"A segunda espada", por Peter Handke

sexta-feira, maio 08, 2026 Sidney Puterman


O desejo do narrador é vingar a mãe. O alvo da vingança seria uma tal jornalista que, em um momento difuso do passado, escreveu algumas barbaridades - segundo ele - e, pior, escolheu a foto da mãe do narrador para ilustrar uma matéria sobre o apoio do povo austríaco aos nazistas.

"Li que minha mãe seria uma entre os milhões de cidadãos da antiga grande 'Monarquia do Danúbio'", diz, "para quem a incorporação da Áustria, que se tornara tão pequena depois da Primeira Guerra Mundial, ao 'Reich alemão' foi causa de alegria e festividades, quer dizer, minha mãe teria sido uma das que se rejubilaram com a anexação da Áustria pelo Reich, teria sido uma seguidora, membro do partido nazista".

Seja qual for sua importância para a trama, esta informação surge quase na metade do livro. Mais precisamente, na página oitenta e três. Até então, o autor se limitara a desfiar banalidades. Pensamentos esparsos sobre a cidade, os caminhos, os vizinhos, os meios de transporte et cetera.

Mas na tal página oitenta e três ele dá azo à sua inconformação.

"Não se tratava simplesmente de uma frase secundária: na mesma página, junto com o artigo, via-se também uma fotomontagem na qual uma imagem muito ampliada da cabeça de minha mãe, que àquela altura tinha dezessete anos de idade, foi acrescentada a uma multidão que gritava 'heil-ou-sei-lá-o-quê' na Heldenplatz ou em algum lugar assim".

O que o narrador chama de "heil-ou-sei-lá-o-quê" nós sabemos bem que é "heil Hitler". Nitidamente ele não fica confortável em ver sua mãe flagrada fazendo, entusiasmada, o heil Hitler, em meio à multidão que saudava a passagem do führer pelas ruas de Viena, depois do Anschluss

A cabeçorra ampliada da mãe doravante irá povoar seus sonhos e devaneios. Mas o fato concreto surgido apenas na metade do livro será mal e mal retomado. Foi uma ilha de três parágrafos em meio a centenas de outros parágrafos que não contam nada, nem vão - nem levam - a lugar nenhum.

Porém, ele que desde o início do seu enigmático texto se auto-intitula um vingador, é nesta página oitenta e três que ele segreda o que havia a ser vingado. A pretexto disso, o que temos são mais impressões comezinhas suas, ociosamente rodando de ônibus pelos subúrbios de Paris.

O fato - e cometo aqui o mais tremendo dos spoilers - é que ele jamais irá vingar ninguém. Apenas destilará sua cantilena monótona páginas afora. Mas, dando o spoiler, eu me vingo dele.

Ele, um escritor ganhador do Prêmio Nobel, não se constrange em fazer do tempo do leitor o seu quintal. Joga ali as tralhas que quer, do jeito que lhe agrada. Sua estória é acéfala, seus personagens são anônimos. A responsável pela matéria jornalística que o atingiu não tem nome. Praticamente nada, nem ninguém, tem nome no livro. Mas houve um certo dia, porém, em que ela o respondeu.

"Nunca a tinha encontrado antes e assim também continuou a ser depois daquilo que eu chamava 'o crime", revela. "Ainda que junto àquilo que ela escrevera na época, publicou-se uma fotografia, eu não dispunha de nenhuma imagem dela".

Não pense o leitor ingênuo, ou otimista, que alguma coisa irá mudar depois da tal resposta.

"Já desde antes da leitura, eu não imaginava nenhum rosto à minha frente e isso tampouco mudou depois da leitura", esclarece (ou não). "Um reconhecimento, indefinido e indefinível, acontecia apenas quando eu tirava os óculos, o que embaçava os traços do retrato da autora do artigo."

Como Peter Handke - o autor do livro - em momento algum é muito preciso, não sabemos muito bem como se dá a relação (ou não) entre os dois. O ofendido e a ofensora. Com ou sem óculos.

"Por outro lado, havia tempo que eu tinha seu endereço", confessa. "Anos depois de cometer aquele ato, eu tinha recebido uma carta dela. É quase impossível dizer qual era o assunto da carta e menos ainda dizer algo sobre o seu conteúdo". Ou seja, a carta era um espelho do livro, no qual o assunto é vago e o conteúdo é poroso.

"Seja como for, não havia qualquer palavra a respeito da agressão contra mim - que, aliás, pouco tinha me interessado e muito menos atingido; e sobretudo nenhuma palavra a respeito da ofensa que de maneira tão secundária, como que de passagem, tinha sido cometida contra a memória da minha santa mãe".

Embora eu me exaspere com o texto de Handke, fora de dúvida que ele domina o ofício da escrita. E eu, ao selecionar os raros trechos que parecem unir lé com cré, acabo criando a falsa impressão de que o livro é, em alguma medida, sensato ou aprazível. Não, não é. 

"Agora, durante a viagem de bonde, ao tentar me lembrar daquela carta que talvez estivesse mesmo sendo esperada por mim, muito embora eu estivesse à espera de uma carta totalmente diferente, pareceu-me ('ocorreu-me') que aquela carta, através de desvios corteses, fosse um convite para um debate amistoso e público, a distância e por escrito, e que de maneira 'privada' ela também 'simpatizava' comigo".

Apesar de um tanto evasivo, nestes trechos, estes são um dos poucos em que aquele que é, em tese, o leitmotif do livro é diretamente (ou quase) abordado. No mais, somos levados para circunlóquios sobre os mais diferentes temas que povoam a paisagem e as memórias do narrador.

Ele reclama que os tios, que não conheceu, tenham sido "forçados ao serviço militar do grande Reich na Rússia", onde teriam sido mortos. Diz também que certa vez recebeu uma carta anônima, "com a ameaça de matar meu filho". Foi sua única menção a um filho.

A ameaça teria a ver com "os seis milhões de judeus que foram mortos pelos meus antepassados".

Que fique claro que estas referências a circunstâncias históricas estavam soltas em meio a frases gasosas. Eu as catei e uni aqui, como quem garimpa pedrinhas na água do rio e crê que achou algo de valor. Mas aqui é tudo quimera, ganga, cascalho. Bijuteria, no melhor dos casos.

Inquestionável que a orelha do livro é sincera. "Um exercício de escrita, uma introspecção no ofício", abre a orelha, honesta. "Peter Handke permanece fiel a si mesmo numa balada ao redor do seu terreiro nos arrabaldes parisienses. É nessas cercanias que o vencedor do Prêmio Nobel de 2019 consegue dar as mais longínquas escapadas reais e imaginárias".

Eu disse. O que eu não fiz (e devia ter feito) foi ter lido antes a orelha com a atenção que ela merecia.

"Leva em sua navegação desde operários no bar local em fim de expediente até questionamentos à família sobre o nazismo", continua. "O que é palpável no mundo à volta do seu subúrbio de escriba? O que sobra do real? De tanto escrever, reeescrever, remexer com as palavras, os enlaces se perdem em meio a uma grande desconfiança perante o existente".

Ah, a literatura! leio e devoro livros desde moleque. Mas suspeito que a literatura não foi feita para mim, ou eu não fui feito para ela. Seus brocados e rococós, que fascinam a tantos com seus brilhos e formatos, descem na minha garganta como um angu encaroçado.

Meu paladar, tosco, não foi adestrado para as iguarias mais finas. Paciência.

Não sabendo exatamente do que se tratava, levei o livro comigo para lê-lo no castelo de Annecy, na Alta Savóia. Sabia que lá havia uma amurada de onde se via a cidade velha e também o lago. Diz a wikipedia que é o segundo maior lago da França, formado, 18.000 anos atrás, pelo degelo alpino.

O castelo, milenar, estava bem preservado. Idem o lago cristalino. Já o livro eu não indicaria a ninguém de quem eu gostasse, e nem mesmo de quem eu não gostasse. Um livro que se destaca por merecer liderar qualquer relação de livros a jamais serem lidos.

Mais não falo, falei até demais. Fica aí a decisão por sua conta.

Editora Estação Liberdade, 176 páginas  |  1a edição, 2022  |  Copyright 2020  | Tradução Luiz Krausz
Título original: "Das zwette Schwert: Eine Maigeschichte"

Obs.: Não obstante, particularmente gostei da menção ao "oito de maio". É o dia do meu aniversário, também conhecido como "hoje". Meu amado tio Werther, ex-pracinha da FEB na Itália, sempre dizia que eu tinha nascido no mais importante dos dias. Esse cara sim merecia o Nobel. Saudades, tio!

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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