"Música Popular Brasileira", de Mario Luiz Thompson

segunda-feira, agosto 28, 2017 Sidney Puterman

Um dos produtos editoriais mais estapafúrdios que eu já vi: "Música Popular Brasileira", de Mario Luiz Thompson, em dois volumes de 31 x 31cm, são seis quilos de papel couché com fotos de músicos conhecidos (com algum texto) e semi-anônimos (sem nada sobre eles a não ser o nome, desconhecido, em negrito), editados pela BemTeVi, numa "realização" da Dançar Marketing e Comunicações, com o selo do Ministério da Cultura. A primeira coisa que me ocorreu foi "Vem cá, isso custou alguma coisa ao contribuinte brasileiro?" (o Brasil nunca nos decepciona). Fui ver e está lá escrito "livro editado e produzido utilizando os beneficios da Lei Rouanet". Ou seja, o negócio deve ter custado uma fortuna (é como uma lista telefônica, só que sem os telefones) e o pagamento foi afanado do bolso do contribuinte. O livro, sem conteúdo, quase um facebook colegial, tem uma diagramação também colegial. Se é que se pode chamar aquilo de diagramação. A capa é assinada pelo celebrado Antonio Peticov. Os mais jovens não sabem, mas nos anos 80 qualquer recepção que se prezasse tinha um poster do Peticov. Eram fotos P&B levemente esmaecidas, com algum elemento arco-írisco. Naquela época, as sete cores não eram ainda a marca da comunidade LGBT. Mas o Peticov zoou com o job. Fez um recorte amador numa foto sem definição, pôs umas linhas coloridas inexpressivas e quase invisíveis como sua "assinatura" e deve ter mandado o seu para o bolso. A foto, que não se prestava nem técnica nem conceitualmente para o trabalho, tinha sido tirada pelo próprio autor - que, pesquisei, é célebre pelo trabalho de fotografar décadas da música brasileira. Bacana. Mas aqui não falo do profissional ou da eventual relevância do registro feito de beltrano ou de sicrano. Falo de um produto editorial pessimamente concebido, preguiçosamente editado e vergonhosamente financiado por dinheiro público. Fosse uma iniciativa privada, dane-se, cada um desperdiça o próprio dinheiro como gosta. Mas não é o caso. A gráfica desta estultice bancada com o seu dinheiro foi a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Fui buscar na internet os autores do duplo calhamaço de papel couchê. Não funcionou. O endereço eletrônico da "realizadora" Dançar já não existe mais. Dançamos, mais uma vez.

BemTeVi / Dançar Marketing e Comunicações, 564 páginas


Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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