"Como nascem os monstros", por Rodrigo Nogueira

quarta-feira, janeiro 14, 2015 Sidney Puterman


Depois de ler esse livro, não dá pra escutar denúncia de PM corrupto e ficar de mimimi. Tá ali, sob a capa esburacada. Nas 606 páginas que um ex-policial sequestrador, matador, achacador e corajoso até o talo escreveu. Enquanto na televisão mais um comandante da Polícia Militar é trancafiado por conluio com os traficantes e os "âncoras" candidatos a paladinos da moral fazem sua peroração ("Justo aqueles que têm por missão proteger nossa sociedade..."), está tudo ali revelado na confissão hercúlea de Rodrigo Nogueira. Você leu? Pois é. Aí é que está o problema. Todo mundo faz discurso, mas pouca gente (mais conhecido também como "ninguém") lê. Nogueira, homônimo do nosso campeão Minotauro, deu um armlock no nhém-nhém-nhém das autoridades e ameaçou levar o braço pra casa. Com isso, nos entregou o desenrolo de bandeja, de mão beijada. Basta ler. A Polícia Militar do Rio de Janeiro é um grande negócio (todas as interpretações são válidas) e, como não nos deixa esquecer a famosa frase do assessor do Bush, "É a economia, estúpido!". Grana. Eu gosto, você gosta, a PM também gosta. O problema é que a grana dela vem por fora. A "empresa" funciona à base de dinheiro, extorquindo o tráfico. Parte do lucro das drogas obrigatoriamente irriga a cadeia de comando da PM. Tire esse dinheiro e a PM desmorona - porque 90% da remuneração dos oficiais, subs e praças vêm dos morros. Apenas 10% é pago de forma convencional, nos contracheques. É muito mais simples do que o funcionamento da Petrobras. O único poço é a bandidagem e as reuniões de licitação são decididas no "bico" (que é como vagabundo chama o fuzil). Não tem o que inventar. O bandido faz grana vendendo droga. A PM tem o salvo-conduto pra matar o bandido, mesmo que seja um suposto bandido. Então ela cobra parte do lucro, com a promessa de não fazer a guerra que atrapalha o movimento e reduz os ganhos. A guerra pro bandido custa caro: tem que bancar soldado, comprar arma e munição. Então, quem alimenta o fluxo da economia e faz a roda girar é o arrego (o dinheiro pago pelo dono do morro ao comandante do batalhão da área pra manter a paz e o livre comércio). Esse dinheiro vem por cima e é distribuído nas quadrilhas compostas pela PM dentro do próprio batalhão. Como nem todo mundo leva dessa grana graúda, alguns achaques menores à bandidagem acontecem dentro da circunscrição do comando, feito pelos PMs que estão fora da partilha - e aí, como em qualquer processo econômico, há uma renegociação, a título de cala-boca, ou expurgo dos rebeldes insatisfeitos. Quando isso não se dá de forma harmoniosa, eclode a guerra, que dura até que a PM vença e venda a paz. Enquanto isso, em zonas menos lucrativas, outros negocinhos são feitos pela tropa de azul - não à toa, cada posição de um PM na rua é vendida pelo "sargenteante", que é o sujeito no quartel que, até segunda ordem, estabelece quem faz o que no varejo diário. O valor da venda (paga semanalmente ao sargento, enquanto o praça se mantiver no posto concedido) é proporcional à produtividade esperada pela posição: é que a função ocupada pelo PM pode permitir venda de segurança, vista grossa às infrações de trânsito, etc. Ou nada, que é o caso das odiadas posições de "visibilidade", aquelas em que uma dupla de PMs fica dentro de uma patrulha estacionada, sem direito a sair dali pra coisa alguma (nem pra perseguir bandido) e, por conseguinte, sem ter como fazer dinheiro. A única alteração na rotina é paquerar uma empregadinha ou, fim da linha, ser fuzilado por um bonde. Tem também as milícias, homiziadas até a raiz com a corporação. Essa operação é uma linha paralela do negócio convencional - nela, o que se quer é explorar o território das comunidades e a prestação de serviços, entregues ao público no formato monopólio. Vendem segurança, gás, sinal de tv a cabo e têm na PM um fornecedor de mão-de-obra especializada e de cobertura oficial para invasões mais cabeludas. A milícia está capilarizada na política e vem ganhando poder. A parada é sinistra e quem sabe e pensa em abrir a boca não vive pra contar. Mas surgiu um, boludo. Rodrigo Nogueira é o herói que conta como funciona por dentro o intestino social. Ele é o enviado especial da sociedade civilizada ao antro espúrio da bandidagem consorciada com seus capatazes. Ele é do time que geralmente mata, mas de vez em quando morre. Ele é a pecinha exposta no tabuleiro, que pode faturar algum e fazer mal a muitos, mas não é ele o jogador. É só um peão, armado até os dentes como um cangaceiro, mas com data de validade determinada. Rodrigo, preso, resolveu denunciar a corja toda. Puxou o pano do sistema corrompido. Mostrou que muita gente boa está ali por trás das cortinas, manobrando o cordão das marionetes assassinas. O roteiro não vai mudar enquanto a platéia aplaudir o final - bandidos mortos - sem ver o que rola nos bastidores - bandidos muito vivos bancando a festa criminosa de policiais e autoridades. Rodrigo é o cara. Falou na lata e jogou merda no ventilador. Talvez não mude nada: ninguém lê. Você publica e parece que, contraditóriamente, condena a verdade ao segredo. Os jornais divulgam o livro, mas ignoram as verdades nele contidas. Não a confrontam com o próprio noticiário que publicam. E aí o Rodrigo permanece no fundo da cela, lavando roupa pra ganhar cinco reais. Não dão a ele o lugar de narrador legítimo. Dão o anonimato perpétuo. Mas os que não o vêem estão errados. Sozinho, ele já ganhou a posteridade. O problema é que ele quer que a posteridade se foda. O que ele quer é a liberdade. Por mim, diante do serviço prestado, merece.

Topbooks, 606 páginas

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

12 comentários:

  1. Estou na busca! Na livraria cultura nada...

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  2. Querendo comprar ja algum tempo...
    Hj fui na livraria cultura e nada consta em nenhuma da rede...

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  3. Sensacional ! Faço parte da corporação! Não tinha ouvido falar desse livro, hoje um amigo me enviou um link da carta e adorei pura verdade! Enviarei para todos os grupos da Pm! Parabéns Rodrigo pelo livro

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  4. infelismente o livro só diz a verdade, alias,só ouço as pessoas falarem assim, ''vou entrar pra Polícia p me levantar''

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  5. http://www.livrariacultura.com.br/p/escravos-sociais-e-capitaes-do-mato-15071679

    ESCRAVOS SOCIAIS E CAPITAES DO MATO
    Autor: BORGES, SERGIO

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  6. Vamos com calma, não é só pq uma pessoa escreve um livro que o que está dito ali é verdade absoluta. É sim uma boa leitura, mas não podemos nos esquecer que ele foi escrito por uma pessoa de caráter extremamente duvidoso...

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  7. O MELHOR LIVRO QUE EU LI NOS ULTIMOS 5 ANOS DE BASTANTE LEITURA.

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  8. Um livro excelente que nos abre os olhos e mente.
    Me fez ficar mais revoltado com o estado opressor que nós temos é e consequentemente com o povo hipócrita que temos, capaz de tudo para se safar de seus erros.
    ACORDA BRASIL!!!
    Está TUDO ruim, de ambos os lados!
    Obrigado pela coragem Rodrigo, está pagando por um crime não cometido, mas como disse no livro, sera que tudo o que fez não tem devidas consequências...

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  9. Fui agredido por esse mostro, estava com minha namorada, vindo do hospital às 3h da manhã.
    Fui abordado por esse policial, na rua conde de Bonfim, em frente ao hospital da Ordem terceira...
    Me agrediu por achar q era moto taxista, do Borel ou Formiga.

    Quando o cabo q estava com ele, ficou sabendo q eu era sobrinho, de um primeiro sargento da supervisão do mesmo 6°Batalhao da Tijuca.
    Me pediu mil desculpas...

    Pela atitude de lixo.

    Não deveria está preso, deveria está morto... Lixo...

    Que acaba com a imagem da polícia.

    A polícia não merece lixo como esse indivíduo!
    ��

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  10. Uma aula de sociologia, ciencia política e antropologia, vale cada página.

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  11. Senhores, é a verdade e que somente ele teve peito pra bancar e contar!
    comprem o livro
    www.saraiva.com.br
    www.livrariasaraiva.com.br

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