"Memórias de uma guerra suja", por Cláudio Guerra

domingo, maio 01, 2016 Sidney Puterman

Domingo, 1o de maio. Dia de delação premiada. Pelo menos, aqui no blog. Hoje, aqui, o matador da ditadura delata tudo o que fez e tudo o que viu. OK. Assunto desagradável para um domingo. Já não bastasse o de duas semanas atrás (o tal do "por Deus e pela minha família, voto sim"). Mas hoje não é um dia qualquer. 1o de maio de 2016. Na noite de ontem pra hoje fez 35 anos do atentado a bomba no Riocentro. Cláudio Guerra estava lá. Ele fazia parte da operação assassina. Confessa e entrega. Fala de atentados a Brizola e Gabeira. Ele era o responsável. Dos assassinatos de Mariscot e Fleury. Da Casa da Morte de Petrópolis. E de uma segunda casa da morte, até então ignorada. Guerra, temido ex-delegado do DOPS, troca de lado e denuncia os mandantes. Os parceiros. Os colegas. A si mesmo. Guerra denuncia todos. Imaginem a repercussão. Parem as máquinas. Convoquem a imprens... Ops, pode deixar para lá. Não há máquinas rodando. Não há repercussão. Ninguém comenta. Todos FALAM da ditadura, mas ninguém quer SABER sobre a ditadura. Às vezes me parece que ninguém quer saber de nada. País engraçado o meu. Ignorantes (não é um xingamento, é só uma constatação) falam e trocam acusações que são estapafúrdias atrocidades históricas. Enquanto isso, a História sai da tumba e revela a si mesma. Ninguém se interessa. O país se orgulha do seu compromisso solene com a ignorância. Danem-se os fatos. Mas eles estão aí. Na beira do precipício, vendo o país rolar ribanceira abaixo. Porque aqui, como numa discussão de comadres na favela, todos querem gritar. Dane-se a verdade. Ninguém está interessado nela. Quem gritar mais alto sai com cara de que ganhou a discussão. E ainda se acha. Pobre Brasil. Estas memórias são um tiro de escopeta no peito do leitor. Para se ler com um saco de vômito ao lado. Cláudio Guerra escancarou a verdade que durante duas gerações todos questionaram. O atentado no Riocentro. O puma, o sargento, a bomba no colo. À época, rendeu centenas de manchetes. Acusações a torto e a direito. Mil hipóteses. Tudo bolha. Ninguém quer saber. Meus amigos estavam lá. Eu quase fui nesse show. Não tive saco. Era 1o de maio de 1981. Tinha que mofar uma hora no ônibus, de Ipanema à Barra. Gente saindo pelo ladrão. Resolvi não ir. Galera da faculdade, da praia e da Lagoa foi. Boa parte ia morrer e não sabia. Era só um show. Um puta show. As equipes ligadas à repressão no regime militar prepararam um atentado cujo objetivo era definido: matar muita gente. Era isso. Jovens, todos nós éramos jovens. Eles estavam lá para nos matar. Articulados. Com antecedência, mandaram evacuar todas as ambulâncias e todo eventual apoio a qualquer espécie de socorro médico. Quanto mais trágico e sangrento, melhor. Meus amigos estavam lá. Dezenas de milhares de jovens também. As portas do Riocentro foram trancadas. Uma equipe encarregada das bombas foi dividida em três subgrupos. Dois outros grupos estavam para dar o suporte, observar a ação, evitar surpresas e fazer a (im) perícia. O pessoal matador do exército brasileiro, àquela altura, já era profissional. Uma década de aprendizado contra um inimigo incompetente e aleijado. Iam culpar meia-dúzia de sujeitos ligados a movimentos de esquerda, que também iam morrer no show. O esquema dos assassinos, uma dissidência do regime militar que não aceitava a perda de poder e de dinheiro - exatamente como o grupo que ocupa o poder agora, em 2016 -, visava trazer o caos, culpar a esquerda e gerar um retrocesso no processo de abertura política. A matéria-prima eram eu e meus amigos, marcados para morrer naquele genocídio. Para sorte nossa, deu tudo errado. Aliás, UMA coisa deu errado. Cláudio Guerra conta. Ele estava lá. Ele viu. Ele supervisionava a ação. Claudio Guerra conta isso e muito mais. O caso Alexandre Baumgartem, que também dominou a mídia por anos, ele conta. Como funcionava o mecanismo de mortes por encomenda dentro do governo militar, ele conta. A Procuradoria Federal como braço ativo da ditadura, fato até então nunca aventado. Os empresários que auxiliavam o regime, inclusive emprestando os fornos industriais para desova de cadáveres. Roberto Marinho fraudando um atentado contra a própria casa, para se fazer de vítima. Guerra, en passant, entrega os artistas Wagner Montes e Moacir Franco (mas não tem o famigerado Simonal nessa delação; nem em nenhuma, até hoje). É um livro sobre assassinos. Descreve quem matou, como matou e onde cada morto foi enterrado. Conta onde se reuniam, quem era quem, quem fez o quê. Mas... cadê a repercussão? O livro foi publicado em 2012. É como se não tivesse existido. Eu comprei na época, mas só li agora. Assumo minha culpa. Compro mil livros e só tenho tempo para ler 50 por ano. Um dia vou ler mais. Faço o que posso. Neste caso, com quatro anos de atraso, questiono: cadê a indignação coletiva, cadê a espinafração dos agentes envolvidos, cadê a exposição das denúncias, cadê o governo, que se finge de esquerda, escancarar o que foi denunciado e dar seguimento às acusações? Há assassinos vivos, ocupando cargos neste governo. É isso mesmo. Matadores e agentes da "direita", que torturaram e assassinaram gente da "esquerda" são funcionários públicos no governo da "esquerda". Pasme: a história oculta está aí supreendentemente disponível. Mas Cláudio Guerra conta tudo e nada acontece. O Brasil, esta potência do superficialismo, desmoraliza a queima de arquivo. Um dos mais frios matadores do regime militar vai preso, é esquecido e, velho, decide não levar a verdade dos seus crimes e dos outros assassinos para o túmulo. Denuncia. Mas é uma delação que não teve por prêmio a liberdade, como é a moeda sonante das delações, moderno recurso jurídico-criminal que por aqui é questionado. Piada de português. Claudio Guerra delatou para receber de prêmio o céu. Nos quatro anos em que ficou preso, Guerra se converteu ao Evangelho e aceitou Jesus. E Jesus disse a ele que as muitas dúzias de mortes que ele carregava nas costas eram um pecado que ele devia confessar. Então este novo Cláudio temente a Deus denunciou os irmãozinhos. Sabe que vai morrer, como Manhães morreu. Não importa. Ele já comprou a passagem pro céu. O respeito dos irmãozinhos do crime já não lhe importa mais. O matador profissional mais discreto da ditadura premiou a história do Brasil com a sua delação. Sua confissão desassombrada arregaçou as vísceras da fábrica de assassinatos do regime militar. Seu depoimento foi impresso e vendido em Oropa, França e Bahia. Mas ficou no vácuo. Livros são chatos.

Topbooks, 291 páginas

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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