"Como aprendi o português e outras aventuras", por Paulo Rónai

quarta-feira, setembro 14, 2016 Sidney Puterman

É livro para ler ajoelhado. Livro que não se faz mais, autor que não existe mais. São 30 textos do húngaro Paulo Rónai, editados pela primeira vez há exatos 60 anos. A sensibilidade, a erudição, a inteligência... Que dizer? Ainda que soberbos, todos, três deles eu preciso destacar: o que dá título à obra e os dois últimos, "Livro de crianças em mão de adulto" e "O poeta de Bor". Sim, mas, antes deles, como não mencionar também as surpreendentes revelações sobre o idioma húngaro, em "Retrato íntimo de um idioma"? Lendo à noite, na cama, eu acordando Aninha com gargalhadas e estupefações? Uma língua onde a acentuação é sempre na primeira sílaba, não tem gênero, só tem um passado e nenhum futuro? Ah, me poupe. Quem mais me faria rir de madrugada com um idioma improvável? E ainda diz que nenhum estrangeiro é sequer capaz de pronunciar corretamente o nome da língua, "magyar". Não duvido. E, em "O húngaro e o cachorro", as dezenas de ditados incluindo cachorros? (como exemplo, o ditado para quem encontra a solução de um mistério: "Aqui é que o cachorro estava enterrado".) OK, sou um maluco que ri com as idiossincrasias de uma língua estranha. Então vamos esquecer o húngaro e falar do brasileiro - porque Rónai, que aqui ganhou a vida como professor brasileiro, já denunciava a preguiça do ensino no Brasil há mais de meio século (a qual, da sua parte, se esforçou por reduzir). Para ficarmos nos ditos nacionais, uma só andorinha não faz verão, ou, pior, é desperdiçar vela boa com defunto ruim. Somos assim, lascivos. E Paris? Suas análises de escritores e da literatura francesa é deliciosa, até mesmo para ignorantes como eu, que mal ouviram falar dos autores que ele solfeja. Mas saber que este judeu húngaro, que, já antes da chegada do invasor nazista, aprendeu a falar português só porque lhe deu na telha, e, com um livro vagabundo de poemas na mão e um dicionário alemão-português na outra, dominou a mecânica da nossa língua, é de cair o queixo. Como assim? E ele, que falava 12, admirava o cardeal que sabia 56... pode parar, professor. Demais para minha cabecinha. Mas é desde pequeno mesmo que eu sou seu admirador, desde quando me caiu às mãos "Os meninos da Rua Paulo", do qual Rónai foi tradutor. Abestado que sou, só de escrever aqui o nome do livro, meu olho já enche dágua. Rapá, como sonhei, moleque, naquela Budapeste de grunds e jogos de pela. Quantas vezes reli meu surrado livreco de bolso da Ediouro, virando cada esquina com Nemecseck? Perdi a conta. Comprei mais de uma edição diferente para os meus filhos, para ver se despertava neles ao menos um fiapo da paixão que o livro me provocava, em vão. Acharam "legal". Paulo Rónai, em sua análise, dá a verdadeira dimensão da obra, logo após um texto em que se detém sobre Molnár Ferenc, seu autor. Terminando o livro (que procurei por mais de ano, até finalmente encontrá-lo), me flagrei com a respiração em suspenso, abobado (a cada machadada, uma minhoca). O último dos artigos me desmontou, dedicado ao poeta Miklós Radnóti, seu amigo, assassinado em um campo de concentração nazista na Sérvia. Nele, Rónai relembra García Lorca (Porque a Espanha gostava de ti/ E os amantes diziam teus versos/ "Eles", quando vieram, que haviam de fazer?/ Eras poeta, mataram-te."). Já era demais, mas ele foi além, ao abrir o derradeiro destes 30 ensaios com uma frase de Radnóti, em "Céu espumante": "Nada tive e nunca mais terei coisa alguma. Vem, pois, meditar um momento sobre esta vida rica."

Casa da Palavra, 258 páginas

Post Scriptum: Roubei a foto da internet. Paulo, em família. Nada poderia enfeitar mais o meu blog.

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

2 comentários:

  1. Que delícia de ler. Fico "ouvindo" suas gargalhadas e rindo junto.

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  2. Adorei sua apresentação, agora quero ler. Obrigada.

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