"Negritude e genialidade", por Hermínio Miranda

A biografia de George W. Carver, um norte-americano filho de escravos que nas primeiras décadas do século passado se revelou um cientista inovador, é contada por Hermínio de forma contida, quanto aos fatos, e excessiva, quanto aos adjetivos. Não duvido que o celebrado autor tenha tido suas razões. A história de Carver, porém, já era suficientemente impressionante sem que o biografado fosse santificado. A forma idealizada com que Carver é apresentado remete mais a um livro para crianças, dado o simplismo, do que a uma obra "adulta". Em capítulos curtos, Miranda registra a infância difícil do órfão negro em um Sul racista. Seu empreendedorismo natural e sua peregrinação de cidade em cidade, encontrando sempre uma boa alma que reconhecesse o seu talento e lhe desse suporte, é uma constante. Findo os estudos - o que já era uma proeza admirável para um jovem pobre e da cor errada -, sua fase de cientista e inventor registra dedicação apaixonada à cultura do amendoim e abnegados esforços para a aplicação mercadológica de suas centenas de inventos (aparentemente, a maioria das criações de Carver não se mostrou economicamente viável). Hermínio enfatiza a reverência dos grandes nomes da época para projetar o tamanho de Carver, incluindo entre eles um simpatizante do nazismo, Henry Ford, como um dos fãs de carteirinha do cientista negro. A hagiologia é tal que não me soa verossímil. Curioso que sou, gostaria de um relato menos entusiasmado para entender a verdadeira dimensão do gênio.

Editora Heresis, 221 páginas

"Música Popular Brasileira", de Mario Luiz Thompson

Um dos produtos editoriais mais estapafúrdios que eu já vi: "Música Popular Brasileira", de Mario Luiz Thompson, em dois volumes de 31 x 31cm, são seis quilos de papel couché com fotos de músicos conhecidos (com algum texto) e semi-anônimos (sem nada sobre eles a não ser o nome, desconhecido, em negrito), editados pela BemTeVi, numa "realização" da Dançar Marketing e Comunicações, com o selo do Ministério da Cultura. A primeira coisa que me ocorreu foi "Vem cá, isso custou alguma coisa ao contribuinte brasileiro?" (o Brasil nunca nos decepciona). Fui ver e está lá escrito "livro editado e produzido utilizando os beneficios da Lei Rouanet". Ou seja, o negócio deve ter custado uma fortuna (é como uma lista telefônica, só que sem os telefones) e o pagamento foi afanado do bolso do contribuinte. O livro, sem conteúdo, quase um facebook colegial, tem uma diagramação também colegial. Se é que se pode chamar aquilo de diagramação. A capa é assinada pelo celebrado Antonio Peticov. Os mais jovens não sabem, mas nos anos 80 qualquer recepção que se prezasse tinha um poster do Peticov. Eram fotos P&B levemente esmaecidas, com algum elemento arco-írisco. Naquela época, as sete cores não eram ainda a marca da comunidade LGBT. Mas o Peticov zoou com o job. Fez um recorte amador numa foto sem definição, pôs umas linhas coloridas inexpressivas e quase invisíveis como sua "assinatura" e deve ter mandado o seu para o bolso. A foto, que não se prestava nem técnica nem conceitualmente para o trabalho, tinha sido tirada pelo próprio autor - que, pesquisei, é célebre pelo trabalho de fotografar décadas da música brasileira. Bacana. Mas aqui não falo do profissional ou da eventual relevância do registro feito de beltrano ou de sicrano. Falo de um produto editorial pessimamente concebido, preguiçosamente editado e vergonhosamente financiado por dinheiro público. Fosse uma iniciativa privada, dane-se, cada um desperdiça o próprio dinheiro como gosta. Mas não é o caso. A gráfica desta estultice bancada com o seu dinheiro foi a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Fui buscar na internet os autores do duplo calhamaço de papel couchê. Não funcionou. O endereço eletrônico da "realizadora" Dançar já não existe mais. Dançamos, mais uma vez.

BemTeVi / Dançar Marketing e Comunicações, 564 páginas


"O inferno dos outros", por David Grossman

Um stand-up hipotético, lentamente esparramado por duzentas páginas, onde o sujeito enumera episódios da própria vida: a ideia do livro, o argumento, é esse. O formato, por sua vez, encaixa dois narradores, Dovale, o cara do stand-up (alter ego do escritor, David Grossman, que por meio dele conta a própria infância e sua estranheza em relação ao pai), e um amigo na plateia, a testemunha, convocado para assistir o espetáculo, que narra o que acontece no palco e a reação nas mesas (se riem, se xingam, se vão embora, etc). A esta altura você já se pergunta se isso pode dar um bom livro. Eu já lhe tranquilizo: não dá. Um mimimi sem fim. Verborrágico e piegas. Ao colocar sua ladainha como sendo o discurso de um comediante numa birosca qualquer de uma cidade pequena em algum canto arenoso de Israel, Grossman pretende ser espirituoso e profundo. Em vão. Não sei onde o personagem termina e onde começa o autor, mas são ambos tremendamente chatos (só depois de ler o livro e publicar o post é que fui dar uma fuçada nos artigos sobre o dito cujo, onde descobri que o autor é cultuadíssimo, que seu texto é brilhante e que eu devo ser uma besta por não saber apreciar tal portento literário). Um livro queixoso, medonho, constrangedor. Meia dúzia de piadas péssimas e um comentário sério sobre a final do campeonato de Israel, onde os times teriam jogado um futebol de primeira - piada. As inúmeras menções sobre como os espectadores riam, se emocionavam e pediam para o humorista prosseguir só consternam o leitor, diante da mínima impossibilidade de que isso de fato acontecesse. Se o show fosse numa favela carioca, o artista iria direto para o microondas antes do segundo ato. Aí você me questiona: caraca, não sobra nada de bom nesta joça purpurinada? Tem: a capa. Eu já critiquei o mau-gosto de tantos bons livros com péssimas capas, mas este traz uma ótima capa embrulhando um péssimo livro. Uma silhueta dum guri plantando bananeira sobre uma capa vermelha laminada (andar de cabeça para baixo teria sido um pretenso recurso do autor durante a infância). Registre-se que o proverbial humor autodepreciativo dos judeus está presente - e seria uma das poucas coisas passáveis, não fosse o livro, em essência, um autêntico pé no saco. Desculpe, me repito. É que este inferno dos outros é o pesadelo do leitor. Evite o contato.

Companhia das Letras, 201 páginas


"Os subterrâneos do futebol", por João Saldanha

Há quem considere João Saldanha o maior personagem do futebol brasileiro fora das quatro linhas. Me coloca aí entre eles. Sou fã do cara e torcemos para o mesmo time. Assim, quando o João Sem Medo completou 100 anos, dia 3 de julho, resolvi comemorar relendo seu primeiro livro, que já aluga há algumas décadas uns centímetros quadrados na minha estante. O livrinho é melhor do que me lembrava. Na verdade, a simplicidade deste divertido maragato de Alegrete esconde uma sabedoria urbana rara de achar. Não à toa o sucesso que fez. Muito tempo depois que bateu as botas, ele ainda é um mito como técnico da Seleção Brasileira, uma referência como jornalista esportivo e uma estrela que não se apaga na história do clube da estrela - o Botafogo. E, como ia dizendo, estreou como autor já quarentão, em "Os subterrâneos do futebol", contando as suas próprias estórias de treinador iniciante. Ele fala inclusive como começou a carreira: o técnico de então, Geninho, pediu uma baba pra renovar e entrou numa queda de braço com o presidente do Botafogo, Paulo Azeredo.  Se desentenderam às vésperas de uma viagem do time para São Paulo. Sem técnico, sobrou pro João: "O jeito é você ficar com isso (isso era o time do Botafogo). Depois se arranja uma saída." Como o campeonato já estava definido, João topou, pois "o jogo era só para constar." Começava ali uma das mais inusitadas e famosas carreiras de treinador de futebol - com o João reclamando que o Botafogo, já naquela época, só tinha "a conta do chá". Não é de hoje. O texto do "professor" chegou às livrarias em 1963 e tem sua terceira edição agora, mais de meio século depois. Meu exemplar, castigado e amarelado, é o da segunda edição, que li assim saiu do prelo, em 1980. Não empresto e não dou. O livreco, naqueles tempos d'O Pasquim, era só uma coleção de causos sobre um passado recente. Hoje é uma nostalgia bíblica. Por devoção, reli, e, por justiça, advirto que Saldanha permanece atual. Pudera: nossos problemas são crônicos e giram dentro de um nauseabundo círculo vicioso. Por outro lado, o que tínhamos de melhor no futebol, aquilo que nos diferenciava, já não existe mais. Me parece que nos acorrentamos aos nossos defeitos e vimos nossas virtudes se distanciarem, à deriva. Porque já fomos bons nesse tal de futebol. Dizia o João: "Somos campeões do mundo de futebol de fato e de direito: não existe nenhum país do mundo que possa formar tantas equipes como nós. Se tomarmos vinte clubes e fizermos uma competição com vinte outros de qualquer país, ganharemos, no mínimo, umas quatorze ou quinze partidas. Bons times, em grande quantidade, não existem em lugar algum como no Brasil." Bons tempos. Foi quando inventamos o olé, num amistoso entre River Plate e Botafogo, em 1958. Nós, vírgula. "Havia no Estádio Universitário, na Cidade do México, cem mil pessoas comprimidas para assistir ao jogo. O time do River era uma máquina. Modestamente, jogamos trancados. Se abríssemos, tomaríamos um baile. Foi um jogo de rara beleza. De um lado Rossi, Labruña, Vairo, Menéndez, Zarate, Carrizo. De outro, Didi, Nilton Santos, Garrincha etc. Jogo duro e jogo limpo. Poucas vezes vi um jogo ser disputado com tanta seriedade e respeito mútuos. Mas houve um espetáculo à parte. Mané Garrincha foi o comandante. Dirigiu os cem mil espectadores, fazendo reagirem à medida de suas jogadas. Foi ali, naquele dia, que surgiu a gíria de Olé, tão comumente utilizada posteriormente em nossos campos. Não porque o Botafogo tivesse dado Olé no River. Não. Foi um olé pessoal. De Garrincha em Vairo. Nunca assisti coisa igual. Só a torcida mexicana com seu traquejo de touradas poderia, de forma tão sincronizada e perfeita, dar um Olé daquele tamanho. Toda vez que Mané parava na frente de Vairo, os espectadores mantinham-se no mais profundo silêncio. Quando Mané dava aquele seu famoso drible e deixava Vairo no chão, um coro de cem mil pessoas exclamava: Ôôôôôô-lê! As agências telegráficas enviaram longas mensagens sobre o acontecido e deram grande destaque ao Olé. As noticias repercutiram bastante no Rio e a torcida carioca consagrou o Olé. Foi assim que surgiu esse tipo de gozação popular." E João ainda contou que os argentinos jogaram entusiasmados com o sorteio da Copa do Mundo da Suécia: "Chegaram até a dançar de satisfação. Enquanto o Brasil pegava a chave mais carne de pescoço, com a Áustria, Inglaterra e União Soviética, a deles era a mais fraca." Este período romântico do futebol era também salpicado de suborno, doping, racismo e bagunça. "O que determinou a concentração no futebol brasileiro foi o suborno. Até espias havia para examinar os visitantes. Se chegasse alguém suspeito... Esta era uma preocupação constante de clube grande e o raciocínio era simples: se nós estamos sempre pensando em dar na horta deles, eles também devem estar pensando nisso." Já a célebre goleada de 6x2 do Botafogo na final de 57, no favorito tricolor, com 5 gols de Paulinho Valentim, teria sido regada a Exebrin, um remédio alemão usado na Segunda Guerra para entusiasmar a nazistada. Segundo o vocabulário da época, jogadores dos dois times teriam tomado uma pimenta. Já o preconceito racial era escancarado. Revela, nos anos 50, ter escutado de cartola: "João, vê se dá um jeito nisto e manda esses crioulos saírem da sede." Lógico que não seguiu o pedido - até porque aquele mesmo diretor "entrava no campo depois da grande vitória e abraçava-se a todo o time, brancos ou pretos, suarentos e fedidos." Mas, fora meia dúzia de páginas mais sérias, a obra é uma entregação das traquinagens do elenco. Para quem gosta, um prato cheio, um buffet com as reflexões deste técnico-jornalista e as caravanas aéreas do alvinegro no final dos anos 50. Falado assim, pode parecer areia, mas é ouro em pó. São impagáveis e deliciosas as peripécias do Botafogo e seu ataque campeão do mundo pelas Américas e pela Europa, sempre sob a égide da desorganização: "A bagunça organizada é um fenômeno geral de todos os grandes clubes brasileiros." Mal sabia ele no que isso daria, e que viraríamos um país de Olarias. No fim, o que vale é mesmo o tanto que se ri com as excursões mambembes em troca de vinténs, com o Garrincha querendo comer todo mundo. E o pior: conseguindo...

Livraria José Olympio Editora, 165 páginas