"Passando a limpo", por Pedro Collor de Mello

terça-feira, dezembro 29, 2015 Sidney Puterman

Semana passada li na coluna do Lauro Jardim que o Senador Collor irá publicar suas memórias do impeachment. Ato contínuo, fui até a minha estante e puxei um livro que li, há mais de 20 anos, escrito pelo irmão mais novo do então presidente. À época, foi um escândalo - não o livro, que o país nunca foi alucinadamente dedicado à leitura; e sim as denúncias escabrosas publicadas na imprensa, com o irmão tresloucado, olhos vidrados, listando um alfarrábio de pecados cometidos, no cargo, pelo Presidente da República. Parênteses: a geração atual, por conta de todo este oba-oba do impeachment, sabe que já houve um presidente impichado. A maioria deve saber que se trata de Fernando Collor, político que integra a base de apoio ao governo. Certamente já ouviu falar da lenda urbana dos caras-pintadas, aquele movimento insuflado pelos meios de comunicação, que, anabolizado, "legitimava" o acordo político em prol do bota-fora, liderado pelo PT e com cada uma das suas pontas bem costuradas no Congresso. Parênteses do parênteses: sim, por incrível que pareça, o presidente expulso da presidência pelo PT, em 1992, hoje, em 2015, apoia o ex-algoz, o PT, na presidência (Collor inclusive está arrolado no inquérito da Lava Jato, acusado de ter levado R$ 20 milhões ao participar de uma tramóia recente na Petrobras). História. Voltando ao início, o pessoal até os 35 anos sabe bem pouco de como isso se deu. Nesse ponto, o livro escrito pelo menino caçula do senador alagoano Arnon de Mello (político que matou a tiros, no plenário do Congresso Nacional, o senador pelo Acre José Kairala; mas, que, ora essa, tinha era atirado no senador Silvestre Péricles, seu detrator, errando os três tiros e matando um suplente) descreve tim-tim por tim-tim como foi a queda do presidente Fernando Collor de Mello. Queda motivada, principalmente, pelo próprio autor, irmão do dito cujo. Mas dizia eu que o livro não foi o estopim do escândalo - a publicação, na verdade, atuou mais como uma retrospectiva detalhada do catálogo de acusações que Pedro Collor de Mello disparou por intermédio da Veja, sempre ela, e dos demais grandes veículos do País. Nitidamente o caçula queria espinafrar o irmão. Ridicularizá-lo, espezinhá-lo, humilhá-lo e destroná-lo. Justifica ele que fez isso mais contra Paulo César Farias, sócio oculto de Fernando, que estava à frente do projeto jornalístico Tribuna de Alagoas, que desbancaria a Gazeta, de propriedade dos Collor e líder no estado. Mas, à boca pequena, se diz que tudo foi motivado pelo assédio canalha de Fernando à esposa do irmão ("Essa ainda cairá na minha rede", teria dito Fernando), a estonteantemente bela Thereza Collor. Por conta disso, correram boatos de que Pedro era traído por Thereza com Fernando. No livro, Pedro afirma que houve assédio, mas que Thereza não aceitou a aproximação, e diz também que Fernando era traído pela esposa Rosane com um funcionário do cerimonial do Palácio, um certo Luiz Mário de Pádua (como diz também que o assessor de Fernando, Cláudio Humberto, era traído pela esposa, Taís, com Fernando - e chega a insinuar, botando as palavras na boca do então ministro Jorge Bornhausen, o envolvimento do animado presidente com homossexualismo). Este tipo de coisa, porém, sem confissão, não vai além do disse-me-disse e quem trai, come ou dá não emite nota fiscal. Então, fica o dito pelo não dito. O que Pedro defende na sua peça acusatória poderemos definir assim: ele próprio é um executivo workaholic e competente, que tirou as empresas da família do prejuízo e que agia movido por zelo ao patrimônio e por senso cívico; o pai, que de jornalista pobre se tornou político rico, dono de imobiliária e de uma rede de veículos de comunicação, era um exemplo de correção, virtuoso até mesmo atirando mal; a mãe, gaúcha severa e equivocada, era exemplo de retidão, mas pecou por excesso de tolerância materna e um tanto de vaidade; o irmão mais velho, Leopoldo, coordenador da campanha do presidente em São Paulo, era um mau-caráter, imprestável, arrogante e desonesto; a irmã mais velha, Leda, embaixatriz no governo do irmão, era uma desonrada, psicótica, corrupta, puxa-saco e perdulária; Rosane, a primeira dama, era uma idiota, ignorante, mal-educada, ladra e macumbeira; Fernando, o presidente, era um egocêntrico, megalomaníaco, mentiroso, ladrão, cocainômano, violento, covarde, dissimulado, mitômano e mais uns 50 outros adjetivos de idêntica preciosidade. Dos cachorros da família, nada falou. Verdade é que o livro não é bom. Mas foi útil e oportuno. Tirando a esculhambação ao irmão presidente (no livro, mal avaliado também pelo irmão mais velho, Leopoldo, que julgava que Fernando "não iria jamais fazer política, porque era um merda" e pela mãe, Leda Collor, que afirmou "tenho um filho presidente da República que é ladrão" e "tomara Deus que ele não faça com o Brasil o que fez com Alagoas"), há reveladoras passagens sobre administração pública na obra-denúncia do caçula da famíla. Fala da ânsia do irmão em se tornar Secretário de Educação em Alagoas, em 1978, pois seria "o cargo ideal para praticar o empreguismo e com isso conseguir votos, pois professores e diretores de escola seriam excelentes cabos eleitorais junto à juventude". Sobre Alagoas, em si, Pedro não a tem muito em conta. Chama o estado de "minúsculo e miserável" e diz que "Alagoas não teve nada a não ser corrupção e a fama de ser um estado de ladrões". Um capítulo especial - "A dama do Canapi" - fala da cunhada Rosane Collor, então casada com Fernando e ex-primeira-dama. "Fala" é modo de dizer: ele faz da jovem uma Ofélia do sertão (garotada, perguntem ao Google quem foi Ofélia) e atribui a ela uma pouco favorável coleção de características, que, como antecipei acima, incluem burrice extrema, desonestidade e traição. Não perdoa a gestão da cunhadinha à frente da LBA (diz ele que ela construiu uma mansão para a família, em Canapi, com dinheiro desviado da entidade ). A certa altura, Pedro Collor lista as falcatruas praticadas por Fernando Collor e sua quadrilha no controle da máquina pública - mal comparando, meio que um evento-teste do sequestro do Estado praticado pelo PT a partir de 2003. Revela inclusive a partilha do achaque. De cada "comissão" recebida por PC Farias (que era para Fernando Collor o que viriam a ser Delúbio e Vaccari para os manda-chuvas do PT), 70% eram destinados ao Presidente da República, 21% ao próprio PC, 6% para a rubrica "despesas acessórias", 1,5% para administrar o escritório de PC e 1,5% para o operador da propina. Estão presentes no livro os contumazes empresários, que, antes das denúncias se confirmarem, negaram tudo - isso a gente tem visto aos montes na Lava Jato. É pena que naquele tempo não existisse a delação premiada, mas, de acordo com as queixas da própria mãe do acusador e do acusado, Pedro Collor "inaugurou a delação no Brasil e incentivou todo mundo a falar". Verdade. Muita gente falou e o presidente caiu. Além de ter caído do Palácio, sua história também caiu - no esquecimento. Passaram-se 23 anos do lançamento deste livro-bomba, síntese de um rol de acusações com um teor explosivo que nunca se viu igual, e hoje, apenas duas décadas depois, ele é sequer citado (mesmo com o país em convulsão). Agradeço ao Senador Fernando Collor lembrar-me da existência da obra. Soube que a "dama do Canapi", Rosane Collor - née Rosane Malta, que é como assina - também lançou no mercado editorial, no ano passado, o relato da sua passagem gloriosa pelo Planalto. Assim, graças à movimentação dos protagonistas da obra, um quarto de século depois, ergue-se do túmulo o dedo em riste e alucinado do irmão traído. Há que se agradecer seu enorme favor à Nação - não fosse ele, o impeachment de um presidente criminoso não seria hoje uma hipótese. Ele próprio duvidava de qualquer punição, tanto que, na página final, registra a frase do então Procurador-Geral da República, Aristides Junqueira: "A benevolência da legislação criminal do Brasil poderá resultar no fato de que nem Fernando Collor nem Paulo César Farias sejam presos". Temia Pedro que estivéssemos assim estimulando uma "sofisticada espécie de criminosos, estudiosos da legislação, especialistas na burla das leis, no achincalhe às instituições, na agressão aos preceitos da cidadania". Não temia em vão. Pedro Collor de Mello morreu em dezembro de 1994, apenas dois anos depois de ter derrubado o irmão da presidência. A mãe, Leda Collor, morreu em 1995, depois de quase três anos em coma. Leopoldo Collor morreu em 2013, abandonado pela família num hospital público. Sobreviveu (bem) o casal número 1 da República no início dos anos 90. Como citei há pouco, Rosane Collor lançou em 2014 seu livro de memórias como "o testemunho corajoso da primeira-dama mais jovem que o Brasil já teve". Fernando Collor de Mello, atualmente Senador da República pelo PTB e candidato derrotado ao governo de Alagoas em 2002 e em 2010, anunciou neste dezembro de 2015 que lançará a sua versão do impeachment. Em meio a tudo isso, o exemplar do meu livro, coitado, está despelado, rôto e manchado. De certa forma (pensei eu, vaidoso), é uma relíquia. Provável que possua alto valor e virá a integrar minha herança, no quesito "livro raro". Por curiosidade contábil, fui verificar no Estante Virtual, site que reúne milhares de sebos no país, se havia algum sendo vendido. Algum? Para ser exato, 351 exemplares em oferta, sendo que dezenas deles por meros e redondos R$ 5,00 - acrescidos de R$ 5,95 de frete -, donde concluo que ninguém vai querer herdar as minhas cinco pratas. Cifra que conta muito sobre quanto vale o passado, por aqui.

Editora Record, 285 páginas

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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