"Macunaíma", por Mario de Andrade

quarta-feira, novembro 20, 2013 Sidney Puterman


Hoje, Dia da Consciência Negra, é uma data bem a calhar para falarmos dessa miscigenada gente brasileira. Desnecessário, aqui, recorrermos aos clichês; eles são, em essência, desnecessários. E um personagem repleto de brasilidade e que foge ao lugar comum é o simultaneamente afamado e ignorado Macunaíma. Quem você conhece que leu Macunaíma? Você? Algum amigo? Um conhecido? Pois é, pouca gente leu. Ele integra esse rol de obras megacitadas, sobre as quais todo mundo se refere - e ninguém lê, de fato. Há mesmo quem aponte Macunaíma como um dos dez mais da história da Literatura Brasileira. Bazófia. Eu li e posso contar. É um livro curioso (que deve boa parte da sua fama ao filme homônimo, no qual Grande Otelo e Paulo José dividem a interpretação do papel título), com um texto bem elaborado, sarcástico e merecedor de figurar nas boas antologias sobre a nossa literatura - mas daí a ter assento entre o crème de la crème vai boa distância. Ainda assim, interessante. Escrito nos anos 20 do século passado, tece sua trama satírica se valendo das lendas fantásticas do folclore brasileiro, as reescrevendo de forma debochada, e ironiza a personalidade do povo tupiniquim (nós), retratando-o ora como burro, indolente ou mau-caráter – ou os três ao mesmo tempo. O fantasismo em excesso mais aborrece, hoje, do que fascina, mas o livro é inventivo, mordaz e erudito, deliciosamente enfileirando milhares de nomes indígenas e africanos que estão nas raízes da cultura brasileira. Sua ostensiva originalidade me intrigou - fuçando, vim a saber que essa obra-prima antropofágica bebeu da fonte do etnógrafo naturalista alemão Theodor Koch-Grunberg, “Vom Roroima zum Orinoco”. De onde o teutão bebeu, já não sei, nem o li. A linha mágica domina todos os parágrafos e a narrativa do absurdo que conduz os capítulos de Macunaíma é súbita e injustificadamente (a meu ver) interrompida em um deles, onde Andrade “desassume” sua obra e se vale de uma voz convencional, caricatamente empolada, para narrar os mesmos fatos – o que não acrescenta nada ao livro, que passaria melhor sem esse “pedido de altas” do autor. Um livrinho pitoresco e saboroso, para ser lido aos goles, aos risos e mesmo às gargalhadas. Uma bela demonstração da irreverência criativa dos anos 20.

Garnier, 162 páginas.

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

0 comentários: