"Recordações do escrivão Isaías Caminha", por Lima Barreto

A FLIP 2017 é do Lima. Demorou. Só hoje, na 15a edição da festa literária, o autor carioca foi convidado para subir ao patamar de principal homenageado. As edições anteriores celebraram grandes nomes; poucos, porém, eram mais representativos que este Barreto. Basta citar os sazonais Andrades, os dois, Mario e Oswald, cada um premiado uma edição (2015 e 2011). Ou a poetisa Ana Cristina César, que o precedeu. Xá pra lá. Razões sempre as há, devem tê-las. O que importa é que a FLIP 2017 é do Lima. Antes tarde do que nunca. As décadas recentes vêm agigantando o legado de um escritor desigual, mas imprescindível, na literatura brasileira. Seu romance de estreia, "Recordações do escrivão Isaías Caminha", lançado quando Lima Barreto tinha promissores 27 anos, é excepcional, pela juventude, ainda que aquém dos seus textos mais maduros, de uma década após. Mesmo assim, seu potencial era tal que antecede em estreitos dois anos seu título mais célebre, "O triste fim de Policarpo Quaresma". Depois deles, sua produção, volumosa, teve reciprocidade editorial rala, em vida. O seu tempo não refletiu, nem acolheu, o seu gênio. Isto fez dele um sujeito amargo e da sua escrita, ácida. Seja na primeira camada, seja no subtexto, Lima revida. Lima se queixa. Revela a injustiça da sua vida desprestigiada. Entendo e faço coro. Para Lima, em prol de Lima, tudo deveria ter sido antes. Porque seu tempo foi curto. Em "Recordações...", convivemos com a essência do autor, antes do polimento. Mas, agora, é deste volume de lançamento que trato, e nele Lima já exibe a si mesmo, através do Rio e do seu olhar, sempre debochado, sobre os que têm e sobre os que querem ter.  Ele também queria, mas tudo a ele foi vedado. Lima a nada, nem a ninguém, perdoa. Na sua estreia caçoa e expõe o ridículo dos jornalistas, dos burocratas, das autoridades, de todos que ocupam imerecidamente um lugar acima do seu. Seus personagens são sujeitos tacanhos, que ele considera receberem as benesses que ele era muito mais merecedor. Esta abordagem restrita daria margem a que o julgássemos um autor menor; não sem razão, essa pequenez também lhe pertence. Mas aviva, como não? sua legitimidade. Nos envolve na egrégora que lhe domina os dias. Lima tanto reclama, tanto acusa, tanto expobra, que tudo isso fazemos também, em seu nome. O narrador é o alter ego de Lima, onde ele projeta os recalques que são o leitmotiv da sua veia literária. E daí? Importa é que desde a nascente a obra de Lima é um riacho que envereda por um país de muito tempo atrás e também de agora há pouco: quem éramos e o que somos transborda como um grude, onde passado e presente são a mesma gororoba. Por meio de um seu personagem, diz o Lima: "Doutor! Doutor! Quantas prerrogativas, quantos direitos especiais, quantos privilégios, esse título dava! teria direito a prisão especial e não precisava saber nada." Nossas atuais "autoridades" que comentem a passagem. Porém, ainda que a política esteja sempre presente, este seu livro se concentra em descrever a redação de um jornal - O Globo - na primeira década do século XX. O restante é pretexto. O título, fictício, escondia o Correio da Manhã, em que Barreto trabalhara. Ignoro se foi inspiração para O Globo de Irineu Marinho, fundado em 1925; mas talvez não fosse boa inspiração: "O diretor, ninguém o sabia jornalista. Mas o jornal atraía, tinha um desempenho de linguagem, um grande atrevimento, uma crítica corajosa às cousas governamentais. E o jornal pegou. Trazia novidade: além do franco ataque aos dominantes, uma afetação de absoluta austeridade e independência. O Rio de Janeiro tinha então poucos jornais, quatro ou cinco, de modo que era fácil ao Governo e aos poderosos comprar-lhes a opinião favorável. O aparecimento d'O Globo levantou a crítica, ergueu-a aos graúdos, ao presidente, aos ministros, aos capitalistas, aos juízes, e nunca os houve tão cínicos e tão ladrões. Foi um sucesso." A reação dos que se locupletavam foi tímida: "Os amigos do Governo ficaram em começo estuporados, tontos , sem saber como agir. Respondiam frouxamente. A cidade, agitada pela palavra do jornal, fez arruaças e obrigou o Governo a demitir esta e aquela autoridade. E O Globo vendeu-se, vendeu-se, vendeu-se..." Vale destacar que o sentido de "vendeu-se" aqui era o da venda de exemplares. Só para constar. Mas a apresentação que faz da percepção do jornal pelo público difere do que constatou internamente: "Quando se tratava de per si com qualquer dos empregados do jornal, ficava-se admirado que a folha se imprimisse e se escrevesse diariamente. Floc tinha em pouca conta Lorsque; Bandeira desprezava Floc; e todos pareciam querer entredevorar-se até aos ossos. De secção para secção, a guerra era terrível. A revisão dizia que a redação era analfabeta; a tipografia acusava ambas de incompetentes; e até a impressão que não lia nem via originais tinha opinião desfavorável sobre todas três." Há mais de 100 anos, identificava o Quarto Poder e o julgava já a reboque do capital: "Há necessidade de dinheiro; são precisos, portanto, capitalistas que determinem e imponham o que se deve fazer num jornal." Mas expunha a que nível desciam por conta da competição pelo leitor: "De dia para dia O Globo crescia em venda. Todos o liam: era o jornal dos desgostosos, dos pequenos empregados, dos ricos que não podem ganhar mais e dos destronados. Na venda avulsa, nenhum o excedia, nem o próprio Correio da Manhã. Só o Jornal do Brasil se mantinha emparelhado com ele, e a rivalidade era acesa. Forjava anúncios, calhaus de 'precisa-se', de 'aluga-se', pequenos anúncios que, em abundância, parecem ser o índice da prosperidade de um jornal." Edmundo Bittencourt, dono do Correio da Manhã, era o seu alvo, "batizado" de Loberant no seu romance: "Loberant sabia o segredo do seu sucesso e velava pela folha com cuidados especiais. Diariamente lhe vinham informações sobre a venda avulsa, sobre o movimento dos anúncios. Se decaíam um pouco, logo procurava um escândalo, uma denúncia, um barulho, um artigo violento contra quem quer que fosse." (A propósito, afirma Ruy Castro que Bittencourt proibira que o nome de Lima Barreto fosse sequer citado no jornal.) Mas, sobretudo, a despojada narrativa de Lima é que o fez quebrar paradigmas. A ela deve, simultaneamente, a estranheza dos contemporâneos e a longevidade do seu texto. Assim, para bem falar de Lima, nada melhor do que lhe dar voz. Seu pano de fundo é o Rio da época, com o qual ele também é pouco generoso: "Quando saltei e me pus em plena cidade, na praça para onde dava a estação, tive uma decepção. Aquela praça inesperadamente feia ofendeu-me como se levasse uma bofetada. Enganaram-me os que me representavam a cidade bela e majestosa. Ruas feias, estreitas, lamacentas, marginadas de casas sujas e sem beleza alguma." Lima sempre foi crítico da Reforma de Pereira Passos: "Está tudo mudado: Abolição, República... Como isso mudou! Então, de uns tempos para cá, parece que essa gente está doida: botam abaixo, derrubam casas, levantam outras, tapam umas ruas, abrem outras... Estão doidos!!!" (já eu não sei se os dois bairros escolhidos eram uma crítica velada à fragilidade das instituições que homenageavam.) Se mordia, também assoprava, pondo um personagem para o contraditório: "Que são dez ou vinte mil contos que o Estado gaste? Em cinco anos, só com as visitas do estrangeiro esse capital é recuperado... Há cidade no mundo com tantas belezas naturais como esta? Qual?" Se hoje não se faz bom juízo da polícia carioca, há mais de um século Lima via assim: "A polícia vive com os bicheiros... Não serve para nada, fique certo. Para o que foi feita, não serve. Serve para perseguir e executar vinganças." Vê-se pelos olhos de Lima que a compulsão por incendiar o transporte público não é novidade: "Numa travessa, forma-se um grupo, começa-se a discutir, ataca-se o Governo; passa o bonde e alguém lembra: vamos queimá-lo." Testemunha: "Tínhamos deixado a estação do Mangue, quando de todos os lados, das esquinas, das portas e do próprio bonde partiram gritos: Vira! Vira! Salta! Salta! Queima! Queima! Num ápice, o veículo foi retirado das linhas, untado de querosene e ardeu." Filosofa: "O apagamento momentâneo da honestidade e a revolta contra pessoas inacessíveis levam os melhores a esses atentados brutais." Falava eu há pouco que aqui o novo é velho, e me deu razão o Lima: "Um pobre tipógrafo, que morava para a Saúde, temia ser morto por uma bala perdida." Quanto aos políticos de então: "Gente miserável que dá sanção aos deputados, que os respeita e prestigia! Por que não lhes examinam as ações, o que fazem e para que servem?" Ainda que na vida real corresse atrás deles, criticava os cabides de emprego: "Franco de Andrade viera na comitiva de um ministro baiano e já possuía quatro empregos. Além de lente substituto, era médico do Hospício, legista da Polícia e subdiretor da Saúde Publica." Mais de uma vez zomba das leis da prefeitura carioca, como a postura municipal que proibia os cidadãos de irem à rua... descalços! (ou seja, os prefeitos do Rio há muito cuidam das pessoas). Há expressões no livro que contam muito da época, como "o laudo do doutor concluía que o homem era mulato, muito adiantado é verdade, um quarterão." Descobri no dicionário que "quarterão" é o filho de uma pessoa branca com outra mestiça, ou seja, o quarterão vem desse um quarto, desses 25% de negritude remanescentes numa mistura que tem 75% de branco, como numa lata de tinta; donde a expressão mulato "adiantado" significa que o indivíduo se "adiantou", "evoluiu", "progrediu", ao se tornar gradativamente mais branco e menos negro. Ecos anacrônicos da escravidão que nos mancha. O preconceito de cor era a espada sobre sua cabeça. Ao ser tratado pela primeira vez de "mulatinho", lembrou que chorara: "Choro hoje quando me lembro que uma palavra desprezível dessas não me torna a fazer chorar. Entretanto, isso tudo é uma questão de semântica: amanhã, dentro de um século, não terá mais significação injuriosa." Lima acertava umas, mas errava outras. Ainda uma década antes da Revolução Russa, já radiografava o esquerdismo troçando do Leiva, o revolucionário burguês: "Leiva parecia-me mais sincero na sua poesia palaciana e de modista do que nas idéias revolucionárias. Sua situação lhe determinava as opiniões; seu fundo era céptico e amoroso das comodidades que a riqueza dá. Cessassem as suas dificuldades, surgiria o verdadeiro Leiva, indiferente aos destinos da turba, dando uma esmola em dia de mau humor e preocupado com uma ruga no fraque novo que viera do alfaiate." Até mesmo de vidente coxinha o Barreto poderia ser chamado, quando, à página 74, entra um senador na delegacia e pergunta: "Você bem podia me dizer se o Nove Dedos está preso aqui?" Continuamos à cata deste sujeito liso. Cronista da mesquinhez humana, versão carioca, modelo fim do século XIX, suas frases antecipam o estilo que caracterizaria Nelson Rodrigues: "A diplomacia é a mais deliciosa vida que há... Uma delícia! Pode-se ser burro ou inteligente, que é o mesmo! O secretário da Inglaterra, Mr. Lodge, era uma besta, mas uma besta perfeita..." O fato é que as desventuras do jovem estudante pelas ruas do Rio Antigo são viagem saborosa para qualquer carioca que, por amor à cidade, se ponha na pele desse escritor transeunte. Não sou diferente. Tanto que, à parte o talento de Lima, o primeiro prazer que me invade não é o da literatura, e sim o do passeio pelo tempo. O badalado economista francês Thomas Piketty se valeu dos romances d'antanho para estabelecer parâmetros econômicos confiáveis, em seu superestimado "O Capital no Século XXI". Não vou desdizê-lo. Viajo à Capital Federal do século XIX pelos desencontros do personagem vindo pela primeira vez à cidade. A Feira Literária Internacional de Paraty, o mais consagrado evento brasileiro de literatura, oferece - enfim - o protagonismo para este carioca suburbano que, assim, com quase um século de morto, tripudia do pouco valor que a vida lhe deu.

Garnier, 232 páginas

"Z, a cidade perdida", por David Grann

É uma estória tão fascinante que qualquer uma das suas múltiplas facetas daria um roteiro cinematográfico. Na verdade, deu. Está em cartaz "Z", baseado no livro de David Grann. Mas não me ocupo do filme, que não vi. Falo do livro, bem amarrado. Como sói acontecer, o exemplar já há tempo acumulava poeira na minha estante. Provocado pelo lançamento da película, achei que era hora de lê-lo - do que não me arrependi. Falava eu, no início, das facetas, que são muitas e atraentes. A óbvia (mas nem por isso menos boa) é a do explorador destemido. Percy Harrison Fawcett é o cara. Ascético e determinado, era considerado O Indestrutível até pela família. É o approach perfeito: todos gostamos de heróis e desafios impossíveis. Mas por trás da história desse Indiana Jones de carne e osso (há quem diga que foi ele a inspiração do personagem) se esconde a longa e triste espera de Nina Fawcett. Tristemente em vão. Há ainda os dois jovens amigos, aspirantes ao estrelato em Hollywood, um deles o filho que idolatra o pai - e que enfim o segue, confiante e em júbilo (a única coisa que desfrutarão juntos, porém, será a morte sem corpo). Há a epopeia de uma floresta amazônica infernal, que engole os que se deixam seduzir por seus mistérios. Há uma mórbida sucessão de heróis aventureiros desaparecidos e a mítica cidade de Z, oculta, subterrânea no coração da mata. A obra de David Grann é mais uma a reforçar a impressão de que ainda aprendemos História do Brasil lendo relatos estrangeiros. Além de descrições insuperáveis sobre a selva, fruto de expedições de reconhecimento quase suicidas, vemos que a fronteira entre Brasil e Bolívia se apoiou na mensuração de campo do britânico Percy Fawcett. Eu prontamente desgostei. Você sabia disso? Te contaram na escola? Leu no jornal, passou no Globo Repórter? Não acho certo que venhamos a saber disso por acaso. Se for verdade, deveria estar no currículo escolar. O que sei das fronteiras nacionais, entretanto, tem mais a ver com hipóteses distantes - como as que envolvem o Tratado de Tordesilhas - e com piadas, como a que conta que demos um cavalo para surrupiar o Acre da Bolívia. E, mais (voltando às revelações históricas), que houve importantes descobertas arqueológicas no solo amazônico, que incluíram cerâmicas datadas de 7.500 anos, entre elas a cidade de Kuhikugu, no Alto Xingu, que apresentava um desenvolvimento urbano e agrário muito superior aos indígenas que conhecemos... Ahm? Como assim? A obra fala também do famigerado Preste João, tão procurado pelos monarcas portugueses no interior da África, sujeito que os ingleses chamavam 300 anos antes de Prester John e que por sua vez era procurado no Império Bizantino (em mais de meio milênio, ninguém achou esse cara). Já deu de dispersões. Voltemos ao bom livro. Grann conta que, depois de servir como soldado na Índia, Fawcett fez "curso de explorador" na Real Sociedade Geográfica de Londres (fundada em 1830 já como instrumento da expansão e solidez do Império Britânico) e, vocacionado, se destacou logo nas suas primeiras investidas, na África. Cooptado como espião pelo governo inglês (relação usual, pois os exploradores geralmente tinham acesso franqueado ao interior dos países e efetivamente atuaram como observadores privilegiados), PHF honrou a tarefa. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial abandonou as expedições e tornou à Europa, diretamente para o front ("sou esmagado pelo desejo patriótico de qualquer homem apto a esmagar os teutônicos"), onde liderou sua tropa na carnificina. Acostumado à rudeza da mata e à ameaça dos índios, saiu do conflito condecorado e amargurado - e, sobretudo, determinado a voltar à Amazônia. Seus anos no continente americano lhe deram a certeza da existência de uma cidade perdida, revestida de ouro. Adepto de pequenos grupos e insatisfeito com os parceiros que lhe coube nas vezes anteriores, selecionou como companheiro para a sua aventura definitiva o filho predileto, que há muito ansiava pela oportunidade de se provar. O rapagão levou o amigo com o qual crescera e os três partiram confiantes para a presumida glória e fortuna. Neste momento, Fawcett era um herói planetário, em um mundo pré-cinema falado. Jornais dos cinco continentes estampavam manchetes sobre a sua próxima viagem, acontecimento que os leitores acompanhariam em ritmo de folhetim. Com a mídia por trás, Fawcett conseguiu uma verba digna. Obteve uma audiência com o governo brasileiro, a quem pediu ajuda (foi designado Rondon para auxiliá-lo, mas a rivalidade entra os dois amantes da selva era maior que o interesse mútuo na Amazônia). À medida em que o trio avançava na expedição rumo ao desconhecido - literalmente -, mandavam mensageiros de volta à civilização, com cartas que seriam postadas e convertidas em matéria jornalística e publicitária. Percy Fawcett era o herói internacional dos anos 20, alvo de interesse indiscriminado, uma celebridade midiática. A alimentação regular das notícias, entretanto, a partir de um determinado instante, cessou. Aqui e ali havia inquietação, superada pela confiança na habilidade do coronel em sobreviver e ser bem-sucedido. Como ele mesmo dizia, "se eu não conseguir, ninguém mais conseguirá". Porém, passaram-se semanas, meses, sem que o grupo comandado pelo lendário Coronel Percy Fawcett desse notícias. A esposa, Nina, manifestava convicção absoluta no retorno do marido e do filho; a RSG se declarava esperançosa; os jornais se viam cada vez mais reticentes. Após um ano, uma crescente coqueluche ganhou forma nos quatro cantos do planeta: malucos se candidatavam a seguir as pegadas da trupe e a encontrar Fawcett. A maioria morreu. Outros sumiram. Uns poucos retornaram vivos, mas de mãos abanando. David Grann refez o caminho que dezenas percorreram nos últimos 80 anos. Algumas teorias sobre o destino do grupo são expostas no livro - bem como a crença de que a cidade de Z pudesse não ser, afinal, uma ideia tão louca assim. O livro sobre as aventuras do explorador inglês é bem estruturado e segue a velha e boa ordem cronológica. Entremeia a rotina do próprio autor com o tema prestes a abordar, o Fawcett militar e depois explorador, com o relato das suas inúmeras viagens à Amazônia, com destaque para a fatal. Investiga sua jornada derradeira rumo à eternidade e a miríade de detetives amazônicos que o sucederam. Grann encerra a descrição das décadas de buscas frustradas com a sua própria, nos levando para dentro da selva, até pisar em Z. Um belo tributo à coragem, à antevisão e à obstinação. Se Z realmente existiu? Grann tem sua teoria. Mas, como aprendemos com seu biografado misteriosamente desaparecido, nem tudo no mundo é feito de respostas.

Companhia das Letras, 405 páginas

"O português que nos pariu", por Angela Dutra de Menezes

Na orelha da publicação o colunista de O Globo, Arthur Dapieve, informa que "Angela explica Portugal sem as pompas e circunstâncias dos livros didáticos". Daniela Machado, do Estado de Minas, diz que "quem espera um livro didático, vai se surpreender com a linguagem absolutamente coloquial". Veronica Aguilera, também de O Globo, diz que "em linguagem clara e simples, Angela dessacraliza fatos e personagens". Há outros elogios, comuns às contracapas. Para vermos ao que os resenhistas se referem com tanto entusiasmo, vamos a algumas das passagens do livro. Por exemplo, esta, sobre a batalha de Aljubarrota, em 1385: "O estandarte real não caiu uma só vez. Os castelhanos chegaram a ameaçá-lo. Mas o mestre-sala viu e, gingando o corpo, afastou o perigo. A porta-bandeira, elegante, curvou-se para a flâmula e saudou o distinto público. A Sapucaí delirou." Sobre o papa: "Em 1215, o papa Inocêncio III emitiu sinal de SOS e, antes do continente espatifar-se, assumiu o comando. Mas apertou os botões errados e a nave europeia entrou em forte turbulência. Inocêncio II não tinha vocação nem para piloto de avião." Sobre os templários: "Em 1312, quando o pau comeu na França, quem pôde se mandou. Antes de escapar, os sobreviventes fizeram um DOC para o Banco de Portugal, remetendo os seus muitos milhões." Sobre a Inquisição: "Os inquisidores demonstravam tanta preocupação que desistiram de viajar pela Navigator Class, da TAP. Com a Navigator lotada, eles se conformaram em se apertar na classe-galinheiro." Sobre a República: "Um belo dia, exatamente 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca acordou entediado e proclamou a república. Carioca curte tudo, foi uma badalação." Sobre seu texto: "Há milhões de outros entretantos, sequer foram citados. Competem, exclusivamente, aos livros de economia. A nós interessa que a vaca foi pro brejo." Não costumo gastar tanta tinta com citações. Mas há vezes em que elas se impõem - este é um dos casos. Ao viajar para Lisboa, pus na bagagem dois livros [que imaginei] sobre a história portuguesa, para ter o prazer de lê-los no próprio ambiente onde a História se passou. Um deles foi o imprescindível "Por mares nunca dantes navegados", que resenhei há pouco, de Ronald Watkins. O outro foi este, um tolo amontoado de frases pretensamente engraçadas. À guisa de um suposto coloquialismo, o que temos é um texto indecifrável, onde, para falar da região ibérica medieval, até a Rede Globo é citada. Frases que poderíamos classificar como "espirituosas" não são exceção, e sim a obsessão. Metáforas que poderiam cumprir seu papel se empregadas moderamente, para tornar um ou outro ponto mais claro, por lúdico ou malicioso, são cuspidas na litragem de duas ou três por parágrafo, oito ou nove por página, oitenta a cem por capítulo. Daí que o que temos é um amontoado de firulas sobre um conteúdo que reputo ininteligível. A contracapa é pródiga em elogios. Sinceramente, creio que os que os escreveram não leram o livro. Se muito, o folhearam - e o que superficialmente lhes pareceu divertido era, com o perdão do termo, babaca. Peço desculpas ao meu leitor por ter tomado o seu tempo descrevendo essa lambança pseudo-histórico-literária. Mas minha intenção era tão somente poupar o seu, já que, mal aconselhado, não poupei o meu.

Editora Record, 204 páginas

Obs.: Para dar uma aliviada no meu mau-humor, a foto exibe a linha do Rio Tejo em três diferentes planos - ao fundo, visto do Miradorouro da Nossa Senhora do Monte; ilustrando a capa do livro; e no belo painel de azulejos que adorna o miradouro. O belo Tejo não tem nada a ver com isso.

"Tempos vividos, sonhados e perdidos", por Tostão

7 de junho de 1970. Estádio Jalisco, Guadalajara. Meio-dia de domingo. Hora marcada para o duelo entre a Inglaterra, então campeã do mundo, e o Brasil, então uma incógnita. Há quem repute o que veio a seguir como o maior jogo de futebol da história das Copas. Não pelos gols - o placar foi um magro 1x0 -, mas porque tudo neste confronto ganhou uma aura de "a mãe de todas as partidas". Não importa se pareciam lentos (também, ao meio-dia...) e se o Brasil não era a perfeição futebolística que hoje juramos de pés juntos. Apesar do vídeo-tape, apesar de trocentos vídeos no iutúbi, uma religiosa repetição oral se impôs. A defesa de Banks. A covardia contra Felix. A porrada do Capita. O gol. A comemoração ensandecida, com os jogadores de amarelo, aos saltos, atrás do número 7. Trinta segundos antes desse pique, o lance que resultou no tento veio da jogada encapetada de um mineiro tímido. Que, reza a lenda, valeu meio gol. E olha que seu passe não foi sequer a tal da "assistência" - Tostão meramente assistiu ao assistente. Isso já deu muito pano pra manga: milhares de apaixonados por 70 já testemunharam a ligação sobrenatural entre Tostão e Pelé, na jogada que culminou no tirambaço do Furacão. Como, driblando de costas, de frente para a linha lateral, mais próximo das placas de Martini & Rossi do que da marca do pênalti, a no mínimo 25 metros dos protagonistas, ele soube onde estava o negão e pôde colocar a bola no seu pé? O elegeram o supra sumo da noção de espaço, a prova cabal de quão bem ensaiado era aquele time. Porém, este tipo de apologia não cola com Tostão, o cara do passe. Ao contrário do auto-engrandecimento comum aos ex-jogadores, ele minimiza. Faz do mítico, banal. Seu texto opta sempre por simplificar. "No meio do segundo tempo, percebi que Roberto, que era meu reserva, se aquecia para entrar. Só podia ser em meu lugar. Aí, surgiu uma bola, e eu, influenciado pelo fato de que sairia, tentei a última jogada. Primeiro, chutei de fora da área. A bola bateu no zagueiro e voltou. Recuperei a bola. Com o cotovelo, evitei que o defensor tomasse a minha frente, o que hoje provavelmente seria interpretado como falta, uma cotovelada. Joguei a bola por baixo das pernas de Bobby Moore, considerado um dos maiores zagueiros da história. Avancei pela meia esquerda, fui bloqueado e perdi a chance de seguir em direção ao gol, Dei uma volta e, com a perna direita, joguei a bola para o outro lado, sem ver. Ela caiu nos pés de Pelé, que dominou, sem deixá-la escapar um centímetro sequer, e tocou para Jairzinho, que estufou as redes, marcando o gol da vitória. Todos me perguntam se vi Pelé. Não vi." Ou seja: onde tantos viram telepatia e genialidade, houve intuição e sorte. Em seguida reitera que não estava errado quanto à substituição: "Como Roberto já havia assinado a súmula, ele entrou em meu lugar, antes de a Inglaterra dar a saída de bola. Se não tivesse saído o gol, eu corria o risco de ir para a reserva no próximo jogo." A despeito desta narrativa minuciosa - que destaquei pelo que ela tem de desmistificadora, tanto da jogada, como do autor -, seu tema não sintetiza a obra. O livro de Tostão tem muito futebol. Mas não só. "Gosto do silêncio, do meu canto, de estar próximo de pessoas que amo e também de descobrir o mundo. Quero estar longe e perto de tudo. A vida e o futebol continuam." Seu texto revela que o menino-prodígio do Cruzeiro, o craque da Copa e o professor de medicina foram substituídos por um atípico comentarista esportivo. Com uma prosa simultaneamente doce e aguda, Tostão assina uma biografia que não é uma biografia. É um apanhadão que reúne alguns tópicos da sua vida de atleta - culminando com sua lesão e sua aposentadoria precoce - e suas ponderações sobre o futebol brasileiro e mundial, com fundamentadas opiniões sobre jogadores, técnicos, táticas de jogo, imprensa e política. Algumas opiniões são sui generis, como a sobre o maior de todos: "Por causa da anatomia de seu globo ocular, com os olhos expressivos e para fora, Pelé literalmente enxergava mais que os outros." Reclama de o terem comparado a Pelé, no início da carreira: "No máximo, o que já era exagero, eu imaginava as mesmas coisas que Pelé, com a diferença que ele as executava". Da razão inusitada Tostão vai à falta de razões, cita Stefan Zweig, o gênio austríaco que veio se matar em Petrópolis, e fala que as pessoas "mais racionais relutam em aceitar o acaso como fator importante em nossas vidas e têm descaso pelo acaso". Tostão, o inesquecível craque da 9 da Copa de 70, fala desta e da de 66, ambas as que participou. "Em 66 disseram que perdemos porque caçaram o Pelé, mas na verdade Portugal era muito melhor do que o Brasil, além de ter o segundo melhor jogador do mundo, Eusébio." O livro atesta ainda que Tostão não tem papas na língua sobre os bastidores do esporte ("há médicos que ajudam os treinadores, quando estes querem tirar um jogador e não sabem como fazê-lo") e confidências, como a feita a ele por Saldanha, após o técnico ter sido entrevistado elogiando o time da Romênia ("desses aí não dá pra perder"). Tostão ressalta que a célebre cotovelada de Pelé no zagueiro uruguaio poderia ter rendido uma expulsão, enquanto o jogo ainda estava 1x1: "Com um a menos, aumentariam as chances do Uruguai vencer e assim o Brasil seria eliminado, eu não estaria aqui contando esta história e o mundo não falaria tanto da seleção brasileira de 1970." Após a conquista, cogitou não participar da cerimônia com o ditador Médici, mas foi, por respeito aos companheiros. Sobre o caso, cita Freud citando Shakespeare: "A consciência faz de todos nós covardes." Tusta é insuperável na análise dos outros craques, como a que faz do meu ídolo de guri, o Furacão, pai do atual técnico alvinegro. "Jairzinho foi muito mais do que um atacante veloz, de muita força física e artilheiro. Era um craque artilheiro, na Seleção, no Botafogo e, depois, no Cruzeiro. Jairzinho merece ser mais lembrado como um dos grandes da história do futebol brasileiro." Sua avaliação de Zico bate com a minha: "Zico era quase um Messi, com menos repertório e sem a mesma velocidade do argentino em conduzir a bola colada aos pés. Driblava, dava excepcionais passes e fazia muitos gols. Nas cobranças de falta, Zico era superior a Messi." Mas, muito mais do que a Zico, coloca Romário no pedestal. Considera a atuação do Baixinho contra o Uruguai "uma das maiores partidas de um jogador na seleção brasileira". Eu vi. Assino embaixo. Entrega também a zoada do Gerson, o Canhota, em cima do rei. Estavam todos em Dallas, na Copa de 94, e se reuniram para um jantar promovido pela TV Bandeirantes. Pelé chegou atrasado, todo de branco (o que incluía terno, gravata e sapatos), numa limusine branca. Gerson pegou de prima: "Crioulo, você está ridículo, todo engessado." Confesso que Gerson, meu parceiraço na Tupi, também me sacaneia, dizendo que eu joguei em 18 clubes e não fiquei em nenhum. Tudo bem. Levo na esportiva. Mas a verdade é que ele não me viu jogando... A propósito do Canhota, Tostão não economiza no elogio: "Cruyff, Gerson e Xavi foram os três jogadores mais lúcidos e de maior talento coletivo que eu vi atuar. Eram treinadores em campo. Jogavam como se estivessem vendo a partida da arquibancada." Por falar em treinador, Tostão elogia também Zagalo pelos treinos táticos detalhados em 70. Mas, em seguida, dá no tornozelo: "Em 98, vinte anos depois, os treinos eram idênticos, para situações bem diferentes. Não sei se Zagalo desconhecia a evolução do futebol." Compara também o futebol brasileiro dos anos 60 ao futebol mundial de hoje: "O confronto entre Santos e Botafogo era tão espetacular quanto o atual Barcelona e Real Madrid." Afora estas aspas catadas a dedo, mesmo se as fossem a esmo, mudaria pouco a minha resenha. O autor Tostão é agradável, inteligente e pertinente todo o tempo. Os que tiveram a oportunidade de ver ao menos parte do futebol que ele comenta terão prazer redobrado na leitura. Sobre sua negação da atmosfera de sonhos que envolve o futebol do passado ("É preciso separar a nostalgia do saudosismo de achar que tudo no passado era melhor. Os saudosistas possuem o hábito de idealizar um passado que nunca existiu."), prefiro ignorar sua lucidez. Na boa, Tostão pode negar quanto quiser. Para mim, que moleque de nove anos assisti à Copa em preto e branco, grudado na TV, com uma bandeira feita de figurinhas coladas num pano de prato esfarrapado, ele e a seleção canarinho vão morar para sempre no Olimpo do futebol da minha memória afetiva, jogando uma Copa de 70 que não termina nunca - e onde o Brasil vence todas. Que time, mermão. Que time.

Companhia das Letras, 194 páginas

Obs.: Só para constar: na narrativa de Tostão, vale recordar que o ataque da Seleção, nos últimos 30 minutos do seu segundo jogo na Copa de 70, era o do Botafogo: Jairzinho, Roberto Miranda e Paulo Cezar Lima. Na defesa, estavam Carlos Alberto Torres e Brito, que iriam no ano seguinte também para o Botafogo, num time que ficou conhecido como "Selefogo". Como eu disse, só para constar.