"Quem foi Lampião", por Frederico Pernambucano de Mello
Quem espera encontrar aqui uma biografia do Rei do Cangaço vai dar com os burros n'água. A obra, curtinha e em papel couché, é um bom lanche. Se o assunto é a curiosidade sobre o cangaceiro, porém, adianto que não vai lhe encher a barriga; mas também não deixa o leitor morrer de fome.
Frederico Pernambucano de Mello é provavelmente o maior estudioso vivo da matéria. É PhD não só no que diz respeito a um criminoso específico, mas de toda a história do banditismo no Nordeste. Sua erudição não conhece fronteira e seu texto é sofisticado.
É o que vamos encontrar na obra. Um conhecimento profundo, exposto por um especialista no tema, mas oferecido em quantidade módica - pena - e seleta.
Enfatiza a visão estratégica e a capacidade de liderança de Virgulino Ferreira; sua coragem, sua diplomacia, sua ferocidade; a qualidade do armamento, o acúmulo de capital, o poder de corrupção. E também seu apego pela estética e pela modernidade.
"Nesse mundo de despotismos incríveis, Lampião foi o paroxismo, a demasia, a culminância de tudo", crê. "Não há ficção que lhe chegue às alpercatas. Um super-homem na resistência, uma inteligência calculista e fulgurante, uma coragem ímpar, um carisma eficaz no trato social, uma diplomacia atapetada de seduções para com possíveis aliados, uma vontade de ferro alongada em agulha de bússola exclusiva na orientação moral de toda uma vida. O bem era o que ele queria".
Sobre o vestuário, ressalta a existência de "uma subcultura dentro da cultura sertaneja e que parece ter sido criada para caber numa fotografia, tamanhos os cuidados dos cangaceiros com a estética, com a imponência, com a riqueza e com o fascínio do trajo guerreiro de que se serviam".
"Vinham tão ornamentados e ataviados de cores berrantes (lenços vermelhos, bolotas nos chapéus), que mais pareciam fantasiados para um baile de carnaval", disse Demóstenes Martins de Andrade, ao ver Lampião entrar com sua entourage na cidade baiana de Tucano, em 1928.
Mello vai além e diz que "talvez apenas o cavaleiro medieval europeu ou o samurai oriental possa rivalizar com o nosso capitão de cangaço". Eu ainda incluiria a beleza altiva dos indígenas norte-americanos, que se apropriaram de adereços do inimigo para eternizar a própria estética guerreira.
Quanto à riqueza, que ninguém se engane. Diz Mello que, ao ser emboscado e morto na grota do Angico, Lampião trazia consigo 1.000 contos de réis em dinheiro (para que se tenha um parâmetro, um automóvel importado custava 8 contos) e ao menos cinco quilos de ouro.
O dinheiro, ao fim das contas, era a origem em si do banditismo. As opções de vida no sertão eram muito restritas. Ou o cabra se resignava com a miséria e a humilhação de uma vida correta, ou virava cangaceiro. Um cordel da época dizia assim:
"Pedir esmola hoje em dia/ não é boa profissão/ Então ele deixa a vida/ Segue a pé para o sertão/ Somente pra se vingar/ Vai pedir pra se alistar/ No grupo de Lampião", começa.
"Daquele dia em diante/ Faz tudo que tem vontade / Também não sofre na vida/ O rigor da crueldade/ Já desprezou a sacola/ Deixou de pedir esmola/ Pra fazer barbaridade", desfia.
"Um dia ele vai bater/ Na porta do cidadão/ Aquele que lhe negou/ Algum pedaço de pão/ Desta vez o cavalheiro/ lhe dá almoço e dinheiro/ Tudo que houver precisão", conclui.
Quem gosta de ver no facínora uma espécie de robin hood sertanejo, é porque conhece pouco do perfil do cangaceiro. Roubava sem repartir a riqueza. E era cruel com o povo: quando os macacos mataram seu irmão, também bandido, Lampião se vingou "de forma desusada, sobre um menino de 12 anos e um velho de 96, abatidos com requintes de perversidade em Princesa, na Paraíba".
Era racista, também. O fato de ser um moreno curtido não o impedia de zombar dos pretos.
"Negro não é gente", dizia. "O negro é a imagem do cão", repetia. Certa feita, em Queimadas, na Bahia, em 1929, o meganha pernambucano estranhou que todos os integrantes da comarca local fossem pretos. Cuspiu de lado (dizendo entredentes "que terra desgraçada, onde toda justiça é negra...") e ordenou que a juiz de Direito lhe servisse um copo dágua.
Outra imagem romantizada do cangaço é a das mulheres cangaceiras, como Maria Bonita e Dadá. Explica Mello que somente na etapa final do cangaço as mulheres foram admitidas. Nessa época, Lampião se locomovia menos, subornava mais e trocava pouco tiro.
O ambiente era duro - "por suposição de adultério, Lídia e Lili foram mortas por seus amantes, José Baiano e Moita Braba, sem oposição dos companheiros e com as bençãos de Lampião".
Selvagem, eu diria. Após a morte de seus parceiros, Rosinha e Cristina, viúvas de cangaceiros e encalhadas no bando, quando manifestaram a intenção de voltar para a casa dos pais, foram executadas sumariamente, a punhal. Eram arquivos ambulantes das práticas do grupo.
O personagem Lampião virou lenda. Para contar melhor que Mello quem foi esse cíclope matador, somente o cordel. Zeloso da qualidade do armamento, seu nome deriva do rifle Luger Parabellum, alemão, que, em meio ao tiroteio, "não deixava de ter clarão/ alumiando/ no modo de um lampião".
Já cantava o cordel "A história de Antônio Silvino", nos idos de 1907, por Francisco das Chagas:
"Como ninguém ignora/ Na minha pátria natal/ Ser cangaceiro é a coisa/ Mais comum e natural/ Por isso herdei de meu pai/ Este costume brutal..."
Editora Stahli Recife, 154 páginas | 1a edição | Copyright 1993

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