"Shakespeare", por Bill Bryson

quinta-feira, maio 01, 2014 Sidney Puterman

Bill Bryson é desses caras que escrevem sobre tudo. Talvez seja desses caras que escrevem bem sobre tudo. Sua concisa biografia sobre Shakespeare é agradável. É bem escrita. Oferece um panorama sobre a vida do autor e escarafuncha algumas das principais questões sobre a existência do biografado, que estudos polêmicos afirmam não ter existido. Antes, porém, desse debate crucial sobre o autor inglês que semana passada completou 450 anos de nascido (ou seja lá quem for que nasceu nesse dia), o que temos é um passeio pela presumida vida do bardo, onde Bryson coloca sua lente de aumento nos pontos que considera mais relevantes. A forma como ele apresenta familiares, colegas e detratores de William nos permite acompanhar, mesmo que superficialmente, seus relacionamentos e trajetória. A Inglaterra da época é também destrinchada, descortinando o cenário político, econômico e sócio-cultural do período, essencial para a correta contextualização da produção shakespereana. O terço final da obra se dedica a uma eventual (e desimportante) homossexualidade de Shakespeare, acrescido de alguns detalhes técnicos do processo de impressão e conservação dos fólios originais. Mas o que dá pertinência ao pequeno livro é a dissertação final, onde ele apresenta as muitas hipóteses que afirmam que Shakespeare não foi Shakespeare, e sim que esse um conhecido era um outro que assinava por ele. Das mais afamadas elocubrações (como a sobre De Vere) às mais inusitadas (entre elas a de Sigmund Freud, que cogitava a sonora existência de um Jacques Pierre, nome cuja pronúncia soa tão próxima da de Shakespeare que nos surpreende e faz sorrir),  ele as visita e demole, tachando finalmente de suprema baboseira as alegações de que o autor teatral William Shakespeare não era o cidadão William Shakespeare. Bill é simultaneamente incisivo e suave; escreve com tal leveza que nos deixa a sensação de interlocutor de um casual bate-papo, sobre alguns temas profundos que sua abordagem torna mais rasos. Para o bem e para o mal. Mas, decerto, ainda que elíptico, um papo legal.

Companhia das Letras, 194 páginas

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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