"Simonal", por Gustavo Alonso

segunda-feira, fevereiro 25, 2013 Sidney Puterman


Quem vê o título do livro, “Simonal”, com uma foto do próprio Simonal na capa, pensa que é uma biografia sobre o cantor Wilson Simonal. Engano: não é. É uma tese. E você só vai saber disso quando comprar o livro e começar a ler. Foi assim que eu descobri. Encomendei um livro sobre Simonal e recebi um tijolo verborrágico sobre os “resistentes da MPB”. A tese que o autor está engajado em defender, adianto logo, é um equívoco. Se os que elogiam o livro o leram na íntegra (acabei de fuçar na internet e dei de cara com um blog do autor relacionando as críticas positivas que recebeu, incluindo Caetano Veloso, Artur Xexéo e o resenhista da orelha do livro), discordo da relevância atribuída à obra. Livros derivados de teses primam pelo pernosticismo e pelo excesso de citações. Querem provar um domínio do assunto que, de fato, não têm. Evito teses. Procuro pelos gênios. Eu, que adoro Simonal, fui atrás da biografia do gênio. Me empurraram uma tese ingênua. Não foi a primeira vez. Mesmo frustrado com a pobreza do livro, sem material original, fui em frente, a despeito da sua chatice. Também sou carne de pescoço. Não escondo: Alonso é um sujeito prolixo a serviço de uma tese. Faz do furacão Simonal um pretexto para exibir ignorância sobre os temas mais diversos, indo do Tribunal de Nuremberg a Friedrich Nietzsche. Seu fulcro central, a tal ideia dos “resistentes”, é uma bobajada, que superestima artigos triviais de jornais. Se estende afirmando que Chico, Caetano e outros foram “incensados” pela mídia por representarem uma “resistência” à ditadura, e a partir daí busca determinar que o ocaso de Simonal se deu porque ele não foi assimilado como um “resistente”. Simplificação burra. Alonso procura cabelo em ovo e “problematiza”* tudo o que vê. O pacotaço que é o livro me atingiu como uma pedrada. Entre as centenas de citações, poucas entusiasmam (palmas para a de Aracy de Almeida, que, insatisfeita com o epíteto de “o samba em pessoa” e de “a voz de Noel Rosa”, diz: “Esses filhos da puta querem salvar as glórias nacionais! Glórias nacionais aqui, ó, no cu! glória nacional é o caralho.”) A mediocridade da obra de Alonso transborda ao citar um texto de meras nove linhas de Ruy Castro sobre Simonal – e nelas se aprende mais do que nas milhares de linhas anteriores. É lugar comum dizer que o livro é sempre melhor que o filme. Pois o filme “Ninguém sabe o duro que dei”, de Claudio Manoel, nos permite conhecer muito mais Simonal do que alcança o livro (cujas melhores páginas ficam nos anexos, com a entrevista de Simonal ao Pasquim, em 1969, e sua declaração à polícia, onde seu contador, pivô do caso que o levará à prisão e à desgraça pública, desfia um pula-pula de empregos - fato não explorado pelo autor, que não percebeu o quão picareta era o empregado de Simonal). Gustavo Alonso não estabelece, por petulância e cegueira, que, se o talento de Wilson Simonal era imenso, seu portador era tido por escroto - o típico sujeito que todo mundo quer mais é que se f... Pena. Eu ainda acho o velho Simona demais. Mas quem não o conheceu e for atrás do mito - nesse livro - vai continuar boiando. Ô desperdício. 

Record, 471 páginas

* Hiato: esse neoverbo babaquara problematizar - que usei caricatamente, aliás - é o predileto do autor. Eu, já enfastiado com o excesso de uso de um verbo que não deveria ser usado sequer uma única vez,  a partir da página 300 contei quantas vezes ele usou a palavra: 17 vezes!!! O que me leva a acreditar que temos no mínimo umas 30 “problematizações” no livro - nas páginas 342, 347, 391 e 395 chegamos ao cúmulo de duas “problematizações” por página!  E em que sentido ele tanto usa “problematizar”? No de questionar. Seria simples usar o “questionar”, ao invés da exdrúxula e pedante “problematizar”, mas o texto presunçoso de Gustavo insiste na asneira. Asneiras, a propósito, saltam da brochura: “perímetro imaginário das ruas República do Peru, Barata Ribeiro, Princesa Isabel e avenida Atlântica” (pg 184) – ora, as quatro ruas formam um perímetro real, portanto não é “imaginário”; “fonte eterna de curtição entre os anos de 1954 e 1964” (pg 185) – bem, se foi circunscrita aos dez anos citados, não é “eterna”; “condenar os chefões do Terceiro Reich à pena de morte foi a forma (…) de purgar o pecado alemão (…)” (pg 197) – os criminosos de guerra foram condenados por genocídio,  não para “purgar o pecado”; chama de músico o crooner Miltinho (pg 190) e gasta uma página com uma baboseira que correlaciona a ausência de acento na grafia de Edson Luís com o esvaziamento da sua “representatividade para a memória coletiva” (pg 199).  Além da obsessão pelo neologismo estúpido, as frases construídas são, muitas vezes, bizarras: “deglutir de forma bastante tropicalista” (pg 360); “no auge do ostracismo” (pg 382) (o que me fez pensar em outras frases do gênero: “no apogeu do fracasso”, “na crista do insucesso” etc); “algumas lacunas permanecem incógnitas” (pg 394). E por aí vai, em sucessão vertiginosa de bobagens. Na sua ânsia de achar um lugar para a “pilantragem” como um movimento musical maior, comparável ao tropicalismo, recorre a centenas de referências, mas ignora, inclusive na filmografia das páginas 464/465, o filme “O Rei da Pilantragem”, de 1968, produzido por Carlos Imperial e com trilha sonora cantada por Wilson Simonal, que é um belíssimo testemunho da indigência oportunista que era a tal pilantragem, redenominada na película  de “pilantrália” pelo próprio Imperial, o pilantra-mor. O livro é em parte como esse post: comprido além da conta. Mas esse, pelo menos, você leu de graça.

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

5 comentários:

  1. Discordo da sua posição. a dele tese é cuidadosa para não parecer uma defesa panfletária de alguém culpado. escrevi uma resenha também. dê uma lida que, pelo menos o debate, pode ser bom:

    http://www.leitoranalogico.com.br/resenha-simonal-quem-nao-tem-swing-morre-com-a-boca-cheia-de-formiga-de-gustavo-alonso/

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  2. Luiz, antes de mais nada, obrigado pelo seu comentário. Muita gentileza sua ler meu texto mal-educado. Em segundo lugar, parabéns pelo "Leitor Analógico". Ler é oxigênio. Suscitar o interesse pela leitura é nobre. Se nessas plagas abaixo do Equador lêssemos um pouco mais, não seríamos o que somos. Ações como seu blog são duca. Serei mais um fã.
    Quanto ao livro sobre o velho Simona, vamos manter nossa discordância. Li seu post e vi que você comunga da visão do autor, da qual divirjo. Na minha opinião (ainda que solitária), a tese científica de Alonso se auto-invalida ao defender uma ciência que se aplica a um único indivíduo. De acordo com sua (dele) teoria da "resistência", não houve vítimas, e sim A VÍTIMA. É demais para a minha inteligência simples e tacanha. O concurso de ocorrências que envolveu a queda e o ostracismo de Simonal foram, essas sim, únicas - e não um complô ou reação organizada que teriam por objetivo eliminá-lo do panteão da MPB. A personalidade do cantor, ao lado das atitudes que tomou, foram típicas do cara errado que fez a coisa errada na hora errada - só isso. Uma conclusão simples, bem mais simples que todo o circo armado pelo livro. Mais complexo e interessante seria investigar o caldo cultural que resultou naquela simbiose única, incomparável, genial, que foi o furacão Wilson Simonal. Isso eu não encontrei na obra - e era só o que eu queria. Acho que Alonso pode ter futuro, por ter várias virtudes. Mas recomendo a ele, por ora, escrever menos e ler mais - inclusive as dicas do "Leitor Analógico" e os bons biógrafos. Ruy Castro é nosso e é fenomenal; lá fora, Simon Sebag Montefiore foi estupendo nas suas obras sobre Stalin: uma aula de pesquisa, texto e concisão. De toda forma, nosso papo resenhista continua aberto, é um prazer dialogar com quem lê.
    E, por fim: onde diabos você foi achar esse meu blog? Nada me surpreende mais do que dar de cara com um comentário por aqui...
    (Em tempo: fuçando os seus posts, vi que você resenhou o livro do Lobão. Cáspite! Se a gente já discordou nesse, temos esse outro pra discordar muito mais... link: http://eulieacheisso.blogspot.com.br/2011/08/50-anos-mil-por-lobao-com-claudio.html)
    Abração, saúde e... livros. Muitos livros.
    P.S.: Minha mulher diz que eu deveria rebatizar meu humilde blog de "Eu li e não gostei". Pode ser. Tenho pouca paciência.

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  3. Sidney, você já leu ''Eu não sou cachorro não'' do Paulo Cesar Araújo? Acho que não, pois, se tivesse lido, acrescentaria um adendo à sua crítica. O livro desse Gustavo é praticamente uma paráfrase - precária - do outro, sendo que, diferentemente de Cesar, peca por erros de português que, incrivelmente, passaram incólumes pelos 3 revisores, redundâncias, falta de encadeamento lógico e um show de prepotência. Gustavo - totalmente clichê, padrão ''militante-burguês'' de curso de humanas de universidade federal - escreve como se sua tese pudesse salvar o mundo, como se ele fosse toda a salvação da humanidade, última flor do lácio - ou último trakinas do pacote? Como você disse, escreve apoiado em reportagens da Veja que é uma revista altamente tendenciosa - se era para ser tendencioso, melhor seria usar o jornal meia-hora como argumento de autoridade! - e da Playboy (Oi?). Nada contra o uso de fontes tendenciosas, porém, se era para ser assim, que precisasse que essas fontes são modos de se ver e de se vender uma determinada realidade, mas usá-las como fonte ''do bom, do belo e da verdade'' é dose! Sem falar no festival de 'eu fui à', 'eu fiz isso', 'sei que', o livro era para ser sobre Simonal e não sobre Alonso, certo? Ou estou enganada? Além disso, cita erroneamente o termo 'happening', na primeira vez em que cita, o fato é um environment, na segunda é uma performance. Para quê gastar latim no ramo da arte se seu conhecimento é parco? Me perguntei isto. Aconselho que (não) leia a tese do mesmo autor sobre música sertaneja e ''resistência'' - de graça, na internet - é um show ainda maior de egocentrismo! Ah, e onde ficam as problematizações mesmo? Pelo menos li de graça.

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  4. Valentina, tinha até curiosidade sobre esse título do Araújo, mas, pelo que você insinuou, talvez seja também esse mais uma decepção. Vou reavaliar... Quanto ao "biógrafo" do grande Simona, sua definição dele como "aluno militante de humanas" me parece se encaixar bem no perfil ainda imaturo do autor. Tomara que ele prossiga no ofício e se aprimore. Por fim, fico feliz em saber que, com seu endosso, minha incisiva crítica ao livro de Alonso não é mais solitária - nesse raquítico universo da análise da produção literária no Brasil pouco se critica (a crítica brasileira, em geral, mais parece orelha de livro, pródiga em elogios). A franqueza dos seus comentários enriqueceu o assunto e o debate.

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  5. Prezado, publiquei uma resenha acerca deste debate, inclusive fiz uma referência a você. Está aqui http://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/4289619

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