"Bismarck", por Jonathan Steinberg


Bismarck, o chanceler de ferro. Bismarck, o homem que unificou a Alemanha. Bismarck... Não sei você, mas eu já li centenas de menções entusiasmadas sobre Otto von Bismarck. Como não integro o clube dos eruditos que sabem tudo e conhecem a história de cabo a rabo, me mordia de curiosidade cada vez que o bendito nome do chanceler de ferro aparecia. O último desaforo que levei para casa foi no Musée de l'Armée, em Paris, vendo alas sem fim dedicadas à Guerra Franco-Prussiana (maior conflito bélico europeu no último terço do século XIX), vitória germânica atribuída ao gênio do chanceler. OK, um colosso. Mas exatamente o que fez o Bismarck? Deve ter sido um puta general, guerreiro matador, um Átila teutão. Fiquei com essa ideia vaga. Não sei se você, que me lê, deita cátedra sobre a trajetória de Bismarck; eu não sabia. Aí por esse tempo li no jornal um comentário de uma biografia esplêndida sobre o dito cujo, elogiada por ninguém menos que Simon Sebag Montefiore, fenomenal biógrafo de Stalin e que também escreveu uma obra estupenda sobre a cidade de Jerusalém (veja ambas aqui no blog). É? juntou a fome com a vontade de comer. Não perdi tempo. Encarei. Um tijolaço, amigo. Coisa pra segurar ponta de barraca. Então. Dei início ao desfrute. Porém... o buraco era mais embaixo. Não era uma biografia dessas tatibitati que a gente tá acostumado. Era coisa das internas. Nada daquela descrição enciclopédica, narrando como cada evento aconteceu, quem fez o quê. Não. Era como se tudo já fosse sabido. Manja a Copa de 70? Imagina uma biografia do Carlos Alberto, o capita, que fala da entrada dele no Lee e o escambau, mas sequer dá o placar do jogo e contra quem era. A toada é assim. O autor pensa que você já sabe tudo e não perde tempo com banalidades tipo onde, como, o que e porquê. O foco é na personalidade do Chanceler de Ferro e a narrativa vai no estômago de cada questão. Os fatos, ao redor (pele, gordura, casaco etc), são circunstâncias que envolvem o personagem - então eles estão implícitos, boa parte do tempo. O autor só escarafuncha as passagens mais herméticas. Isto fez com que eu apanhasse muito, até me adaptar. Engoli a frustração. Não, não era este o livro que eu procurava para fazer a minha iniciação à Prússia pós-napoleônica. Mas - como faço sempre - segui em frente. Sábia e oportuna decisão. Pois que, setecentas páginas depois, posso dizer que o livro é soberbo. Fica claro que não dá para interpretar o século XX sem entender a Alemanha montada por Bismarck. Porque as duas guerras mundiais que reconfiguraram o mundo moderno foram provocadas pelo Reich alemão. E Bismarck foi o sujeito que inventou o Reich. Poderia, neste instante, voltar à minha versão ignorante. O chanceler teria conduzido as tropas contra... Não, como eu já dizia acima, aí é que tive que rever minhas formulações. Bismarck não era militar. Não???? Mas como, se ele foi o conquistador, arquiteto de um país que ele mesmo criou e em todas as suas imagens ele aparece fardado? Pois é. Uma simbologia estimulada pelo próprio. Embora tenha tentado escapar ao serviço militar obrigatório, ele até pertenceu ao Exército, mas por pouco tempo. Abandonou a carreira. A Alemanha, antes inexistente, que ele erigiu, foi feita na política. Mezzo parlamento mezzo conchavo. Mezzo guerras mezzo diplomacia - e, nesta última, temos a essência de Bismarck, com a diplomacia da traição, da mentira e da porrada. No dizer do próprio biógrafo, que descreve como Otto von Bismarck foi um dos maiores de todos os tempos, Bismarck era na verdade um grande filho da puta. Um sujeito escroto até o último fio do bigode (caça-títulos, desfez um acordo de casamento ao saber do nascimento ilegítimo da noiva). Mas genial - o que ele fez, no tabuleiro da política, ninguém conseguiu engendrar, desfazer ou continuar. As nuances da política alemã lembram um butantã de nós de marinheiro. Mas, antes, falemos do seu berço. Steinberg mostra as raízes familiares de Bismarck. Sua origem junker. Seu enorme problema com a mãe dominadora e indiferente. Sua incomensurável insatisfação com tudo e com todos. Suas frustrações como filho de um latifundiário prussiano. Deprimido, quase se matou (ameaça que fez diversas vezes ao longo da vida). Porém, quando descobriu a política, Otto encontrou sua razão de viver. Era talhado para o ofício - e moldou a Alemanha como nós a conhecemos. O autor disseca o biografado, sua circunstância e o mundo à sua volta. E constrói suas teses. Uma delas a da prevalência junker na política alemã que teria viabilizado a chegada de Adolf Hitler ao poder, muitos anos depois (o líder conspirador Papen, um junker, convenceu o presidente Hindenburg, também junker, a indicar o cabo austríaco para a posição que um dia foi de Bismarck - a de chanceler). Mas isso foi o futuro - catastrófico - do passado que Otto ainda estava por erigir. E ele demorou até achar seu lugar nele. Não obstante, quando iniciou a ocupar um espaço na política provinciana, já destoava. Sua enorme capacidade de impor a própria vontade, confrontando e articulando, levou-o da pequena política à antessala do Imperador. E aí, na verdade, começa sua história. Porque o homem mais poderoso da história alemã - esqueçam Hitler, este foi apenas o maior criminoso -, Otto von Bismarck, nunca foi, na verdade, o dono do poder. Ele apenas o tinha emprestado. Porque foi a sua engenhosa estratégia para se tornar o escolhido do Imperador e, a partir daí, o seu imprescindível representante, que lhe conferiu o poder que utilizou para construir a Alemanha moderna. Após anos de participação parlamentar, ao obter - enfim - a indicação para se tornar o chanceler alemão, Bismarck iniciou seu arrendamento da vontade do Kaiser. Durante um período inicial, o Imperador se incomodava com aquele chanceler briguento, centralizador, colecionador de inimigos. Mas o cenário mudou da água para o vinho quando Bismarck manipulou para eclodir a guerra pelo Schleswig-Holstein, tomando para Frederico o pedaço de um reino dinamarquês e emparedando o governo austríaco. Foi seu primeiro grande passo para a construção do Reich, com a Prússia se impondo ao Império Austro-Húngaro e iniciando a costura que levaria os pequenos reinos germânicos a se unirem em uma confederação sob a liderança prussiana, do Imperador Frederico e de sua águia - Otto von Bismarck. O salto que proporcionou a ele assumir, de fato (mas não de direito) a condução de um inédito império alemão foi a provocação, em premeditada vantagem, da Guerra Franco-Prussiana, deixando a França de joelhos e engolindo uma gorda costela do território francês. Sua crueldade e falta de escrúpulos, a serviço de uma intuição genial, foram a tônica da sua complexa diplomacia externa, sempre se equilibrando em acordos sensíveis com Rússia, Inglaterra, Áustria e França. A Europa se curvou a Bismarck, a contragosto. Entrementes, dentro da nação que alinhavara, o combate era sem trégua. Segundo Steinberg, o grande Bismarck queria cuidar de cada ínfimo detalhe, da emissão dos selos postais aos escriturários de província. Não havia briga pequena demais que ele não quisesse encarar. Qualquer mínima oposição à sua vontade era razão para odiar o (a) imprudente até o últimos dos seus dias, se vingando da maneira mais torpe que pudesse encontrar. Tal temperamento o tornou odiado, pelos seus iguais, nocivo, para sua própria saúde, e incompreendido, pelos seus contemporâneos. Para Steinberg, o que Bismarck fez em apenas nove anos - de 1862 a 1871, com a vitória acachapante sobre os franceses - foi "a maior conquista diplomática e politica de qualquer líder nos últimos dois séculos". Segundo o autor, Bismarck fez isso "sem comandar um único soldado, sem dominar a vasta maioria no parlamento, sem o apoio de um movimento de massa, sem qualquer experiência de governo anterior e diante de uma repulsa nacional a seu nome e sua reputação". Vale esmiuçar que foi determinante a sua capacidade de manipular o rei e de neutralizar a família real, levando a discórdia ao palácio; ter se imposto aos militares, à exceção de Moltke, com quem culminou por fazer uma trégua; ter minado e destruído o poder de príncipes soberanos de estados alemães e por fim simplesmente ter abolido estes estados. Ao fim da vida e de incontáveis vitórias políticas - colecionando também alguns reveses -, acabou provando do próprio veneno, ao ser esvaziado e posto fora pelo neto do Imperador, a quem subestimara. Um capítulo à parte do livro - ainda que não literalmente - é sobre os judeus. Bismarck e os judeus, a Alemanha e o judaísmo. Para Steinberg, uma onda de antissemitismo público surgida no fim dos anos 70 "colocou um ponto final na era liberal e deu início a outro estágio da história alemã, que terminou com o Holocausto". Bismarck, como cabia aos junkers, odiava os judeus e a Kulturkampf. Mesmo os poucos a quem "aliviava", por seu brilho, eram desprezados. Como o compositor Richard Wagner, um dos maiores propagadores do antissemitismo, Bismarck não admitia os judeus como alemães. Wagner, anti-capitalista, via os judeus como "a personificação da vida comercial", corruptores da moral e da cultura por meio do dinheiro. Sua pregação foi massa fértil para a formatação do discurso nazista de supremacia racial. Chamava o banqueiro Nathan Meyer Rothschild de "rei dos judeus". Acusava os judeus de falarem errado o alemão nativo, a ponto de criar uma palavra, "mauscheln", que hoje os dicionários traduzem por "balbuciar", mas cuja definição real é falar como judeu, soar como iídche. Wagner inventou o antissemitismo moderno: "O judeu fala a língua do país em meio ao qual habita geração após geração, mas fala sempre como um estrangeiro. A produção judaica dos sons da voz é estranha e desagradável, um chiado, um zumbido, um fungado. Quando ouvimos esse judeu falar, nossa atenção volta-se involuntariamente ao aspecto repulsivo, e não ao significado do que intrínseco." No entendimento de Steinberg, Wagner foi o primeiro profeta do preconceito contra os judeus, porque, como Nietzsche, a classe junker e Bismarck, rejeitava "a razão, o livre comércio, a propriedade privada, o capitalismo, o comércio e a mobilidade social". Fazia coro com o antissemitismo de Wagner o romance "Soll und Haben", de Gustav Freytag, de seis volumes, talvez o maior sucesso editorial do século na Alemanha. Nele o herói é o jovem honesto e humilde Anton Wohlfahrt (cujo nome significa "bem-estar", em alemão) e o anti-herói é o judeu polonês Veitel Itzig, vulgar, servil e manhoso. Estes textos seriam considerados hoje propaganda nazista - e buscavam atingir um elemento destoante da sociedade em que viveu e na qual acreditava Otto von Bismarck, chanceler, mas em essência um nobre latifundiário deslocado no tempo. Na Alemanha em que Bismarck morria, na última década do século XIX, os judeus eram 4,8% da população. Mas eram 8,6% dos jornalistas e escritores, 25,8% dos envolvidos com o mercado monetário e 46% dos atacadistas, varejistas e transportadores. Entre os universitários, 10% eram judeus. Uma medida trazida pelo autor que mostra a desproporção de ganhos assinala que, em Hamburgo, em 1871, 43% dos habitantes ganhava menos de 804 marcos, enquanto apenas 3,4% dos judeus estava neste grupo. Em todo o Reich, em 1908, das 29 famílias com mais de cinquenta milhões de marcos, nove (31%) eram judaicas. Ou seja, um em cada 20 alemães era judeu; mas uma em cada três das famílias mais ricas do país era judaica. Estes números dão a dimensão do incomensurável e tentador butim que havia por trás do maníaco discurso antissemita dos seguidores de Adolph Hitler. Voltando a Otto von Bismarck, a imbatível nação que ele deixou como legado era ainda socialmente atrasada, semifeudal, hierárquica, arredia ao voto popular (Bismarck usou o sufrágio masculino universal para minar o poder dos príncipes, mas ameaçava anulá-lo quando lhe convinha) e contrária ao liberalismo que eclodia - e os judeus alemães eram protagonistas desta revolução liberal. Contrários a ela, políticos como o barão Carl Constantin von Fechenbach buscavam construir uma aliança antissemita de católicos e protestantes. Ludwig Windthorst, o maior parlamentar da geração de Bismarck, se opôs na Câmara dos Deputados da Prússia contra a Petição dos Antissemitas, em um grande debate sobre a questão judaica ("die grosse Judendebatte"), que tomou de 20 a 22 de novembro de 1880. O popular romancista Bertold Auerbach, que ouviu o debate, escreveu ao irmão: "Vivi e trabalhei em vão. O conhecimento do que vive em peitos alemães, passível de explodir a qualquer momento, não pode ser erradicado." Eça de Queirós, em Berlim na época, não conteve seu espanto: "Isso deixa a colônia judia desprotegida para encarar a raiva da grande população alemã." Na véspera do Ano Novo de 1881, uma passeata antissemítica invadiu lojas pertencentes a judeus aos gritos de "Juden raus!" (fora, judeus!). Toda esta algaravia rascista não era em nada estranha à política de Bismarck, o ditador. Tanto que, na reabertura do Landtag, Eugen Ritcher ligou este àquela: "Os momentos começam a subir pelo casaco do príncipe Bismarck e, por mais que ele os rejeite, eles se aconchegam junto a ele e o chamam como crianças barulhentas cercadas por seu pai." A metáfora, bela como a época (quem hoje em dia faria metáforas deliciosas assim?), expõe a estreita ligação entre o chanceler e o antissemitismo crescente e ostensivo. Por ocasião do Judendebatte de um ano antes, ele havia escrito ao seu ministro do Interior, Robert von Puttkamer: "Os judeus endinheirados tinham interesses em equilíbrios interconectados com a manutenção das instituições de nosso Estado e sem as quais não podemos viver, mas a judiaria sem propriedades, que prende-se a toda oposição política, devia ser esmagada." Ou seja, o preconceito de Bismarck, se enraizado em sua personalidade, era sobretudo oportunista. Um outro fenomenal parlamentar da geração de Bismarck, o judeu Eduard Lasker, e também seu maior adversário, considerado porta-voz dos direitos e da liberdade da Prússia e do Reich, escreveu, neste mesmo dezembro de 1881: "Nas eleições, o povo definitivamente rejeitou o antissemitismo de forma pavorosa e, em seu sujo conteúdo, tão completamente quanto se poderia desejar. Não seremos capazes de lidar tão facilmente com os outros elementos do poder reacionário. Bismarck não é um inimigo a se subestimar, mesmo quando comete erros e age passionalmente. No estágio atual da sociedade, muitos problemas existem, e quando um governo poderoso olha em volta em busca de programas populares, então eles podem encontrar alavancas eficazes, as quais, após muito uso, não os abandonará." Lasker considerava o antissemitismo artificialmente inflado pela elite, que o fazia parecer como se decorrente de um sentimento popular. As eleições tinham provado que não. Abro um parênteses aqui para me desculpar, por me demorar demasiado na questão judaica. Estou sendo desproporcional perante o espaço que ela recebe no livro. É que, mesmo não sendo judeu - apesar do nome, do nariz e de ser mão-de-vaca -, tenho ascendentes judeus, sou curioso sobre o assunto, e as revelações trazidas pela obra de Steinberg eu jamais havia deparado antes. Valiosas, demonstram o quão arraigados eram os sentimentos anti-judaicos na sociedade alemã, ainda que manobrados pelas classes ricas em direção às classes mais humildes. O próprio autor correlaciona a política imperial e antissemita de Bismarck como semeadora da ânsia coletiva por um chanceler como Hitler. Em suas próprias palavras, "o antissemitismo e seu veneno antiliberal entraram na corrente sanguínea da Alemanha, vindo a se tornar ainda mais virulento na atmosfera acalorada da Primeira Guerra Mundial e letal em seus desdobramentos. Isso também foi um legado de Bismarck." Estas idas e vindas no tempo são assíduas na obra. Mas, retornando ao momento em que assumiu o poder e se valeu da concessão do voto à população masculina como instrumento para minar o poder dos principados, Otto von Bismarck pavimentou não somente o caminho para a unificação como, sem saber, forjou o país que no fim do século XIX dominaria a Europa Central, com meios de transporte e de comunicação superiores (estradas de ferro, navios a vapor, telefones e telégrafos ), uma ciência superior (institutos tecnológicos, população alfabetizada, profissionais de excelência em medicina, física, química e engenharia), uma infraestrutura superior (indústria pesada, fábricas gigantes, minas, moinhos, hospitais modernos e portos prósperos) e um poder bélico temível (o melhor exército e a segunda maior marinha). Do outro lado, o sistema de propriedade da terra, da qual Bismarck era um expoente exemplar, se mantinha arcaico. Há quem diga que esta contradição entre modernidade e feudalismo foi importante componente na condução do país para duas guerras genocidas. Talvez. Mas impossível resumirmos em poucas páginas o horizonte espacial e temporal coberto pela obra. Uma reflexão final, entretanto, resta aos brasileiros do século 21: a relevância da política. A reformulação territorial da Europa foi uma obra política de Otto von Bismarck, que se valeu para isso de avanços e retrocessos, verdades e mentiras, alianças e conluios, traições frequentes e constante beligerância. Era o ocaso do regime monárquico. O sistema eleitoral era recém-nascido, mas a representação das câmaras, as artimanhas do poder e os conchavos para aprovação de leis e reformas já estavam lá. Ainda que nossos políticos sejam mais toscos do que sonharíamos, eles são instrumentos para a reformulação do país e da própria política. Bismarck mudou o curso da civilização ocidental, mas pouco mudou a si mesmo. Seria bom que lucrássemos na observação da rica e complexa trajetória alemã e aprendêssemos como mudar a nossa História. Se é que isso é possível; mas só dá para descobrir tentando.

Editora Amarilys, 705 páginas

"O que é isso, companheiro?", por Fernando Gabeira

Guri, sempre tive esse questionamento. Como é que pode a vida estar tão amena para uns, enquanto, àquela mesma hora besta, outros sofrem implacavelmente? Me lembrei desse pensamento de criança nas últimas páginas do livro do Gabeira. Ele, preso, escutava a estreia do Brasil na Copa de 70. Eu, nove anos recém feitos, estava no chão da sala, em Teresópolis, de olhos vidrados na TV preto-e-branca. Como eu podia estar tão alheio ao sofrimento humano, que acontecia naquele mesmo minuto, em um mundo que desconhecia? Pois é. Como desconhecia, comemorei os gols, principalmente os do Jairzinho, o que me fez doravante torcer pelo Botafogo. Mas isso é outra estória. Daquele Gabeira que estava preso, só vim a saber muitos anos depois. À época, pareciam muitos. Mas até que são poucos, vistos daqui, da posteridade dos velhos. Aos dezoito anos, eu fazia faculdade em Niterói e uma das minhas leituras de barca, então, foi o livro de Fernando Gabeira. Lembrei disso agora, porque há duas semanas a turma da minha antiga faculdade se reuniu para comemorar os 50 anos do Instituto de Comunicação Social, na Lara Vilela. O IACS. Confirmei presença, os amigos agendaram cruzarmos a baía juntos, como nos velhos tempos. Mas deu ruim e não pude ir. Meio que para compensar, tirei da prateleira uma reedição do antigo livro de Gabeira (aquele tal exemplar que li, já não sei, dei, perdi). Era um jeito de recuperar a barca perdida, relendo, trinta e tantos anos depois, um velho companheiro da travessia Rio-Niterói. Mero retorno às utopias de juventude? Ou estes novos tempos pirotécnicos, de ignorâncias inflamadas, me fizeram buscar o ponto de partida, onde tudo começou? Porque "O que é isso, companheiro?" foi exatamente isto: um início. Um portal de entrada no mundo dos subversivos e dos exilados, para mim um passado povoado de enigmas e escasso em explicações satisfatórias. Confesso que via o relato do repatriado com um pé atrás: aquele magricela aviadado de sunga de crochê era um terrorista que desafiou a ditadura? Eu era cético em tempos politicamente incorretos, onde se fumava no elevador e se chamava os outros de viado. Passado remoto. Hoje os viados foram extintos. Talvez em breve nos tornemos hermafroditas, ou ambicionaremos ser. Enquanto este breve tempo ainda demora, sigo lendo os contemporâneos (viados ou não). Se quando li pela primeira vez a narrativa das prisões da ditadura eu era um néscio, agora já acumulei alguns relatos. Vão se tornando repetitivos - afinal, torturadores e meganhas não tinham compromisso com a originalidade -, mas sempre se aprende alguma coisa. Juntando aqui e ali, vamos montando uma visão abrangente e entendendo o mecanismo. Então, nesta minha releitura, a narrativa de Gabeira perde em surpresa e contundência, mas permanece rica em conteúdo. Até porque Gabeira tem uma prosódia que é só dele. Um ritmo único, sereno, envolvente, que te cerca não como uma tropa, mas como um riacho se imiscuindo na ramagem ribeirinha. O tom doce nos distancia do olho do furacão e reduz as importâncias supremas, evidencia o ridículo das circunstâncias. Como quando o Cabo Afonso comemorava que estavam descendo a porrada nos socialistas e foi advertido por um tal Zé Maria: "Cabo, os socialistas somos nós." (Quase ia escrevendo Cabo Daciolo, este inacreditável candidato a presidente que virou personagem semanal da coluna do Gabeira de 2018.) Ou o pobre japonês que alugou uma casa que havia pertencido à Embaixada do Peru e que era invadida, todos os dias, por gente pedindo asilo, até que o já desesperado nipônico pediu asilo ele mesmo na embaixada certa, a do Japão. Ou acordar no aparelho subversivo sem a gostosa e ao lado de um enorme boneco do Tio Sam. Ou o azarado flamenguista amigo do Razek, que foi reclamar da tigrada da repressão, achando que eram guardas de trânsito, acabou preso e passou um mês no pau-de-arara. Ou o Amazonas, o jornalista ajudante de terrorista que sumia sempre que se precisava dele, e que, quando entrou na garagem da casa em que o Embaixador americano foi sequestrado, viu a Kombi deixada pelos colegas e pensou: "Ué, esta Kombi é minha." Na verdade, a compra do veículo utilizado na ação tinha sido no nome dele, e ele a reconheceu de bate-pronto. Amazonas virou-se para o colega fotógrafo e disse: "Amigo, vai tirando as fotos que eu vou na esquina telefonar." O Amazonas, esperto, só reapareceu na Suécia. Tem também filosofia digna de para-choque de caminhão, como quando diz que "antessala de cadeia é como trem partindo: não dá pra começar assunto novo, nem dá pra completar os velhos". O best-seller de Fernando Gabeira tem uma primeira metade que vai bem nessa toada - livre, novidadeiro, pronto pro que der e vier. Gabeira conta como saiu da vida de jornalista e caiu na clandestinidade, como foi o cinematográfico e lendário sequestro do embaixador, como os grupos de esquerda eram primários e desarticulados. Sobretudo, carentes de mão-de-obra. Depois do AI-5, a fonte humana secou, os terroristas não conseguiam sangue novo, as aquisições aconteciam apenas quando trocavam de grupo, por conta de querelas ideológicas. Reciclagem estéril. O próprio grupo do sequestro de Charles Elbrick se chamava MR-8 aproveitando o nome de um antigo grupo MR-8, do Paraná, que havia caído todo. Ou seja, era o MR-8-2. A segunda metade do livro tem uma levada mais reflexiva sobre os problemas da esquerda e os próprios problemas de Gabeira como preso. Ele havia sido capturado após, na fuga, levar um tiro nas costas. Dali foi para o Hospital do Exército e, subsequentemente, para as mais variadas prisões de Rio e São Paulo. Ressalta que sua experiência como torturado (incluindo choques no pênis e invasões anais) foi muito tímida se comparada a de dezenas de outros subversivos. Acredita que foi salvo pelo tiro - que o fez passar mais de um mês no hospital, impedindo que os torturadores o apresentassem a todo seu arsenal inquisidor. Na parte teórica, Gabeira condena a tentativa de proletarização dos intelectuais e desnuda a farsa da esquerda, carente de trabalhadores que legitimassem seu discurso ("um operário para vinte trotskistas"). Não poupa, já no ano em que o Partido dos Trabalhadores estava em gestação (PT do qual Gabeira é fundador), os "burocratas de esquerda": "Num certo sentido, foi bom não termos tido uma grande faixa de poder ao nosso alcance, pois os erros iriam liquidar nossas esperanças por muitos anos." Não só aqui - mas também aqui -, Gabeira, lúcido e corajoso, foi premonitório. À Gabeira não falta a suprema coragem de expor a própria covardia, ou seja, a racionalização de riscos, como quando discute com Lúcio Flávio (assaltante de bancos que se tornou lendário por ser boa-pinta e articulado, protagonista, nos anos 70, na pele de Reginaldo Farias, do sucesso nacional de bilheteria "Lúcio Flávio, o passageiro da agonia") a conveniência ou não de fugir. O larápio fugiu de todas as cadeias, Gabeira nunca tentou. De certa forma, Fernando Gabeira é um elo inestimável da civilidade que a todos conviria priorizar e que, ousado, trafegou pela barbárie que todos deveríamos intuir - e evitar. De proeza em proeza, antes de serem todos presos e/ou assassinados pela ditadura, o embaixador alemão foi sequestrado e Gabeira entrou na lista dos que deviam ser libertados (vida dura a dos embaixadores naqueles anos psicodélicos no Rio de Janeiro, ehm?). Gabeira voou para seu exílio ao redor do mundo e eu soube da sua existência na dia da volta, em 1979, na foto de capa do JB, que celebrava o retorno de mais um exilado. "Exilado? De onde?", eu me perguntava, encafifado. Aí ele lançou o livro, eu, curioso, comprei, e aí voltamos ao início desse relato. A estranheza que era unir sua figura andrógina ao seu histórico guerrilheiro, quando eu era adolescente, foi se transformando, através dos anos, em reconhecimento e admiração. Para mim, Gabeira é como o sábio da montanha, aquele cara que vive no alto do morro, dentro de uma caverna, em êxtase - somente interrompido quando um discípulo em busca da redenção vai até ele ouvir a verdade da vida. Fernando Gabeira, pequeno verbete da história brasileira, é o exemplo acabado de como não sabemos aproveitar os nossos melhores (a sabotagem desleal da sua campanha a prefeito do Rio, em 2008, ainda está entalada na minha garganta). Sina bananeira. Fiquei feliz ao saber que o Hotel Quitandinha faz parte das suas memórias de infância, dos tempos de menino em Juiz de Fora. É um pedaço das minhas reminiscências de moleque também, em Petrópolis. Foi lá que ele viu, pela primeira vez na vida, mulher fumando e, ainda por cima, de calças compridas. Fosse duas décadas depois, podia ser minha mãe, correndo atrás de mim.


Editora Estação Brasil, 237 páginas

"A farra dos guardanapos", por Sílvio Barsetti

Hoje, 14 de setembro, faz nove anos que Paris sediou o banquete que entraria para a História - mas por razões muito diferentes das imaginadas à época. Com "A farra dos guardanapos", Silvio Barsetti conta em pormenores o passo-a-passo da concessão da medalha das medalhas, a Légion d'Honneur, a um político carioca. Na descrição, o autor se inspira em uma outra festa, longínqua, mas memorável: o baile da Ilha Fiscal, o último baile do Império. Se o paralelo procede ou não, pouco importa, porque Barsetti se dedica mesmo é ao ex-governador do Estado do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, e à sua movimentada trajetória política. Acima de tudo, a tudo que o desmerece (o que não é pouco). Antecipo que, pela forma com que os fatos são narrados, não fiquei convencido ver no autor uma genuína paixão pela história; achei mesmo um livro mais casuístico, com um lado bem definido. E, cá pra nós, um livro com lado, cujo tema é a política atual, é um livro que deve ser lido com certa dose de reserva. Se é esperado que todo autor tenha seu propósito, entendo que nem todo propósito é adequado: o registro jornalístico combina melhor com a isenção. Com a busca do controverso. Mais ainda um livro-reportagem, que tem a vocação do documento histórico. Pois é. Adianto logo que, a meu ver, a pauta é inquestionável. Não há quem duvide que a tal farra foi um escárnio. Uma agressão ao cidadão-eleitor, que não deve perder a chance de se inteirar sobre o acontecido. Por isso, reitero, comprei o livro. Considerei um gesto relevante de cidadania. É um livrinho pequeno, com uma capa feia, provavelmente resultado da necessidade de uso da foto escandalosa, um flagrante amador. Sem maiores problemas. Muitos bons livros têm péssimas capas. O tema central é um momento nada enaltecedor da nossa história recente: uma festa em Paris para condecorar Sergio Cabral com a tal medalha, com a presença entusiasmada de ampla comitiva (boa parte dela financiada com dinheiro público). À época, setembro de 2009, pouco ou nada se falou. Mas tudo veio à tona três anos depois, quando o blog do ex-governador Anthony Garotinho divulgou as imagens clandestinas do evento. As fotos surpreenderam a população, pela falta de decoro, mau-gosto e atrevimento. A festa ficou conhecida como "A farra dos guardanapos", pelos flagrantes non-sense em que integrantes do governo e empresários vencedores de licitação celebram, às gargalhadas, com guardanapos na cabeça. Por maior que seja o insulto ao "povo", porém, o livro é ralo. Falta informação relevante. Então, empurrando a farra para o canto da mesa, o livro tem que ser tomado pelo que é: uma reportagem crítica aos governos Cabral e à sua conduta política e pessoal. Pior é que as tintas fortes derramadas na cabeça do ex-governador - atualmente cumprindo pena por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, com uma condenação que, somada, monta a 170 anos e 4 meses de prisão - poupam outros protagonistas da cena política fluminense. Isto traz um desconforto para o leitor atento. Dá um ar de orquestração política à publicação. Pena. Fora de dúvida que esta possível parcialidade narrativa não inocenta Cabral, pois os fatos comprometedores descritos são de conhecimento público. Mas deslustra a obra e torna suspeita sua motivação. Mais: além de poupar nomes graúdos, que têm sabida ligação com o governador condenado (e alvos também de denúncias e investigações), aqui e acolá o texto parece outorgar um atestado de correção a certos envolvidos no esquema denunciado - o que, novamente, desmerece sua qualidade jornalística. Como disse alguém em algum lugar, "jornalismo é sempre contra; jornalismo a favor é propaganda". Bem, ao livro. Ele faz uma pequena digressão sobre a infância e juventude de Cabral. Fala de algumas das denúncias de corrupção. E revela detalhes das inúmeras viagens do ex-governador a Paris, misturando-as todas com a festiva noite que acabou com fornecedores do Estado do Rio e os secretários deste mesmo estado dançando, bêbados, com guardanapos na cabeça. Ausência sentida na boca livre, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva é citado frequentemente como aliado, parceiro e apoiador, além de amigo íntimo. Barsetti contextualiza o momento fantasticamente positivo de ambos. Publicações de expressão mundial - como a inglesa "The Economist", a norte-americana "Newsweek" e o francês "Le Monde" - exaltam os dois políticos. A própria farra do título se deu uma semana depois da visita de Lula a Paris, onde o brasileiro acertou com o presidente francês Nicolas Sarkozy a compra, pelo Brasil, de US$ 20 bilhões de dólares em equipamento militar da francesa Dassault (a transação deu com os burros nágua, pois a Dassault foi trocada pela sueca Gripen, e ainda assim o negócio gorou, face às as denúncias de favorecimento e corrupção; hoje a quase-venda foi transformada em ação penal que apura o pagamento de suborno a Lula e a um dos lulinhas, acusação reforçada esta semana pela delação do ex-ministro e chefe da Casa Civil Antônio Palocci, que reafirma que Lula recebeu propina na negociação posterior com os suecos). Retornando à dupla poderosa, o autor, para dar a medida da proximidade de ambos, menciona as disputas de mexe-mexe - jogo de baralho que Lula e Serginho adoravam jogar - na mansão dos Cabral em Mangaratiba (a propósito, confiscada pela Lava-Jato e leiloada ontem por R$ 6,4 milhões, 20% abaixo do valor mínimo) e ressalta que houve 38 encontros, registrados em agenda, entre os dois políticos no biênio 2007-2008. No ano da farra, segundo o autor, Cabral teria dito: "Eu amo o Lula como um filho ama o pai." Espirituoso, Barsetti diversas vezes é sarcástico com o ex-governador. Já Eduardo Paes, aliado de longa data de Sergio Cabral e cuja relação era um apaixonado casamento de interesses, é preservado por Sílvio: em mais de uma ocasião o autor bate forte em Cabral e blinda o ex-prefeito do Rio de qualquer participação. Fato é que Eduardo Paes era um dos convivas presentes à farra. Segundo o autor, contra a própria vontade: "Definitivamente, o prefeito não queria estar em Paris. Mas não conseguiu dizer não ao todo poderoso comandante da política fluminense. Passou boa parte da noite tentando disfarçar sua contrariedade com cumprimentos protocolares e uma expressão menos sisuda." Ao comentar a eleição do alcaide, Barsetti não esconde o entrosamento dos dois, mas justifica: "O novo prefeito segue fielmente Cabral, antevendo uma série de investimentos para a cidade." Entretanto, quando da festa em Paris que condecoraria Cabral e se tornaria um escândalo, Paes, "ao receber o convite, faz corpo mole, se recusa a ir (...), sabe que vozes indiscretas do Palácio Guanabara tratam aquela viagem a Paris como um carnaval fora de época, com muito dinheiro público. Recolhe-se e comunica a Cabral a decisão de ficar em casa. O governador, irritado, exige que o prefeito esteja na homenagem." Não tenho acesso a nenhuma informação privilegiada, nem acompanho a rotina dos investigados (todos os políticos citados no livro, soltos ou presos, são ou foram alvo de investigação). Mas, em sendo necessário, se convocado a depor sobre este ou algum outro episódio futuro ou pretérito, Eduardo Paes sempre poderá usar o livro em sua defesa. Segundo o autor, aparentemente imbuído da missão de justificar a presença de Paes no regabofe, os apelos para convencê-lo a ir foram intensos: "O governador se encontra com seus amigos e pede que o ajudem a demover Paes. (...) Durante um dia inteiro são vários telefonemas para Eduardo Paes. Ele dá as mesmas desculpas e muda logo de assunto. Sob pressão, com tanta insistência do governador, acaba cedendo." O texto é tão cuidadoso com Paes que até mesmo a foto em que ele, Paes, três meses depois da farra, beija a mão de Cabral em Vila Kennedy (prova inequívoca de sua subserviência e adulação), é minimizada, como se a reboque de uma estratégia: "Paes sabia que a foto seria destaque na imprensa. O gestou soou como calculado." Retrocedendo ao evento de três meses antes, a tal farra em Paris, o ex-prefeito não deixava entrever que em 90 dias beijaria a mão de Cabral. "Paes hesita um pouco antes de cumprimentar seu chefe político. E quer saber quem são os homens que cercam e lisonjeiam o governador e acompanham com tanta atenção a tradução de Julio Lopes. Está curioso, olha para o grupo seguidamente e depois comenta algo com Pedro Paulo, como se estivesse impressionado com o glamour do evento e a presença de tantos franceses ilustres." Então voltemos à tal festa, onde foram feitas as tais fotos. A bem da verdade, o evento rende pouco como personagem. Barsetti fez um belo esforço de apuração, mas há pouca substância. Além da descrição em pormenores das mesas, do casal de dançarinos, da comida, dos garçons e das gafes, tudo se restringe a uma grande boca-livre financiada parte por dinheiro público e parte por empresas privadas com interesses escusos, e que ganhou dimensão por conta da divulgação de fotos ridículas. Um conteúdo assaz apetitoso para colunas sociais e para o jornalismo marrom. O que não impede que entre as páginas da obra possamos coletar curiosidades. Como ser informado que Adriana Ancelmo, a primeira-dama, recebeu em 2010 o Troféu Dom Quixote, do Supremo Tribunal Federal, "por se destacar na defesa da ética". No mínimo, divertido saber. Quem quiser fofocas sobre a vida de luxo do casal não poderá se queixar (como descobrir que a suíte dos Cabral em Montecarlo custou meros oito mil euros - por dia). Para encerrar, informo aos incautos que quem se interesse pelo desdobramento posterior da vida dos citados os encontrará na prisão ou no horário eleitoral (há até quem consiga estar em ambos os espaços ao mesmo tempo). E se alguém quiser saber por que, afinal, os distintos empresários e funcionários públicos colocaram os guardanapos na cabeça, a única resposta oferecida pelo livro é a do dr. Sergio Côrtes, secretário de Saúde no governo Cabral (atualmente preso, mas nunca se sabe): "Foi uma brincadeira. Falei na hora: 'vamos operar'. Estávamos operando."

Editora Máquina de Livros, 172 páginas

"Um cavalheiro em Moscou", por Amor Towles

O livro em questão é a) uma obra plena de presença de espírito, elegância e erudição. Domínio absoluto do texto. Um passeio pela alma e pela história russa, a uma distância segura dos clichês. O prisioneiro e bon-vivant Conde Rostov é um personagem antológico; b) uma longa sucessão de capítulos melosos, onde não acontece absolutamente nada, exceto gansos correndo escada abaixo e harmonização de vinhos blasé. Um fraseado pretensioso, sob medida para quem não tem mais o que fazer, ou melhor, o que ler. Romancezinho água-com-açúcar. E então? Em qual das duas sentenças você apostaria exprimir melhor a personalidade deste best seller? A bem da verdade, "Um cavalheiro em Moscou" teria em ambas uma boa introdução. Com o selo na capa "mais de um milhão de exemplares vendidos nos EUA", já era de se esperar que não fosse bom - imaginava eu que fosse uma obra rasa (e é) e repleta de lugares comuns (né não). Porém, seja por qualquer prisma que se olhe, é um livro que agrada às boas almas. Uma estória simples, com aquela ingenuidade arrebatadora dos filmes de Frank Capra, onde os mocinhos são seres humanos exemplares - corajosos e altruístas - e os malvados são só uns sujeitos mal-humorados e mal-amados. O trio Aleksander, Emile e Andrei (que poderiam ser listados no zut como trios famosos, se é que você alguma vez já jogou o zut) parece a trinca de fadinhas da Bela Adormecida: Fauna, Flora e Primavera, com sua amorosa rabugice. Visto de um ângulo mais rigoroso, certamente é um livro que poderia esperar mais alguns vinte anos para ser lido - eu realmente tenho mais o que ler. Ele não faz a menor falta a ninguém. Mas dizer que ele não tem seu charme seria uma mentira descarada. Agora que li-lo, me afeiçoei. É ainda um livro bom para se dar de presente. Ressalto que lê-lo ou não lê-lo não fará muita diferença para o presenteado (ainda que as dezenas de irônicos exemplos sobre a vida comunista russa tenham seus encantos). E o que se passa na estória? Bem, sem spoiler, vou contar o livro em meia dúzia de linhas: um aristocrata russo é condenado e preso pela revolução bolchevique. Ao invés de ir para uma cadeia ou para a Sibéria, ele é autorizado a continuar morando no sofisticado hotel em que já morava (o Metropol, esse aí da gravura). Não poderia, entretanto, jamais sair do hotel. Ele deixa de ser hóspede/cliente e se torna garçon do Boiarski, o restaurante do hotel. Faz amizade com uma menina de 9 anos, também moradora do hotel, que parte, cresce, volta e lhe dá a própria (dela) filha para que ele a crie (dentro do hotel). A menina é o seu xodó e vira uma pianista talentosa. Ponto final. O fato desta estória ser contada com enorme graça e estilo faz com que seja uma estória melhor; mas o jeito de contar não poderia, ou não deveria, ser tudo. Atesto que o conteúdo tem suas curiosidades, como nos apresentar ao sistema de placas de cobre em relevo, pregadas no mobiliário: sem querer, delatavam que este pertencia a quem não os usava. Explico: a riqueza expropriada dos cidadãos mais abastados - casas, móveis, etc - revertia para a cúpula do partido soviético, mas as plaquinhas atestavam que o luxo confiscado pertencia ao povo, embora quem o desfrutasse fosse algum magnata do politburo (palavra não citada na obra, a propósito) ou seus apaniguados. Entre as dezenas de grandes frases do livro (ei, isso já não valeria essa leitura, ô mala?) há uma definição de "pai" que considerei uma obra-prima: "A responsabilidade de um pai não poderia ser mais simples: levar uma criança com segurança à idade adulta, a fim de que ela tivesse uma chance de experimentar uma vida com propósito e, se Deus permitisse, contentamento." Eu, que sou muitas vezes pai, amei. É isso. Acima de tudo, isso. Por fim, evitável a derrapada da tradutora Rachel Agavino, na página 410: "E, quando o Grão-Duque comentou com um amigo que, embora a condessa Chermatova fosse um 'deleite', seu filho era 'pouco confiável', Kemp saberia sem que lhe dissessem que, se um dos dois Chermatova aparecesse à porta (...)." Ora, qualquer tolinho sabe que o sufixo "a" nos sobrenomes russos é exclusivamente feminino. "Um dos dois", portanto, teria que ser "Chermatov". Tão óbvio que me espanta tenha escapado à revisão. Bem, sem ter muito o que dizer sobre um livro que, ainda que carinhoso, pouco me diz, me resta frisar que é um livro peculiar. Adamascado. Nas suas muitas citações ao clássico "Casablanca", quase um alter-ego, esconde-se talvez a "mensagem" do livro, uma doce e melancólica ode à liberdade - no que é primo também de filmes como "A vida é bela", de Roberto Begnini. "Um cavalheiro em Moscou" é uma obra sem rancor, plena de amor pela vida. Em termos de parentesco, um afilhado dos contos de fada, mas de smoking.

Intrínseca, 460 páginas

P.S.: Caso você não reconheça o negão estiloso em frente ao Metropol, é Aliou-Cissé, técnico da seleção nigeriana na Copa do Mundo da Rússia. Disparado o mais distinto cavalheiro em Moscou, este ano.