2021 | Copyright 2009 | Tradução Júlia da Rosa Simões
Título original: "Révolution Française: Le Peuple et le Roi (1774 - 1793)"

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