"E foram todos para Paris", por Sérgio Augusto

domingo, maio 21, 2017 Sidney Puterman

O livro é escrito com carradas de erudição e elegância; mesmo assim, é superestimado. Verdade também que seus personagens marcaram época no imaginário mundial - os donos do imaginário, porém, já passaram desta para melhor. Em suma, o ótimo texto de Sérgio Augusto já teve seu momento, quando ainda era um suplemento jornalístico, nos anos 90, e a Paris que ele narra era um evocação dos loucos anos 20, longínqua década em que os nossos avós ainda não haviam sido apresentados um ao outro. O que cumpre destacar é que, se a devoção de Augusto e das gerações que ele representa ficou datada (ainda que fora de dúvida que a cidade que ele rememora seja irresistível),  isso não sepulta o livro - pois o autor recorre a uma pegada mercadológica instigante. Ao abrir a publicação vinculando-a ao aclamado filme de Woody Allen, "Meia-Noite em Paris", Augusto toma emprestada a fantasia da película e embarca na nostalgia que ela provoca. Desta forma, siamesas, as referências ao filme nos fazem ler o texto com outros olhos, pois não raro a matéria-prima de ambos é a mesma (Fitzgerald, Hemingway, Stein, Picasso etc). Não obstante, são, filme e livro, artigos diversos. Um é lúdico, o outro é informativo. O longa de Allen se alimenta do devaneio mágico de viajarmos no tempo. Já o livro, em si, é feito de verbetes, citações, causos e mapas. Elenca as regiões de Paris onde moraram e beberam celebridades que, com o passar do tempo,  se tornaram célebres desconhecidas - visto que a posteridade é exigente. Por outro lado (e esta é a parte boa) é inegável que ambos transbordam um charme déjà vu e nos encantam, a cinéfilos, leitores e todos que têm em Paris o mais mítico dos destinos. Mais ainda se nos vemos peregrinando pelo set de filmagem, ooops, de reportagem. Foi o que se deu comigo. Eu, casualmente, aluguei um quarto-e-sala na Rue de Lille, cenário que o livro reputa como ponto de convergência das figurinhas mais carimbadas da belle époque (atualmente, atesto, a região carece de glamour e seu maior trunfo é estar próxima aos principais museus da cidade, Louvre e Orsay entre eles). Ratifiquei serem a rua e seus arredores bem insossos logo após uma viagem à Normandia, quando me mudei para um prédiozinho torto e bicentenário na Place de la Contrescarpe, no Quartier Latin. A área é muito mais palpitante e, para minha surpresa, eu dormia a meros cem metros de onde foi rodada a cena pivô do filme de Woody Allen, na Place de l'Abbé-Basset (que, descobri agora, o Google Maps registra com a grafia errada). É ali que o protagonista, via de regra um alter-ego do diretor, viajava no tempo, ao embarcar no animado Ford Bigode que, em meio à névoa da noite, vinha subindo festiva e morosamente a Rue de la Montagne Sainte Geneviève. Das escadinhas da igreja, o ator Owen Wilson partia para mais uma madrugada memorável (e impossível, para nós, reles turistas de carne e osso). De todo modo, assim se deu que eu me tornei vizinho da escadaria cult - e não só, ainda estava instalado ao lado do antigo endereço de um dos personagens mais citados por Sérgio Augusto, o sanguíneo escritor Ernest Hemingway (hoje sua casa abriga o restaurante La Maison de Verlaine). Em resumo, o filme é agradável, o livro é episódico e, bem, apesar de tolo, tirar onda lendo o livro ali na escadinha foi divertido. Nada a reclamar.

Casa da Palavra, 126 páginas

Sidney Puterman

Some say he’s half man half fish, others say he’s more of a seventy/thirty split. Either way he’s a fishy bastard.

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