"Uma longa jornada para casa", por Saroo Brierley

Foi dica da Cora. A estória real de um menininho indiano que se perde nas ruas de Calcutá, vai para um orfanato, acaba adotado por amorosos pais australianos e depois, já adulto na Tasmânia, obstinado pelo próprio passado, passa dois anos fuçando o Google Earth e reencontra a família humilde no interior da Índia. Pronto. É isso. A estória não tem meios-tons e o texto é simples, sem floreios. Desperdiça, por falta de vocação, a tese sociológica que teria estofo e legitimidade para desenrolar (desperdício que talvez seja parte do seu sucesso). Fato é que os capítulos trazem conteúdo ralo além da aflição infantil e conta menos da curiosa região do que ansiamos. Do pouco que revela, me surpreendeu saber que a Índia não tem ensino público gratuito; de resto, denuncia a sujeira, religião e miséria, temas recorrentes quando se fala do país. Mas o que atrai é que a odisseia da criança perdida é verdadeira, do gênero conto-de-fadas, aquele tipo de circunstância tão impossível de dar certo como jogar de olhos fechados uma bola de basquete da janela de um avião e ela cair dentro da cesta. De chuá. Saroo comove pelo pensamento obcecado na mãe e nos irmãos que ficaram para trás. Saroo comove porque uma criança de 5 anos perdida numa cidade de 20 milhões de habitantes, a 1.600 quilômetros do cortiço miserável em que vivia, não tinha a menor chance de sobreviver. Saroo, que na verdade se chamava Sheru, mas não sabia escrever o próprio nome, se dá ao luxo de assinar um livro comovente que não se aprofunda em nada e que se restringe à magia da própria estória. O superficialismo, porém, não tira o encanto nem o prazer na leitura de um final feliz tão improvável. Sua trajetória reúne todos os clichês que possamos imaginar e por isso mesmo é difícil largar o livro: penúria, mundo cão, forte explorando o fraco, mensageira divina, coração de ouro e bilhete premiado. Lógico que isso dava um filme. Deu, né? Virou o candidato ao Oscar "Lion". Quando passou na Sky, gravei; e dei play quando virei a última página. O filme - surpresa - escancara alguns conflitos familiares inexistentes no livro (geralmente é o contrário, o que mostra quão rasa, cautelosa e inodora foi a descrição do autor quanto à sua vida pessoal, embora o livro traga a substância e a consistência que o filme não traz). O reencontro do filho com a mãe é frugal no livro e uma apoteose no filme, transformando uma chegada anônima em uma passeata. Só faltou o carro de bombeiros. Desnecessário e descabido. Mas, paciência, filmes têm a missão a contar uma estória em 50 cenas e de forma fácil e piegas. São assim na maioria das vezes. Por isso, privilegio os livros. As fotos em papel couchê no fim da edição dão um sabor adicional a quem mergulhou na obra. As imagens reais do encontro entre Sheru e suas duas mães, nos créditos do filme, são uma jóia para quem leu o livro. Neste caso - real e contemporâneo -, livro e filme se completam. Desfrute dos dois e se divirta. Vai ser com emoção.

Record, 230 páginas

"Memórias do esquecimento", por Flávio Tavares


Sou curioso, digo sempre. E este é um livro bom para bagunçar o que pensamos saber sobre a necrosada ditadura brasileira. Enquanto hoje, reescrevendo seus papéis, direita e esquerda pleiteiam seu lugar de fala - na nossa disfuncional democracia -, a nós, vítimas, resta vê-las procurando álibis e brandindo panfletos. Risível. São todos suspeitos. Nós, teimosos, queremos ir além nesta estória, entendermos melhor este passado difuso (tão próximo e tão distante). Sobre este período sombrio do Brasil, os depoimentos e versões se contam às centenas. Muitos viraram livros. É o nosso tesouro. Parte do que garimpamos nas prateleiras é conteúdo relevante; não obstante, via de regra, parcial. Ainda assim é a matéria-prima mais confiável para esboçarmos o mapa político/policial de então. Não sei você; mas eu, lendo, procuro espanar a ignorância e discernir os atos e os fatos (homenageando o mestre Cony) destes dez, quinze anos nauseabundos do meu país. O paradoxo de ter vivido este tempo alheio a tudo - criança, abstraía o mundo dos adultos - me acirra o interesse. Eu estava lá, da mesma forma que, sem dar a mínima, vi o Botafogo ser bicampeão carioca com um quatro a zero em cima do Vasco. Eu estava presente e desconhecia tudo que no futuro ansiaria saber. Mas isso não importa. Não agora. O que deplorei estes anos todos é não saber o que aconteceu, como aconteceu, porque se deixou acontecer, porque se prestaram a isso; porque mataram, porque morreram. O porque mataram é mais fácil, porque o ser humano é, não raro, um escroto pela própria natureza. O porque morreram é mais complexo. Nesta ânsia sigo tateando. Nós, baby-dops, somos sedentos desta verdade fugaz e lemos com avidez. Somos pedreiros montando pontes com peças de lego, em meio à bruma, como se com os olhos vendados. O conhecimento ralo é contra nós. A historiografia oficial é desonesta. Então, o que nos resta precioso são os relatos. Porque documentos, como estes que vieram à tona agora, liberados pelo Estados Unidos, culpando os culpados (você achava mesmo que Geisel, general-presidente, era inocente?), dizem menos do que aparentam dizer. Valem chamadas do Jornal Nacional e, na falta de pauta, capas das revistas semanais. São rasos, porque, em sua função de registro, seu ofício é ocultar e diluir. Por isso, nada vale mais do que a narrativa pessoal, enviesada que seja. Prefiro as distorções aos clichês. Porque ingênuo quem pensa que o relato guerrilheiro, certo ou errado, se resume a uma epopeia bandoleira. Se os ideais de outrora desaguaram em projetos imbecis, condenemos o desdobramento, mas não os confundamos com as convicções de quem abriu mão de si mesmo em prol do caminho errado (certos são somente os caminhos óbvios, mas a coragem às vezes é cega). Não caiamos na esparrela de incensar a repressão. Quem avisa, amigo é: não vá você, desavisado, alimentar a besta. Mas, por outro lado, convém não bater palma para maluco dançar. Em meio a estas duas verdades que nada mais são do que a apologia da mentira, assistimos a uma plastificação do passado da qual somente o conhecimento genuíno pode nos libertar (pobre juventude, agrilhoada ao bovinismo e à camisa de força do siga-o-líder, crente, uniforme, de que torce para o time da casa). Porque, como temos oportunidade de pressentir, lendo o livro de Tavares, nada é o que parece. O jornalista nos serve, de cabo a rabo, ainda que na ordem invertida e depois misturada, seu passado subversivo. E, de quebra, o roteiro-chave para entendermos, no encaixe com tantos outros relatos, como a História do Brasil gastou uma década chafurdando na lama. Tavares, o dr. Falcão, é um agente desmistificador. Sua desimportância estratégica - nada a ver com sua importância pessoal - e sua presença relevante nos cenários que antecederam o golpe trazem um subsídio valioso para interpretarmos a confusão militar e ideológica que nos vitimou. As ondas geradas nesta colisão ainda hoje nos embaralham o rumo. Flávio começa seu livro - que é o meu tema aqui, desculpe você por este nariz-de-cera interminável - falando da tortura. Fala da cela e da ladainha contínua de dias e noites: "Te levanta, filho da puta, comunista subversivo." Conta como cada castigo era infligido. Eu resumo a descrição que faz da tortura do choque: "Começa na mão direita. O efeito percorre todo o corpo e o prisioneiro cai. Molham o chão para que o efeito se amplie da planta dos pés à cabeça, num tremor profundo, e logo o cabo metálico chega ao rosto e ao contornos dos olhos, aos ouvidos, às gengivas e à língua. Na sala de torturas, o prisioneiro está sempre nu, que em si mesmo já é uma humilhação, facilita o requinte maior do choque elétrico: os homens, amarrar os fios no pênis, e nas mulheres, introduzir o cabo metálico na vagina. E em ambos, como alternativa final, o choque elétrico no ânus." A reprodução das palavras, cruas, não é sadismo meu. Na verdade, este depoimento está escrito (e eu já li) em dezenas de relatos, todos quase iguais. Mas é que a nudez da descrição faz parte do anfiteatro montado por Tavares para nos conduzir pelo fígado do inferno. O livro de Flávio é igual a muitos, mas é diferente, porque é melhor. Bem escrito, nele o autoral e o histórico convergem, dando qualidade à obra e pertinência ao registro. Sua história o credencia. Flavio era um jornalista político e um cidadão subversivo. Hoje, cidadão sobrevivente, é escritor premiado. Digo mais: arquivo inestimável. Seu livro é pródigo em histórias únicas. Por ele soube de uma dissidência do PCB em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, desbaratada por acaso e a golpes de mão, onde a tigrada da repressão sequestrou mulheres e crianças e, enquanto vasculhavam a residência, cagaram no chão do banheiro. De porta aberta. Os policiais invadiam a casa dedurada por um integrante do PCB. Destaco que Tavares não é nem um pouco generoso, ou complacente, na sua visão do Partidão (visão oposta, registre-se, à de Jacob Gorender, um dos mais importantes intelectuais e historiadores da Esquerda brasileira, autor do seminal "Combate nas trevas", veja aqui mesmo no blog em https://bit.ly/2ss5yZ9): "O Partido Comunista, que fora referência histórica ou núcleo básico da esquerda, tinha optado opor uma vida de ameba no intestino da ditadura, e queria, tão só, autoproteger-se para manter-se vivo, mesmo que assim matasse toda a sua tradição de insurreição." Traição, sob diversos pontos de vista, era servida fartamente à freguesia. Tavares confessa como traiu, "pela causa", um jovem, Pauleca, irmão de um amigo, que o idolatrava - e que, sem saber de ação nenhuma, o ajudou em um transporte de armas. Foi preso, torturado e, pelo que pude deduzir, morto. Flávio testemunhou, mas não o absolveu, para não se incriminar - ou para não entregar seu grupo. Sutilezas. Em passagens mais amenas, conta dos recrutas catarinas que vigiavam os terroristas. Fala dos panfletos contra a ditadura impressos na única gráfica não vigiada pelo regime: a gráfica do presídio, onde os marinheiros cumpriam pena. Revela o que para mim soou absolutamente inédito: como um acampamento guerrilheiro das Ligas Camponesas, subvencionado por Cuba, foi descoberto pelo Exército - por acaso -, em 1962. Era um período democrático, não se pressupunha que o comunismo mantivesse em território brasileiro focos de treinamento militar. Deu-se que o Exército foi investigar em Dianópolis, interior de Goiás, um contrabando de geladeiras - que eram, na verdade, armas e farto material terrorista cubano, incluindo chatíssimos, imagino, discursos de Fidel. O manso João Goulart era o presidente e resolveu acochambrar a situação, reunindo as provas da participação de Cuba no atentado à soberania brasileira - ou seja, contra o seu próprio governo - e as entregando ao ministro cubano, Señor Zepeda, que veio ao Brasil apaziguar o terreno (Jango queria mostrar seu espírito conciliador e puxar o saco de Fidel). Porém, o avião, com o ministro cubano e toda a documentação, caiu em uma escala em Lima. Morreram todos, mas os documentos sobreviveram e chegaram à CIA e à OEA, que acusaram Cuba de "deflagrar a guerrilha na América Latina". Por Flávio conhecemos anedotas de salão, como a estranha crença do Major Meyer Fontenelle: "Para provar que é patriota, todo brasileiro devia passar pelo pau de arara". Pena, o autor não esclarece se o dito major aplicava a máxima à família querida. Ou outro major do Exército, um pernambucano de nome Bismarck, que se divertia com os choques dados no prisioneiro Tavares e chamava a maquininha de "Dr. Volts". Certa vez que a mãe do prisioneiro foi visitá-lo, Bismarck assegurou: "Não se preocupe, senhora, que cuidamos bem do seu filho aqui." Majores. É este tipo que a população vem incensando. Ressalte-se que nem todos têm este comportamento - o próprio autor tece loas a alguns, como o coronel Élber de Mello, que se portou de forma digna a ponto de ser convidado para o lançamento do livro de Tavares, 30 anos depois. Voltemos ao testemunho, que não tem preço, nem tem igual. O autor disseca o cerco de Angra dos Reis, onde dois batalhões de infantaria naval, com 700 soldados ao todo, passaram três dias cercando dez "aprendizes de guerrilheiro", na avaliação de Flávio. Além da infantaria em terra, o cerco contou pelo ar com seis helicópteros da base naval de São Pedro da Aldeia e duas fragatas pelo mar. Os guerrilheiros, tendo um batalhão atacando-os de cada lado, trocaram tiros e escaparam por uma brecha. Os dois batalhões da Marinha feriram-se mutuamente, com um saldo de um morto e 20 feridos. Entre si. Os guerrilheiros fugiram, sendo que um foi preso longe da quizília, ao pedir comida em um vilarejo. Relatos como este, coerentes com tantos outros que já li, dão dimensão da capacidade das nossas Forças Armadas quando em combate. Aos que discordam ou se ofendem, adianto que vendo o peixe pelo preço que paguei. A leitura do texto de Tavares joga luz sobre discussões (absurdas) que andamos tendo, se a atual intervenção militar no Estado do Rio seria ditadura e se um governo paramilitar com Bolsonaro à frente seria democrático. Se hoje chamamos urubu de meu louro, Tavares não se perde na nomenclatura: "Em 1964, o golpe de estado virou revolução. Em outubro de 1965, o AI2 era o golpe no golpe. Em 68 o AI5 oficializou a ditadura. Em 1969 era a absoluta militarização." Passagens inusitadas abrem o arco da resistência: no mínimo divertido o relato dos dois comandantes guerrilheiros que passaram um ano internados em Cuba. Voltaram de lá super soldados, capazes de passar "uma semana em cima de uma árvore", como comentou Leonel, sobre quem logo falarei. Só que os dois semi-silvícolas não aguentaram dez dias clandestinos em um apartamento em Brasília, esperando e fazendo... nada. Um deles desertou do outro e voltou para a família em Goiás. O remanescente suportou mais um pouco, mas certa manhã ligou para Tavares, desesperado, reportando que a polícia cercara o prédio e que ele "iria sair pela janela, atirando". O jornalista foi até o prédio e constatou que estava realmente cercado, mas o que a polícia queria era desalojar dois sem-teto, já que desde o golpe a cidade estava repleta de apartamentos abandonados: "O recém-chegado comandante guerrilheiro entrara em tal estado de prostração que já queria descer reto do terceiro andar até o chão." Já um outro conterrâneo revolucionário, Zezé, se mandou sozinho para o meio da mata para abrir 600 metros de pista na selva para a aterrisagem de um avião DC-3 camarada carregado de armas, vindo da Guiana. Sete meses depois Zezé fez saber que já havia construído 500m de pista. Sem ajuda de um caboclo que fosse. O tal avião, entretanto, nunca chegou. Flávio abre um capítulo à parte (literalmente, é o capítulo nono, "Compadre com fuzil") quando começa a falar das suas reuniões clandestinas com Leonel Brizola. Acho curioso: o que ouço de Brizola sempre me soou ambivalente, contraditório. Na minha adolescência, seu retorno ao Brasil, anistiado, foi a principal notícia da semana - para mim, era um glorioso ninguém. Pois em um par de anos ele retomou o protagonismo, se candidatando ao governo carioca fazendo o gênero piadista. O tiozão do exílio tinha sempre um chiste, quebrando a sisudez dos debates eleitorais. Brizola acabou vencendo a eleição, contra os esforços desproporcionais de O Globo, jornal para o qual eu, jornalista ainda não formado, fazia um frila na apuração das eleições de 82. Minha mãe achava ele o capeta em forma de gente. Eu ria da aversão demasiada de mãinha e, de birra, defendia o gaúcho, para inconformismo dela. Para quem acompanhou a confusa dupla passagem de Brizola pelo governo do Rio, o interesse pelo que conta Tavares recrudesce. Aquele senhor pausado e cheio de maneirismos justificava a fama de bicho-papão? Vamos ao que relata o autor. Como muito se acusou, à época e depois, Brizola recebeu sim dinheiro de Fidel Castro. Instalado em um confortável casarão na orla de Montevideo - segundo o autor, a "meca da revolução nacionalista-popular no Brasil" -, o caudilho distribuiu, enquanto pôde, as verbas vindas da ilha. Articulou e financiou a fracassada Guerrilha do Caparaó e inclusive deu uma bolada em dólares para o próprio Flávio Tavares. Mais à frente o cerco apertou, o dinheiro secou e o suporte que Brizola dava diretamente do exílio se extinguiu. Ele próprio foi empurrado para Atlantida, um balneário a 70 km da capital, por exigência do governo brasileiro ao uruguaio. Lá, Brizola e Tavares discutiram uma  mudança de estratégia para a revolução brasileira - da rebelião nos quartéis para o foco de guerrilha. O próprio Brizola teria segredado ao autor fazer exercícios de tiro e assalto a baioneta. Pena que não filmaram. A decepção de Flávio com Leonel é comedida nos termos, talvez porque o ex-governador ainda fosse vivo na publicação do livro. Mas não disfarça para o leitor a sensação de que Brizola deixou os integrantes da guerrilha pendurados na brocha e tirou a escada. Por mim, como no bicho, vale o escrito. Estórias, relatos, revelações e a estatura do próprio autor compõem o esqueleto da obra, que ganha musculatura à medida que as páginas se sucedem. A história claustrofóbica do prisioneiro torturado ganha amplitude quando ele retoma, em flashback, sua trajetória de estudante e jornalista. Seu trânsito entre os protagonistas do governo e da subversão deixam patente a legitimidade e a relevância do relato. Quem mais senão Tavares poderia revelar que tivemos um presidente dublê de encanador? E que um militar qualquer foi caçado no meio da noite para comparecer à posse do presidente interino? Ou os meandros da desconhecida e fantasiosa "guerrilha do Triângulo Mineiro", cujo desbaratamento lhe valeu o primeiro grande período de cadeia? E que o assustador Brizola se tornou no Uruguai o traíra Pedrinho da Morena? São muitas as revelações e muitas as risadas, se é que podemos nos dar o direito de rir da catástrofe. Em meio à tanta História, as ponderações de Tavares enriquecem os fatos, como nesta análise do governo imediatamente após a derrubada de Jango: "Paulatinamente, as duas partes - o Congresso e a caserna - iniciaram, a partir de então, um mútuo jogo sedutor de cinismo político. Um necessitava do outro para sobreviver. Ou por não terem tido força, ou por terem sido brandos, ou por se terem dividido ao tomar o poder, os militares vitoriosos em 1964 mantiveram abertos o Congresso, as Assembleias Legislativas estaduais e as câmaras municipais, instalando um regime sui generis, único no mundo. Esta ditadura com eleições, com  partidos políticos e com Parlamento não representou para o poder militar apenas um respiradouro externo para facilitar , por exemplo, o apoio recebido dos Estados Unidos, mas ajudou a descomprimir a situação interna. Não se elegia presidente nem governador ou prefeito de capital, mas as eleições legislativas, ao criarem antagonismos e disputas (às vezes, até disputa político-ideológica entre esquerda e direita), davam uma sensação de normalidade." O depoimento de Flávio Tavares é único e deve ser tratado como tal, ainda que, visto das alturas, seja não mais que uma mínima parte de uma trágica epopeia - o que é também sua riqueza. Por ele entendemos a motivação de tantos brasileiros de coragem que desafiaram o governo ditatorial. Uma das conclusões a que chegamos ao fim do livro de Flávio Tavares é que não há uma verdade definitiva sobre a instauração da ditadura, sobre a tortura nos quartéis e sobre a formação dos grupos subversivos. Não há - não porque se confrontem versões excludentes, mas porque a visão de cada toca, de cada túnel e de cada perda é exclusiva. Somente a soma de todas as visões permite uma noção do todo. A obra de Flávio Tavares é para mim um baú de surpresas. Primeiro, porque eu não sabia quem ele era. Ignorância minha. Segundo, porque eu não sabia do seu livro. Negligência minha. Terceiro, porque, mais do que um protagonista da sua própria história, Tavares escreve bem demais. Com sua memória e talento, Flávio abre uma janela temporal que nos suga e embriaga. Como é que julgamos saber tanto sobre o que se passou e, na leitura de um livro com testemunho aparentemente tão semelhante a tudo o mais, descobrimos que ainda falta tanto por saber? Suas memórias são uma viagem às entranhas do golpe.

Editora L&PM Pocket, 267 páginas

"Churchill", por Paul Johnson

Maio de 1940. Há 78 anos, Winston Spencer Churchill assumia o posto de Primeiro Ministro do Reino Unido. O momento não era fácil - e a dificuldade, colossal, era a razão do convite. Na Europa as tropas avançavam e, naquele instante, tudo parecia conspirar a favor dos alemães. A temível guerra que Churchill tanto alertara estarem os boches preparando - e para a qual seus conterrâneos torceram a cara, comprometidos e esperançosos que estavam com o pacifismo - batia à sua porta, cercava a sua ilha e zunia sobre seu espaço aéreo. Fato: em poucos anos, desde que Hitler alcançara o poder, em 1933, a Alemanha multiplicara seu exército, desenvolvera sua aviação, crescera sua frota e construíra centenas de submarinos. O Velho Continente, como um cordeiro, se calara. Mesmo a Inglaterra aquiescera ao longo da década de 30 (houve em 1934 uma votação popular coordenada pelo Peace Pledge Union - União do Compromisso pela Paz - contra o rearmamento nacional, que, em 10 milhões de votos, teve 87% de aprovação). Foi perturbada, em seu equivocado assentimento, por uma única voz dissonante: Churchill. Ele avisara. Não lhe deram ouvidos. Alguns anos antes, sobre o poderio militar alemão, dissera: "Tenho que agradecer a Deus por existir o mar separando a Inglaterra da Alemanha". Nem todos tinham o mar por barreira, porém. Agora, rasos, impotentes e vulneráveis, todos temiam a Alemanha. Os países europeus, intimidados, cederam e celebraram acordos inócuos e vexaminosos. Aceitaram promessas vãs. Os alemães, como se esperava, fizeram tudo que prometeram não fazer. Tomaram a Áustria, ocuparam a Tchecoeslováquia e invadiram a Polônia. Absolutamente por força das circunstâncias, a Inglaterra, ainda que fragilizada pela sua prévia tibieza, declarou a guerra que prometera declarar, caso se desse o que se deu. Só que o governo de Chamberlain, caracterizado como ingênuo e conivente (entre outras patacadas, o tolo Tratado Naval Anglo-Germânico celebrado entre Inglaterra e Alemanha, cumprido por aquela e ignorado por esta), não se sustentou. Um parlamentar tory citou Cromwell: "Você esteve aí por tempo demais para o pouco que fez. Vá embora, digo eu, e chega de você." Era necessário que outro líder estivesse no comando. Foi então que convocaram Wiston Churchill, sob protesto de alguns e a comemoração de muitos. Polêmico, controvertido, odiado, endeusado. Momento crucial na história contemporânea, as palavras de Churchill na Câmara dos Comuns alcançaram a posteridade e ecoam até hoje - inclusive aqui, nesse fim de mundo, numa madrugada fria de Petrópolis. "Nada tenho a oferecer, a não ser sangue, trabalho, suor e lágrimas", discursou Churchill. "Vitória a qualquer custo, vitória a despeito de todos os horrores, vitória, mesmo que o  caminho seja longo e árduo, pois sem vitória não há salvação." Já disse alguém que Churchill convocou a língua inglesa para a batalha. Seria somente uma espirituosa frase de efeito, não fosse ele tê-la vencido (a batalha, por supuesto). A despeito deste meu intróito, o livro de Paul Johnson não é sobre este momento capital (embora tudo sobre Churchill convirja para este momento único). Mas é sobre Churchill, do berço ao esquife. Não obstante, dá, naturalmente, peso fundamental a este e a outros aspectos da guerra; o que é inevitável. Dezenas de milhares de livros tratam do conflito. Li um punhado deles, inclusive sobre o personagem em questão. Mas este pequeno livro de lombada estreita tem importância ímpar. Mesmo relevando que ele não é uma biografia na acepção que costumamos esperar: são parágrafos curtos, pequenos capítulos, reflexões que se estendem, conclusões esquemáticas. Não é um texto volumoso, besuntado de detalhes. É nevrálgico, pontual. E, melhor, traz um olhar profundo e conhecedor sobre a personalidade e os feitos do biografado, que mistura História e memória. Ocorre que Paul Johnson foi público-alvo, ainda criança, dos discursos de Churchill. O escritor, guri, acompanhou a guerra pelo rádio, justo o meio pelo qual o Premier falava com o país. Johnson teve a oportunidade de, em um certo dia, no futuro, estar mesmo alguns minutos com WSC. Uau. Então o livro é também uma reverência. Atente que isto não reduz a relevância do texto, referendado pelo prestígio de Johnson como historiador e pela intimidade com que discorre sobre o biografado. Mas esta presumida ternura não faz com que ele passe a mão na cabeça do seu ídolo: os defeitos e erros de Churchill são listados de forma incisiva. Além dos mais espinafrados, Johnson acrescenta a equivocada segurança manifestada por Churchill de que os japoneses jamais seriam uma ameaça: "Uma guerra contra o Japão não é hipótese a ser considerada por qualquer governo sensato." Muitos anos depois, Pearl Harbour deu a dimensão do seu erro de julgamento. Ou como quando debochou de Gandhi, chamando-o de "faquir seminu". Este e muitos outros equívocos factuais ou de temperamento de Winston são abordados no livro. Mas, ao se falar de Churchill, o que se impõe são os grandes e fenomenais acertos. O ariano que liderou o mundo contra a maior ameaça já conhecida - o nazismo, com sua máquina de guerra e a extinção ou escravização dos não-arianos - tem uma trajetória repleta de conquistas, sobressaltos, reviravoltas e execrações. Mundo afora não é comum que se saiba sua atuação legislativa em prol da redução da desigualdade social, como a Lei do Trade Board, de 1909, que acabou com o salário miserável dos operários e impôs um salário mínimo; a Lei do Seguro Nacional, de 1911, implantando o salário-desemprego; no mesmo ano, a Lei de Minas, proporcionando condições de trabalho mais salubres para os que trabalhavam nas grutas; ou mesmo seu projeto que impedia o encarceramento infantil. Leis que mudaram a sociedade inglesa e forma replicadas em todo o mundo. Ignora-se também que foi ele quem determinou a substituição do carvão pelo petróleo como combustível básico da frota britânica e que coube a ele a criação da aviação naval, ao imaginar - e mandar executar - a possibilidade dos porta-aviões. Mas a maior contribuição do sintético texto de Paul Johnson é a descrição comentada dos altos e baixos da carreira de Churchill, fugindo dos estereótipos e dando a real dimensão deste personagem inglês sem paralelo. Seu proclamado fracasso em Dardanellos, na Primeira Guerra, é revisto. Sua atuação política entre as duas grandes guerras é pormenorizada. E sua convocação para liderar a Inglaterra e os Aliados contra a Alemanha de Hitler é destrinchada, indo do controle do pânico à reversão do rumo da guerra, bem como a administração política dos anos finais do conflito. Porém, muito mais importante é o questionamento direto do autor: "Churchill salvou pessoalmente a Inglaterra? Sua liderança foi essencial para a sobrevivência e a vitória final inglesa?"  Para responder à própria pergunta, o autor elenca dez pontos principais e disserta sobre eles pelas catorze páginas seguintes, com destaque para a Batalha da Inglaterra, em junho de 1940, o primeiro grande confronto com Churchill no poder, quando o bombardeio alemão sobre o território inglês poderia logo de início ter exterminado todo o poderio da ilha (tivesse sido bem sucedido, o plano alemão era a invasão da Inglaterra, com uma cabeça de ponte aérea em Kent ou no Sussex; face à supremacia tecnológica da RAF, cujo embate nos ares contra a Luftwaff era vitorioso na proporção de 3x1, após 90 dias de enfrentamento aberto a estratégia alemã se reduziu a bombardear Londres e outras grandes cidades inglesas à noite - se esquivando das perdas no mano-a-mano e investindo no terror da população). Dá números à efetiva presença de Churchill no front e no teatro de guerra: ainda em 1943, calculava-se que Churchill havia viajado 180 mil quilômetros desde o inicio da guerra, incluindo uma quantidade de horas voadas que ultrapassaria 14 dias, sem contar o seu um mês e pouco embarcado, em horas navegadas. Paul Johnson também abre espaço para discutir o cruel bombardeio das cidades alemãs pela RAF. Crê ele que sem o bombardeio, que enfraquecia a Alemanha e exigia forças dentro de casa, a tão celebrada vitória russa na frente oriental não teria ocorrido. Sua conclusão - nenhuma surpresa nisso, registre-se - é que Churchill foi imprescindível para o resultado final. O autor aborda ainda o período pós-45, o deslanchar da bem-sucedida carreira de historiador de Winston e suas últimas atividades na Câmara dos Comuns. Churchill, em seus anos finais, desfrutou de enorme prestígio, como comandante, estadista e escritor. Torço para que o inferno na Terra que exigiu a vinda de Winston Spencer Churchill para combatê-lo não se repita - porque neste planeta não haveremos de encontrar outro igual. Thank you, Sir.

Editora Record, 159 páginas

"Notes from a big country", por Bill Bryson

Gosto de um texto bem-humorado (eu e a torcida do Botafogo), o que já é especialidade de Bill Bryson em todas (das muitas) áreas em que se aventura. Eu já havia lido a tradução de uma obra sobre Shakespeare escrita pelo autor, mas é a primeira vez que leio Bryson no original. É tão divertido quanto, além de ser uma interminável profusão de adjetivos que turbina o inglês do mais ignorante dos sujeitos (eu, decerto). Ri à farta com a constante perplexidade de um cidadão confrontado com as idiossincrasias da sua própria terra. É que Bryson, norte-americano radicado no Reino Unido, relata suas peripécias quandono fim dos anos noventa, após duas décadas desterrado, volta para os Estados Unidos, mas agora com mulher e filhos - todos ingleses -  a tiracolo. Provocado por um amigo editor, a narrativa das suas agruras ganhou publicação no Mail on Sunday's Night & Day (revista focada em cultura e impressa em papel jornal). E o que eram apenas artigos despretensiosos acabou se tornando um compêndio de estupefatas exasperações. Se você reparar, são muitos ângulos simultâneos. O nosso ponto de vista, vendo o ponto de vista dele, lembra mais uma matryoshka, aquelas bonequinhas russas que você tira uma de dentro da outra que está dentro de outra que estava dentro de outra e por aí vai. Ou seja, vemos a cultura americana pela lente da cultura inglesa, mas que na verdade é a visão recondicionada de um americano que vivia na Inglaterra. E mais: toda esta parafernália étnico-anglo-saxônica se submete ao caleidoscópio temporal. As situações que ele narra, apoplético, são testemunhadas pela sua ótica contemporânea - mas um presente que hoje, para nós, é passado decrépito, o tal distante milênio anterior. E tudo isto, mais ainda, no meu caso bem específico, lido por um leitor brasileiro (eu) e agora você, que lê as sandices que me vêm à cabeça. Pobre leitor. Se eu disser que comprei este livro em um sebo escocês, numa ruela qualquer de Edimburgo, não vai ajudar em nada a simplificar isso, né? Menos ainda explicar porque na foto eu leio o meu bem achado exemplar em um trem que segue de Nova York para a bucólica Fairfield, em New Jersey. Então melhor deixar para lá. Mas a coletânea de crônicas do Bill é diversão garantida, com um humor que remete fácil ao texto do nosso João Ubaldo (ainda que entre os dois eu prefira o gringo). Bryson tem o talento para trazer à tona as incongruências da vida cotidiana, como na crônica "A day at the seaside". Ou na impagável "The flying nightmare", onde ele caçoa da imutável performance das aeromoças na demonstração da colocação das bóias e detona o apitinho ("I am especially fascinated by the way they include a little plastic whistle on each vest. I always imagine myself plunging vertically towards ocean at 1,200 miles an hour and thinking: 'Well, thank gosh I've got this whistle"). Nos pormenores do texto, caçoando do sumiço dos itens de luxo e conforto dos vôos comerciais, fica evidente o despropósito de quem transforma viagem de avião low cost em conquista de um governo qualquer - como aqui. O fenômeno das companhias aéreas de baixo custo foi transformado no Brasil em panfleto eleitoral, onde os pobres viajariam de avião não por uma competitiva estratégia global das empresas de aviação, mas sim pela política de um certo governo. Curioso é que a primeira coisa que este certo governo fez ao assumir foi fechar companhias aéreas (a Varig que o diga), deixando seus empregados a ver navios, ops, teco-tecos. "Sorte" da Gol, que herdou linhas, aeronaves e funcionários. A propósito, quais os procedimentos técnico-tributários que o certo governo teria empregado para fazer "pobre viajar de avião" ninguém explica, parece que foi o quarto mistério de Fátima ou um milagre novo do Padre Cícero. Bem, voltando ao Bill, não faltam no conjunto dos textos (olha o que eu falei lá em cima da imensidão temporal) ranzinzices anacrônicas como a condenação do vidro elétrico nos carros, em "Slight inconvenience", em que ele recrimina a enorme preguiça dos seus conterrâneos. Ou do seu périplo de popstar em uma maratona de divulgação de um novo livro ("Book tours"), ironizando ser entrevistado por incontáveis sumidades em literatura que não leram sequer a contracapa do seu livro. Em outro texto, as queixas contra a burocracia idiota nos faz respirar aliviados (ufa, não é só aqui). Ou mesmo a incontornável impossibilidade de seguir o manual de instruções do mais banal dos computadores. Em contraponto às armadilhas do dia-a-dia, um inesperado toque de lirismo vem na crônica "Last night on the Titanic", sobre dois velhos ingleses conversando no convés do transatlântico - enquanto o navio afunda -, em uma poética e, lógico, bem-humorada reverência à fleugma britânica. Mesmo quando você sabe qual será a piada, inevitável o sorriso. Bill é mestre em perceber o inusitado das situações repetidas, ou a repetição das situações inusitadas. Ler Bill Bryson nos faz lembrar que, na vida, a gente tem sempre que dar um desconto. Porque tem sempre alguém fazendo uma besteira que ainda não tinha ocorrido a ninguém.

Editora Black Swan, 399 páginas