"O Pequeno Cavaleiro", por Henryk Sienkiewicz

quinta-feira, janeiro 09, 2014 Sidney Puterman

Agora que (ufa) concluí a alentada trilogia de Sienkiewicz, creio que um detalhe vale ser ressaltado - poucos personagens tiveram presença relevante em todos os livros. Três, para ser mais exato: Jan Skrzetuski, Jan Zagloba e Michal Wolodyjowski. O frio Skrzetuski - identificado pelo tradutor e estudioso Tomasz Barcinski como tendo sido o soldado que realmente escapou ao cerco de Zbaraz e levou a notícia à Varsóvia - foi a medida da passagem do tempo: se casou no primeiro livro, teve sua prole exibida no segundo e, no terceiro, seus 6 filhos estão em armas pela República. O sagaz Jan Zagloba foi coadjuvante importante em todos os livros e teve sua personalidade "corrigida" ao longo da ação: começou como um cachaceiro boquirroto e ensaboado, mas, 3.000 páginas depois, era um paizão sábio e bonachão. Já Wolodyjowski, que teve consideráveis citações nos dois primeiros livros, foi alçado a protagonista no livro final e deu nome à obra. Este livro derradeiro conta como Michal, espadachim imbatível contra os homens e galanteador mal-sucedido contra as damas, veio a ter a corte aceita em sua terceira investida, por Barbara Jeziorkowski - a valente e guerreira Basia. E ela, mais do que ele, foi a personagem central durante os dois primeiros terços do livro, indigestamente tedioso ao longo de 400 páginas (dedicadas à prosa característica da época, repleta de gracejos e ora-que-tais; o que o posfácio chama de "romanesco", eu declaro "chatunesco"). Porém, a partir daí, temos de volta os incomparáveis cenários de guerra e os sangrentos combates corpo-a-corpo, que são o prato de resistência do autor. A defesa de Zbaraz do primeiro livro e de Jasna Gore do segundo é substituída, dessa feita, pelas ousadas contra-ofensivas ao cerco de Kamieniec. Esse trecho final nos devolve o espírito inflamado da trilogia, que se encerra dez anos antes da maior glória da história polonesa, o aniquilamento dos agressores turcos na Batalha de Viena (essa vitória, sob a liderança do rei polonês Jan Sobieski, deu início à derrocada do Islã em território europeu). A trilogia apresenta a história polonesa ao seu próprio país e ao mundo - e Henryk Sienkiewicz, ao escrevê-la, assinou um apaixonante capítulo da literatura universal.

Editora Record, 627 páginas

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"O Dilúvio", por Henryk Sienkiewicz

sexta-feira, janeiro 03, 2014 Sidney Puterman

Se optei por um approach lúdico da trilogia de Henryk Sienkiewicz em "A Ferro e Fogo", não se pode deixar em segundo plano seu minucioso artesanato. A trilogia, publicada em seis diferentes tomos, totalizando mais de 3.000 páginas, é cerebralmente estruturada, com uma espinha dorsal que é replicada em cada um dos seus três livros: defesa da integridade nacional; herói valente e honesto; amada pura e apaixonada; vilão forte e poderoso que sequestra a amada do herói; combates entre forças desproporcionais, com o inimigo sempre em maior número; e umas boas pitadas de histrionismo (essa receita era o prato de resistência da época). Originalmente publicada em polonês, no formato de folhetim, em um momento em que a Polônia já não existia territorialmente há mais de 100 anos, foi valiosa na consolidação do nacionalismo local e agigantou o nome do seu autor (que, com "Quo Vadis", ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1905). O segundo livro da trilogia, "O Dilúvio", editado em três tomos, se debruça sobre um importante fato histórico, a guerra de polacos e lituanos contra os suecos (o título da obra é o mesmo do período histórico). Boa parte das dificuldades polonesas derivava do fato da Polônia ter optado em determinado instante da sua trajetória por uma monarquia não-sucessória, onde seus reis eram eleitos entre os nobres e cujos filhos não tinham o direito de sucedê-los. Isso gerou um ininterrupto confronto político e a tendência da eleição de nobres estrangeiros, que não pertencessem às principais famílias e com isso viessem a desequilibrar o jogo do poder. Pelo que dizem os historiadores - e me parece bem óbvio -, o sistema foi um desastre, de proporções trágicas, que fulminou a estabilidade geográfica da Polônia, já tradicionalmente uma colcha de retalhos.  O livro aborda o momento conflagrado em que o trono polonês era ocupado pelo rei sueco e as tratativas diplomáticas e bélicas que antecederam sua retomada. A obra de Henryk Sienkiewicz foi publicada 250 anos depois do conflito, mas no fim de um século em que russos, alemães e austríacos haviam suprimido a Polônia do mapa da Europa - e reforçou o patriotismo de um povo sem pátria. Nesse livro, o herói é o bad boy Andrzej Kmicic, um bravo militar que se tornara sanguinário bandoleiro e que retorna à lei para defender a República. O contexto histórico é por demais complexo e, se as dezenas de descrições de estratégia militar são fascinantes, em instante algum temos uma suficiente perspectiva histórica da situação. Não obstante, estudiosos afirmam que Sienkiewicz não visava um texto academicamente irreprochável, e sim suscitar a paixão do povo polaco pela lendária história do país. Conseguiu. Como na primeira obra da trilogia, um grande vilão é o contraponto ao protagonista, e dessa feita a pecha coube a Janusz Radziwill (personagem histórico), tirano violento, inescrupuloso, estuprador e traidor, com mais valências malignas que o Bohun rival de Skrzetuski na guerra contra os cossacos, em "A Ferro e Fogo". A principal personagem feminina, Aleksandra Olenka Billewicz, é também mais sanguínea que sua equivalente no livro antecessor, Helena Kurcewicz... E chega: mais não conto. Por fim, aproveitando a deixa, revelo que a minha avó polonesa, como as heroínas de Sienkiewicz, também tinha sobrenome terminado em "wicz": Cirla Rawicz. Não tem nada a ver com a história, mas a avó é minha, o blog também e é com ela que eu termino. Beijo, vó Cecília.

Editora Record, 1.548 páginas (em três tomos)

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"A Ferro e Fogo", por Henryk Sienkiewicz

quarta-feira, janeiro 01, 2014 Sidney Puterman

Meados da década passada li sobre o lançamento no Brasil da trilogia do Prêmio Nobel de Literatura Henryk Sienkiewicz, acrescido de um vasto rol de elogios. A matéria destacava que a obra de Sienkiewicz tinha tal simbolismo para o povo polonês que, durante a ocupação nazista, os engajados na resistência assumiram o nome dos seus personagens. "Putz", pensei, "deve ser irado". E era: um genuíno, talentoso e apaixonante romance de capa e espada, com impressionantes descrições do teatro de guerra pós-medieval. Encomendei de pronto os dois primeiros volumes, os únicos então publicados. Li e me diverti. Escrito no último quarto do século XIX e referindo-se aos embates de mais de duzentos anos antes, o texto exibia mocinhos e vilões de um heroísmo invulgar, com uma paixão por sua pátria que hoje soa anacrônica. Me senti em casa também por conta da profusão de xarás meus - o herói, Jan Skrzetuski; o espertalhão, Jan Zagloba; e o rei, Jan Kazimierz. O contato com a história da terra dos meus antepassados me foi extremamente reconfortante. A trilogia, entretanto, carecia dos dois últimos livros, em quatro tomos, ainda não impressos. Assim, me despedi da guerra entre os nobres poloneses e os revoltosos cossacos, do gigante Longinus Podbieta (cujo objetivo em sua longa vida de guerreiro era conseguir cortar 3 cabeças em um só golpe do seu espadão), do bandido de almanaque Iwan Bohun, do líder revolucionário Bohdan Chmielnicki, da imponência do Príncipe Jeremi Wisniowiecki e da tensão do mítico cerco de Zbaraz. A cuidadosa tradução de pan Tomasz Barcinski deu ainda um tempero adicional à excepcional obra de Sienkiewicz - cujas 890 páginas eu leria uma segunda vez, anos depois, ao receber os derradeiros volumes, para me reambientar com os personagens, muitos deles presentes em todos os tomos. Um suculento banquete de literatura clássica polonesa, regado a muito mel. Na pohybel para quem não gostar.

Editora Record, 890 páginas (em dois tomos)

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