"1968, o ano que não terminou", por Zuenir Ventura

Sou chegado numa efeméride. Tirei da estante um livro que ganhei há quatorze anos, escrito por Zuenir Ventura há trinta, sobre fatos que aconteceram há cinquenta. Se havia alguma hora para ler o dito cujo, com o autor vivo, era agora. Há que se considerar que, mais citado do que lido (não por pouco lido, mas por demasiado citado, pelo achado do seu título), talvez reflita mais o Brasil de quando foi lançado, o do fim dos anos 80, do que a época que busca retratar. Em parte, nos traz o olhar de 88 sobre o que se passou em 68 - números que, apesar da vizinhança aparente, guardam distância abissal. Este olhar tridimensional (hoje, ontem e anteontem), em meio às inevitáveis figurinhas repetidas, tempera o confuso refogado desta autêntica farofa à brasileira. Embora inicie morna, a obra de Zuenir pega no tranco, lentamente descortinando o turbulento país pré AI-5. Na sua ponderada engenharia, parágrafo a parágrafo o autor empilha seus tijolos, erguendo o muro que até o fim do malfadado ano cercaria a nação. Pegando por mote um tal reveillon na casa de uma tal Helô (a posteridade engoliu sua eventual relevância), Zuenir nos conta o que se passava em 68 na política, na cultura e no universo estudantil. Estava na moda ser jovem. A década chegava aos seus finalmentes com o movimento hippie em evidência. Como diziam os baianos, uma geléia geral: Flower & Power, a Primavera de Praga, as bandas londrinas e a Tropicália. Um período em que a supervalorização da juventude incensava que não se devia "confiar em ninguém com mais de 30 anos". Os jovens tinham o protagonismo e pretendiam possuir o monopólio da ética. No Brasil, a ditadura vacilante de 64 estimulou a pirotecnia dos multifacetados grupos contrários a ela, que, espelhados na sua tibieza, se julgavam mais capazes do que eram. Assim, o ano teria sido uma freada de arrumação no caminhão da História: os medíocres viraram carrascos e os utópicos viraram sepulturas anônimas (na semana passada, a Procuradora-Geral da República Raquel Dodge declarou interesse em rever a Lei da Anistia, que protege os assassinos e torturadores oficiais da época - imperativo negligenciado durante 14 anos por um governo de "esquerda", que revelou mais gosto pela acomodação política e pelas indenizações vitalícias do que pela justiça). Não obstante, visto de hoje, 1968 foi um divisor de águas que tornou lendários os nomes que se opuseram à ditadura, emprestando a eles um dúbio ar de divindade (que os anos vindouros testemunharam mais dúbios que divinos). Escrita 20 anos depois, a obra direciona seus holofotes, em 1988, sobre dezenas de personagens relevantes em 1968 - e que permanecem no noticiário em 2018. Embora ainda não fosse "ninguém" em 68, uma citação sobre Lula feita por Vladimir Palmeira, célebre líder esquerdista no movimento estudantil (e em 1988 deputado pelo PT, partido do qual foi fundador), é reveladora para quem acompanha a crise política de 2018. Comenta então Vladimir sobre a possibilidade de Lula candidato na eleição de 1989: "Hoje eu apoio um candidato à Presidência da República que tem exatamente a minha idade e em 68 era reacionário." Vinte anos após o AI-5, a esquerda não varria ainda para baixo do tapete (como tantas vezes faria depois) o DNA reacionário do líder sindical. Já o próprio Vladimir seguiu deputado por dois mandatos, liderou o PT na Câmara e foi preterido pelo partido na eleição para governador, que optou por apoiar Anthony Garotinho, que acabou eleito. Mas isto é passado, ou o futuro do passado. Voltemos ao livro, que ironizava que "em 68 lia-se como hoje se vê televisão". Impossível conceber que o futuro seria exclusividade dos smartphones. Nem os Jetsons imaginavam isso. Diria minha filha: "Jet... o quê?" Deixa pra lá. Uma manchete do JB de agosto de 68, com uma quadrilha de assaltantes de 12 a 17 anos, motivava a profecia do colunista José Carlos de Oliveira, criticando o abandono dos garotos pobres: "Só pensaremos neles daqui a 50 anos, quando eles forem numerosos como ratos e agressivos como ratazanas bloqueadas pelo perigo." Seria premonitório se não fosse óbvio (e seria evitável se não fossemos tão burros). Prosseguindo com a efervescência esquerdista estudantil e seu marxismo ignorante (ainda hoje em voga), cria-se que o capitalismo brasileiro estava estagnado e que a solução seria "acabar com o capitalismo no Brasil", em prol dos modelos econômicos da China, Cuba e Vietnam. O último inexiste, o segundo virou ruína de parque-temático do fracasso comunista e a China vermelha trocou de política: hoje é uma das líderes do capitalismo mundial, com uma população cuja rotina operária não difere muito do que chamamos de trabalho escravo (a riqueza vai bem, obrigado, concentrada nas mãos do politburo chinês e do empresariado corrupto). Vladimir Palmeira (repleto de aspas na obra de Zuenir, pela sua relevância nos dois períodos - 68 e 88 -, e que não se cogitava submergiria no ostracismo nas décadas seguintes) ironizava o verbalismo da esquerda: "A esquerda brasileira descobriu a revolução e gosta de dizer em público como vai ser a revolução. Ela dá a estratégia, avisa ao inimigo o que vai fazer e diz o que acha. E ela pensa que quanto mais radical o discurso de revolução, mais radical será a revolução." Hoje, 2018, depois do Poder ser ocupado década e meia pela esquerda "revolucionária", viu-se que radical era sua gana pelo empreguismo e pelo dinheiro público (no meio destas cinco décadas, o aliado Garotinho governador já havia apelidado o PT "o partido da boquinha"). O radicalismo de discurso tem muitos momentos no livro (embora nem sempre apontá-lo seja intenção do autor), como na garganteada do ator Hugo Carvana, que defendia no bar uma passeata arriscada e que dizia ter "três culhões" para liderá-la, mas que, semanas depois, em uma assembleia clandestina no TNC, deu no pé assim correu o boato de que a polícia iria cercar o teatro. Segundo Ferreira Gullar, quando olhou para o lado viu, na debandada, "três culhões entrando num táxi". Ficou o chiste, pois estão ambos mortos, de doença e velhice. Não sei se essa reunião no teatro já era exemplo do dentrismo, uma alegada manifestação política, pública, mas oculta, e portanto sem propósito (cujo nome foi cunhado pelo debochado Arnaldo Jabor). Por falar em deboche, o tricolor Zuenir defende o general-presidente Costa e Silva e ataca o Botafogo, aproveitando a deixa de 400 estudantes terem sido levados para o campo do Glorioso ("no gramado do time que iria conquistar, naquele ano, o seu único campeonato nos últimos 20 anos"). A zombaria deu sorte: no ano seguinte, 89, o Botafogo acabaria com a zica. E com o Zico também, se Zuenir e o Bocage me permitem o trocadilho. O racha das esquerdas é uma constante na obra, que situava a esquerda dividida entre revolucionários e reformistas. O revolucionário Fernando Gabeira estava entre os radicais da época, gritando "só o povo armado derruba a ditadura". Trinta e cinco anos depois, Gabeira abandonou o partido que fundou, o PT, no primeiro ano do partido no governo, em 2003, ainda antes do Mensalão vir à público, decepcionado com a diferença entre projeto e ação (ao desligar-se, diria: "Meu sonho acabou, concluí que sonhei um sonho errado"). Zuenir nos apresenta um Gabeira corajoso, que, ainda que jogado numa cela com a barriga aberta por bala, se esforçava em ajudar uma mãe covardemente detida com suas filhas. Mas falávamos do discurso de esquerda, e voltamos a um dos personagens centrais da obra de Zuenir, Vladimir Palmeira, que em 1968 ameaçava: "A partir de hoje, para cada estudante preso, as entidades estudantis promoverão o encarceramento de um policial." Me chama a atenção o blefe petulante e o desaforo articulado como retórica recorrente do esquerdismo: me parece que não foi eficaz há 50 anos e não foi eficaz agora (recentemente tivemos exemplos como "não vai ter golpe", "se condenarem vai morrer gente" etc). O amadorismo e a ingenuidade eram a tônica de um movimento sem futuro, como revela a entrevista feita por Zuenir com um general que preferiu o anonimato, ao revelar o despreparo da organização: nas grandes manifestações da época, as fotos nos jornais e revistas mostram o líder Vladimir Palmeira cercado pelos seus seguranças - segundo o general, pelo menos três eram sargentos da ditadura, travestidos de estudantes. O mesmo militar já troçava do apreço do brasileiro pela deduragem: "O senhor não faz ideia da quantidade de gente que é informante neste país. No meu gabinete eu tinha uma ante-sala onde diariamente chegavam de 10 a 15 camaradas oferecendo informação." Por falar em informação, o livro traz também um relatório da CIA, onde, curiosamente, a agência americana, sempre enxovalhada pela esquerda, faz quase um manifesto esquerdista, mais incisiva do que a própria: "Os estudantes vêm repetindo reivindicações pela reforma do sistema educacional arcaico - melhores professores, melhores instalações e currículos atualizados estão entre seus pedidos - mas não se fazem ouvir. (...) A relutância do presidente para agir sob pressão virtualmente o impediu de fazer qualquer coisa que satisfaça tanto aos estudantes quanto aos militares. (...) Nem o governo Costa e Silva, nem o de Castello, foram capazes - ou não desejaram - de estabelecer uma relação com os estudantes, e os problemas educacionais não foram enfrentados como uma prioridade em termos de necessidades nacionais." Maior defesa do estudante brasileiro na década de 60 eu nunca li, nem ouvi. Assino embaixo. E complemento: deveríamos e devemos investir mais em educação e menos em TVs de plasma, celulares 4G e passagens de avião. O relatório foi publicado no Boletim Semanal da CIA de 30 de agosto de 1968. A estudantada deveria ter cooptado os gringos para o movimento. Seria uma contratação de ganhar o campeonato - e os estudantes talvez fossem alertados da fria que era a participação no hoje famigerado XXX Congresso da UNE no Murundu, em Ibiúna, interior paulista. Ainda que minuciosamente dissecado em anos futuros por jornalistas como Elio Gaspari, Otávio Cabral e outros, o Congresso recebeu de Zuenir um farto e alentado capítulo, que faz sua leitura obrigatória, ainda mais quando se observa que foi escrito em 1988, muito antes das paixões partidárias terem vomitado sobre o registro histórico. A inviabilidade da mega-reunião clandestina era um contra-senso por definição. O autor abre aspas para o então desconhecido jornalista Ricardo Noblat, que havia sido um dos 42 congressistas de Pernambuco, que teria ouvido de um colega de faculdade, oficial do IV Exército: "O congresso vai cair porque já sabemos onde será realizado." Depois, durante a invasão militar, Noblat viu diversas "estudantes" exibirem às tropas suas carteirinhas de informante da polícia. Favorável a um congresso aberto, na capital paulistana, Jean-Marc von der Weid, um dos líderes e também um dos candidatos à presidência na eleição que se realizaria no Congresso, diz no livro: "Sempre me surpreendeu a insistência que a Dissidência de São Paulo manteve até o fim de que aquele negócio podia dar certo." O próprio Zuenir comenta as aspas de Jean-Marc: "Nessa declaração está contida a suspeita de que a turma de José Dirceu tivesse feito algo como um acordo secreto com o governador Abreu Sodré para evitar repressão. O acerto teria sido atropelado pelas autoridades federais." As citações aqui são dignas de nota porque, em 1988, os nomes de Jean-Marc e José Dirceu tinham peso semelhante e eram ambos ignorados pelo grande público. O primeiro permanece semi-anônimo e se tornou especialista em agricultura, segurança alimentar e combate à fome; o segundo se tornou o afamado Chefe de Gabinete Civil do Governo Lula, tendo sido condenado e preso por corrupção no exercício do cargo. Outro medalhão que comandava o evento, o super citado Vladimir Palmeira, tentou fugir, mas foi capturado na fuga. O tema ganha página exclusiva no seu blog (http://www.vladimirpalmeira.com.br/ano1968_6.html), mas sem conteúdo relevante e sem uma mínima análise crítica - coisa que se esperaria de um protagonista. Googlando sobre o assunto, não achei texto com aspas de Dirceu sobre o XXX Congresso. Sua participação é mencionada em diversos blogs, como no Memórias da Ditadura (http://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/jose-dirceu/index.html), mas também sem aprofundamento. Ou seja: fora dos livros, o aprendizado e o confronto de versões é árduo, e raramente nos leva a um conteúdo de lastro (ainda bem, viva o livro). O próprio "1968" cita livros fundamentais para compreensão da ação da esquerda brasileira, como o seminal "Combate nas trevas", de Jacob Gorender, memorável militante e intelectual do Partidão, e já antecipa a obra colossal de Gaspari sobre a ditadura e seus perseguidos (cinco anos depois, em 1993, o hoje expurgado William Waack lançaria seu imprescindível "Camaradas", que, com base em pesquisa nos arquivos soviéticos dos anos 30, faz uma minuciosa autópsia nos anos iniciais da esquerda no país). Deixando os citados e retornando a quem os citou, há que se convir que em seu livro alguns capítulos se impõem a outros. Mais reveladores e agudos são o que relata a visita da comissão de estudantes e políticos experientes ao presidente Costa e Silva, encabeçada por Hélio Pellegrino e Franklin Martins; ou aquele que cobre a Passeata dos 100 mil, tirando um pouco do contorno épico da manifestação e destrinchando sua montagem; ou um outro sobre a pancadaria na Universidade de Brasília; ou os sobre heróis nacionais como o Capitão Sergio e o absurdo caso Para-Sar; ou aquele que registra a resistência cívica de Sobral Pinto. O fato é que comecei a ler o livro descrente e equivocado. Descrente, por achar que seria superficial; equivocado, por crer que seria irrelevante. Purgo aqui meus erros e faço um mea culpa. O livro de Zuenir é bem mais que um título bem sacado. É um documento criterioso sobre um ano fundamental. Qualquer crônica sobre a segunda metade do século no Brasil tem que se deter em 1968. O ano em que a democracia foi chamada à mesa de jogo, pagou para ver e perdeu. O áudio da capitulação está disponível na internet, na voz do Ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho: "Às favas, senhor presidente, todos os escrúpulos de consciência." O bom capítulo sobre a decretação do AI-5 fica obumbrado por esta gravação remanescente da própria sessão. Mas o mais irônico nesta ópera-bufa que é a política brasileira é que o golpe dado em um 1o de abril tenha tido seu relógio atrasado para 31 de março, e que o discurso que deu origem ao AI-5 tenha sido uma bobajada que, inspirada na montagem da peça "Lisístrata", vista na semana anterior, motivara o deputado Marcio Moreira Alves a convocar as namoradas dos pracinhas a não darem para os próprios. Deste gracejo inócuo os beócios partiram para a ignorância e o país não se recuperou até hoje. Tendo De Gaulle dito ou não que "o Brasil não é um país sério", a máxima permanece dentro do prazo de validade (em 1966, dois anos antes dos acontecimentos cobertos por Zuenir, Sergio Porto tinha publicado "Febeapá" - Festival de Besteiras que Assola o País). Visto esse país contraditório dessa lonjura, nos perguntamos: poderíamos ter feito diferente? Pego duas citações pinçadas no livro de Zuenir para responder o irrespondível. Uma delas, apud Djalma Marinho, deputado arenista, que na tribuna, em 10 de dezembro, às vésperas de afrontar o governo (militar) do seu próprio partido, citara o dramaturgo espanhol Calderón de la Barca: "Ao rei, tudo; menos a honra." A outra, de um dublê de agente policial e traficante, que passara a noite de 13 de dezembro de 68 em um plantão sem fim, invadindo casas e prendendo "subversivos": "Esses comunistas vivem bem pra caralho."

Nova Fronteira, 307 páginas

P.S.: O livro foi um presente de um amigo que não conhecia em 68 e que não tenho mais em 2018, mas que durante 40 destes 50 anos foi um irmão para mim. Coisas da vida. Obrigado pelo presente, amigão. Não estamos mais juntos, mas a tua dedicatória estará lá para sempre.

"Inglaterra, Inglaterra", por Julian Barnes

Uma sátira pedante sobre os costumes ingleses, com um hipotético mega parque temático que reproduziria a Inglaterra. Isso mesmo, o país. Ele todo. Por mais inusitada que seja a ideia (de realização literária metade capenga, metade embuste), o autor não é ruim. É um sacana erudito. Caçoa de tudo. Desmonta as tradições inglesas e o comportamento dos seus conterrâneos. Mas faz um livro desigual e confuso. A linha mestra é a transformação da ilha de Wight em um resort turístico-cultural para americanos endinheirados. Ela teria a reprodução dos monumentos e das tradições inglesas, incluindo um mini-palácio de Buckingham, frequentado pela própria realeza, que ganharia um trocado a cada aparição. O autor faz troça da sexualidade britânica e do competitivo jogo de aparências que rege as relações pessoais entre os ilhéus. Não vou negar que me diverti. Ri com o livro. Mas jamais perderia tempo com ele se soubesse de antemão a besteirada que é. Há passatempos melhores. De tudo, porém, se leva um pouco. A fictícia transformação de Wight em um parque governado por uma empresa, a Pitco, traz passagens como esta: "Acho este empreendimento muito excitante. É um puro estado do mercado. Não existe interferência do governo, porque não existe governo. Por isso não há política doméstica ou interior, somente politica econômica. Há apenas compradores e vendedores, sem que o  mercado seja atrapalhado pelo governo central com suas agendas complexas e promessas eleitorais." O raciocínio prossegue: "Lembram-se de todas aquelas comunidades hippies? Sempre fracassavam porque deixavam de compreender duas coisas: a natureza humana e como funciona o mercado." Mas Barnes cansa, com sua atividade mental feérica e repetitiva, onde todos os personagens fazem suas conjecturas e julgamentos de igual maneira. É uma escrita convulsiva, repleta de golfadas, meio-círculos e paradas súbitas, como um ônibus carioca costurando do Aterro à Candelária. Não tiro os méritos de Barnes de em 1998 ter antecipado o roteiro da série da HBO "Westworld". Sua criação da Inglaterra fake em tamanho reduzido, com sua "quintessência" englobando cenários e atores no papel de Robin Hood e seu bando, a invasão da embaixada inglesa no Irã, reis, cavaleiros, filósofos interpretados por canastrões que, em crise de personalidade, se julgavam os próprios, não fica nada a dever à série. O problema é que a série da HBO foi uma porcaria cara e inverossímil, muitos furos abaixo do telefilme original de 1973, com Yul Brinner. Eu, moleque, vi em preto-e-branco e adorei. Voltando à obra, os capítulos alternam deboche e psicorreflexões fora de contexto e para as quais o autor não tem o talento que imagina ter. Ainda que sofisticada, a ironia no discurso de todos os personagens de Barnes - Jack, Martha, Paul, Max etc - deixa todos iguais. E, pior, prolixos. Enfim, o livro é uma interminável falação zombando da Inglaterra e dos ingleses, o que é um problema deles, e me traz a inevitável a dúvida: porque a Rocco teria investido uns capilés neste título? Não faço a menor ideia. Tanto livro bom que não é traduzido e escolheram este ensaio zombeteiro para vertê-lo para a língua de Camões. Alguma razão houve, né? Vá saber.

Editora Rocco, 255 páginas

P.S.: A imagem ao fundo, apesar do Big Ben em obras, não é o parque temático em construção. E este mangue escuro é, sim, o Tâmisa.

"De Pedro I a Luiz Inácio Lula da Silva"

O subtítulo da edição que celebrava os 180 anos do Jornal do Commercio, em 2007, se tornou, com o tempo, mais representativo do que o próprio título, "180 anos do Jornal do Commercio". O diário econômico, com quem eu tive a satisfação de trabalhar por mais de uma década, logo depois soçobrou. Afundou, desapareceu. As carcaças dos grandes naufrágios costumam ser perseguidas e valem seu peso em ouro. Não é o caso deste esquecido transatlântico. Por isso, o estapafúrdio e subserviente subtítulo tem bem mais peso do que seu conteúdo, que agora se destina à antropologia do jornalismo. O JC não está mais entre os vivos. De D. Pedro I a Lula? O imperador, premido aqui pelos políticos, largou o osso e foi fazer a guerra em Portugal, sua terra natal. Lá virou D. Pedro IV, o Rei Soldado, e morreu jovem e doente. E Lula? Que destino complementaria sua biografia? Hoje, 25 de janeiro, dia seguinte à condenação unânime em segunda instância pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o país, qual barata tonta - ou mera criança enganada pelas mãos de um mágico aprendiz -, olha para o lado errado e discute as questões erradas. A polêmica sobre a prisão de Lula é irrelevante para a sociedade real. O que nos é relevante são as regras sociais, as leis e o cumprimento delas. O ponto de partida para o progresso coletivo é a sociedade organizada; o ponto de chegada são as projeções de longo prazo, determinando o que é necessário hoje para atingirmos o que queremos amanhã. Tudo o mais é bobajada. O problema é que nós só nos dedicamos à bobajada. O político corrupto não pode ser sempre o assunto atual - pois, ao se revelar corrupto, o bom senso exige que sua carreira pública seja encerrada. Ele deve migrar da página política para a página policial, permanecendo no âmbito político os que ainda não têm mácula. Pela preservação da sua saúde, a sociedade não poderia confiar a gestão dos recursos coletivos a um corrupto notório. Assim, se o eleitor tivesse discernimento, jamais cogitaria dar seu voto a um político acusado de corrupção. Como não contrataria para a festa de debutante da sua filha um segurança acusado de se embebedar no serviço. E que jamais matricularia sua filha de quatro anos em uma creche cujo dono é acusado de pedofilia. São premissas simples e que prescindem de debate. Este raciocínio primário deveria ser transportado para a região do hemisfério cerebral onde se aloja a opinião política. Rume o eleitor para este patamar mais lógico e os candidatos, sem alternativa, obviamente se refinarão. Os eleitos terão condutas mais adequadas e a gestão será mais eficaz. Os corruptos se tornarão exceção e não a regra. Mas o que ocorre é que a opção do eleitor, seja lá porque razão, é a passionalidade. O eleitor estimula a ladainha, a chorumela, a enganação. Se apaixona. Torce. Defende até as vísceras políticos sem caráter flagrados com dinheiro na cueca, na mala, no táxi, embaixo do colchão, em apartamentos-cofre, no táxi-aéreo, no gabinete, na mesa do primo que ele pode "mandar matar" (políticos banais que, no fim das contas, não são candidatos a santo, gênio ou salvador da pátria, são apenas os eleitos para gerir o dinheiro coletivo que estão escancaradamente roubando). Reitero que este mesmo eleitor não defenderia seguranças acusados de se embebedar no serviço, nem donos de creche acusados de estuprar criancinhas. Hoje perdemos tempo com os duzentos cenários possíveis para que um político condenado por corrupção em segunda instância consiga, ou não, evitar a cadeia e permanecer influente. Sinceramente, não deveria nos interessar. Políticos acusados de corrupção, mesmo os mais populares e poderosos - listo aqui Cabral, Temer, Lula, Aécio, Maluf, Renan, Dirceu, Cunha, Dilma, Palocci, Sarney, Pimentel, Collor, Barbalho, Agnelo, Moreira, Geddel e outros dez mil -, devem ser tratados como o que são: donos de creche acusados de estuprar criancinhas. Merecem repúdio, asco e aversão. Têm que se tornar, a priori, carta fora do baralho. Descartá-los é o mínimo. Que enfrentem seus processos. A questão criminal não interessa à sociedade. Em política, nos interessa a gestão dos recursos coletivos e as políticas de médio e longo prazo a manter e a reformular. Não me convém o político cujo discurso seja o de "mudar tudo", pois eu já sei, de antemão, que ele não vai mudar nada. Este "prometedor de palanque" ou é ingênuo ou age de má fé. Fora com ele. Não se muda nem um botequim em um dia, não será uma cidade, estado ou país que ele irá mudar em quatro anos. Respostas aos anseios populares e projetos para questões básicas têm que ser apresentados com uma antecedência digerível, não pode ser a 60 dias da eleição. Nem é necessário horário político: com a internet, cada um que publique a sua plataforma no início do ano. Sabatinas públicas exporão as convicções dos candidatos sobre os planos propostos e deixarão claras as artificialidades e incongruências. Mas quem primeiro precisa se preparar é o eleitor. Ele, o eleitor, analisa e escolhe. O político é uma consequência da nossa capacidade de analisar e escolher. O resto é estorinha.

"Sobre a tirania", por Timothy Snyder

Mais que um livro, o pequenino "Sobre a tirania" é um catecismo contra o autoritarismo. Um alerta para se ler repetidamente. Um libelo em prol da liberdade. Uma ilha de lucidez: cada parágrafo é um bilhete enfiado pelo náufrago em uma garrafa virtual. Orientado pelas suas convicções, rodeado pela História e assombrado pelos povos que inadvertidamente sucumbiram à tirania, Timothy Snyder identificou em Donald Trump um potencial de dano similar. Então, desprezando os circunlóquios, seu livro é apontado contra o governo de Trump e a ameaça à ordem mundial representada pelo atual presidente dos Estados Unidos. Não pense, entretanto, que é um livro histérico, de alguém que meramente estigmatiza a personalidade controvertida de um velho popstar americano eleito por uma audiência mesmerizada. Não é. Seria uma redução idiota (estamos cheios delas poraí e seria besteira perder tempo com preconceito barato). Se mira Trump, é porque o livro de Snyder é um livro de paralelos. Ele contrapõe os indícios do momento atual aos indícios mal interpretados - ou omissamente acatados - dos regimes totalitaristas do século passado. Historiador do nazismo, o autor é especialista no processo de aceitação do III Reich por parte da população, que aquiesceu com a lenta instauração da tirania, como sapos cozinhados em água fervente. Seu texto é dividido em 20 capítulos e é um livro panfletário, o que seria péssimo; só não o é porque os panfletos são ótimos. Assim, cada capítulo é uma fábula, uma advertência, um panfleto. São intitulados de forma ostensiva, sem rodeios: "Não obedeça de antemão"; "Defenda as instituições"; "Cuidado com o Estado de partido único"; "Investigue"; o alarmista "Mantenha a calma quando o impensável chegar"; e por aí vai. No terceiro deles, um chamamento que nos vem bem a calhar: "Precisamos de votos de papel, que não podem ser adulterados remotamente e sempre podem ser recontados." Para reforçar sua mensagem, convoca pensadores, poetas e escritores. Um dos mais citados é um judeu alemão que pessoalmente admiro, Victor Klemperer. Linguista pouco conhecido (injustamente, penso eu), deixou uma obra ímpar na análise das técnicas de discurso do nazismo: "Na linguagem de Hitler o povo sempre significava algumas pessoas e não outras, os conflitos eram sempre lutas e qualquer tentativa por parte de indivíduos livres para ver o mundo de uma maneira diferente era difamação do líder." Falando em linguagem, ferramenta essencial da plataforma política de Trump e outros enganadores célebres, Snyder fecha o capítulo "Acredite na verdade" com sua definição de um recente modismo empulhador: "A pós-verdade é o pré-fascismo." Já eu sempre achei a pós-verdade o fim-da-picada. Árdua tarefa selecionar passagens do texto para citar - ele é quase todo pertinente e conciso, ou seja, citá-lo seria quase transcrevê-lo. Mas chamo a atenção dos leitores para a síntese brilhante de Timothy sobre a Segunda Guerra Mundial e também seu instigante conceito da "política da inevitabilidade", em seguida confrontado com o que denomina "política da eternidade". Por fim, uma virtude especial do livrinho - uma pequena jóia de muitos quilates - é que ele é de bolso, o que traz convenientes vantagens. Além da literal, ele é sob medida para ter seus parágrafos fotografados e postados nas redes sociais. Com isso, o produto inverte a tese: no texto, Snyder recrimina a superficialidade e inconfiabilidade da internet e prestigia o livro ("afaste as telas da sua vida e cerque-se de livros"); mas, neste formato especial, o livro se encaixa como uma luva para reprodução no face, twitter, instagram e que tais. Vou postar. Amigos meus que tenham interesse no livro não precisam comprar, nem me pedir emprestado: eu dou um exemplar para quem quiser. O danado é tão em conta que a edição impressa custa mais barato (R$ 16,10) do que a edição virtual (R$ 16,90). Eu encomendei quatro agora há pouco, o primeiro já vai para um grande amigo que aniversaria dia 14 próximo - e que, agora, já sabe o preço, foi mal a indiscrição. Mas ele vale ouro (o amigo), o livro é pura prata e o resto é o reles dinheiro. Vão me restar três e eu recomendo a quem ganhe que faça o mesmo: compre quatro exemplares e os dê de presente a quem você admira a inteligência. Privilegie estes, porque os carentes dela não terão mesmo o que fazer com ele. O que é uma pena - e um verdadeiro atraso para este planeta tão castigado.

Companhia das Letras, 168 páginas