"O Livro das Mesas", por Victor Hugo

Seu autor é um gigante da literatura mundial. Mesmo quem não leu um único dos seus livros, foi, em algum instante, impactado pela obra de Monsieur Victor Hugo - um gênio assombrado pela paixão. Seus romances, plenos de revelações e passionalidade, poderiam facilmente situá-lo entre os personagens, atribulada que era a sua vida pessoal. Filho de um casamento conturbado e ele próprio protagonista de outro, o escritor foi também um parlamentar combativo e teve agressiva atuação política. Belicosa a tal ponto que, com a chegada de seu desafeto Napoleão III ao poder, Hugo abandonou o país rumo a um exílio de quase duas décadas. Seu endereço de exilado foi inicialmente a pequena ilha de Jersey, onde residiu de 1853 a 1855. Na Cidade-Luz, ao mesmo tempo em que a esfera política estava em ebulição, a alta sociedade francesa experimentava a coqueluche das misteriosas "mesas girantes". Nem de longe se sabia, mas testemunhávamos o início do Espiritismo. Nesta época em que as mesas falavam e que o autor de "Notre-Dame de Paris" deixava a França, seu conterrâneo, o lionês Hippolyte Leon Denizard Rivail,  reunia metodicamente milhares de informações do além para a confecção do Livro dos Espíritos. A obra teve a primeira das suas incontáveis edições em 1857 - e assinada por Allan Kardec, nome de Monsieur Rivail em uma antiga encarnação como druida. Estranhamente, apesar desta contemporaneidade, Patrice Boivin, o canadense de língua francesa que reuniu os textos que compõem O Livro das Mesas, não faz nas mais de 600 páginas da obra uma única menção à Allan Kardec. Deveria. Provável que não o tenha feito por uma (des) crença pessoal e não por desconhecimento de causa - ou talvez nós, brasileiros, pela dimensão do Espiritismo em nosso país, não consigamos digerir a falta de repercussão da Doutrina Espírita em seu próprio idioma de formulação. Surpreso com a omissão, não me restringi ao livro. Fui pesquisar na internet, onde também não encontrei referência de Boivin a Kardec, nem mesmo uma citação en passant em entrevistas sobre a obra (há uma de 10 minutos, hipoteticamente extensa o suficiente para comportar uma menção gentil, disponível no link https://www.youtube.com/watch?v=ZbmaVJ2LheI). Parece que este reconhecimento também não ocorreu da parte de Victor Hugo em relação ao codificador do Espiritismo. É fato que não tenho como afirmar meramente guglando. O tema é vasto e seu cerne remonta no tempo a mais de século e meio. Mas, se Hugo não cita Kardec, o oposto, parece, se deu. No site do CEFE (Centro de Estudos Filosóficos Espíritas), há uma página sobre o autor de "Os Miseráveis" que afirma que Kardec reconhecia Hugo como um "expoente do movimento espírita", tendo incluído uma carta do escritor na Revista Espírita de 1863, onde Hugo se refere à reencarnação. Bem, ainda que a codificação espírita não seja sequer citada em O Livro das Mesas, achei indispensável referenciá-la. O fato é que a comunicação com os Espíritos, na ótica de Victor Hugo, se dá sob uma perspectiva que sempre me interessou: a da personalidade individual anterior e a da erudição. Os espíritos com quem Hugo e os demais participantes das sessões (familiares e amigos próximos) conviviam foram grandes nomes da literatura, do teatro, da cultura e da política de todas as épocas. Mais que isso, estes nomes foram convocados a criar novas obras durante reuniões sobrenaturais que varavam a madrugada. O espírito de William Shakespeare chegou a ditar uma nova peça, durante as sessões na ilha. O rol de sumidades vai de Alexandre, o Grande, passando por Moliére e ousadamente chegando a Jesus e Maomé. Apesar do meu interesse nesta abordagem, o fato é que a mim, espírita, os textos não pareceram legítimos. Não são coerentes com o que sabemos ou supomos da personalidade histórica de cada um. Só para um exemplo mais contundente, as mensagens recebidas como sendo de Jesus Cristo que constam do livro não coadunam em nada com a herança espiritual que Ele nos deixou. Em muitos outros casos, a obsessão pela forma, como nas inusitadas parcerias literárias entre encarnados e desencarnados, soa inadequada demais. E o que falar dos melindres quando um Espírito debochava de uma sugestão de texto de um dos encarnados à mesa? Desconfortável. Boa parte da leitura eu fiz com um pé atrás. A propósito, nisto eu e o compilador da obra, Boivin, concordamos. Ele crê piamente que os textos são do próprio Victor Hugo; a mim também parecem, no mínimo, excessivamente influenciados pelo escritor. Talvez até mesmo por isso ele se sinta bem à vontade para ignorar a existência de Allan Kardec e do Pentateuco, os cinco tomos que trazem o Espiritismo codificado. A doutrina não lhe diz respeito, porque ele supõe, em seu íntimo, que Hugo estivesse enganado quanto à sobrevivência do espírito e, em decorrência, sobre a possibilidade dos mortos se comunicarem com os vivos. Não desconheço que Victor relutou muito antes de aceitar a vida após a morte, sequer como hipótese de trabalho (expressão recorrentemente utilizada por um dos maiores estudiosos da ciência espírita, Hermínio Miranda). O que o fez mudar de ideia foi um texto recebido pela mesa, onde ele reconheceu como verídica uma mensagem da sua querida filha Léopoldine (que havia partido jovem, em um trágico acidente de barco). A partir daí, o autor se tornou fervoroso adepto do Espiritismo e, mais que isso, o principal condutor dos trabalhos espíritas em Jersey. Todas as sessões foram diligentemente registradas em atas, por sua vez reunidas em cadernos, os quais, com a passagem do tempo e seu retorno à França, 18 anos após sua partida, acabaram extraviados. Pela relevância histórica do escritor, entretanto, estes cadernos perdidos ganharam também sua feição lendária, e, com o avanço das décadas, eram vez por outra mencionados e parcialmente transcritos, ainda que não em sua integralidade ou mesmo sendo possível seu cotejamento. Foi a esta tarefa que Patrice inicialmente se dedicou, e que lhe permitiu publicar a obra com seu conteúdo completo. Mais que meritório, pelo destamanho de Hugo na história francesa, e peculiar, pela sua contribuição indireta à história do Espiritismo. De uma certa forma, como se pode acompanhar, por exemplo, na sessão de 3 de julho de 1854, Victor Hugo indagou dos espíritos questões determinantes para uma nova compreensão da imortalidade, ainda que não tenha se dedicado a organizá-las, como fez le professeur Hippolyte Leon em seu hercúleo e incomparável trabalho sob o nome de Allan Kardec. Para Hugo, o espírito que se apresentava como A Ideia assentiu com o resumo espiritual que o próprio escritor havia proposto, como uma condensação do que havia sido dito ao longo de um ano de sessões. Concordou enigmaticamente o Espírito dizendo: "Tu acabas de bater à poterna do castelo sombrio (...). Todas as nossas explicações são chaves de masmorras. Somos os invisíveis porteiros dos astros. Quando abrimos um sol, abrimos uma sombra, quando abrimos o infinito, abrimos uma cela, quando abrimos Deus, abrimos o calabouço. Somos luzes infinitas, iluminamos com as trevas. Afirmamos sem provas e espalhamos a dúvida derramando a verdade. (...) A ignorância, sentinela negra, está sempre pronta para encarcerar o espírito." O recurso semântico das afirmativas antagônicas está presente na maioria dos textos, como neste. Ao mesmo tempo que transborda de beleza gótica, irradia contornos dúbios, sombrios, imprecisos - o oposto da Codificação. Seja lá quanto provenha de Victor Hugo e quanto provenha dos espíritos que assinam os textos psicografados, é inconteste a sedução do seu conteúdo, por um lado, e certa fragilidade das suas afirmações, expostas à luz da Doutrina, por outro. E, ainda que me curve a um inegável primor estético, ele não tem a sutil multiplicidade obrigatoriamente oriunda da pena de tantos e tão diversos autores (nada que nem de longe se ombreie ao seminal Parnaso do Além Túmulo, de Chico Xavier, lançado em 1932) , mesmo que nos restrinjamos somente a uma hipótese secular e mundana. Os textos de Victor Hugo assinados pelos espíritos me deram a impressão de trazerem pouco dos espíritos e muito de Victor Hugo (o que é a razão da obra: o objetivo de Boivin é a recuperação de textos até então parcialmente desconhecidos e não atribuídos ao escritor). Para mim, porém, esta experiência mediúnica de um dos maiores nomes da literatura francesa, resgatada diligentemente por Patrice Boivin, reforça no espírita (como eu) a convicção de que a comunicação entre vivos e mortos não deve buscar o brilho que estes espíritos eventualmente demonstraram em sua passagem sobre a terra - e sim seu emprego atual de mensageiros de um mundo invisível, voluntários em uma causa de resgate dos seus irmãos ignorantes, enfermeiros que, com curativos e padiolas, aplacam nossas dores e nos conduzem por um caminho em que não temos como enxergar. Seja como for, embora não endosse a opção do autor de ignorar o trabalho literalmente enciclopédico de Allan Kardec, há que se aplaudir a relevância do seu esforço de pesquisa e a lanterna com que ilumina uma jóia esquecida de um autor venerado. Mas vou além: enxergo na própria exclusão da Doutrina Espírita nesta obra um testemunho da sua importância histórica. Abriram-se temporariamente as portas que separam os mundos. Os espíritos vieram testemunhar o que havia por trás dos planetas no firmamento. Sua presença foi alvo das mais diversas manifestações, da diversão pueril à ambição intelectual. Apenas uma única pessoa foi capaz de discernir sua relevância, coletar seu conteúdo e estruturar sua disseminação. Nem mesmo um gênio exilado e ocioso, como Victor Hugo, foi capaz de transformar este prêmio em legado. A missão coube a um professor e guarda-livros de Lyon. O mestre Hippolyte Leon tornou à sua encarnação druida para dedicar os 14 anos finais da sua vida material a filtrar, organizar e reescrever as mensagens recebidas, criando os cinco livros que são ciência, filosofia e religião e que são também até hoje o alicerce da Doutrina. Curiosamente, a França não deu grande valor à preciosidade. Foi no Novo Mundo que ela deitou raiz. Fico feliz que a semeadura das verdades espíritas tenha florescido na pátria brasileira. A milenar cultura francesa foi nossa generosa (e imprescindível) barriga de aluguel.

Editora Três Estrelas, 627 páginas

"A verdade vencerá", por Lula

Não vou negar a ninguém: eu me diverti muito com o livro do Lula. Carismático, jocoso, bom improvisador, ele fala de uma forma divertida, a ótica em que ele converte os fatos tem uma graça peculiar. Você pode dizer que a Gabriela Hardt não acha - OK, mas ela tem lá os problemas dela a resolver com ele. O texto principal é uma coleção de opiniões pessoais, verbalizadas em uma entrevista a um grupo de jornalistas amigos. A motivação do livro foi o resultado adverso no julgamento de Porto Alegre. Mais que compreensível. A questão da culpa ou da inocência de Lula no caso do triplex do Guarujá foi uma pauta importante em 2018. Após uma condenação em primeira instância, houve uma decisão colegiada que manteve a condenação e ampliou o prazo de cumprimento de pena. A defesa do ex-presidente contestou o veredito. O próprio Lula, com o apoio da sua abnegada banca de advogados e dos seus colegas de partido, atribuiu a condenação a questões políticas, e não criminais. Hoje, em que se completa exato um ano após o julgamento na segunda instância, todos sabemos os desdobramentos do caso sobre a política nacional. À época, o objetivo era conter os efeitos colaterais adversos e dar um discurso para os seus apoiadores. O livro de Lula, então, se dizendo inocente, tem que ser analisado dentro deste contexto. Entretanto, a obra, publicada em março do ano passado, passou em brancas nuvens. Tenho muitos amigos petistas e defensores do Lula. Mas, ao longo de praticamente um ano, não vi nas suas redes sociais, nem na mídia, uma linha sequer sobre o conteúdo do livro de defesa do Lula. Nada. Ué, ninguém leu? Talvez fosse ingenuidade minha, mas eu achava que mereceria alguma repercussão. Não me conformei. Não tenho nenhuma tese sobre esta indiferença, só que me acirrou o interesse, antecipadamente provocado pelo cunho histórico da circunstância. Será que o livro foi publicado só para constar que havia um livro que defendia a defesa do ex-presidente? E que por isso havia uma expectativa silenciosa de que ninguém deveria lê-lo, por inócuo ou irrelevante? Sei lá. Como acho que todo cidadão brasileiro deve ter direito à ampla defesa, o cidadão de projeção pública deve ter direito a uma defesa pública. Por isso, reitero, ao saber da publicação do livro de defesa do ex-presidente contra os crimes alegadamente cometidos por ele, com um título contundente, remetendo à "verdade", eu me senti na obrigação de reverenciá-la. Sou apaixonado pela verdade e não seria eu que ignoraria sua presença, menos ainda sua vitória. Sem saber ainda o quanto iria me divertir, aguardei a obra com ansiedade. Abri suas páginas pronto para me deparar com um documento sagaz, refutando cada uma das provas apresentadas pela acusação. Mas eu fui singelamente enganado. Não era este o conteúdo da publicação de bela capa. O livro, diferente do que imaginei quando o encomendei, não é uma defesa ou uma linha de raciocínio que conduza à tal "verdade", seja ela de quem for, falsa ou legítima. É um talk-show, um bate-papo, uma performance de stand-up, mais um palanque controlado para o carismático ex-mandatário número um da pátria brasileira repetir auto-elogios e distribuir críticas, deboches e acusações na direção de inimigos e aliados (Lula diz que foi o pessoal que "faz os power point do Fantástico" que, a mando da Globo, fez o power point no qual o procurador do MPF Deltan Dallagnol exibiu o alcance das ações criminosas do acusado). A tal verdade à qual Lula tanto se refere foi zunida para escanteio. Eu estava aberto a argumentos contrários, vai que - mas não nego que pessoalmente já tinha minhas convicções. No caso da cobertura tríplex no Guarujá e do sítio de Atibaia e seus pedalinhos, eu não me achava convencido pela argumentação do ex-presidente Lula e seu exército de advogados (e olha que ele gostava de se fiar no exército do Stédile - a montanha pariu um rato). As acusações eram claras, consistentes e documentadas em provas, testemunhos inúmeros e evidências. Eram corroboradas por contradições do réu e pela estratégia de confronto ostensivo da defesa - o que, para bom entendedor, já denuncia a convicção do próprio time jurídico do acusado sobre a robustez das provas contra o dito cujo. Tal como no famoso caso de Al Capone, que foi preso não pelas dezenas de assassinatos cometidos, mas sim por um pormenor, a sua declaração de renda, Luis Inácio da Silva não foi preso pelo rombo de bilhões da Petrobras, pela fraude bilionária da Sete Brasil, pelo desvio também bilionário dos fundos de pensão, pelos caminhões de dinheiro público repassados a governos e mandatários estrangeiros que agiam em conluio com o Partido dos Trabalhadores, nem pelos milhões "emprestados" a ditaduras africanas, mas sim por algumas centenas de milhares de reais recebidos indevidamente na ocultação de posse de um apartamento tríplex na praia e pelo beneficiamento de um sítio no interior paulista. Ninharia inexpressiva diante do formidando butim subtraído do povo brasileiro por Lula, pelo seu partido e pelo seu governo - e que, imagino, não será jamais recuperado para a nação. Luís Inácio da Silva, entretanto, foi preso, julgado e condenado por crimes menores, condenação ratificada por uma instância superior, onde três desembargadores confirmaram a correção da condenação e ampliaram em um terço a pena a ser cumprida. Assim, voltando à vaca fria, o ex-presidente publicou um livro com o que lhe convinha dizer sobre o espinhoso assunto, e, pelas razões sobejamente acima expostas, me senti compelido a lê-lo e compartilhá-lo. Transcrevo aqui algumas passagens do que foi dito, como um tributo ao pitoresco sindicalista nordestino em quem eu - não nego, ainda que deplore - votei por quatro vezes. Com a palavra, o que o ex-presidente Lula disse à guisa de defesa, ou no lugar dela. Creio mesmo que nunca antes na história dessepaiz um ex-presidente se mostrou tão à vontade. Ouça-mo-lo, pois.

Sobre os governos petistas: "Quando deixei a presidência, duvido que na história da humanidade tenha havido um presidente com tantos pedidos dos empresários para que voltasse." "Se eu sou candidato agora em 2018, se ganho as eleições e faço um bom governo, eu e a Dilma, se não tivesse sofrido o impeachment, nós iríamos para 24 anos de poder." "A possibilidade da reeleição da Dilma em 2014 apavorou-os, porque eles imaginaram que depois disso eu poderia ganhar em 2018 e ser reeleito, e a gente seria o partido mais longevo no governo do país, pelo menos 23 anos." // "Eu tinha a clareza de que 2014 seria o ano para que eu voltasse à Presidência da República. Quando indiquei a Dilma para a eleição de 2010, disseram-me que ela seria uma 'candidata-tampão'. Eu recusei a ideia. A única possibilidade de eu ser candidato era se a Dilma me procurasse e dissesse: 'Lula, eu acho que você deveria voltar a ser candidato.' Como ela nunca me procurou, eu jamais tive coragem de tocar no assunto." "Lembro que uma vez  veio um ministro aqui perguntar: 'Olha, a presidenta esta preocupada se você quer voltar ou não.' Eu falei: 'Não quero voltar coisa nenhuma, ela que tem que decidir se é candidata ou não. Se ela decidir ser candidata a um segundo mandato, tem direito legítimo." // "Ao contrário do pensamento vira-lata, quando a gente construir um bloco na América Latina, seremos uma força econômica no mundo. Temos que pensar grande. Não pensar em termos de um ou dois mandatos." // "O PT e os outros partidos de esquerda precisam escolher como queremos passar para a história. Você passa para a história se for arrojado, se apresentar coisas novas para a sociedade, se despertar sonhos na sociedade, mostrar que é possível fazer. Não dá pra você ficar com o debate apenas ético, achando que isso vai resolver. Resolve nada." // "Um dia chamei o diretor-geral da Polícia Federal e o José Eduardo Cardozo e falei: 'Gente, vocês não podem dar um cargo de delegado para um cidadão, se ele não tiver formação política." // "Eles estão julgando doze anos de PT no governo. Eles querem mostrar que não é possível governar como nós governamos." 


Sobre a imparcialidade do presidente: "Embora você governe para todos, você sempre tem o seu lado." 

Sobre como montar corretamente um ministério"Cada partido que esteve na campanha tem direito a participar do governo, tem direito a indicar um ministro, o ministro tem direito a montar sua equipe." "Eu não posso fazer um concurso para escolher o ministério." "Ah, mas se o fulano de tal roubou, vocês sabia.' Essa história do 'você sabia' é fantástica. Tem pai cujo filho cheira cocaína dentro do quarto e que diz para o vizinho: 'Ah, meu filho está estudando, ele gosta tanto de estudar, você nem imagina.' E o menino tá cheirando coca no quarto. O pai é obrigado a saber? O pai é obrigado a saber se a filha está grávida?" // "Não conheço o caso da Cristiane Brasil, só acho que o ato de você impedir um presidente da República de indicar um ministro é grave. Imagina se a onda pega? Ela não pagou os empregados, foi processada, quantos milhares de empresários não pagam e não acontece nada?" 

Sobre a Dilma: "Tenho uma relação com a Dilma de muita honestidade, muita fidelidade, muito companheirismo. Ela sempre me tratou muito bem." // "O Aloizio Mercadante - em todas as conversas que eu mantinha, as pessoas queixavam-se 100% dele e 101% da Dilma. Eu nunca vi tanta unanimidade, todo mundo reclamava. Cheguei a ponto de dizer para a companheira Dilma: 'Olha, você vai passar para a história como a única presidente que nem os ministros defenderam. Dilma, todos dizem 'você conhece ela, você conhece ela'. Digo pra todos que 'a Dilma vai melhorar, ela vai mudar, tá difícil." // "Não sei explicar; quando eu era presidente, eu gostava do jeito da Dilma, porque ela era dura o necessário; e aí o pessoal vinha reclamar pra mim, eu pegava no colo, dava chamego aqui, carinho aqui." // "Ela chegou a falar para um deputado, brincando: 'Você não entende de política.' O cara tá na Câmara há 48 anos..." // "Quando começou o segundo mandato, eu fui conversar com a Dilma, mostrando que algumas coisas tinham que mudar, fui discutir com ela a Casa Civil, o Ministério da Justiça, o Ministério da Fazenda." // "Havia alguém no governo que tentava mostrar pra Dilma que o segundo mandato dela deveria ser a cara dela. Eu acho que o João Santana teve um papel nessa história de tentar criar uma imagem própria da Dilma, desvinculada do Lula. A Dilma me procurou em Belém, num comício nosso, e me diz: 'Presidente, o senhor sabe que eles estão querendo me desmamar do senhor, mas eu não quero.' Quem eram eles? A coordenação da campanha era o Zé Eduardo Dutra, o Zé Eduardo Cardoso e o Palocci, mais o João Santana, que era o publicitário, e o Gilberto Carvalho." "Na campanha de 2014, eu lembro que houve uma campanha de coordenação, e a ideia que prevalecia no pessoal do governo era de que aquele seria de fato o primeiro mandato da Dilma, e isso deveria ser passado para a sociedade."

Sobre os ministros de Dilma: "Eu não queria que o Padilha fosse o ministro da Saúde, eu queria que ele continuasse como ministro responsável pela articulação politica, porque ele era tudo o que a gente precisava, uma figura simpática, agradável, que se relacionava com todo mundo. Entrou a Ideli Salvatti." "Eu não queria que o Palocci fosse ministro da Casa Civil. Para a Fazenda minha recomendação era o Meirelles. Pelas razões dela, a decisão foi 'eu não quero." // "Falei pra Dilma: 'Compensaria você falar com o Trabuco. Ele tem demonstrado muita lealdade ao seu governo, em todos os artigos que escreve, seria uma surpresa enorme para o tal do mercado.' Ela parecia ter concordado." 

Sobre a política econômica: "A decisão para a economia tem que ser política. Eu quero um cara que execute a decisão política que o governo toma para a economia." // "Se eu pudesse voltar no tempo, eu gostaria de um diploma de economista, gosto de economia." // "E vocês acham que é a taxa Selic que encarece o dinheiro que o povo toma? Fizemos o crédito consignado, para fazer com que o dinheiro chegue na mão do pobre."

Sobre o Poder Judiciário"Se eu perder a confiança no Poder Judiciário preciso parar de ser político e dizer que as coisas neste país só vão se resolver na base de uma revolução." // "Não quero controlar o Poder Judiciário. Não quero que o  Poder Judiciário seja bom para mim. Quando indiquei ministros para o Supremo, não indiquei pensando em fazerem favor para mim. Meu desejo era que eles fossem coerentes com a nossa Constituição." // "Eles me proibirem de concorrer depois daquela decisão do TRF-4 vai ser muito complicado. Eles mexeram com quem não deveriam mexer."

Sobre a Educação: "Este país é tão hipócrita que, antes do meu governo, o ministro da Educação não tinha coragem de receber reitores das universidades! Conte nos dedos os presidentes da República que foram visitar universidades neste país. Qual foi o presidente da República que recebeu reitores? Pois eu, durante oito anos, fazia uma reunião anual com reitores das universidades federais e do IFSP." // "Eu nunca vi no Fernando Henrique Cardoso - nem em outros presidentes, a não ser no Juscelino - interesse em fazer universidades. Eu tinha porque era um compromisso moral meu."

Sobre a segurança: "Nós, democratas do Brasil, brigamos a vida inteira para tirar as Forças Armadas da segurança pública , para ela ser responsabilidade dos estados. Os estados nunca aceitaram intervenção porque a polícia é um espaço de poder. O Pézão não pediu intervenção. Eles é que decidiram fazer intervenção." // "Não existe mais autoridade civil no Rio de Janeiro. A intervenção foi um desrespeito com o Pézão." // "Temos 16 mil quilômetros de fronteira seca quase sem controle." "Um país em que as pessoas assaltam e matam por um celular, por uma jaqueta, por um tênis... isso está muito menos ligado à bandidagem e muito mais ligado à questão socioeconômica. Pobre roubando pobre!" "Num país que assaltam por isso, você acha que é o Exército que vai resolver?" // "O moleque de 14 anos não é um bandido. Ele não é um assassino. Ele pode virar. A criminalidade é maior onde o Estado não existe. A ausência do Estado com políticas públicas é responsável por uma parte dessa meninada que se perde, que morre." // "Eu não tenho as estatísticas aqui pra saber se a criminalidade reduziu nos governos do PT. De qualquer forma, como o combate à criminalidade é de responsabilidade dos governos estaduais, o assunto é complexo."

Sobre a democracia neste país: "No Brasil, lamentavelmente, a democracia não é regra, é exceção. E eu jamais imaginei, depois de 1988, que a gente teria outro golpe. Eles civilizaram o golpe: você faz dentro da lei, constrói a maioria, consegue ganhar a opinião pública, tem a imprensa para prestar o serviço." // "O golpe foi dado para evitar a progressão dos descamisados deste país." // "O golpe foi de uma parte da elite brasileira, do poder econômico brasileiro, aliado ao sistema financeiro, aliado a interesses multinacionais, aliado ao interesse de desmontar o sistema financeiro brasileiro, sobretudo dos bancos públicos, aliado aos interesses de entregar a Petrobras para o capital estrangeiro. E da mídia, que é o carro chefe."

Sobre o Congresso: "Enquanto você não mudar o modelo político do Brasil, qualquer que seja o presidente eleito, o companheiro Guilherme Boulos, o companheiro Ciro Gomes, o Bolsonaro, quem ganhar as eleições vai ver quantos deputados tem e saberá que, para votar uma coisa importante na câmara, precisará de no mínimo 247 votos. Se não tiver, vai ter que buscar. E vai buscar, normalmente, em quem não votou nele. Isso se chama negociação. Foi assim que acabou a 2a Guerra Mundial. Alguém negocia. O que o Stalin queria? O que o Truman queria? O que o Churchill queria? Você negocia." (pelos comentários, espero que o ex-presidente venha aproveitando seu tempo de cadeia para aprimorar seus conhecimentos sobre o período).  Sobre a ética dos partidos:"Você tem que ter partidos ideologicamente bem formados, que sejam dois, três ou quatro, mas você não pode ter 32 partidos políticos. Isso não é sinônimo de democracia. Trinta e dois partidos significam patifaria."  Sobre campanhas: "Na campanha duvido que o cara coloque dinheiro do bolso. Mostre um deputado de qualquer partido politico que tenha vendido seu carro para fazer campanha. Normalmente, ele pediu para alguém. Então, vai levar tempo ainda para a gente moralizar este país." // "Eu, se for candidato, voou tentar aproveitar a campanha para conversar um pouco com o povo sobre a importância do voto proporcional. Não adianta votar num presidente bom, de esquerda, e votar num deputado de direita." Sobre os debates: "No debate, você não tem que responder ao que o cara pergunta, você não tem que falar para o babaca que faz pergunta, tem que falar para o o povo."  


Sobre o PT: "Eu não mando no PT. Nem quero mandar." // "O PT tem uma coisa diferente. No PT, você é respeitado pelo trabalho que faz. Essa é uma cultura que não existe nos outros partidos políticos. Por exemplo, minha posição foi vencida na questão da punição ao Airton Soares, em 1985. Decidiram expulsar ele, a Bete Mendes e o José Eudes, contra a minha vontade. É assim que é o PT . Eu acho isso maravilhoso. Maravilhoso." // "As pessoas querem democracia dentro do PT, mas quando elas se reuniam com o grupinho de trotskistas ali, de maoístas, não tinham nada de democrático." // "O PT deu cidadania à esquerda. A esquerda vivia marginalizada." "O PT não é o fanático. O PT quer ver o jogo jogado. E, se você perceber, todas as coisas mais progressistas que aconteceram neste país do ponto de vista da administração pública começaram com as prefeituras do PT nos anos 1980." // "Vamos aproveitar para tentar politizar um pouco a campanha. Fazer o eleitor ser mais exigente. Quando o cara vota no sacana de direita que depois começa a meter o pau no PT, o cara não tem coragem de dizer em quem votou. É capaz de esquecer duas horas após o voto." "Foi muito dificil criar o PT, não foi tão facil como criar a Rede." // "Eu tenho alertado os companheiros do PT que eles criaram a nave-mãe, que é o power point, para dizer que o PT é uma organização criminosa. O próximo passo será caracterizar o PT como organização criminosa." 

Sobre o Instituto Lula"A Receita multou o Instituto Lula em quase 18 milhões de reais. É um bloqueio mais feroz do aquele que está sendo feito em Cuba há sessenta anos." "O Instituto hoje não recebe um tostão de ninguém, porque a Receita Federal multou a gente em 18 milhões de reais numa operação 'cata-piolho' ." // "Em 1989, Paulo Okamoto era o meu tesoureiro da campanha. Ele foi pedir dinheiro para um empresário, e o cara falou simplesmente: 'Eu não tenho dinheiro.' Passadas as eleições, esse empresário foi à minha casa com 60 mil dólares, verdinhas, e disse: 'Lula, sei que você está devendo e vim te dar uma ajuda.' E eu falei: 'Ó, companheiro, agradeço muito, mas acabou a campanha, não preciso do dinheiro.' O cara: 'Lula, aceita o dinheiro.' Eu disse: 'Não aceito o teu dinheiro. Se você me desse antes, na campanha, eu pegaria. Agora eu não quero mais." // "Era grande a dívida de campanha em 1989. E candidato derrotado não arruma dinheiro nem com parente. Eu fiz aquilo e faço isso sempre, porque quem quer ser candidato a presidente deste país não pode perder o direito de andar de cabeça erguida."

Sobre ele próprio: "Sou só um operário operário. Sou mais que científico, sou só operário." // "Nunca antes na história deste país um presidente foi tão pouco a restaurante como eu."  // "Eu tenho a pretensão de ser o Lulinha Paz e Amor que sempre fui e de passar para a história com a honradez que marcou a minha vida." // "Meu irmão era sindicalista e ficava me enchendo o saco pra eu ir pro sindicato, e eu falava: 'Não fica me enchendo o saco pra eu ir pro sindicato; no sindicato só tem ladrão e pelego." // "Quem quiser ser mais esquerda do que eu vai ser um imbecil, não vai ser um esquerda." // "Se eu fosse culpado, teria que ser preso." // "Pela retidão de comportamento que tive com este país e continuarei tendo, eu não merecia essa fábrica de mentiras que se montou contra mim. Entretanto, como  eu sou da política e acho que todos nós que temos um lado pagamos um preço, estou disposto a pagar o meu." (Sobre a questão da retidão, Antonio Palocci confirmou, em sua delação premiada, que entregou ele próprio dinheiro em espécie ao ex-presidente, fruto de propina paga pela Odebrecht a Lula. Segundo um trecho da delação, os valores eram retirados na Odebrecht por Branislav Kontic, "que levou em diversas oportunidades cerca de trinta, quarenta, cinquenta e oitenta mil reais em espécie para o próprio Lula". A acusação foi corroborada por Carlos Alberto Pocento e Claudio Gouveia, ambos ex-motoristas do ex-ministro Antonio Palocci. De acordo com o depoimento dos dois à Polícia Federal, em 30 de agosto de 2018, houve entrega de valores e de caixas de whisky repletas de dinheiro ao "Barba", que era como Palocci se referia à Lula. As entregas aconteceram no Aeroporto de Brasilia e na sede do Instituto Lula. À época, ainda segundo o relato dos empregados, Palocci ironizava a situação, dizendo que ia entregar o uísque para o Barba, enquanto simultaneamente esfregava o polegar no indicador.) "Não era o Lula pessoalmente que estava sendo julgado. Era o governo que estava sendo julgado. Era a forma e o jeito de governar." // "A mídia abriu guerra contra mim desde que eu nasci." // "Em 1978 eu cunhei uma frase que achei que era o máximo - somente depois de velho percebi que era bobagem. Eu dizia: 'Não gosto de política, não gosto de quem gosta de política." // "Depois que nós criamos o PT, comecei a perceber que o Lulinha, que era o rei do sindicalismo novo, o rei da cocada, virou o demônio." // "Quando fazem uma pesquisa sobre quem foi o melhor presidente da história do Brasil, eu apareço às vezes com 50% e o segundo com 11%. Na pesquisa de popularidade, até o Moro começou a perder, porque a dele era quase 90%." // "A sociedade brasileira é historicamente dividida: 30 a 35% dela vota comigo; mais ou menos o mesmo percentual vota na direita; e 33% das pessoas, mais ou menos, ficam esperando ser convencidas. É esse diferencial que dá o ganho de voto para a gente. A exceção foi em 94 e 98, quando formaram um blocão contra mim como nunca na história do Brasil."

Sobre os filhos: "Eu tinha a obrigação de dar um mínimo de garantias às pessoas que pus no mundo. Então, tive um sonho de garantir que cada filho meu tivesse seu ninho para morar. Eu até podia ter comprado um apartamento para cada um, mas não comprei, dei entrada pra cada um, eles devem ter ficado indignados comigo, mas eu pensei: 'Eles têm que sentir o prazer que é pagar, eles têm que ter responsabilidade.' E eu fico fiscalizando: 'Olha, tá pagando?" // "Peguei parte do dinheiro que ganhei e depositei na previdência privada de cada um dos meus cinco filhos, que não conseguem trabalhar." // "Eu estou com quatro filhos desempregados. O meu filho Fábio, que era dono da PlayTV, estava ganhando da MTV." (Acho que diante desta expansividade do ex-presidente sobre a performance da empresa do filho, vale abrir aspas para um dos sócios do projeto, o publicitário Marco Aurélio Vitale, que dividia o escritório com Jonas Suassuna [proprietário legal do sítio que é atribuído a Lula]  e Fábio Luis, o "Lulinha". Vitale publicou um livro em que descreve os bastidores da sociedade: "Em 2008, o então presidente Lula assinou um decreto que permitia que a Oi comprasse a concorrente Brasil Telecom. Essa divida de gratidão foi paga pela Oi com contratos com o Grupo Gol, que servia de laranja para injetar milhões na Play TV. A Oi, durante 4 anos, colocou 1,2 milhão de reais por mês na Gol. Um contrato era de um portal de voz da Bíblia do Cid Moreira, em que o cliente da Oi ligaria para um número e seria tarifado pelos minutos em que escutaria as mensagens do Cid. A Oi faturava em torno de 150 a 300 reais por mês e pagava R$ 600.000,00 por mês à Gol. O outro contrato previa um serviço de SMS no qual o cliente da Oi recebia mensagens sobre beleza ou emagrecimento. A Gol chegou a divulgar que tinha 8 mil clientes, mas nunca chegou a 100. Por este contrato, a Oi também pagava R$ 600.000,00 por mês." Bem, parece que o desempenho do filho do qual Lula se orgulhava tanto não passaria no exame anti-doping. Voltemos ao entrevistado.)

Sobre suas palestras: "Depois que eu deixei a presidência, resolvi que a melhor forma de viver a minha vida era fazer palestras. Começamos a saber o que era feito pelo mundo. Pelo Kofi Annan, pelo Tony Blair, pelo Clinton, e concluímos que eu ia montar a mesma estrutura que o Clinton montou. O Clinton tinha sido o melhor presidente do século XX e eu tinha sido o melhor presidente do início do século XXI. Esses meninos que trabalham comigo resolveram pensar grande, e eu passei a cobrar 200 mil dólares por palestra. E a enxurrada de palestras era grande, 80% fora do Brasil. E o que os caras que me contratavam queriam? Saber de mim o que fizemos neste país para colocar o Brasil na geopolítica internacional como protagonista. Como foi que acabou a fome, o que foi o crédito consignado. Então, se você pegar o meu discurso, verá que eles têm uma narrativa das coisas que foram feitas neste país." "Depois que terminei a palestra, falei para eles: 'Eu desafio algum de vocês a vir aqui e dizer pra mim qual é o país que, com exceção da China, oferece mais oportunidade de ganhar dinheiro e fazer investimentos que o Brasil.' Aí eu citava quantos quilômetros de rodovia, quantos quilômetros de linhas de transmissão, a Copa do Mundo, as Olimpíadas. Os caras ficavam embasbacados." 

Sobre as Olimpíadas do Rio: "Você acha que foi fácil ganhar a sede das Olimpíadas? Ganhamos por causa da África e da América Latina." Ooops. Lá vou eu atrapalhar o fluxo novamente. Este tema das Olimpíadas é abordado em "Se não fosse o Cabral", de Tom Cardoso, onde abro aspas desta vez para Sergio Cabral, governador do Rio, às vésperas da decisão do COI sobre a cidade escolhida para sediar os Jogos de 2016: "A nossa campanha não irá parar em momento algum. Conseguir as Olimpíadas será conseguir mais investimento para o Rio, que está pronto para sediar os Jogos Olímpicos."  Explica Tom: "Na capital francesa, Cabral costurou o plano que garantiria o 'favoritismo' do Rio. Durante pelo menos quinze encontros no exterior, boa parte deles em Paris, Cabral, Nuzman e Arthur Soares (o "Rei" Arthur, empresário carioca foragido da Lava Jato, atualmente em Miami), teriam acertado os detalhes para pagamento da propina ao senegalês Lamine Diack, presidente da FIA (Federação Internacional de Atletismo). Para influenciar países africanos integrantes do COI a votarem em favor do Rio, Diack teria recebido US$ 2 milhões, pagos pela Matlock CGL, empresa de Arthur Soares." Ratificando o que disse o Lula, ganhamos mesmo por causa da África. 

Sobre sua eventual volta à presidência: "Eu tinha a clareza de que 2014 seria o ano para que eu voltasse à Presidência da República. Quando indiquei a Dilma para a eleição de 2010, disseram-me que ela seria uma 'candidata-tampão'. Eu recusei a ideia. A única possibilidade de eu ser candidato era se a Dilma me procurasse e dissesse: 'Lula, eu acho que você deveria voltar a ser candidato.' Como ela nunca me procurou, eu jamais tive coragem de tocar no assunto." "Vou voltar muito mais maduro. Não vou voltar mais duro, não. Não vou voltar para ficar com raiva, senão é melhor não voltar. Se eu voltar para destilar ódio contra alguém, é melhor não voltar." 

Sobre o tratamento aos presidentes: "Quando fui à China em 2009 o Hu Jintao me colocou numa casa dentro de um parque... nem em filme da Disney eles conseguiriam inventar uma casa maravilhosa como aquela." 

Sobre o seu passado de dificuldades: "Em 1982, quando perdi o Sindicato, perdi as eleições para governador. Descobri que eu não era mais nada. Levantava de manhã, em casa, eu e a Marisa tentando achar moeda, tentando pegar cofre da molecada para achar uma moeda e comprar um cigarro. E nunca ninguém passou lá pra dizer: 'Ô Lula, você tem manteiga? Ô Lula, você tem cigarro? Sei que é assim. Por isso é que eu quero voltar." // "Vou contar duas histórias que eu gosto de contar. Eu morava na Vila Carioca e passava por uma rua que tinha feira. E, naquele tempo, no Brasil, a gente não tinha maçã, era coisa rara. Eu passava por aquela feira e tinha vontade de comer uma maçã daquela... sabe o que é um moleque de 12 anos ter vontade de comer maçã? E, naquele tempo, se roubasse, eu ia correr. Se o cara me pegasse, não ia me bater; ia me levar para a minha mãe e contar o que eu tinha feito. Então, como eu não queria envergonhar minha mãe, ficava olhando, minha boca se enchia de água, eu engolia a água e ia pra casa sem minha maçã." "A outra história é sobre a minha vontade de mascar chiclete americano. Eu conhecia uns caras que compravam aquele chiclete americano e ficavam o dia inteiro mascando e fazendo bola. Nunca pude comprar uma porra daquela! E tinha um tal de Boquita que ficava com o chiclete o dia inteiro na boca. Quando ele ia jogar o chiclete fora, eu pedia para mim, lavava e colocava na boca para fazer bola." 

Sobre o crime que o condenou: "Quando surgiu o primeiro problema do apartamento, fui conversar com alguns advogados, e eles disseram: 'Não, Lula, isso não vai andar. Isso é tão insignificante, tão.... Sabe? Você tem que ter um documento de propriedade. Ninguém pode dizer que o apartamento é teu, se o apartamento não é teu." (O crime pelo qual Luís Inácio da Silva foi condenado é o de ocultação de patrimônio, que é ter a posse, não a oficial, mas a de fato.)  //   "Na primeira audiência, eu disse: 'Ô Moro, você já foi a uma loja comprar sapato com a sua mulher?" // "Eles inventaram uma história macabra. Apareceram com uma empresa offshore que tinha comprado um apartamento no mesmo bloco. A empresa offshore era dona do apartamento que a Globo tinha lá em Paraty e que era dona do helicóptero da Globo." "A Veja, a Isto É, essas revistas são a base de quase todas as investigações. Por exemplo, o apartamento é tudo baseado nas reportagens mentirosas do jornal O Globo." (As reportagens não foram contestadas à época da publicação, apenas mais de um ano após. Sobre o apartamento, não está no livro a chacota feita por ele em março de 2016, quando da sua condução coercitiva para a Polícia Federal, em São Paulo, na 24a fase da Operação Lava Jato: "Um triplex de 215 metros é um triplex Minha Casa Minha Vida." Na delação premiada de Palocci, homologada pelo TRF-4, o ex-ministro afirma ter questionado o ex-presidente sobre por quê não ter pago em dinheiro o triplex, e teria ouvido de resposta de Lula que "um apartamento na praia não cabe na minha biografia.")

Sobre o procurador que o denunciou, Deltan Dallagnol:"Quando apresentou aquele power point, se este fosse um país sério, ele teria sido exonerado a bem do serviço público." "Eu acho que foi a Globo que construiu aquilo para ele, o pessoal que faz power point para o Fantástico." // "Se no processo mais simples os caras me deram doze anos de cadeia, fico pensando nos mais difíceis." 

Sobre não ter fugido: "Se eu tivesse cometido um crime... Como tenho plena consciência da minha inocência, eles vão pagar o preço. Vou fazer a sociedade brasileira discutir os meus processos aqui dentro. Qual é a única coisa que eu tenho? A minha dignidade. É o maior valor que eu tenho. Eles querem prender? prendam, paguem o preço." "Estou fazendo história. Não sei quando ela vai ser contada verdadeiramente, mas estou tentando contribuir, fazer história. É por isso que as pessoas acham: 'Ah, Lula, você poderia ir para uma embaixada, você poderia pedir asilo'. Mas eu vou ficar aqui no Brasil, na minha casa. Se eles quiserem fazer história me prendendo, façam." 

Sobre a mídia: "Eu tinha uma relação cordial com a Bandeirantes, com a Globo, com a Record, com o Silvio Santos, com a Folha. O que quebrou essa relação foi que eles não aceitaram a ascensão social dos oprimidos neste país." // "Vou provar que é possível governar este país sem ler a Folha, sem ler o Estadão, sem ler a Veja, sem ler O Globo." // "Eu criei uma coisa fantástica, criei uma tevê, com orçamento de 350 milhões de reais, o orçamento da Bandeirantes. A TV Brasil não aconteceu porque nós somos republicanos demais, montamos um conselho onde cabia todo mundo; colocamos pessoas sem experiência de televisão para fazer televisão. Em vez de fazer uma coisa nova, juntamos duas coisas velhas e dobramos o número de funcionários." // "No tempo do Mensalão, eu descobri que o circuito para paralisar um governo é assim: na quinta-feira, começa a boataria; na sexta, começam a sair coisas na internet; no sábado, dá no Jornal Nacional; no domingo, vai para a imprensa escrita e, à noite, pro Fantástico. Aí, depois que eles fazem esse genocídio, perdura até a outra quinta, quando começa de novo." // "Esses programas de televisão, tipo Datena, são um incentivo à criminalidade." // "O Tim quem matou foi a Globo! A Globo mandou o cara ir à favela clandestino, quando ele poderia ter comunicado: 'Olha, estou indo ali fazer uma matéria.' Como é que você manda um cara assim? Aí depois ele morre, e você vai culpar os outros?" (Aqui preciso traduzir este texto para um português lógico, porque senão quem ler pode não entender. Vou repetir a frase do Lula sobre a Globo ter 'matado' o Tim Lopes, mas incluindo as informações que faltam: "O repórter investigativo Tim Lopes, que já fora premiado pelas muitas matérias que fizera disfarçado, quem matou foi a Globo! A Globo mandou o cara ir à favela clandestino, quando ele poderia ter comunicado aos criminosos que ele os iria observar clandestinamente: 'Olha, estou indo ali fazer uma matéria.' Como é que você manda um cara assim? Aí depois ele morre, e você vai culpar os assassinos que queimaram ele vivo amarrado dentro de um tubo de pneus [os outros]?")

Sobre a verba destinada para os blogs chapa-branca: "O dinheiro da comunicação era distribuído para trezentos meios e comunicação e passamos para quase 4 mil."  Sobre os movimentos sociais:"Há uma acusação recorrente de que os governos do PT teriam cooptado os movimentos sociais. É uma acusação indigna, do mesmo jeito que se fala que o PT encheu a máquina pública com seus quadros. Mas, se você analisar a história do país, está claro que o PT foi o partido que menos criou cargos de comissão." "O que nós fizemos foi uma política que deixou o movimento social acomodado."  Sobre a reforma agrária: "Em apenas doze anos nós disponibilizamos para a reforma agrária 52% das terras disponibilizadas no Brasil em 500 anos." Sobre as greves: "Fui ao Estadão fazer um piquete e vi um monte de jornalista bonitinha paquerando os caras da Polícia Federal e um monte de empregados do jornal entrando pra trabalhar, com o jornal na mão. Falei: 'Caralho, como é que vocês fazem greve? Tem gente se engraçando com os policiais e ainda tem uma coisa a mais: O  jornal está entrando, os caras estão entrando lendo o jornal!" // "Naquele tempo eu era chamado de 'neopelego', 'muleta da ditadura." // "Lembro que fui a uma greve de jornalistas e acabei com ela."


 Sobre as pessoas que deveriam pensar grande neste país: "As cabeças pensantes da USP não deveriam ser de direita; deveriam ser, pelo menos, brasileiros, nacionalistas, com preocupação com este país."  Sobre o redator das hashtags do partido: "Jamais gostei da expressão 'Eleição sem Lula é fraude'. Porque seria melhor que a gente tivesse trabalhado uma coisa mais positiva: 'Queremos provar a inocência do Lula para que ele seja candidato." Sobre a Odebrecht contratar o seu irmão mais velho: "De repente eu sou colocado como aquele que trabalhou para arranjar emprego de 3 mil reais para o Frei Chico, porque eu tinha feito favor para a Odebrecht. Eu sou um ladrão de merda! Eu precisava ser preso por desmoralizar a corrupção! E o coitado do Frei Chico merecia ganhar 10 mil reais, se fosse para contratar, porque o Frei Chico é um bom sindicalista." "Se em algum momento a Odebrecht precisou contratar o Frei Chico, ela estava contratando um cara que tinha especialidade em movimento sindical."  Sobre a bebida: "Às vezes chegava pra falar às quatro da manhã, a garganta estava seca, tinha que tomar um conhaque Dreher." "Nunca tive vergonha de dizer que bebo. Não escondo que gosto de beber." "Tenho uma garrafa de Romanée-Conti guardada há 20 anos, safra 1961." // "Fiquei nervoso com aquele cara do New York Times quando ele fez aquela matéria sobre o Lula beber, porque eu duvido que um jornalista tenha me visto bêbado alguma vez."  

Sobre os brasileiros: "Porra, se tem uma coisa que o povo gosta é de viver bem." // "O cidadão que não pode consumir não é porra nenhuma." // "O mais grave é a falta de capacidade de indignação da sociedade." // "Sempre achei que era a educação, a escola, que dava consciência política para as pessoas. Porra nenhuma! O que a gente está vendo é um bando de conservadores que não têm coragem de reagir em defesa de seus interesses. O filho destas pessoas não vai ter as mesmas coisas que tinha três anos atrás!"

Sobre como ele imagina ser visto pelos adversários: "Nós temos que acabar com ele. E o que pode acabar com ele? O assunto que eles sempre trabalharam: corrupção."  Sobre o Fernando Henrique: "Antes de eu tomar posse, em 2003, em qualquer reunião de economistas a conversa era: 'O Brasil está quebrado. O Brasil não vai dar certo. O Brasil quebrou duas vezes no governo Fernando Henrique Cardoso." "As críticas que eu tenho ao Fernando Henrique Cardoso são que, como ele esperava o meu fracasso para voltar, não soube lidar com o meu sucesso." "Ele queria que eu ganhasse em 2002, depois passou a torcer pelo meu fracasso." "Fernando Henrique era muito simpático à minha candidatura, fez uma transição extraordinária, civilizada." "O Fernando Henrique Cardoso não soube lidar com meu sucesso." "Os tucanos não tentaram fazer o impeachment em 2005 por medo das ruas." Sobre o Michel Temer: "O Temer está fazendo uma jogada. Está jogando na hipótese de que, se eu não for candidato, o único que está meio consolidado é o Bolsonaro, com o discurso sobre segurança. 'Se eu fizer a intervenção, se eu der uma militarizada nesse problema, posso acabar com o Bolsonaro e aí vou ser o candidato da segurança pública.' Ele pensa: 'Eu posso recuperar a minha imagem.' Foi por isso que o Temer tomou a decisão. E não se assustem se ele fizer o mesmo em outros estados."  Sobre o Brizola: "O Brizola reclamava, em 1998, porque queria ser meu vice. Eu, na verdade, não queria que ele fosse meu vice, queria que ele fosse senador. Ele disse: 'Eu quero ser seu vice. Nós vamos ganhar e vamos reeestatizar todas as empresas privatizadas.' Falei: 'Porra, Brizola, se você falar isso, nós não vamos chegar nem no segundo turno. Essas coisas, Brizola, a gente só faz se não falar. Se a gente falar, a gente não faz."  Sobre o Eduardo Campos: "Se o Eduardo Campos não tivesse atropelado a história, hoje nós não estaríamos discutindo a campanha de Lula. Estaríamos discutindo... o Eduardo Campos seria candidato a presidente da República com apoio do PT." "Eduardo começou a ficar um pouco ressentido, talvez porque a Dilma não desse a ele o tratamento que eu dava." "Se ele não tivesse sido candidato, ele não estaria no avião. Estaria comigo no estúdio, gravando - na hora em que eu soube da noticia de que o avião tinha caído, estava gravando no estúdio."  Sobre o Ciro Gomes: "Eu gosto do Ciro. Só acho que o Ciro faz parte de um grupo seleto de pessoas que sabem tanto das coisas que nem perguntam para a gente 'como vai', porque já sabem como a gente vai." "Eu gosto do Ciro. Acho que ele é uma figura inteligente. Inteligente até certo ponto, porque, se fosse inteligente mesmo, estaria defendendo o PT agora, se acredita mesmo que não vou ser candidato." Sobre o Guilherme Boulos: "Outro dia eu estava discutindo no avião, vindo de Cuba para cá, com o Guilherme Boulos, e ele, entusiasmado, porque tinha falado com o Podemos e não sei das quantas. Eu falei: 'Guilherme, deixa eu te dizer uma coisa, querido. Você sabe a diferença entre o PT e o Podemos? É que  o PT é um ser humano de 38 anos de idade. O Podemos ainda não aprendeu a tirar a fralda. O Guilherme agora está querendo criar o Avante, o Vamos, o Começamos, sei lá."  Sobre o José Dirceu: "Nunca acreditei na história do Mensalão. Eu tinha medo porque, se o Zé Dirceu não tivesse sido preso, poderia ter sido atacado por um fanático em alguma rua aqui de São Paulo e ser morto." (Seis meses depois, Jair Bolsonaro sofreu um atentado a faca, cometido por um ex-filiado ao PSOL, um dos partidos da órbita petista. José Dirceu, então preso, foi solto, e passa bem.) "Acho que o José Dirceu às vezes não cuida da própria imagem." "Não posso ser categórico e dizer se o José Dirceu teve contato com empresário, se pediu dinheiro, se fez alguma coisa. Algumas coisas ele reconhece que fez."  Sobre o Antonio Palocci: "Eu tenho pena do Palocci. Delator só delata porque roubou. Aquele depoimento do Palocci, a carta dele, você percebe que talvez tenham sido até eles [os integrantes da Lava Jato] que escreveram." "O Palocci deve ter gostado de dinheiro. O delator está fazendo delação por duas coisas: ou ele não aguentou e quer a liberdade ou ele tem dinheiro e está negociando uma parte, como fizeram os outros que já delataram. Eu lamento. Fui amigo da mãe do Palocci." "Ninguém esquece o Silvério dos Reis. O traidor também faz história. O Palocci poderia ter feito uma história positiva. Acho que ele fez uma negativa. É assim que caminha a humanidade."  Sobre o Carlos Nuzman: "Por que eles foram fazer coerção na minha casa? É simples, como eles quebraram o sigilo bancário e não acharam nada, pensaram: 'Esse cara deve ter em casa, esse cara deve estar que nem o Nuzman, com barrinha de ouro em casa." "Não quero fazer e nunca fiz prejulgamento de pessoas que foram presas. Nunca quis condenar ninguém."  Sobre o Nem da Rocinha: "Lembro da entrevista de um bandido chamado Nem: 'Meu ídolo é o Lula. Adoro o Lula. Ele foi quem combateu o crime com mais sucesso. Por causa do PAC da Rocinha, cinquenta dos meus homens saíram do tráfico para trabalhar nas obras. Sabe quantos voltaram para o crime? Nenhum. Porque viram que tinha trabalho e futuro na construção civil."  Sobre o Neymar: "Nunca pensei que o Neymar ia chorar por causa de um dedinho. A prensa amassou este meu dedo às duas horas da manhã, e ele ficou esmagado, pendurado na minha mão, e eu não chorei, porra." 

Quer mais? Lê o livro, pô. Sai por menos de 40 merréis na Amazon. A publicação fecha com alguns adendos. Uma coleção de fotos do "autor". Um texto trazendo elogios à Lula. Um texto com um viés pretensamente jurídico, mas focado em atacar e desqualificar os juízes que, em diversas instâncias e contextos, condenaram o réu. Uma cronologia de fatos da vida do ex-presidente. A data derradeira incluída é 24/1/2018 (um ano hoje!), dia da condenação do réu pelo TRF-4 a 12 anos e 1 mês de encarceramento. O livro foi impresso em março de 2018. Em abril o condenado foi preso e está desde então cumprindo pena em uma sala na Policia Federal de Curitiba. O juiz responsável pelo processo original, Sergio Moro, foi convidado em outubro de 2018 pelo então presidente eleito, Jair Bolsonaro, para assumir o Ministério da Justiça. Em sua entrevista coletiva após a aceitação do convite, o hoje ministro foi acusado de parcialidade no julgamento de Luís Inácio da Silva, e que sua ida para o governo do PSL era uma prova disso. Moro rebateu a alegação: "Não posso pautar a minha vida por uma fantasia de perseguição política." Às vésperas da posse do presidente eleito, o PT comunicou que sua bancada não compareceria à cerimônia, em protesto contra a ilegalidade de que foi vítima. Na sua compulsão pelo lançamento de hashtags, o PT lançou a #CadêAProvaContraLula?, sem sucesso. Seu candidato derrotado a presidência, Fernando Haddad, celebrou em matéria de 28/12 no site do PT de que "existe uma chance efetiva da sentença condenatória ser revista pelos cinco ministros da Segunda Turma. A gente quer que o processo seja analisado de acordo com as provas apresentadas. Se tem prova, condena." O comunicado petista justificando a ausência da bancada do PT na posse diz que a "lisura do processo eleitoral de 2018 foi descaracterizada pelo golpe do impeachment de Dilma e pela proibição ilegal da candidatura de Lula." O estranhamento coletivo à decisão do PT aumentou com a ida da sua presidente, Gleise Hoffmann, à mais uma posse polêmica de Nicolás Maduro, na Venezuela. Há alguns dias, um pastor evangélico midiático foi à cadeia e comparou Lula a São Paulo. Não o estado, mas o disseminador do cristianismo. Como se vê, a batalha retórica e judicial está distante de um término. Ontem, Juan Guaidó se auto-declarou presidente encarregado da Venezuela e, juntamente com Estados Unidos e Canadá, a grande maioria dos países latino-americanos reconheceu o novo governo, com o Brasil entre os primeiros a fazê-lo (diretamente de Davos). O impasse no país vizinho é preocupante e pode ter desdobramentos trágicos. A ditadura militar venezuelana, apoiada por Rússia, Turquia, Cuba e pela venal esquerda brasileira, já matou 26 manifestantes apenas nas últimas 24 horas. Torço para que não haja mais vítimas. Não obstante, o nosso tema aqui é Lula e, neste caso, as vítimas somos nós. Sintomaticamente, hoje nosso ex-presidente preso não foi lembrado. Nem nos principais sites financiados pelo petismo, naturalmente verborrágicos, se mencionou Lula nesta quinta, apesar do aniversário da condenação. Sobre o livro que a refuta, muito menos, ninguém falou. Acho que só eu li. Se me acompanhou até aqui, agora você também leu: no mínimo, este resumo que fiz com algumas passagens picarescas. Diante do silêncio da cantilena virtual, o único comentário relevante que me vem à cabeça é o improviso do aliado petista Cid Gomes, batendo boca com a claque lulista: "O Lula tá preso, babaca." Pois é. Isto sim é poder de síntese.

Editora Boitempo, 218 páginas

"Irmãos: uma história do PCC", por Gabriel Feltran

"Irmãos" não é um relato de alcova da vida bandida - como o título poderia sugerir. É um livro sobre negociação e domínio de mercado. Sobre estratégias de liderança e compartilhamento de poder. Sobre um credo, uma seita ou, como o autor prefere, uma loja maçônica. Em suma, é uma obra que pretende mais interpretar a essência e o modus operandi do Primeiro Comando da Capital - o PCC, hoje a maior organização criminosa do país - e menos pormenorizar sua história e seus protagonistas. Nos primeiros dias de 2019, o grupo, aliado a outras facções, vem ostentando seu aparato de violência e praticando seu know-how incendiário contra a população do Ceará. A ação terrorista domina o noticiário e pretende derrubar o novo secretário de Administração Penitenciária. Este, por sua vez, é opositor ferrenho da divisão das cadeias entre as facções, o que levou todas elas a deixarem suas diferenças de lado e unirem-se contra o recém-nomeado secretário linha-dura. Ou seja, a queda de braço no estado cearense, entre o crime e o sistema, continua sem hora para acabar - e é tácito que muitas ações espetaculosas ainda disseminarão pânico entre o resiliente povo local. Para nosso alívio, entretanto, o PCC não aprova a violência gratuita - em tese. Segundo o livro, nenhuma das suas atitudes prescinde de cálculo e sua força provém da execução peculiar do seu conceito de justiça. O autor, Gabriel Feltran, é especialista no tema, tendo já lançado, em 2007, "Fronteiras de tensão: política e violência nas periferias de São Paulo". Entremeado ao seu descritivo sociológico, o pesquisador defende em seu livro teses profundas e paradoxais. A primeira delas é atribuir à política de segurança do governo paulista a criação das condições orgânicas para o surgimento e organização do PCC. No entendimento de Feltran, a estratégia de combate ao crime do Estado de São Paulo, sob o comando do PSDB (que ele não nomeia, mas que, como todos sabemos, é o partido à frente do governo estadual na última década e meia), proporcionou ao mundo do crime as condições ideais para o desenvolvimento do grupo. Sua premissa é a de que a sucessiva construção de novas cadeias para um volume crescente de clientes incrementou a oferta de combatentes para as fileiras do crime; e as leis gradativamente mais rigorosas contra a massa carcerária favoreceram sua união em torno de um dispositivo agregador. A segunda e mais original de suas teses, contraditória em termos, é a de que a expressiva redução no número absoluto de assassinatos no estado, ao longo de mais de dez anos, não é fruto do sucesso da política de combate ao crime do poder público, e sim da normatização da atividade criminal sob a regulação criteriosa do Primeiro Comando. A terceira e última, relativamente trivial nestas plagas, é a consolidação da Organização como um poder paralelo, por seu avanço na substituição do Estado no fornecimento de serviços básicos, como Justiça, Segurança e Assistência Social. Feltran se dedicou a uma extensa e longeva coleta de dados no campo. Tornou-se íntimo de criminosos e seus familiares (a ponto de ter dirigido para a família de um deles quando de uma prisão imprevista). Decodificou o peculiar universo de códigos da periferia e do mundo marginal. De posse desta massa crítica, o autor traça a linha de crescimento da organização, assinalando seu ponto de partida: "O PCC nasceu na cadeia, um ano depois do massacre de Carandiru. Reivindicava a reação à opressão do sistema contra os presos, mas também do preso contra o preso." Segundo Feltran, "a reforma no mundo prisional paulista dos anos 1990 quadruplicou a população carcerária na década seguinte, impulsionada pela equivalência do tráfico de drogas a crime hediondo, que jogou dezenas de milhares de jovens nas cadeias". Colocando as cartas na mesa com base nos números oferecidos pelo pesquisador, no mínimo vinte mil jovens a mais foram presos, ao redor de dez anos, em virtude do endurecimento da legislação. Isto dá dois mil jovens a mais sob encarceramento por ano, ou seja, pelo menos 6 jovens por dia teriam sido presos, todos os dias, sem exceção de nenhum, por 10 anos consecutivos, por conta destas leis mais estritas. É um número importante, que temo não se confirme - o que, estatisticamente, fragilizaria sua tese, ainda que não a negue. Gabriel prossegue afirmando que, em 2001, a mega-rebelião simultânea em 29 presídios paulistas foi uma inequívoca demonstração de força do PCC, contragolpeada pela criação do RDD, o Regime Disciplinar Diferenciado. A partir daí, no ponto de vista do autor, uma espécie de onda de marketing, quase um merchandising criminal, oriunda da dimensão ampliada do confronto, disseminou a marca PCC por todo o estado de São Paulo. Este reconhecimento entre os  próprios pares fez com que o grupo se fortalecesse pela adesão da população criminosa, voluntária ou não, às regras da organização, às suas empreendedoras políticas comerciais e, acima de tudo, ao seu estatuto (seus parágrafos são ungidos pelo autor ao status de uma constituição, relevante a ponto de ser reproduzida, na íntegra, ao fim do livro). Cinco anos depois, em 2006, Gabriel destaca que "ataques coordenados na periferia de São Paulo somaram-se a rebeliões em mais de 80 prisões e que dezenas de policiais foram assassinados em uma só noite". Diz ainda que a resposta policial foram 500 homicídios em uma semana. Nesta no mínimo estranha conta de chegada - não a reputo mentirosa, equivocada ou inverossímil, mas não me furto a avaliá-la estranha -, a partir deste momento, por conta de um acordo não escrito, mas praticado, envolvendo as sintonias do PCC, cada um no seu corre e o policiais, "as taxas de homicídio seguiram em queda, atingindo os menores índices do país". Sendo seus números corretos, os homicídios de jovens caíram a 10% do que eram dez anos antes. Simultaneamente, uma grande rede de negócios ilegais seguiu em crescimento acelerado, da venda de drogas aos assaltos, incluindo roubo, desmanche e revenda de veículos (este quesito merece um interessante capítulo à parte, um dos pontos altos da obra, onde Feltran disseca a ampla grade de negócios que inicia na apreensão criminosa do automóvel - a parte mais arriscada e também mais mal remunerada de toda a operação - e irriga revendedores, desmanches, mercado de autopeças, fabricantes, seguradoras e leiloeiros), roubos a bancos e empresas de valores, a mansões, condomínios, caixas eletrônicos etc. Sua conclusão é de que a normatização do crime sob o pulso firme do PCC coibiu drasticamente o número de assassinatos, tirando assim os méritos constantemente auto-promulgados da repressão oficial do estado. O livro traz ainda um constrangedor raio-X do emprego dos advogados na organização, contados na casa dos milhares pelo autor, que explica: "Embora a função do advogado seja garantir o funcionamento rotineiro da Justiça, defendendo seus clientes individualmente, há muitas outras funções que os presos esperam conseguir deles, como levar recados a outras penitenciárias, bilhetes com salves para seus contatos, dinheiro e celulares para os presídios, mas, sobretudo, negociar a partir dos repertórios legais ou ilegais as progressões de pena, as liberações e os acertos financeiros com policiais, promotores, delegados e mesmo juízes, em nome do preso ou da facção." Ele ainda complementa com um depoimento de um dos antigos líderes do movimento, Macarrão: "Sempre o interesse maior nestas contratações de advogados era pela luta e pela defesa dos interesses do crime organizado. Eles são os legais. Onde a penitenciária não tem um telefone celular, tá com dificuldade de visita, quem age é o advogado." É. O professor não se inibe ao descerrar o véu das relações - que me parecem criminosas - entre o presidiário e seu representante legal. Gabriel tem mesmo uma visão bastante generosa quanto à ilegalidade. No caso específico do roubo de carros, onde não raro a cena do crime inclui violência e morte - falamos aqui de brasileiros inocentes, famílias em passeio, trabalhadores em deslocamento - o autor não se faz de rogado em legitimar o destino final dos veículos, sob a perspectiva das necessidades econômicas estrangeiras: "De tempos em tempos, Paraguai e Bolívia realizam regularizações de carros brasileiros rodando em seus territórios. Cada país defende sua economia como pode." Já eu acho que não pode. Nesta e em muitas outras circunstâncias resta evidente o quanto o universo do crime e das máfias que o controlam é sedutor para Gabriel Feltran. Pessoalmente, dou um desconto. Escritores ou não, somos seres humanos, boa parte de nós movidos a paixão. É isto que nos motiva e incendeia. Feltran se deixa legalmente incendiar por organizações ilegais que incendeiam ônibus e vans escolares. Ainda que compreensível, talvez este seu fascínio contamine o texto além do recomendável, embora o autor se afirme isento, ressaltando que "não busca julgar o que faz um ou outro lado da contenda". Não me pareceu. Mas leia você o livro - cujo conteúdo é uma matéria-prima e analítica singular, com bons momentos, aos quais acrescento aqui sua visão das correntes migratórias que alimentaram a periferia paulistana - e dê sua própria opinião. Preciosa é também a presença do dialeto dos seus entrevistados, com seus sintonias, salves e corres. Exemplifico com uma frase do estatuto, "numa sintonia, os disciplinas de cada quebrada devem conhecer todas as biqueiras locais", que, livremente traduzido, eu transcreveria "em um determinado controle circunscricional do Comando, os responsáveis autorizados de cada bairro/região devem conhecer todos os estabelecimentos de comércio ilegal da localidade." Há diversas outras expressões curiosas, como viajar a Miami (quando alguém é morto a mando de outrém), talaricar um irmão (ter relações sexuais com uma cunhada, como são chamadas as mulheres dos irmãos), a cebola (contribuição mensal devida à organização), o já mencionado corre (a especialidade no crime, a rotina criminosa) e a caminhada (a história de atitudes de cada um, que oferece a reputação do sujeito no crime). A linguagem, esta sim, me fascina. Mas voltemos ao crime, ou, melhor dizendo, ao tema da obra. Embora o autor não tenha economizado nos dados estatísticos, não foram suficientemente incontroversos para que eu endosse sua principal tese, a de que a gestão do PCC é a responsável determinante pela redução de crimes em São Paulo. A meu ver, faltaram subsídios para assegurar sua teoria - possível, mas não provada; razoável, mas não evidente. Reduzidos, seus argumentos se reproduzem demasiado. Sem oferecer conteúdo complementar, Feltran a cada quinze páginas se repete, como se fosse um clipping de textos antigos seus sobre o mesmo assunto. Em uma organização sequencial e ininterrupta como ondas vindo dar à praia, o autor exalta o proceder e o estatuto do Primeiro Comando. O pesquisador deixa de lado as diversas realidades e confrontos que poderiam negar sua tese principal, como a sublevação interna, a existência de áreas fora de controle, o crescimento de grupos rivais, as reações da política de segurança, as conveniências de cada área periférica etc. Mais que tudo, na visão de Gabriel Feltran, o Primeiro Comando da Capital está na posição privilegiada que ocupa por ser defensor de um superior código moral de justiça. Nele não há chefes ou interesses pessoais. A gestão é compartilhada por mérito. O uso da força é reprimido e aplicado somente em necessidade extrema, mas sempre sob a ótica do que é justo. Todos têm a mesma importância e igual acesso à proteção e à justiça. Visto assim, parece mesmo a descrição do mundo ideal. Digo mais: este mundo do crime descrito pelo autor está espiritualmente muito acima do ambiente mundano em que vivemos no dia a dia. Mas, por outro lado, é um mundo em que a pena de morte é banal, em que o acesso à plena defesa é restrito e onde as penas são executadas imediatamente após a decisão colegiada. É um mundo que extrai sua sobrevivência da subtração violenta do conquistado pelo esforço alheio. Que tem uma política assistencialista, característica da pior política praticada no Brasil nas últimas décadas. Que tem uma filosofia militarizada, como prescreve o artigo 11 do seu estatuto: "Toda missão destinada deve ser concluída", equivalente ao estigmatizado "missão dada, missão cumprida". Eu, particularmente, acho a nossa sociedade, a legal, eivada de equívocos e injustiças. Mas esta versão admirada por Feltran não me parece muito diferente nos defeitos. Talvez alguns ainda não tenham vindo à luz devido à relativa pequenez deste novo sistema paralelo, mas o inevitável inchaço deste dragão justo e criminoso levaria a disputas intestinas de poder idênticas às do congresso, das prefeituras, das estatais etc. Em miúdos, mesmo em uma extremada utopia, onde o novo regulamento do crime se imporia e substituiria primeiro a polícia legal, e depois a própria administração social, o resultado final acabaria na vala comum. Respeito a caminhada e o corre de Gabriel. Mas divergimos de paixão, o que é da natureza individual. O que não resta dúvida é que os veículos incendiados no Ceará nos aproximam mais da África do que da Escandinávia.

Companhia das Letras, 318 páginas