"Memórias do esquecimento", por Flávio Tavares

quinta-feira, junho 07, 2018 Sidney Puterman


Sou curioso, digo sempre. E este é um livro bom para bagunçar o que pensamos saber sobre a necrosada ditadura brasileira. Enquanto hoje, reescrevendo seus papéis, direita e esquerda pleiteiam seu lugar de fala - na nossa disfuncional democracia -, a nós, vítimas, resta vê-las procurando álibis e brandindo panfletos. Risível. São todos suspeitos. Nós, teimosos, queremos ir além nesta estória, entendermos melhor este passado difuso (tão próximo e tão distante). Sobre este período sombrio do Brasil, os depoimentos e versões se contam às centenas. Muitos viraram livros. É o nosso tesouro. Parte do que garimpamos nas prateleiras é conteúdo relevante; não obstante, via de regra, parcial. Ainda assim é a matéria-prima mais confiável para esboçarmos o mapa político/policial de então. Não sei você; mas eu, lendo, procuro espanar a ignorância e discernir os atos e os fatos (homenageando o mestre Cony) destes dez, quinze anos nauseabundos do meu país. O paradoxo de ter vivido este tempo alheio a tudo - criança, abstraía o mundo dos adultos - me acirra o interesse. Eu estava lá, da mesma forma que, sem dar a mínima, vi o Botafogo ser bicampeão carioca com um quatro a zero em cima do Vasco. Eu estava presente e desconhecia tudo que no futuro ansiaria saber. Mas isso não importa. Não agora. O que deplorei estes anos todos é não saber o que aconteceu, como aconteceu, porque se deixou acontecer, porque se prestaram a isso; porque mataram, porque morreram. O porque mataram é mais fácil, porque o ser humano é, não raro, um escroto pela própria natureza. O porque morreram é mais complexo. Nesta ânsia sigo tateando. Nós, baby-dops, somos sedentos desta verdade fugaz e lemos com avidez. Somos pedreiros montando pontes com peças de lego, em meio à bruma, como se com os olhos vendados. O conhecimento ralo é contra nós. A historiografia oficial é desonesta. Então, o que nos resta precioso são os relatos. Porque documentos, como estes que vieram à tona agora, liberados pelo Estados Unidos, culpando os culpados (você achava mesmo que Geisel, general-presidente, era inocente?), dizem menos do que aparentam dizer. Valem chamadas do Jornal Nacional e, na falta de pauta, capas das revistas semanais. São rasos, porque, em sua função de registro, seu ofício é ocultar e diluir. Por isso, nada vale mais do que a narrativa pessoal, enviesada que seja. Prefiro as distorções aos clichês. Porque ingênuo quem pensa que o relato guerrilheiro, certo ou errado, se resume a uma epopeia bandoleira. Se os ideais de outrora desaguaram em projetos imbecis, condenemos o desdobramento, mas não os confundamos com as convicções de quem abriu mão de si mesmo em prol do caminho errado (certos são somente os caminhos óbvios, mas a coragem às vezes é cega). Não caiamos na esparrela de incensar a repressão. Quem avisa, amigo é: não vá você, desavisado, alimentar a besta. Mas, por outro lado, convém não bater palma para maluco dançar. Em meio a estas duas verdades que nada mais são do que a apologia da mentira, assistimos a uma plastificação do passado da qual somente o conhecimento genuíno pode nos libertar (pobre juventude, agrilhoada ao bovinismo e à camisa de força do siga-o-líder, crente, uniforme, de que torce para o time da casa). Porque, como temos oportunidade de pressentir, lendo o livro de Tavares, nada é o que parece. O jornalista nos serve, de cabo a rabo, ainda que na ordem invertida e depois misturada, seu passado subversivo. E, de quebra, o roteiro-chave para entendermos, no encaixe com tantos outros relatos, como a História do Brasil gastou uma década chafurdando na lama. Tavares, o dr. Falcão, é um agente desmistificador. Sua desimportância estratégica - nada a ver com sua importância pessoal - e sua presença relevante nos cenários que antecederam o golpe trazem um subsídio valioso para interpretarmos a confusão militar e ideológica que nos vitimou. As ondas geradas nesta colisão ainda hoje nos embaralham o rumo. Flávio começa seu livro - que é o meu tema aqui, desculpe você por este nariz-de-cera interminável - falando da tortura. Fala da cela e da ladainha contínua de dias e noites: "Te levanta, filho da puta, comunista subversivo." Conta como cada castigo era infligido. Eu resumo a descrição que faz da tortura do choque: "Começa na mão direita. O efeito percorre todo o corpo e o prisioneiro cai. Molham o chão para que o efeito se amplie da planta dos pés à cabeça, num tremor profundo, e logo o cabo metálico chega ao rosto e ao contornos dos olhos, aos ouvidos, às gengivas e à língua. Na sala de torturas, o prisioneiro está sempre nu, que em si mesmo já é uma humilhação, facilita o requinte maior do choque elétrico: os homens, amarrar os fios no pênis, e nas mulheres, introduzir o cabo metálico na vagina. E em ambos, como alternativa final, o choque elétrico no ânus." A reprodução das palavras, cruas, não é sadismo meu. Na verdade, este depoimento está escrito (e eu já li) em dezenas de relatos, todos quase iguais. Mas é que a nudez da descrição faz parte do anfiteatro montado por Tavares para nos conduzir pelo fígado do inferno. O livro de Flávio é igual a muitos, mas é diferente, porque é melhor. Bem escrito, nele o autoral e o histórico convergem, dando qualidade à obra e pertinência ao registro. Sua história o credencia. Flavio era um jornalista político e um cidadão subversivo. Hoje, cidadão sobrevivente, é escritor premiado. Digo mais: arquivo inestimável. Seu livro é pródigo em histórias únicas. Por ele soube de uma dissidência do PCB em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, desbaratada por acaso e a golpes de mão, onde a tigrada da repressão sequestrou mulheres e crianças e, enquanto vasculhavam a residência, cagaram no chão do banheiro. De porta aberta. Os policiais invadiam a casa dedurada por um integrante do PCB. Destaco que Tavares não é nem um pouco generoso, ou complacente, na sua visão do Partidão (visão oposta, registre-se, à de Jacob Gorender, um dos mais importantes intelectuais e historiadores da Esquerda brasileira, autor do seminal "Combate nas trevas", veja aqui mesmo no blog em https://bit.ly/2ss5yZ9): "O Partido Comunista, que fora referência histórica ou núcleo básico da esquerda, tinha optado opor uma vida de ameba no intestino da ditadura, e queria, tão só, autoproteger-se para manter-se vivo, mesmo que assim matasse toda a sua tradição de insurreição." Traição, sob diversos pontos de vista, era servida fartamente à freguesia. Tavares confessa como traiu, "pela causa", um jovem, Pauleca, irmão de um amigo, que o idolatrava - e que, sem saber de ação nenhuma, o ajudou em um transporte de armas. Foi preso, torturado e, pelo que pude deduzir, morto. Flávio testemunhou, mas não o absolveu, para não se incriminar - ou para não entregar seu grupo. Sutilezas. Em passagens mais amenas, conta dos recrutas catarinas que vigiavam os terroristas. Fala dos panfletos contra a ditadura impressos na única gráfica não vigiada pelo regime: a gráfica do presídio, onde os marinheiros cumpriam pena. Revela o que para mim soou absolutamente inédito: como um acampamento guerrilheiro das Ligas Camponesas, subvencionado por Cuba, foi descoberto pelo Exército - por acaso -, em 1962. Era um período democrático, não se pressupunha que o comunismo mantivesse em território brasileiro focos de treinamento militar. Deu-se que o Exército foi investigar em Dianópolis, interior de Goiás, um contrabando de geladeiras - que eram, na verdade, armas e farto material terrorista cubano, incluindo chatíssimos, imagino, discursos de Fidel. O manso João Goulart era o presidente e resolveu acochambrar a situação, reunindo as provas da participação de Cuba no atentado à soberania brasileira - ou seja, contra o seu próprio governo - e as entregando ao ministro cubano, Señor Zepeda, que veio ao Brasil apaziguar o terreno (Jango queria mostrar seu espírito conciliador e puxar o saco de Fidel). Porém, o avião, com o ministro cubano e toda a documentação, caiu em uma escala em Lima. Morreram todos, mas os documentos sobreviveram e chegaram à CIA e à OEA, que acusaram Cuba de "deflagrar a guerrilha na América Latina". Por Flávio conhecemos anedotas de salão, como a estranha crença do Major Meyer Fontenelle: "Para provar que é patriota, todo brasileiro devia passar pelo pau de arara". Pena, o autor não esclarece se o dito major aplicava a máxima à família querida. Ou outro major do Exército, um pernambucano de nome Bismarck, que se divertia com os choques dados no prisioneiro Tavares e chamava a maquininha de "Dr. Volts". Certa vez que a mãe do prisioneiro foi visitá-lo, Bismarck assegurou: "Não se preocupe, senhora, que cuidamos bem do seu filho aqui." Majores. É este tipo que a população vem incensando. Ressalte-se que nem todos têm este comportamento - o próprio autor tece loas a alguns, como o coronel Élber de Mello, que se portou de forma digna a ponto de ser convidado para o lançamento do livro de Tavares, 30 anos depois. Voltemos ao testemunho, que não tem preço, nem tem igual. O autor disseca o cerco de Angra dos Reis, onde dois batalhões de infantaria naval, com 700 soldados ao todo, passaram três dias cercando dez "aprendizes de guerrilheiro", na avaliação de Flávio. Além da infantaria em terra, o cerco contou pelo ar com seis helicópteros da base naval de São Pedro da Aldeia e duas fragatas pelo mar. Os guerrilheiros, tendo um batalhão atacando-os de cada lado, trocaram tiros e escaparam por uma brecha. Os dois batalhões da Marinha feriram-se mutuamente, com um saldo de um morto e 20 feridos. Entre si. Os guerrilheiros fugiram, sendo que um foi preso longe da quizília, ao pedir comida em um vilarejo. Relatos como este, coerentes com tantos outros que já li, dão dimensão da capacidade das nossas Forças Armadas quando em combate. Aos que discordam ou se ofendem, adianto que vendo o peixe pelo preço que paguei. A leitura do texto de Tavares joga luz sobre discussões (absurdas) que andamos tendo, se a atual intervenção militar no Estado do Rio seria ditadura e se um governo paramilitar com Bolsonaro à frente seria democrático. Se hoje chamamos urubu de meu louro, Tavares não se perde na nomenclatura: "Em 1964, o golpe de estado virou revolução. Em outubro de 1965, o AI2 era o golpe no golpe. Em 68 o AI5 oficializou a ditadura. Em 1969 era a absoluta militarização." Passagens inusitadas abrem o arco da resistência: no mínimo divertido o relato dos dois comandantes guerrilheiros que passaram um ano internados em Cuba. Voltaram de lá super soldados, capazes de passar "uma semana em cima de uma árvore", como comentou Leonel, sobre quem logo falarei. Só que os dois semi-silvícolas não aguentaram dez dias clandestinos em um apartamento em Brasília, esperando e fazendo... nada. Um deles desertou do outro e voltou para a família em Goiás. O remanescente suportou mais um pouco, mas certa manhã ligou para Tavares, desesperado, reportando que a polícia cercara o prédio e que ele "iria sair pela janela, atirando". O jornalista foi até o prédio e constatou que estava realmente cercado, mas o que a polícia queria era desalojar dois sem-teto, já que desde o golpe a cidade estava repleta de apartamentos abandonados: "O recém-chegado comandante guerrilheiro entrara em tal estado de prostração que já queria descer reto do terceiro andar até o chão." Já um outro conterrâneo revolucionário, Zezé, se mandou sozinho para o meio da mata para abrir 600 metros de pista na selva para a aterrisagem de um avião DC-3 camarada carregado de armas, vindo da Guiana. Sete meses depois Zezé fez saber que já havia construído 500m de pista. Sem ajuda de um caboclo que fosse. O tal avião, entretanto, nunca chegou. Flávio abre um capítulo à parte (literalmente, é o capítulo nono, "Compadre com fuzil") quando começa a falar das suas reuniões clandestinas com Leonel Brizola. Acho curioso: o que ouço de Brizola sempre me soou ambivalente, contraditório. Na minha adolescência, seu retorno ao Brasil, anistiado, foi a principal notícia da semana - para mim, era um glorioso ninguém. Pois em um par de anos ele retomou o protagonismo, se candidatando ao governo carioca fazendo o gênero piadista. O tiozão do exílio tinha sempre um chiste, quebrando a sisudez dos debates eleitorais. Brizola acabou vencendo a eleição, contra os esforços desproporcionais de O Globo, jornal para o qual eu, jornalista ainda não formado, fazia um frila na apuração das eleições de 82. Minha mãe achava ele o capeta em forma de gente. Eu ria da aversão demasiada de mãinha e, de birra, defendia o gaúcho, para inconformismo dela. Para quem acompanhou a confusa dupla passagem de Brizola pelo governo do Rio, o interesse pelo que conta Tavares recrudesce. Aquele senhor pausado e cheio de maneirismos justificava a fama de bicho-papão? Vamos ao que relata o autor. Como muito se acusou, à época e depois, Brizola recebeu sim dinheiro de Fidel Castro. Instalado em um confortável casarão na orla de Montevideo - segundo o autor, a "meca da revolução nacionalista-popular no Brasil" -, o caudilho distribuiu, enquanto pôde, as verbas vindas da ilha. Articulou e financiou a fracassada Guerrilha do Caparaó e inclusive deu uma bolada em dólares para o próprio Flávio Tavares. Mais à frente o cerco apertou, o dinheiro secou e o suporte que Brizola dava diretamente do exílio se extinguiu. Ele próprio foi empurrado para Atlantida, um balneário a 70 km da capital, por exigência do governo brasileiro ao uruguaio. Lá, Brizola e Tavares discutiram uma  mudança de estratégia para a revolução brasileira - da rebelião nos quartéis para o foco de guerrilha. O próprio Brizola teria segredado ao autor fazer exercícios de tiro e assalto a baioneta. Pena que não filmaram. A decepção de Flávio com Leonel é comedida nos termos, talvez porque o ex-governador ainda fosse vivo na publicação do livro. Mas não disfarça para o leitor a sensação de que Brizola deixou os integrantes da guerrilha pendurados na brocha e tirou a escada. Por mim, como no bicho, vale o escrito. Estórias, relatos, revelações e a estatura do próprio autor compõem o esqueleto da obra, que ganha musculatura à medida que as páginas se sucedem. A história claustrofóbica do prisioneiro torturado ganha amplitude quando ele retoma, em flashback, sua trajetória de estudante e jornalista. Seu trânsito entre os protagonistas do governo e da subversão deixam patente a legitimidade e a relevância do relato. Quem mais senão Tavares poderia revelar que tivemos um presidente dublê de encanador? E que um militar qualquer foi caçado no meio da noite para comparecer à posse do presidente interino? Ou os meandros da desconhecida e fantasiosa "guerrilha do Triângulo Mineiro", cujo desbaratamento lhe valeu o primeiro grande período de cadeia? E que o assustador Brizola se tornou no Uruguai o traíra Pedrinho da Morena? São muitas as revelações e muitas as risadas, se é que podemos nos dar o direito de rir da catástrofe. Em meio à tanta História, as ponderações de Tavares enriquecem os fatos, como nesta análise do governo imediatamente após a derrubada de Jango: "Paulatinamente, as duas partes - o Congresso e a caserna - iniciaram, a partir de então, um mútuo jogo sedutor de cinismo político. Um necessitava do outro para sobreviver. Ou por não terem tido força, ou por terem sido brandos, ou por se terem dividido ao tomar o poder, os militares vitoriosos em 1964 mantiveram abertos o Congresso, as Assembleias Legislativas estaduais e as câmaras municipais, instalando um regime sui generis, único no mundo. Esta ditadura com eleições, com  partidos políticos e com Parlamento não representou para o poder militar apenas um respiradouro externo para facilitar , por exemplo, o apoio recebido dos Estados Unidos, mas ajudou a descomprimir a situação interna. Não se elegia presidente nem governador ou prefeito de capital, mas as eleições legislativas, ao criarem antagonismos e disputas (às vezes, até disputa político-ideológica entre esquerda e direita), davam uma sensação de normalidade." O depoimento de Flávio Tavares é único e deve ser tratado como tal, ainda que, visto das alturas, seja não mais que uma mínima parte de uma trágica epopeia - o que é também sua riqueza. Por ele entendemos a motivação de tantos brasileiros de coragem que desafiaram o governo ditatorial. Uma das conclusões a que chegamos ao fim do livro de Flávio Tavares é que não há uma verdade definitiva sobre a instauração da ditadura, sobre a tortura nos quartéis e sobre a formação dos grupos subversivos. Não há - não porque se confrontem versões excludentes, mas porque a visão de cada toca, de cada túnel e de cada perda é exclusiva. Somente a soma de todas as visões permite uma noção do todo. A obra de Flávio Tavares é para mim um baú de surpresas. Primeiro, porque eu não sabia quem ele era. Ignorância minha. Segundo, porque eu não sabia do seu livro. Negligência minha. Terceiro, porque, mais do que um protagonista da sua própria história, Tavares escreve bem demais. Com sua memória e talento, Flávio abre uma janela temporal que nos suga e embriaga. Como é que julgamos saber tanto sobre o que se passou e, na leitura de um livro com testemunho aparentemente tão semelhante a tudo o mais, descobrimos que ainda falta tanto por saber? Suas memórias são uma viagem às entranhas do golpe.

Editora L&PM Pocket, 267 páginas

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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