"Eu sou Camille Desmoulins", por Hermínio Miranda e Luciano dos Anjos

sábado, março 19, 2016 Sidney Puterman

Camille Desmoulins morreu aos 33 anos, guilhotinado. Se formou advogado, mas brilhou na política, como jornalista. Desempenhou importante papel na Revolução Francesa - inicialmente, deflagrando-a; ao fim (literalmente), combatendo-a. Foi amigo de infância de Maximilien Robespierre, que o condenou à morte. Foi também amigo e aliado político de Georges Danton, ao lado de quem foi despachado. Camille Desmolins é co-autor do livro, mas o escreveu quase dois séculos após a própria morte: reencarnado no Brasil dos anos 60, quem o ditou foi o jornalista brasileiro Luciano dos Anjos. É a poeira cósmica dos tempos. Ainda que trate de mortos que falam pela boca dos vivos, o livro não é de ficção ou psicografado. É obra de cunho histórico-científico, lastreado em pesquisas bibliográficas e sessões de hipnose e regressão de memória às quais se submeteu Luciano dos Anjos. Já o autor "principal", Hermínio Miranda, é nome proeminente no Espiritismo científico. Um estudioso erudito e ponderado. Os temas que aborda são, via de regra, históricos ou teológicos - com inúmeras concessões à Psicologia, quando Hermínio envereda pelas entranhas da mente (memória, autismo e múltipla personalidade foram, cada um a sua vez, pauta principal de livros seus). Miranda geralmente age como observador e compilador, intervindo de maneira cuidadosa e se mantendo pessoalmente à prudente distância. Neste "Eu sou Camille Desmoulins", sua presença difere um pouco da sua praxe, ao se colocar no centro da ação, com o livro trazendo sessões mediúnicas em que o próprio Hermínio esteve presente. O ponto de partida foi uma sessão no longíquo ano de 1967, em que o jornalista espírita Luciano dos Anos, reticente quanto à própria sugestionabilidade, se submete ao desafio de um transe hipnótico. Nele, para sua surpresa posterior, Luciano se assumiu um personagem secundário da História francesa, disse coisas inusitadas e despertou a curiosidade de Hermínio. Mas a excursão pelo subconsciente de Luciano não foi à frente; a fita da sessão foi esquecida em uma gaveta;  e não mais tocaram no assunto nos 13 anos seguintes. O hiato teve sua razão. Ao pesquisar a vida de Desmoulins, Hermínio identificou no relato de dos Anjos uma série de incongruências, tornando-o suscetível a questionamentos. Houve divergência de nomes e informações conflitantes. Melhor deixar de lado, se o tema já é naturalmente controverso. Em 1980, entretanto, tendo inusitadamente deparado com fontes que respaldavam as afirmações de Luciano na década anterior, Hermínio e o médium combinaram novas sessões - e o material coletado foi o alicerce do livro, que resolveram escrever a quatro mãos. É impactante a descrição dos pequenos detalhes, como a lembrança de Camille do trajeto em que seguia com os demais condenados do dia, rumo à execução. Em prantos, o autor reencarnado admite sua covardia perante a guilhotina e reverencia a postura corajosa de Danton. Antes, contou mais, e nos agrada ouvir da própria boca de um contemporâneo minudências rotineiras, como a relação de valores de trabalho e produtos existente à época. Não só: é prazeiroso caminhar pelos palácios, tavernas e calabouços de um momento decisivo da política européia e mundial. Fato é que viajar no tempo é o sonho máximo dos devotos da História, e o testemunho de um personagem "redivivo" constitui um presente ímpar. Isto posto, não obstante o brilhante esforço de Hermínio, meticuloso e honesto, seu monumental estudo não rendeu um bom livro. As falas de Desmoulins/dos Anjos são dispersas e picotadas; e as notas históricas após cada capítulo são demasiadas. Extensas e maçantes. O livro não flui. É uma rodovia de calçamento irregular, com quebra-molas de variada altura, dispostos a cada 100m. Ademais, se a primeira parte, escrita por Hermínio, contribui para a comprovação da reencarnação como verdade histórica, a segunda revela a baixa qualidade do texto do médium, que responde pela parte final do livro. Nela, dos Anjos se jacta verborragicamente em cada uma das páginas e descreve em minúcias sua atual história de vida, que é desinteressante. Outrossim, se sua passagem anterior pelo planeta, como Camille Desmoulins, teve mais importância, esta, de forma consoante, revela um personagem fútil e desagradável, a despeito de seu eventual (e relativo) protagonismo. Se a obra fundamenta a convicção das vidas sucessivas, deixa claro também que os chatos e presunçosos têm enorme probabilidade de reencarnarem chatos e presunçosos. Como bem o sabem os leitores do Pentateuco, o aprendizado é lento.

Lachâtre Publicações, 375 páginas

Obs.: Pesquisando sobre Luciano dos Anjos na internet, fui cair em blogs sensacionalistas, mal diagramados e com uma agressividade descabida, denunciando os 160 anos da doutrina como uma trajetória de farsas e imposturas. Retrógrado. Não é difícil imaginar o grupo religioso-capitalista por trás dessa sandice. Técnica digna do século 19. Diante do acinte e do despropósito, só me resta repetir: o aprendizado é lento.



Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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